quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Espírito... (III)


...e as visões de mundo

O fato mais impressionante na experiência intelectual, espiritual e poética do homem sempre foi a preponderância universal desses espantosos momentos de intuição, de visão interior e exterior por ele alcançados, que se chama “consciência cósmica”. Não existe um nome satisfatório para esse tipo de experiência. Chamam-na de mística e confundem-na com visões de um outro mundo, ou de deuses e anjos. Chamam-na de espiritual e metafísica, sugerindo não se tratar de algo extremamente concreto e físico, ao mesmo tempo em que a expressão “consciência cósmica” possui um indisfarçável sabor de jargão ocultista. Na verdade, tudo parece ser uma coisa só e a expressão “cósmica” pode significar o “eu superior”, por vezes também chamado de supraconsciente. E com um pouquinho mais de esforço, pode-se dar ao “eu superior” um status de entidade conectada com o divino.
Em todos os tempos, em todas as culturas, são pródigos os relatos do envolvimento do homem com as sensações inequívocas do transcendental no sensorial, surgindo, via de regra, de forma repentina e inesperada, sem causas claramente compreendidas. É o nosso despreparo para a coisa? É possível.

Pontos de vista

Para os indivíduos preparados para algumas coisas para as quais já somos capazes, a experiência aparece como uma certeza vívida e esmagadora de que o universo, naquele momento preciso, como um todo e em cada uma de suas partes, está tão clamorosamente certo que não precisa de nenhuma explicação ou justificativa, além do que ele simplesmente é. A “visão” (é assim que “vemos” o que não pode ser por nós percebido de outra forma comunicativa) sugere que tudo está correto, não necessita de definição e não pode ser descrito por falta de referência. Assim, se o universo está clamorosamente certo, o Espírito humano também está e não precisa de nenhuma explicação ou justificativa e sim de transcendência. Mas, é pouco. A curiosidade inconformada do homem quererá mais. E ao ter mais, quererá ainda mais e mais.
Quem já experimentou visitar a zona de absoluto silêncio, morada do Espírito, de lá retorna relatando que nesses momentos vê em vez de pensar e só mais tarde começa a procurar, de modo desajeitado, as palavras através das quais tenta expressar o que lhe foi revelado.
E de novo esbarramos nos pontos de vista. Uma pessoa dirá (1): “encontrei a resposta para todo o mistério da vida, mas não tenho palavras para descrevê-lo”. Outra sustentará impávida: (2) “não houve nenhum mistério e, portanto, não há nenhuma necessidade de resposta, dado que a experiência deixou clara a irrelevância e o artificialismo de todas as questões que nos atormentavam”. Uma terceira pessoa declarar-se-á (3) “absolutamente convencida de que a morte não existe e de que o seu eu verdadeiro é eterno como o universo”. Haverá ainda aquela que proclamará (5) “que a morte simplesmente deixou de constituir motivo de preocupação, pois o momento presente é tão completo que não exige um futuro”. E, assim, mais outra sentir-se-á (6) “possuída e ligada a uma vida infinitamente diferente da sua própria”. Mas, assim como as batidas do coração podem ser vistas como algo que acontece conosco, ou como alguma coisa que nós fazemos, dependendo dos pontos de vista, um indivíduo sentirá que experimentou não a transcendência de um Deus, mas a sua própria natureza mais íntima. Um sentirá como se o seu ego ou o seu eu se expandisse a ponto de conter em si todo o universo, enquanto outro sentirá que se perdeu a si mesmo, inteiro, e que o que considerava seu ego nunca passara de uma abstração. Outro contará entusiasmado de que forma enriqueceu, infinitamente, enquanto outro se lamentará de ter sido reduzido a tão extrema miséria, que não possui nem mesmo a sua mente e o seu corpo, e não tem mais ninguém no mundo que se preocupe com sua desgraça, sem que em nenhum dos casos esteja se referindo a coisas materiais.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Espírito... (II)


...A palavra mais recente sobre ele

Cientistas e filósofos, ultimamente, desenvolvem com intensidade seus estudos para tentar explicar o que existe ali tão misteriosamente no íntimo humano misturando inteligência, percepção, consciência, vontade, iluminação. Gunther S. Stent, biólogo molecular, conclui que para ir além na investigação parecem restar três sérios problemas a resolver: a origem da vida, o mecanismo da diferenciação celular e a base funcional do sistema nervoso superior.
John White, cuja dedicação aos estudos da consciência humana é notória, anuncia: “não prevejo uma solução para o mecanismo da consciência (...) uma vez que seus aspectos epistemológicos postulam-na não só como o problema filosófico central da vida, mas também situam-na além do domínio da investigação científica”. Roger Wescott contribui com a hipótese de que a consciência é uma bioiluminescência interna, endocraniana, uma forma de luz, propriamente dita, gerada no, pelo e para o cérebro, podendo ser a matéria-prima da consciência pura, ou seja, o Espírito. A própria percepção pode consistir na geração e recepção internas de radiação perceptível – numa palavra, de luz. Seria esta luz, a energia que chamamos de Espírito?

A consciência explica?

Antes de pensar, imaginar, estudar e deter-se sobre o Espírito, o homem precisará vencer suas diferenças pequenas que se tornam grandes a jusante das idéias religiosas, filosóficas e culturais, que perturbam a compreensão não pela via dos conceitos, mas sim pela via dos preconceitos.
A sutil diferença entre um cavalo e um homem, além da construção biotipológica, sempre será o aspecto da consciência, que em um deles está desenvolvida e no outro não. E é o aspecto consciência que parece traçar o mapa de ingresso do nosso conhecimento no mundo do Espírito. Mas, até mesmo para falar da consciência devemos afinar conceitos, pois o Ocidente costuma confundi-la com pensamento e chega ao extremo de colocá-la no mesmo nível da emoção, da sensação ou do movimento. E ela não é nenhuma dessas funções; ela é uma percepção das nossas diversas atividades no exato momento em que estas estão ocorrendo em nós. Ela é aquela região silenciosa, que para muitos estudiosos é a morada do Espírito. E aqui já tomamos o Espírito como a mesma coisa que a consciência pura, desprovida de quaisquer pensamentos e palavras. Por isso, uma região silenciosa. Tão silenciosa, que em todas as culturas se pede silenciar a mente para alcançá-la, alcançando assim o Espírito.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Espírito.... (I)


...O que é o Espírito?

