quarta-feira, 30 de junho de 2010

Magnetismo e Atração (II)

A trilogia da completude

É impossível compreender o “planeta humano” sem sua completude caracterizada pelos três campos mencionados (segundo alguns autores):
• O Corpo – sede da estrutura física, orgânica e energética (energia estagnada), programado para dar ação à inteligência (o verbo que se fez carne);
• A Mente – sede do pensamento, da memória, da razão e do comando (via energia fluída) de dois sistemas integrados: o preexistente subjacente à consciência (organizador da vida no corpo) e o opcional subjacente à inteligência humana (organizador das nossas escolhas);
• O Espírito – entidade imortal que acumula experiências adquiridas em sucessivas passagens pela matéria e fora dela, e sede da inteligência e memória integradas ao Plano do Criador Universal (tudo isso, também, no campo energético).
A esses três campos (segundo outros autores) deve juntar-se um quarto representado pelo Coração, como sede da vontade, da fé e do amor, contribuindo energeticamente para que os ditames do livre-arbítrio não conduzam o ser humano às tentações distanciadas do amor.
Nesta abordagem os leitores serão convidados a compreender que a vida, como um todo, tem um propósito que, se violado, o autor da violação é chamado a repará-la. Negada a reparação, o componente violador evolui para sua decomposição e transmutação degradante. É a corrupção de que falam os evangelhos. É a degradação que atinge a matéria de forma ampla quando perde a sintonia com a Proposta da Vida, e que não ocorre apenas com o corpo humano, pode manifestar-se no conjunto das sociedades, com todo o planeta, inclusive do ponto de vista ecológico. Nada é dissociado. Tudo é um continuum.
O Programa Prévio da Vida Humana a cada indivíduo e comumente a grupos, clãs, sociedades, integrado ao Plano Divino, também chamado de Missão e Co-Missão, integra o propósito divino e também o propósito familiar e coletivo, e é elaborado com a nossa participação, de forma convencionada com a Espiritualidade sempre que tais indivíduos ou grupos estão por ganhar vida corporal.
A cada encarnação vivemos mais “um dia” do processo da Criação, numa experiência que é muito parecida com o que fazemos profissionalmente, perante nossa empresa ou repartição, nosso empregador, nosso País. Assim que se chega ao Programa Adquirido, composto daquilo que, a partir do que sabemos, aprendemos e cremos, escolhemos como projeto de vida para cada existência corporal. Já se sabe que o Programa Adquirido pode facilitar o andamento do Programa Prévio ou pode contribuir para sua ruína.
Aqui cabe uma advertência: os pais, educadores e formadores de consciência, respondem solidariamente pelos equívocos ensinados aos seus filhos e discípulos.
É a convivência harmônica conjugada entre o propósito maior da vida, o projeto pessoal ou coletivo, que foi deliberado e o projeto que está sendo executado, que nos faz melhores, capazes, mais felizes, mais realizados e evoluídos. É a contrariedade entre esses três planos, que nos faz infelizes, fracassados, desajustados, desequilibrados, sofredores, doentes.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Magnetismo e Atração (I)

Introdução

O cosmo se mantém organizado sob o efeito da energia e do magnetismo.
São quatro os tipos de energia identificados pela Ciência na composição do Universo:
1) Energia da gravidade, que mantém os planetas em órbita;
2) Energia do eletromagnetismo, que responde pela luz, pelo calor, pela eletricidade e por tudo o que está relacionado com a energia que conhecemos;
3) Energia de interação forte, que mantém unido o núcleo do átomo;
4) Energia de interação fraca, que responde pela transmutação dos elementos e pela decomposição radioativa.
Do ponto de vista do continuum cósmico, como seria possível descrever o corpo humano na sua forma perfeitamente integrada ao seu meio?
Rios que circulam, represam e irrigam; solo fértil onde se desenvolve a vida bacteriana, mineral, vegetal e animal; pedras enrijecidas que servem de alicerce às construções; organismos cíclicos que respiram, se alimentam, entram em combustão, tomam a forma de vulcão e de fogueira; superfície montanhosa, cheia de vales e desfiladeiros, coberta por florestas; ente ecológico que emite sinais luminosos de diferentes cores e que viaja pelo espaço e pelo tempo entre a noite e o dia, entre primavera, verão, outono e inverno, isto é, se forma e conforma pela composição energética vestida de matéria, ocupa a carne, nasce, se faz adulto, envelhece e desocupa a matéria para voltar ao estado fluídico ou energético, da mesma forma que a árvore e a estrela. O que muda de um para o outro desses seres é o volume de energia e informação neles contidos.
Isso é o planeta chamado homem. Estamos falando de nós, seres humanos, de nosso corpo. Esse “planetinha”, chamado ser humano, possui um prestimoso deus, sob a forma de uma central de inteligência e consciência e foi pautado para cruzar o tempo e o espaço em estado de maravilhosa perfeição, harmonia e equilíbrio. Em troca, exige apenas cuidados vibratórios, disciplina, limpeza, tratos culturais, irrigação, respiração e nutrição corretas. Por possuir emoção, o “planeta” necessita de afeto, carinho, amor, amizade, sexo, lazer, arte e cultura. Por possuir intelecto, necessita de falar, ouvir, aprender, ensinar, exercitar o raciocínio, abstrair, discernir, observar, pesquisar e concluir. Enfim, por possuir um espírito, esse “planeta”, que somos nós, precisa ouvir essa entidade eterna e poderosa – nossa essência – porque toda a nossa programação de vida está ali, armazenada. Por sua vez, o espírito possui estreita ligação com as dimensões divinas, que continuamos a buscar para conhecer.
Esse “planeta gente” possui um conhecimento adquirido, onde encontramos as tradições, o modo de agir e reagir, cujos conteúdos podem ser um poderoso auxílio à sua libertação, crescimento e realização, ou podem ser a sua prisão e a perigosa destruição do projeto convencionado com o Criador.
Vejamos como reagem os sistemas desse “planeta” chamado ser humano: sempre que a vontade humana contraria a missão; sempre que o pensamento humano contraria a razão; sempre que a emoção e os sentimentos, contrariam a moral; sempre que as ações humanas contrariam a ética, ou seja, contrariam aqueles valores que pertencem verdadeiramente ao ser divino e cósmico que somos, alguns ou todos os nossos sistemas entram em colapso, surge a culpa, o remorso, o medo, a ansiedade, a insatisfação, a infelicidade, o desconforto, a dúvida, a decepção, as contrariedades, a nutrição incorreta, a respiração incorreta, o sono incorreto, e prejuízos ao afeto, ao sexo, ao humor; ficam afetados a alegria e o amor; aparecem os estados de depressão, estresse, doença física, emocional, intelectual, psíquica ou espiritual. Isto é, a vida reage à contrariedade do projeto divino, assim como nossa mente reage à dor, ao frio, ao calor e à nossa exposição a campos energéticos carregados, a partir de uma pessoa, de um ambiente ou de uma zona de vibração específica.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A voz do silêncio (V)

Os pais mais ensinam a seus filhos em silêncio, pelo exemplo, do que pelo uso das palavras, geralmente em excesso e muitas vezes com excessiva ênfase. Nem sempre os pais são sábios e nem sempre os seus exemplos são bons. Os instrutores espirituais autênticos falam e escrevem, mas sabem que toda transmissão verdadeira de sabedoria é silenciosa, independente do que possa ser dito ou escrito. Nesta frase está contida uma revelação que você poderá buscar se ainda não decodifica. Os instrutores espirituais sabem que nunca o conteúdo transmitido é o mesmo recebido. E sabem que a verdadeira construção da sabedoria não é derivada do ato de uma mente depositar fórmulas em outra, mas do ato de uma mente estimular a outra a buscar suas fórmulas próprias. E tudo é sabedoria. A sabedoria não é patenteada. É como a luz, que não escolhe criar zonas de sombra aonde vai.
O Silêncio é o território da percepção direta e da comunhão, comum união, que é onde também para o que concorre a comunicação (ato de tornar comum uma informação). É nesse território que ocorrem as coisas mais importantes da vida. Vida é energia e informação. É sempre em momento de silêncio que brilham a harmonia, o amor, a compreensão e para a mente humana o relâmpago de intuição. O Silêncio físico contém todos os sons, todas as músicas, todos os ritmos, assim como o espaço físico absoluto e infinito contém todas as estrelas, galáxias, planetas e seres. No Silêncio psicológico, o meditador e o místico se unem finalmente a seu verdadeiro eu e compreendem todas as coisas ao mesmo tempo. A Superior Inteligência do Universo repousa no Silêncio, onde pode ser acessada por quem estiver à altura de merecer percebê-la, comunicar(-se) com ela.
O sábio guarda o Silêncio dentro de si em todas as ocasiões. Ele se emociona, sim. Ele expressa seus sentimentos, luta, se esforça, é derrotado e vence. A diferença é que seus objetivos são altruístas. Por isso o Silêncio está ali o tempo todo ao lado dele, aconselhando-o. Ele não obedece a emoção como se ela fosse um comando para a ansiedade, a irritação, o medo, a luta. Ele busca conhecer as razões da emoção e atua na sua potenciação criadora.
O sábio sabe que é melhor amar que ser amado, curar que ser corado, carregar que ser carregado, servir que ser servido, iluminar que ser iluminado. E compreende silenciosamente as razões da existência do cosmos, das plantas, dos peixes, das aves, dos animais, dos homens, da chuva, do frio, do calor, da luz... ...assim como compreende e conhece a si mesmo.

“Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar”.
(Cecília Meireles)

domingo, 27 de junho de 2010

A voz do silêncio (IV)

Note, leitor, que os programas de informática possuem ou não compatibilidades entre si que permitem ou não o fluxo, a leitura de uns para com outros formatos, como WordPerfect, Work, Macintosh, Documentos HMTL, RTF, Texto MS-DOS, Doc, Dot e outros. Com as pessoas não é muito diferente, isto é, se não trabalhamos a afinidade dos códigos de percepção, decodificação, interpretação e compreensão, jamais chegaremos a comunicar na profundidade que poderíamos comunicar, entendendo a comunicação como comum relação, comum ligação, comum correspondência, comum reflexividade, comum reciprocidade,comum equivalência.
Os seres sábios experimentam a maravilha que é deixar de lado a vontade de falar de tudo que sabemos. Não há necessidade de nos expressarmos com palavras. Menos de 1% delas acabam tendo efeito quando ditas à esmo. O correto é reter silenciosamente as nossas percepções, aprofundá-las até que elas tenham permeado e transmutado todo o nosso ser e só então buscar uma comunicação adequada. A comunicação verbal precoce impede a transformação silenciosa que a verdade produz em nós. Todo discurso emerge de uma prática, mas nenhum discurso é mais forte do que a prática da qual emerge. O silêncio nos dá a possibilidade de praticar o que pensamos em vez de dispersar energias expressando opiniões muitas vezes infundadas e passíveis de vícios.
Os dolorosos fracassos nas tentativas de comunicar oralmente, experimentados por muitos líderes, ensinam que o melhor discurso é feito por ações, no poder do silêncio, relatadas depois não pelo próprio ator. Sócrates e Jesus, entre outros, se encaixam neste perfil. Os grandes sábios ensinam que quando não podem ser transmitidos em silêncio, os segredos da vida espiritual são incomunicáveis.
Por outro lado, a renúncia à fala evita a dispersão e preserva a energia sagrada do que foi percebido por nós. A melhor maneira de viver é intuindo, testando, confirmando e aprofundando a vivência direta das nossas verdades. Apesar dos outros canais, nosso espírito conta com a nossa intuição para dizer-nos as suas verdades.
O Silêncio - Isso mesmo, escrito com “S” e não com “s”, em respeito ao sagrado, é a lavoura aonde desabrocham as sementes da intuição. Ao lado da palavra, dos símbolos, das imagens, dos sons, dos olores, dos sabores, dos toques, o Silêncio se apresenta como a sagrada morada do amor sublime e da sabedoria provindas da alma. O medo do desconhecido e o apego à rotina nos fazem exagerar o papel das palavras em nossa vida. O amor sublime e a sabedoria são sempre mutilados quando os arrastamos para o território das palavras na tentativa de obter segurança. As palavras podem ir até o nível do supremo, mas o supremo não pode ser trazido para o nível das palavras. Não no todo. Só em parte.

sábado, 26 de junho de 2010

A voz do silêncio (III)

O filósofo Arthur Schoppenhauer afirmava que a inteligência do ser humano está na razão inversa da sua capacidade de suportar barulho. Escorados na lição do filósofo, podemos dizer que a sociedade atual reprime a inteligência principalmente de nossos jovens submetendo-os a toda a sorte de barulho. As atividades que se valem das máquinas de captar dinheiro não carecem de clientes criativos, muito pelo contrário; elas buscam transformar os seres humanos, desde quando ainda crianças em consumidores ávidos, barulhentos, compulsivos, escravos dos seus desejos criados artificialmente. Todos ganham, exceto o cliente, exceto a vida.
Esses batalhões de ouvidos fechados por fones a ouvir não se sabe o quê, são mentes fechadas para o que a vida lhes poderia proporcionar ao vivo. São mentes que escolhem isolar-se, desligar-se. Optam por um só canal e nem sempre o melhor.
Por outro lado, a inteligência espiritual, que brilha – como vimos – na razão direta do nosso prazer pelo silêncio nos planos físico, emocional e mental, nestas condições de isolamento, sai perdendo.
O amor e a amizade profundos andam juntos com a inteligência espiritual e não necessitam que os amantes e amigos fiquem batendo trela o tempo inteiro. Quando há verdadeira afinidade, as almas se compreendem sem necessidade de muitas palavras. Então o silêncio não causa constrangimento nem precisa ser quebrado com palavras fúteis, porque é cheio de luz e significado.
Há também um tipo de silêncio que é feito de resignação. Mas, não é uma resignação acompanhada pela conformação de que se não há outro jeito, então deixa como está. É uma resignação sábia. Ele surge em duas hipóteses: a desagradável compreensão de que as palavras são incapazes de traduzir os nossos sentimentos mais nobres e profundos e a generosa compreensão de que o que queremos traduzir não está ao alcance do interlocutor.
Em geral, perdemos muita energia tentando expressar o que não pode ser dito com palavras. Jogamos fora grandes quantidades de energia magnética tentando “impor” ou “vender” aos outros nossas opiniões em discussões intermináveis, até que aceitamos o fato de que as palavras podem muito, mas são instrumentos limitados. Elas só podem mostrar algo a quem já tem, dentro de si mesmo, todas as condições de ver aquilo que vemos e vê enquanto ouve.
É aí que esse silêncio de que estamos falando nasce como um sinal de modéstia inteligente, uma calma aceitação sábia dos nossos limites. Não é por menos que nossos sonhos noturnos são visões e não leituras. Nossa alma, ao perceber nossos limites na comunicação verbal, sabe que é inútil pretender só falar quando o que tem a comunicar exige mais que palavras.
Aquilo que sabemos, sentimos ou intuímos nem sempre pode ser comunicado, não por outros motivos, é pela simples razão de que para os padrões das comunicações usuais os seus conteúdos são (ainda) intransmissíveis. As palavras não fazem parte da última geração de instrumentos de comunicação.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A voz do silêncio (II)

Milhões de pessoas se refugiam no barulho psicologicamente ensurdecedor das suas emoções desordenadas ligando o rádio, a televisão ou o aparelho de som a todo o volume. São pessoas que fogem do confronto consigo mesmas distraindo-se com as misérias e dramas, reais ou imaginários do mundo externo. Os estudiosos das táticas militares sabem que quando uma batalha é dada por perdida, para não entregar-se e para evitar cair prisioneiro do inimigo, o comandante manda recuar, atirando. Atirar para dificultar o avanço inimigo. Há pessoas que recuam das batalhas de seu crescimento pessoal, atirando palavras em todas as direções.
Para quem busca a felicidade interior, o auto-conhecimento é inevitável. O auto-conhecimento não é a exposição desordenada de idéias, é o recolhimento para a leitura interior. A prática do silêncio começa no plano físico. A abstenção gradual de filmes e músicas que agitam as emoções, assim como do rádio e de conversas tolas, é um dos primeiros passos. Em seguida, o desafio da prática do silêncio se transfere para o plano das emoções e dos pensamentos. O silêncio emocional é a renúncia a todo desejo dispersivo. Ele abre as portas da paz interior. Concentrar-se no que a vida coloca diante de nós, é o caminho da sabedoria. Fazer o melhor que podemos a cada instante, é o segredo da vitória.
O uso do silêncio é, pois, um instrumento indispensável para o guerreiro, para o líder, para o mestre que busca a sabedoria. Mas, o silêncio não significa necessariamente a ausência de palavras. O sábio pode praticar um silêncio setorial enquanto convive fraternalmente com as pessoas, evitando pensar ou falar sobre questões pessoais e mantendo seus pensamentos e palavras em um nível acima das questões menores. A sinceridade com todos deve ser exercida em um plano superior, para que não se transforme em fator de destruição das relações humanas. A construção e a destruição de boas amizades contam com o fator comunicação. São abundantes os exemplos de amizades que terminam na abundância das palavras e de amizades que se afirmam no silêncio dos gestos. Captar ou descartar amizade e amor são também conseqüências dos atos de falar ou calar. A impessoalidade produz paz interior, assim como a preocupação consigo mesmo gera ruído emocional. À medida que o silêncio psicológico se amplia em nossa vida, passamos a poder ouvir com clareza crescente aquilo que os místicos chamam de a voz do silêncio, o som da nossa alma imortal, a música eterna que nunca cessa e que só escutamos enquanto nossos ouvidos são tapados para nossa agitação pessoal. Quem ouve a voz do silêncio recebe um magnetismo vital de grande poder. Não há fonte de energia maior que o contato com o mundo divino.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A voz do silêncio (I)

O ato de aquietar-nos para entrar em contato com a nossa própria sabedoria interior, é como uma celebração, um ato de grandeza e de respeito de cada um de nós para conosco.
Por isso, esta mensagem é uma proposta para ouvirmos com clareza crescente aquilo que os místicos chamam de a voz do silêncio, o som da nossa alma imortal, a música eterna que nunca cessa e que só escutamos enquanto nossos ouvidos são tapados para nossa agitação pessoal.
Quem ouve a voz do silêncio recebe um magnetismo vital de grande poder. Não há fonte de energia maior que o contato com o mundo divino.
Quem busca equilíbrio e sabedoria tem fortes motivos para evitar não só o excesso de ruídos físicos, mas também os barulhos emocionais e mentais. A prática do silêncio aumenta o magnetismo pessoal e o poder interior, assim como o barulho e a conversa fútil dissipam energia vital e força magnética. Cada palavra vã ou ociosa que lançamos ao ar nos prejudica. Cada palavra correta que dizemos e cada silêncio adequado que fazemos nos beneficia.
A prática do silêncio e da palavra correta não é algo simples. Constitui uma ciência a ser buscada e praticada para a vida toda. Nem sempre o silêncio anda junto com a sabedoria: às vezes ele expressa apenas ignorância. O silêncio também pode ocultar a verdade. Pode ser uma forma de mentir, de obedecer ao sentimento de medo, de omitir socorro ou fugir da solidariedade. Se calamos por egoísmo ou por temor, devemos desenvolver qualidades como coragem e lealdade, e aprender a falar sempre a verdade. Mas, se somos sinceros, devemos estudar a próxima etapa, que é o silêncio do sábio.
O primeiro passo pode ser aprender a identificar os vários tipos de silêncio que as pessoas praticam.Há um silêncio decidido, e outro indeciso. Há um silêncio seguro e outro inseguro. Há um silêncio eloqüente e outro que não quer dizer nada. Há um silêncio poderoso e outro destituído de poder. Há um silêncio que transmite amor e admiração e outro, indiferença. E existe um silêncio em que teríamos muito o que dizer, mas no qual decidimos manter concentrada e estocada a energia.
“Não degrade a verdade impondo-a a mentes que não a desejam”, dizem as Cartas dos Mestres de Sabedoria.
“Aquilo que se CALA é tão importante quanto aquilo que se FALA”, ensina Rhada Burnier, teosofista indiana.
Mas, é preciso estar interiormente silencioso e atento para perceber – ou melhor para merecer perceber – o que está implícito nas palavras e atitudes dos outros. Há, como vimos, o silêncio precário e instável de quem reprime um sentimento muito forte de amor ou ódio. Os sentimentos são como água. É perigoso reprimi-los. É melhor canalizá-los de modo útil, em um nível superior, do mesmo modo que se faz com as barragens hidrelétricas, transformando a força bruta das águas de um rio em energia elétrica útil e dócil.
Algumas pessoas escondem seu silêncio sob um mar de palavras sem significado. Esse “silêncio falado” é uma maneira barata de roubar energia magnética do outro. Não é certo usar palavras como cortinas de fumaça. A felicidade interior é produto da sinceridade. A esperteza com as palavras e a manipulação dos sentimentos alheios é fonte de sofrimento para si mesmo e para os outros. A prática da veracidade é uma exigência do caminho espiritual e deve ser exercida com bom senso. A auto-entrega total quando não está acompanhada de discernimento, moderação e abstenção de exageros, é algo que caracteriza mais os tolos do que os sábios. É a abstenção que desenvolve a vontade e a paz interior.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A vontade humana (V)

