sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma pausa para falar de trabalho

A história do Dia do Trabalho ou do Trabalhador parece ser legítima. Tudo nasceu no século XIX para pedir a redução da carga horária que variava entre 14 e 12 horas para 8 horas diárias.
Mas, os governos populistas acabaram por apropriar-se da efeméride para fazer média com os trabalhadores, obter deles maior engajamento na produção, diga-se geração de riqueza, geração de impostos. Mas, não é só. O mundo beneficiado pelo trabalho também sabe obter dos trabalhadores apoio político, legitimidade, voto, diga-se poder.
Talvez com muita ingenuidade, a maioria dos sindicatos de trabalhadores embarca nas manobras patronais destinadas a cooptar os trabalhadores nesta efeméride ao redor do mundo.
Não se trata aqui de condenar o patrão e tecer loas ao empregado. O problema não é esse. O problema é a cultura alastrada inclusive nas universidades e um pouco também em escolas de nível médio de apologia ao emprego. Emprego com carteira assinada, direitos trabalhistas, férias, salários. Pouco se fala em produtividade e quando nela se fala não é para oferecer ao trabalhador participação na rentabilidade advinda da otimização do tempo, dos processos, dos negócios.
Houve tempo em que, principalmente nas cidades turísticas, o comércio não abria aos sábados, domingos e feriados. Os museus ainda não abrem em muitas delas. O comércio resolveu o impasse oferecendo participação aos empregados. Os museus públicos são operados por servidores públicos e estes não querem trabalhar além do que já está convencionado.
O futuro das relações trabalhador-empregador será de participação nas rendas, quiçá, mesmo, no futebol, que também já virou empresa. Os ganhos dos trabalhadores estarão diretamente ligados à satisfação dos clientes. E assim o mundo começará a deixar de ser capitalista, bem entendido, naquilo que o capital tem de agressivo em relação aos fatores trabalho e recursos naturais.
Trabalhar é preciso. Não se conhece nenhum componente da natureza que não trabalhe. Neste instante, o rio está trabalhando para que haja água na represa da hidrelétrica que gera a energia que aciona seu computador. Mesmo que você esteja sentado, sonolento, preguiçoso, achando que isso é ócio, seu coração, seus rins, seu fígado, estômago, intestinos, etc. estão trabalhando para que seu corpo não entre em colapso. O ar que você está respirando tem a ver com o trabalho da árvore que está mais próxima de você.
Dentre as 10 Leis Naturais distinguidas por Allan Kardec no Livro dos Espíritos, uma delas é a Lei do Trabalho.
Então este 1º de maio, nos países que assinaram o protocolo da OIT pela adoção da data, não pode e não deve voltar-se exclusivamente para operários sisudos, de esquerda, ativistas, e nem só obter a participação de empregadores aduladores, prosélitos, demagógicos, a data pode erguer um hino de louvor a tudo que trabalha.
Precisaria, do mesmo modo, arranjar outro substantivo para nomear a ação de operar processos já que a palavrinha “trabalho” vem sendo super utilizada para designar dificuldade, amarração, desentendimento, resistência, discordância e muito mais coisas. Work e labor ainda que pouco usadas, têm, pelo menos, a graça de designarem aquilo que a gente faz com uma medida de energia transferida pela aplicação de uma força ao longo de um deslocamento. Trabalhar não é só produzir, é pensar, criar, cultivar, vigiar, consertar, falar, ouvir, escrever, etc. etc..
Se por acaso já passou pela sua cabeça “nada fazer”, lembre-se que tudo aquilo que pára apodrece, gangrena, putrefa. Então, faça tudo para colocar em movimento tudo quanto dependa de você. A vida é movimento. Trabalho é vida.

Androginia, o amor sonhado a dois

A psicologia de Jung é impecável quando trata das diferenciações entre homem e mulher. Trás o assunto com desenvoltura e apresenta uma visão revolucionária da condição psíquica do homem e da mulher dentro da tradicional forma de sua abordagem por arquétipos. Ele toma os dois grandes princípios, de (Logos) Mater Coelestis e de (Eros) Phallos que, pelo entendimento pacífico da Psicologia, agem sobre os princípios espirituais e indiretamente sobre os princípios sexuais da psique masculina e feminina, respectivamente, e dá um show de conhecimento. Afirma que Logos rege o espiritual no homem e o sexual na mulher, enquanto Eros rege o espiritual na mulher e o sexual no homem, erguendo o véu de que ambos os sexos têm um princípio orientado por Logos e outro por Eros, indicando, assim, que existe uma dualidade em cada sexo.
Vamos examinar agora as implicações psicológicas práticas desses arranjos, segundo Jung. A mentalidade masculina sofre atuação direta da Mater Coelestis, feminina, a Deusa-Logos; o princípio de Phallos, o Deus-Eros, tende a agir sobre a psique masculina a partir do nível inconsciente. No curso da formação de seu ego, o homem identifica-se com a mente, com a lei e a ordem, com a individualidade extrovertida consciente; em resumo, com as simbolizações e manifestações do Logos. Consequentemente, o elemento Eros – fertilidade, sexualidade, romance, mistério - todas as diversas facetas do Phallos subterrâneo recuam para o Hades do inconsciente masculino. O deus fálico, por ser inconsciente, é percebido pelo homem somente através de projeção. Assim, o homem projeta seu lado obscuro, erótico, sobre a mulher, a quem então teme e ao mesmo tempo deseja, precisamente por temer e desejar seu próprio Eros inconsciente. Aqui reside a verdadeira razão para a distorcida visão há muito sustentada, segundo a qual, as mulheres são perigosas sedutoras que desencaminham os homens, criaturas cheias de uma sexualidade misteriosa e ameaçadora, ao mesmo tempo intimidadoras e atraentes à psique masculina.
A mulher, como feiticeira, tentadora, Eva – a cúmplice voluntária da serpente maléfica da história da Gênese -; estas outras figuras similares revelam-se todas como projeções do Eros inconsciente da psique masculina.
Ao descrever a condição da psique feminina, Jung afirma que a espiritualidade da mulher é mais terrestre, porque se move na direção do menor. Pode-se depreender daí que a psique consciente da mulher, por voltar-se exteriormente para o mundo, ou orientar-se para a diferenciação, pode relacionar-se livremente com inúmeras tarefas extrovertidas, porém normalmente sem atribuir-lhes significado consciente. Assim, a psique feminina funciona frequentemente na base da famosa “intuição feminina”, ou seja, ela faz as coisas certas, embora sem saber por quê.
Pode-se dizer, então, que a psique masculina tende a captar sentido exterior ou consciente mais prontamente do que a feminina; esta sente menos necessidade da lógica concreta e da racionalização consciente exigida pelo homem com tanta freqüência, não apenas devido às pressões sociais, mas devido à sua falta de desenvolvimento intuitivo. A ausência de um senso intuitivo natural leva os homens a recorrer constantemente às funções analíticas da razão, ao passo que as mulheres em geral obtém resultados práticos excelentes na vida exclusivamente por meio da inclinação intuitiva. É no domínio de Eros, incluindo a sexualidade, que o senso de sentido da psique feminina manifesta-se. É a isso que Jung se refere ao chamar a sexualidade da mulher de mais celestial do que a do homem; “céu” denotando mais uma vez a Mater Coelestis, o Deus-Logos. Pode-se dizer, com leve exagero, que a sexualidade feminina tem os olhos abertos para o significado, enquanto a masculina é cega.
Mas, a cartada ainda mais extraordinária de Jung se dá no encontro dos dois sexos, não como adversários, não como oponentes, pois esta não é a razão pela qual os dois sexos existem. Ele fala de uma androginia, definida como soma capaz de fazer dos dois um e cria uma escala ascendente para definir quatro estágios evolutivos das uniões ou conexões. O primeiro, e rudimentar, é o estado auto-erótico e narcisista no qual a libido é essencialmente auto gratificante e não produtiva para a dupla. Resulta da íntima identificação do ego com o inconsciente. O segundo, e já um pouco evoluído, coloca a força da emoção e a personalização do objeto amoroso em jogo. Trata-se da sexualidade ligada com a emoção e vinculada a uma admiração forte pelo parceiro. O terceiro reserva uma intensificação em termos de projeção, o chamado amor romântico sustentado por valores. O quarto estágio a caminho da androginia definida por Jung, é o casamento místico, em geral conhecido sob o nome clássico de hieros gamos – com a conotação de união sagrada.
Sua plena realização se dá com a transformação dos parceiros em andróginos espirituais, na qual os opostos são unidos pela alquimia do amor e como o Evangelho de Tomé descreve: “o macho e a fêmea tornaram-se um só”, sem derrapar para a visão politizada e mal concebida de uma sociedade unissexual.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A mística da regeneração (conclusão)

Aos estudiosos deste caduceu filosófico ficou faltando uma explicação para que a narrativa não se torne transversa. Como já deu para perceber a serpente é descrita como feminina, embora mensageira do Phallus subterrâneo, enquanto o pássaro é masculino, apesar de proceder da mãe celestial, a Mater Coelestis. A explicação é simples: há um pouco de feminino e masculino em cada uma das metades, como demonstramos no artigo que descreveu a pomba, para simbolizar, figuradamente, o Logos (divino) e uma serpente para simbolizar, figuradamente, o Eros (diabólico), quando o primeiro foi apresentado como DESEJO-PENSAMENTO, e o segundo como PENSAMENTO DESEJO.
Nesta mística da regeneração, que é, também, a integralidade espiritual, como ensina Ken Wilber (o novo Pitágoras a fazer a ponte entre todos os padrões de conhecimentos sagrados já existentes), os opostos polares agem de duas formas: ou se fundem para produzir algo novo, como no caso dos íons que, atraídos um pelo outro por suas cargas elétricas opostas, formam uma molécula; ou então, devido ao campo de força entre eles, os opostos são capazes de criar algo novo nesse campo.
Para conforto de nós, caminhantes das estradas siderais e esperançosos de que o planeta acelere sua transformação da fase de provas e expiações para a fase de regeneração, há que acreditar nas famosas profecias do calabrês medieval, abade Joaquino da Fiore, que predisse o advento da Idade do Espírito Santo como sucessora da Idade do Filho, tal como esta sucedeu a Idade do Pai.
O homem sempre renasce; ele é o que sempre vem; o filho sagrado do útero mágico do tempo. Nós, células espirituais no corpo desse Grande Homem, estamos sempre em transformação, sem nunca nos transformarmos totalmente; estamos em perpétuo processo de aperfeiçoamento, sem nunca atingirmos a perfeição. Não cabe a nós conhecer os desígnios da consumação do tempo. Não há porto de chegada. Uma hipotética chegada sempre será uma nova partida. Somos caminhantes eternos das estradas siderais. Cabe-nos vigiar e esperar, trabalhar e ter esperança, fortalecidos pela sabedoria e guiados pela bondade. Pois, não nos foi dito em tempos passados, presentes e futuros, que sejamos sábios como as serpentes e mansos como as pombas?Creia, é isso que seremos. Não é uma questão de ser ou não ser e sim de tempo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A mística da regeneração (III)

