segunda-feira, 31 de maio de 2010

Para falar de amor (II)

Existe, porém, amores e amores. A quase totalidade dos humanos aprende o amor no seio materno, que é quando, segundo Freud, ocorre uma conexão de extremo sentido entre filho e mãe. Talvez não seja Freud o último a falar sobre esse tema, como de fato não é, pois escapou de sua perspectiva o sentir não material e os desdobramentos que se projetam para além dos sentimentos.
O amor pode ser explicado, no mínimo, em duas dimensões. Na de Freud, vamos até o cérebro e dele às anfetaminas que inundam a circulação sanguínea dos amorosos e alteram muito do comportamento regular de humanos e animais. Em regime fortemente amoroso, altera-se o apetite, o sono e outras regras preexistentes que o organismo conhece e respeita em condições não extraordinárias. Animais e pessoas conseguem ficar acordados e sem se alimentar por longos períodos quando as anfetaminas lhes inundam o organismo. Atendidas as necessidades ditadas por esta situação, são as endorfinas que se derramam trazendo as sensações do prazer, da paz e da languidez.
Na outra dimensão, a análise escapa um pouco da ciência atual. Para tratar dela sem dispensar os processos químicos da anfetamina e da endorfina, temos de envolver as ligações entre a criação e o criador do universo, procurando estabelecer o que a inteligência superior foi capaz de introduzir no programa da criatura e só então particularizar até onde chega o instinto e até onde alcança a proposta da vida.
Pelos mesmos motivos que o facínora sente remorsos por haver golpeado o princípio da vida e o apaixonado, por ciúme, perde o controle, mata e depois ao remorso se arrepende, os estudiosos do homem estão sendo cobrados: é preciso interpretar o homem e a vida.
Se a consciência reside na alma, pode-se relacioná-la a con-scire, que através do latim significa conhecer junto. E então sugerir que ali se aninha a programação do criador para com a criatura, onde se poderia incluir o princípio amoroso natural que conhecemos, presente em tudo que existe.
A ciência deve ousar em suas buscas, inverter a mão da investigação, partindo do subjetivo para o objetivo e não do oposto como hoje faz. É muito provável que Freud e outros experimentadores já estivessem ultrapassados (como de fato estão) e a realidade das ciências humanas e sociais estivesse em muito alterada.

domingo, 30 de maio de 2010

Para falar de amor (I)

Há muitas definições para o amor e também muitos sobrenomes para ele. Amor à primeira vista, amor carnal, caridade, amor físico, amor universal, amor fraterno, paixão, fazer amor, dar amor, amor platônico, amor próprio, amor de mãe, etc.
Costuma-se apresentar o amor como um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem do outro ou de alguma coisa; como desejo de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa ou causa; devoção, culto, adoração, inclinação ditada por laços de família; inclinação forte por pessoa de outro ou do mesmo sexo e geralmente de caráter sexual, e também afeição, amizade, carinho, simpatia, ternura.
Mitologicamente, o amor é apresentado como Cupido.
O amor é ativo, caloroso, positivo, atuante, vivo, vivificante, doador, voltado para a construção.
O oposto do amor, ao contrário do que se costuma pensar, não é o ódio, é a estagnação. A estagnação é passiva, fria, negativa, estática, morta, mórbida. O ódio é a ofensa, a ferida do amor, a doença do amor e como tal também ativo, caloroso, positivo, atuante, vivo, vivificante, ofensivo, voltado para a vingança e a destruição.
Dificilmente se percebe o amor e o ódio sem a palavra, sem a ação. Logo, esses dois sentimentos, na maior das vezes, não são teóricos, são práticos.
Distribuído por uma gama de formas e conceituações, o amor, sem nenhuma dúvida, está na natureza. Qualquer observador que deseje testar a razão de ser da água, da terra, do ar, do fogo, dos vegetais, dos animais, peixes e aves e de toda a infinidade de vida que conhecemos, terá como resposta tratar-se de algo amoroso, doador, extremamente amoroso a ponto de os integrantes das numerosas cadeias existentes cederem parte de si próprios ou seu todo para compor o equilíbrio e evitar que parte do todo sofra solução de continuidade. Há quem relacione no gesto extremo de Jesus Cristo uma repetição do que assistimos todos os dias bem à frente de nossos olhos em toda a natureza não humana e em menor escala também na humana. Por amor.
De forma idêntica a tudo mais que compõe a vida, os humanos se apresentam na natureza tendo o amor por princípio e o bem por objetivo. O desamor e o mal lhes são ensinados.
Assim como pai e mãe joão-de-barro constroem juntos um lar, fecundam e desabrocham a vida e percorrem as redondezas em busca de minhocas e insetos para depositar no bico dos filhotes, e os aquecem durante o crescimento, pai e mãe humanos desde os primórdios de suas vidas demonstram esses e outros cuidados entre si e para com a prole. Alguém sempre poderá afirmar que se trata do instinto de preservação. Sim, é isso. Mas, por amor, não por desamor.
“Para o homem primitivo, para a sobrevivência da espécie, foram importantes dois aspectos do relacionamento com o sexo oposto. O primeiro, foi manter os homens e as mulheres atraídos um pelo outro tempo bastante para fazerem sexo e reproduzirem. O segundo, foi tornar os homens tão fortemente ligados às mulheres que ficassem por perto enquanto elas criassem os filhos e ajudassem eles a arranjar alimento, encontrar abrigo, expulsar os predadores e ensinar às crianças algumas habilidades” (LEIBOWITZ, 1983). Sem isso, esta espécie, como 97% das outras que havia no planeta, teria sido extinta.

sábado, 29 de maio de 2010

Que tal falar de vazio? (epílogo)

Desde o primeiro tomo da série “que tal falar de vazio?” foi dito que a vida tem ritmo, oscila e vibra no vazio. Aonde não existir o que pensamos ser a matéria, existe o fluido capaz de se transformar em novos eventos.
Foi dito que correr acima do ritmo é perder a oportunidade de viver o presente que a vida nos entrega: o tempo. Quando se anda muito depressa não podemos ver o que está acontecendo, não celebramos, não degustamos, não saboreamos, não gozamos.
É na ocupação dedicada, intensa, atenta com as coisas que podemos, de fato, sentir e viver intensamente.
Sonhos, contemplações e meditações são formas de deixar as coisas aparecerem.
Para reciclar nossos modos de entender estes três instrumentos de interação espiritual: não devemos pensar separadamente quando sonhamos. Isto é, pensar que somos uma coisa e que o sonho é outra coisa. Isso é incorreto. O sonho é uma narrativa por vezes estranha, outras vezes um meio sem mensagem, sem intencionalidade, sem destinatário. O sonho é uma lide de nós conosco mesmo, é a alma mostrando-se a si mesma. Poder-se-ia dizer, o eu profundo mostrando-se ao eu superficial.
No sonho, as coisas se mostram por si mesmas, fabricando por conta própria narrativas, fazendo-nos ver, enfim, o que somos. No sonho somos os protagonistas de uma história que nós não engendramos, não criamos, não inventamos, tudo é real.
Por isso, os sonhos nos impressionam. Eles nos fazem ver aquilo que de outra forma dificilmente veríamos. E não adianta querer decifrá-los. Não há um código, uma regra, uma língua, uma cifra. O sonho é a manifestação do obscurecido, recalcado, oprimido e comprimido ser que foi aprisionado por nossa racionalidade vigilante. Só com muita sapiência é dada a faculdade à mente terrena interpretar a mente eterna. Ficamos muito tempo longe disso e agora a caminhada de recuperação é extraordinariamente longa.
Mas, não tenhamos pressa. Pessoas apressadas, tensas, angustiosas, não celebram, queimam etapas. O vazio lhes apavora. O silêncio lhes apavora. Ouvem pouco e quando ouvem não sentem, empanturram-se, preenchem-se, inundam-se, como fazem os esganados, os bêbados, os afobados.
Educar-se para estacionar no vazio e nele criar com a força mental, as coisas que nos farão melhores para a vida, é um exercício para nos tornarmos parceiros de Deus.
Contemplemos a vida em silêncio. Meditemos calmamente sobre a vida. Além de nos capacitar como parceiros de Deus, iremos descobrir pouco a pouco qual é a profundidade do lago chamado consciência.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Que tal falar de vazio? (III)

As sereias vão cantando e as pessoas vão marchando algumas em delírio, outras em devaneio, algumas poucas em depressão, mas a maioria acometida de euforia. Vão tentando dar-se conta de tudo, passar por tudo, não perder nada, tudo experimentar, tudo vivenciar, em tudo participar, pois com tanta oferta de coisas, como é possível perder alguma? Mas, nossa capacidade é limitada. Não temos condição de dar conta de tudo. Embora queiramos, não somos máquinas. Dentre nós, em meio a tantos que beiram à imbecilidade, alguns vêm despontando e descobrindo o que um velho poeta identificou como ladainha diabólica para nos escravizar. Num extenso poema intitulado “Libelo contra um ladrão de sonhos, anseios e devaneios”, Mano Terra diz textualmente: “Parece que o demônio comprou o tempo e insiste em trocá-lo por dinheiro”. Nesta metáfora está implícito que nós entregamos nosso tempo (isto é, nossa vida) para obter dinheiro e assim poder trocá-lo por coisas, coisas que escravizam ao invés de libertar. Diz o poeta: “E sempre aparecem demônios novos, sempre mais aptos a negociar novos tarecos inventados. É isso, somos escravos do demônio. É ele que insufla nossa vontade e nossos impulsos. É ele que nos rouba nossa capacidade de sonhar. Os sonhos já vêm empacotados, prontos, sonhados”.
O aumento das atividades, sua multiplicação infinita, sua reprodução desordenada, essas milhares de coisas que temos de fazer, que precisamos dar conta e que nos inundam, são feitas apressadamente, de afogadilho, não importando como, o que importa é que se faça. E a vida resume-se nessa massa de experiências mal-vividas, nessas pessoas mal-amadas, nessa existência mal-sentida. Isso tudo porque não podemos perder tempo. Queremos ganhar tempo, correr, investir em novas agitações frenéticas para ganhar mais tempo. E se o poeta não estiver equivocado, ganhar tempo para trocá-lo por coisas escravizantes.
Somos seres que têm angústia de terminar as coisas, para levá-las a um fim, para realizar aquilo que fazemos até sem perguntar por quê. Fazemos isso até nos momentos mais sublimes do amor. E quando acabamos, o vazio nos angustia. E não nos apercebemos que o fim sempre é a morte. Só temos olhos para o ponto de chegada. É lá que entendemos estar a nossa felicidade. Fazemos tudo para adiá-la. O nosso sonho está lá adiante. Não damos tempo a que o sonho se realize hoje, agora. Então vamos adiando o sonho e nunca chegaremos nele.
Já se falou aí atrás de que andamos, corremos, mas, na verdade, não saímos do lugar, igualzinho ao cachorro que persegue sua própria cauda. Isso não é andar. Isso é inércia. E inércia é morte.
Dá para mudar isso?