Vontade não é algo automático - Se a vontade humana estivesse ativada automaticamente em todo ser humano, não haveria graça. Os seres humanos deixariam de possuir o diferencial em relação aos demais animais: seríamos previsíveis em quase tudo. A individuação seria zero.
A entidade até certo ponto autônoma, porém não automática, chamada vontade, no entanto, pode ser potencializada e minimizada por processos educativos e relacionais. Sociedades inteiras, nações, segmentos sociais, têm sido atingidos por ondas de crenças e valores capazes de modificar-lhes a vontade. Os fanatismos raciais, religiosos, políticos, facciosos, são os principais inibidores da capacidade de deliberação, decisão ou arbítrio com base na razão ou na entidade superior, livre e de bem, que se presume seja o espírito. Ditas ondas são a causa das doenças coletivas, entendendo-se como doença os processos mórbidos de destruição da paz, da saúde, da felicidade, do amor, atributos para os quais é absolutamente correto, nós todos existimos e estamos programados para alcançar um dia.
É curioso como as sociedades escrevem sua história de dominação: pelo estômago, açambarcando ou destruindo os espaços geográficos destinados à produção de alimentos; pela força, limitando a liberdade dos seres submetidos; pelo arrocho salarial, levando a parte sensível do contrato social à inação e à miséria; e muito recentemente pelo domínio da vontade, através do condicionamento da mente e conduzindo multidões às mais incríveis atitudes, onde o resultado mais visível é o consumismo, a transferência de renda e a poluição.
Para concluir mais esta série: nós podemos educar nossa vontade perguntando-nos com amplitude transcendental aonde e como queremos chegar ao grande sonho, mensurando se a meta é justa e alcançável e finalmente nos disciplinando a fazer prioritariamente aquilo que seja o nosso objetivo. Se a conspiração for muito fortemente contra, é o mais evidente sinal de que forças superiores não abençoam nosso projeto. No sentido contrário, porém, o universo haverá de mover-se para que o nosso grande sonho seja a mais saudável realidade.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A vontade humana (IV)

Homem, pequeno grande ser - Como faz mal ao homem duvidar de seu “eu superior”. Por mais terrível que seja o ódio, a intolerância, a raiva, a ira, o desamor humano, os psicólogos sabem disso, lá no íntimo de alguns expoentes dessa perversão humana, iremos encontrar um frágil, um covarde, um medroso, alguém que faz aos outros aquilo que sente merecer. Choro convulsivo, necessidade de expiação, oferecimento ao castigo, à dor, é um dos sintomas de retorno em busca da cura (se não for um ânimo doentio). E são tantos os que poderiam estar de volta, não fosse a forma como são tratados nas clínicas e nas penitenciárias...
Concebido para o bem, o homem nasce amoroso e dá amor espontaneamente. O mal precisa ser-lhe ensinado. O facínora inato não terá adquirido um corpo para esse fim: a proposta é sempre outra. Em algum momento, no tempo ou no espaço, o mal foi-lhe incutido ou provocado. A mente humana aceita como verdade até mesmo aquela observação desinteressada feita a uma criança esperta, célere, que o próprio pai registra: “você não presta!”.
Nos registros cósmicos de toda a criatura consta: “não fazer mal a si próprio, nem a ninguém; encher de alegria a todos e a si também; eis o bem”, como o próprio Bertolt Brecht registrou. “Você não presta”, remete uma bomba para explodir dentro da mais profunda construção do que significa “prestar”: dar, conceder, conferir, comunicar, transferir, emprestar, dedicar, consagrar, realizar, efetuar, praticar, ter préstimo, serventia ou proveito, ser útil, valer, ter boa índole, ser bom, ser honesto, servir. O rombo aberto por esta “bomba” nos sistemas de valores da criança, do adolescente, do adulto, dependendo de onde vem a “bomba”, pode gerar uma reação de indignação e resposta para expulsar o “objeto” agressor, mas pode, e acontece muito, de abalar a estabilidade e desgovernar o “aparelho”, que passa a reproduzir a violência como efeito e causa cíclicos.
Isto tem uma explicação. A “bomba” desviou a criatura da freqüência vibratória do criador. A cura do sistema abalado pode demorar muito sob rigoroso tratamento. E o que dizer quando a criatura nem tratamento recebe. E caindo em delito grave, não só não é tratada, como tem agravado o seu estado, submetido ao caos dos presídios que temos e à incapacidade do Estado em promover o bem-estar dos cidadãos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A vontade humana (III)

Além da Vontade - O que pode haver além da vontade? A ciência neurológica já determina que a mente humana – que a ciência confunde com o cérebro - é um ente puramente instrumental, atribuindo-lhe quatro principais funções: (a) organizar os pensamentos que emanam da nossa vontade; (b) disciplinar as informações que recebemos e percebemos; (c) armazenar informações de que nos servimos para raciocinar e decidir; (d) comandar através de programa preexistente o funcionamento de todos os sistemas de defesa, construção, destruição e reconstrução de nosso organismo – os sistemas nervoso central, imunológico e endócrino, entre outros.
Fica evidente que os nossos pensamentos, as construções mentais, as idéias não nascem ali, nascem em outro setor – com a participação ou influência das emoções e dos sentimentos, é verdade – que poderia ser chamado de consciência e por esta exteriorizado via vontade. Aquilo que se desprende do espírito, esvoaça através do pensar e se faz palavra, gesto, ato, obra... É fruto da vontade humana como instrumento do sopro de vida ou consciência, que preside a vida?
Vejamos, na construção desta frase pode residir um princípio filosófico ou científico. Faltou dizer que os animais também têm vontade e emoções. É evidente, porém, num estágio muitíssimo inferior ao humano, cujo principal componente para ele, animal, ainda reside no instinto e um pouco além do que poderia ser chamado de intuito de preservação. Há uma grande probabilidade de que os animais possuam um sopro de vida em estágio embrionário, algo mais desenvolvido nos cães, gatos, elefantes, macacos, papagaios, golfinhos e outros.
Para chegarmos ao espírito ou sopro de vida, que preside a vida, é muito provável que tenhamos de seguir os passos da escala que tem início no mineral, passa pelo vegetal, pelo microbiano, pelo viral, pelo mundo dos insetos, pelo animal, animal superior para chegar ao espiritual, como ensinam alguns estudiosos. Lá nos reinos inferiores (mineral e vegetal) iremos encontrar os elementais (silfos, ondinas, gnomos e salamandras), para então chegar ao reino animal, onde esses “sopros de vida” prosseguem evoluindo numa escalada interminável até chegar ao estágio de poder presidir uma vida humana e novamente prosseguir a escalada para chegar ao estágio angelical, onde certamente iremos encontrar novas hierarquias, como já se pode pesquisar em algumas literaturas espirituais.

domingo, 20 de junho de 2010

A vontade humana (II)

Quando ligamos os termos vontade e volição, chegamos ainda mais perto da possibilidade efetiva de os impulsos incontroláveis serem ditados por algo que esvoaça em nossos sentidos e “obriga-nos” a este ou àquele ato ou inércia à margem do processo ao alcance das faculdades a mercê do consciente e, portanto, da razão.
Seria isso o espírito pedindo passagem à matéria para pôr em prática suas tarefas agendadas em outra dimensão? No outro extremo, seria o espírito agindo fortemente para obstaculizar algo infeliz? Para muita gente isso é aceito e respeitado. Para a ciência, falta a comprovação. Por outro lado, uma parte desta mesma ciência está a denunciar os prejuízos impostos à humanidade através do fanatismo positivista, racionalista, tecnicista, terrorista, religioso, que desviam ou não motivam essa mesma ciência de buscar a dimensão do absoluto e estabeleceu a gênese de muitos males que assolam a humanidade.
Qualquer diálogo entre duas ou mais pessoas será capaz de registrar como muitos de nós somos movidos por forças inexplicáveis no rumo de uma profissão, de um sonho, de uma obra, sem que para isso haja uma motivação conhecida e muito menos explicação racional. Repetimos: Seria isso o espírito pedindo passagem à matéria para pôr em prática suas tarefas agendadas em outra dimensão? E no caso contrário seria o espírito exercendo seu poder diretivo para evitar a prática de um erro? Seria o afloramento da missão, através da vontade? Seria o comando abstrato de uma vida, também chamado de “piloto fantasma”? É muito provável.
A investigação científica poderia começar seu trabalho por aqui, já que as disciplinas psicológica, neurológica, psiquiátrica e psiconeurolingüística não teriam muito trabalho para conhecer o que foi ou é racional e o que foi ou é sonho, indução, intuição, sugestão, na vida da maioria das pessoas.
O paradigma científico, religioso e filosófico em curso ensina-nos chegar aos fatos pela pesquisa, dedução e indução (modelo cartesiano). A mudança paradigmática sugerida é chegarmos aos fatos pela indução, pesquisa e dedução, modelo construído a partir das teorias mais abrangentes, porém muito lentamente assimiladas.

sábado, 19 de junho de 2010

A vontade humana (I)

Há no ser humano uma coisa profunda, não explicada e decisiva em todo os momentos da vida: a vontade. Tudo na vida humana gira em torno da vontade, do querer, do desejar, do almejar, da aspiração, do anseio...
Os dicionários apresentam várias definições para o verbete “vontade”, todas se referindo: (1) à faculdade de representar mentalmente um ato que pode ou não ser praticado em obediência a um impulso ou motivação ditados pela razão: (2) ao sentimento que incita alguém a atingir o fim proposto por esta faculdade, aspiração, anseio, desejo; (3) ao ânimo firme, à firmeza, à coragem; (4) à disposição do espírito, espontânea ou compulsiva.
A vontade também está associada à volição, palavra derivada do latim que corresponde a volitar: esvoaçar, que o dicionário descreve como “ato pelo qual a vontade se determina a alguma coisa, toma impulso, salta, voa”.
Queremos voltar a alguns termos usados. Onde teriam origem o impulso, a motivação? De onde vêm o ânimo e a coragem?
A busca do conhecimento do espírito sempre desafiou o ser humano. O que mais recentemente começa a ser evidenciado, é que os humanos, na hipótese de suas repetidas vidas, possivelmente assumam compromissos, a chamada missão, algo registrado na “mente” espiritual ou cósmica, uma espécie de programa de vida, cuja realização, no fundo, pode estar associada à vontade. Por este raciocínio, a vontade assumiria, como de fato parece assumir, um papel de dínamo impulsor da criação, do anseio, do desejo, razão de ser, motivo para a ação ou algo assim, como força que atravessa o âmbito da mente e chega à motilidade, ao impulso, independentemente de nosso controle, em busca daquilo que representa o interesse efetivo da pessoa.
É necessário dizer, também, que a impulsão nem sempre está direcionada para o fazer. Em muitos casos ela é o freio.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ausência do ego - segundo Ken Wilber (IV)