Miguel Serrano, escritor chileno, que foi diplomata na Índia, voltou de sua missão com um esplêndido relato poético sobre o mundo espiritual hindu ligado à serpente que tanto prejuízo tem trazido ao pensamento religioso ocidental. Teve, Serrano, a capacidade de desatar para si mesmo e para os seus leitores muitos dos nós pacientemente urdidos por sua ibérica cultura católica. Serrano descreve a serpente enrolada na Árvore do Paraíso – a mesma que cedeu seus frutos para que os olhos de Eva pudessem ver o futuro da humanidade – e, ao descrevê-la, a vê erguer-se das regiões obscuras e sensíveis do homem, onde está o aparelho sexual humano, a subir pelo tronco da Árvore do Paraíso na direção do torso superior em busca do calor e da luz. Sua pele pálida e fria é aquecida pelo sol, contrariando as profundezas secretas onde ela desfrutava de uma espécie de poder elementar e de prazer. Mas, ao encontrar-se com a energia do sol dá-se o conflito de luz e treva, pois a força da serpente é, a um tempo só, líquida e gelada; ela envenena e deifica. Seus olhos, embora fechados, emanam uma alegria indescritível e há uma sombra de sorriso em seus lábios, pois seu é o privilégio de descer às raízes escuras do prazer e conseguir retornar para uma união espiritual. No topo da Árvore do Paraíso ela encontra alguém a quem esperara por um longo tempo e a alegria desse encontro faz com que lágrimas escorram pela sua face. Os frutos formados por essas lágrimas são ao mesmo tempo líquidos e semelhantes ao gelo, de modo que, ao caírem, produzem um som como o repicar de sinos.
Todos quantos tenham experimentado o êxtase espiritual de uma efetiva conexão sagrada, devem estar maravilhados com a palavras de Serrano e procurando explicar como pode uma descrição simples interpretar um hiato de tamanha profundidade psicológica. As lágrimas são, de fato, inevitáveis, e os cristais repicando sinos é o fenômeno só recentemente identificado no interior da glândula Pineal, aquela que faz as nossas ligações com o mundo transcendente, ou se preferirem, o mundo da mediunidade humana.
Vê-se assim, prezado caminhante das estradas siderais, que a serpente associada ao Phallus e tida como uma poderosa aliada do mal, reduzida e mortificada, deve, na verdade, ser convidada a erguer-se do inferno para libertar o espírito num abraço transcendental. Os cultores desse bárbaro equívoco perpetrado contra o desenvolvimento desta parte da humanidade, nunca disseram por que a carne deve ser condenada para que o espírito vença e nunca conseguiram explicar por que o espírito visita a carne se, no seu entender, ela só serve para a perversão. Vindo da cultura hebraica, onde tudo apontava para a dominação do homem e para a submissão da mulher, também é possível aludir o mesmo desvio anulatório desta vibrante metade da vida.
Desconstruir isso para transcender o entendimento de que é a soma das duas metades que liberta, é uma tarefa gigantesca. Se, por um lado a serpente encarna o inferior ou feminino dos elementos, isto é, a terra e a água, por outro, a pomba ou pássaro branco expressa o elemento do ar, através do qual ela voa, e do fogo solar, que ilumina os céus de onde ela desce. Enquanto a serpente simboliza o instinto, a sexualidade, a procriação, o ímpeto da vontade e a luz oculta na natureza, o pássaro representa o pensamento, o espírito, a transcendência e a luz flamejante. Dentro do processo de individuação torna-se imperativo para as pessoas gerar-se a si mesmas como seres regenerados e novos. É óbvio que o ato físico de nosso nascimento constitui o grande símbolo deste despertar no mundo da ponta debaixo da coluna vertebral, onde está Kundalini/Phallus. E é óbvio que o ato físico de nossa morte constitui o grande símbolo do despertar no mundo da ponta de cima da coluna vertebral, onde está a Coroa/Logos. Kundalini/Phallus tem capacidade para gerar filhos materiais. Coroa/Logos tem capacidade para gerar filhos espirituais. A caminhada do filho material na direção de se transformar em filho espiritual, é o que chamamos aqui de regeneração, nascer de novo. Imaginemos a energia telúrica a impulsionar e a gerar vontade, tal como a árvore que se vale das raízes para acelerar-se em busca da luz superior: a porção humana sem ela não se torna evolutiva e, portanto, estagna, implode e vai buscar consolo para a sua não transcendência em vários tipos de drogas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A mística da regeneração (II)

A mística velada da regeneração e só acessível aos iniciados, isto é, aos candidatos à libertação, à emancipação, à autonomia (proposta deste blog e razão de ser de seu nome - Maioridade Espiritual), só deixa de ser velada quando nós adquirimos capacidade de retirar o véu que atrapalha vê-la. Este véu se chama modelo mental.
Viemos de séculos de aprendizado sem contestação (até porque contestar significava perder a dignidade) de que a serpente tentou Eva, Eva provou a maçã e a maçã abriu-lhe os olhos da sabedoria. Então Eva tentou Adão e os dois passaram a esconder a genitália – numa ilação de que havia descoberto o sexo e esta era uma parte do pecado. Mas, estavam encarregados de povoar a Terra gerando muitos filhos.
Sem nada lógico e com tudo incoerente, nos disseram que por causa desses fatos eles foram expulsos do paraíso e que por isso toda a humanidade gerada por eles havia cometido o pecado original.
Há, não se pode negar, uma inversão de papéis entre a serpente oriental e a serpente judaica. Se quisermos tomá-la por conselheira sábia e sagrada, mensageira da manifestação da Sabedoria divina, a Mãe Sofia, ela pode surgir como benfeitora empenhada em resgatar o primeiro par humano da servidão na qual o criador o mantinha enquanto incompetente para pensar.
Daí teríamos alguma coerência: ao emancipar-se o filho, o pai lhe diz “agora é tudo contigo; vai e mostra de quanto és capaz”.
Ademais, a palavra harmatia, que se traduz por pecado, quer dizer “errar a mira” (no exercício do arco e flecha), ou se preferirmos, pode significar perder o rumo, ou quem sabe procurar o rumo – se quisermos trazer para o debate a questão do livre arbítrio, novamente coerente com o despertar da inteligência no casal oriundo do Éden.
Do mesmo modo, só para enriquecer o argumento, o conceito de inferno traduzido por esta mesma secular tradição religiosa pode ser questionado, e como pode, como coisa boa, já que o mesmo bondoso criador é o responsável por sua existência. Podemos ver aí, quem sabe, o lobo mau mostrando os dentes ameaçadores “sugerindo” que fiquemos longe dele e, com medo da mordida, quem sabe a gente se esforça mais na direção do outro lobo.
É assim, leitor, de forma muito primária, que os anteparos vão sendo retirados e a revelação vai tomando forma.
Também envolvendo uma serpente ou um dragão-serpente, iremos encontrar a figura do Ouroboros, oriental, em que a serpente ou dragão morde a sua própria cauda, significando o ciclo da evolução voltando-se sobre si mesmo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em consequência, eterno retorno.
Se modificado para os judaico-cristãos o paradigma da serpente-simbolo do demônio, da sexualidade, do pecado, da luxúria, da tentação e admitido o significado a ela reservado pela kundalini, ela troca de papel e emerge do silêncio escuro como força impulsionadora que rompe barreiras a procura do outro extremo elevado e iluminado (coronário) onde se anula e se compõe como uma soma criadora.
Mas, ainda não é tudo. Tem mais...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A mística da regeneração (I)

Antes de prosseguir, um alerta: a leitura fluente destes textos é de melhor compreensão se você vier dos textos mais antigos para os mais novos e não no sentido contrário ou aleatório. A proposta é ganharmos espaços de consciência sob a forma de expansão.
Agora libere sua capacidade de absorção de conhecimentos comparados. De uma maneira um tanto sutil para que os novos conteúdos se tornem menos contundentes, viemos transmitindo a você as figuras do Bem associadas a Deus, à força Yang, pomba branca, chakra coronário e viemos associando as figuras do mal ao diabo, à força Yin, à serpente, ao chakra sede do kundalini.
Você leu: conhecimento sagrado, luzes, aquisição de valores, em contraposição com o reino das trevas, ignorância, perda de valores. E agora já consegue associar a espantosa similitude que existe entre o que se tornou sagrado para os cristãos, com o que se tornou sagrado para os budistas, hinduístas e até mesmo para os islâmicos. As divergências não estão na raiz da questão, mas no modo de interpretar.
No curso da formação de seu ego, o homem ocidental identifica-se com a mente, com a lei e a ordem, o Logos, a pomba, com a individualidade extrovertida consciente. Aqui está o Deus judaico ensinado por Moisés.
No Oriente, grande parte dos homens constrói seu ego com as simbolizações e manifestações do elemento Eros – fertilidade, sexualidade, romance, mistério. Aqui estão os deuses Shiva e Krishna com todas as diversas facetas da serpente subterrânea inconsciente.
Cada um desses povos terá o seu tempo para fazer a união, a composição, a colagem das duas metades existentes tanto no ser Ocidental como no ser Oriental. Aqui nasce o termo latim religare, aplicado à religião, com um problema: a igreja não religa, incentiva a separação.
O fator fertilidade, sexualidade acabaram associados ao pecado e o despertar da kundalini, elevado a uma catástrofe diabólica.
Que pena! Todo o incentivo dado pela igreja à natalidade, a ponto de ela se opor à camisinha, à pílula e outros métodos contraceptivos, repito todo o incentivo à geração de filhos, se dá no reino da kundalini. E no entanto, esses filhos não nascem diabinhos. Logo, kundalini gera seres humanos (que são divinos) e a força kundalini nada tem de diabólica, pois ela se dirige para o alto e quer ir ao encontro do chakra rei para com ele se unir e compor-se.
Outro argumento básico: a serpente é tida como sabedoria por inúmeras culturas, a ponto de aparecer no caduceu, com direito a ter asas, veja, então, já, se compondo com a pomba, e de ter se transformado em símbolo de algumas profissões, como a medicina.
Concretamente, há uma mística velada e só acessível aos candidatos a iniciados, quer dizer candidatos à libertação, emancipação, autonomia, aqueles que já podem ir dispensando a “mão do pai” para atravessar a rua.
Mas, ainda não podemos nos dar por satisfeitos. Vêm mais coisas por aí...

domingo, 25 de abril de 2010

Os gnósticos sabiam disso (conclusão)

Como é bom, como é agradável escrever para uma plêiade de leitores que compreendem e vibram com o que lêem. Presunçoso?
Interessa, agora, marcar uma posição clara: a estrutura do ser humano deste planeta, tanto no nível cósmico-coletivo quanto no humano-individual de sua expressão, compõe-se de uma cadeia infinita de opostos polares. É Jung que ensina. A peleja é necessária. A escuridão requer a luz. A luz se justifica pela escuridão.
O problema está em que o intelecto filosófico atuante deseja submeter esses opostos à análise racional e, desse modo, extrair sentido dos padrões em que se organiza o relacionamento entre eles. Tem sido a tragédia da cultura ocidental nunca poder satisfazer esse desejo persistente da filosofia de forma total e definitiva. Por mais de dois milênios a pesquisa filosófica busca o significado da vida sem criar o que se poderia considerar como diretrizes permanentes para sua descoberta. Como alguém que não sabe para onde vai, fica dando voltas sem chegar a nenhum lugar e anda sempre mais para o fundo do túnel.
Toda a questão está nos limites da psique. Para muitos, tudo pode ser respondido pela ciência biológica, física ou matemática. Então...
A inexistência de significado constitui a principal causa de distúrbios psicológicos que, com muito maior freqüência do que os traumas de infância ou os complexos infantis, levam o indivíduo aos tormentos da neurose.
Jung esclarece que uma psiconeurose deve ser entendida, em última instância, como a angústia de uma alma atormentada pela busca de sentido. Quase tudo dos nossos descaminhos pode ser explicado deste modo. E assim vamos, meio perdidos, meio achados, buscando não se sabe o quê, não se sabe onde. Em termos práticos, pode-se dizer que isto implica que o significado da vida não se presta a ser descoberto ou calculado, e sim vivido, mas nem para vivê-lo nós temos sido competentes. Mediante a ausência dos significados sagrados por repressão da dimensão espiritual, caímos na vala dos carentes, dos mendigos de significados, criaturas caóticas e indefesas, sem forças para viver a vida com a intensidade necessária ao seu pleno gozo, não o gozo dos prazeres da mesa, do sexo ou dos alucinógenos, que acabam substituindo o outro gozo.
Um dos lobos engordou e os líderes da humanidade ainda não são capazes de despertar o outro lobo para que peleje em busca do que lhe cabe.
A tragédia do indivíduo chega à família e gera os distúrbios que a escola não recompõe, que a polícia não absorve e que a penitenciária não resolve, não sem antes passar pela oficina (mercado) e pelo hospital.
Escola, oficina, hospital e penitenciária já não têm a função que devem ter porque o templo faliu e com ele empobreceu a alma humana. E almas pobres não freqüentam a escola, não gostam de trabalhar, não buscam sua cura e não têm capacidade de se transformar. Transformar para que se a vida não tem sentido?
Então...
Já não é mais o “então” impotente de uns parágrafos atrás porque eu e você, muitos de nós, diagnosticamos o crescimento do Mal e sabemos que o lobo bom não vai morrer. O combate não vai acabar. O que podemos fazer?
A resposta é exclusivamente sua.
Mas, se preferir caminhar ao meu lado, continue acessando.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os gnósticos sabiam disso (I)