Sabemos muito pouco sobre ele e sobre ele estudamos muito pouco. De qualquer forma, é muito importante estudá-lo. Ao conhecê-lo, o homem conhecerá talvez tudo sobre si mesmo e sobre o que poderá existir além do homem.
Sabendo muito pouco sobre o Espírito, os desinformados e apressados exercitam a própria imaginação para falar sobre ele. Para defini-lo, dizem tratar-se de algo imaterial e sobrenatural ou imaginário, como imaginários poderiam ser também os anjos, os diabos, os duendes e, por que não, Deus. Imaterial por que, ao que consta, é energia? Sobrenatural por que, ao que se ensina, está acima do mundo que existe? Imaginário por que, segundo se diz, é a imaginação que qualifica o animal humano perante os demais animais. Os dons humanos, salvo melhor juízo, advêm do imaginário.
Não se pode pensar, imaginar, estudar e deter-se sobre o Espírito, sem incluir a hipótese de que o mundo é permeado e organizado por uma inteligência superior, da qual o Espírito que habita o homem é parte, cópia, semelhança ou algo assim, como sugerem as escrituras sagradas. O ponto de vista humano será ainda por muito tempo o ponto de vista da parte perante o todo. E a parte não pode conhecer o todo. Ou pode? Podendo ou não, é certo, o ponto de vista humano será provisório e temerário enquanto a coisa for colocada como algo incomensuravelmente maior que o homem. Ou enquanto insistirmos em separar a parte do todo.

A tese Fonseca

No livro “Karma Genético” (Evolução Editorial, SP, 1997), o autor, Alcides A. Fonseca, desenvolve o raciocínio segundo o qual um Espírito é soma ou agregação de trilhões de átomos com origem no reino mineral, evoluindo para o reino vegetal e deste ao reino animal e humano. O que determina, segundo Fonseca, o limite para a transmutação, é o volume celular compatível a cada reino. Algumas espécies de vida, como a dos vírus e dos insetos, ele coloca como estágios transitórios entre os reinos. Assim, entre o estágio mineral e vegetal, vivem os vírus portadores do Espírito intermediário. Os insetos seriam os portadores do Espírito transitório entre os estágios vegetal e animal. E os símios seriam os portadores do Espírito transitório entre os reinos animal e humano. A cada fase o Espírito cresce em conteúdo e poder. A mais importante transmutação se dá na passagem do reino animal para o reino humano e deste para o reino angelical.
O autor também define a missão do Espírito: unir os pedacinhos de consciências que carrega para alcançar o conhecimento total. E, para isso, a necessidade das passagens pelos reinos mineral, vegetal e animal, numa estreita relação com a água, a terra, o ar e o fogo e a absoluta necessidade da reencarnação, uma vez que as vidas em todos os reinos são muito curtas para garantir a inteira evolução. E ainda explora a possibilidade da existência dos Espíritos iniciáticos, inocentes, ingênuos, puros, que são os seus estados naturais de criaturas detentoras de pouca ou nenhuma informação, até mesmo pela ausência de experiências anteriores de vidas no reino humano.

domingo, 28 de agosto de 2011

As ligações mente-corpo...


...respondem pelo avanço da medicina

Os fatores psicológicos têm um efeito inquestionável na existência ou não e na progressão ou regressão de anomalias patológicas na saúde humana. Ou isso é aceito pela ciência ou a medicina terá de renunciar ao axioma do efeito placebo.
Até 20 ou 30 anos atrás ninguém entendia o quanto fatores puramente psicológicos podiam ter o menor impacto sequer na biologia e, por conseqüência, na doença, ou como tal, na cura. A classe médica, então, nem tocava no assunto, pois as universidades não ensinam nada sobre isso. Não ensinavam.
Apesar de contestada por alguns cientistas, inclusive psiquiatras que se especializam em psicologia do câncer, por exemplo, esse é o assunto que mais contribuirá para os próximos e extraordinários avanços da medicina. Isso não é uma profecia.
Dividido entre ser uma esperança, uma certeza, uma fantasia ou uma crença mística, o tema continuará ocupando as pesquisas científicas nos próximos anos. Os seus resultados ainda que tímidos, hoje, são entusiásticos.
A qualidade de vida dos pacientes que se beneficiam da psicoterapia, do equilíbrio emocional, da harmonização da mente e do intelecto, da coerência entre vontade e comportamento e da sua reconciliação com o Sagrado, vem deixando sinais evidentes de que é melhor tê-los do que ignorá-los.
As práticas médicas e terapêuticas de uma época em que era menor ou inexistente o rigor científico relatam que médicos e curadores dos primórdios da medicina interpretavam como importantes a depressão e o moderno estresse (que não conheciam por este nome) no desenvolvimento de doenças. Há 2 mil anos, Galeno de Pérgamo notava e ensinava que pessoas em estados perturbados tinham mais tendências a desenvolver doenças. Depois dele e por séculos, vários outros caminharam por estas sendas e deixaram importantes contribuições. Mas, o rigor científico cobra que esses resultados, de difícil comprovação, sejam comprovados. Como não são, o assunto perde o interesse científico. Isso vale para Deus.
Os xamãs interpretavam a Natureza como algo sistêmico e autônomo capaz de auto-curar-se e entendiam que ela só se desregulará se algo muito perturbador afetar seu equilíbrio. E aplicavam essa sabedoria no trato das doenças do corpo. E curavam sem conhecer o diagnóstico, prática que por muitos séculos esteve ao alcance das populações rurais através dos benzedores. Hoje só se pode saber a razão desse nome – benzedores – quando o associamos a “vencedores”. Eles venciam a progressão da doença ao estabilizar as energias de seus clientes.
Então, a este ponto da crônica já podemos falar de padrões energéticos.
Os avanços científicos, notadamente da ciência quântica, atestam que tudo o que existe tem sua matriz energética e que a matéria nada mais é que energia coagulada ou desacelerada. Por este axioma pode-se deduzir que a matriz determina a cópia.
A mente, o sistema nervoso, o sistema endócrino, o sistema imunológico, enfim, toda a maravilha que é o corpo humano em seus detalhes (sem ser máquina, como pensava a ciência) é o resultado concreto de um código em que o DNA é a parte que comanda a biologia. Mas, nem tudo está no DNA. O pensamento, as emoções, a criação, a imaginação não estão lá. Mas, interferem para melhorar ou atrapalhar o desempenho das células, dos órgãos, dos plexos, dos sistemas.
Determinadas poções químicas destinadas a corrigir o desempenho de certos componentes do corpo biológico, podem chegar ao seu destino e serem recebidas como inimigas e não surtirem o efeito desejado pelo médico e até podem piorar o quadro – se o campo energético que inunda a área estiver comprometido por uma programação oposta ao interesse do terapeuta e do sistema tratado.
Se há fadiga, tem de haver alívio; se há lesão, tem de haver reconstrução; se há tumor, é porque existem células fora de padrão; se há degeneração, algo está sendo destruído sem que o sistema se proteja. Por que o sistema não se protege se ele foi concebido para proteger-se? A resposta mais simples sempre será: é porque podem existir comandos equivocados, alheios ou contrários às exigências do sistema para se tornar equilibrado e harmônico, isto é, perfeito.
Reside nestes detalhes que jamais serão detectados pelas tomografias ou ressonâncias magnéticas – a menos que sejam captados depois dos efeitos produzidos nos campos biológicos – todo o mister das terapias complementares aos trabalhos científicos, cujos resultados são tão animadores, mas tão animadores, que as melhores universidades do planeta já abrem espaços para milhares de pesquisas, cujo objetivo é medir, quantificar, comparar, atestar, comprovar na medida do possível, a correlação das emoções, dos sentimentos, da vontade, da imaginação, no desempenho das células, plexos, órgãos e sistemas humanos.
O futuro dirá melhor o que no presente já é dito.

