quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"Meno male" ou "molto male" (I)

Nossa sociedade foi condicionada a renunciar progressivamente as suas liberdades e os seus recursos em troca de uma coisa impalpável chamada progresso, que não pode ser encarada como desenvolvimento. Desenvolvimento, como a própria palavra sugere, é tirar do embrulho, libertar.
Este é o primeiro artigo de uma série de dois.
Neste, o assunto é econômico – consumo.
O próximo tratará de política – participação.

Para maior clareza, vamos explicar o que se deve entender por progresso e o que se deve entender, mais detalhadamente, por desenvolvimento. Progresso, por exemplo, é deixar o campo, a casa simples, sem energia elétrica e sem água encanada, deixar o transporte a cavalo, o trabalho manual na roça, as festas tradicionais do interior, para viver na cidade, trabalhar na sombra, andar de ônibus, morar em apartamento, freqüentar os estádios... Desenvolvimento é acrescentar qualidade à vida. Mesmo que a pessoa fique no campo, o desenvolvimento teria de acrescentar o conforto da energia elétrica, do telefone, da água encanada, do esgoto, do automóvel, do trabalho mecanizado e dos passeios que permitam freqüentar estádios, cinemas, livrarias, teatros e festas, estudar e relacionar-se com pessoas interessantes.
O progresso, de forma burra, troca seis por meia-dúzia em nome daquilo que tira das pessoas o dinheiro e o tempo e entrega, em troca, a supressão da liberdade e o aumento do grau de escravismo. Tem sido assim com as máquinas e equipamentos de comunicação e lazer e também com os utensílios e equipamentos de alimentação, higiene, transporte e cultura para uma crescente parcela humana.
Hoje, uma família pobre dos bairros mais afastados vai a uma loja e compra um televisor a cores, ou uma geladeira, ou um fogão a gás e os paga em até 60 ou mais suaves prestações. Ao fim dos cinco anos, aquele equipamento já está velho pedindo para ser substituído. Mas esse não é o problema. O problema é que se a tevê fosse comprada à vista custaria apenas 500 reais. Em 60 prestações de 30 reais, ela custará 1.800 reais, quase quatro vezes mais. Tendo-se como certo que o comerciante ganha 40% no preço de atacado, o seu custo posto na loja é de cerca de 300 reais. A partir da 10ª parcela, tudo quanto for pago a mais é lucro. Não se trata aqui de achar que as famílias pobres não devam ter acesso a tais bens de consumo, até porque TV preto e branco não existe mais e fogão a lenha não queima mais. Trata-se de ensinar que poupando durante um ano, qualquer família poderia comprar seu televisor à vista por menos de 600 reais.
Este é um pequeno exemplo do “meno male”, que está no título desta crônica de hoje. Existem outros casos, como por exemplo, os serviços públicos. Nós pagamos Imposto de Renda, ICMS, IPI e uma dezena de outros impostos e taxas. Mas, se queremos saúde, temos pagar um plano particular; se quisermos educação, temos de mandar nosso filho à escola particular; se quisermos estar seguros, temos de erguer o muro, ter um cachorro bravo, um sistema de alarme, um guarda, um vigia; chegamos ao extremo de pagar a Companhia de Águas e adquirir água mineral para tomar porque quando faz seca ou quando chove, a Companhia não tem água para a população.
Haveria outros exemplos, mas é preciso voltar ao condicionamento do “meno male” e trocá-lo por “molto male” (expressões dialéticas do imigrante vindo da Itália e geralmente muito experto em se tratando de comprar ou vender) para argumentar que, condicionados a isso, damos o nosso dinheiro para ter liberdade ou damos nossa liberdade para ter dinheiro. E nos ensinam que só tem valor quem chega em primeiro lugar. Tem valor também, um corpinho esbelto, curado, um carrão brilhante, uma aparição na tela de algum comunicador amarelo ou desbotado. Tem valor uma roupa de marca, uma jóia cara... Aprendemos que para ter liberdade e dinheiro, é válido fazer qualquer coisa. Chegamos ao cúmulo de matar os pais para obter liberdade e dinheiro, sem esquecer que muitos experimentam a “liberdade” das drogas: fumo, álcool, narcóticos, etc.
Achando que liberdade e dinheiro se complementam, descobrimos apenas depois de 50 ou mais anos vividos, que essa dupla, na maioria das vezes, não anda lado a lado. Enquanto corremos atrás do dinheiro e da liberdade, sufocamos o ser que realmente existe para ser libertado: nossa essência. As estruturas de nossa sociedade atual não têm tempo para o plano espiritual. Tudo gira em torno das trocas materiais: nós damos o dinheiro em troca da liberdade de sermos mais escravos à procura de mais dinheiro para buscar mais liberdade e assim buscar mais escravidão.
Recebemos por herança cultural que o erro deve ser punido com cadeia, multa ou castigo, imposição de restrições. E passamos isso para nossos filhos. Quando eles erram, nós lhes castigamos presos aos seus quartos, ou lhes tiramos o cinema ou a diversão, o que vale dizer aplicamos uma multa ou uma restrição. Eles aprendem que, ao errar, basta pagar a conta e nada precisa mudar. O dinheiro compra a dignidade, paga a indignidade. Olhamos através deste mesmo prisma quando adoecemos e quando a doença tira-nos a dignidade de ser livre e andar pelo mundo e então queremos que o dinheiro pague os remédios, as cirurgias, as terapias, a cura. Mas, nem sempre o dinheiro trás de volta a saúde, porque o dinheiro não compra a dignidade do ser, compra apenas o direito de ter. Para ser e, mais ainda, para ser digno e saudável, o buraco é bem mais acima.
Se não bastasse toda esta argumentação, ensinamos aos nossos filhos que o mais forte bate e leva melhor e então eles se formam nas relações atritadas com seus colegas não pelo grau da dignidade de caráter, mas pelo grau de força na pancada. Se vier a apanhar, tornar-se-á indigno e traumatizado, inferior, fraco, fora de padrão. De que padrão? De que sociedade? Da que temos e demoramos muito a contribuir para sua transformação.
Nessa corrida suicida, esquecemos que educar é diferente de esculpir, e que auto-estima é diferente de afirmação.
Auto-estima é sinônimo de “eu me amo”. Afirmação é sinônimo de “eu me procuro”.
Educar é “tirar de dentro”. Esculpir é dar formas externas.
Progresso é trocar de carro. Desenvolvimento é descobrir que o carro polui a vida.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fundamentos éticos - teoria associada à prática

Ao dissecar a conhecida obra de Jesus, conclui-se que ele deixou um verdadeiro código de ética, capaz de responder pela evolução da humanidade. Os fundamentos, os princípios, virtudes e valores desse código, compõem o que se poderia chamar de Ciência Cristã para a saúde, para a paz e para a vida espiritual. Os fundamentos, princípios, valores e virtudes evidenciados na obra de Jesus saem da teoria e entram diretamente na prática. Sem a pratica tornar-se-iam retóricos e inócuos, como veremos:
Amor – O amor foi instituído como o mantra que mobiliza a energia criadora da vida. Vida é ciclo e ritmo, portanto, movimento, respiração, expansão, contração. O amor é o veículo de seu combustível. Amar a Deus significa aceitar com doçura e mansidão ser parte de sua obra. Amar ao próximo como a nós mesmos significa reproduzir no ambiente e no mundo o amor que nos faz ser e estar. Amor não é teoria, é prática.
Justiça – A Justiça se faz com igualdade de direitos e deveres entre todos os seres vivos. Jesus condenou a escravidão e a prepotência, a miséria e a ignorância, onde podem ser incluídas questões como a do meio ambiente. A Justiça não é teoria, é prática.
Pureza – A vontade, os pensamentos, as atitudes, as palavras e as obras humanas devem provir da Pureza de alma e de coração como princípio, e da Bondade praticada, como resultado. Significa retomar o estado de Pureza perdido e reproduzir o modo de como a vida age consigo mesma, cujos exemplos podemos buscar na natureza que nos rodeia. A Pureza, portanto, também não é teoria, é prática.
Paz – A Paz é a colheita daqueles que semeiam o Amor, a Justiça e a Pureza. Como tal, a Paz também não é teoria, é a colheita das práticas que lhe dão causa.
Saúde – A Saúde é o estado de Amor, Justiça, Pureza e Paz, retratado nos sentimentos e refletidos na dinâmica do corpo, do coração, da mente e do espírito. A vida natural ensina e pratica isso. Portanto, Saúde não é teoria, é prática. E se praticada adequadamente torna puro o corpo para que se faça um santuário e nele habite o espírito.
Alegria – A vida, a natureza, o cosmos são alegres. A alegria é irmã da beleza e a beleza é a forma, o canto, a música e o perfume da vida. A alegria não se imagina, se percebe, se sente, se demonstra, se compartilha, como a natureza costuma fazer. Logo...
Solidariedade – Nada teria sentido entre os homens se entre eles não houvesse a solidariedade e a cooperação. A vida é solidária e cooperativa. Sem isso, o equilíbrio e a harmonia estariam quebrados e a vida não se sustentaria. A solidariedade não é teoria, é prática.
Liberdade – Liberdade com a responsabilidade é uma regra de ouro nas sociedades humanas, onde precisam ser ensinadas e praticadas, uma vez que em todos os demais reinos da vida elas não são imaginadas, são sentidas e praticadas.
Verdade – A Verdade é sinônimo de Deus, significa ser. A Vida é a Verdade. Nada há, nada existe a não ser a verdade. Seria mais correto dizer que a Verdade é Deus, do que dizer que Deus é verdade. Onde está a Verdade, está o conhecimento que é a luz de nossas mentes. O conhecimento antigo ensina que onde está o conhecimento verdadeiro, está a alegria e não há lugar para a dor. A Verdade, o conhecimento e a alegria, são irmãos do Amor, por isso Jesus indicou-nos como sua missão: o Caminho, a Verdade e a Vida. Referia-se Ele ao Caminho como o Conhecimento. E sua igreja, antes do século III era conhecida como Caminho. Aquele que realiza a Verdade em toda a sua plenitude, nada mais precisa aprender.
Sabedoria – A Sabedoria é inata em todos os seres e aos racionais ensina a doçura e afasta o ciúme; ensina a alteridade e afasta o egoísmo e a contenda; ensina a harmonia e o equilíbrio e afasta a perturbação e o vício. A sabedoria é pura, pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia, de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento. A Sabedoria é a verdade da vida. Viver é aplicá-la, aplicá-la é viver, é praticar a humildade do aprendizado e o fluir da inteligência.
Perdão – O Perdão e o Amor se complementam. O Perdão existe para obstar o julgamento e a condenação definitiva. O melhor exemplo de Perdão pode ser encontrado na natureza que se expressa pelos elementos água, terra, ar e fogo. Sempre que agredidos, reagem e ensinam ao agressor que a recomposição é o perdão, abrindo-lhe a oportunidade de transformar-se ou sucumbir. Aqui, novamente, a teoria cede lugar à prática: perdoar é oferecer a quem se perdoa a oportunidade de transformação.
Ao adotar e aplicar o Código de Ética de Jesus, a humanidade se encaminha para a proposta da vida. Todos podemos contemplar como toda a vida vibra nos padrões de amor, justiça, pureza, paz, saúde, alegria, solidariedade, liberdade, verdade, sabedoria, perdão. Os homens são os únicos integrantes da vida que ainda não se adaptaram ao padrão dessa proposta. E por isso vão caindo e levantando, aprendendo muito pouco, andando e retrocedendo como uma promessa de quiçá voltar ao lugar de destaque que lhes está reservado como os mais importantes elos da Criação.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fundamentos históricos e bíblicos, o princípio espiritual e terapêutico