Prezado leitor, quando você lê “gnósticos”, por respeito à sua intelectualidade vejo-me na obrigação de esclarecer: por falta de outro termo consolidado pela literatura, aqui é usado para referir-se a “detentores do conhecimento sagrado”, da mesma forma como poderiam ser chamados de "iluminados" ou "iniciados", bem entendido, iniciados nas ciências sagradas.
Quando se examina o Evangelho de Felipe – preciosidade encontrada no Egito, em 1945, na chamada Biblioteca de Nag Hammadi, escrito em torno do século III e, portanto, quase que ao mesmo tempo do nascimento da Igreja de Roma – tem-se a quase certeza de que Jesus pregava por parábolas ao grande povo iletrado e reservava preciosos ensinamentos aos seus diletos apóstolos. O fazia em caráter restrito. Isso está claro neste mesmo citado documento de Felipe, que não é o mesmo Felipe da equipe dos 12 e essa quase certeza está clara também no outro documento da mesma citada biblioteca, o Evangelho de Tomé, este sim, da equipe dos 12, aquele que teria apalpado as chagas de Jesus para certificar-se do que ali estava exposto. Outra fonte importante a revelar esta pregação em separado para os membros da equipe íntima está no Evangelho de Madalena, também desta mesma descoberta de Nag Hammadi.
Nestes documentos ficam claras as simbologias do Bem e do Mal como opostos, coisa que estamos explorando quase que exaustivamente neste blog, mas que precisa ser esclarecida, uma vez que buscamos superar esta fase do discernimento para poder evoluir. “Nem o bom é bom, nem o mau e mau, nem a vida é vida, nem a morte é morte”, afirma Felipe, “pois todos esses opostos são irmãos uns dos outros e cada qual será convertido à condição original em momento futuro”.
No processo interminável de combinações e recombinações dos opostos, nenhum estado permanente de liberdade e estabilidade espiritual existe, segundo as mais modernas doutrinas. A eternidade consiste em superar esta fase. Os mistérios dos opostos é claramente um assunto para o intelecto humano. Pode-se dizer que não consiste um problema a ser solucionado, não é esta a questão, consiste numa condição a ser superada.
Mas, a superação implica na quebra do paradigma judaico-cristão-islâmico. Empenha-se pela reconciliação dos opostos. Expressa um significado transformador que, no final das contas, valoriza a qualidade da consciência.
O que fazer?
A humanidade deu passos de gigante em alguns momentos; estacionou em outros. Nossos líderes têm nos levado a entendimentos complicados, a posições radicais, a construções temerárias e o retorno ao ponto de equilíbrio é a meta.
O que seria compreensivelmente natural nos estágios dos opostos, pelos quais as sociedades podem e devem passar, vira combate. Um exemplo com menos de um século de amostra: o surgimento das sociedades comunistas e socialistas, que se inscrevem como uma clara erupção da comunidade de Eros – a tentativa da “mãe” super proteger seus “filhos” desamparados pela corrente libertária e individualista das democracias da comunidade Logos – é visto como guerra fria e o planeta é quase levado a uma “guerra nas estrelas”, cada lado querendo derrubar o outro lado.
E não terminou com a queda do Muro de Berlim.
Fidel Castro, Lula, Evo Morales e Hugo Chávez são as “mães” sul-americanas transvestidas de protetoras, enquanto milhares de membros da comunidade Logos transvestem-se de “pais” em pé de guerra no lado oposto.
Prosseguiremos no próximo artigo.

Ainda as dualidades

Os leitores já perceberam que “Maioridade Espiritual” (nome deste blog) tem por proposta emancipar, gerar autonomia, libertar, o que, por conseqüência, propõe transformações, movimento ascendente, evolução, vale dizer eleger o novo como prioridade. E quando se fala em prioridade significa falar colocar em pauta o que vai ser feito e tirar de pauta o que não vai ser feito. Priorizar o novo não significa sepultar o velho. O novo nascerá do velho e se tornará velho para que outro novo possa surgir.
Por mais que você, por vezes, ache utopia, eu reafirmo, a vida é utopia.
Mas, se não focarmos nessa utopia, o sonho de viver vira pesadelo.
Em artigo anterior abordamos a dualidade do bem e do mal, trazida até os cristãos sob o mito de Deus e do diabo. Essa mesma filosofia está em antigos escritos sagrados porque também estava no pensamento mitológico, estava na proposta de Zoroastro e chegou aos escritos romanos sob a égide do cristianismo (romano) e colocou isso como o mito do combate. Ou o mal derrota o bem, e isso é o caos; ou o bem derrota o mal, e isso é a harmonia.
Chegamos a ver isso no evangelho de Lucas (10;18) em que o próprio Jesus anuncia Satanás caindo dos céus como um raio.
Toda a cultura ocidental cristã e oriental muçulmana se orienta por este paradigma. O judeu precisa morrer para que o árabe viva e vice-versa.
Mas, isso só está na cosmogonia judaico-cristã-muçulmana e não se aplica apenas no terreno das relações opostas entre nações e interesses coletivos ou individuais. Passou a valer, e como, para o indivíduo diante da vida.
Equívoco puro. A harmonia não é a queda do mal e nem a vitória do bem, é o equilíbrio entre os dois na geração do terceiro evento.
Nunca será, pois, a derrota final de um dos pólos e sim a combinação de seus poderes que criará o passo seguinte.
Já tentamos transmitir essa idéia do Yin-Yang em que a força negativa e a força positiva se unem para criar uma terceira dimensão.
Jung, cuja cátedra nós gostamos de usar por sua clareza e espiritualidade, coloca essas duas forças, entre outras correlações, como sexualidade e espiritualidade. Ele toma os dois grandes princípios, de (Logos) Mater Coelestis e de (Eros) Phallos que, pelo entendimento pacífico da Psicologia, agem sobre os princípios espirituais e indiretamente sobre os princípios sexuais da psique masculina e feminina, respectivamente, e dá um show de conhecimento.
Iremos abordar Jung mais estendidamente em breve.
Nestas colocações de Jung, também sob parábolas, como fazia Jesus, ele busca uma pomba para simbolizar, figuradamente, o Logos (divino) e uma serpente para simbolizar, figuradamente, o Eros (diabólico) e afirma ser o primeiro DESEJO-PENSAMENTO, e o segundo, PENSAMENTO DESEJO.
Fica muito fácil entender esta descrição enigmática como indicativa de que a serpente da sexualidade (que nós podemos relacioná-la também com o chakra fundamental – kundalini) tem seu princípio básico de motivação no desejo e de que os pensamentos decorrentes sempre se fixam no desejo. Se educado ou não o desejo, é ele que determinará o comportamento do indivíduo. Já o pássaro branco da espiritualidade (que também apareceu no batizado de Jesus e que podemos relacioná-la com o chakra coronário, no outro extremo do corpo humano), simboliza o pensamento abstrato e a expressão do desejo continua arraigado no pensamento. Se educado ou não o pensamento, é ele que determinará o comportamento do indivíduo.
A serpente representa o pensamento do desejo, ao passo que a pomba configura o desejo do pensamento. E comparando com o Yin-Yang, Jung usa a expressão enantiodromia, com a qual ele adverte para o que chama de semilatência da força oposta, isto é, ela pode emergir exatamente porque a força oposta se agigantou.
Não se trata, pois, de derrotar, mas de combinar. Macho e fêmea, luz e treva, Eros e Logos, se combinam eternamente em vários níveis de sua inter-relação, em séries infinitas de polaridades alternadas que levam todos os julgamentos e determinações, bem-definidos, a nada, a zero. Estará vencida esta etapa de qualquer ciclo. Outro ciclo estará começando. Estará começando o novo estágio para as duas forças opostas que se tornam uma só.
No processo interminável de combinações e recombinações dos opostos, nenhum estado permanente de liberdade e estabilidade espiritual existe. Nenhum de nós estará permanentemente curado. Os Estados Unidos não podem desejar derrotar o Irã, mas combinar-se com ele e fazerem juntos um novo e melhor momento entre os dois.
Percebeu? Você jamais conseguirá matar um dos lobos. Quanto mais forte um deles se tornar maior será a exigência para que ele se supere. Esta é a Lei. Quanto mais evoluído você se torne, maior será a exigência para que você se supere. Jesus também ensinou que mais será pedido àquele que mais receber.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O conceito dual da paternidade de Deus

A parte da humanidade que aprendeu chamar Deus de Pai foi longe demais e inventou para o pai imagem e semelhança física, desenhou na imaginação um rei barbudo, poderoso, por vezes irado, sempre a olhar para seus filhos em busca de acompanhar o comportamento destes. Uma parcela desta sociedade judaico-cristã-islâmica levou muito a sério a vontade de Deus, anulou-se em sua própria vontade, ficou esperando que o pai provesse as suas vidas e ficou, por assim dizer, no Éden, à espera do maná caído dos céus. Outra parcela julgou-se não alcançada pelo olho do pai e cuidou de perverter o que seria uma ordem emanada do pai. “Não há fiscalização, então deixa pra mim”. A mais exponencial confirmação dessa índole se vê quando um caminhão carregado de mercadorias é acidentado e chegam os saqueadores. Enfim, uma terceira parcela subdividida em diferentes porções buscou muitas opções, com um objetivo comum: descobrir se a verdade era mesmo aquela da Gênese e se o Pai era mesmo um pai e como seria o comportamento do pai em relação aos seus filhos. Essa busca já leva milênios e continua...
No interior desta numerosa humanidade digamos não oriental, que conheceu o Deus hebreu e estruturou sua fé a partir de Abraão/Ibrahim iremos encontrar algumas centenas de religiões, seitas e crenças, quase todas com as mesmas e imensas dificuldades de entender Deus.
Para não perder a oportunidade de resgatar um dado importante, anotemos que o Deus hebreu não é genuinamente hebreu, pois os hebreus colidiram com outras culturas na Mesopotâmia, no Egito, na Grécia e não deixaram de incorporar traços daquilo que conheceram. E mais, a maior parcela dessa população, posteriormente chamada de cristã – ainda que seccionada em dezenas de facções – também não é genuinamente cristã, pois incorporou tradições e conteúdos herdados de outras culturas, inclusive pagãs.
Assim como a Renascença enterrou o período medieval em torno do século XIV, os séculos XVII a XX representaram um renascimento do saber sagrado, sepultado há séculos. Nada novo. O conhecimento sagrado palmilha processos expansivos e nada do que se renova invalida o que havia, pelo contrário, avança e ilumina, por vezes pára.
O conceito mais moderno de Deus O define como um poder planejador, legislador, ordenador, concedente que, na questão humana, ao que se depreende, entrega-nos ao nosso livre arbítrio conduzir-nos dentro dos parâmetros de suas leis, cabendo aos homens fazerem a escolha na variabilidade entre as duas pontas do espectro: as descobertas e práticas na direção do ideal projetado e as descobertas e práticas na direção contrária do projetado. A isso as religiões ocidentais chamam de Deus e diabo, na verdade, luzes e trevas.
Precisaríamos de uma extensa argumentação se quiséssemos explicar de forma detalhada estes conceitos, mas o aprendizado imediato que se tira disso é que não existe para o homem inteligente a figura do pai que o carregue pela mão, do conselheiro sim. A estrutura dá ao homem a oportunidade de melhorar sua condução evolutiva, mas nunca daquela forma equivocada e paternalista de ser carregado pela mão. Esse é o estágio da criança. O adolescente já não aceita isso. O adulto quer mais.
Quem sabe os anjos guardiões e os espíritos protetores sejam figuras de apoio, sugestão, aconselhamento, mas possivelmente sem nenhum poder de mudar o curso dos acontecimentos. Os acontecimentos são, sempre, de nossa escolha ou acontecem por conseqüência de nossa omissão.
Educar-se para viver na direção do ideal previsto pelo planejador, legislador, ordenador, concedente da vida, não é não fazer nada, é fazer tudo, se possível, na direção planejada. Andar na direção planejada é sabedoria pura. Podemos voltar a este assunto?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A crise do homem