Que tal falarmos de vazio? (II)

Segundo Joachim-Ernst Berendt, o mundo, na realidade, é basicamente formado pelo vazio. Em sua obra “Nada Brahma”, recheada de conhecimentos subatômicos e de sabedoria oriental antiga, discorre que a vida, tudo enfim, não passa de vazio e ritmo. As coisas que vemos, por exemplo, esses objetos à nossa frente, incluindo o computador que nos reúne e as pessoas com as quais temos relações, são de matéria, mas a matéria, em verdade, é uma ilusão, ela não existe, concretamente.
Diz Rerendt: se olharmos nosso próprio corpo, aquilo que vemos inicialmente, como a nossa mão, nossas veias, nossas unhas, nossa pele, etc., quando ampliadas por com um microscópio eletrônico, tudo começa a “dissolver-se”, isto é, vemos em nosso corpo as fibras musculares como se fossem cristais. Elas se tornam longas e bem ordenadas espirais de moléculas, moléculas que balançam como o trigo ao vento num campo aberto. Elas oscilam por ondas invisíveis que pulsam bilhões de vezes por segundo.
Chegando mais perto dessas mesmas moléculas, vemos que elas compõem-se de átomos, que são microscópicas esferas vagas, pouco claras, dançando ali em seus lugares específicos, trocando posição com suas parceiras, ritmadamente. Se nos aproximarmos desses átomos, o que são eles, na verdade? Notamos, pelo microscópio eletrônico, que em seu exterior há uma nuvem de elétrons e que se abrirmos a “casca”, percebemos que dentro nada há. Mas, sabemos, diz Berendt, que há lá um núcleo, então onde estaria ele? Damos uma olhada geral no ambiente e encontramos, sim, um núcleo, pequeniníssimo. Enfim, lá há algo de matéria? Não! É ilusão. Quando nos aproximamos do núcleo do átomo vemos que ele se desfaz, ele não passa de um campo oscilante em ondas rítmicas. No interior do núcleo há prótons e nêutrons e partículas ainda menores, mas se chegamos bem perto delas, elas se desmancham em oscilações e vibrações.
Para se ter uma idéia da proporção de tudo isso, imaginemos um edifício bem alto, o maior de sua cidade. Digamos que ele é um “átomo”. O tamanho do núcleo desse edifício-átomo seria mais um menos o mesmo que um grão de sal, vibrando numa velocidade de 60 mil quilômetros por segundo. Pensemos, agora, numa pessoa de 70 quilos. Se pudéssemos comprimir todos os núcleos atômicos dessa pessoa, seu tamanho se reduziria a um minúsculo pontinho numa cabeça de alfinete, mas seu peso seria de 70 quilos e teria uma energia potencial de deslocamento capaz de remover toda uma montanha, a maior aí da sua região.
Diz este estudioso que os cientistas ainda procuram a base, o fundamento, o elemento constitutivo do mundo material; afinal, onde está o sólido? Por isso eles pesquisam partículas infinitesimais, unidades subatômicas chamadas quarks, que uma vez aproximadas também se perdem. Não têm nenhuma rigidez, pouco se sabe de sua velocidade e de sua posição, parece que são apenas relações e vibrações. Em suma, o corpo humano não passa de vazio e ritmo, apenas uma “dança”. Logo, o vazio é a forma.
Se não temos em nós microscópios possantes para ver e ouvir a dança da vida, busquemos identificá-la ouvindo-a com o coração. Melhor ainda, com a alma. A alma estará vazia e captará a realidade.
Os orientais falam do vazio porque dizem que o homem está demasiado “cheio” a ponto de não poder perceber o mundo. E se prestarmos atenção ao nosso modo de ser, concluímos que temos excesso de movimentos, de atividades concomitantes, de informações, de preocupações, de necessidades, de buscas. O mundo se torna um painel luminoso com pontos brilhantes o tempo todo, cada um atraindo a atenção mais que o outro, todos alucinando a vida das pessoas, apelando, chamando, seduzindo, sugerindo, hipnotizando, evocando, dizendo “venha, venha”, como a sereia da viagem de Ulisses, que o atraia para destruí-lo.
Como sobreviver espiritualmente a tudo isso?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Que tal falarmos de vazio (I)

Já se disse que os cosmos é um grande vazio negro e silente, e que o que nele aparece aos olhos orgânicos/mecânicos/eletrônicos é a matéria condensada representada pelas galáxias, nebulosas, estrelas, planetas, asteróides, satélites, meteoritos e, evidentemente, toda a natureza da qual temos consciência. Cabe dizer, também, que mais recentemente aquele espaço está compartilhado pelas sondas, estações, satélites e equipamentos lançados desde a Terra pelos homens.
Tudo o que se escreveu aí nessas linhas é quase a verdade toda, exceto o que diz respeito ao vazio negro e silente. Negro sim, talvez nos espaços não ocupados, mas vazio não e também não silente.
Aquilo que nos parece escuro e vazio, na verdade, é preenchido pelo fluido universal, uma cola invisível, energética, um amálgama obediente ao comando da mente. Cada mente comanda o que cabe no seu poder. Muitas mentes associadas a um só objetivo comandam o que cabe no seu poder.
Estas afirmações não pertencem mais aos textos da Filosofia Espírita e já não são mais estudados apenas por quem tenha interesse nos escritos de Allan Kardec. Esse tema já é discorrido em congressos de astronomia e biologia, sendo Ruprecht Sheldrake o cientista (inglês) mais aplaudido em virtude das suas experiências sobre o que chama de campos morfogenéticos. Sheldrake ou alguém depois dele estará muito próximo de desvendar o poder de construção mental tendo o fluido cósmico como matéria-prima, fazendo ensaios que talvez se aproximem daquilo que a mente do criador dos mundos possa ter feito em relação ao Universo.
E aquilo que pode parecer um grande silêncio, na verdade produz um som contínuo, como se fosse uma infinidade de máquinas elétricas ligadas ao mesmo tempo, vibrando suavemente, sem irritar.
Nesse imenso “vazio” está o universo do futuro, o mundo por construir, o sucesso das civilizações de todos os mundos habitados ou seu fracasso.
Como é gratificante sonhar com o poder humano associado ao livre arbítrio, apto a modelar a partir dos projetos mentais as realidades que irão se descortinando. Vale para a ventura humana ao pilotar um corpo biológico saudável, como para descobrir depois que ele adoece, que o poder de cura também é nosso. E vale para os grupos sociais, cujas egrégoras mentais acabarão por se tornar matéria plasmada cedo ou tarde.
Essa maravilha, que também pode merecer o nome de milagre, é que torna o ser humano digno da condição de ser divino.
Quando nos ensinam a meditar, numa tentativa de fazer a mente parar entre o passado e o futuro milionésimo de um instante (vazio), os mestres estão sugerindo que visitemos o “vazio”, pois a mente não segue o tempo, a mente estaciona na eternidade, aonde recebe as contribuições que farão parte da consciência, que também é eterna, como o espírito.
Existem pessoas que tem horror ao vazio, doença também chamada de “horror vacui”. São aquelas que não podem ficar um instante sem falar, sem ligar o som, sem bater com os dedos sobre a mesa, sem bater sobre o volante do carro, sem mexer a perna ou o pé, sem esfregar as mãos, etc, e cujos gestos fazem delas emissoras contínuas de conteúdos para o “vazio”, conteúdos que, em geral, não têm nenhuma importância para a vida. No sentido oposto também não se fazem receptoras de nenhum conteúdo de importância para suas vidas. Quem sabe pudéssemos compará-las com o aluno que durante as aulas não presta atenção no que ali se passa, fazendo suas traquinagens o tempo todo. Descobre, o infeliz, no final da trajetória, que tudo quanto fez foi jogar fora o tempo precioso que a vida lhe presenteou, melhor dizendo, jogar fora a vida preciosa que o tempo nos entrega.

Cada caso é um caso, mas os sinais estão aí

Acaba de encerrar-se a série “Somos a nossa própria história”, longa e cansativa, destinada a mostrar ângulos da construção da História humana sob o ponto de vista de alguns monstros sagrados da literatura. Um resumo, numa frase: a melancólica realidade de como todos escrevemos nossa história e que como a história individual se funde na grupal e vai consolidar a história da humanidade, com o agravante de que talvez 80% dos homens e mulheres não são autores de sua própria história e da História Humana.
Tentativas houve, como vimos. Talvez haja no futuro.
O nascimento das cooperativas acompanhando o tremendo estrago social causado pela revolução industrial seguida do capitalismo. O nascimento dos sindicatos, praticamente à mesma época, vieram demonstrar como seria possível barrar o avanço do poder governamental, econômico e religioso sobre a sociedade. Os antigos pedreiros, os antigos carpinteiros, os antigos carvoeiros e outros mestres das profissões possuíam organizações que hoje podemos comparar com os conselhos regionais, com alguns sindicatos e com algumas cooperativas de nosso tempo. Mas, o poder governamental aliado ao poder religioso fez de tudo para solapar aquelas organizações que confrontavam o domínio de reis e prelados sobre as massas.
A história de todas as nações que conhecemos, melhor dizendo, as conquistas de todos os povos que se conhece passa pelo grau de liberdade e autonomia por eles conquistados.
Vou adentrar, agora, num terreno espinhoso, mas espero a elevação intelectual dos leitores para não ser interpretado de forma leviana, nem rotulado de faccioso.
A história de todos nós, no Brasil, sob os pontos de vista governamental e econômico, foi escrita por reis, generais e “coronéis” (nada há de preconceituoso em relação aos militares e sim quanto ao modelo de poder) e mais da metade dos nossos presidentes usaram fardas, enquanto a outra metade representaram os latifúndios, numa sucessão de períodos de quase zero democracia.
Se tudo isso tivesse como resultado um país desenvolvido e justo, a análise não seria tão contundente.
Nestes míseros últimos 30 anos de democracia (e veja que nossa democracia ainda é pífia), tivemos o fenômeno Lula. Um operário com curso médio inacabado, pobre, chega à presidência num país com 500 anos de dominação das elites ricas. Absurdo? Para muita gente, sim.
Mas, abra os olhos, leitor. Algo novo está no ar, além de aviões de carreira, urubus, outros pássaros, alguns balões e algumas pipas.
Os Estados Unidos, de longa tradição racista, elege um negro.
A Bolívia, num caso parecido com o do Brasil, elege um índio.
E as mulheres, umas atrás das outras, chegando ao poder.
O que seria isso, se não os sinais dos tempos? De que tempos?
Hoje, quando esquentam as discussões sobre as eleições de outubro próximo e muitos não entendem como é possível uma mulher desconhecida, acusada de terrorista, já estar à frente de Serra, a resposta é simples: o povão já não vota na elite como votava antes de 1980, época em que negro não votava em negro, pobre não votava em pobre e mulher não votava em mulher.
Tivemos muita coisa sendo feita em favor dessa nova consciência política? Não!!! O pior é que não, mesmo! Qual é a explicação? Sinais dos tempos.
A explicação para fenômenos como este pode estar na Era de Aquário, que parece coincidir com a Era do Espírito Santo, de ascendência feminina, lembrando a mãe no comando do lar, do país, do planeta.
O que acontecerá com o seu Município, seu Estado, seu País, seu Planeta, vai depender da consciência sua, minha, de todos nós, que escrevemos nossa história somando sucessos e fracassos.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (epílogo II)

Você já ouviu falar ou leu algo que tenha dois epílogos? Pois se não havia tomado conhecimento de coisa semelhante, hoje isso se tornou realidade. Aqui está uma série de artigos que têm dois epílogos. Por via de dúvida leia novamente o epílogo I antes de prosseguir na leitura aqui.
No epílogo I vimos uma conclusão crítica à visão teológica que promete um salvador, um libertador, um herói, um mito capaz de tirar chapeuzinho vermelho das unhas do lobo mau, carregando chapeuzinho vermelho para sua creche aonde evidentemente receberá os cuidados que uma criança deve merecer para nunca mais atrever-se a sair pela floresta.
As religiões do passado ofereceram salvadores, editaram mandamentos, souberam como nunca dizer aos homens o que não se deve fazer. Seus regimentos contém mais “nãos” do que “sins” e todas as suas promessas de igualdade, fraternidade e liberdade foram entregues em mãos de déspotas muito mais preocupados em proteger os seus afilhados do que em promover igualdade e fraternidade. De liberdade nada se pode dizer porque quase nada mesmo aconteceu.
Com raríssimas e honrosas exceções, o povo foi treinado para trabalhar sob o mando de um chefe, obedecer como as ovelhas obedecem a seu pastor, tomar cuidado para não enriquecer, eis que a riqueza era inimiga da virtude e detestar todo prazer, eis que o prazer era o braço da tentação do demônio.
Por acreditar nesta balela (que nem para os prelados e imperadores foi verdade), bilhões de pessoaos foram aglutinar-se no interior das sempre novas corporações religiosas que surgiram. Já temos mais de 2 mil seitas ou igrejas, pois fica confuso falar em religião ou templo, dadas as conceituações corretas que deveríamos dar a estas duas palavras.
Se hoje ainda há lugar para tanta obediência aos absurdos que se cometem sob o disfarce religioso, a raiz de tudo está lá.
Existem seitas determinando em quem os fiéis devem votar para vereador, deputado, senador. Nas listas de políticos corruptos publicadas pelos sites que se dedicam à transparência na vida pública, metade dos nomes lá inseridos são de representantes eleitos nestas condições.
Há 75 anos atrás, os “coronéis” da política obrigavam seus dependentes economicamente a votarem nos candidatos comprometidos com a economia do latifúndio. Hoje, os “agentes de Deus” obrigam seus dependentes crentes a votarem nos candidatos comprometidos com alguma coisa não visível que, infelizmente, emerge como coisa muito mal cheirosa.
O que pensar da evolução humana numa condição dessa?
Os textos sagrados que lhes servem de inspiração foram escritos para mentes com 5 mil, 7 mil anos de idade. Não foram atualizados, não são trazidos, muitas vezes, nem para o contexto crístico, pois se apegam quase sempre aos antigos testamentos.
Quando se detém no aspecto da espiritualidade, o é para lidar com obsessores. Nenhum espírito entre nós é do bem.
E se houver um salvador, este virá sob a tutela dos que prometem sua vinda. E isso não acontecerá de graça. Tem um preço. E não será para todos.