A vida pública de Jesus, que foi de cerca de 12 meses, ficou marcada por 46 eventos que se costuma chamar de milagres, além dos discursos e recomendações. O Messias proporcionou uma média de dois eventos por semana, considerando curas e palestras. A maioria das curas, a moderna medicina ainda hoje encontra dificuldade para explicar. Extraordinários também foram os exorcismos. Referindo-se ao seu trabalho espiritual e terapêutico, em várias oportunidades, Jesus assegurou que todos os seus seguidores seriam habilitados a praticar o mesmo mister. Em João 7:37-39 está escrito: “No último dia, que é o principal da festa (dos Tabernáculos), estava Jesus de pé e clamava: ‘Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, ‘de seu interior manarão rios de água viva (Zacarias 14:8 e Isaías 58:11)’. Dizia isso se referindo ao Espírito que haviam de receber os que cressem nele; pois ainda não fora dado o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”. Ainda em João 14:12-17 está escrito: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as coisas que faço e fará ainda maiores do que estas; porque vou para junto de meu Pai. E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei para que o Pai seja glorificado no Filho. Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai e ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece, mas vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós”.
Evidencia-se, em síntese, que Jesus conseguia o concurso de energias especiais, com as quais transformava água em vinho, caminhava sobre as águas, multiplicava peixes e pães, ressuscitava os mortos, fazia curas extraordinárias e afastava espíritos obsessivos. Durante toda a sua messe, suas pregações exortavam os necessitados a uma transformação íntima e comportamental como requisito para alcançar os benefícios esperados. E sempre afiançou a todos quantos viessem acreditar no poder espiritual, por ele chamado de Paráclito ou Espírito da Verdade, que receberiam o poder de fazer as mesmas coisas e ainda maiores. Reservou, entretanto, a oportunidade de liberar maiores conhecimentos sobre o assunto quando a comunidade envolvida estivesse melhor preparada, iniciada, capacitada, treinada. Seus apóstolos, porém, tiveram acesso a revelações que ficaram como segredo entre eles. João confirma isso em seu Evangelho (20:30), quando escreve: “Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres, que não estão escritos neste livro” e novamente reafirma no encerramento de seu Evangelho (21:25): “Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma a uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever”.
Cabe concluir que o ministério do Messias enviado de Deus foi muito mais rico do que o que foi apresentado nos Evangelhos. A narrativa evangélica objetivava, segundo se depreende, por um lado, preparar os fiéis não iniciados, que não saberiam entender em profundidade a nova realidade espiritual e, de outro, aplacar a ira dos perseguidores adversários da nova doutrina.
A época era de profundas diferenças sociais e intelectuais. A classe dominante via na nova doutrina uma ameaça a seus privilégios e a maioria oprimida despertava para uma nova consciência tendo como base uma nova ciência política, social, religiosa e médica, a Ciência Cristã.
Jesus propôs uma revolução no modo de vida da humanidade, retirando a tutela, o clientelismo, o paternalismo, a escravidão, a opressão, em troca da reforma íntima, do comportamento ético e do crescimento intelectual e espiritual, realidade que hoje poderia ser definida como cidadania civil e espiritual. A mudança propunha retirar dos homens e das mulheres – deve ser enfatizada a presença feminina na obra evangélica de Jesus – a figura do representante, do intermediário terreno entre Deus e a humanidade, devolvendo aos seres humanos a dignidade, na qualidade de filhos de Deus: cidadãos dos céus e da terra, capazes de se conectarem à espiritualidade e de obterem níveis extraordinários de vida pela via do amor, da solidariedade, da justiça, da sinceridade, da confiança, da oração, da caridade e de todas as demais virtudes esperadas nos homens.
Consumada a missão terrena do Messias entre os homens, são conhecidos os primeiros passos dos seus discípulos no cumprimento da missão entregue pelo Mestre. Conforme registra Lucas, em Atos dos Apóstolos – que narra a implantação da Igreja de Cristo na Palestina - seus apóstolos reuniram-se em Jerusalém, atendendo a uma recomendação do próprio Jesus: “Porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo (1:5)” ... “descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo (1:8)”. Obedientes à recomendação, “voltaram eles, então, para Jerusalém, ao monte chamado das Oliveiras (1:12) e ... tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer (1:13). Todos eles perseveravam unanimemente em oração, juntamente com as mulheres... (1:14)” ... “Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio dos céus um ruído, como se soprasse um vento impetuoso e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e repousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem (2:3-4)”.
O evangelista teria de ser didático ao descrever a presença entre eles de uma forma de energia ainda hoje não bem conhecida: o espírito. E usou a expressão “línguas de fogo” e narrou a capacidade adquirida pelos médiuns de falar em outras línguas, atendendo à curiosidade dos circunstantes que eram partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito, da Líbia, de Cirene, de Roma, de Creta e da Arábia, como narra Lucas em Atos 2:9-11.
Ante a surpresa e a curiosidade das pessoas que assistiam, é Pedro quem explica: “Cumpre-se o que foi dito pelo profeta Joel: ‘acontecerá nos últimos dias – é Deus que fala – derramarei meu Espírito sobre todo o ser vivo, profetizarão os vossos filhos e vossas filhas. Os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos sonharão. Sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei naqueles dias o meu Espírito e profetizarão. Farei aparecer prodígios em cima nos céus e milagres embaixo na terra’ (2:16-19)”.
Os presentes, “ao ouvirem estas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: ‘Que devemos fazer, irmãos?’ Pedro lhes respondeu: ‘Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo’ (2:37-38)”. “Enquanto eles falavam ao povo, vieram os sacerdotes, o chefe do templo e os saduceus (que negavam a ressurreição, hoje interpretada como reencarnação) contrariados porque ensinavam ao povo e anunciavam, na pessoa de Jesus, a ressurreição dos mortos. Prenderam-nos e os meteram no cárcere até o outro dia ...(4:1:3)” Aos que os interrogavam, “então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: ‘Chefes do povo e anciãos, ouvi-me: se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo’, qual é o nosso erro? (4:8-9)”
A pregação dos discípulos de Jesus enfatizava: “Estendei a vossa mão para que se realizem curas, milagres e prodígios pelo nome de Jesus, vosso santo servo. Mal acabavam de rezar, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam com intrepidez a palavra de Deus (4:30-31)”. “... e os atormentados por espíritos imundos, todos eram curados (5;16)”. “De fato, nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, do que Deus deu a todos aqueles que lhe obedecem (5:32)”. “E todos os dias não cessavam de ensinar e de pregar o Evangelho de Jesus Cristo no templo e pelas casas (5:42). A multidão dos fiéis era um coração e uma só alma (4:32)”.
Preso o diácono Estevão, condenado à morte por pregar o Evangelho de Jesus, ao falar com seus interrogadores constatou-se nele o seguinte: “Fixando nele os olhos todos os membros do Grande Conselho viram o seu rosto semelhante ao de um anjo (6:15)”.
Pode-se inferir que os discípulos de Jesus levaram adiante a caminhada do Mestre, realizando prodígios que desagradavam às autoridades civis e religiosas da época. Tudo continuava como no tempo de Jesus.
As cerimônias e celebrações do Caminho, como eram chamadas as reuniões da Antiga e Verdadeira Igreja de Jesus Nazareno, podem ser definidas como cultos espirituais invocando energias do alto e aplicando-as em benefício do povo, fosse através de curas, desobsessão, libertação ou crescimento intelectual e espiritual. Mas, sempre com base no merecimento. O indivíduo que estivesse em culpa ou remorso, deveria emendar-se, transformar-se, abandonar a prática de atos indignos ao ser humano.
Essas recomendações, hoje, encontram ressonância nos trabalhos de medicina vibracional, quando enfaticamente os pacientes são estimulados a mergulhar em suas consciências e retirar de lá as possíveis mágoas, decepções, culpas, remorsos e todos os sentimentos que não estejam alinhados com os fundamentos, princípios, virtudes e valores deixados por Jesus.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Arquelles e a "Convergência Harmônica"

Estamos retornando ao tema que enfocamos em 16 de agosto último, dada a atualidade do enfoque naquela data, pois o escritor metafísico mexicano José Arguelles deu ciência ao mundo em 16 de agosto de 1987, que estava sendo iniciada a configuração astronômica que levará nove planetas do sistema solar a estarem alinhados entre si em 123 graus, repetindo em 21.12.2012 o que já havia ocorrido há 23.412 atrás.
Não se trata, não, de uma invenção de Arguelles. A Configuração Principal a ocorrer em 21.12.2012 foi prevista pelos maias e pelos astecas há muitos séculos.
A tese de Arguelles é simples e amplia o fenômeno para além de uma configuração astronômica inclusive apontada por gente apressada como o ‘fim do mundo’. Para Arguelles haverá uma ocorrência caracterizada pelo deslocamento na orientação mental humana, no coletivo, induzida por forças magnéticas. Suas conseqüências: desmilitarização e rápido encaminhamento para a despoluição ambiental, forte tendência para uso da energia solar, mudanças sócio-culturais coordenadas por uma atualização aperfeiçoada do potencial humano e surgimento de avanços na parapsicologia.
Outro ponto da tese de Arguelles reúne uma profecia Hopi com o apocalipse bíblico e sugere que os 144 mil seres ali citados como escolhidos para dar conta da grande mudança humana na Terra são, na verdade, mestres iluminados, que deverão reunir-se em pontos de força ao redor do planeta, utilizando-se dos chamados chakras energéticos da Terra para criar as condições ideais de travessia do planeta de seu estágio anterior para este, que será de transformação.
Tanto em 1987, como agora, as notícias sobre este fenômeno encontram três tipos de reações. Os céticos dizem que se trata de coisa de desocupados e que tudo não passa de bobagens. Os beatos esperam o fim dos tempos, como previstos no apocalipse e desde agora já estão concentrados nos templos esperando o convite de Deus para embarcar entre os 144 mil que serão salvos. Os da coluna do meio preferem trabalhar com a ciência e com a fé. Para tanto mandaram conferir o que está previsto. A ciência astronômica manda dizer que o sistema solar roda ao redor da Via Láctea, em volta completa a cada 25.920 anos terrestres. Portanto, já passamos por ali um monte de vezes. E informa que, sim, haverá uma configuração alinhada de 9 planetas do sistema solar, coincidindo com a aproximação ameaçadora de um meteoro, mas ele passará a milhões de quilômetros de nós, o que não invalida a hipótese de influências magnéticas. A ciência informa que as alterações climáticas havidas de 1987 para cá estão associadas às novas configurações magnéticas pelas quais passa o planeta Terra. E informa, em derradeiro, que os alinhamentos de 21.12.2012 são muito sutis e jamais poderiam ter o impacto apregoado pelos arautos do fim do mundo.
Agora vamos às notícias relacionadas com a fé. Aos que crêem em reencarnação, diremos que o planeta vai reencarnar em um nova era, deixando para trás o cadáver da era que morreu. Já fizemos isso inúmeras vezes, do mesmo modo que o ano morre anualmente no dia 22.06 e renasce no dia seguinte, avança expandindo-se até chegar ao ápice no dia 21.12 e novamente começa a enveredar para a morte anual.
Seja lá que o que for que virá depois de 21.12.2012, nada mais será exatamente como antes. Todas as mentes estarão inclinadas ao novo tempo e os adversários do novo tempo serão convidados a retirarem-se, isto é, ao desencarnar, serão levados para dimensões diversas para as futuras reencarnações. Sua vibração estará em desacordo com a vibração do planeta Terra.
Eis aí algumas informações, não todas, que irão pavimentando o conhecimento e a consciência daqueles que tomam interesse pela vida humana e do planeta.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Sopro de Vida