A discussão não acabou. Na verdade, ela nem começou. Ainda estamos lá na Palestina do primeiro século procurando saber se Jesus era um impostor, um blasfemo, um insurreto, um Deus. Ponto crucial: que grande diferença existe entre aqueles que o condenaram e os homens do nosso tempo?
Ao tempo de Jesus quase todos os homens apenas sabiam que a vida é o lado bárbaro, escuro, triste, da discórdia, da dominação, das disparidades. Esse “impostor”, “blasfemo”, “insurreto” e ainda por cima cabeludo (os costumes eram outros) vem dizer que existe luz, esperança, amor...
Trocando um pouquinho o foco: é a sociedade o coroamento, a soma dos seus indivíduos ou o indivíduo é produto de sua sociedade?
Quem sabe a resposta possa ser encontrada quando tivermos bem clara essa realidade. E se assim for, leia mais o seguinte:
Trazemos uma cultura moral de tempos imemoriais em que a sociedade governada por um benigno pai imperial e guiada por um prelado bondoso, divinamente inspirado, a jusante de rígidas leis e mandamentos, era o sonho de qualquer civilização a Civita Dei. Claro, os palestinos do século I não podiam chamar benignos os governantes romanos e nem de bondosos os sacerdotes que colaboravam com a opressão.
Mas, o modelo que vem de lá nos deu tantas coisas como o “paraíso do proletariado” inspirado por Marx e o Reich de “pureza étnica”, mais fortemente experimentado por Hitler. O que fazer se muito antes os judeus haviam se proclamado povo exclusivo escolhido de Deus.
Bem, mas o modelo nos deu, antes e depois deles, uma União Soviética, uma Cuba, uma Bósnia, uma Venezuela, tudo em nome de um pai benigno que cuida dos seus filhos.
O que se está afirmando é que este modelo de sociedade não busca o indivíduo, como na tradição oriental e abandona a criança, o velho, o inválido, escraviza, exclui e se exclui, tem leis para tudo, é a burocracia do “não faça” no coletivo, mas dá um jeito no individual.
O modelo de sociedade que temos quer fazer o indivíduo segundo o interesse coletivo. E permite que o indivíduo tire vantagem daquilo que não lhe pertence.
A posse do solo, seus minerais e mananciais, os direitos, a outorga, a permissão, o dote, a doação, bem como ir além, a invasão, a ocupação e a moderna figura retórica do “patrimonialismo” – que se define como a “mistura do patrimônio público com o patrimônio particular” – foram, são, heranças desses tempos históricos, muito antigos e nem tão antigos. Os judeus continuam ocupando áreas da Palestina com a mesma cara de pau que os fazendeiros brasileiros se apoderam da Amazônia ou que o MST invade uma fazenda.
O “bolsa família” nasceu da mesma doença.
O servidor, amigo do chefe, põe o paletó na guarda da cadeira e abandona a sala de trabalho, do mesmo modo que seu colega vai pra casa ou para o supermercado com o carro da repartição.
Nenhuma novidade está dita: o governador guarda o dinheiro da corrupção na meia ou na cueca, a praia é invadida, o mangue é aterrado e ninguém vai preso, ninguém é condenado. O direito ficou torto como regra.
Não pode, viu, mas se o “herdeiro” do rei assinar e ninguém chiar, fica por isso mesmo. Então retira e reduz a fiscalização ao mínimo e entrega o que é público ao privado. Privatiza a educação, a saúde, a previdência, a segurança, o transporte coletivo, o que mais?
Privatiza tudo, o Estado se declara incompetente para tudo, menos para cobrar os impostos.
Os partidos políticos não são instrumentos da democracia, pelo contrário, são patrimônio de grupos, famílias, gangues de poder, heranças das castas romanas, otomanas, bragantinas...
Os serviços públicos não existem para servir, são atividades-fim de seus agentes.
O modelo, ou melhor, a ocasião faz o ladrão. Esta é a crise. Ela tem mais de 2 mil anos.
Haja um “impostor”, “blasfemo”, “insurreto” para ensinar o contrário.

O Reino dos Céus explicado por Jesus (epílogo)

Síntese conclusiva:
A cátedra de Jesus é libertadora em contraste com a brutal ausência de liberdade e afirmação do povo a quem Ele mais diretamente falou. E como falou para um povo tremendamente sofrido, escravo, iletrado, quase todas as suas falas foram por parábolas, isto é, fazendo ilações com coisas simples e de fácil compreensão.
E não é de outro modo que esta página deseja abordar a imensidão daquela cátedra vista por quem já não é tão sofrido, já deixou cativeiro e já foi à escola.
Tomemos por parâmetro Lao Tzu, dado como autor do Tao Te Ching, sábio chinês, que viveu alguns séculos antes de Jesus. Pertencem-lhe as frases a seguir:
“Quanto mais proibições e tabus existirem no mundo, mais pobre será o povo; quanto mais armas afiadas o povo tiver, mais conturbado se tornará o Estado; quanto mais astúcia e perícia o homem possuir, mais viciosas as coisas parecerão; quanto mais leis e ordens forem enfatizadas, mais ladrões e assaltantes haverá”.
Lao Tzu nunca esteve sozinho nas suas, digamos, predições da deterioração do mundo coletivo. Antígona, Diógenes, Epicuro, Rousseau também escreveram sobre a índole insana da massa enquanto o indivíduo não se torne livre para si mesmo, livre dos tabus e livre dos mandamentos.
Por mais infantis e impraticáveis que soem aos exaustos ouvidos contemporâneos, as palavras de Lao Tzu contêm uma introspecção psicológica que se apresenta válida e consubstanciada na cultura dos séculos XX e XXI. Em escala coletiva, assim como no plano individual, não existe verdadeira moralidade sem liberdade.
Explico: o ser humano que se torna comportado porque a lei terrena assim exige ou porque há uma câmera filmando seus atos, esse ser não é moral e isso não é liberdade, é cativeiro. Esta semana está circulando na internet um “aviso importante” alertando os motoristas para os locais em que se encontram os radares da Polícia Rodoviária em vários pontos da Ilha de Santa Catarina. Entenderam a índole?
Se, porém, o ser humano se torna comportado, com moralidade, porque a sua consciência assim dita, ele venceu a fase do cativeiro, se tornou livre e pode aceitar seu destino como uma tarefa confiada a ele pela lei do crescimento espiritual. Em vez de submeter-se a leis impostas de fora, a pessoa em processo de individuação de sua personalidade submete-se à lei que rege seu espírito e, desta maneira, assume a responsabilidade pela individuação de forma lúcida e consciente. Diga-se: autonomia. Conceito de autonomia: a lei está em mim, não está fora de mim. E mais:
“Eu não sou cria ou cópia de ninguém; ao contrário, eu aconteço para mim mesmo. Não preciso de nenhuma outra lei. A única lei que existe é a Lei Maior que rege o cosmo. Invocado ou não, aceito ou não, Deus está presente nessa Lei”, diria o ser liberto, autônomo e emancipado, maior espiritualmente, e alcançado pelas luzes que, quanto mais intensas forem, para mais longe irão levando as trevas que existiam.
Assim fica fácil de entender o Amor a nós apresentado por Jesus. Assim fica mais fácil de entender o Reino dos Céus, como Ele veio ensinar.
Em algum ponto da vida, desta ou de outras, seremos chamados a dizer sim a alguém ou a algo maior e mais significativo do que família, marido, esposa, filho, sociedade, carreira, país e outras pedras de toques egóicas da vida mundana. Só esse sim trará a verdade que produz libertação; só esse sim trará o tipo de grandeza interior que revelará para o homem e para a mulher, a sua verdade, a maior de todas as verdades ao alcance humano. Só através de um raciocínio avançado como este se torna possível entender o que Jesus afirmou em Lucas 14; 16-35, quando uma má tradução do hebraico para o grego fala em odiar a família para servir a Deus. Na verdade é desligar-se do ego para entender o chamado de Deus.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O Reino dos Céus explicado por Jesus (III)

Naquela tarde de sábado, véspera de sua entrada em Jerusalém, o Mestre ensinou claramente sobre um novo conceito da dupla natureza do Reino dos Céus, descrevendo-as:
Primeira: o Reino dos Céus, isto é da luz, do bem, de Deus, como Proposta da Vida. Nele, o desejo supremo dos homens é fazer a vontade de Deus; prevalece o amor não egoísta entre os homens; intensifica-se o plantio daquilo que dá bons frutos; uma conduta mais ética e mais moral preside as relações apesar da existência das trevas em contrapartida. Trevas ou dificuldades, problemas, males, são entendidos como desafios a que somos chamados a enfrentar para adquirir capacidade, autonomia, deixar de ser crianças e alçar vôo próprio.
Segunda: o Reino dos Céus, da luz em meio às trevas, é a meta dos crentes mortais, é o estado em que o amor por Deus é perfeccionado, e em que a vontade de Deus é feita mais divinamente manifestada nos homens. Significa a depuração, a evolução, o alcance do propósito da existência da vida para esta dimensão dos homens.
Tentando fazer uma síntese: a escolha tem de ser de cada indivíduo, não há salvador, há educador, tem de haver aprendizagem, mérito, e assim salva-se quem tiver assumido a nova conduta, porque ninguém virá buscar-nos pela mão como se fôssemos inválidos.
O mundo continuará sendo dual, o homem continuará sendo dual. Os dois lobos existem. Um é mau, está no escuro das trevas, nas profundezas e nos chama para sua companhia onde os resultados da escolha são incompreensões, críticas, cobranças, perseguições, traições, maquinações e denúncias, repressão, miséria, arrocho fiscal, presença ostensiva do aparato policial/militar, espionagem, delação, controle da atividade privada, medo (assim estava a Palestina daqueles tempos, assim está a sociedade atual). O outro é o lobo bom e está nas alturas dos céus, de onde vem a luz, que nos acena com esperança, solidariedade, respeito, responsabilidade, paz, amor.
Cada um de nós tem sua escolha.
Se você escolheu a luz, você tem de fazer e ajudar fazer exatamente o oposto de tudo quanto fizemos até hoje e que redundou neste caos que se abate sobre nós. Não é coisa fácil. Foi o próprio Mestre Jesus que falou: a porta é estreita.
Você vem?

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Reino dos Céus explicado por Jesus (II)

Jesus declarava que a aceitação, pelo povo, de seus ensinamentos libertaria o homem da sua longa escravidão e o levaria a um tempo rico para o viver humano, com os seguintes dons da nova vida de liberdade espiritual (observem os contrastes com aquilo que estava posto):
1. A posse de uma nova coragem e de um poder espiritual ampliado. A boa nova do evangelho sobre o Reino deveria liberar o homem e inspirá-lo a ter coragem de oferecer-se para a vida eterna.
2. Essa boa nova carregava a mensagem de uma confiança nova e de uma consolação verdadeira para todos os homens, principalmente para os pobres.
3. Era, em si mesmo, um novo padrão de valores morais, uma nova medida de ética com a qual se podia avaliar a conduta humana. Ela ilustrava o ideal resultante de uma nova ordem na sociedade humana.
4. Ela ensinava a primazia do espiritual sobre o material; ela glorificava as realidades espirituais e exaltava os ideais supra-humanos pelo qual Deus podia se manifestar diretamente no meio do povo.
5. Esse novo evangelho ressaltava a realização espiritual como a verdadeira meta da vida. A vida humana recebia um novo dom de valor moral e de dignidade divina.
6. Jesus ensinou que as realidades eternas eram resultados (recompensas) do esforço terreno de retidão. A permanência mortal do homem na Terra adquiriu um novo significado, em conseqüência do reconhecimento de um destino nobre na continuidade da vida material.
7. O novo evangelho afirmava que a salvação humana é a revelação de um propósito divino de longo alcance a ser cumprido e realizado, em destino futuro, no serviço sem fim dos salvados filhos de Deus.
Esses ensinamentos cobrem a idéia (versão atualizada) do Reino dos Céus (a luz – conhecimento sagrado, aquisição de valores) em contraposição com o reino de Lúcifer (trevas – ignorância, perda de valores), como foi ensinado por Jesus. Nos evangelhos isso está muito claro, porém escrito por homens do povo para homens do povo. Esse grande conceito não estava incluído nos ensinamentos elementares e confusos dos pregadores anteriores, inclusive João Batista. E sinaliza conter a elevada cátedra já absorvida pelos iniciados no saber sagrado da época e atual.
A menos que os evangelhos tenham sido modificados pelo Conselho Superior criado pela igreja de Roma, os apóstolos foram incapazes de compreender o significado real das palavras do Mestre a respeito do Reino dos Céus. Também as autoridades entendiam-no como o governo do país. Veja que o Império Romano tinha todos os motivos para entender aquilo como uma insurreição para justificar os maus tratos aplicados ao ilustre prisioneiro e também, depois, para adaptar aqueles evangelhos ao sabor de seu interesse pelo poder.
Veja também que foram essas as acusações que resultaram na condenação de Jesus: blasfêmia perante a religião judaica e insurreição política perante a lei romana.
O grande esforço que os sermões de Jesus representavam era a Sua tentativa de converter o conceito do Reino dos Céus no ideal que é fazer a vontade de Deus, não de futuro, nem através do poder temporal e sim imediatamente: iluminar os homens.
O Mestre vinha ensinando seus seguidores a orar, prática que se mostra eficaz segundo comprovação científica. O termo “Pai celeste” precisava ser usado, como ainda hoje acontece, por força da cultura, segundo a qual o rei, o chefe, o protetor é o provedor de tudo. Mas, os ilustrados gnósticos que detinham o conhecimento sagrado, sabiam que ele estava se referindo a algo como hoje entendemos ser a força do pensamento, a inteligência, a criatividade.
Os filhos libertados de Deus, e empenhados no serviço voluntário e cheio de júbilo, ao semelhante, e na adoração sublime e inteligente de Deus, compunham a mudança em relação a uma descomunal luta egoística instalada entre os judeus. Esses eram os discípulos de Jesus, também vistos como gente esquisita.
Isso ainda prossegue. Você vem?