O sábio completo, o sábio não-dual existe para mostrar-nos o contrário do que todo mundo pensa como normal. Geralmente conhecidos como "tântricos", alguns destes sábios insistem em transcender a vida, vivendo-a. Insistem em procurar libertação no envolvimento, encontrando o nirvana no meio do samsara, encontrando a liberação total pela completa imersão. Passam com consciência pelos nove círculos do inferno, certos de que em nenhum outro lugar encontrarão os nove círculos do céu. Nada lhes é estranho porque nada existe que não seja Um Sabor.
Na verdade, o segredo consiste em estar inteiramente à vontade no corpo e com seus desejos, com a mente e suas idéias, com o espírito e sua luz. Assumi-los inteiramente, plenamente, simultaneamente, uma vez que todos são igualmente manifestações do Um e Único Sabor. Vivenciar a paixão e vê-la funcionar; penetrar nas idéias e acompanhar seu brilho; ser absorvido pelo Espírito e despertar para a glória que o tempo esqueceu de nomear. Corpo, mente e espírito, totalmente contidos, igualmente contidos, na consciência eterna que é a essência de todo o espetáculo.
Na quietude da noite, a Deusa sussurra. Na luminosidade do dia, Deus amado brada. A vida pulsa, a mente imagina, as emoções ondulam, os pensamentos vagam. O que são todas estas coisas senão movimentos sem fim do Um Sabor, eternamente jogando com suas próprias manifestações, sussurrando mansamente a quem quiser ouvir: isto não é você mesmo? Quando o trovão ruge, você não ouve o seu Eu? Quando irrompe o raio, você não vê o seu Eu? Quando as nuvens deslizam mansamente no céu, não é o seu próprio Ser ilimitado que está acenando para você?
Quando tudo isso, que é tão pouco, despertar dentro de você, seu ego não será seu, você não será só você, você integrará a vida e ela entrará para dentro de você para viver plenamente. É nisso que o ego (nocivo) se ausenta. E aí você poderá escolher o tamanho que terá a sua obra. E não se estresse, ela terá que ter o tamanho que terá, mas dela você não poderá envergonhar-se. Por ela você não precisará esconder-se. Com ela você não precisará tornar-se culpado(a).
É isso a ausência do ego, no ensinar de mestre Wilber.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ausência do ego - segundo Ken Wilber (III)

Prometemos a vocês alguns nomes famosos que conseguiram a ausência do ego. Santa Teresa não foi uma grande contemplativa? Sim, e Santa Teresa foi a única mulher que reformou uma tradição monástica inteira (pensemos nisso). Gautama Buda sacudiu a Índia nos seus fundamentos. Rumi, Plotino, Bodhidharma, Lady Tsogyal, Lao Tsé, Platão, o Baal Shem Tov – estes homens e mulheres deram início a revoluções no mundo que duraram centenas, às vezes milhares de anos – coisa que nem Marx, nem Lenin, nem Locke, nem Jefferson, poderiam afirmar ter conseguido. E não agiram assim porque estivessem mortos do pescoço para baixo. Não, eles eram fantasticamente, divinamente grandes egos, ligados profundamente ao psíquico, que estava diretamente ligado a Deus.
Existe certa verdade na noção do transcender o ego: não significa destruir o ego, mas, sim, conectá-lo a alguma coisa maior. Como afirma Nagarjuna, no mundo relativo, atman é real; no absoluto nem atman nem anatman são reais. Assim, em nenhum caso annatta corresponde a uma descrição correta da realidade. O pequeno ego não se evapora; permanece como o centro funcional da atividade no domínio convencional. Como eu disse, perder esse ego significa tornar-se um psicótico, não um sábio.
"Transcender o ego", significa, pois, em verdade, transcender mas incluir o ego num envolvimento mais profundo e mais elevado, primeiro na alma ou psiquismo mais profundo, depois na Testemunha ou Eu superior e, então, após a absorção nos níveis precedentes, envolver-se, incluir-se e abraçar-se na radiância do Um Sabor. E isto não significa, portanto, "livrar-se" do pequeno ego, mas, ao contrário, habitar nele plenamente, vivê-lo com entusiasmo, usá-lo como veículo necessário, através do qual as grandes verdades podem ser transmitidas. Alma e espírito incluem o corpo, as emoções e a mente; não os eliminam.
Grosseiramente, podemos dizer que o ego não é uma obstrução ao Espírito, mas uma radiosa manifestação dele. Todas as Formas não são senão o Vazio, inclusive a forma do próprio ego. Não é necessário livrar-se do ego, mas, simplesmente, vivê-lo com certa intensidade. Quando a identificação transborda do ego no Cosmos em geral, o ego descobre que o Atman individual é, de fato, da mesma espécie de Brahman. O Eu superior não é, em verdade, um pequeno ego, e, assim, no caso de estarmos presos ao nosso pequeno ego, a morte e a transcendência são necessárias. Os narcisistas são, simplesmente, pessoas cujos egos não são ainda suficientemente grandes para abraçar o Cosmos inteiro e, para compensar, tentam tornar-se o próprio centro do Cosmos.
Não queremos que nossos sábios leitores tenham grandes egos; sequer desejamos que exibam qualquer característica evidente. Sempre que um sábio se mostra humano – a respeito de dinheiro, comida, sexo, relacionamentos – sentimo-nos chocados, porque estamos planejando fugir inteiramente da vida, e o sábio que vive a vida nos ofende. Queremos estar fora, queremos ascender, queremos escapar, e o sábio que assume a vida com prazer, vive-a totalmente, pega cada onda da vida e surfa nela até o fim – nos perturba e nos assusta intensamente, profundamente, porque significa que nós, também, deveríamos assumir a vida com prazer, em todos os níveis, e não simplesmente fugir dela numa nuvem etérea, luminosa. Não queremos que nossos sábios tenham corpo, ego, impulsos, vitalidade, sexo, dinheiro, relacionamentos ou vida, porque essas são coisas que habitualmente nos torturam e queremos vê-las longe de nós. Não queremos surfar as ondas da vida, queremos que as ondas desapareçam. Queremos uma espiritualidade feita de fumaça.
Você acha que falta muito para chegar lá? Console-se lendo a próxima mensagem.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ausência do ego - segundo Ken Wilber (II)

Entretanto, veja a visão nova sobre o tema “Ausência do ego”: "sem ego" não significa "menos que uma pessoa"; significa "mais que uma pessoa". Não pessoa menos, mas pessoa mais – isto é, todas as qualidades normais da pessoa mais algumas transpessoais. Pensemos nos grandes iogues, santos e sábios – de Moisés a Cristo, a Padma Sambhala. Não foram desfibrados maneirosos, mas dinâmicos e instigantes – desde o episódio dos vendilhões do Templo até a imposição de novos rumos a nações inteiras. Lidaram com o mundo em seus próprios termos, não em termos de uma piedade melosa; muitos deles provocaram revoluções sociais significativas, que se estenderam por milhares de anos. E assim fizeram, não porque tivessem evitado as dimensões físicas, emocionais e mentais da humanidade, e o ego, que é o veículo de todas elas, mas porque as assumiram com tal garra e intensidade que sacudiram as próprias fundações do mundo. Indiscutivelmente, estavam também intimamente ligados com a alma (o psiquismo mais profundo) e o espírito (o Eu informe) – fonte última de sua força – mas expressaram essa força e tiraram dela resultados concretos, exatamente porque assumiram, decididamente, as dimensões menores através das quais ela poderia expressar-se de modo a ser sentida por todas as pessoas.
Esses grandes mobilizadores e agentes de mudança não foram egos pequenos; foram, na mais completa acepção do termo, grandes egos, justamente porque o ego (veículo funcional do domínio da mente) pode existir e de fato existe com a alma (veículo do sutil) e o Eu (veículo do causal). Na mesma medida em que esses grandes mestres mobilizaram o domínio da mente, eles mobilizaram o próprio ego, porque o ego é o veículo desse reino. Entretanto, não se identificavam meramente com seu ego (isso seria narcisismo); simplesmente perceberam seu ego conectado a uma fonte cósmica radiante. Os grandes iogues, santos e sábios conseguiram tanto, exatamente, porque não foram tímidos bajuladores, mas grandes egos ligados ao seu Eu superior, animados pelo puro Atman (o puro Eu – eu) que é um com Brahman; abriram a boca e o mundo estremeceu, caiu de joelhos e pôde ver face a face o Deus radioso.
Confira na próxima mensagem alguns nomes famosos que conseguiram a ausência do ego.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ausência do ego - segundo Ken Wilber (I)

Justamente porque o ego, a alma e o Eu (Self) podem estar presentes ao mesmo tempo, não será difícil entender o sentido verdadeiro de "ausência do ego" – expressão que tem causado imensa confusão. Ausência do ego não significa a ausência de um eu (self) funcional (o que seria próprio de um psicótico e não de um sábio); significa que não estamos mais exclusivamente identificados com aquele eu.
Um dos muitos motivos de não sabermos lidar com a noção de "ausência do ego" é que desejamos que nossos "sábios sem ego" satisfaçam às nossas fantasias relativas a "santidade" ou "espiritualidade", o que, habitualmente, significa que essas pessoas estejam mortas do pescoço para baixo, livres das vontades ou desejos da carne, eternamente sorridentes. Desejamos que esses santos não passem por todas as coisas que nos incomodam – dinheiro, comida, sexo, relacionamentos, desejos. "Sábios sem ego" estão "acima de tudo isso" – assim desejamos. Queremos cabeças que falem. Acreditamos que a religião bastará para livrá-los de todos os instintos básicos, de todas as formas de relacionamento, considerando a religião, não como orientação para viver a vida com entusiasmo, mas, sim, como guia para evitá-la, reprimi-la, negá-la, fugir dela.
Em outras palavras, o homem típico espera que o sábio espiritual seja "menos que uma pessoa", de alguma forma liberto dos impulsos confusos, difusos, complexos, pulsantes, compulsivos, que guiam a maior parte dos seres humanos. Esperamos que nossos sábios sejam a ausência de tudo o que nos impulsiona. Queremos que não sejam sequer tocados por todas as coisas que nos atemorizam, que nos confundem, que nos atormentam, que nos atordoam. É a essa ausência, a essa falta, a esse "menos que uma pessoa" que, frequentemente, chamamos "sem ego". Prosseguiremos no próximo artigo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dimensões do ego - acréscimo final