Para que o leitor possa discernir corretamente o que significa uma experiência de vida no corpo, há a necessidade de entender a relação entre o espírito (inteligência) e a matéria (corpo) passando pela mente (instrumental).
Em primeiríssimo lugar tome-se o espírito por fator positivo, masculino, e o corpo por fator negativo, feminino. A mente deve ser tomada por fator neutro, instrumental, conciliador, administrador. E se pudermos levar esta compreensão um pouquinho mais além, podemos também tomar a mente por fator determinante do resultado a obter pelas relações espírito-corpo.
O fator masculino é objetivo, paterno, focado nas metas, direto, intransigente, com o olhar lá na frente, enquanto o fator feminino é subjetivo, materno, acolhedor, cuidador, transigente, com o olhar no aqui e agora. A mente deve fazer a conciliação entre os dois outros fatores para que disso haja um resultado, o melhor possível.
Por que o melhor possível? Porque a trajetória de toda a vida, observada ao longo de milhares de anos, demonstra uma rota de melhoria constante. Tudo quando se comporta de forma contrária a esta tendência sempre será tomada como oposição à vida e sujeito às conseqüências. Podemos, mesmo, amenizar a expressão “oposição à vida” para relacioná-la com permissividades que nos atribuímos: comer além da conta, beber uns goles a mais, ousar em algum comportamento cujo resultado não mensuramos e depois, concretamente, nos traz tardio arrependimento. Tudo isso pode se passar no âmbito do corpo, onde se localiza a pedra bruta clamando pelo polimento a caminho de ser jóia formosa, mas, por ser fraca, como se diz, tende a cair em tentações, deslizes, corrupção.
Na metáfora da carruagem, a vontade emanada do corpo material pode ser comparada aos cavalos. Se o cocheiro ou condutor, hoje representado pelo motorista, aquele que toma das decisões na estrada desde que os motores foram inventados, que aqui neste caso é a mente, repito, se o cocheiro não souber lidar com seus cavalos (princípio animal deste conjunto), corre-se o risco de levar a carruagem e seus ocupantes, neste caso, o conjunto, mas preponderantemente o espírito, que é o passageiro em deslocamento, a um resultado desastroso.
Assim como a casa onde moramos deve ser entendida como o útero que nos acolhe para uma convivência, seja de um único ser, seja de um casal ou de uma família de qualquer tamanho, também o corpo humano deve ser entendido como a casa do espírito, tão importante quanto um santuário destinado a abrigar uma divindade (o espírito) a caminho de um ponto a outro ponto, por isso a carruagem também se adapta bem como metáfora.
O espírito, “pai”, não se realizará se não contar com a participação do corpo, “mãe”, para, juntos, gerarem “filhos”, isto é, gerarem resultados dessa união, dessa conjunção, dessa fusão.
Este magistral papel desempenhado pela mente está sujeito aos processos culturais, que se somam aos conhecimentos que vêm de vidas passadas e, numa estreita simbiose, vão se compondo, bem ao estilo da pedra, que vai perdendo suas imperfeições enquanto é trabalhada para chegar a ser preciosa e virar jóia. A família, a escola, a igreja, a sociedade, enfim, exercem uma decisiva influência na composição do caráter temporário de uma pessoa. O melhor exemplo para isso são as famílias desestruturadas que abandonam a educação de seus membros e permitem que as más companhias desencaminhem os adolescentes e estes acabem se perdendo nos labirintos do submundo. Somos todos cúmplices de nossos resultados e a sociedade que temos é o resultado que merecemos.
Para finalizar: o sopro de vida vem ao corpo para animar a vida, para ganhar ação concreta, para gerar um resultado que influa na história de muito longo prazo daquele fator que não perece com a morte e que prossegue a sua existência num futuro útero, renascendo sequencialmente, como as sementes, que também descem ao ventre da terra para gerar novos seres. É uma pena que muitos de nós jogamos fora a oportunidade de melhorar o resultado e, tal qual empresas mal geridas, produzimos prejuízos, falências.

sábado, 25 de setembro de 2010

Jesus perante a ciência

Primórdios da modernidade

Imaginemos o seguinte quadro: no interior da caverna, a criança se debate ardendo em febre. O pai sai em busca de um pajé. A mãe vai até os arbustos mais próximos e dali retira umas folhas, que macera nos próprios dentes, rapidamente, e introduz esta pasta vegetal molhada pela própria saliva na boca do filho. Enquanto isso, lança olhares aflitos para a porta da caverna. Sem demora, chega um ancião de barbas e cabelos brancos e longos, cajado à mão, grande pele de leopardo às costas, colar de presas de felino ao pescoço. Dirige-se ao enfermo. Ele encarna uma solução além da compreensão humana.
Com base nas memórias que nossa consciência pode registrar, ao longo de milhares de anos, tem-se que a alegria reúne os homens, mas é a dor que lhe confere santidade, fazendo vibrar as cordas mais sensíveis de sua alma e mostrando a precariedade de nossa passagem pelo planeta.
Milênio após milênio, quanto mais distante da proposta da vida, mais e mais o homem se debateu com doenças aparentemente incuráveis. E apesar dos avanços científicos, das vacinas, dos antibióticos e dos transplantes, novas e desafiadoras doenças surgiram, desafiaram, dizimaram e permanecem.

Modernidade antiga

O que dizem, hoje, sobre as doenças os cientistas da saúde? Dizem que mais de 80% das doenças têm origem no desequilíbrio de nossas emoções em íntima correlação com nossos sistemas neurológico, endócrino, imunológico. E que o desequilíbrio desses sistemas pode ser explicado e compreendido à luz da biofísica, da fisiologia e da bioquímica.
Nos planos apenas biológico, fisiológico e bioquímico iremos nos deparar com os conteúdos mais diretamente estudados pela medicina ou seja os órgãos, suas funções, os processos ou as suas atividades vitais, como crescimento, nutrição, respiração, irrigação sangüínea, e daí se estendendo para todos os demais campos estudados, como a neurologia, a cardiologia, etc.
A moderna compreensão das doenças se deu à luz do átomo, isto é, a mesma física que estuda as energias, inspirou estudos sobre a energia eletromagnética contida nas vibrações de nossas células e órgãos. E assim se pôde chegar ao foco da questão: o que influencia a fluidez ou a estagnação das correntes eletromagnéticas humanas? O humor. Melhor dizendo, as emoções.
Esta moderna descoberta nos levou a Hipócrates, o pai da medicina, que fez cátedra 500 anos antes de Jesus e permitiu-nos conhecer os avanços propostos por Galeno, no século II. Hipócrates e Galeno ensinaram que a maioria das doenças tinha origem nos quatro temperamentos humanos, o sangüíneo (que significa nervoso), o bilioso (que significa raivoso), o fleumático (que significa sem vontade) e o melancólico (que significa deprimido). Hoje, esta compreensão pode alterar-se, mas não na essência, como veremos.
Antes de prosseguir, é necessário resgatar o conhecimento que levou os antigos a chamar de médico o profissional da cura: a palavra tem origem na expressão latina medicu, que significa medo.

Enfim, a ciência

A medicina se tornou ciência no século XII, com a criação da primeira faculdade, e enfrentou terríveis obstáculos, pois os conhecimentos até então apreendidos haviam sido destruídos pela prepotência dos dirigentes ocidentais durante a Idade Média. Foram os árabes que salvaram a memória epistemológica médica, através das escolas de Bagdá e Córdova. Mas, separada da fé, em decorrência da estupidez da Igreja de então, a ciência médica perdeu sua essência espiritual.
Afastada da religião, a ciência se tornou materialista. Culturalmente tivemos de exorcizar a figura do pajé. Nas comunidades menos bombardeadas pela modernidade, sobraram os benzedores/benzedeiras, naturais sucessores dos pajés. Ao interagir com os pacientes, esses bruxos da cura fazem pela fé uma resistência contra o materialismo das gotas, comprimidos, injeções, bisturis e, querendo ou não referendam o que a medicina sempre soube e nem sempre reconheceu ou atestou. Por exemplo, a matéria sem a mente não sente dor. O ser humano hipnotizado perde a capacidade de sentir dor. A anestesia quer dizer sem estesia, sem sensibilidade e atua retirando da mente a capacidade de sentir. Quando dormimos, o cérebro desliga sua capacidade de sentir e não sentimos dor, não ouvimos, não sentimos cheiro. O contrário também é verdadeiro: o maneta, o perneta, sente dor na mão e na perna que já não possui, numa prova evidente que a mente é o comando do sentir, e sente até mesmo o que fisicamente não está mais ligado ao corpo. Se a mente não permite, o vírus, a bactéria, não atuam no corpo. E se atuarem, a mente será capaz de anulá-los.

Tudo com a mente

Indo mais a fundo na questão mística, vale afirmar que se a mente não permitir, o feitiço mandado não causa efeito algum. O contrário dessas afirmações também é verdade. É quando se descobre que se a mente acredita no efeito, o placebo tem força de remédio. Se a mente acredita, o benzimento afasta a dor e a anormalidade (erupção, verruga, cobreiro, rendidura dos tecidos, arcada caída, ziguezira, etc.). Os benzimentos têm o poder de curar o que não foi diagnosticado. Para a mente, o importante não é o diagnóstico, é a ordem para anular o que não é natural no corpo por ela controlado.
Cabe anotar: uma das quatro funções da mente é tomar conta do programa preexistente que prevê o perfeito funcionamento de todo o complexo sistema biológico, endócrino, imunológico e autônomo do corpo. Tudo o que contrariar o programa preexistente (que a proposta da vida) é motivo para a reação da mente. É ela que dispara as defesas e providencia a neutralização da ameaça. Se a mente não conhece o inimigo, caem todas as defesas, é como se os soldados tivessem perdido o juízo, estupefatos pelo aterrador acontecimento. Essa é a situação quando o inimigo é o vírus HIV. Quando, porém, nesses casos, a mente é estimulada a isolar o inimigo, cercá-lo para que não tenha mais nenhuma ação, o vírus perde o efeito. O organismo acusa a presença dele, mas ele está fora de combate.
Se a mente acredita, a força do corpo se modifica: a mãe ergue a pedra de 200kg que esmaga o corpo de seu filho.
Se a mente acredita, a força do pensamento produz efeitos incomuns: a anciã afasta o temporal com a simpatia, com o benzimento; o ancião afasta as cobras ou as pragas da lavoura ou do terreno.
O poder de sugestão atua na mente e faz com que bocejemos quando alguém boceja, sintamos vontade de urinar quando ouvimos barulho de água, ou choremos quando alguém chora.
Os estados doentios surgem por associação de idéias, em que o medo participa como principal figurante. Por isso, o nome do medicu para o curador.

Coisas ridículas

A medicina xamânica atuava na completude de corpo-coração-mente-espírito. Em dado momento, a química e a física moderna alteraram o método xamânico, colocando como agente curador a química dos medicamentos. A homeopatia tentou corrigir essa distorção, seguida dos florais. Veio a medicina vibracional. O futuro da medicina, porém, reserva a oportunidade de retornar ao princípio holístico, em que todos os aspectos do paciente são considerados: físico, emocional, intelectual, psíquico e espiritual.
Quando o pajé cura parece acreditar que a mente executa um Programa Prévio – elaborado em um estágio não de todo dominado pelo conhecimento humano – e trabalha na esperança de que ela está autorizada a repelir o que for contrário ao programa. E o faz com capacidade, interagindo com os registros constantes de um outro programa, o Adquirido, fruto da sabedoria ou da ignorância – que reside na cultura do indivíduo e seu grupo. Os conteúdos do Programa Adquirido ajudam ou impedem a boa execução de um tratamento. O Programa Prévio é algo espiritual, profundo, divino e eterno, parte da Lei da Criação (que conforme a Gênesis Bíblica, tudo é bom, nada pode ser para o mal, porque se for para o mal, estará contra a Lei da Criação). O Programa Adquirido pode conter zonas de trevas (ignorância, fanatismo, vícios, dependências, psicopatias), que devem ser afastadas porque estas impedem a ação da mente na execução da cura ou, mesmo, respondem pela criação da anormalidade sempre que se contrapõem aos conteúdos do Programa Prévio.
Abandonemos, agora, a erudição científica para mergulhar na simplicidade de ensinamentos que a ciência, até pouco, ridicularizava.
Por isso, renunciai à mentira. Fale, cada um, a seu próximo, a verdade, pois somos membros uns dos outros. Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só a que for útil para a sua edificação. Antes sede com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou. Nos gloriamos até das tribulações, pois sabemos que a tribulação produz a paciência; a paciência prova a fidelidade; e a fidelidade comprovada produz a esperança. E a esperança não se engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. Assim pregou o apóstolo Paulo aos Efésios (IV, 25, 29 a 31) e aos Romanos (V: 3 a 5).
Quando Jesus e seus discípulos se dirigiam ao povo não em preparação do homem para Deus e nem para apresentar Deus aos homens, mas para oferecer uma espécie de “programa de vida”, o que mais se destaca é a sua preocupação com o nosso bem-estar. E nesse ponto, ainda que a cátedra possa ter caráter religioso, é forçoso reconhecer que o seu principal caráter é filosófico, porque trata da ética, e é científico porque trata da saúde.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Transmutar e Transformar-se (v) final

Como negar ou explicar?

Mesmo sem responder nada, sem poder demonstrar ou negar a existência de Deus, a ciência enfraquece as religiões. De um lado, as religiões insistem em apresentar-nos um Deus excessivamente imaterial; de outro, a ciência se apega demais ao lado material do mundo. A virtude pode estar no centro.
Tirando-se os dogmas, a nova ciência (mesmo sem deixar de ser material) afirma que o mundo é muito pequeno para quem procura um cenário de sua lógica, de sua origem, de sua natureza, de sua evolução. A nucleossíntese já identifica onde são fabricados os 92 elementos químicos que compõem o universo: nas estrelas supernovas. As estrelas são, pois, uma cozinha para fabricar matéria. Quem diria? O céu das divindades, morada dos espíritos e de todos os deuses, é uma imensa cozinha materialista!? Espírito e matéria são a mesma coisa? Deus pode ser algo material? Quantas dúvidas! Quão grande é a caminhada! Já começamos a caminhar?