sábado, 27 de agosto de 2011

A felicidade é um direito ou uma conquista?


"A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada". (Eliane Brum)

Abro espaço na crônica de hoje para acolher o artigo que segue, de autoria da jornalista (da Revista Época) e escritora, Eliane Brum, esperando que você, leitor(a) deguste uma das visões mais refinadas da realidade das famílias que temos e possivelmente a primeira receita para começar a resolver a avassaladora escalada do alcoolismo e das drogas.
Escreve Eliane:
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode, significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria.

(Eliane Brum)

Não só para elogiar o extraordinário discernimento da autora quanto ao tema e também para contribuir, digo que ao entenderem a vida tal como ela descreve, esses personagens todos se esquecem do espiritual, daquela metade que se não alimentada vira monstro e chama para as viagens psicodélicas que só a embriaguez e a droga conseguem mascarar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (conclusão)


...e temos de andar muito para aprender

Esta série não poderia concluir deixando em suspenso citações como a que tenta reduzir a importância da alma e ampliar a importância do corpo e sem alinhavar questões como Igualdade, Religiões, Moral, Progresso que, para corroborar, trouxemos à tona e que se tornam questões centrais da História. E ainda falta trazer a visão espiritual, que nunca foi preocupação dos grandes pensadores europeus, mesmo os religiosos.
Para começar, se estamos no corpo é ao corpo que devemos nossas atenções primeiras, básicas, elementares. Como explicar a passagem da alma pela vida biológica sem outro propósito do que treinar o viver biológico? Lembre-se que o tema da série é “Fazer História” e história é o relato do que fizemos enquanto seres biológicos sobre a face de um planeta biológico.
A maioria das doenças ditas psíquicas ou psicossomáticas tem curso porque o corpo não corresponde aos sonhos da alma e porque as religiões adiaram, adiam, a felicidade humana para depois da travessia pelo corpo.
Isso não é justo.
Recebemos um corpo para com ele fazer uma história, história viva, registrada aqui, enquanto somos pessoas de carne e osso.
A alma melhor ou pior, que resultar disso, é consequência, é o que merecemos, é o que teremos como prêmio, como resultado.
Não haverá salvador para o gordo, se ele não fechar a boca. Não haverá amanhã para o alcoólico se ele não decidir parar. Isso também vale para o narcótico, para o fascínora, para o corruptor.
Não haverá o anjo bom na porta do céu apontando com o dedo os seus protegidos como aqui na terra acontece.
Se para os times que perdem, o árbitro é, sempre, o culpado, estes nunca chegarão à ponta de cima da tabela do campeonato.
A nossa História, melhor escrevendo, história, é uma vergonha atrás da outra? É esta que temos, é esta que fizemos.
Então já se pode enveredar para as questões morais que, como vimos nesta série, são de autoria dos homens (?) ou são sugestão de Deus (?). Cabe a pergunta direta: a perfeição moral consiste na masceração do corpo?
A resposta mais elementar e também direta é: consiste na sublimação do corpo. E avança para uma conceituação direta: o que é sublimar? É enchê-lo de obesidade? É mergulhá-lo no álcool? É servir-lhe entorpecentes, anabolizantes, silicones, piercings, tatuagens? Ou é o extremo de tirar-lhe os nutrientes para ficar abaixo do peso ideal, ficar “belo”?
Somos a nossa própria Historia. E a nossa história não merece inicial maiúscula.
Então já podemos enveredar para a questão do Crescimento ou Progresso, que nem sempre acontecem como sinônimo de Evolução. A moral humana não leva em conta a destruição que ocorre quando construímos um crescimento que enriquece apenas alguns e que dá como resposta a miséria de muitos e do meio ambiente.
E nesse meio as religiões ficam a pregar igualdade com o braço estendido para receber as doações que acumulam riqueza a alguns poucos. Se você tiver estômago forte experimente ouvir alguns programas de tevê nos quais os pregadores dizem sem ficar rubros que todo o dinheiro dado a eles é dado a Deus.
Nenhuma de dessas religiões se salva. Essas, todas, são mercenárias.
Esta é a história que vamos fazendo.
Não está satisfeito com ela, comece agora a escrever um novo final porque o começo e o meio são estes, mesmos, infelizmente.
Não está satisfeito com a vida que leva? Você a leva ou ela lhe leva? Quem é o piloto? A rota está errada?
Nietzche abordou num dos artigos desta série o confronto dos ascetas, que querem abater o corpo em nome da salvação da alma. E nós trazemos aqui o equívoco dos materialistas que querem rebaixar a alma.
Duas violências.
Mas a questão não termina aí.
Ainda tem o clube dos indiferentes. No geral, as três facções talvez representem 90% das pessoas que gostaríamos de atingir.
Queiramos ou não é esse vagalhão humano que elege. Os eleitos, os juízes, os planejadores, saem dessas fileiras. Empresários, professores, líderes, gurus, estão entre esses.
Como se poderia ter escrito uma outra História?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (VII)


...com progresso indefinido e com miséria?