Somos a nossa própria história (epílogo I)

Visão linear, visão esférica da História: encontramo-nos aqui confrontados com duas sensibilidades diferentes que não pararam de se opor, que se opõem e que continuarão a se opor. Estas duas sensibilidades coexistem atualmente. Num espetáculo como aquele dos apocalipses, de um lado, o salvador montado numa nuvem distribuindo passaportes para o Reino dos Céus aos seus escolhidos (mérito a quem rezou, foi aos templos, cantou, ergueu os braços, bateu palmas, obedeceu as leis, salvou-se). Esta é a opção pela sensibilidade hipócrita igualitária sonhada e obtida, parcialmente, apenas pelos escolhidos. São mais iguais os salvos e muito menos iguais os não salvos. Os salvos vão para um lado como eleitos e os condenados vão para outro como (eleitores?) não eleitos. Reside nesta visão absurda a outorga cultural para que haja ricos e pobres, sãos e doentes, ilustrados e analfabetos. Por esta visão, ficam de fora, em tese, os que escravizaram e os que se deixaram escravizar, os que corromperam e os que se deixaram corromper, os que se prostituíram e os que se deixaram prostituir, os que impuseram dor e sofrimento e os que aceitaram a dor e o sofrimento.
Esta é a batalha final do Armagedon, em que a promessa é a de varrer toda a iniquidade com o envio dos iniquos ao fogo eterno e com a reinstalação dos eleitos no Jardim do Éden, a grande creche destinada a abrigar as crianças, os que não cresceram, os adolescentes sem vontade de mudar, os adultos omissos e os anciões sem esperança.
À porta do Jardim haverá uma faixa: “aqui jaz o fracasso de Deus para com os homens”.
Fracasso, sim, pois que nem o salvos, nem os condenados evoluíram, não se emanciparam: os pretensos salvos são devolvidos à creche e os pretensos condenados são enviados à prisão perpétua. Se a proposta de Deus poderia ter sido entendida como de evolução, avanço, emancipação, o fracasso está posto inequivocamente.
Apenas por uma questão de mera curiosidade, vamos dar uma olhadinha na outra possibilidade?
É muito simples. Aqueles que aprenderam as lições da vida vão se tornando capazes, autônomos, vão se adiantando, vão ocupando as posições avançadas, vão afastando de suas existências os conflitos, a escravidão, a exploração do homem pelo homem, a dominação através de discursos hipócritas, através de promessas salvadoras e demagógicas, através de armadilhas clientelistas e paternalistas. Por acaso, não poderiam ser estes os eleitos de Deus?
Isso mesmo, este é o termo, livres, salvos, independentes do paternalismo.
Quando deixamos o Éden, o pai teria dito, agora é tudo com você, filho: frutificai, multiplicai, enchei a terra e submetei-a; que o homem reine sobre os peixes, as aves, os animais e sobre toda a terra.
Evidentemente, esta outorga implica a que os homens assumam as consequências de suas ações e respondam por elas em todos os detalhes. Isto é, façam sua história. Não haverá um salvador. Ou salvamos-nos todos juntos ou ninguém se salvará.
Esta equação implica resgatar para a consciência de que temos de crescer, aprender, transformar, sem excluir os que se dizem eleitos e sem excluir aqueles que os eleitos dizem ser os condenados.
Ou nos salvamos todos ou teremos de amargar por muitos milênios a pecha de sermos protagonistas do fracasso dos homens perante Deus e não o contrário como poderia estar escrito junto à porta do Jardim do Éden.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (X)

O passado surge então como uma prefiguração do presente e do futuro. É, no sentido próprio, a imaginação do futuro: que é um dos significados veiculados pelo sonho do Eterno Retorno.
Consequentemente, é claro que, a visão que Nietzsche nos propõe, o homem assume a inteira responsabilidade do devir histórico, seu e da humanidade em que se insere. A História é uma obra sua. O que vale por dizer que assume também a inteira responsabilidade de si próprio, que é verdadeira e totalmente livre; faber suae fortunae – o homem é artifice da sua própria sorte. Esta liberdade é uma liberdade autêntica, não uma liberdade condicionada pela Graça Divina ou por constrangimentos de uma situação material econômica. É também uma liberdade real, vale dizer, uma liberdade que consiste na possibilidade de escolher entre duas opções opostas, opções existentes em todos os momentos da História e que sempre colocam em causa a totalidade do ser e do devir do homem (se estas opções não fossem sempre realizáveis, a escolha não seria se não uma falsa escolha, a liberdade uma falsa liberdade, a autonomia do homem uma aparência).
Ora, qual é a escolha oferecida ao homem da nossa época? Nietzsche diz-nos que esta escolha deve fazer-se entre o “último homem”, isto é, o homem do fim da História, e o impulso rumo ao superhomem, isto é, a regeneração da História. Nietzsche considera que estas duas opções são tão reais como fundamentais. Afirma que o fim da História é possível, que deve ser seriamente examinado, exatamente como é possível o seu contrário: a regeneração da História. Em última instância, o êxito dependerá dos homens, da escolha que farão entre os dois campos, o do movimento igualitário que Nietzsche chama de movimento do último homem e o outro movimento, que Nietzsche se esforçou por suscitar, que já suscitou, e que chama o “seu” movimento, o movimento do homem no rumo de si mesmo.
Ou será que ainda possa existir alguém que acredite que não há remédio para esta humanidade?

Somos a nossa própria história (IX)

É, pode ser, você deve estar um pouco confuso(a) com tantas voltas dadas em torno de uma esfera para explicar o curso da História, que é a própria vida. Mas, o que fazer? Nós sempre preferimos comer pelas bordas tudo quanto possa ter jeito de angu.
Brincadeira à parte, a coisa é mesmo assim, nada pode ser antecipado. É como gravidez. Se antecipa, aborta, ou vai parar na incubadeira – o que vale dizer, novamente numa espécie de útero. O amanhã sempre será amanhã. Então vivamos o agora, que é presente, o melhor dos presentes.
E quando o seu e o meu presente são feitos de dor, sofrimento, angústia?
Tudo isto pode parecer complicado, assim como a teoria da relatividade é, ela também, complicada. Para ajudarmo-nos recorramos a algumas imagens. O passado, para Nietzsche, não corresponde, de fato, ao que foi “de uma vez por todas”, elemento congelado para sempre que o presente deixaria para trás de si. Do mesmo modo, o futuro não é já o efeito obrigatório de todas as causas que o precederam no tempo e que o determinam, como na visão linear da História. Em cada momento da História, em cada “atualidade”, passado e futuro são, por assim dizer, colocados em causa, configuram-se segundo uma nova perspectiva, moldam uma outra verdade. Poder-se-ia dizer, para usar uma outra imagem, que o passado não é mais que o realizado que havia sido projeto. Do mesmo modo, o futuro atual está sendo, de certo modo, moldado agora. Será que eu e você não colocamos em nosso passado, que era premissa de presentes a receber, projetos de dor, sofrimento e angústia? Como saber?, todos perguntam.
E a resposta sempre será a mesma.
As pessoas imaturas, adolescentes espirituais, têm horror ao vazio.
Quando o estômago está vazio, enchem-no e, geralmente, com qualquer coisa. Por conta disso, engordam.
Quando o coração está vazio, enchem-no e, geralmente, com qualquer coisa. Por conta disso, choram.
Quando a cabeça está vazia, enchem-na e, geralmente, com qualquer coisa. Por conta disso, piram.
Existem alaternativas à obesidade, à tristeza e à piração, mas, em princípio, as buscadas são nocivas tanto quanto.
E o que é pior, quando a alma está vazia, enchem-na e, geralmente, da pior forma, com vôos abismais provocados por estimulantes, que vão desde o “incente” tabaco até os “tarjas-pretas” e às “drogas” quase-sem-volta.
Toda aquela verborragia científica, filosófica e teológica dos tomos anteriores desta série tinha um único objetivo: mostrar que a Ciência, a Filosofia ea Teologia conhecem os sintomas do caos existencial humano. Infelizmente, todas elas têm buscado remediar os sintomas, igualzinho a eu e você quando tomamos analgésico para a dor sem perguntar a sua causa.
Pode estar aqui a resposta mais aproximada do por quê da dor, do sofrimento e da angústia presentes em nossas vidas. É muito provável que elas sejam sintomas de causas não curadas no passado!!!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (VIII)

Aos olhos de Nietzsche, o último homem representa o maior perigo para a humanidade. Este último homem pertence à inextinguível raça dos piolhos. Aspira a uma pequena felicidade que seria igual para todos. Quer o fim da História porque a História é geradora de acontecimentos, o que vale dizer, de conflitos e de tensões que ameaçam esta “pequena felicidade”. Zomba de Zoroastro, que predica o advento do superhomem. Para Nietzsche, de fato, o homem não é senão uma ponte entre o símio e o superhomem, o que significa que o homem e a História não têm sentido senão na medida em que tendam a uma superação e se, para fazer isto, não hesitam em aceitar o seu desaparecimento, o superhomem corresponde a um fim, um fim dado a cada momento e que é, quiçá, impossível de alcançar; melhor, um fim que, no mesmo instante em que é alcançado, propõe um novo horizonte. Numa tal perspectiva, a História apresenta-se, então, como uma perpétua superação humana.
Agora aparace a luz no fundo do túnel.
Todavia, na visão de Nietzsche, há um último elemento que parece, à primeira vista, contraditório em relação ao sonho do superhomem, o do Eterno Retorno. Nietzsche afirma, com efeito, que o Eterno Retorno do Idêntico comanda, também ele, o devir histórico, o que à primeira vista novamente, parece indicar que nada de novo pode produzir-se se o homem não renovar-se, e que qualquer superação, sem isto, está excluída. O fato é que, de resto, este tema do Eterno Retorno foi frequentemente interpretado no sentido de uma concepção cíclica da História, concepção que recorda fortemente aquela da antiguidade pagã. Trata-se, segundo algumas mentes, de um sério erro, contra o qual o próprio Nietzsche nos havia precavido. Quando, sob o pórtico que tem o nome de Instante, Zoroastro interroga o Espírito de tudo o que é Pesado sobre o significado de dois caminhos eternos que, vindo de direções opostas, se reúnem naquele ponto preciso, o Espírito de tudo o que é Pesado responde: “Tudo o que é direito mente, toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo”. Então Zoroastro replica com violência:”Espírito de tudo o que é Pesado, não simplifiques demasiado as coisas!”
Na visão nietzschiana da História, contrariamente ao caso da antiguidade pagã, os instantes não são, portanto, vistos como pontos que se sucedem sobre uma linha, seja esta reta ou circular. Para compreender sobre o que assenta a concepção nietzschiana do tempo histórico, é preciso, antes, colocá-la em paralelo com a concepção relativista do universo físico quadrimensional. Como se sabe o universo einsteiniano não pode ser representado de forma “sensível, porque a nossa sensibilidade, sendo de ordem biológica, não pode compreender mais que representações tridimensionais”. Ao mesmo tempo, no universo histórico nietzschiano o devir do homem é concebido como um conjunto de momentos, dos quais cada um forma uma esfera no interior de uma “superesfera” quadrimensional, e na qual cada momento pode, em consequência, ocupar o centro em relação aos outros. Nesta perspectiva a atualidade de cada momento já não se chama “presente”. Pelo contrário, presente, passado e futuro coexistem em cada momento: são as três dimensões de todo o momento histórico. Os animais de Zoroastro não cantam, por acaso, ao seu mestre:”O ser começa em cada instante: em redor de cada ‘aqui’ gravita a esfera ‘além’. O centro está em todo o lado. Curvo é o caminho da eternidade”?