Uma denúncia

Crer ou não em Deus, permanece, pois, uma escolha individual que deve ser respeitável e respeitada. É um fundamento essencial da liberdade, ao alcance dos mais doutos cientistas do planeta e dos mais simples indígenas não tocados pela civilização moderna.
Uma parte da ciência está a denunciar a morte imposta à humanidade através do fanatismo positivista, racionalista, tecnicista, fanatista, que nos desviou da dimensão do absoluto e estabeleceu a gênese do mal que assola a todos.
Essa parte dos nossos estudiosos está de volta numa coisa simples que é o amor, a verdadeira dimensão do amor. Esta parte da ciência tem tido a coragem de assumir o amor, de falar sobre ele nos seus textos científicos de elevada responsabilidade investigativa:
“O amor que não devasta não é o verdadeiro amor. Não estou me referindo ao amor de superfície, ao amor piegas, ao amor da posse, ao amor do apego. Estou me referindo ao amor que devasta nossas melhores ilusões, nossos mais pueris idealismos. Este amor que devasta o nosso ego e nos abre para os horizontes do ser. Nós temos que falar desse amor, desse amor que é a terapia do mistério e a tecnologia mais sofisticada de todos os universos e que dirá a última palavra. Falar da dimensão do ser é falar disso que está próximo, não está distante, não está nos gestos heróicos, está no simples, está na verdadeira dimensão do homem” (Trecho do livro “Saúde e Plenitude” de Roberto Crema, vice-reitor da Universidade Holística da Paz, Brasília, 2000).

Esta parte da ciência confia que pelo caminho do amor a humanidade encontrará sua essência, conhecerá a sua essência, onde tudo mais pode ser encontrado e conhecido. E não precisa filosofar para encontrar o amor. Ele está presente em toda a natureza. O menos amoroso dos seres naturais é o homem. Enquanto não aprendermos o amor não encontraremos Deus.
E estamos de volta à ética e à moral, por extensão obrigados a conferir onde e por que perdemos a capacidade de cooperar, estabelecer parceria, ser solidário, interagir e, de resto, buscar nessas ferramentas a construção do crescimento e da iluminação dos homens, para que as suas vidas se constituam em permanente resgate dos nossos próprios erros e não a sua repetição agravada infinita e angustiosamente.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Transmutar e Transformar-se (iv)

O maior dentro do menor

Parece ser tão grande a proximidade entre alma/espírito e consciência, que eles se confundem, ou parece confundirem-se. Quando alguém adquire consciência de algo, demonstra estar incorporando um valor ou um princípio ao seu sistema de avaliação ou arbítrio, onde ocorre a coerência. Quando alguém demonstra já ter consciência de algo, demonstra possuir determinado valor ou princípio já incorporado em seu sistema de avaliação ou arbítrio, produzindo coerência.
É interessante observar que a definição para coerência remete-nos à compreensão de um processo de “ligação harmoniosa entre situações, acontecimentos, idéias” e também a “relação harmônica, a conexão, o nexo, a lógica”, entre situações, acontecimentos, idéias, enquanto o verbo coerir sugere fazer coesão, aderir reciprocamente, para chegarmos ao que a Física define por coesão: “a propriedade resultante da ação das forças atrativas existentes entre as partículas (moléculas, átomos, íons) constitutivas de um corpo”.
Queiramos ou não, chegamos ao macro e ao microcosmo. Desde os filósofos gregos, meio milênio antes da era cristã, muito pouco evoluímos. Passamos a maior parte do tempo discutindo sobre quem sabia mais e quem sabia menos, perdendo precioso tempo e esquecendo-nos de que o grande sábio é aquele que nada sabe, como ensinou Sócrates. Apesar disso, conseguimos, 2.300 anos depois que Demócrito apresentou sua síntese, reabilitar o átomo. A mecânica quântica veio dizer que micro e macrocosmo não diferem, são cópia um do outro.
Todas as religiões esposam a hipótese da existência do espírito. A divergência reside no defini-lo, dividindo religiosos entre si e cientistas um pouco entre si e bastante entre a ciência e as religiões.
Quando se estuda o espírito vamos encontrá-lo predefinido pelas religiões e em parte pelas ciências, como a parte imaterial do ser humano, a alma, entidade sobrenatural ou imaginária, como os anjos, o diabo, os duendes, ou como um ser dotado de inteligência, bondade ou maldade acima do comum, e mesmo como um elemento divino eterno, de elevados poderes, também citado por Jesus Cristo como Espírito Santo.
No entendimento religioso judaico-cristão, o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, tomando-se Deus não como forma humana, mas como forma espiritual. Logo, não são diferentes o espírito que está no homem e o Espírito Santo citado na Bíblia. Cientificamente é isso, até porque a mecânica quântica mostra o micro como a reprodução do macrocosmo e vice versa.
Mas, Kardec em “O Livro dos Espíritos”, dá uma definição mais clara para Espírito: “é a sede da inteligência ou princípio inteligente da vida”.

Explicar o que?

Não sendo assim, nem mesmo a ciência pode dizer de modo diferente. Por princípio, ou melhor, por método, a ciência exclui Deus de seu campo de raciocínio, não por convicção. Para o método científico, Deus não pode ser comprovado, da mesma forma que a inteligência não pode ser comprovada. Sentimo-la, mas não podemos comprová-la. Aquilo que não se explica e não se compreende, é sempre provisório. A dura regra da ciência aí está, inflexível. Seu método é e deve ser o raciocínio, a demonstração, a experiência, a observação. E nenhum outro. A finalidade da ciência é construir uma representação “objetiva” do mundo, portanto “verificável”, com ou sem a intervenção de Deus, se este puder ou não incluir-se como algo verificável.
Como a ciência tem excluído Deus desse campo, exclui ela de um só golpe a demonstração da existência ou da inexistência dele. Uma segunda razão para isso é que a ciência jamais dará resposta às duas mais importantes questões de toda a discussão: tem o universo um sentido?; o que havia antes do nascimento do universo?
A ciência jamais dirá o que significam zero e infinito nas coordenadas de tempo e espaço. Para chegar a esta resposta, segundo Gödel, seria preciso um estudo externo e nós estamos encerrados em um dado sistema. Jamais poderemos saber o que há no exterior desse sistema. Não poderemos ver além dos 12 bilhões de anos do universo, porque as galáxias mais distantes estão 12 bilhões de anos-luz afastadas de nós. Não podemos, por isso, saber o que havia antes do big-bang e nem se realmente houve um big-bang.
Para as mentes não científicas existem muitas evidências indutoras à demonstração da existência de Deus. Mas, a ciência quer encontrá-lo no gabinete, trabalhando. Terá de contentar-se com experimentar sobre a obra dEle até que se convença de que isso não é um fortuito acaso natural como sugerem alguns.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Transmutar e Transformar-se (iii)

Em busca da luz

Aquilo que chamamos de consciência, na verdade abrange o todo do ser humano. Carl Gustav Jung apresentou o ser humano transpassando quatro estágios para encontrar-se com sua essência: persona (o que fingimos ser), ego (o que queremos ser), sombra (os nossos fantasmas) e essência (o eu real). Nestes últimos anos, no entanto, a psicologia procurou aprofundar e foi além. Está apresentando um estudo que aponta o estado de ser humano após vencidos oito estágios por ele atravessados. Que travessia seria esta?:
1. Persona – “por onde passa o som” – a face que apresentamos à sociedade, a que aparece, faz barulho, que é o pacote de memórias com o qual nos identificamos, o nosso cartão de visitas, os nossos truques, as mentiras que funcionam, as nossas faces que nos são adequadas e úteis à nossa sobrevivência nas encrencas sob medida onde aterrizamos, nas quais aprendemos códigos (ser assim, não ser assim) para convivermos em sociedade, incluindo o nosso “ego” e as suas imperfeições. A absoluta maioria dos seres humanos só conhece a face deste estágio, onde acontecem os grandes naufrágios pessoais e coletivos. No entanto, as pessoas interessadas em crescer, geralmente aceitam o desafio de mergulhar para a travessia do estágio seguinte.
2. Sombra – a face que desconhecemos – convencionada como o pacote de memórias pelas quais não nos responsabilizamos, é uma face oculta, sombreada, geralmente oposta à persona. Pessoas dóceis de personalidade podem ser amargas quando a sombra se manifesta, e vice-versa. Todos temos uma sombra. É aquilo que recalcamos, reprimimos e que tem grande participação em qualquer terapia do corpo, da mente ou da alma. Quando a desconhecemos, costumamos projetá-la nas demais pessoas. Fazemos isto por desconhecê-la, por rejeitá-la, por não assumi-la. Muitas pessoas podem estar possuídas por ela. Ela tutela os aspectos que descuidamos em nós. Iluminar a zona de sombra é trazer luzes para si. Para nos iluminar, precisamos atravessar a sombra – como primeiro passo de qualquer processo evolutivo. Vencidos esses dois estágios já satisfaz muita gente. Mas há os que vão além.
3. (In)consciente (consciente não acessado) familiar – a memória de nossos antepassados – consiste na cadeia de memórias dos seres humanos em meio aos quais fomos convocados a existir, tantas vezes quantas tenham sido estas hipóteses, com direta participação em nossas história memorial. Qualquer ciência que negue a existência dessas verdades espirituais ainda não compreendeu plenamente o que está estudando. Quando relegadas, essas memórias podem atuar como fantasmas. Conhecer a árvore genealógica, as lendas dos antigos e fazer o culto ao passado, é uma forma de controlar e entrar em harmonia com essas memórias.
4. (In)consciente (consciente não acessado) simbiótico – memórias que não nos pertencem – é o pacote de memórias parasitas, oriundas de outras esferas, inferiores ou superiores, que não nos pertencem e que, nas pessoas mais sensíveis, são captadas pelos canais sutis de percepção. Tem sido causa de muito sofrimento e de muita perturbação psicótica.
5. (In)consciente (consciente não acessado) coletivo – a memória da humanidade – é onde residem as matrizes arcaicas, dos arquétipos, das grandes imagens, a soma da memória da humanidade representada pela conjunção das singularidades dos mistérios que encarnamos. Os grandes movimentos de massas nem sempre compreendidos pelos observadores, podem ser aqui encontrados e explicados.
6. (In)consciente (consciente não acessado) cósmico – a conexão com o todo – é a memória de mais longo prazo, abrangendo o cosmos até mesmo antes do homem existir como homo sapiens. Aqui se encontra e se explica a ecologia profunda, a cidadania cósmica do ser humano.
7. (In)consciente (consciente não acessado) angelical – o ganho de asas – é o espaço dos arquétipos supremos, a capacidade de amar superior a do ser humano. No outro extremo, podemos encontrar o anjo caído, o fanático que se desviou da proposta original.
8. SER – self, a totalidade – a luz, a essência, o eu total, a derrota do ego e do mal, o vazio fértil, a dimensão silenciosa de onde emana a vida, a criação. O contrário da demolição (lição do demo). O portal da construção, o encontro do espírito com a proposta do Criador.