Que coisa, não? Cristo falou coisas, a igreja cristã prega coisas, as revoluções prometeram coisas, o marxismo acenou com possibilidades e estas visões igualitárias morreram na praia, não foram adiante. Por que?
Se o leitor prestar bastante atenção verá a clareza da equação: não foi o povo o autor da obra. A visão religiosa cristã não tem a prática efetiva; a visão dos republicanos franceses teve sua experiência já na efervescência do capitalismo desigual; e a visão atéia marxista nada teve de proletária, nem democratica e nem igualitária. Não foram obras do povo.
O homem não é, pois, impelido pela sua condição econômica. Ele é o joguete de uma situação que se origina na própria natureza enquanto jogo de forças materiais. Ganha o mais forte. Perde o mais fraco. É isso? Até quando?
Disto resulta que, quando o homem joga um papel na visão igualitária da História, é um papel duma peça que ele não escreveu, que ele não poderá ter escrito, e esta peça é uma farsa trágica, vergonhosa e dolorosa.
A dignidade, como a verdade autêntica do homem, situa-se fora da história, que ele escreve mas não é autor porque é concebida nos gabinetes, longe das ruas, fábricas e lavouras.
Por outro lado, todas as coisas possuem em si a sua própria antítese relativa. A visão escatológica da História possui também a sua antítese relativa, igualitária também esta, que é a teoria do progresso indefinido. Nesta teoria, o movimento histórico é representado como tendendo constantemente para um ponto zero que não é, nunca, alcançado. Este “progresso” pode caminhar no sentido de um “sempre melhor”, excluindo todavia a idéia de um bem perfeito e absoluto; é um pouco a visão ingênua da ideologia americana, ligada ao “american way of life”, e também a de um certo “marxismo desencantado”, sem efeito, os dois. Pode caminhar também no sentido de um “sempre pior”, sem que a medida do mal atinja alguma vez o seu culminar.
Como nós somos a nossa história, mesmo, em geral, sem dela sermos os autores, também o que se escreveu sobre nós acabou por ser a nossa verdade saída da boca dos outros. Logo, a nossa mentira.
É, um pouco, bastante, talvez, a visão pessimista de Freud, que não via como a infelicidade que, para ele era a civilização, poderia parar um dia de se reproduzir. De outra parte, esta visão pessimista do freudianismo está atualmente em fase de ser recuperada, sobretudo por Marcuse e pelos freudomarxistas, na tese escatológica do marxismo, depois de ter desempenhado a função que sempre desempenha qualquer antítese após a invenção do diabo, isto é, uma função instrumental.
Apesar de não ser o melhor exemplo de pregador da moral, por suas posições contrárias à religião, é Friedrich Nietzsche que aponta o cristianismo, a ideologia democrática e o comunismo como denominadores comuns do igualitarismo. Mas é também a Nietzsche que se atribui um segundo modelo de visão da História que, na época atual, se opõe (subterraneamente, por vezes, mas com mais tenacidade) à visão escatológica e segmentária do igualitarismo.
Nietzsche, com efeito, não quis apenas analisar mas também combater o igualitarismo. Quis inspirar, suscitar, um projeto oposto ao projeto igualitário, animar uma outra vontade, alentar um juízo de valores diametralmente diverso. Por este motivo, a sua obra apresenta dois aspectos complementares entre si. O primeiro aspecto é propriamente crítico, poder-se-ia inclusive dizer científico. O seu objetivo é realçar a relatividade de todo o juízo de valor, de toda a moral e também de toda a verdade pretensamente absoluta. De tal maneira evidencia a relatividade dos princípios absolutos proclamados pelo igualitarismo. Mas, paralelamente a este aspecto crítico, existe um outro, que podemos definir poético, que significa “fazer, criar”. Com este trabalho poético, Nietzsche esforça-se por dar vida a um novo tipo de homem, ligado a novos valores e que extrai os seus princípios de ação de uma ética que não é aquela do Bem e do Mal, mas uma ética que é legitimo definir como suprahumanista.
Nietzsche negava qualquer fundamentação metafísica da moral. A moral é uma criação humana, imposta pelo "Dragão dos valores", aquele que diz "Tu deves" quando o indivíduo diz "Eu quero".
A moral para Nietzsche é uma invenção dos fracos, que inverteram o sentido de bom e virtuoso para favorecer o ascético, o que nega o corpo em favor da alma, e que, portanto, nega a vida. Nietzsche é favorável aos homens guerreiros, fortes, que com apenas uma inflexão afastam de si todas as culpas anteriores e toda a mesquinhez moral.
Para dar uma imagem do que poderia ser uma sociedade humana fundada sobre os valores propostos, Nietzsche recorreu quase sempre ao exemplo da sociedade grega arcaica, à mais antiga sociedade romana e até às sociedades ancestrais da antiguidade indo-europeia, aristocrática e conquistadora. E só não buscou exemplos nas tabas indígenas porque não as conheceu.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história.... (VI)