Somos a nossa própria histórica (VII)

Que coisa, não? Cristo falou isto, a igreja cristã prega isto, as revoluções prometeram isto, o marxismo acenou (acena) com esta possibilidade e estas visões igualitárias morreram na praia, não foram adiante. Por que?
Se o leitor prestar bastante atenção verá a clareza da equação: não foi o povo o autor desses projetos. Quando o escravo não quer libertar-se, os “13 de maio” passam a ser datas inóquas.
As concepções não incluem o povo na sua formulação. A visão religiosa cristã não tem a prática efetiva; a visão dos republicanos franceses chegou à prática já na efervescência do capitalismo desigual e foi incompetente para mudar o curso dessa desigualidade; e a visão atéia marxista nada teve de proletária, nem de democratica e nem de igualitária. Como disse, não foram obras do povo.
O homem não é, pois, impelido pela sua condição econômica. É o joguete de uma situação que se origina na própria natureza enquanto jogo de forças materiais. Certa vez, argumentando sobre consciência um mestre perguntou aos seus discípulos “por que o boi obedece ao homem?” Se tivesse consciência de sua força, não obedeceria.
Disto resulta que, quando o homem joga um papel na visão igualitária da História, este é um papel de uma peça que ele não escreveu, que ele não poderá escrever ainda porque ele não saberá interpretar este papel por absoluta falta de competência, e esta peça se for encenada antes desse estágio sempre será uma farsa trágica, vergonhosa e dolorosa.
A dignidade, como a verdade autêntica do homem, situa-se fora da história, que ele escreve mas não é autor porque é concebida nos gabinetes, longe das ruas, escritórios, fábricas e lavouras.
Por outro lado, todas as coisas possuem em si a sua própria antítese relativa. A visão escatológica da História possui também a sua antítese relativa, igualitária também esta, que é a teoria do progresso indefinido. Nesta teoria, o movimento histórico é representado como tendendo constantemente para um ponto zero que não é, nunca, alcançado. Este “progresso” pode caminhar no sentido de um “sempre melhor”, excluindo todavia a idéia de um bem perfeito e absoluto; é um pouco a visão ingênua da ideologia americana, ligada ao “american way of life”, e também a de um certo “marxismo desencantado”. Pode caminhar também no sentido de um “sempre pior”, sem que a medida do mal atinja alguma vez o seu culminar.
Como nós somos a nossa história, mesmo sem dela sermos os autores, também o que se escreveu sobre nós acabou por ser a nossa verdade vinda da boca dos outros. A visão pessimista de Freud, que não via como a infelicidade que, para ele era a civilização, poderia parar um dia de se reproduzir. De outra parte, esta visão pessimista do freudianismo está atualmente em fase de ser recuperada, sobretudo por Marcuse e pelos freudomarxistas, na tese escatológica do marxismo, depois de ter desempenhado a função que sempre desempenha qualquer antítese após a invenção do Diabo, isto é, uma função instrumental.
Como todos sabemos, é a Friedrich Nietzsche que remonta a redução do cristianismo, da ideologia democrática e do consumismo ao denominador comum do igualitarismo. Mas é também a Nietzsche que remonta o segundo modelo de visão da História que, na época atual, se opõe (subterraneamente, por vezes, mas com mais tenacidade) à visão escatológica e segmentária do igualitarismo.
Nietzsche, com efeito, não quis apenas analisar, mas também combater o igualitarismo. Quis inspirar, suscitar um projeto oposto ao projeto igualitário, animar uma outra vontade, alentar um juízo de valores diametralmente diverso. Por este motivo, a sua obra apresenta dois aspectos, complementares entre si. O primeiro aspecto é propriamente crítico, poder-se-ia inclusive dizer científico. O seu objetivo é realçar a relatividade de todo o juízo de valor, de toda a moral e também de toda a verdade pretensamente absoluta. De tal maneira evidencia a relatividade dos princípios absolutos proclamados pelo igualitarismo. Mas, paralelamente a este aspecto crítico, existe um outro, que podemos definir poético, porque esta palavra deriva do grego “poiein”, que significa “fazer, criar”. Com este trabalho poético Nietzsche esforça-se por dar vida a um novo tipo de homem, ligado a novos valores e que extrai os seus princípios de ação de uma ética que não é aquela do Bem e do Mal, mas uma ética que é legitimo definir como suprahumanista.
Para dar uma imagem do que poderia ser uma sociedade humana fundada sobre os valores propostos, Nietzsche recorreu quase sempre ao exemplo da sociedade grega arcaica, à mais antiga sociedade romana e até às sociedades ancestrais da antiguidade indo-europeia, aristocrática e conquistadora. Ih! Isso vai longe. Mas, nós precisamos encurtar um pouco esta digressão.

domingo, 23 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (VI)

Então você estende seus olhos para a História e se convence de que a igualdade está longe, a liberdade está longe e que o dirigentes cristãos são os vilões deste descaminho. Enganou-se.
Os mesmos sonhos encontram-se, identicamente, sob uma forma atéia e pretensamente científica na visão marxista da História. Entenda, existem interpretações do que seria o “verdadeiro pensamento” de Marx. No curso da sua existência Karl Marx pensou coisas muito diferentes e poder-se-ia discutir longamente para saber qual seria o “verdadeiro” Marx. Fiquemos no que a História nos deu, aquele marxismo praticado, que foi durante muito tempo, e que ainda se mantém na doutrina dos partidos comunistas e dos Estados que se reconhecem na interpretação leninista.
Nesta doutrina, a História é apresentada como o resultado de uma luta de classes, de uma luta entre grupos humanos que se definem em relação à sua respectiva condição econômica, como candidatos ao Jardim do Éden. Sugere, nesta versão, a reintrodução do “comunismo primitivo” praticado por uma humanidade ainda imersa no estado de natureza e puramente à mercê daquilo que o homem necessita para o seu dia-a-dia. Enquanto no Paraíso o homem sofria os constrangimentos resultantes dos mandamentos de Deus, as sociedades comunistas pré-históricas viviam sob a pressão da miséria. Esta pressão levou à invenção dos meios de produção agrícolas, mas esta invenção revelou-se também uma maldição. Implica, com efeito, não somente a exploração da natureza por parte do homem, mas também a divisão do trabalho, a exploração do homem pelo homem e, em consequência, a alienação de todo o homem em relação a si mesmo. A luta de classes é a consequência implícita desta exploração do homem pelo homem. O seu resultado é a História.
Como se vê, são as condições econômicas a determinar para os marxistas os comportamentos humanos da mesma maneira como os escravos sempre desejaram livrar-se dos esacravagistas. Por conexão lógica estes últimos conduzem à criação de sistemas de produção sempre novos, que causam, por seu turno, condições econômicas novas, e sobretudo uma miséria sempre maior dos explorados em benefício de uma riqueza sempre maior em benefício dos exploradores. Todavia, também ali surge uma Redenção. Com o advento do sistema capitalista a miséria dos explorados atinge, com efeito, o seu culminar: torna-se insuportável. Os proletários tomam então consciência da sua condição, e esta tomada de consciência redentora tem por efeito a organização dos partidos comunistas, exatamente como a redenção de Jesus havia levado à fundação de uma comunidade de santos.
Os partidos comunistas empreenderão, sem Jesus, uma luta apocalíptica contra os exploradores. Esta poderá ser difícil, mas será necessariamente vitoriosa (este é o sonho). Levará à abolição das classes, porá fim à alienação do homem, permitirá a instauração de uma sociedade comunista imutável e sem classes, isto é, igual. E se a História é o resultado da luta de classes, não haverá, evidentemente, mais História.
O comunismo pré-histórico será restituído, como o jardim do Éden, o Reino dos Céus, mas de modo sublimado: enquanto a sociedade comunista primitiva estava afligida pela miséria material, a sociedade comunista pós-histórica beneficiar-se-á de uma satisfação perfeitamente equilibrada das suas necessidades.
Assim, na visão marxista, a História assumirá igualmente um valor. Negativo. Nascida da alienação original do homem não tem sentido senão na medida em que, aumentando incessantemente a miséria dos explorados, contribua finalmente para criar as condições nas quais esta miséria desaparecerá, e “trabalha”, de algum modo, para o seu próprio fim.
E porque um sonho assim não se faz real? Talvez seja possível responder.

sábado, 22 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (V)

Ao examinar-se a antiguidade pagã, nota-se como essa havia oscilado entre duas visões da História, de que uma não era mais que a antítese da outra: ambas concebiam o devir histórico como uma sucessão de instantes na qual cada instante presente delimita sempre, de um lado o passado e, do outro, o futuro.
A primeira destas versões propõe uma imagem cíclica do devir histórico. Implica a repetição eterna de instantes, de fatos ou de períodos dados. É isso que exprime a fórmula “nihil sub sole novi”, algo assim como “nada sobre nós sem nós” ou por outra “nada de novo sem o consentimento comum”.
Parece que na maioria das vezes, em nossa história, o consentimento houve. Isso tem o nome de licensiodade. “Se eu permaneço confortado, fecho os olhos para as barbaridades”. Para meus inimigos os rigores da lei; para meus amigos, os favores da lei. Isso não é novo e foi praticado sob a batuta dos defensores da igualdade. Fomos chamados à igualdade e construímos a história de nossas desigualdades.
O cristianismo realizou, de certa forma, uma síntese oposta a tudo o que poderia ser o sonho da humanidade. E fecha com chave de ouro os seus equívocos sublimando a necessidade de se dar um fim à História. É isso, o mundo precisa acabar. Esta é a perversa promessa.
O sonho de igualdade fracassou e este episódio que é a História é percebido, na perspectiva cristã, como uma verdadeira maldição. A História deriva de uma condenação do homem por parte de Deus, condenação à infelicidade, ao trabalho, ao suor e ao sangue, que sanciona uma culpa cometida pelo homem. A humanidade, que vivia na feliz inocência do jardim do Éden, foi condenada à História porque Adão, seu antepassado, transgrediu o mandamento divino, provou o fruto da Árvore da ciência e quis igualar-se a Deus. Esta culpa de Adão, enquanto pecado original, pesa sobre todo o indivíduo que vem ao mundo. É inexplicável por definição, porque o ofendido é Deus mesmo. Mas Deus, na sua infinita bondade, aceita encarregar-se ele próprio da sua expiação: faz-se homem encarnando na pessoa de Jesus. O sacrifício do filho de Deus introduz no devir histórico o evento essencial da Redenção. O sonho está de volta. Mas, o sonho não é todos. Alguns serão tocados pela Graça. Outros não. Então o sonho não é todos. No fim, virá um dia em que as forças do Bem e do Mal se defrontarão numa última batalha, que resultará num Juízo final e, então, na instauração de um Reino dos Céus, que tem o seu contraponto dialético no abismo do Inferno.
Os indivíduos não precisam preocupar-se em fazer sua história, a história será escrita por um salvador, herói, magnânimo. “Segue-me que eu te levarei ao destino”.
Dá, então, para entender porque nós apredemos a ser omissos em relação àqueles que fazem a história sem nossa autoria?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (IV)

O pensamento igualitário atravessou, no curso dos séculos, três marcados períodos: no primeiro, que corresponde ao nascimento e desenvolvimento do cristianismo, constituiu-se sob a forma de mito, já brevemente analisado aqui em artigos mais antigos. Todos os homens são iguais e igualmente filhos de Deus, foi a mensagem do Cristo. Mas, no processo de desenvolvimento histórico a unidade deste, digamos, sonho de que todos seríamos igualmente filhos de Deus, fatos marcantes perpetrados por lideranças políticas deram margem ao nascimento de ideologias conflitantes com esta tese, concorrentes mesmo. Vieram as igrejas, depois as teologias e por fim as ideologias concorrentes. Nem adversárias eram, estavam dentro do mesmo bojo, porém sonhavam com uma coisa e faziam exatamente o oposto.
Como o sonho original trazido por Cristo já não era mantido, fizera-se hipócrita, e a hipocrisia resultara na figura de homens mais queridos e homens menos queridos daquele “deus”, eclodiram cisões e rachas.
Este é o segundo período da busca do igualitarismo. Agora a igualdade é buscada ao lado da liberdade e novamente por filhos de um mesmo deus e, por isso, de forma fraterna.
Revoluções como a dos Estados Unidos e a da França cabem dentro deste sonho igualitário. Mas, não é só. A ciência também foi buscar seu sonho e de repente precisou romper com os representantes hipócritas daquele deus.
Chegamos então ao terceiro período, no qual as idéias contraditórias geradas do sonho original resolvem-se numa unidade, mas já não tem a presença de Deus em seu conceito sintético. Exprime-se sob uma forma que se faz “científica”, pretende ser uma ciência, e laica. Melhor dizendo, atéia. Este estágio corresponde ao surgimento do marxismo e dos seus derivados.
O mito, as ideologias, a pretensa ciência igualitária, exprimem o que poderia ser um sonho da humanidade, mas as decisões não são tomadas pelos indivíduos que compõem a humanidade, mas por seus pretensos líderes, a minoria dominante.
Os pretensos beneficiários dos resultados do sonho não são consultados sobre como se quer chegar aos resultados. De novo, a ditadura. Alguns são mais iguais que os iguais do discurso.
Retomando o pensamento inicial do primeiro artigo: não são os indivíduos que decidem o presente, que será futuro e que será história. São os tutores que decidem pela massa de indivíduos.
Ao fazer o que fazem, distanciam-se do povo, puxam para baixo e são esmagados por aqueles que despensacam sobre eles; ou ao erguerem-se demais, são puxados para baixo por aqueles que se agarram aos seus pés.
Somos uma teia. Ou iremos todos juntos ou ninguém irá, sozinho, a lugar nenhum. Está aqui o “x” da questão crística, que voltará ao debate aqui.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (III)