Velhos novos registros

Não se pode prosseguir nesta argumentação sem retomar o caso indígena. E ao penetrar nele, começamos a palmilhar um terreno de difícil interpretação. Como um indígena não civilizado (do ponto de vista do homem branco), pode ter sabedoria, moral, ética, se nunca estudou, nunca leu ou aprendeu sobre isso? A resposta aparentemente simples reside na filosofia do homem primitivo dentro do clã: “quem nasce antes é pai e mãe de quem nasce depois; quem nasce depois é porque escolheu viver neste meio e precisa ser apoiado”. A sabedoria, a moral, a ética não são ensinadas, são praticadas. O homem não precisa apreender aquilo que já está ou deveria estar nele. São conhecimentos de transmissão automática por via oral, por atitudes, por exemplos (cultura) e muito provavelmente integrado à memória espiritual de largo prazo. Por ter-se esforçado em destruir seu próprio clã, hoje, se quiser obter mais sabedoria, se quiser valer-se das tradições sapiensais para incorporá-las à vida, o ex-indígena (homem branco civilizado) tem a necessidade de buscar o resgate desses velhos valores, que são novos diante a demolição, usando para isso todos os meios, inclusive a escola, a família, a igreja, a bibliografia, o trabalho, as ciências, a vida, como fontes de solidariedade, interação, cooperação, responsabilidade...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Transmutar e Transformar-se (ii)

O que é e o que ali reside

Estamos no limiar, no umbral. Mas, já é possível estabelecer as primeiras projeções sobre a consciência. Ela é o programa cósmico de uma alma. Os registros contendo a lei cósmica está ciente na consciência. A recíproca entre a lei de curto, médio, longo e muito longo prazo de uma vida humana e a lei maior, é o que se chama con-scire.
Nenhuma alma parece chegar ao corpo físico sem a con-scire. A sabedoria oriental ensina que a consciência pré-formada, possuída no espírito se une à natureza para adquirir poder. Diz que é a união da semente (espírito) com a matéria (poder) que gera a substância animada. Essa dualidade constitui a característica básica da vida humana. Quando o bebê emite seu primeiro grito, os dois princípios – que repousavam unidos no útero da mãe – se separam para encontrarem-se novamente na morte do corpo físico. Sem a matéria, o espírito perde poder e nada mais pode ser alterado ou transformado, exceto quanto à iluminação interior (consciência). No período da separação o espírito se faz consciência no papel de observador, conhecedor, experimentador e, na mais profunda das profundezas, aquele que sente. A matéria só é indiretamente acessível ao espírito e não um instrumento totalmente submisso, como se pensava. Lutam entre si e dessa luta resultam os conflitos e distúrbios psicossomáticos. Apenas ao homem sábio é dado conhecer a harmonia entre os dois.
À medida que o ser humano evolui na direção da luz interior, mais e mais o que ocorre em desrespeito aos registros contidos na con-scire gera o conflito íntimo, acusado pelo tribunal zelador da lei. E o remorso, o medo, a culpa se instalam. E de novo o ser humano passa a enfrentar os efeitos da excessiva mobilização dos peptídeos em atenção aos alarmes disparados por causa da quebra da lei e da insurreição instalada.

Tribo e cooperação

A teoria da linguagem e da consciência, desenvolvida pelo cientista contemporâneo, chileno, de Santiago, Francisco Maturana, permite-nos interligá-las como impulsos evolutivos. Uma vez que a linguagem resulta numa coordenação de comportamento muito sofisticada e eficiente, a sua evolução permitiu que os primeiros seres humanos aumentassem em grande medida suas atividades cooperativas e desenvolvessem famílias, comunidades e tribos, o que lhes proporcionou enormes vantagens evolutivas. O papel decisivo da linguagem na evolução humana não foi a simples capacidade de trocar idéias, mas o aumento da capacidade de cooperar. À medida que a diversidade e a riqueza das relações humanas aumentavam, crescíamos em humanidade: nossa linguagem, nossa arte, nosso pensamento abstrato, nossa capacidade para criar um mundo interior de conceitos, de objetos e de imagens de nós mesmos. Gradualmente, à medida que esse mundo interior se tornou cada vez mais diversificado e complexo, infelizmente começamos a perder contato com a natureza e a nos transformar em personalidades cada vez mais fragmentadas e com um ego cada pouco mais inflado.
Desse modo, surgiu a tensão entre totalidade e fragmentação, ou seja, entre alma e corpo, que tem sido identificada como a essência da condição humana.
E essa rachadura do homem total produziu a escravidão, a queima de bruxas, o holocausto, os bombardeios sobre inúmeras cidades e muitas outras atrocidades difíceis de acreditar tenham partido do homem. Dentre nós, da espécie da elite natural, temos aqueles que matam seus semelhantes por motivo fútil, o que demonstra um retrocesso, pois os animais só matam para sobreviver. Nós matamos nossos semelhantes em nome da religião, do mercado, do patriotismo, da pureza racial, do poder e de outras idéias estapafúrdias.

domingo, 19 de setembro de 2010

Transmutar e Transformar-se (i)

Os conhecimentos sagrados xamânicos ensinam que o fogo transforma e transmuta os seres.
Interagir com o elemento fogo, é conectar com as energias transformadoras e transmutadoras do universo.
Mas, nenhum xamã será completo se não oferecer transparência à sua alma, a começar pela consciência.


A primeira pergunta que se impõe é: só os humanos têm consciência?
Será que os animais não a possuem? Você já xingou um cão depois de alguma travessura aprontada por ele? Você já observou o que acontece com o bichinho?
Bem, as respostas a todas ou a algumas destas perguntas podem propiciar o início de um vasto raciocínio destinado a caminhar no rumo do esclarecimento do que é a consciência.
Vamos começar pela busca de uma resposta sensata para o caso do cão. Um determinado cão, vários cães podem ter alguma noção do bem e do mal, mas não necessariamente todos. O “Pit Bull” que salta nas pernas ou no pescoço de uma criança indefesa sem um motivo aparente – mesmo que a criança seja filha de seu dono – e que para largar sua presa é preciso ser abatido, tem ou não noção do bem e do mal?
E o facínora humano que rapta uma menina, a estupra e a assassina escondendo o corpo dentro do matagal – mesmo que a criança seja filha do seu amigo – tem ou não noção do bem e do mal?
Notáveis “líderes” como Hitler, Milosevic, Moreira Cesar, Pinochet, Saddam Hussein e tantos outros, que a História e os noticiários cotidianos apresentam, tinham, têm noção do bem e do mal?
Visto assim, a consciência como sinônimo de ética e de moral é algo que pode ou não estar presente em todos os seres humanos e quiçá em alguns animais. E para se falar de ética e de moral sempre será necessário associá-las a algo. Aqui tratamos da consciência em relação à vida. O que seria a vida? Uma competição destruidora é que não. Uma interação transformadora, uma cooperação infinita, é muito mais provável. Então, nesse caso, a ética e a moral devem estar associadas a algo. Tentando decifrar a consciência se diz tratar-se de “elevado e desenvolvido atributo humano pelo qual o homem toma distância do mundo e dos estados interiores subjetivos para criar possibilidade de níveis mais altos de integração ao próprio mundo; faculdade de distinguir o bem do mal, de que resulta o sentimento do dever, a interdição ou aprovação e o remorso por ato ou omissão; faculdade de estabelecer julgamento moral, de produzir a ética e a coerência; o conhecimento desse atributo é a chamada auto-consciência”.
O grau de manifestação e exercício da consciência e o seu efeito prático ou a sua eficiência, é quase certo, dependem da evolução, dependem do desenvolvimento espiritual de cada sujeito, não necessariamente associado à instrução escolar. Um indígena selvático, sem nenhuma escolaridade (na visão da escola que possuímos) pode manifestar altos níveis de consciência, como de fato manifesta, segundo estudos existentes, o que denota e parece esclarecer não estar a consciência associada a níveis convencionais de escolaridade e sim de sabedoria, de moral, de ética, muito mais como produtos intrínsecos de cultura, adquiridos através do meio: família, clã, tribo, comunidade, sociedade...

Uma nova ciência

Passamos muitos séculos, milênios, acreditando numa superioridade do homem sobre tudo e sobre todos os habitantes do planeta, inclusive de seus próprios semelhantes. Custou-nos muito caro essa arrogância, esse distanciamento da interação, da cooperação, da parceria, da associação.
Há muito pouco tempo, já no olho de um furacão caótico, assustados com a própria espécie, esboçamos um recuo. Enquanto humanos, somos os mais capazes entre os viventes do planeta, tidos como especiais, porém não iguais, nem superiores nem mesmo entre nós, apesar da desastrada estratificação por classes existente na sociedade. Em relação a toda a biodiversidade, somos muito frágeis. As emoções no homem mais acentuadas que em todos os outros animais, nos fragilizam. A necessidade, maior que a dos animais, de prolongada permanência sob proteção da família ou tutores, bem demonstra essa fragilidade também do ponto de vista físico.
Com humildade e muita demora chegamos aos peptídeos, moléculas mensageiras que percorrem nosso corpo facilitando o diálogo entre os sistemas neurocelular, imunológico e endócrino. Os peptídeos, distribuídos em 67 espécies, a circular por nosso corpo, são acionados pelas nossas emoções.
A descoberta dessa rede psicossomática implica no fato de que o sistema nervoso não está estruturado de maneira hierárquica como se acreditava antes. A ciência descobre que as células brancas (glóbulos) do sangue são pedacinhos do cérebro flutuando pelo nosso corpo. Assim, a cognição, que antes se atribuía apenas ao cérebro, agora se sabe se expande por todo o organismo, operando por intermédio de uma intrincada rede neuro-química de peptídeos que integra nossas atividades mentais, emocionais e biológicas. Conhecemos com todo o corpo. Temos necessidade de incorporar todas as nossas células como parte do processo de cognição.
Esse avanço científico repõe o homem no jardim de infância, de onde possivelmente ele foi expulso em algum momento, quando “comeu a fruta errada” ou quando optou por ser um anjo das trevas.
Sujeito a sentimentos e movido a emoções, suscetível a eles e muito longe de ser um relógio controlado mecanicamente, como ensinaram, vamos descobrindo o que é a consciência e o que efetivamente pode residir nela. Não somente sabemos; também sabemos que sabemos. É essa faculdade especial de autopercepção a que os estudiosos se referem quando utilizam o termo “consciência” (con-scire = conhecer juntos).

sábado, 18 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(10) O terapeuta

Quando alguém se sente em extremo descompasso com a vida, ao desamparo, sua percepção da situação não é a da realidade que está ocorrendo. Sem a cooperação inteligente do terapeuta talvez não consiga superar. Este é o momento de ouro da crença religiosa. A religação do espírito é o primeiro alívio.
Como o objetivo final deve ser a transformação do coração e da mente, busca-se uma freqüência de ações expontâneas e lógicas, automáticas e éticas, voltadas para a compaixão e o amor. Daí em diante, esses sentimentos aliados à paciência, à generosidade, à humildade e as outras qualidades elevadas geralmente podem se tornar complementares.
Há pessoas que expandem tanto sua intenção e ação nesses campos, a ponto de juntarem seus interesses aos dos outros – a quem servem – edificando nisso grande parte ou o fundamento de sua própria felicidade.
A transformação de uma pessoa vem pouco a pouco – é uma travessia que começa com o primeiro passo, é construída tijolo por tijolo. Não há bênção, nem iniciação; não há fórmula ou ritual mágico; isso é raro. Tem de ser construído.
A aquisição de conhecimentos é a sala de espera. Estamos falando de experiências, de virtudes práticas, de familiarização constante, de modo que as virtudes se tornem expontâneas. Não existe atalho. Há que percorrer todo o caminho.

(Este trabalho em seus 10 tomos aqui apresentados com o título “Esse ente maravilhoso chamado Homem”, em série, é um texto condensado dos ensinamentos de Sua Santidade, Tenzin Gyatso, 4º Dalai Lama do Tibet, em sua obra “Uma Ética para o Novo Milênio”, ed. Sextante, 1999, e preparado especialmente para o incremento da Maioridade Espiritual, objetivo central deste blog)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(9) Remédios para as dores

Os atos meramente de fachada, praticados na seara da filantropia ou da caridade, não servem como remédio para as ansiedades, os sofrimentos, as culpas, e nem trazem bem-estar. A generosidade praticada com o intuito de melhorar a imagem que os outros fazem de nós, para ganhar fama ou algo assim, não é generosidade, é auto-engrandecimento, não importando o tamanho da “generosidade” praticada.
O remédio para ansiedades, sofrimentos ou culpas por sentimento egoísta, é encontrado com a aquisição de consciência – espécie de cultura da compaixão e do amor. Doar tempo e energia certamente representará uma ordem mais elevada de generosidade do que a doação de bens e valores.
Há casos em que as dores emocionais são tão constantes e profundas, que o indivíduo chega ao ponto de explodir pelo peso da insatisfação em relação à própria vida. Uma alternativa de superação parcial desses estados emocionais é pensar no amor que recebemos, na educação que tivemos, no atendimento de nossas necessidades básicas – alimentação, vestuário, moradia, segurança – além de recordar das ações altruísticas já praticadas por nós, por mais insignificantes que possam ter sido. É assim que se começa a vencer um estado de depressão por crise de egoísmo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(8) Caminhos práticos