...a procura de vilões

Então você estende seus olhos para a História e se convence de que a igualdade está longe, a liberdade está longe e que o dirigentes romano-cristãos e seus derivados são os vilões deste descaminho. Enganou-se.
Os mesmos sonhos encontram-se, identicamente, sob uma forma atéia e pretensamente científica na visão marxista da História. Entenda, existem interpretações do que seria o “verdadeiro pensamento” de Marx. No curso da sua existência Karl Marx pensou coisas muito diferentes e poder-se-ia discutir longamente para saber qual seria o “verdadeiro” Marx. Fiquemos no que a História nos deu, aquele marxismo praticado, que foi durante muito tempo, e que ainda se mantém na doutrina dos partidos comunistas e dos Estados, que se reconhecem na interpretação leninista.
Nesta doutrina, a História é apresentada como o resultado de uma luta de classes, de uma luta entre grupos humanos que se definem em relação à sua respectiva condição econômica, como candidatos ao “jardim” que não é do Éden, é do proletariado. Sugere, nesta versão, a reintrodução do “comunismo primitivo” praticado por uma humanidade ainda imersa no estado de natureza e puramente à mercê daquilo que o homem necessita para o seu dia-a-dia. Enquanto, no Paraíso, o homem sofria os constrangimentos resultantes dos mandamentos de Deus, as sociedades comunistas pré-históricas viviam sob a pressão da miséria. Esta pressão levou à invenção dos meios de produção agrícolas, mas esta invenção revelou-se também uma maldição. Implica, com efeito, não somente na exploração da natureza por parte do homem, mas também na divisão do trabalho, na exploração do homem pelo homem e, em consequência, na alienação de todo o homem em relação a si mesmo. A luta de classes é a consequência implícita desta exploração do homem pelo homem, a luta de bons do lado de cá, contra maus do lado de lá. O seu resultado é a História.
Como se vê, são as condições econômicas a determinar para os marxistas os comportamentos humanos. Por conexão lógica, os maus conduzem à criação de sistemas de produção sempre novos, que causam, por seu turno, condições econômicas novas, e sobretudo uma miséria sempre maior dos explorados. Olhemos para o Oriente Médio e lá estão os maus de um lado e os bons de outro.
Todavia, se a igualdade está difícil e o monstro maldoso não pára de crescer, haja terrorismo, haja ladrões, hala corruptos, todos tentando abocanhar pedacinhos da desigualdade maior. Com o advento do sistema capitalista a miséria dos explorados atinge, como se lê, o seu culminar: torna-se insuportável e ameaça a estabilidade da minoria rica.
Lá atrás, os proletários tomaram consciência da sua condição, e esta tomada de consciência redentora teve por efeito a organização dos partidos comunistas, exatamente como a redenção que Jesus havia levado à fundação de uma comunidade de santos. Porém sem Jesus.
Os partidos comunistas empreenderam uma luta apocalíptica contra os exploradores. Sem invocar Deus. Fracassaram. O capitalismo também se ajeita para tentar sobreviver. Sobreviverá? Difícil.
A tarefa de buscar algum equilíbrio poderá ser muito difícil, mas será necessariamente vitoriosa (este é o sonho), ainda que demore um milênio. Levará à abolição das classes, porá fim à alienação do homem, permitirá a instauração de uma sociedade comunista imutável e sem classes, isto é igual? O Paraíso? Não seria bem assim, você sabe.
E se a História é o resultado da luta de classes, não haverá, evidentemente, mais História. João Evangelista estaria certo?
O comunismo pré-histórico será restituído, como o Jardim do Éden, o Reino dos Céus, mas de modo sublimado: enquanto a sociedade comunista primitiva estava afligida pela miséria material, a sociedade comunista pós-histórica beneficiar-se-á de uma satisfação perfeitamente equilibrada das suas necessidades.
Assim, ainda na visão marxista, a História assumirá igualmente um valor. O mesmo se poderá afirmar sob o ponto de vista cristão. O valor da História será negativo, claro. Nascida da alienação original do homem a História não tem sentido senão na medida em que, aumentando incessantemente a miséria dos explorados, contribua finalmente para criar as condições nas quais esta miséria desaparecerá, ou será de todos, e “trabalhará”, de algum modo, para o seu próprio fim.
E porque um sonho assim não se faz real? Talvez seja possível responder.
No próximo tomo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (V)


...outra vez olhando para trás

Ao examinar-se a antiguidade pagã, nota-se como essa havia oscilado entre duas visões da História, de que uma não era mais que a antítese relativa à outra: ambas concebiam o devir histórico como uma sucessão de instantes na qual cada instante presente delimita sempre, de um lado, o passado, do outro, o futuro.
A primeira destas versões propõe uma imagem cíclica do devir histórico. Implica a repetição eterna de instantes, de fatos ou de períodos dados. É isso que exprime a fórmula “nihil sub sole novi”, algo assim como “nada sobre nós sem nós” ou por outra “nada de novo sem o consentimento comum”.
As comunidades antigas discutiam seu presente com base no passado e pensando no futuro.
Parece que na maioria das vezes, em nossa história posterior, o consentimento houve. Isso tem o nome de licensiodade. “Se eu permaneço confortado, fecho os olhos para as barbaridades”. Para meus inimigos os rigores da lei; para meus amigos, os favores da lei. Isso não é novo e foi praticado sob a batuta dos defensores da igualdade. Fomos chamados à igualdade e construímos a história de nossas desigualdades.
Mesmo o rigor da trilogia francesa – Liberdade, Fraternidade, Igualdade – usada por muitos como ideal de sociedade, nunca foi aplicado e nunca trabalhou os três pontos com equilíbrio.
O cristianismo católico realizou, de certa forma, uma síntese oposta a tudo o poderia ser o sonho da humanidade. E fecha com chave de ouro os seus equívocos sublimando a necessidade de se dar um fim à História. Ao menos é isso que João Evangelista descreve no Apocalipse.
O sonho de igualdade fracassou e este episódio que é a História é percebido, na perspectiva romano-cristã, como uma verdadeira maldição. A História deriva de uma condenação do homem por parte de Deus, condenação à infelicidade, ao trabalho, ao suor e ao sangue, que sanciona uma culpa cometida pelo homem. A humanidade, que vivia na feliz inocência do jardim do Éden, foi condenada à História porque Adão, seu antepassado, transgrediu o mandamento divino, provou o fruto da Árvore da Ciência e quis igualar-se a Deus. Esta culpa de Adão, enquanto pecado original, pesa sobre todo o indivíduo que vem ao mundo. É inexplicável por definição, porque o ofendido é Deus mesmo. Mas Deus, na sua infinita bondade, aceita encarregar-se Ele próprio da sua expiação: faz-se homem encarnando na pessoa de Jesus. O sacrifício do filho de Deus introduz no devir histórico o evento essencial da Redenção. O sonho está de volta. Mas, o sonho não é todos. Alguns serão tocados pela Graça. Outros não. Então o sonho não é todos. No fim, virá um dia em que as forças do Bem e do Mal se defrontarão numa última batalha, que resultará num Juízo final e, então, na instauração de um Reino dos Céus, que tem o seu contraponto dialéctico no abismo do Inferno ou no fim deste.
Os indivíduos não precisam preocupar-se em fazer sua história, a história será escrita por um salvador, herói, magnânimo. “Segue-me que eu te levarei ao destino”.
Dá, então, para entender porque nós apredemos a ser omissos em relação àqueles que fazem a história sem nossa autoria?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (IV)


...sonhando com a igualdade.