A dimensão do “homem/mulher espírito” ou “ser cósmico” é vasta e, ao seu tempo, a ser experimentada por cada um, de forma individual e intransferível para fundir-se num plano mais amplo. È assim que surgem os clusters espirituais, que se consolidam em famílias, clãs, comunidades, unidos por compromissos colaterais de mútua superação.
Muitas pessoas pensam no mundo espiritual como um acontecimento futuro que conheceremos após a morte. A maioria aprende que o “eu superior” é algo que não se pode conhecer, que é uma incógnita colocada em nossa vida, à qual não temos acesso, já que está presa em nosso corpo, com todos os seus mistérios. Entretanto, o espírito é agora, está evoluindo neste instante. Essa luz interna, essa capacidade de discernir o que será resultado futuro, essa vontade, essa capacidade de conhecer e projetar-se para além do ego, do cluster, do planeta, essa criatividade e essa genialidade presentes em nossas vidas, é ele o autor, este é o seu trabalho.
O nosso espírito nós não o conheceremos, já o conhecemos. Quem tem buscado conhecer-nos é ele, que depende de nosso ego para ser feliz. A sua energia é algo que somos e experimentamos aqui e agora.
Os gênios da humanidade, cujos nomes poderiam encher esta página, são espíritos iguais a nós. A diferença entre Bach, Einstein, Júlio Verne, Picasso, Shakespeare e eu ou você, é que eles foram capazes de se desprender do mundo das formas, do domínio físico, do ego indomado, e enveredaram pelo mundo das idéias. Foram, são, notáveis inteligências que estiveram sintonizadas com os corpos que ocuparam, excedendo as limitações do plano terreno e ingressando na dimensão ilimitada onde tudo é permitido criar e atrair.
Nesta etapa, é quando nos libertamos da ligação emocional, quando percebemos nossa realidade. Essa libertação é seguida por uma compreensão de que o observador dentro de nós está sempre percebendo o que nos cerca, e que os nossos pensamentos são, na realidade, a fonte do nosso mundo físico. Tal consciência, junto com a nossa vontade de avançar por esse domínio é o começo do aprendizado para atrair aquilo que desejamos e precisamos enquanto estamos em um corpo físico. Tal consciência também se explica pela percepção que adquirimos de que deixamos de ser apenas “levados”, passamos a “levar”, ao contribuir com nossa parte no esforço da vida.
Ao acreditarmos na impossibilidade da libertação do mundo material ou ao expressarmos medo em fazê-lo, abandonamos a capacidade divina que nos aproximará do mundo matriz. Adquirir consciência de que temos um eu superior, que é universal e eterno, e eternamente ligado à inteligência superior criadora do todo, nos levará a ter acesso àquele mundo mais livre e particular do ato de realizar o desejo de nosso coração. “Eu tenho a habilidade divina de realizar e atrair o que preciso e desejo” (Excerto do Upanishad).

domingo, 13 de junho de 2010

Dimensões do ego - o ser espiritual

Agora sim já podemos tratar da última etapa proposta por este blog. Esta etapa ou dimensão do ego já não mais inclui o ego indomado. Os “homens/mulheres espírito” encontram a satisfação que estão procurando, inicialmente, a serviço dos outros, independentemente do que fazem ou de quais são seus interesses. Esta etapa chega para a pessoa independentemente de idade ou posição. É quando ela reconhece sua essência mais verdadeira, seu eu superior. Só então estará no caminho de se tornar uma colaboradora na criação de seu mundo completo, aprendendo a controlar as circunstâncias de sua vida e a participar com segurança no ato da criação. Torna-se, literalmente, uma pessoa realizadora, cuja denominação (por que não?) deve ser muito apropriadamente, “ser cósmico”. Mas, ainda não é tudo.
A etapa “espírito” é caracterizada por uma consciência de que este endereço cósmico chamado Terra não é nosso único lar. Existem outros e outros, nunca se sabe se definitivamente. Sabemos que não somos um atleta, nem um guerreiro, muito menos uma pessoa-estado, mas que somos uma energia infinita, ilimitada, imortal, universal e eterna residindo temporariamente em um corpo, que pode ser atlético, guerreiro e acolhedor, mas, que, na verdade, somos espíritos moradores das moradas siderais compatíveis com nossos méritos. Sabemos que nada morre, que tudo, inclusive os homens e as mulheres, somos uma energia que está constantemente mudando, evoluindo, acrescentando.
Sendo uma alma posta num corpo, o “homem/mulher espírito” é apaixonadamente atraído ao seu mundo interior, aonde mora sua essência. Deixa os medos para trás e começa a experimentar um tipo de indiferença em relação ao seu plano físico. Melhor dizendo, experimenta um equilíbrio sadio entre a dimensão puramente humana (ego) e puramente espiritual (alma). Torna-se um observador de seu mundo e passa facilmente para outras dimensões de consciência. Essa energia interior infinita não está apenas em si, mas em todas as coisas e em todas as pessoas que estão ou já estiveram vivas. Esse é um reconhecimento indiscutível à fase de “homem/mulher espírito”, ou do “ser cósmico”. E não é só, tem mais.

sábado, 12 de junho de 2010

Dimensões do ego - o ser ecológico

Daqui para frente abandonamos a cátedra Dyer. Na quase totalidade dos estudos a respeito do homem e da mulher culturalmente evoluídos, pouco se fala da sua conexão com a natureza. Então falam mais alto os autores xamânicos. A ciência ocidental está atrasada. Este é um assunto milenarmente incluído na vida oriental e tem atravessado a fronteira do Oriente na bagagem dos yoguis, dos apreciadores e praticantes do fung shui e de outros estudiosos e divulgadores das técnicas de interação humana com o restante da vida de entorno, onde os iniciados no xamanismo também se encaixam.
Já não se pode imaginar alguém acompanhando ou dedicando-se a estudos e atividades místicas, metafísicas, espirituais, subjetivas ou transcendentais, ligado á chamada New Age, sem que esteja também inserido no contexto de Gaia, da Ecologia Profunda, donde o todo planetário seja efetivamente o lar da vida.
Então, a próxima dimensão do homem e da mulher precisa apresentar-se ampliada. É impossível transitar de cá para lá no mundo espiritual sem o batismo dos elementos naturais que compõem a vida em todas as suas dimensões, desde o fundo dos oceanos, desde o abraço molhado de todas as águas, desde sobre e sob a carne enxuta do planeta, desde o ar que nos circunda e desde a nossa direta e absoluta interação com as energias que inundam o cosmos, precisa nascer em mim, precisa nascer em você o ser ecológico. É ele que dirá se crescemos.
O homem e a mulher ecológicos não são apenas aqueles que selecionam e encaminham corretamente as diversas categorias de lixo produzido. Também não são apenas aqueles que se deslumbram com o visual do mar, da floresta, do pôr de sol. Também cuidam do sofisticado planetinha que é o seu corpo. Finalmente, não apenas aqueles que têm uma excelente relação com os demais seres de toda a natureza. Também cuidam das suas emoções, dos seus pensamentos, dos seus desejos, das suas intenções para que a egrégora energética de seus ambientes não seja atingida de forma invisível num primeiro momento e de forma concreta nos momentos posteriores.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dimensões do ego - a pessoa-estado

Veja, já estamos dando um passo a mais no avanço. Para sabermos quando deixamos para trás a etapa do guerreiro, examine-se qual é a força motriz de nossa vida. Se a resposta for “conquistar”, “derrotar”, “adquirir”, “comparar” e “ganhar a todo custo”, está claro que não passamos de um “guerreiro”. Provavelmente, uma pessoa pode entrar e sair regular e eventualmente desta fase como um modo de atuar com eficiência no mercado já como parte da nova fase ou de transição para ela. A cada um cabe determinar o quão intensa é essa atitude e o quanto isso domina sua existência e conduz sua vida.
Caso viva principalmente nesta etapa, o “guerreiro” que resta será incapaz de se tornar realizador no sentido que se descreverá.
A “pessoa-estado” é a etapa da vida em que o homem e a mulher domam seu ego e o substituem pela consciência. Em vez de “observar suas cotas” ou suas posições relativas na vida, eles podem perguntar “quais são as minhas cotas” com interesse genuíno. É quando o ser humano começa a saber que sua proposta principal é dar ao invés de receber. É empreender, fazer para os outros, dar empregos, oferecer oportunidades e, por isso, muitas vezes, de forma atlética. Entretanto, a motivação interna é servir aos outros.
Mesmo sem ter-se utilizado do mesmo jargão, Jung chama a atenção para a liberdade experimentada por aquele a quem Dyer chama de “pessoa-estado” desde que o ego esteja domado e abandone a absorção de si por si mesmo. Um sintoma de ego não domado: encontrar-se triste, ansioso ou sem objetivo e permitir mensurar o estado emocional com o modo de como está sendo tratado e percebido. Esta é a prisão. O sintoma do ego domado: tirar da cabeça os pensamentos a respeito de si mesmo e permanecer assim por um longo período. Esta é a liberdade.
Uma forte característica da pessoa-estado é a atenção quanto à assistência e a gratidão por tudo o que acontece na vida. Por aproximar-se do “eu superior”, a pessoa-estado abandona o desejo de ser poderosa e atraente, ou de dominar e conquistar para ingressar na esfera da paz interior, da ajuda, da entrega, do interesse pela comunidade, em cuja etapa estabelecem-se as bases da etapa seguinte, como veremos.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dimensões do ego - o guerreiro

Na continuidade, por assim dizer avanço, para alguns seres humanos há algo mais a desejar, a alcançar, a praticar, a possuir e conquistar. Este é um sinal positivo de que para esses a etapa do “atleta” está sendo ultrapassada, melhorada, complementada.
Para ser “guerreiro”, o homem e a mulher precisam sentir-se compelidos a conquistar o mundo para demonstrar superioridade, poder, segurança. É quando o ego muda de foco e domina suas vidas fazendo-os sentirem-se capazes de extrapolar a fase da egolatria para alcançar uma condição de condutores de programas, empresas, instituições. A definição de Dyer para ego é “a idéia de importância e distinção que tenho de mim mesmo em relação a todos os outros e a representação de minha identificação exclusiva com o eu físico no mundo material”.
O objetivo do “guerreiro” conduzido pelo ego, é vencer e derrotar aos outros na corrida pelo primeiro lugar. Durante esta etapa, o guerreiro se ocupa de metas e realizações. É uma fase cheia de ansiedade e de interminável comparação entre sucessos, troféus, prêmios, títulos e acumulação de objetos materiais. O “guerreiro” está sempre preocupado com o futuro e com quem pode estar no seu caminho ou interferir na sua posição ou carreira. Nesta fase, os slogans que mais lhe agradam são “se você não sabe onde está indo, como saberá quando chegar lá?“, “tempo é dinheiro, e dinheiro é tudo”, “ganhar não é tudo, é a única coisa”, “a vida é uma luta”, “se eu não pegar o que é meu, alguém vai pegar”.
Ao “guerreiro”, status e posição na vida, são obsessões. Convencer os demais de sua superioridade é o tema dessa fase da vida focalizada no outro, no qual o ego é o diretor. Esse é o momento em que o “guerreiro” quer fazer o que fazem os guerreiros: conquistar e reivindicar para si o lucro das batalhas vencidas.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Dimensões do ego - o atleta