Os principais atos desequilibrados humanos, como crimes, escândalos e fraudes têm origem nas chamadas emoções aflitivas. São evitáveis? Sim. Como se evita? Com disciplina mental. Estando atentos ao nosso corpo e às nossas ações, à fala, ao que dizemos, ao que passa pelo nosso coração e mente, ao que pensamos e sentimos.
Uma maneira eficiente de adquirir disciplina mental é repetir constantemente as perguntas:
― Sou mais feliz quando meus pensamentos e emoções são negativos e destrutivos ou quando são positivos?
― Que conseqüências terão os meus atos agora praticados e os pensamentos que estou tendo neste instante?
― Que recompensa emocional espero obter com esta decisão?
Buscar respostas corretas para perguntas assim é o mesmo que adquirir capacidade para construir cotidianamente os alicerces da felicidade, do bem-estar, da saúde, da ética.
Utilizando parte do tempo normalmente gasto em atividades banais, tagarelices e coisas fúteis ou contentando-se com fofocas muitas vezes maldosas e usando o tempo para refletir e treinar a mente em busca do nosso bem, é um caminho seguro para superar as nossas dificuldades com o amor.
É como criar um filho. Exige prudência, habilidade para lidar com os hábitos e temperamentos próprios, e realismo a respeito daquilo que esperamos conseguir. Uma criança cresce em todos os sentidos, devagar. Já no primeiro ano de faculdade, não se pode esperar o médico atuando, mas sim os primeiros sinais de um futuro médico. Essa é a caminhada. É eficaz o ritmo constante e não os arroubos.
Para muitas pessoas, tem sido produtivo reservar os primeiros momentos imediatos ao acordar para refletir sobre a importância de conduzir a própria vida de uma forma eticamente disciplinada para o amor e a compaixão; e reservar os últimos instantes antes de dormir para avaliar, no mesmo sentido, como o foi o seu dia.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(7) As emoções

O ser humano que não tenha capacidade para distinguir qual será o resultado de suas ações, iguala-se a um animal. A perda da capacidade crítica, da autocrítica, é sintoma de cegueira racional ou perturbação emocional/mental, aflição emocional, doença grave – situações em que se chega à dimensão irracional. A raiva, por exemplo, é causadora de pressão alta, insônia e processos degenerativos. Como o ser humano possui um limite para o comprometimento emocional, sempre que esse limite é afetado pelas emoções aflitivas, pouco restará para as boas qualidades humanas – bondade e compaixão, por exemplo. E é também quando ficam comprometidas a resolução de problemas, a capacidade de amar e ser amado, conservar a ética e outros danos de que se busca comprovação.
Não se conhece para que servem as emoções aflitivas senão para trazer tristezas, decepções, mortes, prisões, doenças, luto, orfandade, viuvez...
E hoje já se tem como certo o interesse por fofocas ou intrigas como um perigoso portal, primeiro degrau para todas as demais emoções aflitivas. Emoções aflitivas deságuam em zanga; quanto mais zangados estivermos, mais as pessoas nos evitam. Deságuam em desconfianças; quanto mais desconfiados estivermos, mais solitários ficamos. Deságuam em lascívia; quanto mais lascivos estivermos, menor é a possibilidade de estabelecermos relacionamentos sadios. Deságuam em raiva; quanto mais raivosos estivermos, mais distantes estaremos das decisões sensatas. Deságuam em crises habituais; mesmo que sejamos pessoas cultas, ricas ou poderosas, as demais pessoas se afastam dos seres coléricos.
Todos conhecemos pessoas guiadas por emoções aflitivas ou por preferências e aversões ignóbeis como ganância, ambição, falta de escrúpulos, arrogância... Por um tempo podem se tornar muito poderosas ou famosas. Seus nomes podem até figurar na História. Mas, depois seu poder se esvai, sua fama passa a ser apenas uma palavra vazia. Então, o que conseguiram de fato nesta ou em futuras existências?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(6) A solidariedade

A separatividade do homem em relação aos demais homens e à Natureza prejudica a sintonia de sua alma às correntes vibratórias afins e interfere nos registros que oferecem confiança e ânimo para a vida. A solidariedade (em oposição à separatividade) une e desperta confiança. Munido de confiança, o indivíduo prospera buscando realização naquilo que lhe dá prazer. A ausência de confiança conduz à nulidade profissional, conjugal, social, intelectual e às fugas: alcoolismo, tabagismo, drogas, remédios e com alguma probabilidade à busca de outros agentes externos de coragem e confiança: arma, academia de artes marciais e musculação, formação de gangues, e novamente álcool, drogas, etc.
O estudante ameaçado de reprovação anseia por recuperar o que deixou de fazer, ou não pôde no tempo certo: aprender. Vira a noite estudando e para não pegar no sono, toma estimulantes. Para manter-se alerta, repete e aumenta a dose. Cai na dependência. O motorista forçado a cumprir esforço superior às suas forças, toma seus “rebites” e passa as noites na boléia. É o primeiro degrau das drogas. O aprendiz de ladrão, para esperar a madrugada propícia ao crime e para adquirir lucidez e coragem droga-se uma, duas, três vezes e sempre, a partir de então. As noitadas de carnaval, os megashows, o esporte, o desempenho sexual, são outros incentivadores à busca de agentes externos de coragem e resistência: drogas.
A solidão e o abandono são portais da impotência e o ser impotente, com um mínimo de brio, diante de qualquer desafio partirá para recursos externos que lhe dêem poder. Muitas vezes, a companhia de outros desvalidos sociais lhes dá a sensação de apoio e incentivo. Esta é a razão pela qual existem as gangues.
Sem nenhuma dúvida a solidariedade, com todos os seus pressupostos de amor, educação e responsabilidade, é o remédio correto para devolver às pessoas a dignidade perdida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(5) Amor e ética

Normalmente, as reações aos acontecimentos e às experiências humanas ganham foro ético ou não na sua direta relação com o bem ou com o mal causados à coletividade. Pessoas éticas são, por natureza, pessoas equilibradas. O equilíbrio é o estado harmônico da consciência. Uma pessoa ética é, pois, alguém que possui as águas de seu lago (consciência) tranqüilas e serenas – isto é, livres do medo, da culpa e do remorso, que são os principais agentes externos causadores de tempestades nos lagos de nossas consciências. São, de outra parte, as pessoas que melhor aproveitam os conteúdos de sua consciência justamente porque a limpidez das águas daquele “lago” lhes permite a ampla “visibilidade”.
O que contribui para o medo, a culpa, o remorso? Sentimentos aflitivos derivados do ódio, do egoísmo, da raiva, do orgulho, da luxúria, da ganância, da inveja, da ignorância... São sentimentos muito fortes que, quando exacerbados, podem levar a pessoa à loucura e ao suicídio, depois de passar por ansiedade, depressão, confusão mental, esquizofrenia, estresse e de experimentar má reputação, indignidade, infelicidade, solidão, sofrimento e doença.

domingo, 12 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homerm

(4) A consciência

Nossa consciência é pautada no amor. Se a hostilidade demonstrada por alguns exemplares da espécie humana fosse uma característica imutável da consciência, esta deveria ser sempre hostil, o que não é verdadeiro. Os piores assassinos experimentam terríveis crises de consciência.
A consciência é como um lago. Quando agentes externos o agitam – e são sempre agentes externos que agitam os lagos e as consciências – o lodo depositado no fundo torna a água turva prejudicando a visibilidade e a clareza. Passado o efeito do agente externo da consciência – geralmente as emoções – as águas voltam à tranqüilidade inerente aos lagos e à clareza límpida inerente às águas e a normalidade das consciências.
O que agita as consciências? O medo, a culpa, o remorso...
O que cura consciência agitada? Apoio, solidariedade, afeto, amor, com uma grande dose de carinho educativo. Essa é mais uma prova inconteste de que a nossa consciência é pautada no amor e que todo ser humano quando ensinado a ser amoroso é amoroso.

sábado, 11 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(3) A doação

Por que a maioria das pessoas que se doam não sabem explicar a sensação de bem-estar que sentem? Não sabem explicar se se credenciam a futuras compensações amorosas (embora nem sempre contem com isso) ou se estão aliviadas por terem retribuído doações já recebidas. Importa que experimentam na prática, mesmo sem saber definir muito bem, que os atos de altruísmo trazem felicidade ao mesmo tempo que diminuem sua sensação de sofrimento. Está comprovado: em ações de altruísmo as pessoas sentem menos cansaço, menos sede, menos fome, menos sono...
Mas, não significa dizer que os indivíduos altruístas passem por menos infortúnios que os não altruístas. Doenças, velhice e adversidades de um tipo ou outro, acontecem igualmente com todos. No entanto, os sofrimentos que corroem a paz interior dos seres humanos – ansiedades frustrações, decepções, culpas, remorsos – são seguramente menores nos seres altruístas. Por que é assim? Primeiro pelo fato de cada uma de nossas ações ter uma dimensão universal, um impacto potencial sobre a felicidade alheia, em que a ética é necessária como um meio de garantir que não prejudiquemos os outros. Segundo, pelo fato de que a felicidade genuína consiste naquelas qualidades espirituais de amor e compaixão, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, humildade e assim por diante. São essas qualidades ou virtudes que proporcionam felicidade tanto para nós quanto para os outros. A felicidade é um estado coletivo que não permite separatismo. Só se é feliz coletivamente.
O sentimento mais elevado, a emoção suprema do ser humano é o amor e a compaixão. Compaixão como sinônimo de empatia – sensibilidade para com o sofrimento alheio, bem como para com o bem-estar dos outros (querer para os outros o que quero para mim) – e não como sentimento de pena ou comiseração.
O que vem antes ou depois do amor? Paciência, tolerância, capacidade de perdoar, humildade? Ou tudo pertence a tudo?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(2) Uma Prova
A entrada da Primavera, a flora brotando, as flores, a agitação dos pássaros e de toda a fauna, a vida em expansão, é o que mais nos anima, ao contrário da entrada do Inverno, que nos deprime. É uma prova de que a nossa natureza prefere a vida à morte, o crescimento à decadência, a construção à destruição.
A boa saúde humana e animal, diretamente associada à tranqüilidade, à paz e ao amor, ao contrário da agitação, da violência, da agressividade e do estresse daí decorrente, também indicam que nossa natureza está associada ao bem, ao amor.
Por isso, mas não é tudo, é que a maior parte de nossa felicidade está associada aos nossos relacionamentos com nossos pais, irmãos, filhos, cônjuge, amigos, colegas, chefes, subordinados, etc.
Não é tão extraordinário que nossas maiores alegrias ocorram quando estamos motivados pela consideração pelos outros. Já se disse tratar-se do nosso tribunal íntimo a indicar nosso dever de gratidão para com todas as pessoas que nos beneficiam. Aliás, também sentimos uma profunda necessidade de sermos considerados. Motiva-nos, e muito, uma avaliação positiva sincera, venha de onde vier.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Esse ente maravilhoso chamado Homem

(1) Introdução: o bem é inato; o mal nos é ensinado

Ainda que, por vezes, alguns indivíduos da nossa espécie sejam apresentados a toda a sociedade como verdadeiros monstros, o ser humano é um ser social e amoroso. Viemos ao mundo em conseqüência de ações dos outros. Sobrevivemos aqui dependendo dos outros. Talvez não haja um só instante em que não nos beneficiamos das atividades dos outros.
Nossa carência de afeto e amor vem do ato da concepção que nos gerou, atravessa a gravidez de nossa mãe e avança por nossa infância e adolescência. Nosso comportamento baseado no amor e na ternura é inteiramente espontâneo e mútuo. O desamor precisa ser aprendido, exige que nos seja ensinado já na concepção, durante a gravidez, na infância, na adolescência, etc. É assim que a humanidade “fabrica” seus marginais, seus seres hediondos: ensinando-os a serem marginais e hediondos.
O ser humano só se torna violento e desumano depois de sentir-se frustrado com o ideal de que o mundo é bom e que o paraíso se tornou impossível. Todos nós somos atraídos pela idéia de uma Terra Pura, em ambiente de amor, fraternidade, paz e felicidade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A tolerância

A palavra TOLERÂNCIA e o seu sentido já foram confundidos com algo que ali está porque não deveria estar, mas as pessoas vão deixando que fique, vão tolerando e, de muitas formas, esta sua prática acaba sendo nociva. No fundo, a tolerância é a capacidade humana de admitir modos de pensar, de agir e de sentir que diferem de um indivíduo para outro ou de grupo para grupo determinado, seja político, ideológico ou religioso. É admitir e respeitar opiniões ou preferências contrárias sem declarar guerra ou fazer escândalos.
“Tolerância é reflexo vivo da compreensão que nasce, límpida, na fonte da alma, plasmando a esperança, a paciência e o perdão com esquecimento de todo o mal. Pedir que os outros pensem com a nossa cabeça seria exigir que o mundo se adaptasse aos nossos caprichos, quando é nossa obrigação adaptarmo-nos, com dignidade, ao mundo, dentro da firme disposição de ajudá-lo”. (EMMANUEL)