O pensamento igualitário atravessou, no curso dos séculos, quatro marcados períodos: no primeiro, que corresponde ao período da mitologia, com a promessa dos deuses de afastar o mal e promover a bonança; no segundo, com o nascimento e desenvolvimento do cristianismo romano, constituiu-se ainda sob algo mitológico, uma mitologia monoteísta apresentada como um Trindade, porém trazendo à tona a batalha final do Armagedon para que o diabo deixasse de causar estragos e desigualidades, já brevemente analisado aqui em artigos mais antigos. Todos os homens são iguais e igualmente filhos de Deus, foi a mensagem do Cristo. Mas, no processo de desenvolvimento histórico a unidade deste, digamos, sonho de que todos seríamos igualmente filhos de Deus, fatos marcantes perpetrados por lideranças políticas deram margem ao nascimento de ideologias conflitantes com esta tese, concorrentes mesmo. Vieram as igrejas, depois as teologias e por fim as ideologias concorrentes. Nem adversárias eram, estavam dentro do mesmo bojo, porém sonhavam com uma coisa e faziam exatamente o oposto. Como o sonho original trazido por Cristo já não era mantido, fizera-se hipócrita, e a hipocrisia resultara na figura de homens mais queridos e homens menos queridos daquele “deus”, e o resultado foi a eclosão de cisões e rachas. Este, como dissemos é o segundo período da busca do igualitarismo.
No terceiro, a igualdade é buscada ao lado da liberdade e novamente por filhos de um mesmo deus e, por isso, de forma fraterna. Revoluções como a dos Estados Unidos (Cesseção) e a da França (A República) cabem dentro deste sonho igualitário. Mas, não é só. A ciência também foi buscar seu sonho e de repente precisou romper com os representantes hipócritas daquele deus concebido no segundo período.
Chegamos então ao quarto período, no qual as idéias contraditórias geradas do sonho original resolvem-se numa unidade, mas já não tem a presença de Deus em seu conceito sintético. Exprime-se sob uma forma que se faz “científica”, pretende ser uma ciência, e laica. Este estágio corresponde ao surgimento do marxismo e dos seus derivados.
O mito, as ideologias, a pretensa ciência igualitária, exprimem o que poderia ser um sonho da humanidade, mas as decisões não são tomadas pelos indivíduos que compõem a humanidade, mas por seus pretensos líderes, a minoria dominante, onde se instalam os tiranos e as desigualdades mais perversas.
Os pretensos beneficiários dos resultados do sonho não são consultados sobre como se quer chegar aos resultados.
Retomando o pensamento inicial do primeiro artigo: não são os indivíduos que decidem o presente, que será futuro e que será história. São os tutores que decidem pelo povo. Em muitas sociedades o povo não é levado em conta como beneficiário das decisões.
Ao fazer o que fazem os tutores distanciam-se do povo, puxam tudo para baixo e chega o dia em que são esmagados por aqueles que despencam sobre eles; ou, ao se erguerem demasiadamente, são puxados para baixo por aqueles que se agarram aos seus pés.
Somos uma teia. Uma imensa teia. A vida transita, a história é escrita, mas os algozes do povo não serão perdoados. Ou iremos todos juntos ou ninguém irá, sozinho, a lugar nenhum. Com ou sem igualdade.

domingo, 21 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (III)


...e temos saudade do passado?

A História, a nossa história, isto é, a soma de nossas histórias individuais, de todos os lados, está sob acusação. São infelizes os homens que têm saudade do passado. Passado é para estar na berlinda como réu. Só assim andaremos para buscar a superação. Entenda, passado não é para chorar, é para balizar. Aonde foi que erramos? Se as respostas forem encontradas, o presente tem de ser de superação e o futuro dirá se agimos certos.
No entanto, quem nada quer mudar, olha o passado com saudade ou com abominação e não tira os olhos de lá. Esses são os motoristas que dirigem olhando para o rertrovisor. Quem sabe andem de ré.
A terceira hipótese é construir o futuro só com o material do passado. Isto significa matar o presente, castrar o hoje. E não dar chance ao amanhã.
Entre acusadores, saudosistas, assassinos e omissos do presente, o futuro se faz incerto.
A História que temos, com raríssimas exceções, é a consequência da alienação da humanidade. Todas as perversidades perpetradas por aqueles que se intitula(ra)m autoridades do povo, merecem ser escritas à conta da licensiodade, à conta da omissão ou do conforto e do proveito auferido por alguém.
Uma breve referência para que você coloque seus pés na história recente: o dia em que se acabar o petróleo árabe as grandes corporações petrólíferas do planeta descobrirão o estrago que causaram à humanidade.
Mas, não se trata de invocar, propor ou projetar o fim da História, como está na moda, em revista, pelos principais filósofos religiosos dos últimos 100 anos.
Trata-se de sonhar com o retorno a uma espécie de estado de natureza enriquecido, a paragem do crescimento, o fim das tensões, o retorno ao equilíbrio tranquilo e sereno, à felicidade modesta, mas assegurada, que seria aquela de todas as espécies viventes, o nosso rertorno ao Jardim do Éden. Retorno não como tutelados, como são apresentados os personagens daquela lenda. Retorno para aprender com o passado enquando construímos o presente e projetamos o futuro.
Vem imediatamente à memória o nome de alguns destes teóricos, e entre esses o nome de Herbert Marcuse e de Claude Lèvi-Strauss, cujas doutrinas são bem conhecidas.
A idéia do fim da História pode parecer uma coisa recente. Na realidade não o é. Basta, com efeito, examinar as coisas mais atentamente para se dar conta de que esta idéia não é mais que o resultado lógico de uma corrente de pensamento velha, de milhares de anos, e que, desde há dois mil anos novamente domina e conforma aquilo que hoje chamamos “civilização ocidental”.
Esta corrente de pensamento é aquela do pensamento igualitário. Exprime uma vontade igualitária, que foi instintiva e quase cega no seu início, mas que, na nossa época, se tornou perfeitamente consciente das suas aspirações e do seu objetivo final. Ora, este objetivo final do projeto igualitário é precisamente o fim da História, a saída da História.
Veremos com vagar este aspecto no próximo tomo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (II)