domingo, 18 de abril de 2010

O Reino dos Céus explicado por Jesus (I)

Eram dias de muita ansiedade para o Mestre Jesus, que sabia de seu calvário imediato nas mãos das autoridades que já haviam decidido matá-lo antes mesmo daquela pantomima do julgamento. Ele estava em ritmo de despedidas para com os membros da equipe de suas muitas missões educativas, percorrendo vilas e cidades. O seu último sermão estava reservado para falar do Paráclito – porta-voz ou intermediário – a ser enviado ao mundo para ser o Espírito da Verdade e encaminhar a instalação do Reino dos Céus.
Sempre se mistificou a real Grande Missão do Cristo. Lá nos evangelhos é dito: derrotar Lúcifer e instalar no planeta o Reino dos Céus.
Aqui se abre um poderoso hiato filosófico para decodificar o que sustentam esses conceitos de Lúcifer e Reino dos Céus, ou se quisermos imediatamente ir assimilando, trevas versus luzes.
Num longo discurso, num sábado, véspera de sua entrada em Jerusalém, o Mestre deixou bastante claro que o Reino dos Céus deve começar com o conceito dual da verdade da paternidade de Deus e do fato correlato da irmandade dos homens. Em razão disso Ele repetiu “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo“ e, com muita tristeza pelas despedidas assegurou “O que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vos dará”.
Novamente se abre um poderoso hiato filosófico para decodificar o que ele estava ensinando ser o Pai e o que, segundo Ele, significa pedir.
A cátedra de Jesus era estranha à maioria dos judeus. Uma casta ilustrada tinha acesso aos então elevados conhecimentos sagrados, também chamados de Gnose. Mas, a cátedra de Jesus era dirigida aos pobres e, entre esses, estavam os radicais fariseus, zelotas e saduceus, etc., que se julgavam herdeiros da sabedoria antiga – que não refletia o melhor saber – tanto quanto queriam o fim do domínio romano sobre seus clãs. Mas, não eram os únicos opositores à boa nova (evangelho), havia também os escribas, espécie de jornalistas daqueles tempos, os publicanos, espécie de servidores públicos e o alto clero, todos no gozo de privilégios outorgados pelo Império Romano, a quem a presença de Jesus muito incomodava. Por isso, Ele tinha ferrenhos adversários entre a platéia que acompanhava sua pregação e também nos bastidores.
Imaginemos de alguma forma um Marx falando em riqueza para todos num momento em que o capitalismo mais espaços conquistava no mundo. Se trouxer esta mesma situação para os dias atuais ainda não seria coisa fácil.
Contudo, em meio a incompreensões, críticas, cobranças, perseguições, traições, maquinações e denúncias, o Mestre caminhava entre o povo e expunha sua proposta: um reino com diferentes valores.
Era uma época de repressão, miséria, arrocho fiscal, presença ostensiva do aparato policial/militar, espionagem, delação, controle da atividade privada, medo em meio a uma nesga de esperança.
A idéia de um Deus magnânimo havia fracassado. Por inúmeras vezes o povo estivera sob cativeiro. Em milhares de anos, apenas os reinos de Salomão e Davi tinham sido de satisfação.
E agora, esse provável impostor – como muitos outros antes e ao mesmo tempo – vinha falar de libertação, salvação, plenitude. O que era isso?
Se você nos ajudar a refletir sobre isso, quem sabe a gente avance em conhecimentos.

sábado, 17 de abril de 2010

A missão de Jesus sem enigmas

Muito já se disse sobre Jesus e, no geral, por intermédio de interpretações controvertidas. Uns querem-No descido dos céus, de retorno para lá sem a perda do corpo e nascido de Maria sem a intervenção de José; outros preferem aceitar ter sido Ele um Homem como qualquer outro, em cuja morada corporal habitou um dos espíritos mais evoluídos das hierarquias celestes.
Polêmicas à parte, não é esse o objetivo do blog, sempre sobram dúvidas, enigmas, mistérios, passagens que mesmo os mais profundos conhecedores teriam cautela em fazer referências.
Uma série de fatos, no entanto, assume relevância quando olhamos para o aspecto espiritual de sua missão na Terra. Acompanhe o raciocínio:
1. O seu nascimento não foi apenas do conhecimento dos seus mais chegados familiares (Maria, Zacarias, Isabel, José). Também algumas autoridades religiosas de países e continentes vizinhos receberam esta notícia, como seus familiares, também por via mediúnica, aquele trabalho que os anjos eram encarregados de fazer. Foi esse o caso dos chamados reis magos (Gaspar, Baltazar e Melchior), que vieram de longas distâncias para prestar celebração ao fato da encarnação do esperado Messias, anunciado reiteradamente nos seis séculos precedentes.
2. Ao seu batismo nas águas do Rio Jordão, Ele comparece e sem nenhuma pompa se oferece para ser batizado por João Batista, que era uma possível reencarnação de Elias. No mesmo instante, narra o Evangelho, uma pomba simbolizando o Espírito Santo faz anunciar, sem dizer por intermédio de quem: “Eis aqui o meu filho muito amado em quem ponho a minha afeição”.
3. Na seqüência, segundo o mesmo Evangelho, ele se isola durante quarenta dias para jejuar e oferecer-se às tentações e retorna com todo um plano de trabalho acabado, que anuncia retumbantemente. Tem início a sua vida pública. Não se tratava apenas das “Bem-aventuranças”, como constam de seu primeiro discurso, os evangelhos dedicam cerca de quatro páginas para descrever os conteúdos daquele “plano de trabalho”.
4. Então Ele sai a percorrer vilas e cidades. Preside mais de 40 curas, consideradas milagrosas, entremeadas por novos discursos, mas não assume as curas como suas (tua fé te curou, repetia Ele, sempre); faz a multiplicação dos pães; vai ao Monte Tabor e propicia a um pequeno grupo de discípulos o espetáculo da “transfiguração” em que aparecem os espíritos de Moisés e Elias; anuncia os dois grandes mandamentos, como síntese de sua doutrina; promove a ressurreição de Lázaro e alguns dias depois a Sua própria.
5. É preso, acusado, crucificado, sepultado, reaparece a várias pessoas, dentre elas alguns estranhos ao seu grupo.
À guisa de dedução:
Ainda que reunidos em apenas cinco tópicos, não foram apenas cinco os episódios que sinalizam tratar-se, efetivamente, de alguém muito especial encarnado naquele judeu de Nazaré. Esta criatura não foi um fato isolado na História da Humanidade. A espiritualidade participou decisivamente com Ele e Ele sabia disso, tanto que por mais de uma vez sentenciara: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”. Sabia usar sua autoridade e seus poderes especiais com extrema eficácia, e demonstrava estar em estreita ligação com a espiritualidade maior, a mesma que por vários episódios demonstrou estar com Ele.
Passados 2 mil anos, continuamos a nos encantar com suas obras, único personagem reconhecido e respeitado por todos os credos e o único pensador a ter sua cátedra reiteradamente reafirmada. A maior credibilidade lhe é atribuída quando O aceitamos como um homem igual a qualquer outro, porém, portador de um Espírito de elevada hierarquia. Duvidosa se torna a Sua credibilidade quando O tomamos por um Deus vivificado na carne e elevado aos céus em seu próprio corpo. Como também se torna mais difícil de aceitar que Ele voltará ao nosso meio novamente naquele corpo que lhe serviu de veículo. Mais fácil de aceitar é quando O aceitamos entre nós através do Espírito da Verdade, por Ele mesmo anunciado nos capítulos 14 e 16 do Evangelho de João. Sem enigmas, sem dogmas, sem mistérios insondáveis, o Divino Trabalho de Jesus nos cai como uma bênção de Deus, como uma tentativa de Deus de promover uma Transformação com a Humanidade deste Planeta.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O retorno do Cristo espiritual

Vamos ver se você me entende. Entende e aprende. Não vejo como semear motivos para a conquista e reconquista diária da liberdade, isto é, do poder de voar para alcançar novas alturas espirituais, sem trazer para a análise o estupendo esforço empreendido por Jesus para explicar, entre coisas essenciais, que a morte não existe. E se você fizer um pequeno esforço avaliativo perceberá que o evento – não a doutrina – mais expressivo foi a vitória sobre a morte.
E o Mestre não foi devidamente interpretado por muitos daqueles que se valem de seu legado educativo. Faz 20 séculos que o Mestre continua preso à cruz numa alusão de que deva morrer novamente, todos os dias, várias vezes ao dia para que fique marcado, evidente, lembrado, por que Ele foi condenado.
Sádicos é o que são, vendendo-nos a versão de que fomos nós que o pregamos naquele madeiro e, por isso, devemos carregar esta culpa por toda a eternidade.
Fundamentalistas é o que são, retirando dos evangelhos o Cristo espiritual e inventando em seu lugar um Jesus físico, frágil, cordeiro, mansamente entregue ao abate para que ficássemos livres do fogo eterno do inferno.
Materialistas é o que são, insinuando que é preciso beber o sangue e comer o corpo de Jesus. Covardes é que somos para abrir um vãozinho em nossas almas para que nelas penetre o espírito crístico, vencedor, imorredouro, nunca abatido pelos cravos da cruz, a ensinar que a verdade é o caminho, que a vida tem dimensões (tema de um futuro artigo).
Mas, os sádicos, fundamentalistas e materialistas foram demitidos de seu reinado. Suas leis, suas ordens, suas cátedras envelheceram, caducaram, perderam validade. O Cristo chamou para si a comunidade dos caminhantes das casas do caminho, entregou a cada um uma palma, a mesma que saudou sua entrada em Jerusalém, para servir de símbolo de seu retorno triunfal ao comando da fé.
Para aquele tempo a sua vinda não objetivava mudar a lei, mas dar-lhe cumprimento, uma vez que cada um a interpretava de um modo. Para este tempo a sua vinda é para resgatar a lei que foi fraudada. “Quando o homem esqueceu que comunidade significa igualdade, deformando-a com suas leis, nesse dia nasceu o ladrão”, ensinava Carpócrates quase que ao mesmo tempo em que Jesus ensinava, ao vivo, seu evangelho libertador. “O homem que é interiormente grande saberá que o tão esperado amigo de sua alma, o imortal, chegou de fato, para tornar o cativo cativeiro” (Jung).
A ele o homem e a mulher dirão sim. A rendição dos propósitos limitados do ego aos objetivos muito mais amplos da alma é o que dá sentido à vida. Tudo mais passará. A alma não passará.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Uma questão de interpretação

As religiões que tiveram origem na cultura hebraica e, portanto, na Gênese bíblica, ensinam aos seus fiéis que a morte resulta do pecado do homem, fazendo uma associação com o mal. Passamos, então, milênios detestando a morte, não aceitando a morte, chorando nossos mortos, enfeitando cemitérios na esperança de que ali possam estar os nossos entes queridos levados pela morte.
Nasce, assim, para algumas correntes psicológicas a heresia da separação e a filosofia da exclusão do intermediário entre quente e frio, luz e trevas, bem e mal.
No entanto, esta interpretação tem custado enormes dores a toda a humanidade identificada com a religião judaica, com as religiões cristãs e um pouco menos com as religiões islâmicas.
Todos precisamos saber que o pecador não irá eternamente para o inferno e que o santo não ficará livre dos males. A morte não é uma maldição e ninguém precisa ficar abominando a velhice, a ponto de remeter seus velhos para os depósitos de idosos, descartados como coisa imprestável simplesmente porque está nos umbrais da morte. Mas, agimos assim por conta da cultura religiosa já citada. Os orientais não têm esta interpretação, aceitam lidar com o frio e o calor, com as luzes e as trevas, com o bem e o mal, dignificam seus anciãos e lidam muito bem com a morte.
O apagão espiritual que alcançou as já citadas correntes religiosas interferem inclusive na mente dos espíritas, chamados a reciclar seu modo de entender a perda de entes queridos. Os entes queridos não morrem para sempre do mesmo modo que não vivemos (no corpo) para sempre. Não existe um céu imaculado esperando pelos cristãos que se dedicarem ao bem, até porque não existe quem se dedique exclusivamente ao bem, do mesmo modo que não existe o homem exclusivamente mau.
O espiritismo tem trazido contribuições inestimáveis ao entendimento dos ciclos vitais, trabalhando ao lado da Psicologia para formar uma nova cultura religiosa, a de que só seremos melhores quando soubermos buscar a soma de nossas forças na construção do melhor. Existe, porém, a necessidade de que ao lado exista o pior para que nos dê o parâmetro. Como saber se o bem é o bem se ele não puder ser comparado com outra coisa? Qual é o espírito capaz de desenvolver-se para o bem se não tiver de também enfrentar suas próprias tendências para o outro extremo?
Esse é ponto em que a sabedoria oriental vem em socorro dos espíritas: quando uma alma obtiver seu ponto de equilíbrio entre o feio e belo, entre o bom e o mau, entre a verdade e a mentira, estará ela capacitada a transformar-se e mudar de freqüência no rumo da elevação, isto é, fazendo a evolução.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mitos para interpretar o bem e o mal