A palavra tolerância provém do latim tolerantia, que por sua vez procede de tolero, e significa suportar um peso ou a constância em suportar algo. Teve no passado, e com sentido negativo, a função de designar as atitudes permissivas por parte das autoridades diante de atitudes sociais impróprias ou erradas. Hoje em dia, pode ser considerada uma virtude e se apresenta como algo positivo. Esta é uma atitude social ou individual que nos leva não somente a reconhecer nos demais o direito a ter opiniões e preferências diferentes, mas também de as difundir e manifestar pública ou privadamente.
Tomás de Aquino diz que a tolerância é o mesmo que a paciência. E a paciência é justamente o bom humor ou o amor que nos faz suportar as coisas ruins ou desagradáveis. Ao tratar do tema da justiça, também nos indica que "a paciência - ou tolerância - é perfeita nas suas obras, no que respeita ao sofrimento dos males, em relação aos quais ela não só exclui a justa vingança, que a justiça também exclui; nem só o ódio, como a caridade; nem só a ira, como a mansidão, mas também a tristeza desordenada, raiz de todos os males que acabamos de enumerar. E por isso, é mais perfeita e maior, porque, na matéria em questão, extirpa a raiz. Mas não é, absolutamente falando, mais perfeita que as outras virtudes, porque a fortaleza não suporta os sofrimentos sem se perturbar, o que também o faz a paciência, mas também os afronta, quando necessário. Por isso, quem é forte é paciente, mas não, vice-versa. Pois a paciência é parte da fortaleza".
A diferença de abordagem, seja ela histórica ou dentro dos diferentes campos das ciências particulares, nos permite observar que dentro das humanidades, a tolerância diz respeito ao ser humano ou a sociedade, enquanto que nas ciências exatas, está baseada em leis físico-químicas e biológicas. Alguns exemplos ilustram o uso da palavra (in)tolerância ao longo dos séculos.
No final do séc. XVI, muito se falou de tolerância religiosa, eclesiástica ou teológica. Hoje em dia também se tolera - pacientemente - em pontos que não são essenciais de uma determinada doutrina mesmo que seja em detrimento da mesma, mas para uma melhor convivência social.
No passado (desde meados do séc. XIX), maison de tolérance era a casa ou zona de prostituição: muitos toleram esses locais, procurando evitar, assim, a disseminação desses costumes em toda sociedade.
Na medicina, a palavra "tolerância" é utilizada para significar a aptidão do organismo para suportar a ação de um medicamento, um agente químico ou físico. Desta forma, as diferentes espécies toleram de diferentes modos os microrganismos: alguns adoecem e morrem, a outros nada ocorre. Os níveis de tolerância à radiação têm tal limite... Tecnicamente, a tolerância é o limite do desvio admitido dentro das características exatas de um objeto fabricado ou de um produto e as características previstas. Não são todos que suportam os medicamentos, e algo que está fora das normas algumas vezes pode ser tolerado. E assim pode se falar também de suportar fisicamente ou mentalmente algo pesado; em tolerar erros gramaticais; assim, podemos descer um degrau, recebendo o conhecimento neste nível, o qual é mais tolerável; algo pode ser tolerável, inclusive indiferente, aceitável: "o almoço foi bastante tolerável". Até mesmo dentro da ecologia, Odum (1953), no seu livro "Fundamentos de Ecologia", coloca exemplos de limites de tolerância dentro da natureza.
Dentro das leis físicas, o universo tende a se desorganizar. Por outro lado, tudo que está vivo, tende a se organizar. Mas o homem, sendo livre, pode "ajudar" a desorganizar o mundo. Como num processo de tentativa e erro, as pessoas buscam soluções para viver consigo mesmas e com as demais. Às vezes parece que temos na mão um saco cheio de bolas, que tentamos arremessar e colocá-las dentro de um buraco distante. De modo simplista, dizemos que podemos acertar ou não, mas na prática, as coisas não ocorrem bem assim. O acerto aparece como uma vitória. Foram centenas de arremessos, e um acerto! Tolerar é aceitar os limites, é na realidade ser paciente. A paciência é justamente aceitar o desagradável, com bom humor.
Também na literatura universal, existem alguns provérbios que nos recordam a tolerância.
Tolérance n’est pas quittance, que poderíamos traduzir por: "Tolerância não é liberdade total...". Numa pequena cidade do interior, um deficiente físico, sem pernas, perambulava pela cidade com auxílio das duas mãos e o apoio do tronco. Durante anos, no seu trajeto, era debochado por um homem que dizia: - Vai gastar o... Um dia ele perdeu a paciência e matou o importunador. Na justiça, o aleijado foi duramente atacado, e tido como assassino cruel. O advogado, ao iniciar a defesa, falou durante dez minutos elogiando a qualidade de cada membro do júri, até que o juiz interrompeu: - Se o senhor não iniciar a defesa, não permitirei que prossiga. Sabiamente, o advogado respondeu: - Meritíssimo, se o senhor não agüentou dez minutos de elogios, imagine a situação do réu que suportou anos de insultos... Nestes casos, pode valer o provérbio: "Não seja intolerante a menos que você se confronte com a intolerância".
Quanto à tolerância, costumamos atuar, como diz o provérbio, "com dois pesos e duas medidas": tendemos a ser muito complacentes com os desvios de nossa conduta (e isto quando os reconhecemos...) e implacáveis com os outros: não lhes damos o tempo necessário para mudar. De fato, abandonar um mau costume e atuar de modo completamente oposto, é uma tarefa que exige esforço e pode durar meses ou anos... E, quanto aos outros, exigimos que tudo ocorra no mesmo instante, esquecendo que as coisas têm seu ritmo natural. Um feijão demora para germinar, crescer, florir, produzir vagens... e nós às vezes somos semelhantes às crianças, que deixam o feijão no algodão do pires com água, e no dia seguinte se decepcionam com a ausência de vagens. Para viver, há que deixar viver.
O que leva duas pessoas a entrarem em discórdia? A invasão do direito alheio, o ultrapassar o limite de tolerância, a incapacidade de compreensão mútua ou própria, a falta de empatia, a nossa própria natureza, o nosso temperamento. Somos limitados, e isto se manifesta também no modo tosco com que nos relacionamos muitas vezes com as pessoas.
A distância que existe entre as pessoas, em parte, é criada por cada um. Às vezes percebemos que com alguns, já num primeiro momento, se consegue chegar perto, e falar sem gritar ou mandar mensageiros, mas nem sempre é assim. É preciso usar a inteligência, para encontrar o caminho da comunicação entre as pessoas. É preciso inteligência e vontade, querer se comunicar... ou não.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O sagrado presente em nossas vidas

Como é que nós vivemos o nosso dia-a-dia? Vale repetir para gravar: correndo, sentindo as horas se esvaírem, irritados com a demora de tudo, dormindo tarde, acordando cedo, muitas vezes nem fazendo o desjejum, muitas vezes nem almoçando sentados e calmos, muitas vezes sem ver e falar com nossos familiares, muitas vezes odiando a demora do elevador, do ônibus, do trânsito, do computador... Olha, teria muito mais pra dizer. Como está sua vida sexual? Como está a sua realimentação espiritual? Como são os seus domingos e feriados?
Vivemos uma ditadura. Quem manda é o dinheiro e para obtê-lo nós entregamos aquilo de maior significação em nossas vidas, o tempo. E com ele todo o encanto da vida. E o que é pior: não botamos o dinheiro na conta. Ele se derrete, que nem gelo.
Então, cabe um grito de revolta contra a ditadura. Se é para viver, de qualquer modo, sem dinheiro, ao menos que eu consiga ser feliz com outras coisas que o dinheiro não compra.
Tem muito a fazer com um sopro sagrado, que o dinheiro não compra e não interfere. E os resultados são fantásticos. Você duvida? Então pergunte a alguém que teve a vida ameaçada por um diagnóstico aterrador, precisou parar com tudo, ficou de molho, sua agenda passou a ser regulada pelos médicos, enfermeiros, clínicas, hospitais, seus dias passaram a não ter o brilho das manhãs ensolaradas ou o gostinho aconchegante das chuvas intermitentes. A pressa foi trocada pela espera. A irritação foi trocada pela dor. A correria foi trocada pela solidão.
Essa brutal mudança na vida da pessoa parece nada haver mudado quanto o todo. As ruas continuavam cheias, as pessoas sempre passando sem tempo para um “oi”, os elevadores andaram na mesma velocidade e sempre cheios, as ruas também, mas, agora, para aquela pessoa um abraço de amizade tem outro sabor, um telefonema de estímulo tem um outro sentido. A ditadura do mercado foi derrotada pela ditadura da dúvida, quem sabe do medo, quem sabe do pavor.
É claro que esta história não acaba assim.
Mas, a crônica de hoje quer falar de salvação, libertação, cura que, no fundo são coisas iguais. E temos aí dois personagens: um aprisionado pela ditadura do mercado (quem sabe pudéssemos chamar isso de cultura) e outro aprisionado pela ditadura da doença (quem sabe pudéssemos chamar isso de resultado).
Os significados para muita gente parecem não incluir o dignificar da passagem do tempo, a celebração dos atos de vida e os chamados constantes do amor.
Afinal, tem coisas melhores que dormir, tomar banho, fazer sexo, tomar café da manhã, almoçar, jantar, passear, correr, sorrir, amar? Tem, tem muitas coisas melhores que tudo isso se tudo isso for feito em companhia das pessoas que mais amamos e se tudo isso for feito com saúde.
Afinal, dá para fazer tudo isso e trabalhar, ganhar dinheiro, ter sucesso? Dá, dá, com toda certeza e fazer ainda melhor do que fazem os estressados. Dá para fazer muito se houver saúde.
Para não deixar tudo meio à solta, já que começamos falando de coisas sagradas, é preciso arrematar que o anjo que habita em nós anda meio chateado com nossos modos. Nós esquecemos de que, na verdade, somos seres espirituais e quem irá em frente quando falir nosso corpo, será ele, o nosso espírito. Então, se você e eu pudermos fazer a caridade de orar, intuir, oferecer-nos para algo mais elevado do que apenas os prazeres físicos ou nem isso, quem vai ficar muito feliz será o nosso Eu Maior Eterno.
Nós não somos apenas um estômago cheio, um corpo vestido, um rosto barbeado, uns lábios pintados, uma conta bancária, um corre-corre. Nós somos alguém que precisa tomar conta da morada de nossa alma e proporcionar a ela os mais lindos momentos durante toda a passagem pela matéria. Se não fizermos isso estaremos na contramão de tudo o que a vida sugere ser a vida.
Quem tiver olhos, veja. Quem tiver ouvidos, ouça.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sobreviver ou bem viver

Estamos propondo uma metáfora intitulada "minha casa, meu santuário" que, preliminarmente pode ficar só no nível do piso, teto, parede, janelas e portas que, quando bem conservados, limpos e pintados dão a idéia de algo puro, limpo, alegre, habitável, desejável. Queremos propor comparar a "casa" com o lar de nossa alma, isto é, nosso corpo.

Uma pessoa relaxada, de baixa auto-estima ou deficientemente educada, pode conformar-se e morar numa casa caindo aos pedaços, suja, desgastada, feia, sem conforto, mas a alma, centelha divina em busca de perfeição não faria o mesmo e não aceitaria viver num corpo caindo aos pedaços, sujo, desgastado, mal tratado, sem conforto.

Vamos além nesta comparação: dá para o leitor entender o que significa desejar mudar de casa pelo fato de que ela não corresponde à expectativa do habitante?

Muito das doenças e trajédias de nossos tempos estão ancoradas no desejo da alma se mudar.

E note que a argumentação até aqui só está na estética. Vamos agora subir um degrau e falar de conteúdo. Como estão os móveis e aparelhos? Como são eles tratados? Com carinho, asseio, delicadeza? Que tipo de energia circula nessa casa? Como são os diálogos entre os seus habitantes? Será que por alguns momentos a casa também não pode decepcionar-se e não pode desejar expulsar os que estão dentro dela?

Toda a ciência da vida reside em nossas escolhas e as nossas escolhas quanto ao corpo começam no asseio, no penteado, nas roupas, naquilo que usamos como instrumentos, mas tudo isso, inclusive profissão, cônjuge, amizades, têm origem em nosso pensar, em nosso querer.