...ela é a nossa folha corrida

Somos muito mais que apenas história. Mas, a história é o nosso atestado. Melhor dizendo, é a nossa folha corrida. Diz-me o que pensa e eu lhe direi o que é. Diz-me com quem anda e eu lhe direi quem é. Diz-me o que o come e eu lhe direi quem é. Diz-me o que pensa, com quem anda, o que come, o que lê, o que faz, hoje, e eu lhe direi quem você será em 10, 20 ou 50 anos.
Se você atuar individualmente e mergulhar as profundezas da vida, seus parceiros de vida irão cair sobre você e você será esmagado no fundo do poço. Se você atuar individualmente e ascender demais as alturas, seus parceiros de vida agarrar-se-ão a seus pés e lhe puxarão para baixo.
Um homem, uma mulher de seu tempo não pensa apenas em si mesmo(a), não quer ser encontrado(a) sozinho(a) durante a travessia para não estar indefeso(a), vulnerável. Vale para aqueles que se distanciam na dianteira e vale para aqueles que se distanciam na traseira. Tanto no primeiro como no segundo caso, há o risco de perder-se do grupo e tornar-se vulnerável.
O prudente é andar com o grupo, mas há que discutir quem será o guia. Tem de haver um guia, um comando. Se não for eleito, será imposto.
Homens e mulheres que não sabem para onde vão, entregam seus destinos a qualquer guia. É novamente nesse caso, repetindo, que uma sociedade tem história, mas não é sua autora. A história das sociedades não autoras de seu destino é escrita por seus tiranos.
Se você quiser não inovar e quiser repetir sempre as mesmas coisas, isso não é fazer história, é repetir a história. História que se repete não é história, é tradição.
Tradição só é coisa boa quando atua como raiz e alicerce para receber sobre ela as vigas das novas estruturas.
Não podemos negar nosso passado e nem rasgar a nossa história. Isso não está ao nosso alcance. Não podemos fazer um novo começo, mas podemos recomeçar e fazer um novo fim, como escreveu Chico Xavier.
O universo não tem História, não do modo como aqui estamos raciocinando e nem como nós o percebemos ou como podemos representá-lo; ele não faz mais que mudar de configuração através do tempo acionado, na maior parte pela mente de Deus e em pequena parte por nossas mentes.
Nem sequer a vida tem História: a história somos nós, o conjunto de indivíduos transeuntes da vida.
O nosso devir consiste numa evolução; e evolui.
Compreende-se então que a História é o modo de devir do homem (e só do homem) enquanto tal; só o homem “se torna” historicamente. Consequentemente, colocar a questão de saber se a História tem um sentido, ou mesmo dizer, um significado e um fim, equivale, no fundo, a perguntar se o homem que está na História e que (voluntariamente ou não) faz a História, tem ele próprio um sentido, se a sua participação na História é ou não uma atitude racional.
Percebe o leitor o que está implícito nestas frases que mais parecem poesia? Está implícito que nós, humanos, fazemos a nossa história, a história das árvores, das águas, dos bichos, do planeta e, de um modo muito especialíssimo, fazemos a história de Deus.
Se um dia este planeta vier a ser desabitado porque nós inviabilizamos a sua atmosfera para a vida animal, nós teremos escrito a história de Deus sobre a Terra. Pense nisto, muito.
Um sonho que se sonha só, é sempre apenas e só um sonho. Mas, um sonho que se sonha a muitas mentes, sempre será uma construção para ficar na história. Acho que Deus teve um sonho quando nos chamou para viver. Quem sabe ainda esteja apostando em nós.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Somos a nossa própria história... (I)


...isso não se apaga jamais

Começamos hoje mais uma série.
O que passou, passou? Não volta mais? Está morto?
Ouve-se muito sentenças como estas, que viraram perguntas. E nada é mais inverídico.
Nós somos o que fomos. Mais do que isso, nós somos também o que outras pessoas fizeram por nós e para nós.
Não dá para dissociar a beleza da mocinha ou a capacidade física do rapaz das heranças genéticas repassadas por diversos ancestrais seus. Não dá para dissociar o diabetes da senhora e a obesidade do senhor das heranças genéticas repassadas por ancestrais seus.
Temos de nos interrogar sobre o significado dos fenômenos históricos que nos alcançam e alcançaram nossos ancestrais. Tudo o que somos veio sendo tecido por tais episódios. Talvez não tenhamos participado de nenhuma guerra, mas as guerras teceram nossas vidas. As bomas atômicas sobre o Japão, lá do outro lado do planeta, são parte de nossas vidas. Talvez não tenhamos participado e nem mesmo gostamos de nos referir aos períodos das ditaduras de Vargas e do regime militar, no período de 1930 até 1982, com uma pequena pausa entre 1946 a 1963, mas foram dias, meses, anos completamente importantes na nossas vidas, durante, antes e depois de nosso nascimento, período dentro do qual devemos acrescentar 5 anos de guerra mundial. Esta também nós pertence.
Objetivo desta série é o exame das respostas que a nossa época dá a estas interrogações, tentando reconduzir, apesar da sua aparente diversidade, a dois modelos fundamentais, rigorosamente antagônicos e contraditórios de sociedade: um de muitas cobranças, austero, rigoroso; outro condescendente, irreverente, brando.
Já vimos em análises anteriores que o indivíduo, quando lhe falte iniciativa para o exercício da cidadania, se torna refém de sua sociedade e é, por ela, levado a reboque. Por outro lado, a sociedade sempre será a extensão ou soma dos indivíduos sempre que a participação proativa e ativa de cada membro puder influenciá-la no conjunto.
Mudando, porém, o ponto de vista: se você dirige a sua vida e o faz compartilhando o poder com os seus contemporâneos, a vida tomará a direção que vocês derem a ela. Caso contrário, vocês serão dirigidos por um tutor e a direção será dele. A terceira hipótese pode ser a deriva, a ausência do rumo.
O que passou e, de fato, passou, foi o tempo. Este não volta mais.
A história não passa. Ela vive em nós. Se você não faz a sua história, alguém a fará por você e você ajuda-la-á a construir-se passivamente. Por outro ângulo, a história é sua, mas não é autoria sua.
Talvez você não se sinta confortável com quase 40 anos de ditadura na história recente de nosso país, mas agora percebe que isso faz parte de sua vida. Talvez você não se sinta confortável com os congestionamentos de trânsito de sua cidade, mas faz parte deles. Resta saber se você construirá uma solução para isso ou se continuará contribuindo, ativa e/ou passivamente, para o seu agravamento.
Não pense, porém, que esta série objetiva apenas trazer você para o palco da história atual. Não. Nós recuaremos muito e avançaremos muito para que você perceba o que é viver o presente, o que é chorar o passado e o que é temer o futuro. A terceira hipótese é a de você estar aqui apenas no gozo de férias. Você já pensou sobre isso?