A História, a nossa história, isto é, a soma de nossas histórias individuais, de todos os lados, está sob acusação. São infelizes os homens que têm saudade do passado. Passado é para estar na berlinda como réu. Só assim andaremos para buscar a superação. Entenda, passado não é para chorar, é para balizar. Aonde foi que erramos? Se as respostas forem encontradas, o presente tem de ser de superação e o futuro dirá se estivermos certos. No entanto, quem nada quer mudar, olha o passado com saudade ou com abominação e não tira os olhos de lá. Esses são os motoristas que dirigem olhando para o rertrovisor.
A terceira hipótese é construir o futuro só com o material do passado. Isto significa matar o presente.
Entre acusadores, saudosistas e assassinos do presente, o futuro se faz incerto.
A História que temos, com raríssimas exceções, é a consequência da alienação da humanidade. Todas as perversidades perpetradas por aqueles que se intitularam autoridades do povo, merecem ser escritas à conta da licensiodade, à conta da omissão ou do conforto do proveito auferido por alguém.
Uma breve referência para que você coloque seus pés na história recente: o dia em que se acabar o petróleo árabe as grandes corporações petrólíferas do planeta descobrirão o estrago que causaram à humanidade.
Mas, não se trata de invocar, propor ou projetar o fim da História, como está na moda.
Trata-se de sonhar com o retorno a uma espécie de estado de natureza enriquecido, a paragem do crescimento, o fim das tensões, o retorno ao equilíbrio tranquilo e sereno, à felicidade modesta, mas assegurada, que seria aquela de todas as espécies viventes, o nosso rertorno ao Jardim do Éden.
Vem imediatamente à memória o nome de alguns destes teóricos, e entre esses os de Herbert Marcuse e de Claude Lèvi-Strauss, cujas doutrinas são bem conhecidas.
A idéia do fim da História pode parecer uma coisa recente. Na realidade não o é. Basta, com efeito, examinar as coisas mais atentamente para se dar conta de que esta idéia não é mais que o resultado lógico de uma corrente de pensamento velha, de milhares de anos, e que, desde há dois mil anos domina e conforma aquilo que hoje chamamos “civilização ocidental”.
Esta corrente de pensamento é aquela do pensamento igualitário. Exprime uma vontade igualitária, que foi instintiva e quase cega no seu início, mas que, na nossa época, se tornou perfeitamente consciente das suas aspirações e do seu objetivo final. Ora, este objetivo final do projeto igualitário é precisamente o fim da História, a saída da História.
Veremos com vagar este aspecto no próximo tomo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (II)

Somos muito mais que apenas história. Mas, a história é o nosso atestado. Melhor dizendo, é a nossa folha corrida. Diz-me o que pensa e eu lhe direi o que é. Diz-me com quem anda e eu lhe direi quem é. Diz-me o que o come e eu lhe direi quem é. Diz-me o que pensa, com quem anda, o que come, o que lê, o que faz, hoje, e eu lhe direi quem você será em 10, 20 ou 50 anos.
Se você atuar individualmente e mergulhar as profundezas da vida, seus parceiros de vida irão cair sobre você e você será esmagado no fundo do poço. Se você atuar individualmente e ascender demais as alturas, seus parceiros de vida agarrar-se-ão a seus pés e lhe puxarão para baixo.
Um homem, uma mulher de seu tempo não pensa apenas em si mesmo(a), não quer ser encontrado sozinho(a) durante a travessia para não estar indefeso(a), vulnerável. Vale para aqueles que se distanciam na dianteira e vale para aqueles que se distanciam na traseira. Tanto no primeiro como no segundo caso, há o risco de perder-se do grupo. O prudente é andar com o grupo, mas há que discutir quem será o guia. Homens e mulheres que não sabem para onde vão, entregam seus destinos a qualquer guia. É nesse caso, repetindo, que uma sociedade tem história, mas não é sua autora.
Se você quiser não inovar e repetir sempre as mesmas coisas, isso não é fazer história, é repetir a história. História que se repete não é história, é tradição.
Tradição só é coisa boa quando atua como raiz ou alicerce.
Não podemos negar nosso passado e nem rasgar a nossa história. Isso não está ao nosso alcance. Não podemos fazer um novo começo, mas podemos recomeçar e fazer um novo fim, como escreveu Chico.
O universo não tem História, não do modo como aqui estamos raciocinando e nem como nós o percebemos ou como podemos representá-lo; ele não faz mais que mudar de configuração através do tempo acionado por nossas mentes. Nem sequer a vida tem História: a história somos nós, o conjunto de indivíduos transeuntes da vida. O nosso devir consiste numa evolução; e evolui. Compreende-se então que a História é o modo de devir do homem (e só do homem) enquanto tal; só o homem “se torna” historicamente. Consequentemente, colocar a questão de saber se a História tem um sentido, ou mesmo dizer, um significado e um fim, equivale, no fundo, a perguntar se o homem que está na História e que (voluntariamente ou não) faz a História, tem ele próprio um sentido, se a sua participação na História é ou não uma atitude racional.
Percebe o leitor o que está implícito nestas frases que mais parecem poesia? Está implícito que nós, humanos, fazemos a nossa história, a história das árvores, das águas, dos bichos, do planeta e, de um modo muito especialíssimo, fazemos a história de Deus.
Um sonho que se sonha só, é sempre apenas e só um sonho. Mas, um sonho que se sonha a muitas mentes, sempre será uma construção para ficar na história. Acho que Deus teve um sonho quando nos chamou para viver.

sábado, 15 de maio de 2010

Somos a nossa própria história (I)

O que passou, passou? Não volta mais? Está morto?
Ouve-se muito sentenças como estas, que viraram perguntas. E nada é mais inverídico.
Nós somos o que fomos. Mais do que isso, nós somos também o que outras pessoas fizeram por nós.
Não dá para dissociar a beleza da mocinha ou a capacidade física do rapaz das heranças genéticas repassadas por diversos ancestrais seus. Não dá para dissociar o diabetes da senhora e a obesidade do senhor das heranças genéticas repassadas por ancestrais seus.
Temos de nos interrogar sobre o significado dos fenômenos históricos que nos alcançam e alcançaram nossos ancestrais. Tudo o que somos veio sendo tecido por tais episódios. Talvez não tenhamos participado de nenhuma guerra, mas as guerras teceram nossas vidas. As bomas atômicas sobre o Japão, lá do outro lado do planeta, são parte de nossas vidas. Talvez não tenhamos participado e nem mesmo gostamos de nos referir aos períodos das ditaduras de Vargas e do regime militar, no período de 1930 até 1982, com uma pequena pausa entre 1946 a 1963, mas foram dias, meses, anos completamente importantes na nossas vidas, durante, antes e depois de nosso nascimento, período dentro do qual devemos acrescentar 5 anos de guerra mundial. Esta também nós pertence.
Objetivo desta série é o exame das respostas que a nossa época dá a estas interrogações, tentando reconduzir, apesar da sua aparente diversidade, a dois modelos fundamentais, rigorosamente antagônicos e contraditórios de sociedade: um de muitas cobranças, austero, rigoroso; outro condescendente, irreverente, brando.
Já vimos em análises anteriores que o indivíduo, quando lhe falte iniciativa para o exercício da cidadania, se torna refém de sua sociedade e é, por ela, levado a reboque. Por outro lado, a sociedade sempre será a extensão ou soma dos indivíduos sempre que a participação proativa e ativa de cada membro puder influenciá-la no conjunto.
Mudando, porém, o ponto de vista: se você dirige a sua vida e o faz compartilhando o poder com os seus contemporâneos, a vida tomará a direção que vocês derem a ela. Caso contrário, vocês serão dirigidos por um tutor e a direção será dele. A terceira hipótese pode ser a deriva, a ausência do rumo.
O que passou e, de fato, passou, foi o tempo. Este não volta mais.
A história não passa. Ela vive em nós. Se você não faz a sua história, alguém a fará por você e você ajuda-la-á a construir-se passivamente. Por outro ângulo, a história é sua, mas não é autoria sua.
Talvez você não se sinta confortável com quase 40 anos de ditadura na história recente de nosso país, mas agora percebe que isso faz parte de sua vida. Talvez você não se sinta confortável com os congestionamentos de trânsito de sua cidade, mas faz parte deles. Resta saber se você construirá uma solução para isso ou se continuará contribuindo, ativa e/ou passivamente, para o seu agravamento.
Não pense, porém, que esta série objetiva apenas trazer você para o palco da história atual. Não. Nós recuaremos muito e avançaremos muito para que você perceba o que é viver o presente, o que é chorar o passado e o que é temer o futuro. A terceira hipótese é a de você estar aqui apenas no gozo de férias. Você já pensou sobre isso?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Números que fazem pensar (conclusão)

A reflexão que se faz necessária é de extraordinária profundidade.
Pessoas espiritualizadas, não ingênuas, não colecionadoras de crendices e nem, tão pouco céticas, podem admitir que suas unhas crescem mais na fase crescente da Lua e podem imaginar que o imenso magnetismo exercido pelos astros e estrelas quando combinados, podem determinar alterações vibratórias, inclusive da mente humana.
Já se disse que nossas mentes estão aceleradas.
Resta desejar que também se acelere as mentes para curar a lenta deterioração, a galopante agonia dos valores reais, a corrida ao ouro como o deus salvador dos homens fragmentados.
Resta desejar que cheguemos ao discernimento de que é tempo de mudar.
A única certeza de que temos é que tudo muda a todo instante.
Que venha mudança!
Recordemos que sempre ao fim de uma era e começo de outra temos muitos excessos. Excessos de coisas boas e excessos de coisas péssimas. Pensemos que a propalada Era de Aquário será, de fato, a Era Espiritual e que trará com ela o que todos os xamãs das eras anteriores e posteriores aos Maias sempre ensinaram. O Deus masculino caminha (na nossa cabeça) para ganhar a companhia da Deusa feminina. Só em simbiose eles podem gerar o que hoje falta ao planeta: uma consciência de que somos os construtores ou cultivadores dos jardins que queremos habitar. Somos co-criadores de nossa realidade. A nossa realidade é reflexo do que somos, do que queremos, do que projetamos, do que refletimos.
Não é o mundo que tem de acabar para que tudo melhore. Somos nós que temos de morrer para o ser velho e dar natividade ao ser novo.
Que 2013 traga um céu azul sobre nossas cabeças para nos fazer sonhar; que o mar seja verde e profundo para nos dar esperanças, tanto quanto verdes sejam as florestas, lavouras e pomares de onde nos chegarão os alimentos, roupas e remédios. Que a única coisa que nós não podemos, de jeito nenhum, seja renunciar a luta, deixar de fazer nossa parte, todos os dias, procurando desenvolver em nós mesmos a RESPONSABILIDADE SOCIAL. Um povo que depreda os bens públicos, que maltrata suas crianças e seus velhos, que polui seus rios e mares, que exaure suas reservas, que sepulta suas tradições, isso sim, é caos, deterioração, morte!
Essa tem de ser a nossa preocupação em 2010, 2011, 2012, 2025, 2050, sempre, como jardineiros do jardim externo.
E, pelo lado de dentro, nossa luta é cuidar do santuário de nossa alma, nosso corpo. Aqui, a responsabilidade tem outro nome: RESPONSABILIDADE ESPIRITUAL. Vamos acordar e nos dar as mãos: façamos a nossa parte! Amar o planeta é amar a humanidade. Amar a si mesmo é respeitar-se.
Lembremos-nos das palavras de Jesus: "Ama ao teu próximo como a ti mesmo". Esta é a mensagem da Era de Peixes, que está findando.
Qual será a palavra de ordem da Era de Aquário? O que você quer ser quando voltar a este planeta?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Números que fazem pensar (III)

Vamos pensar juntos? Vamos pensar com lógica? Dá para acreditar na hipótese de um dilúvio planetário? De onde teria surgido toda a água capaz de cobrir as extensões de terra da Terra inteira? Por outro lado, se se pensar na hipótese de afundamento de um continente e na providência de seus habitantes em migrar para outro(s), começamos a dar crédito à hipótese, não de uma expedição, mas de várias, o que vale dizer, Noé não teria sido o único a navegar, mas vários outros líderes de clãs e comunidades poderiam ter feito a mesma coisa e, com isso, distribuído a espécie humana a vários outros continentes. Assim fica melhor, não?
Como você sabe, desde que se conhece uma parte da história humana, toda a nossa trajetória foi de avanço na direção de novas fronteiras. Agora, mesmo, estamos interessados em explorar Marte e outros planetas, depois da recente ocupação européia da América, da Austrália e da Nova Zelândia, as últimas conquistas do homem branco. Você esqueceu que até 1490 nós ainda tínhamos dúvida se o planeta era redondo? Veja como somos lentos e apressados ao mesmo tempo.
Aqueles estudiosos que inventaram o relógio e quiseram encontrar um parâmetro para determinar o tempo de um segundo, um minuto, e chegaram ao número 60, escolheram os 60 batimentos cardíacos do homem para determinar o que chamamos de minuto.
Sabiam que estas multiplicações podiam estar expressando o tempo de 25.920 anos terrestres, que é o tempo de “um ano galáctico”?
E como Noé ficou sabendo que o continente aonde estava iria afundar?
E, do mesmo modo, os maias podiam saber que o 21.12.2012, data do solstício de verão para o hemisfério sul e do solstício de inverno para o hemisfério norte, podia ser uma data marcante para o planeta?
Novamente você, leitor, deve tomar este raciocínio como especulação. O que não se pode abrir mão é de estejamos sendo chamados para uma reflexão muito séria.
Solstício ou fechamento de uma era planetária, são fases de minguar e expandir. Nosso coração faz isso a cada pulsar.
Muitas civilizações primárias entendiam a vida deste modo. Os incas trabalhavam suas crenças e acreditavam no “inverno” (minguar) e no “verão” (expandir) a cada ciclo de mais ou menos 500 anos. Tanto que a presença de Pizzarro como seu algoz se deu no auge de uma dessas minguantes. Com uma diferença: apesar das divergências entre algumas nações, nenhum Pizarro moderno está vindo ocupar outros redutos.
Vamos refletir juntos? Aguarde o próximo artigo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Números que fazem pensar (II)