A palavra “atleta” usada para definir a etapa primeira do homem e da mulher adultos aqui enfocados, nada tem de depreciativa ao comportamento atlético. A palavra é utilizada como descrição de um momento da vida adulta em que, segundo a cultura ocidental, muito se identifica com a preparação do atleta para o seu mister: a cultura do corpo físico. A “dimensão atlética” no homem e na mulher desta fase é o momento em que eles medem valor e felicidade pessoais por meio de suas habilidades e aparência física. Torna-se importante quão longe possam jogar uma bola ou quão alto possam pular e mesmo o tamanho e vigor de seus músculos. Julgam o valor da presença física por um critério de atratividade que se baseia na forma, tamanho, cor e textura do corpo, cabelo etc. Na cultura consumista em que vivemos, a apreciação se estende à roupa e marca que se veste, a casa e bairro no qual se mora, o carro e as jóias que se ostenta.
Essa é a fase da vida em que para a maioria das pessoas é impossível viver sem um espelho e sem uma torrente de aprovações que conduzam à segurança, com vista ao desempenho, a atratividade e as janelas onde se mostrar.
Mesmo com a possibilidade de sair desta para uma fase mais evoluída e mesmo tendo evoluído, a maioria das pessoas permanece nela por toda a vida.
Não podemos avançar para a fase seguinte sem esclarecer que ninguém deve ser contra a saudável e necessária atenção ao corpo, amando-o, exercitando-o e alimentando-o do melhor modo possível, bem como não é errado ter auto-estima e amor próprio quanto à aparência física e ao modo de vestir-se. O problema começa quando fazemos questão de receber elogios, flashes eletrônicos, holofotes. O enfoque dado não condena, identifica e analisa.
O que se destaca é que para determinadas pessoas o interesse único da vida gira em torno de um padrão predeterminado de desempenho e aparência. São pessoas exclusivamente “atletas”, que vivem nesse “atletismo” e se dariam por satisfeitas e felizes se pudessem morrer conduzidas para o melhor e mais bonito mausoléu, ocupando o melhor e mais bonito esquife, enterradas em meio a uma montanha de flores e coroas, em féretro acompanhado por uma selecionada platéia bem vestida, usando carrões do ano, com a cobertura ao vivo da tevê de melhor desempenho midiático.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Dimensões do ego - intróito

Tudo quanto nos é ensinado desde que nossa mente se abre para o aprendizado entra em conflito com a frase emprestada do Upanishad “Dentro de você há uma capacidade divina de realizar e atrair tudo o que você precisa ou deseja”. As tradições ocidentais encaminham-nos para a convicção de que tudo o que transcende as limitações do mundo físico pertencem ao poder de Deus, e que Deus está lá onde algum dia nós o encontraremos, após a morte. E daquele dia em diante seremos felizes e realizados.
Com muito esforço, encontraremos no acervo dos conhecimentos ocidentais algumas práticas e estudos envolvendo santos, orixás, anjos e guias espirituais capazes de ligar o homem ao sobrenatural e de realizar desejos, obras, curas e milagres, aqui mesmo.
Contudo, existem estudos cada dia mais claros, de que a civilização ocidental pode evoluir em seus paradigmas sem abandonar os seus valores, apenas complementando conhecimentos com a adição de nova sabedoria.
São inúmeros os autores e os temas que nestes últimos anos buscam trazer luz para os vazios do frágil conhecimento humano no chamado mundo ocidental. Por razões que se conhece, embora não expliquem convenientemente, as religiões derivadas de Abraão se afastaram da subjetividade, do espírito, e com isso impuseram o materialismo aos seus seguidores, à filosofia, às ciências e às artes.
O mestre Carl Gustav Jung, 40 anos após sua morte, continua tendo desdobrado e acrescentado ao seu trabalho (que melhora bastante os legados de Freud) a apuração e a identificação de novas dimensões à psique humana. A psicologia analítica, através de vários autores, tem inúmeros trabalhos quanto ao desenvolvimento da infância à adolescência, mas muito pouco foi escrito sobre as etapas de desenvolvimento da maturidade humana. E Jung trabalhou nesse sentido, tendo agora, entre outros, Wayne W. Dyer, psicoterapeuta e educador norte-americano, de formação católica, como iluminadores do caminho. Nos seus cerca de 20 livros já publicados em português, retiramos o que será abordado nesta série. Mesmo sem querer partir para o campo da auto-ajuda, interessa-nos conhecer uma descrição crescente do amadurecimento humano (quando há intenção de crescer), cujo conteúdo muito se adapta ao que temos insistido em busca da maturidade, da maioridade espiritual. São coisas da cultura e da consciência do homem e da mulher adultos no Ocidente, onde também nós nos inserimos. Acompanhe as próximas publicações.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Se você puder, pare agora (epílogo)

Não daria para encerrar esta série sem algo a sugerir. Quer mudar, mesmo? Comece por prestar atenção na sua respiração e nos batimentos cardíacos. Quando eles estiverem fora do normal, sua vida está fora do ritmo.
Quando você estiver apto a dar início à virada do jogo, diante das primeiras contrariedades, sua reação tem de ser a de relaxar, respirar fundo, prestar atenção nas causas da contrariedade. Você pode resolver tudo? Não pode? Então aceite e faça dos instantes seguintes momentos de ganho de vida.
Aí nos hábitos de algumas regiões existem as sugestões: “vá surfar”, “vá pescar”. Acho pouco. Vá nadar com os peixes. Vá cantar com os pássaros. Vá dançar com as ondas do mar. Vá deslizar com as águas do rio.
Não vá só. Leve com você o que você mais preza. Se não tiver ninguém, leve sua alma. Se quiser, pode incluir aí seu silêncio. Seu vazio. Seu desejo de estar com Deus. E para isso você não precisa dormir nem viajar. Nem precisa sair do lugar. Basta parar, silenciar, imaginar.
Em geral, nós nos tornamos escravos das resoluções que tomamos. Pior ainda é fazer-se escravos das coisas que acontecem à revelia de nossa vontade. Todo o turbilhão que nos incomoda, se não é de nossa autoria, pode ser abandonado por nós ao pararmos de contribuir para com ele.
Mas, anote aí: nenhuma grande transformação pode ocorrer na sociedade com todos, inclusive eu e você, contribuindo para engrandecer o problema. Se, porém, como indivíduos, eu e você dermos início a uma pequena coletividade de mudanças, estaremos iniciando uma pequena revolução na vida maior.
É de Marco Antônio, o filósofo que chegou a imperador de Roma, a famosa frase: “Na vida de um homem, sua duração é um ponto; sua essência é um fluxo; seus sentidos, um turbilhão; todo seu corpo, algo pronto para apodrecer; sua alma, inquietude; seu destino, obscuro; e sua fama duvidosa”.
Hoje, depois de viver várias novas encarnações, Marco Antônio talvez dissesse diferente: a duração de uma vida corporal é um lapso; sua essência é o que restar; seus sentidos é sua escola; seu corpo é algo que se transformará; sua alma é a aposta divina; seu destino, a beleza; e sua fama é vencer a si mesma.
Por isso, tudo que acontecer ao corpo acontecerá à alma. Tudo quanto faltar à alma faltará ao corpo. Cada instante de vida é algo valioso e deve receber um alto investimento.

domingo, 6 de junho de 2010

Se você puder, pare agora (V)

Se este blog não tratasse de assuntos espirituais, aqui caberia uma frase, entre as muitas que se escreve e que se lê por aí: “a vida é curta e sua vida está quase terminada sem que você tenha se ocupado de você mesmo”. Ela é válida, sim, se acrescentarmos que curtas são as nossas passagens pelo corpo. Já foram mais longas (segundo algumas leituras que falam de pessoas com 900 anos) e já foram mais curtas. Há cem anos as pessoas viviam menos de 50 anos, não na média, no máximo.
Com ajuda da espiritualidade, a ciência tem conseguido alongar o tempo de vida de muita gente (vacina, antibiótico, cirurgias, implantes, transplantes, dieta) e tudo parece indicar que, sim, deveríamos viver muito mais para também fazer mais por nós mesmos. Infelizmente, nem sempre tem sido assim quanto a fazer mais por nós mesmos.
Uma ótima frase talvez fosse: “acostume-se, em todas as ocasiões, a organizar suas ações e seus pensamentos como se você estivesse a ponto de deixar a vida (material)”.
Como sugestão, ficam as seguintes idéias: não avalie tanto, não julgue o tempo todo, abstenha-se de agir como árbitro, como juiz, como xerife, procurando o erro, condenando, sentenciando, tendo uma opinião radical sobre tudo e sobre todos.
Claro, não há como blindar-se de toda a neura vivida pela sociedade. Então aproveitemos o pouquinho de tempo que nos sobra para adicionar qualidade à vida, viver plenamente.
Não há como sugerir para todos os leitores o que seria um só item de qualidade de vida, pior ainda seria sugerir como viver plenamente. Para uns, o objetivo maior é amar loucamente a alguém; para outros, é viajar, conhecer o mundo; há quem prefira uma trilha, uma praia, uma leitura, um filme, um templo, um santuário; você tem um sonho a ser vivido?
O lado negativo desta busca sempre será ancorar em casa, derrotado por uma semana de turbilhão neurótico e achar que só o sono irá resolver. Ajuda muito, mas na segunda-feira lá vai você novamente para novas derrotas.
Também poderá ser negativo espairecer naquelas mega festas de som alto, agito, esforço muscular, fumaça de cigarro e excessos etílicos. Ajuda muito pouco e a segunda-feira lhe espera.
Nada funciona quando não investimos numa prática de reeducação do nosso próprio ritmo, por exemplo, desacelerando aquilo que nos derrota, saindo pela tangente, incluindo um ou mais componentes destinados a recompor, a oferecer uma nova dimensão, uma nova sintonia.
Lembra do conselho na placa da estrada francesa? Façamos docemente, com ternura. A vida é toda ternura. Até os ventos fortes das tempestades são bafejos de ternura destinados a comprovar o que merece ficar de pé e para dignificar o que merece ficar de pé.
Nada, na vida, está errado. Tudo tem uma razão de ser. Quem não fizer esta leitura, estará na contramão da vida.
Ao assimilar estas realidades como coisa correta, como coisa posta pelo plano maior, nosso organismo irá respondendo favoravelmente, adaptando-se à vida; e a vida irá inundando-nos de capacidade e plenitude. Somos dignificados perante o sagrado sempre que nos mostramos dignos para a vida.
Em toda a orquestra de Deus só existe um músico com instrumento desafinado e em completo desrespeito ao maestro. É o ser humano. Ele vai além do desrespeito, ele se apresenta beligerante, intolerante, mandão, violento. Poderá demorar, mas de tanto ser vaiado pelos demais membros da orquestra, um dia ele se recomporá e tocará seu instrumento para honra e para glória de toda sinfonia.