Enquanto o ser humano necessitar de imagens nos altares a fé precisará de mitos, símbolos, totens. O bem e o mal também precisarão de mitos representativos. As religiões nascidas com Abrahão explicam o bem e o mal através dos símbolos Deus, poder do bem, do amor, da alegria, da paz, e Diabo, poder do mal, do desamor, da tristeza, da guerra.
Deus e o diabo aparecem como antagônicos em luta permanente enquanto os infantes espirituais estiverem em crescimento para vencer suas próprias tentações, como naquela estória dos dois lobos, o bom e o mau, que ficam a espera de quem os alimente. Na verdade, o lobo que for alimentado, engordará e o lobo que ficar sem alimento, emagrecerá. A vida nos ensina que é impossível a morte de um e a sobrevida do outro. Os dois extremos estão presentes em tudo como fatores de aprendizado.
Lá no fundo precisamos aprender que um e outro existem para que outro e um se reconheçam. O Yin e o Yang oriental andam juntos e só formam aquele bonito desenho quando estão perfeitamente equilibrados. Aquele é o ponto de mutação.
A existência do bem e do mal como forças antagônicas pode ser configurada como uma floresta, pela qual todos temos de passar. Os espaços livres através dos quais é possível avançar, são ganhos do bem; os espaços ocupados por pedras, arbustos árvores, cipós, são perdas, atrapalho, obstáculo ou ganhos do mal. Se escolhemos ser conduzidos por um guia, nunca cresceremos, nem experimentaremos exercer a autoria (para uns a palavra correta é autonomia – com sentido regência própria, auto-regimento) e por falta disso deixarmos de atingir a diferenciação individual e assim perder a chance de libertar-se do bando ou do cardume, alusão a que também os animais não têm noção de sua individuação, por isso, no geral, fazem sempre as mesmas coisas.
Se tentamos atravessar a floresta sem uma boa dose de vontade, persistência e determinação, todo obstáculo nos derrotará e a tentação de desistir será, sempre, a vitória do mal.
A maioridade espiritual exige romper com a criança indecisa e carente, cobra a revelação do adulto, a emancipação do ser que sabe que se não for buscar o pão não haverá pão, que se não tiver coragem (fé convicção) o medo o derrotará no meio do caminho, as tentações o tirarão da rota e não haverá travessia.
Ao demonstrar capacidade para vencer os obstáculos, cada vencedor chamará para si a dignidade dos capazes, dos hábeis, dos competentes.
Às simbologias do bem e do mal temos de acrescentar: o bem é a vitória, o mal é a derrota. Segundo a metáfora da travessia da floresta, a vitória é atravessá-la, é sair do outro lado onde haverá outro desafio carregado de luz (do bem) e de trevas (do mal) a nossa espera.
A derrota é deixar-se vencer pela escuridão, entregar os pontos, pedir socorro, ser carregado e admitir o fracasso. E ficar no aguardo de uma nova oportunidade para fazer uma nova tentativa.
Maioridade espiritual é fazer a travessia e ser chamado para outros desafios mais qualificados.
O exemplo é oportuno: o desenvolvimento do ser humano desde o nascer até chegar ao máximo das compreensões que suas experiências proporcionarem depois de muitas décadas de caminhada pela vida.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Dinifica-te (pegando pesado)

Três situações insólitas ligadas à dignidade pessoal, auto-estima, maestria pessoal e coisas assim. Quero dizer, coisas ligadas a ter ou não ter.
Primeira: a mulher muito bem arrumada e perfumada caminha pelo calçadão quando o galanteador solta esta: “por que tudo isso se você é muito mais apreciada desnuda?”. A resposta da mulher é à altura de seu perfil: “eu me arrumo pra mim, adoro me ver sempre pra cima”.
Segunda: o homem está no bar tomando, já, sua terceira dose, quando um amigo seu entra pra comprar cigarros e pergunta ‘tudo bem?’” A resposta do homem é ‘tudo mal, esta vida é uma eme’. Resposta do amigo: ‘como é que você quer tornar tudo melhor se você não se preza?’
Terceira: o mendigo anda com dificuldade pra lá e pra cá no sinal de trânsito estendendo a mão para ganhar uma moedinha. O motorista abaixa o vidro e diz: ‘vai trabalhar vagabundo’! O mendigo retruca: ‘moço, apesar de aleijado, eu estou trabalhando, mas ali naquele próximo sinal tem um marmanjo bêbado sentado embaixo da árvore enquanto seu filhinho de 7 anos pede esmola. Quem merece receber?’
E aqui vai a derradeira pergunta: a seu juízo, quem agiu certo dentre todos os personagens desta narrativa?
Claro, as opções são várias, mas o interesse em sua resposta é para puxar pelo esforço dos leitores em refletir sobre dignificar-se perante a vida, merecer ser visto com alguém que não precisa esconder o rosto de si próprio.
Lembremos-nos de que somos seres espirituais no bar, no banho, na esquina, do semáforo, dormindo, na igreja, no estádio, no trânsito, onde for.
Para encerrar o papo de hoje, uma máxima do marketing: “o sol nasce pra todos e a sombra pra quem se esconde”.

Dignifica-te (pegando leve)

Trechos de um poema cuja autoria desconheço:
Se você acha que está derrotado, está;
se pensa que vai perder, está perdido.
Pois, nós, as pessoas que pensam,
pensamos o que vamos viver.
Entre outras frases de grande interesse, o poema se despede com a frase: “lembre-se de que você é quem merece ser”.
Nada mais, nada menos: aquilo que pensamos, somos.
Significa que naquilo que focamos nosso pensar a vida para lá se dirigirá, independentemente se se trata de uma grande fantasia ou de uma triste miséria.
Você pode pensar que é a rainha da Inglaterra, pode querer viver como uma alteza sem que nada de concreto sedimente esse “reinado”. Perceba aí o abismo que se abre entre querer e obter. O vazio, a fantasia, a mentira acabará por produzir um resultado. Conclusão: a vida cobrará a sua verdade.
Outra versão entre as milhares de possibilidades que existem: você tem talento, mas não acredita em si mesmo. Você é uma rara “mercadoria” cujo preço foi rebaixado e ninguém a quer por desconfiar da “mercadoria”. Há um limite para o grau de auto-estima. Ao ser super valorizada ela será tomada por fantasiosa e perderá o crédito. Ao ser sub valorizada ela será tomada por coisa imprestável e também perderá o crédito. A palavra crédito em todas as situações se aplica à dignidade pessoal e a lição que fica é que ninguém consegue viver fora de sua própria casinha. Ego inchado e ego minguado fazem mal do mesmo jeito.
Nunca devemos esquecer que a proposta desta página é a busca do desenvolvimento espiritual e que por vezes os assuntos parecem nada ter de espiritual. Será mesmo? Você acha que sentado no volante, dirigindo um carro, não somos seres espirituais? Acha no auge da balada, namorando, tirando um sarro, não somos seres espirituais?
Olha, num dos artigos anteriores, quando propusemos um encontro com nosso Eu, isso já ficou bem claro: sempre e até naquela horinha danada de furar a fila ou de jogar o lixo pela janela, somos seres espirituais.
Naquelas horas em que você se desacredita, desvaloriza-se ou, no sentido contrário, inventa suas super valorizações egóicas, situações em que fabrica uma muleta para andar pela vida, não há a menor dúvida, seu espírito pode desejar saltar fora de você. Talvez não o faça por acreditar num milagre. Então, seja o seu próprio milagre! Dignifica-te com a verdade, com a sua própria verdade.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Vamos lá: Muito prazer, senhor Eu!

Este é um artigo para ler e reler sempre que você tiver a sensação de que pensamento e ação não são coerentes. Levaremos isso adiante falando na primeira pessoa.
Talvez eu possa pensar e agir coerentemente. Eu não tenho mais dúvidas, vai ser assim. Eu me apresento a mim e me reconheço Eu. Eu me assumo como um todo Eu, inseparável, indissociável, uno, completo, íntegro. Deste momento em diante não existirá mais pensamentos em oposição às ações, ou ações dissociadas dos pensamentos ou da vontade. Não haverá mais pensamentos invasores minando a construção de uma verdade única: Eu sou o que fui, o que sou e o que serei, com base naquilo que desejei, pensei, fiz, desejo, penso, faço, desejarei, pensarei, farei. Nada em minha história deve ser escondido, negado, justificado. De nada pedirei perdão ou buscarei desculpa. Tudo que fiz foram obras minhas e jamais negarei sua autoria. Foram, são e serão resultados esperados, efeitos de causas, reações a ações. Estarão anotadas em meus feitos e caberá a mim, exclusivamente a mim, as responsabilidades por suas conseqüências. Mais do que responder por tudo, caberá a mim trabalhar por reparar o que tiver de ser reparado e melhorar o que tiver que ser melhorado.
Eu me descubro pouco a pouco; eu caminho na direção da minha verdade; eu me conheço cada dia mais; eu me amo cada dia mais; eu me assumo cada dia mais; eu me responsabilizo por mim cada dia mais.
Agora, não mais haverá culpados ou algozes pelas coisas que me aconteceram, acontecem e acontecerão. Tudo quanto houve eram as únicas coisas e pessoas que poderia haver. Todas as pessoas e coisas que participaram da minha história e da minha construção eram as únicas pessoas e coisas, pessoas e coisas certas, que poderiam existir. Do mesmo modo, deste momento para frente, pessoas e coisas surgirão, permanecerão, ir-se-ão e tudo estará certo, justo, perfeito.
Na condução da minha vida não haverá lugar para dois pilotos opostos. As oscilações entre claro e escuro, frio e quente, alto e baixo, belo e feio, serão contingências pelas quais terei de passar na construção de um caráter, de uma personalidade, de uma índole, a minha, inseparavelmente minha, a única que tenho e terei.
Eu não negarei a mim mesmo. Eu não trairei a mim mesmo. Eu não buscarei subterfúgios para mim mesmo. Eu quero ser a minha verdade. A minha verdade não precisará de adjetivos, conceitos, versões. Eu sou Eu. O espírito que me tem como aparelho de sua evolução não precisará envergonhar-se de mim. A minha dignidade não precisará de carteiraços, jeitinhos, desvios, engodos, muletas, aditivos, doping. A minha luz brilhará na exata proporção de como sou e serei. Eu não precisarei mais de que se acendam holofotes sobre mim para que eu apareça ou seja notado. Eu não precisarei mais de insinuar-me para merecer qualquer reconhecimento, distinção, poder, prêmio ou recompensa. Tudo quanto tenha de pertencer-me como vitória ou conquista minha, tem de vir a mim por mérito exclusivamente meu.
Então, eu renuncio desde já as decepções, as frustrações, os melindres, as mazelas, as seqüelas por coisas ou pessoas que não tenham trazido, tragam ou trarão resultados adversos ao que eu imaginava.
Continuarei tendo sonhos, imaginando o melhor que me possa acontecer, mas nunca desistirei deles se o caminho buscado para obtê-los possa ser diferente daquele que imagino ser o correto.
Terei a humildade de consultar a minha consciência, o meu Eu Profundo e jamais “acharei” isto ou aquilo “coisa ideal” por conta de instintos ou devaneios. O que vale dizer: tudo quanto vir a ser tem de ser como quero ser.
Então, muito prazer, senhor Eu. Estaremos nos conhecendo melhor de agora em diante.

domingo, 11 de abril de 2010

Você ainda quer encontrar-se com sua alma?