Se as marés são, como de fato, são, efeito de combinações energéticas astronômicas (mesmo que também estejam entre especulações esotéricas), podemos também aceitar que outras evidências e combinações maiores e maiores possam existir com reflexo na vida do planeta e das pessoas.
Se nós, humanos, podemos concordar que unhas e cabelos crescem mais depressa nas fases crescentes da Lua e que árvores frutíferas se comportam diferentemente quando podadas em diferentes estações do ano, podemos também aceitar que não só para o planeta existam períodos de expansão e contração. Esta hipótese pode haver para o sistema solar e para a galáxia. Então vamos a outros números que fazem pensar.
O sistema solar fecha um “ano sideral” a cada 2.160 anos terrestres e tal como o que ocorre no planeta Terra a cada 365,4 dias, aí pode haver um recomeço, um renascimento. Temos a notícia astronômica de que a galáxia percorre os 12 signos do zodíaco a cada 25.920 anos. Dizem alguns bruxos que estamos chegando numa zona de vibrações magnéticas propícia para tudo o que está ocorrendo no planeta, isto é, aquecimento, terremotos, atividade vulcânica, aquecimento das águas marítimas (El Niño), com a mais normal possibilidade de que a polarização magnética possa inverter: o norte passaria a positivo e o sul negativo.
Assim o recado do Calendário Maia começa a ter sentido.
O curioso é que podemos fazer combinações com esse número (25.920). A primeira delas: nosso coração em situação de perfeita estabilidade de pressão sanguínea, altitude e temperatura, deve bater 60 vezes por minuto. Tome-se o 25.920 dividido por 60 e o resultado será 432. 432.000 é o número de vezes que o coração bate a cada 12 horas. É também, segundo uma lenda oriental, esse é o tempo, em anos terrestres, que aconteceu o dilúvio de que temos notícias na Bíblia.
Calma, leitor. Tudo isso pode estar no plano das suposições, coincidências, crendices, explorações, longe da idéia de destruição do planeta. Isso não pode ser visto deste modo, como veremos no próximo artigo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Números que fazem pensar (I)

Pela enésima vez a humanidade está diante de um vaticínio de “fim dos tempos”. Refiro-me à previsão associada ao Calendário Maia para 2012. Desde Daniel, no Velho Testamento e de João Evangelista, dado como autor do Apocalipse Bíblico do Novo Testamento, passando por Nostradamus e mais recentemente pelas repetidas publicações da Igreja Testemunhas de Jeová e, por outras que não cabe comentar, a humanidade vem sendo sacudida por ameaças de extermínio sobrenatural. Já não bastam as ameaças mensuráveis pela climatologia (provocadas pela mão humana) e pelas desavenças entre nações (também de autoria dos homens), agora, também, temos novamente uma ameaça vinda dos céus.
Na ausência dos profetas bíblicos temos cientistas advertindo para a elevação dos mares com a conseqüente sucumbência de cidades litorâneas em todo o planeta. Os repetidos terremotos, maremotos, vulcões... Temos a notícia da possível redução do nível magnético do planeta e temos a notícia da também possível inversão do magnetismo polar.
Mas, em nenhuma das “profecias” está implícito o extermínio do planeta.
Pelo nome de “fim dos tempos” o nosso planeta teve dezenas de transformações associadas a eras de muito frio, degelo, aquecimento, mas a eternidade da obra evolutiva de Deus, em nenhuma oportunidade desde o Big Bang, esteve na iminência de acabar. Se quisermos ser bem diretos, são fases de renascimento.
Idéias escatológicas têm servido para causar pânico e levar multidões aos templos para penitências, arrependimentos, renúncias, desapegos...
Por conta dessa panacéia, os mercadores da fé fazem polpudas colheitas.
O que fazer? Há muito a ser feito.
Não é de hoje a pregação absurda ensinando, por um lado, que a realização humana se dá pelo poder do dinheiro e de outro que o dinheiro é o descaminho do homem. Por conta da primeira hipótese, boa parcela humana chama Jesus para sócio de empresas de médio, pequeno e micro porte, segundo se lê em pára-brisas e pára-choques de carros: “Propriedade de Jesus”.
Por conta da segunda hipótese, conhecemos gestos de fiéis que entregam na bandeja da coleta dos templos durante os cultos, entre outros óbulos, a chave de carros praticamente zero quilômetro como expiação de culpas e expectativa de ganho de méritos para o alcance dos céus.
Uma data como esta do Calendário Maia, manipulada como Fim do Mundo (21-12-2012), cai como uma luva em determinados interesses e contribui para a aceleração do processo de decadência humana.
Se alguém pode pensar em maior consciência, elevação dos níveis morais e um efetivo esforço de superação motivado por tais notícias, engana-se redondamente. Uma parte da humanidade pára para ver o que vai acontecer, outra parte corre para aproveitar o tempo que resta e uns poucos contabilizam os lucros que isso tudo propicia. Sem contar com o aumento indiscriminado dos suicídios imediatos ou lentos. Por suicídio lento imaginemos o alcoolismo, as drogas e outras consumições degradantes da vida.
Dá para acreditar num realinhamento energético provocado por combinações astrológicas ou astronômicas? Veremos isso na próxima mensagem.

domingo, 9 de maio de 2010

Provas e expiações (conclusão)

Parece importante não perder de vista o sumiço da Mãe e Mulher das tradições religiosas descendentes dos hebreus.
Vários escritores têm manifestado sua percepção e parece correto entender que antes de Zoroastro, a Deusa-Mãe ocupava lugar de destaque nos cultos de quase todos os povos rurais, como se mantém na tradição hindu, dos indígenas de todo o planeta e mesmo dos povos habitantes do que hoje é Israel e Palestina. Baal era um deus-deusa do sol, da chuva, dos trovões, da fertilidade e da agricultura em geral e habitava os montes sagrados. Os montes sagrados estão em quase todas as religiões: Sião, Meru, Macchu Picchu e inclusive o Tabuleiro, que era sagrado para os Kary’ó em Santa Catarina.
Todas as civilizações rurais trabalharam a natureza e tiveram profunda relação com a terra, venerando-a como o ventre sagrado de onde brota a vida. Os hebreus também passaram por isso. Mas, a sua necessidade de invadir terras alheias para estabelecer seu povo, os obrigava à guerra. Um deus da guerra tinha de ser masculino.
Ao absorver a visão cosmológica de Zoroastro, o deus Ahura Mazda foi definitivamente elevado à chefia dos exércitos e do governo hebreu com o nome de Yahwé, dispensando-se a Deusa-Mãe, mesmo da história de Adão e daí por diante também de todas as demais funções de liderança que a mulher poderia ter ocupado.
Um dia, lá nos escritos de II Reis (23:13) ela, a Deusa, numa referência à Baal dos povos inimigos dos hebreus, passa chamada de abominação e lentamente passa a ser conotada com tentação, sedução e não raro comparada às forças negativas provindas de satanás. Acaba ganhando nome de Baelzebu, numa simbiose de feminina e tentadora, verdadeiramente satânica.
Note o leitor como uma determinada visão se agrava. Outras religiões conseguem trazer para uma trilogia divina a figura feminina da criação. O judaísmo, não. E a Santíssima Trindade Cristã saiu-se assim: Pai, Filho e Espírito Santo, tudo masculino.
Por força dessa interpretação a mulher ficou excluída dos votos sacerdotais e os sacerdotes não podem ter esposa.
Afastados os princípios sagrados capazes de induzir transcendência aos fiéis, as religiões nascidas dessa cultura são religiões de relacionamento. Os fiéis se relacionam com Deus, não se identificam com Ele. E a maior parte da doutrina é explicada com a história, história de um único povo, o judeu. E de um ponto em diante, já, sem mensagem espiritual.
A sucessão de fatos surpreendentes em destaque é o heroísmo daquele povo, expulso, cativo, liberto, vencedor, e coeso. Sobretudo, guerreiro. Está ainda guerreando contra os palestinos, contra os árabes em geral.
Nisso tudo, parece esconderem-se os méritos individuais e parece destacar-se a proteção de Deus outorgada ao seu povo eleito. Por extensão, os cristãos passaram a pensar na mesma possibilidade: serem os eleitos de Jesus.
Demorará uma mudança nessas visões? Talvez, sim. Carece amadurecimento.
Uma boa parte da humanidade já está apta a fazer a mudança e é nessa parcela que toda a esperança pode ser depositada. O planeta já foi chamado a mudar do padrão de provas e expiações para o padrão de regeneração.
Chegaremos lá com sua ajuda, caro leitor. Pode ter certeza. Estamos a caminho. Pode demorar? Quem sabe?
Os bondosos conselheiros da espiritualidade continuam informando que nos casos muitos severos, as reencarnações já não se darão mais neste planeta. É o que se poderia chamar de perda de status. O comportamento de determinados indivíduos faz que sejam barrados no estádio, no clube, na festa, no condomínio, na sociedade, no planeta... Terão de procurar sua turma.

sábado, 8 de maio de 2010

Provas e expiações (V)

Sim, isso não é tudo. Iremos pelos caminhos da humanidade desvelando, desvendando, aprendendo, reciclando, regenerando.
É assim que se evolui.
Dissemos no tomo anterior que a cátedra de Zoroastro (basicamente a que fala de um Deus Criador e de seu rival) foi tardiamente absorvida pelos hebreus.
Para entender isso, vale lembrar aos leitores que no Velho Testamento (Bíblia judaica) pode-se conferir a maioria dos reis abandonando a retidão das leis mosaicas para venerar no cimo das montanhas as divindades do vasto mundo da natureza (xamanismo), as deusas. E iremos encontrar os escribas sacerdotais, então já a serviço de Yahwé, tecendo injúrias aos monarcas. O que está escondido nesta prática? O culto à natureza trazia à veneração a Deusa-Mãe. E o culto a Yahwé matou a porção feminina divina e quase fez a mesma coisa com as nossas mulheres na sociedade.
A não crítica européia às tradições religiosas procedentes do Oriente Médio alterou e fez desaparecer algumas visões cósmicas de grande transcendentalidade como era a visão celta, druida, cátara, entre outras, que não podem ser acusadas de visão reduzida a uma etnia, pois que a visão judaica também é restrita a uma etnia.
Mas, se a Mãe/Mulher têm invertido o seu papel já na partida desta visão, quando é Adão que gera Eva – e a lógica nos diz ser correto o contrário – será, efetivamente neste Terceiro Milênio Cristão que a Mãe – Espírito Santo começará a ser resgatada para a nossa cosmovisão.
Eu e você temos de aceitar tudo o que houve. Tudo faz parte do nosso alongado caminho em nossa condição de caminhantes pelas estradas e muitas vezes pelas trilhas que tivemos de abrir porque ali não havia estrada por onde passar.
Eu e você temos de entender não com esta mente desenvolvida que hoje temos; temos de entender com a mente antiga, de milhares de anos passados; e concluir que assim foi porque assim tinha de ser.
Temos de entender como seria possível a um pai ensinar coisas a uma criança, seu filho, senão por metáforas, por mitos, por alegorias, por parábolas.
Toda essa mitologia presente no Antigo Testamento, na história religiosa grega e romana, tudo isso são metáforas para que os bilhões de mentes retrógradas, em vias de se educarem, pudessem adquirir disciplina.
O método é antigo, funcionou para aqueles tempos e ainda funciona hoje: continuamos contando estórias. O teatro e o cinema existem com a mesma finalidade: era uma vez... E num repente, o “era uma vez” se faz presente e futuro. O que precisa melhorar é a qualidade da estória.
Repetindo: esse foi o papel do Antigo Testamento, dos deuses mitológicos, do Novo Testamento...
Você pode ver como toda a pregação de Jesus está bastante calcada sobre metáforas. Metáfora é mito, é estória, é parábola, é sonho.
Mostrava-se, ainda se mostra aos povos os símbolos mitológicos que atuavam, atuam e operam mentalmente na esfera de comunidades de pessoas que tinham, tenham ou não experiências essencialmente análogas, e isso funcionou, funciona, como modelagem mental.
Os espíritos muito jovens ou deficientemente educados em dimensões inferiores tinham de ser coletivamente preparados para as realidades atuais e futuras, assim como se prepara os soldados de uma corporação militar: primeiro, a hierarquia (o Pai); segundo, a disciplina (as leis). Agora que todos já reconhecem a autoridade e obedecem a leis, passaremos a entregar a eles as missões que exijam criatividade, raciocínio.
Ocorreu que, mesmo antes desse terceiro estágio, já se pôde sentir reações como a dos adolescentes a desafiar os padrões estabelecidos (Darwin, Kardec, etc.).
Por que não andamos mais depressa? Veremos adiante.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Uma pausa para beijar a mamãe ou para receber o beijo do filho