sábado, 5 de junho de 2010

Se você puder, pare agora (IV)

Para encaminhar o encerramento de mais esta série sem deixar nada pendente existe uma necessidade de chamar sua atenção para o imediato abandono do rumo contrário da vida e desarmar-se diante da vida, apesar das evidentes sensações de que por momentos parece que a vida quer bater de frente com a gente.
Existem mil maneiras de escapar das armadilhas, das trapaças, das confusões, dos tumultos, do absurdo, do falso, do mórbido.
Na França, em alguns trechos de suas bucólicas estradas do interior é comum encontrarmos placas sugerindo “roulez doucement”. Pede-se ao motorista: dirija com doçura, a vida se passa no lento, com cuidado, com esmero, com atenção, sensibilidade, acuidade, delicadeza, paciência, harmonia, ternura.
No centro daqueles enormes congestionamentos de trânsito, aqui, toda a sua ansiedade, sua raiva, sua esperteza, sua a procura de brechas para “chegar antes”, terão enorme impacto ao seu organismo, seja a caminho do trabalho ou da escola, seja de retorno ao lar, aonde você precisa chegar nas melhores condições para o que lhe espera.
Você pode ter certeza, quase todo mundo não estará doce, nem sem pressa, e possivelmente não em paz. Mas você não segue a pioréia – termo recentemente inventado como antônimo de melhoréia. Você decide fazer a sua parte para apagar o incêndio, para minorar o mal.
Imagine num ataque de infarto algumas das suas células resolvendo forçar para aumentar o congestionamento? E se fosse o contrário, não seria maravilhoso?
Você precisa compreender que as ruas da sua cidade são como as veias do corpo humano e que os motoristas e seus carros são as porções de sangue a circular por elas. Caso o infarto fosse com você, o que você esperaria da sua corrente sanguínea? Mais pressão sobre a veia congestionada?
Quantas pessoas, tanto no passado como atualmente, procuravam/procuram os templos e os locais serenos para fazer conexão com o sagrado? Esta prática eu e você podemos adotar em pleno congestionamento do trânsito. Num ato consciente façamos o contrário do que todo mundo faz.
Aquilo que muita gente chama de perda de tempo, pode, muito bem, para eu e para você, serem transformados em lindíssimos momentos de prazer, lazer, enlevo, transcendência, comunhão com o mundo divino.
A vida nos pede para escolher entre o melhor e o pior. Qual é a sua escolha?

Se você puder, pare agora (III)

O que seria caminhar em busca da grande beleza eterna?
Sempre se disse que o caminhar nos pertence individualmente em estilo, velocidade, modo e performance. Existe um rumo, talvez um mapa. Não existe um caminho. Com alguma sapiência caminharemos no rumo. Arrogantemente caminharemos no rumo errado. Ignorantemente ficaremos a espera de que nos carreguem até o destino. Nos pelotões do que andam no rumo, uns vão pela praia, outros pela floresta, alguns outros pelas campinas, mas também há os que prefiram ir por água, pelo deserto, pelo ar. As alternativas são muitas, muitíssimas. Para muitos de nós essa caminhada já está em pleno andamento. Para outros ela nem começou. Lembram da metáfora do cachorro perseguindo seu próprio rabo? É isso. Muitos ficam andando em círculo, repetindo experiências, voltando ao ponto de partida, teimando em projetos que já nasceram mortos, idéias que jamais sairão do plano mental, assim como há outros que querem fazer modernamente aquilo que foi válido nos tempos remotos. E também os que querem aplicar na atualidade o conhecimento envelhecido, vencido.
Como é que Deus irá exigir-nos que pensemos e façamos permanente como há milênios passados, se Ele, Deus, é o projetista de um mundo evolutivo, progressista, renovador? Como é que eu e você compartilhamos telefones celulares, televisão HDI, IPod, IPhone, Internet e na hora de buscar os conteúdos de Deus abrimos livros com 3 ou 4 mil anos de idade? Onde está a coerência ante tanta disparidade?
Você recorda como eram conflitantes as relações entre os fariseus e Jesus? Sabe o que era aquilo? Era o pensamento envelhecido dos judeus radicais tradicionalistas batendo de frente com o pensamento renovado trazido por Jesus. E neste mesmo instante em que você está lendo estas frases – você sabe – o mundo caminha aceleradamente para uma renovada mentalidade agropecuária, industrial, educacional, energética, ecológica, governamental e, (por que não?) religiosa, e quando se diz religiosa nada tem a ver instituições, organizações, empreendimentos voltados para a fé, a mexida será, mesmo, na forma de nos relacionarmos com Deus.
A maneira de lidarmos com o conteúdos sagrados não sofre modernização há quase 2 mil anos e para muitas correntes de fé a coisa é ainda mais antiga.
Um Deus super inteligente, avançado, modernizador como é o nosso Criador, deve estar ansioso para acompanhar nossos avanços, nossas descobertas, nossa ânsia por descomplicar a vida, pois simples ela é.
Para ir entrando no clima das grandes transformações que estão vindo, pensemos que nem mesmo nosso jeito antigo de orar deve prevalecer. Agora a gente ora por telepatia com nossos guias espirituais; agora a gente fala com as hierarquias celestes através da mediunidade; agora a linguagem da fé não é mais aquela coisa antiga que não se encaixa nos padrões da humanidade atual. Nessa corrida modernizadora que empeçamos nem mesmo levaríamos Jesus de volta à cruz, caso ocorresse uma besteira do tamanho daquela; hoje Ele seria sacrificado com emissões mortíferas de raio laser.
Quem sabe eu e você fechamos um acordo para trabalhar intensamente para que Jesus deixe de ser interpretado como nosso adversário ou inimigo e que jamais haja alguém pensando em sacrificar quem quer que seja que se apresente falando de salvação da humanidade. Salvação não pelas mãos de um benfeitor, herói ou mocinho, mas salvação por iniciativa da própria humanidade ao oferecer-se para aliada da proposta da vida.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Se você puder, pare agora (II)

Existem muitas maneiras de arranjar um estresse. Se você não sabe exatamente como o estresse age em nossas vidas, imagine tirar a água daquela sua plantinha predileta aí na floreira. Depois de alguns dias você irá perceber a pobrezinha toda murcha, tristinha, encaminhando-se para a morte. E se você não tem noção de como reage seu corpo ao eliminar a fonte do estresse, imagine regando sua plantinha e observando como ela irá responder ao ato de devolver-se-lhe o que lhe é natural. Isto se ainda houver tempo hábil para a reação.
Com tanta gente padecendo de estresse e, por conta disso, adoecendo, somos obrigados a compreender que o estilo de vida da maioria das pessoas é uma grande roubada.
Bem, agora já não estamos mais lidando com o biológico. O biológico é a caixa de ressonância das coisas emocionais, intelectuais, psíquicas e espirituais. Nessa roubada chamada estilo de vida, não se pode separar nada e nem mesmo o futuro do espírito.
Há um pensamento cada dia mais claro do que seja a proposta da vida. E a clareza se torna melhor iluminada quando conseguimos observar o comportamento de toda a vida não humana que compõe os sistemas que compartilhamos. O que ela sugere? Por que a vegetação se cobre de flores e frutos? Por que os pássaros cantam? Por que os peixes dançam e saltitam? Por que as vidas inferiores se doam por inteiro para sustentar as vidas superiores? Será isso um grande sistema de competição ou o contrário? Será que a corrida dos espermatozóides a caminho da fecundação é uma competição ou um grande cortejo conduzindo o eleito ao seu acoplamento? Será que essa grande cadeia da vida vinda do mais simples para o mais sofisticado acaba na espécie humana?
Ao compreender esta imensa lição, iremos deduzir que se não somos o simples alimento de uma espécie superior à nossa, deve haver uma razão maior, imensamente maior, de cunho inteligente, engenhosa, criativa, complementar ao trabalho divino. Você concorda?
Aqui entra nossa participação no refinado processo da evolução e da melhoria da vida, segundo o plano, que tem sido melhorador em toda a sua extensão. Seremos nós, também, agentes dessa melhoria? Você tem dúvida?
Então, leitor(a), se você puder, pare, pense, medite: não temos a menor chance como adversários da proposta da vida. Aliemos-nos ao criador desta proposta, colocando-nos a serviço da vida, naquilo que é essencial.
Somos caminhantes em busca da grande beleza eterna. Conte com isso.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Se você puder, pare agora (I)