Então aqui vamos aprofundar um pouco mais o nosso modo de buscar a interação com a própria alma dentro de um programa de integridade espiritual.
Aprendemos o que a Psicologia chama de Self (inicial maiúscula) e de self (inicial minúscula). Self = alma; self = ego. Pra que serve um e outro? Em oposição, só servem para atrapalhar.
Alguns dos mais antigos escritos sobre as oposições impeditivas à Plenitude falam das incompatibilidades existentes entre a dimensão profana, que se corrompe, e a dimensão sagrada que tem a missão de derrotar as próprias imperfeições para se tornar plena.
Os essênios e os gnósticos do Antigo Egito (contemporâneos) acreditavam e difundiam o alcance da Plenitude sem a necessidade de alguém que os conduzisse, tipo sacerdote, pastor ou rabino. Por essa razão os primeiros cristãos, que eram muito próximos culturalmente aos essênios e gnósticos, foram perseguidos e executados. Nada diferente foi a sorte dos cátaros no século XII, no sul da França e dos gnósticos do século XIV em diante, quando pelos mesmos motivos foram alcançados pela Inquisição.
Alguns analistas arriscam opinar que se Kardec não fosse francês, país aonde as liberdades floresceram mais cedo, também os primeiros espíritas teriam sido alcançados pelas condenações capitais já no início daquela doutrina.
Vale lembrar que em pleno século XX, o padre Leonardo Boff foi condenado ao silêncio em sua “Teologia da Libertação” através de um ato da Sagrada Congregação Para a Defesa da Fé, ex-Santo Ofício.
Parece ter sido providencial o surgimento do Espiritismo e da Teosofia depois de 1850, pois a moderna crença no poder dos espíritos também dispensa a condução do sacerdote para a obtenção da libertação da alma.
Então, leitor, conteúdos como este, que falam da fusão, da conexão, da religação do que estava separado, de colar o que estava quebrado e de libertar o que estava preso, só vão se tornando públicos à medida que nós retomamos estudos e práticas que foram eclipsadas há quase 2 mil anos. Não é uma tarefa fácil, mas você pode fazer, começar a fazer e, com o tempo, fazer completamente.
Não se trata de uma retórica ou uma teoria. Jesus passou por esta prova antes de se tornar Messias, segundo algumas fontes. Há uma narrativa nos evangelhos de Nag Hammadi (descobertos no Alto Egito em 1945) que descreve a visita do gêmeo Salvador recebida pelo menino-adolescente, Jesus, a partir do que Ele adquiriu o Conhecimento Messiânico. A Psicologia entende isso como a fusão do Ego com o Espírito, do self com o Self.
O maniqueísmo também se refere à mesma coisa havida com o profeta Mani (215-277d.C.), também aos 12 anos, em que recebeu a visita de um anjo gêmeo, do qual recebeu a outorga para proclamar a doutrina.
O leitor está convocado a buscar a fusão do ego com o Espírito, iniciando uma caminhada progressiva de identificação entre os dois, através do que o ego será completamente absorvido, isto é, destruído. Não importa o tempo que isso demore. Esta é a meta. Existem razões para acreditar ser este o destino de todos nós.
Na linguagem psicológica de Jung, significa que a Sombra será iluminada, trabalho que tentaremos levar adiante em próximos artigos.

O que acontece a quem trai a vida?

Afinal, o que é a vida? O que é trair a vida? Para que serve a vida? Qual é o seu objetivo? Deve haver uma proposta, um propósito, uma razão... Pense nisso profundamente.
Ficar na oposição à proposta da vida é o que chamamos de traição à vida.
Nada acontece por acaso, não é mesmo? Este acaso, assim denominado por alguns, chamado vida, é algo inteligente: pensa, imagina, cria, elabora, emociona-se, produz ação, reage, obtém resultado... Logo, não é um acaso.
Então, o que é a vida?
Não podemos ser exigentes com a resposta, pois os capítulos desta página têm, geralmente, menos de uma lauda, e a resposta a uma pergunta com esta profundidade poderia exigir alguns milhões de palavras. Podemos resumir?
A vida é o caminho da verdade para a volta do Homem ao Éden, de onde se afastou por haver adquirido autonomia, capacidade, discernimento e a partir do que iniciou sua caminhada para o mérito de lá retornar, não como dependente da Natureza, mas como co-criador dos mundos, aliado de Deus. Descobrir a verdade, talvez seja a sua reconciliação, primeiro, consigo mesmo, depois com a Natureza e em seguida com o criador. Depois disso o Homem conquistará a condição de merecedor da vida plena.
A felicidade só existirá por inteiro quando todos os homens puderem optar por serem felizes. Aí chegará o segundo grande momento do Homem, o seu prêmio pela reconciliação com a Natureza: viver e ser feliz.
“A vida é a eterna dança da consciência expressando-se na troca dinâmica de impulsos inteligentes entre o micro e macrocosmos, entre corpo humano e corpo universal, entre a mente humana e a mente cósmica” (Fritjof Capra).Trair a vida tem muitas nuances: maltratar o próprio corpo com alimentos equivocados; maltratar as emoções com pensamentos destituídos de amor; desmerecer a confiança de seus familiares, amigos e clientes; maltratar o meio social e ambiental. Trair a vida pode ser colocar-se como inimigo dela e querer disto tirar proveito.

sábado, 10 de abril de 2010

O que acontece com quem trai a si mesmo?

Existem muito escritos por aí e muitas inteligências desencarnadas sinalizando mapas para quem queira aproximar-se de Deus. A aproximação não se dará de outra forma que não pela via espiritual. Todos quantos estiverem desejando conectar-se mentalmente e para isso estejam usando da mente física, não o conseguirão. Este desiderato tem de ser espiritual. A via é espiritual, o destino é espiritual. E sendo espiritual, nada tem a ver com o conhecimento terreno. Tudo ocorrerá no mundo da transparência, da luminosidade, da lealdade para com a vida, que é a manifestação do criador. Uma mente PhD terá o mesmo valor de uma mente não alfabetizada. O que muda entre as duas é o grau de cobrança, discernimento.
Ah, mas você está cobrando o final do episódio anterior.
Figuradamente, você precisa entender que o nosso personagem foi mandado para o hospital a fim de livrar-se de sua mochila. Quando estivesse livre, leve e solto, deveria retornar e reivindicar sua entrada no portal das almas dignificadas.
Estivemos analisando a obra de Carl Gustav Jung, um curador de almas e de cultura. Nem chegou a ser bem interpretado em sua época, do mesmo modo como Allan Kardec também não foi.
Jung tentou ensinar o caminho humano para o encontro com a alma, o chamado “inconsciente”. Na verdade, a alma não permanecerá nas sombras da inconsciência quando nós tivermos capacidade de iluminá-la e, ao iluminá-la, vê-la-emos tornar-se gnose, conhecimento sagrado. É ali que iremos encontrar o “arquivo eterno” de cada um de nós.
Este “arquivo eterno” é o chip que entrará pela portaria, não será barrado, como naquela metáfora do capítulo anterior.
Por que este chip não será barrado? É porque ele contém a verdade.
Pode-se dizer que esta é a vocação que nos torna humanos, pois nos tornamos menos humanos na medida em que negligenciamos a verdade, em que ignoramos a nossa verdade.
As árvores e as flores, os pássaros e os animais que seguem seu próprio destino são superiores ao homem, à mulher, que trai a si mesmo.
Afastado da sua verdade o ser humano chamará para si o peso perturbador (mochila inócua) da privação da luz, da desconexão, do desenraizamento espiritual, onde tem origem os descaminhos, a doença, o sofrimento, a desorientação, a fuga, a busca de entorpecentes.
Tudo é uma questão de vibrações. O diapasão espiritual, independentemente do conhecimento acadêmico de uma pessoa, arrebata os seres para uma vibração de freqüência compatível, elevada, média, baixa, onde transitam os conteúdos de que se ocuparam durante suas vidas no corpo.
A vida é a maior verdade que podemos acessar. Por isso não se pode trair a vida. Ao traí-la, nos tornamos indignos, inferiores, caídos, passíveis de hospitalização.

Você quer, mesmo, ir ao encontro de sua alma?

Então caminhe ao meu lado. Antes, porém, conheça a história de outro alguém numa situação parecida com a sua. Isto aqui é uma metáfora, uma lenda, um causo.
Era uma vez uma pessoa, com nome, endereço e cpf. Lidava com as coisas e pessoas de sua vida de um modo especial, como será narrado.
Tudo quanto saísse errado, tinha de ter um culpado externo. Algumas vezes eram seus pais, noutras seus irmãos, noutras mais o prefeito, o governador, o vizinho, enfim, alguém.
Tudo quanto fizesse de errado, precisava ser escondido, jogado pra baixo do tapete, guardado num cantinho escuro da consciência.
No início, só algumas coisas eram guardadas. Depois, muitas coisas. É sempre assim, o primeiro erro puxa o segundo, puxa o terceiro...
O depósito foi ficando cheio, inchado, transbordante...
Chegou um tempo em que o nosso personagem precisava inventar uma mentira para encobrir outra, arranjar um novo esconderijo para esconder um novo erro.
Como fantasmas, seus erros se agigantavam em seu íntimo. E ocupavam quase todas as suas energias. Se quiser, pode comparar com alguém que carrega uma enorme mochila às costas, sem nenhum conteúdo útil.
Por conta de se ocupar excessivamente com seus monstros íntimos, o nosso personagem já não sonhava com nenhuma coisa boa, não tinha tempo para imaginar coisas novas e boas. Todos os dias brigava com seus monstros, obrigando-os a permanecerem engavetados, encaixotados, arquivados.
Tinha dias que os monstros brigavam entre si, cada qual querendo ocupar maior espaço na mente do nosso personagem.
Por conta desse turbilhão de inquietações, vinham também as correrias e nosso personagem começou a faltar com suas obrigações, esquecer seus compromissos, sofrer pequenos acidentes, até que, um dia, foi além: teve uma enorme discussão com seu cônjuge, perdeu a cabeça, meteu a faca no peito do cônjuge, matou-o. E mais uma vez não assumiu seu erro: fugiu de casa, escondeu-se da polícia.
Veja, agora, já não eram apenas os seus monstros que estavam escondidos. O próprio personagem também se escondia.
Mas, foi localizado, recebeu voz de prisão, não se entregou, tentou fugir mais uma vez e foi atingido pelas balas dos policiais. Morreu.
Dizem que chegou lá aonde chegam as almas que perdem o corpo e foi recebido como alguém que tem muitas sombras dentro de si. “A mochila não entra”, disse o porteiro. Como estava acostumado a arranjar desculpas, tentou explicar quem eram os culpados por toda aquela enorme ficha. Argumentou, inventou lorotas, mas nada adiantou.
O encarregado da entrada das almas merecedoras de honra, explicou que para ser Alguém nós temos de deixar de ser Ninguém.
“Mas, eu não sou ninguém, eu tenho uma identidade, endereço cpf!!!”
A o que o porteiro retrucou. “Isso nada prova. Você não foi você, você preferiu ser as fantasias que você mesmo criou, por isso você é sua mochila. E aqui mochila não entra!!!”
Como você acha que esta história acaba? Nós iremos concluí-la na próxima mensagem.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Você já esteve diante de sua alma?

Eu sei, você dirá, "como assim?" Certa a sua pergunta. Se você e sua alma são a mesma coisa, como isso seria possível? Tem um jeito.
Você conhece alguma história de encontros entre pessoas que começam namoros por correspondência (hoje internet) e marcam para se encontrar? Pois é, existem estórias por aí não só em romances e novelas, mas na vida real, em que dois seres enamorados um do outro preparam seu primeiro encontro, o que dá para chamar de aproximação física da princesa e do príncipe encantado...
Na interpretação corriqueira seguindo a cultura, a moça vai ao salão, encomenda um penteado, pinta as unhas, faz maquiagem, veste o melhor vestido, calça o melhor e mais bonito sapato. O rapaz idem, idem.
Também, por parte dela e dele há toda uma preocupação em causar uma boa impressão, evitar gestos ou palavras que possam estragar tudo.
O encontro mais importante daquela fase de suas vidas está por acontecer. Nada pode sair errado. E quantos namoros prosperaram depois de tais encontros? São incontáveis.
Então prepare-se amigo, amiga leitor(a). Estamos planejando colocar você diante de sua alma para que se apaixonem de uma vez por todas e acabe essa picardia boba entre vocês dois.
Como dois? Calma. Estamos falando da mente terrena, formatada pelo processo cultural de uma tradicional família e de uma mente eterna que pode estar a milhões de anos buscando seu crescimento espiritual.
Como é que vocês vão se amar se vocês não conversam, não namoram?
Este encontro não pode admitir a menor possibilidade de fracasso, a menos que o espírito esteja por abandonar o corpo ou o corpo esteja desejando livrar-se do espírito. É o seu caso?
Saiba que no primeiro caso é a morte; no segundo, é o suicídio.
Então não é o seu caso, certo? Se não for, ótimo. Veja como isso será maravilhoso.
Na verdade, o encontro dos “namorados” desta metáfora deu-se no instante da fecundação no ventre da mãe. A preocupação com a boa impressão é coisa passada, já foi. Aqui se está tentando aproximar alguém que já vive junto há muito tempo e não se conhece, não conversa, não se curte, não se preza, não se prestigia, quem sabe nem se ame...
Vai haver, sim, necessidade de franqueza e honestidade, não de parte do espírito, mas de parte da mente terrena, educada para levar vantagem, tirar proveito, ludibriar, driblar, buscar escapes.
Na maioria dos casos tem origem nessa malandragem todo o desacerto da vida terrena com a porção eterna.
Você quer, mesmo, ficar frente a frente com sua alma, conhecê-la, respeitá-la, amá-la?
Pense bem, decida convictamente e volte aqui para ler a continuidade desse texto.