Nunca negamos que o Dia das Mães é um artifício de marketing para vender, para forçar os filhos a correr para as lojas e comprar uma lembrancinha ou um presentão para a mamãe. Nenhuma propaganda diz: honre e respeite sua mãe, ame-a sem nenhum pacote nas mãos.
Mas, se não fosse o segundo domingo de maio, para muitos filhos, talvez, nem esse dia seria delas.
Tem mais, mãe que é Mãe, não fica olhando para as mãos dos filhos na hora do abraço. Quase 100% delas afirmam que não há necessidade do presente comprado. Há necessidade do PRESENTE DOADO. O que é isso? Dar tempo presente de presente para o presente da mãe.
Mães de qualquer idade, com filhos de qualquer idade, não abrem mão do afeto, da consideração, do respeito, da honra.
Não é a toa que a natureza (diga-se natureza espiritual) cuida de tudo para que brote do ventre de uma mulher uma nova vida biológica, sem a qual o desenvolvimento espiritual não se dá, não se revela, não evolui, não comprova sua capacidade de responder às exigências da Lei Maior.
Por uma questão de polaridade energética, o pai vai cuidar do “fazer o que” e a mãe vai cuidar do “fazer como”.
Se os leitores prestarem atenção, no geral, a participação paterna se dá pela objetividade do ser gerado; a da mãe se dá pela sua subjetividade. Quanto fazer versus por que fazer.
Então, a mãe não é o que é apenas porque o filho saiu de seu âmago; ela é, também, inconscientemente, a treinadora da qualidade, qualidade humana.
Ela pode fracassar? Pode. Mas, existem mais pais do que mães fracassados.
Por isso, não é apenas o segundo domingo de maio que tem de ser das mães. Todos os dias são delas. Nós, os seus filhos, é que caímos na armadilha do marketing e reservamos a elas apenas este dia.
Se você tiver coragem de olhar nos olhos de sua mãe e dizer a ela o que sua alma gostaria de dizê-la, você pode aproximar-se dela sem um pacote nas mãos.
“Mulher! Na vida, tu amas e desamas; como mãe, jamais deixarás de amar”. (Isabel Franco)

Provas e expiações (IV)

Segundo podemos inferir através de várias fontes, esta mentalidade não foi concebida na Europa/Américas, veio do Oriente Médio através da cátedra de Zoroastro absorvida (tardiamente) pelos hebreus, transmitida às tradições ocidentais e a cultura ocidental além de absorvê-la, contribuiu para ela de forma não religiosa, como veremos.
Para otimizar esta cultura, fomos imensamente ajudados pelos modelos econômicos, como o feudal, que nos deu a figura do senhor e dos vassalos, já como extensão do sistema anterior que permitia a escravidão como coisa normal perante os homens e perante Deus. Evoluímos para o modelo capitalista que começou tão vertical quanto o feudo. E assim ganhamos todas as estruturas que elegem um papa, um rei, um patrão, um pai, e iremos dar um nome ao nosso sacerdote: “padre” (que nas línguas latinas quer mesmo expressar “pai”).
Fomos novamente “ajudados” quando alguns “meninos” rebeldes saíram em busca da antítese do capitalismo e se mostraram geniais: renunciaram à crença na existência de um Deus e arranjaram o Estado para substituir o papa, o rei, o patrão, o pai. Nessa equação marxista nem mesmo a democracia proletária foi possível e apesar dos pregões do poder proletário, na verdade o mando era, mesmo, do ditador e a vontade, novamente, era do mandante.
No poder temporal, por muitos séculos, o governo do povo não incluía o povo e de certo modo ainda não inclui; no poder atemporal, o indivíduo não entendia e ainda não entende ser parte de Deus e submetia, submete, sua vontade a Ele (entenda, leitor, a questão não está em submeter, mas em submeter totalmente).
Quase todos os desvios psíquicos desta nossa sociedade podem ser creditados à conta de nosso entendimento sobre poder, iniciativa, responsabilidade, criatividade, escolha, pecado, castigo, bônus, lógica, razão. Lá no tempo das cavernas, a razão era da natureza; na fase mitológica politeísta, a razão estava com os deuses; na fase do Deus único, a razão estava nas escrituras; na fase dos primeiros “adolescentes” rebeldes, a razão estava com os homens; na fase dos novos rebeldes, começamos a compreender que a razão é uma grande força espiritual sob a batuta de um maestro que planejou, escreveu a partitura e agora espera que a orquestra busque sua afinação e se harmonize para que o espetáculo seja pleno.
Isso é tudo? Possivelmente ainda não!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Provas e expiações (III)

E agora, quem segura isso? Foi a pergunta final do tomo dois. Quem segura uma mente que pensa, faz correlações, aplica a lógica? Por que em apenas algum detalhe a natureza imensa se mostra diferente e desmente-se a si mesma? Ou, melhor dizendo: por que somente em especialíssimos casos, naquilo que percebemos, Deus muda as suas próprias leis fundadas e consagradas? É assim que os “adolescentes” começam a cobrar do “professor” quando, ao explicar a lei, o professor traz uma interpretação fora da coerência; é assim que a “menininha” aponta para a barriga da “mamãe” e contesta a estória da “cegonha” com relação ao “irmãozinho” que vai nascer.
Respostas que os “professores” não querem ter:
Por que Deus teria um único povo escolhido dentre todos os demais “por Ele criados”?
Por que a humanidade toda passou a ter pecado nesse caso, se a função da Eva, no paraíso, foi despertar-nos a inteligência?
Por que só alguns homens puderam ascender aos céus no próprio corpo se o local para onde eles foram não comporta o uso do corpo?
Por que todos os mortos de 20 séculos teriam de resgatar seus antigos corpos para comparecer à assembléia convocada para distribuir os bônus de suas existências, se o presidente desta “assembléia” não estará num corpo físico?
Se Deus é, mesmo, o criador de tudo, o diabo também é cria sua?
Ou será que o “professor” vai dizer que não é cria sua?
Se disser, meu caro “professor”, onde está o onipotente?
Como se vê, prezados leitores, as estórias contadas e recontadas fazem as “crianças” adormecer e sonhar, até que a menininha desperta e pede: contra outra, que esta já não serve!”.
Dentre as muitas crianças que pensam pode estar o Joãozinho cochichando no ouvido do amigo: “eu já sei quem está ali dentro da roupa do Papai-Noel!”
Nós já vimos que no tocante à tradição mística, é possível dividir o planeta em dois grandes grupos: um a oeste do Irã, que inclui o Oriente Próximo e a Europa/Américas, e o outro a leste do Irã, que inclui a Índia e o Extremo Oriente.
Concentremos-nos no que para nós é o Ocidente. Nossas religiões se originaram todas no que foi chamado de Levante, outro nome que se dá ao Oriente Próximo.
A Europa (e as Américas) não participou dessa concepção, deu vazão a ela.
O zoroastrismo, o judaísmo, o cristianismo e o Islã, são qualificados como as grandes religiões do mundo. Nas concepções destas religiões, Deus criou o mundo e em todas elas há a emergência da força oposta, o diabo. E para todas elas Deus e o mundo não são idênticos. Há nessa tradição uma distinção ontológica e essencial entre criador e criatura. Isso leva a uma psicologia e estrutura religiosa totalmente diferente daquelas das religiões nas quais essa distinção não é feita. Lá (Oriente), as religiões ensinam uma fusão do indivíduo com o todo. Desta forma o indivíduo não se diferencia de Deus. Já na cultura do lado de cá (Ocidente), submetemos o discernimento humano ao poder concebido por Deus. Temos um Pai, não somos o todo, como lá. Temos um pai e um mundo acabado. E a vontade do pai é que conta. Mesmo que Eva tenha despertado a adormecida vontade/inteligência, alguns de nós preferem continuar no paraíso, diga-se creche, a espera do lanche, da mão que alimenta, que troca as fraldas, que conduz ao berço, que protege na travessia da rua...
Um dos grandes problemas da tradição cristã (romana) surge da interpretação da graça sobrenatural, a qual se afirma, com efeito, que a salvação não procede de você, mas de fora de você por meio de algum tipo de experiência ritual.
E o que é pior, teve muita coisa contribuindo para isso. É o que veremos na próxima mensagem.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Provas e expiações (II)

Ninguém está querendo dizer que aquelas pessoas cativas do hospital, da penitenciária ou do templo não devessem estar lá. Isso você precisa entender e até mesmo auto avaliar-se para descobrir-se cativo ou habitante temporário de um dos departamentos citados no primeiro tomo. Se pensarmos de forma madura no aspecto PROVA, iremos concluir que se trata de um teste. Se pensarmos de forma madura no aspecto EXPIAÇÃO, iremos concluir que se trata de penitência ou cumprimento de pena. De um modo melhor que a escola, penitenciária ou hospital, a espiritualidade maior não certifica, não diploma e não libera sem que o sujeito tenha efetivamente cumprido todas as metas. Não há jeitinhos nem carteiraços.
A Escola Maior, que é a vida biológica (que não se separa da espiritual) tem muita coisa semelhante com os costumes da humanidade, mas permite-nos o livre arbítrio, a livre escolha, a opção de sermos covardes, omissos, incompetentes, relapsos, tanto quanto o inverso, sempre numa combinação de justiça, merecimento e vontade ou interesse.
Por isso, no seio da humanidade ocidental ainda temos, segundo classificam alguns teólogos, imensas levas humanas olhando para as nuvens a espera de um Deus-Pai-Salvador, vindo salvar o que se poderia chamar de crianças. Outras levas nem mesmo atribuem importância a Jesus, Filho do Pai-Salvador Maior. São correntes de fé que trabalham o Antigo Testamento. Do mesmo modo, outras levas preferem esperar a volta de Jesus-Deus-Rei deste mundo, cavalgando as nuvens para buscar os mortos e devolver-lhes à vida como escolhidos seus.
Por conta dos mitos, que ainda teimam em mostrar-se às mentes crédulas e embotadas por muitas névoas, nem se findou a Era do Pai – aquela que é dada como o período anterior a Jesus –, nem começou a Era do Filho – que é dada como a era cristã, do próprio Jesus – e, pelos mesmos motivos, a Era do Espírito Santo é apenas uma tênue promessa.
Na metade de cá do planeta, ainda somos maioria olhando para os céus a procura do rosto do Deus antropomórfico, legislador e juiz, policial e babá do Universo. Ficamos a olhar para as escrituras com seus mandamentos, preocupados em fazer a lei burocraticamente cumprir-se para não aborrecer o xerife. Enquanto isso, sentamo-nos à sombra do templo, aonde seremos resgatados para sermos levados de volta ao Éden. Outros preferem ficar à porta da creche ou da escola a espera do Pai, que os ajudem atravessar a rua e serem levados para casa.
Nas classes mais adiantadas corre a notícia de que um punhado de alunos, conhecidos pelos nomes de Kepler, Copérnico e Galileu resolveram desafiar o professor, bater o pé e arvoram-se a desmentir uma boa parte dos conteúdos da escola. Atrás deles saíram vários outros adolescentes rebeldes, com nomes Newton, Darwin, Kardec, Kant.
E agora, quem segura isso?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Provas e expiações (I)