Este é, ainda, um convite ao “vazio”. Você sabe, água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas, a coisa é muito séria e neste espaço há uma proposta de maioridade espiritual já tendendo para além do adulto, beirando as fronteiras do maduro, madurão.
Não me leve a mal e quem sabe nem tanto a sério, mas examine com carinho um quadro sobre os homens e as mulheres atuais.
É quando nos damos conta que passamos uma vida inteira procurando ganhar tempo. Deixamos de viver porque precisávamos correr, agir rápido, fazer mais, ultrapassar os demais, fazer as coisas velozmente, saltar fases, queimas etapas, atropelar às vezes; aquilo que nossa mente projetava (e olha aí nós falando de passado, será passado?) como futuro era sempre mais importante que o presente. E, com isso, acumulamos uma enorme quantidade de tempo, porque o tempo todo fomos lucrando uns minutinhos aqui, algumas horas ali, alguns momentos acolá, outros em outra parte. Acumulamos uma reserva enorme de tempo não vivido, vivências transferidas, prazeres e relacionamentos adiados para algum dia, talvez.
Esse é o nosso capital, não só biológico, não só emocional, não só intelectual, não só psíquico, mas também espiritual. Uma montanha imensa de tempo, experiências, relacionamentos, ganhos reais, retirados da vida, empilhados sucessivamente numa reserva, num armazém, num cofre.
E agora? De que nos serve tudo isso?
Quando nos damos conta dessa prática, temos uma sensação estranha de que não fizemos outra coisa na vida senão adiar. Transferimos aquilo que realmente era sério para mais tarde em troca de um montão de coisas fúteis, inócuas, sem valor e sem urgência. O que realmente vivemos?
Aí entram dezenas de questionamentos envolvendo cônjuge, filhos, pais, amigos, férias, prazer, saúde... E vem aquele sabor amargo de que estivemos ausentes quase sempre e isso nos aterroriza. Será que vivemos? Será que as pessoas que viveram conosco notaram nossa presença? Ou será que fomos apenas alguém de quem os outros não se lembram ou brevemente esquecerão?
E não é só isso. Esse tempo “ganho” significou também a corrosão de nosso próprio corpo. Só se sente esse efeito quando aparece um sintoma físico, acompanhado de desespero, medo, pânico.
Descobrimos em questão de horas que a vida agitada não foi algo inocente, que mata as vivências agradáveis. Ela também nos pega naquilo que, em plena correria não dávamos valor. De nada adianta tantas conquistas se o principal em mim está por ser destruído ou, simplesmente, está por acontecer, é só projeto. Descobrimos que nosso corpo não é máquina e que reage a toda agressão que lhe tire da naturalidade. Descobrimos que uma mente danificada emite, sem que tenhamos perfeita noção, mensagens para os órgãos, e estes vão cuidando de retransmitir esses sinais negativos e outros órgãos. Padecem em primeiro lugar aqueles órgãos cuja vulnerabilidade tenha antecedentes por conta da genética ou da sobrecarga recente: alimentação inadequada e todos os excessos que sabemos muito bem quais são. Onde ficou o sono natural não estimulado por soníferos? Onde ficou o lazer silencioso que permita à mente também repousar? Onde ficaram os sonhos que temos de tê-los e que em regra nós os afogamos de diversos modos? Onde ficaram as férias bem planejadas para que não se chegue ao final de primeira semana e já estejamos querendo retornar ao batente?
Por enquanto, você viu, ainda não vieram à tona as questões psíquicas e espirituais. Bem, estas terão de ser abordadas nos próximos comentários.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Para falar de amor (epílogo)

Ganha terreno a tentativa de verificar o que é o amor, verdadeiramente, e como funciona. Quando o lagarto foge do menino que passeia pelo bosque, se vale do instinto de preservação para escapar com vida. É amor próprio. O menino, educado, não tem intenção de matar o lagarto e sim preservá-lo pelo papel ecológico desse animal. É amor fraterno. Se, mal informado, egoísta e orgulhoso, o apedrejasse, poderia estar desejando exibir sua caça aos amigos. Isso também é amor, amor próprio, porém diferente do amor próprio atribuído ao lagarto. Mas, em todas as três situações iremos encontrar o componente amor. São estágios diferentes de amor. Toda a criação vem passando por estágios de evolução, mas a criatura mais nova e complexa e, por isso, um pouco atrasada na escala, é o homem. Instinto, pois, é uma forma de amor, como também o é o orgulho. À medida que evoluímos, melhor aprendemos a lidar com o medo e a insegurança, que aguçam o instinto. E vamos dominando o orgulho, que aguça a separatividade.
Como vemos, o amor depura e aperfeiçoa. Não é esse, por acaso, o papel evolucionista da vida? Cadê os dinossauros? Onde os bárbaros? Não foram embora. Mudaram. Transformaram-se. Sofisticaram-se.
Já é um pouco diferente quando se trata da intuição. Desde Darwin a ciência vem documentando que as mulheres – e sem nenhuma dúvida também as fêmeas de um grande número de espécies animais – percebem as emoções, os contextos e todos os tipos de informações não verbais periféricas de forma mais eficiente que os machos. A todas as espécies está disponível essa capacidade, mas é nelas que melhor se desenvolvem. E a explicação é exclusivamente química e física. Os hormônios, em primeiro lugar e a constituição cerebral em segundo, explicam o “fenômeno”. Algumas das funções de alguns hormônios é acentuar a habilidade dos seres segundo o sexo e função na vida. O estrógeno (feminino) atua, entre outras coisas, na capacidade perceptiva, enquanto a testosterona (masculina), entre outras coisas, predispõe à ação. Esse é o trabalho químico.
O feixe de fibras nervosas que conecta os dois lados do cérebro feminino, conhecido por corpus callosum, é mais espesso e saliente nas mulheres. Com isso, as habilidades femininas ficam mais amplamente distribuídas através do córtex. Estes circuitos explicam não só a intuição, mas também uma série mais ampla de sensações visuais, aurais, tácteis e olfativas que, como se sabe, contribuem para a percepção que, por sua vez, se integra ao campo intuitivo e que por sua vez capacita a mulher para trabalhos artísticos, delicados e subjetivos. Esse é o trabalho físico, genético.
Essa sutileza perceptiva, intuitiva e criadora torna as mulheres também mais sensíveis aos sentimentos e, por decorrência, para o amor. Assim sendo, também as faz frágeis para as chamadas doenças emocionais, que se manifestam nas pessoas que mais se abalam emocionalmente.
É a composição harmônica da criação e a distribuição das funções partindo do caos para o equilíbrio e do rudimento para o sofisticado, que intriga os curiosos. Encontramos Darwin sugerindo que somos gorilas melhorados. Encontramos Freud sugerindo que somos movidos a sexo. Encontramos Descartes sugerindo que existimos ao pensar. O mais grave, porém, aconteceu com Newton, ao comparar o cosmos com a máquina e ao querer prever-lhe os movimentos. Desde então caminhamos por muitas décadas tentando repetir a frieza das máquinas e o calculismo do autômato não inteligente. A ciência perdeu fantásticas oportunidades de avançar. Ficamos entre a máquina inferior, sediada na natureza, submetida ao homem e entre a máquina superior, sediada no corpo humano, uma e outra separada do que poderia ser a divindade não comprovada e, por isso, descolada das máquinas “conhecidas”.
Foram e ainda são necessárias discussões e um tempo enorme para convergirem em parte alguns pontos de vista. Já se pode esperar para breve alguns avanços. A totalidade que somos, nada separa. E nada é máquina, além daquelas criadas pelo homem, enquanto ensaia fazer melhor. Estamos numa viagem com bom nível de liberdade para decidir. E vamos aprendendo, a cada estação, e a cada decisão equivocada, que a proposta da criação é o amor. Amor em todos os níveis. Fora dele surgem os equívocos e a necessidade de reaprendê-lo voltando atrás, corrigindo, retomando-o.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Para falar de amor (III)

Podem-se enumerar ligações e situações amorosas entre companheiros e amantes, entre pais e filhos, entre colegas e amigos (geralmente chamadas de amizade – mas incluídas no bojo do amor), entre mestre e aluno ou terapeuta e cliente, como também citar o amor próprio e o amor incondicional ou espiritual. Para melhor compreensão da profundidade, forma e objetivo do amor entre os seres, se consagra cinco estágios para ele:

1. Pornéia – que é a forma de amor centrado no prazer carnal, às vezes confundido com paixão e, na realidade, atração sexual exasperada, nunca satisfeita, um pouco bastante por conta do instinto. Encontramos o desenrolar de pornéia em homens, mulheres e homossexuais, cuja busca pela realização se concentra mais na busca do que no encontro, embora possa se transformar, com freqüência, noutro dos estágios aqui apresentados.
2. Eros – que é a forma centrada nos relacionamentos intensos de ordem física e emocional. A forma eros percorre os hormônios, as glândulas e os órgãos, afetando as emoções de forma excêntrica. Esse amor manipula os campos ansiosos, elétricos e magnéticos. É a chamada “paixão” pela pessoa que projetamos como ideal. Os parceiros, de forma recíproca projetam suas fantasias e expectativas. A mulher projeta nele a sua masculinidade; o homem projeta nela a sua feminilidade. Geralmente pouco dura. Alta intensidade, baixa durabilidade é a sua marca registrada. Porém tanto quanto a forma pornéia, esta tem todas as condições de evoluir para outros estágios.
3. Filos – que é a forma de amor centrada na segurança: relacionamento certo, seguro e possível. O amante neste estágio sabe que é um ser separado da coisa que ama, mas se conecta a ela de uma forma um tanto quanto doentia. A ênfase deste relacionamento é geralmente material. A atenção está no conforto, na estabilidade, na segurança, no carro novo, numa casa maior, num emprego melhor, nos clubes mais agradáveis, na próxima viagem, etc. Uma das principais razões para filos são as necessidades de um pelo outro, no que o outro encerra. Os cônjuges, cujo casamento já passou pelos estágios pornéia e eros podem evoluir para filos, até que a morte os separe e também evoluir.
4. Ágape – que é a forma oposta aos fenômenos do prazer carnal, da paixão e da resignação encontrados em pornéia, eros e filos. Ágape é amor incondicional, forma rara de amar. É um amor centrado na renúncia dos próprios interesses em consideração ao ser amado ou seres amados. É voltar-se ao outro, aos outros. É um ato de dar sem representar sacrifício, como uma escolha voluntária do coração. Não é amor exclusivo, mas é um relacionamento único. Mães e pais, avôs e avós, cônjuges, pessoas que se doam continuamente podem viver ágape e sentirem-se realizados.
5. Transcendental – que é a forma parcialmente alimentada por alguns ou por todos os estágios anteriores. Só é possível explicá-la convenientemente quando experimentada entre uma mãe e seu filho e naqueles casos mais acentuados de total devoção, crença, fé e incondicional entrega ao ser amado não só mediante o corpo físico, a mente, a alma, o coração, mas mediante todo o conjunto. É claro que nem todas as mães e nem todos os filhos se enquadram neste perfil. Esta é uma situação apenas compreendida por quem tenha a competência de se projetar para além do mundo das formas e encontrar ali, quem sabe, algumas ou todas as respostas para os mistérios da criação.
Ainda que não vivido e não praticado na extensão que seria de se recomendar à espécie humana para ser digna de pertencer ao mundo natural, que é amoroso, dizemos que é preciso ir além no conhecimento do amor. Os ocidentais adoram o amor. Nós o simbolizamos, estudamos, cultuamos, idealizamos, aplaudimos, tememos, invejamos, vivemos por ele e morremos por ele. O amor significa muitas coisas para muitas pessoas. Mas, se o amor é comum a todas as pessoas e também aos demais seres viventes em toda parte e está associado às minúsculas moléculas que residem nas terminações nervosas, nos centros emocionais do cérebro humano e na natureza toda, então o amor é tudo. Possivelmente sim.
No amor, tanto a atração e a entrega podem estar associadas à química do corpo quanto a algo não conhecido e não explicado. E pode-se aplicar o caminho inverso para explicar o definhamento das relações e a separação entre os amantes. Importa notar que novos pares se formam. Isso é a lógica. Não só no mundo dos racionais. E novamente voltamos às duas dimensões (química e espiritual) para lembrar que na morte de um dos parceiros novamente vivemos comportamentos extraordinários, também fora dos padrões, diferente, mas análogo à paixão.