Muitas pessoas se limitam sobreviver e em geral aguardam um golpe de sorte para bem viver. Querem se casar bem, arranjar um ótimo emprego, ganhar uma bolada na loteria, receber uma herança ou conquistar um direito. Se o golpe de sorte não vem, contentam-se com o medíocre, não fazem esforço algum para mudar e não acreditam em si mesmas. E a conformação não fica só no terreno do patrimônio econômico-financeiro. Com a saúde o comportamento dessas pessoas também é idêntico. Se a doença acontece, é uma tremenda falta de sorte e a busca é por um salvador. O salvador sob a forma mágica do bisturi, do remédio ou de alguma prática sobrenatural que retire o problema ou seja capaz de um milagre.

Se o amor próprio, a vontade e o entusiasmo estão ausentes, ausentam-se também a sorte e o milagre. Isso significa sobreviver como náufrago a espera do resgate. Existem certas bênçãos que não se inscrevem como benesses e sim como recompensa, jus ao mérito.

De um modo bem significativo para muitas pessoas é assim que surge a figura do salvador: está presente no modelo de pensar. Trata-se do resultado da cultura da culpa ou da vítima em que os sujeitos não são estimulados a expiar suas culpas ou superar suas deficiências para virar a página e erguer a cabeça com dignidade, mas a procurar por um patrocinador ou benfeitor ou a entregar essa tarefa a algum despachante ou procurador, sob a figura de líder espiritual, líder político, mecenas ou protetor, debaixo de cuja pele geralmente estará, disfarçado, o lobo mau.

Caminhamos mais de 5 séculos desde que o Brasil iniciou a ocupação de seu território pelos não nativos e muito pouco mudou quanto à prática perversa desse modelo político-religioso. Do ponto de vista religioso ainda é grande a multidão que entrega seu destino espiritual aos corretores de Deus. Sob o ponto de vista político é muito grande a multidão que dá procuração com plenos poderes a desonestos e incompetentes encastelados em máquinas partidárias que nada têm de democráticas, nem de sérias.

Por tudo isso, perdemos a oportunidade de bem viver e nos contentamos como o óbvio da sobrevivência, se muito. Todo o potencial deste que é um dos mais ricos países do planeta, fica apenas na promessa, à espera sempre de um novo salvador.

domingo, 5 de setembro de 2010

A expansão do interesse pela espiritualidade

As estatísticas do mercado literário informam um recente crescimento de 11% na venda de livros do gênero espírita, apenas inferior ao crescimento das vendas de livros infantis, que foi de 13%.
Esses são números relativos ao Brasil.
E podem ser explicados.
Há uma grande percentagem de brasileiros freqüentadores de centros espíritas e terreiras de umbanda e candomblé ou simplesmente simpatizantes, mas oficialmente declarados membros de outras religiões, nas quais foram batizados.
Até 1890, no Brasil, a religião oficial era a Católica Apostólica Romana, o que vale dizer, as outras eram religiões fora-da-lei. Para não estar fora-da-lei 73% dos brasileiros ainda figuram como católicos, embora apenas 22% se declarem praticantes.
Somos grandes apreciadores do espiritismo, porém, culturalmente inscritos como adeptos de outras religiões. Até porque o espiritismo não é uma religião e sim uma filosofia sobre a eternidade da vida humana.
O comportamento da mídia promovendo e favorecendo os temas espirituais faz com que os últimos e os próximos anos sejam intensamente dedicados à espiritualidade.
Nestes últimos dois anos apenas a Rede Globo encenou quatro novelas com fundo espiritual. Só em 2010 fizeram estréia nas telas dos cinemas dois grandes filmes com o tema espírita: “Chico Xavier” e “Nosso Lar”, ambos com muito sucesso, depois de muitos outros filmes também de grande sucesso, como foi “Ghost”.
O tema já não pode mais ser sufocado ou ignorado. As religiões que negam ou proíbem seus seguidores a estudar ou envolver-se com temas e práticas espirituais estão perdendo credibilidade e fiéis.
Mesmo que as abordagens em livros, revistas, tevê, novelas e filmes possam cometer e, como de fato cometem, equívocos e induzem a erros sobre a profundidade da temática espiritual, o fato de as pessoas travarem suas próprias experiências nesse campo, explica o próprio modo como a doutrina espírita trabalha a sensibilidade e a mediunidade: a sua presença não depende de nenhum batismo ou iniciação, mas carece de desenvolvimento, aprimoramento e, sobretudo, responsabilidade.
A espontaneidade do fenômeno espírita não está presente apenas nos humanos. Existem animais com alguma sensibilidade.
Negar isso tem a mesma conseqüência da negativa do sexo, da fome, do sono.
Desde o instante em que ficou comprovada a natureza energética dos seres animados, o magnetismo encarregou-se de explicar porque as ondas mentais podem ser emitidas e podem ser captadas entre duas ou mais mentes afins.
O que seriam “mentes afins”? Aquelas mentes grandemente sensíveis, providas de dons e, portanto, capazes de lidar com estes conteúdos. Teríamos muitas outras, milhões de outras mentes desenvolvidas para tanto não fossem os séculos de abandono das práticas espirituais, abafadas ou proibidas.
Desde o instante em que aceitemos que o cemitério não é a última morada do ser humano e que o ser imortal preserve sua consciência, nada mais precisa ser argumentado. Apenas precisa ser anotado que a mente não é biológica e é autônoma. Enquanto no corpo ela necessita do hardware, chamado cérebro.
Aceitar ou não aceitar essa realidade é uma escolha que, de um lado, requer inteligência e, de outro, liberdade, independência, emancipação.
Os teólogos definem três estágios pelos quais passamos todos nós a caminho da maioridade espiritual, que pressupõe liberdade, independência, emancipação. Estes três estágios, num crescendo, são: infância, adolescência e maioridade. No primeiro, a criança espiritual carece da mão de alguém que a conduza, papel desempenhado pelos tutores (sacerdotes, pastores, rabinos, etc.). O segundo, é o estágio em que o adolescente espiritual começa a se questionar e a questionar a capacidade de seus tutores, fase em que se dá a crise: as religiões já não satisfazem, já não correspondem e é seguida de uma busca por algo que satisfaça ou corresponda. O terceiro, também chamado de maioridade espiritual, é o estágio em que, como adulto, o homem já sabe o que quer e o que não quer, e já tem independência para levar adiante sua procura. Fica implícito que, por ser um estágio de maturidade mental, a exigência se encarregará de selecionar religiões com forte ligação científica, livres de dogmas, mistérios e imposições canônicas.
É aqui que se encaixam os simpatizantes do espiritismo.
E é assim que se explica a grande expansão do interesse e do conhecimento pelo tema espírita, não como único caminho destinado a satisfazer e corresponder à expectativa espiritual do ser humano.

sábado, 4 de setembro de 2010

Leitura de feriadão (II)

Quanta profanação!
Entre os temas de nossas últimas crônicas figura o que se poderia, grosso modo, ser chamado de profanação de valores sagrados.
Numa imensa lista de valores sagrados enxovalhados por nossa absoluta submissão à ditadura cultural, onde o mercado se destaca como cruel algoz, podemos listar o tempo, as refeições, o sono, os domingos e feriados, o sexo, a nossa mente e por extensão o corpo todo, passando por imagens sacras, locais sagrados, o solo, a água, o ar, o fogo, além de outros que irão aparecer nas próximas crônicas.
Veja aí como é fácil profanar.
O tempo que, na realidade, é a vida, nós trocamos pelas correrias que nos transformam em marionetes nas mãos invisíveis de algum perverso manipulador. Aprendemos a fazer tudo depressa, estabanadamente. Quando o nosso corpo pede alimentos, nós não temos tempo para celebrar o ato de repor energias: encostamos a boca do tanque em algum balcão e acionamos alavancas que jorrarão jatos de “combustíveis” para dentro do depósito. Isso nós achamos que servirá à velha e surrada máquina de correr, nosso corpo, para percorrer mais algumas dezenas de “quilômetros/horas”. Isso mesmo, tratamos o santuário de nossa alma como uma máquina.
Não é a primeira vez que tocamos neste assunto. Mas a temática é inesgotável.
O sono é outra necessidade profanada. Seres normais carecem de 1/3, no mínimo, de sono por dia, a fim de compensar o desgaste do organismo a cada ciclo de 24 horas. O que anda acontecendo com nossos jovens, principalmente? Por razões de compromissos com a escola ou pela busca de divertimento, essas tenras criaturas passam acordadas pela noite adentro ou, no outro extremo, dormindo por longos períodos durante o dia. Nada mais nocivo para uma velha ou novíssima e surrada “máquina” que precisa ser respeitada em seus ciclos, como ocorre com o dia e a noite, com o inverno e o verão. Quanto mais saudáveis e preservados seriam as pessoas se fossem incentivadas à busca do lazer, do divertimento e do esporte à luz do sol? Quanta saúde e quantas vidas seriam poupadas?
E o “dia santo de guarda”? Os nossos domingos também estão profanados. Há, pelo menos, 40 séculos, a humanidade guarda um dos sete dias da semana para o descanso, a reflexão religiosa e para o mergulho intelectual. Dia santo de guarda: às sextas-feiras para os muçulmanos, aos sábados para os judeus e ao domingos para os cristãos. Deveriam ser momentos de elevação espiritual, meditação, contemplação, oração, recolhimento, reposição das necessidades espirituais, tão reais quanto às necessidades biológicas ou intelectuais. O que fazemos nesse dia? Muita gente acelera seu físico, exaspera sua emoção, libera sua adrenalina em esforço físico exagerado (excursões, freqüência a danceterias e estádios, etc.) e, quando não é assim, queima este tempo em prolongados períodos de sono mórbido.
As relações íntimas também são profanadas. Quanto ao sexo, uma das principais necessidades orgânicas e psicológicas humana, muito se poderia falar dado o exagero de como se brinca com ele. Não são só as roupas apelativas coladas ao corpo esbelto das moças, mulheres e rapazes, também as coxas ficam de fora e agora também os seios são expostos como mercadoria. Muitas das causas dos estupros (o que não os justifica, absolutamente), estão aí na forma apelativa de como as senhoras e senhoritas se exibem, como que a anunciar: pode vir, aqui tem. Banaliza-se os contornos corporais e expõe-se áreas da intimidade e a leitura que se pode fazer indica uma oferta ante os olhos afoitos e à pegada luxuriosa daqueles que ainda se sentem atraídos por mulher.
De todo modo, o sexo orientado para o respeito sagrado ao corpo e mente da mulher e do homem, é coisa rara. Rara e frustrante. Dois parceiros que não se respeitam, não se acariciam, não se amam e que amanhã nem mais se lembrarão um do outro, que tipo de relação podem ter?
Se virar a página para o quadrante da fé, ali também temos problemas. É evidente, à luz dos conhecimentos mais recentes, que as imagens de santos não podem ser confundidas com os próprios santos da fé cristã. Mas, isso não autoriza quem quer que seja chutar e desprezar valores que por muitos séculos animaram e animam as crenças e valores de boa parte da humanidade. Uma tremenda incoerência ou safadeza condenar uma prática de respeito às imagens sacras enquanto incentiva excessivo valor ao dinheiro, isto é, ao “santo” dinheiro. Uma e outra atitude não se encaixam como sanidade, nem como idoneidade moral. É paranóia mesmo.
E, assim, encaixotados, amordaçados pela ditadura cultural, seja do mercado, seja das religiões, seja dos padrões de poder, vamos endeusando coisas e profanando seres, enquanto nos diplomamos como os piores membros entre as espécies da diversidade biológica.
Enquanto os cachorros são ensinados a fazer coisas melhores que os humanos são capazes de fazer, os humanos vão sendo encaminhados para se comportarem aquém dos piores animais.
Algumas pessoas costumavam chamar de “programa de índio” tudo quanto fosse coisa absurda que o homem branco fosse capaz de fazer, mas nunca se questionaram se realmente o índio faria aquilo. E todos sabemos que não faz. O “programa de índio” está mais para “programa de burro”, com todo respeito que os asininos merecem.
É quase impossível achar um animal que pudesse ser tão idiota para ocupar o lugar de certos homens como protagonistas daquilo que alguém chamou de “programa de índio” ou coisas assim.
Esse idiota que, na verdade foi o algoz do índio, compromete o solo que lhe dá a comida, compromete a água que lhe mata a sede, compromete o ar que respira e bota fogo no planeta, sua casa. Com que objetivos? Perguntemos aos idiotas.
Perguntemos aos idiotas, também, por que eles inspiram a fumaça dos cigarros e por que os governos – idiotas – licenciam e taxam um produto que vicia, causa doenças e mata?
Enfim, não para encerrar o assunto, mas para dar um tempo para o leitor raciocinar e fazer suas escolhas que priorizem a vida, por hoje basta.