Não é difícil ao juízo do leitor amadurecido para a espiritualidade, concluir que nos mundos habitados por nós existem espaços acolhendo as mais diferentes idades mentais e psíquicas bem caracterizadas segundo as suas necessidades. Desde os mais infantis até os mais agressivos, passando pelos intelectualizados e pelos espiritualizados, todos são visíveis. Nem os ateus ficam de fora.
O que você vai ler agora é a mais aproximada posição ocupada por nós, humanos, na sociedade atual. Segundo a característica ou necessidade, uns permanecem na creche; outros, ainda estão na escola; outros mais, baixaram o hospital; boa parte, está na oficina; muitos e pelos mais variados motivos estão no templo; e é sempre maior o número de ocupantes e candidatos à penitenciária. Em cada um desses “mundos” iremos encontrar, como foi dito, aqueles indivíduos que ali se encontram por absoluta necessidade segundo a sua condição física, intelectual, moral, emocional, psíquica. Outros, não.
Por mais honrosa ou confortável que seja a posição ocupada, ela denota, para a maioria dos freqüentadores, carência, mérito. Para exemplificar: o habitante da creche é incapaz de obter – figurativamente – seu próprio alimento, limpar-se ou vestir-se às suas próprias custas; no outro extremo, o habitante da penitenciária não merece liberdade por não saber usá-la. Mas, não é só. Há os que não se desligam da escola, não chegam a nenhum fim. Há os que nada mais sabem fazer do que trabalhar, trabalhar, trabalhar. E, claro, também há os que só têm interesse pelo templo e ali aguardam um salvador, um preceptor que lhes conduza para qualquer destino. Por razões muito especiais ficaram para este último pedaço da análise os hospitalizados. Quem sabe estes sejam egressos de outros departamentos, bem como os hóspedes da penitenciária também possam, um dia, sê-lo.
Como, cada um, sair dali? E se sair, ir para onde?
Esta é a única explicação plausível para que o planeta Terra tenha recebido a missão de ser um local de provas e expiações. É claro que os hospitalizados terão de ter alta, assim como os hóspedes da penitenciária terão de ser libertados, do mesmo modo que os freqüentadores da escola terão de formar-se e os hóspedes da creche terão de emancipar-se, dar conta de si por conta própria. Esse é o dia em que o planeta mudará de missão.
Evelyn Underhill, em seu livro Mysticism, distingue três estágios no caminho para o crescimento: o despertar do eu, a purificação do eu e a iluminação do eu. Os cativos da creche e do templo ainda não despertaram. Os cativos do hospital, da escola e da penitenciária ainda não se purificaram, entendendo-se purificação por destilação das impurezas, transformação, regeneração, cura.
Os mais competentes analistas começam por entender que nossos graves males da cultura estão no plano psicológico e desse plano vazam para o comportamental, para o intelectual, para o emocional. Os nossos problemas não estão na economia, nem na ecologia, nem nas fontes energéticas, mas na nossa conduta e na ética motivadora da nossa conduta. As pessoas não saem ou não querem sair da creche por comodismo, por covardia, por falta de vontade. Os numerosos habitantes do templo lá estão porque são ingênuos e acreditam nas mentiras dos seus pregadores, que não são pregadores, são corretores, vendedores de ilusões.
Esta conversa ainda vai longe. Quer vir junto?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Você tem 30 mil horas para viver

Que coisa, não? As pessoas nascem, crescem, amadurecem, envelhecem em apenas 30 mil horas. Pára aí, está errado, 30 mil horas são pouco mais de 1.000 dias e mil dias são menos de 3 anos. O que significa uma afirmação dessas?
Calma, leitor. Vem comigo...
A cada 24 horas do dia, praticamente nos sobram 14 para fazer aquilo que realmente interessa. Não é assim que pensa a maioria? Dormir umas 8 horas, tirar duas horas para banho, refeições, cuidados com o corpo e aparência. Aí estão as 14 restantes. Em tempos atuais, nas grandes cidades, mais uma ou duas horas entre sair de casa, chegar nos locais programados (escola, trabalho, etc.) e voltar pra casa. Já ficaram só 12. Agora tira mais aquele tempo gasto com gente que se atravessa em nosso caminho, fila de banco, fila de elevador, fila de trânsito, tempo de semáforo, acidente na pista, blitz policial e uma série de outras coisas. Já estariam sobrando só 10. Então vamos ao que interessa, tempo é ouro, precisamos trabalhar, produzir, tocar o barco...
Calcule: nós já delineamos todas as 24 horas do dia e, no duro, nada sobrou pra viver a vida.
É aqui que está a questão.
Um estudo recente nos sugere que a vida se mede com três medidas:
Comprimento = tempo vivido, idade, saúde.
Largura = bons relacionamentos, amizades, amores (alegria, paz).
E altura = conquistas espirituais (intelecto, sabedoria renovável).
O mesmo estudo sugere que entre todos os nossos momentos, devem sobrar-nos, ao longo de uma vida de 80 anos, cerca de 30 mil horas em que a vida pode se tornar plena.
Primeiro problema: nos primeiros 30 anos desperdiçamos 10 mil horas por não ter consciência disso. Nos 30 anos seguintes desperdiçamos mais 10 mil por falta de tempo para viver isso. E nos 20 anos restantes descobrimos que fica muito difícil viver isso em plenitude se não houver uma construção anteriormente edificada. Passamos as últimas 10 mil horas de nossas vidas na solidão. E aí, não são mais só 10 mil horas. Talvez já sejam todas as demais horas de vigília, ócio, lazer, espera. E perdemos o campeonato da vida, acabamos rebaixados, pois que não se pode querer garantir vaga no campeonato apenas na última partida.
Aqueles grupos de terceira idade são ótimos, mas não preenchem a vida porque na maioria são pessoas interessadas em divertir-se. Diversão é algo que não tem versão, não tem outro objetivo, preenche mas não satisfaz, ri mas não acha graça. A menos que haja, no grupo, um sério compromisso com a evolução.
Maioridade espiritual também é:
* descobrir o que quero da vida o mais cedo possível;
* descobrir o que quero ser quando acabar meus estudos;
* descobrir o que quero da vida além de ganhar dinheiro;
* descobrir o que quero ser quando envelhecer;
* descobrir o que quero ser quando morrer;
* descobrir o que quero ser quando reencarnar.

domingo, 2 de maio de 2010

Dá pra ser feliz?

Dá pra ser feliz? Dá?
Eu não tenho nenhuma responsabilidade com o lixo, com a camada de ozônio, com o efeito estufa, com a corrupção, com a miséria...
Isso é coisa da prefeitura, do governador, do presidente, da ONU...
Eu não quero saber dos mendigos, dos caras que estão nos semáforos encenando malabarismo, vendendo mandolates, pedindo esmolas, oferecendo-se para lavar o parabrisa, vendendo drogas na esquina, dando uma da flanelinha a poucos metros do agente da zona azul.
Eu não quero saber por que aquela garotinha de 14 anos está se oferecendo para ir ao motel com aquele senhor.
Não quero saber por que aquele moleque está fumando craque ali no banco da praça. Isso não é problema meu!!!
Eu sou um cidadão do bem. Eu trabalho, pago meus impostos, cumpro com o meu dever. Se a bomba não estiver debaixo da minha cadeira, o mundo que se exploda.
Essa palhaçada de partidos políticos é coisa pra desocupados, safados e corruptos. Tenho ojeriza dessa gente. Jamais eu abrirei uma ficha como membro e contribuinte de um desses vinte e poucos partidos que torram a paciência da gente nas quintas-feiras pela televisão.
Vocês já viram aqueles caras-de-pau falando de democracia, felicidade, desenvolvimento, ética, seriedade, nos horários gratuitos de tevê?
Olha pra mim e vê se eu tenho cara de otário pra fazer parte dessa corja que dirige os partidos políticos?
Vê se eu tenho estômago para dirigir um partidinho que nem elege ninguém, mas ocupa espaços na tevê, faz acordos com outros partidos e tem a partilha dos cargos de confiança? Isso é uma vergonha!!!
E essa palhaçada das assembléias do condomínio? Vê se eu tenho tempo e saco para perder duas ou três horas para ouvir aquelas baboseiras?
Eu quero mais é que as ruas fiquem vazias pra eu circular de lá pra cá.
Mas, isso já não é possível!!!
Eu quero mais é que prendam todos esses bandidos que andam se metralhando entre eles e ameaçando a gente com as balas perdidas.
Sabe, estou muito infeliz! Quando saio de casa pro trabalho, quando retorno pra casa, as ruas estão cheias, o estresse é grande. Já saio de casa, tenso. Chego ao local de trabalho, tenso. Circulo pelos locais de almoço, tenso. Parece que tem gente de olho. Faço meu almoço, tenso. Continuo tenso. Dirijo-me à minha residência, tenso. Ligo a tevê para relaxar um pouco e o que vejo? Um desfile de notícias de crimes, tragédias, corrupção, confusão, gabolices... Não dá pra ser feliz, mesmo.
Será que a vida está pedindo ou cobrando algo de mim?
Não, não, meu caro, fica frio. A conversa é outra.
Você começou a fazer parte do modelo social que ergueu muros em torno das aldeias para proteger os clãs contra as invasões bárbaras. O problema, meu caro, é que de algum tempo para cá os bárbaros passaram a viver dentro dos limites das cidadelas, nossas atuais cidades.
Nós não soubemos construir nossas relações sociais e hoje o inimigo pode morar na porta ao lado, no carro ao lado, na moto ao lado, pode ser o entregador de pizza, o carteiro, o encanador, o eletricista, o cara da esquina...
Mas, cara, eu não tenho nada com isso!!!
Eu já recebi assim o mundo que tenho!
Esses vereadores, deputados, senadores, são todos os uns lacaios, corruptos, safados. Eu não quero saber quem são eles e nem o que eles estão dizendo ou fazendo.
Juízes, desembargadores, ministros, delegados, policiais, fiscais, são todos iguais. Vê se você me deixa em paz, eu quero ser feliz.
Eu quero ser feliz. Eu quero ser feliz!
Isso tem jeito? Tem?...
Resposta a esse irresponsável e omisso: se a sociedade depender de gente que pensa e age como você, não tem jeito, não!

Quem pede, quando pede, pede o que?

Um dia destes circulou pela internet uma dessas animações PPT dando conta de como Deus, Jesus e os santos se comportam diante dos milhões de pedidos que chegam. É gente pedindo para ganhar a mega sena, para arranjar casamento, para curar-se, para passar no vestibular ou no concurso, para não chover num determinado dia, ou chover no outro, ou no mesmo dia, para o avião não cair, para arranjar emprego, para a vitória do time A ou B, além de muita coisa mais, censurada até.
Existem situações em que o pensamento positivo é um grande aliado. Noutros casos, segundo Sheldrake, uma poderosa egrégora com muitas mentes unidas também funciona. Mas, na maioria dos casos, os pedidos são perfeitas declarações de impotência, capitulação ou entrega nas mãos de Deus, como se diz, para que o “destino” tome conta.
Há um batalhão de contumazes pedintes, recorrentes fazedores de promessas, cujo comportamento é, de fato, aquele de esperar que a divindade faça por eles o que eles não querem fazer.
Os casos mais gritantes nos vêm da área da dor. Infelizmente, quase 100% das pessoas acometidas por uma doença e as mais comuns e assustadoras são os cânceres, imaginam que tal diagnóstico veio de fora e que uma força externa deve retirá-lo dali. Se o médico, a cirurgia e o remédio não produzirem esta ação, então Deus tem de fazer sua parte. Nunca o próprio paciente toma para si a responsabilidade nem no surgimento e nem do desaparecimento do problema. E aí, como se diz popularmente, nem Deus dá jeito. Já comentamos isso sob o enfoque da porta fechada. Como penetrar a luz de Deus num ambiente em que a luz não é estimulada.
Em sentido oposto, quando o paciente da dor adquire consciência de sua participação na criação do campo emocional ou mental para que as células de seu corpo se mostrem infelizes e, em conseqüência dessa consciência nova, reage, fazendo a travessia do lado do desconforto para o lado da significação espiritual, os casos de curas inexplicáveis são numerosos. Poderiam encher páginas e páginas de livros e jornais.
Por que um assunto de tamanha envergadura como este é pouco explorado pela mídia? A Universidade que forma os profissionais da medicina e da comunicação os forma sob um rígido apelo materialista e fica muito difícil a um profissional expor-se a defender teses metafísicas, correndo o risco de ser mal interpretado por seus colegas e mesmo pelos conselhos reguladores de suas profissões. No entanto, em muitas casas de caridade sempre aparecem médicos e comunicadores desenganados pela ciência material e com enorme engajamento e desenvoltura partem para o campo da fé em busca de salvar a sua saúde ou de alguém de sua família.
Quando pedimos a intervenção de Deus e sabemos pedir, pedimos porque temos a mais absoluta certeza de que nosso poder esgotou-se. Se o pedido for bem feito e acompanhado de uma vibração espiritual condizente, os milagres acontecem. E como acontecem! Acontecem e não vêm sempre de fora. Na maioria das vezes, há o encontro do milagre íntimo com o milagre externo. E aí, ninguém segura.