Caminhante das estradas siderais...

...estamos construindo com você, caminhante das estradas siderais, cujo número (de leitores) vem aumentando consideravelmente, um espaço de leitura, transformação espiritual, identidade cósmica. Mas, não quero e não posso ser o guia. Caminhante ao seu lado, sim. Como dizia aquele guerreiro aos demais caminhantes: "não ande atrás de mim, não quero ser seguido; não ande à minha frente, não quero seguir ninguém; ande ao meu lado, seja meu parceiro".
Sinto falta de mais intervenções suas, comentários seus, questionamentos seus. A página está para isso. Aí abaixo, aonde diz "comentários" é o seu espaço, leitor. Ande ao meu lado, seja meu parceiro.

Os códigos da vida

Aqueles que não respeitam as leis são chamados de fora-da-lei. Para os homens, o fora-da-lei merece ser penalizado, trancafiado, reeducado, recuperado. Em algumas sociedades, o fora-da-lei é alcançado pela pena de morte.
Isso tudo está nos códigos elaborados pelos homens e tem a ver com as relações entre os homens e sua organização civil e militar. E quando nos fazemos fora-da-lei divina, como você acha que somos tratados? Do mesmíssimo modo.
Já obtive reações contrárias consideráveis quanto a este ponto de vista. Como existe uma sentença em cada cabeça, para certas pessoas é um absurdo pensar que Deus possa matar alguém porque a sua lei foi desrespeitada. É um absurdo pensar que Deus seria capaz de excluir, segregar, trancafiar um filho seu desobediente, um fora-da-lei.
Mas, na verdade, todo analista dos códigos da vida nunca poderá deixar de considerar todos os ângulos da questão. Nós não temos um Deus para cuidar dos pecados, das almas, do paraíso e outro para lidar com as florestas, os pomares, as lavouras, a saúde, o tráfego nas estradas. Tudo é uma coisa só.
Então aquele Deus que escreveu rígidos códigos de equilíbrio à saúde e deu a todos os seres o livre arbítrio de escolher o que comer, beber e como comportar-se, jamais fará descer sua espada sobre a cabeça do fora-da-lei, é este que opta por consumir-se, excluir-se, pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer.
Ou será que, na lei dos homens, o homem que optou por matar e roubar também não decidiu por pular fora do sistema a que ele foi chamado pertencer?
É isso, nada muda, aparentemente.
O motorista que toma a contramão para conduzir seu carro e bate contra o outro que vem em sentido contrário, optou ou não optou por correr o risco de matar e morrer?
Ah, mas, o pobre teve um azar danado, pois havia outro carro vindo em sentido contrário. Nada disso, existir carros no sentido contrário é da lei do tráfego, o que não é da lei do tráfego é trafegar na contramão, exceto com muita segurança para uma ultrapassagem.
Biologicamente falando nós estamos aqui travando contato neste texto porque nossos ancestrais souberam cumprir a lei, conseguiram transmitir aos seus descendentes os genes que hoje nos servem de veículo às nossas almas. Experimenta parar de ingerir uma determinada substância capital ao seu corpo, a água, por exemplo, e veja qual é o resultado. Sabes quantos seres humanos foram excluídos do sistema ao qual foram chamados pertencer por falta d’água? Bilhões. Alguns dentre eles terão sobrevivido? Provavelmente. O que é isso se não a seleção natural?
E você acha que espiritualmente também não existe uma seleção natural? Existe. Nós temos dois códigos para respeitar e sempre que os desrespeitamos somos jogados para fora do sistema a que fomos chamados pertencer. Um deles, já referido, é o biológico. O outro é o espiritual, possivelmente ainda mais sofisticado e exigente. Sempre que, vibracionalmente, nos conduzimos para fora do sistema (egrégora) a que fomos chamados pertencer, estamos saindo do sistema, deixando o sistema. Não é o sistema que nos exclui. Somos nós que optamos por sair dele.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Máscaras para iludir o que não pode ser iludido

Todo estudioso que tenha tomado interesse pelo xamanismo e/ou pela mitologia terá encontrado dentre outros sinais e locais sagrados aquilo que também pode ser chamado de “centro do mundo”: uma árvore, uma pedra, uma montanha, uma cidade... Que papel teriam os montes Sião, Olimpo, Meru, Macchu Picchu e as cidades como Alexandria, Jerusalém, Meca, Belém, Atenas, Roma, Medina, Santiago de Compostela, se não o de corporificar algo que, para os homens, é o símbolo do sagrado?
A produção de arquétipos é uma necessidade humana. Viemos de um vago imenso e estamos a caminho de uma essência: precisamos de balizas. O destino é chegar ao centro, ao âmago. Quando a alma conhece-se a si mesma, eis a verdade.
Se hoje, para alguns, os totens já não têm significado, para outros as imagens de poder ainda povoam os altares, os escapulários ainda são levados, como as guias, pendentes ao peito. Ainda se risca no terreiro o ponto de Ogum.
Precisamos do sinal da estação-mãe para nos sentir protegidos, numa vã comparação a um telefone celular: só tem sentido se tiver sinal.
Chegamos à modernidade e ao invés de nos emanciparmos com os seres maduros que constroem para si uma civilização de paz e amor, nos perdemos nas drogas, no alcoolismo, nos fetiches da pior energia. A busca do centro do mundo mudou de sentido.
Veja: uma vez, Alexandria simbolizava a liberdade, a criatividade, o pluralismo espiritual, quase em oposição a Jerusalém, símbolo da lei, da temível majestade senhorial do patriarca da religiosidade semítica. Mas, ambas tinham sentido.
Todos os episódios dos primeiros séculos cristãos foram transformando Alexandria em uma cidade turística e mística, foram transformando Jerusalém numa cidade mística e turística. Enquanto isso, Roma chamava para si o brilho de uma religião sem espírito, dogmática, materialista. E, por isso, sem o encanto sagrado.
Enquanto outros pontos do planeta iam conquistando vigor sagrado, Jerusalém, após derrotar (no prestígio) a Alexandria e a Atenas, foi ganhando foros de uma arena sobre a qual três crenças fazem disputa por uma das três verdades sagrada.
Com imensa saudade do significado sagrado daqueles ex-centros do mundo, muitos de nós vamos fundando novas Alexandrias, novas Jerusaléns, novas Beléns, novas Romas, bem como o homem que se renova por fora e continua o mesmo por dentro. O sagrado de nossas almas continua a pedir-nos revitalização ampla, consideração absoluta, respeito máximo, valor integral. E enquanto nós não enveredarmos decididos em sua direção, ir-nos-emos perdendo nos pontos de fuga para a escuridão, para o lodo, para a ambivalência, em que o consolo é a embriaguez, o doping, a droga.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A "morte" do Espírito e a morte do "corpo"

Escritos muito antigos dos pré-socráticos e dos gnósticos, estes com algo de essênios e talvez muito próximos de Jesus, falam da noção oculta da palavra “morte”, cuja sabedoria psicológica foi muito respeitada e elogiada por Jung, o mais espiritual dos psicanalistas antigos que conheço.
Entendiam aqueles monstros do saber nascente, ao tempo de Jesus, que para existir um elemento o outro tem de morrer. Biologicamente dá para aceitar quando se pensa que a semente morre para que exista o arbusto, a árvore; as moléculas de glicose precisam morrer para que a energia seja absorvida pelo corpo; o nosso Sol está morrendo para que haja luz neste recanto da Galáxia; e assim, vários outros exemplos poderiam ser alinhados. Mas, será que o corpo realmente morre ou apenas se transforma?
E agora? Na troca de dimensão observa-se o mesmo princípio?
Do biológico para o espiritual, sim. A alma se liberta com a morte do corpo biológico. E haverá, ao menos, simbolicamente, uma morte do Espírito enquanto encapsulado no corpo biológico? Não, literalmente, ao que se ensina.
Temos poucas chances de lembrar de vidas passadas, mas delas recebemos fragmentos quando o processo é bem conduzido. Então, o Espírito não morre ao entrar na cápsula biológica. Sua memória de largo prazo é eclipsada, possivelmente por um ato de extraordinário amor do Planejador da Vida. Já temos notícias de perturbações arrasadoras trazidas para a mente biológica quando fazemos acessos inseguros ao arquivo espiritual. Mas, isso aqui não é uma discussão psiquiátrica e então fiquemos na Filosofia.
Os iniciados em espiritismo admitem a existência de vidas passadas, não apenas trazidas às lembranças por conta da memória genética (esse é outro assuntos para outra página) e então os comportados cidadãos da atualidade, de ambos os sexos, podem ter passagens por um ou vários daqueles episódios da História, que só envergonham-nos atualmente. Mas, aqueles eram outros tempos e naqueles tempos, sim, se podia matar em nome de uma “causa” fosse ela qual fosse. Hoje nós defendemos a vida dos cães, tartarugas, micos ameaçados. Somos nós, também, uma espécie ameaçada e, quanto a isso, pouco considerada.
Então, peguemos aí um gladiador romano reencarnado atualmente num jogador de futebol. E as reencarnações demonstram alguma coerência. E abra, ao craque da atualidade, as lembranças daquelas outras batalhas. Ele, com a índole que hoje tem, fugiria da arena e iria internar-se num sanatório.
Por isso, o Planejador da Vida providenciou o “esquecimento” do passado enquanto a memória atual trabalha os avanços do “gladiador” que, ao invés de matar sua vítima, derrota-a no drible, na astúcia, no placar, ainda para delírio da platéia.
Os transtornos mentais podem estar precisando de uma obra recuperadora capaz de cobrir de dignidade a memória que teima em remoer episódios recorrentes que atuam como monstros assustadores, tema para a psicanálise.
A memória velha precisa “morrer” enquanto a memória nova se descobre a si mesma não como adversária do Plano da Vida, mas como sua aliada.

Temos um espírito ou o Espírito nos tem?

Esta é a primeira discussão deste novo, novíssimo blog. A maioridade espiritual buscada neste espaço, entre outras coisas, passa pela compreensão assumida de que o corpo físico é veículo do Espírito e que tudo quanto produzirmos usando este complexo e maravilhoso veículo, irá para a conta do Espírito, será incorporado ao capital espiritual e formará saldos positivos ou negativos.

A presença do Espírito no corpo é a maior das aventuras possíveis ao ser espiritual. O ato de mergulhar num corpo, aprisionar-se por algum tempo, exercitar experimentações, assumir responsabilidades, efetuar ganhos ou simplesmente navegar ao sabor do vento, é algo bem maior que a maternidade ou paternidade deste mesmo ser. Não estamos zerando a responsabilidade espiritual de pai e mãe de ninguém. Só estamos assumindo o risco de afirmar que o próprio Espírito que se encarna tem para consigo maior responsabilidade que têm os seus genitores.

À parte todo o envolvimento amoroso dos pais e além da co-autoria do ser gerado está a própria aventura do Espírito aventureiro. Não podemos, nunca, esquecer que ao encarnar trocamos um mundo de liberdades, verdades, autenticidade, ética, inequívoca hierarquia, absoluta disciplina por um imponderável mundo caótico - esse que temos aqui e agora, aonde a mediocridade parece imperar. Passar esta travessia exige do Espírito - e veja que ele não dirige, quem dirige é a mente terrena - muita sabedoria e astúcia. Evoluir no mundo espiritual não é diferente do que evoluir no mundo biológico. Cada um de nós pode avaliar o que tiveram de fazer os nossos ancestrais para nos entregar o capital biológico que nos serve? E cada um de nós pode avaliar o que seja a estratégia de evoluir espiritualmente? Está aberta a discussão para que cheguemos à Maioridade Espiritual.