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Saúde, Sabedoria e Riqueza...


...com certeza um sonho de vida

Quem teria coragem de excluir de seu sonho de vida a Saúde, a Sabedoria e a Riqueza. Esclarecemos, desde logo, que os valores referidos estão grafados com letras maiúsculas não sem propósito. Ao destacá-los em letras maiúsculas, queremos significá-los além do comum. Não estamos nos referindo apenas àquelas situações de altos e baixos em longevidade, nem de algum título de formação universitária e muito menos de algumas posses financeiras. Trata-se de muito mais.
É evidente que as grandes massas integrantes da civilização que construímos, ou que construíram para nós, estão aculturadas e condicionadas a nivelar por baixo, a exigir pouco, a dar pouco de si, a contentar-se com o medíocre.
Saúde, por muitos séculos era viver 50 ou 60 anos. As pessoas com mais de 50 anos eram velhas, portavam-se como velhas, morriam cedo. Quantos e quantos de nós não conhecemos nossos avós; eles faleciam antes que os netos chegassem. Ainda hoje para muitíssimos de nós, saúde é ter um bom plano de saúde e visitar muitos consultórios, ambulatórios e hospitais por ano. Na verdade, a cura física, emocional, intelectual e psíquica passou a fazer parte do conceito de saúde universal, através da Organização Mundial de Saúde, há menos de 30 anos. Uma pessoa portadora de doença congênita ou adquirida, triste, desinformada e estressada ou deprimida, por mais assistência que receba, por mais que viva 80 anos, não pode ser considerada saudável.
O mesmo se pode falar dos títulos acadêmicos, das pós-graduações, do acúmulo de conhecimentos e teorias. Isso jamais pode ser entendido como sabedoria se, apenas, estão ali armazenados e em nada contribuem para a vida do portador e da sociedade.
Mais ainda se pode argumentar quanto à riqueza expressa por números de propriedades ou contas bancárias, coisas que, em geral, só servirão para brigas e desavenças de herdeiros a partir do óbito do titular, mesmo que ele tenha feito muito bom proveito em conforto, viagens e luxo.
Em algumas culturas espiritualistas se fala que a vida se mede por três critérios: o critério de comprimento, que é longevidade; o critério da largura, que é a felicidade; e o critério da altura, que são os ganhos espirituais, o capital não financeiro, mas aquele que vai com a alma para o plano maior.
É óbvio que viver segundo estes critérios implica em Saúde, Sabedoria e Riqueza, todos com inicial maiúscula.
E dá para complementar com alguma certeza que a Saúde (plena) depende de nossa vontade e de nossa fé. A Sabedoria (útil) depende da informação e da experiência. A Riqueza (perene) depende do trabalho e da inteligência. Mas, não só: todas as três dependem do foco que queiramos dar aos nossos objetivos. O criminoso pode pautar sua vida por ter saúde, sabedoria e riqueza e, no entanto, será um fora da lei com sérios problemas a resolver com a justiça dos homens e de Deus. O ser que investe para ter Saúde, Sabedoria e Riqueza para todo o sempre, ad eternum, certamente tem focos muitos seguros e muito nobres. Este ser não necessita de respeitar as leis apenas quando está sendo filmado ou quando presume que está sendo fiscalizado.
Então, se posso propor um brinde entre nós, celebremos a nossa Saúde, nossa Sabedoria e nossa Riqueza!! Tim, tim!!


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Quando não nos conhecemos...


...não sabemos o que fazer da vida

Em diferentes estágios da vida e em diferentes situações desta mesma vida, somos estranhos para nós mesmos.
Achamos que temos um espírito, uma alma e, na verdade, somos um espírito que tem um corpo.
Mas, somos um estranho para nossa alma e para nosso corpo.
Quando nosso corpo não corresponde às nossas vontades, ficamos zangados, decepcionados, depressivos.
Há inúmeros momentos em que gostaríamos de ser um super-herói, um super-atleta, um super-filósofo, um super-pai, uma super-mãe, uma super-esposa, um super-marido, uma az do volante, um guerreiro invencível da guerra do dia-a-dia na política, na economia, nos esportes, na academia. Mas, todos esses nossos devaneios não levam em conta nossos limites e nem consideram os super-poderes que temos e não usamos. Em todas as super-situações anotadas, levamos em conta apenas o cérebro e o corpo.
Reduzimos nossa capacidade espiritual e valorizamos nosso poder material. Promovemos o divórcio entre a alma, a vontade, a mente, a emoção e o corpo e esquecemos de chamá-los para que todos os cinco habitem a mesma casa, se entendam e se harmonizem.
O que se anda falando por aí sobre cura real ou progressiva, nada mais é que a conexão, a fusão dos cinco pontos referidos sem divórcio, sem distensão, sem oposição.
Então, a conexão com o Sagrado precisa levar em conta uma transformação de nosso estilo de vida.
Querer levar a sério este estilo de vida é querer aprender a mudar, sair do quadrado, ousar.
Mas, isto não quer e não pede que você rompa com seus valores. Seus valores são suas raízes e nenhuma árvore pode cortar suas raízes sem que venha a secar. O que tem de ser feito é introduzir o novo sem jogar o velho fora.
Difícil? Não.
Você precisa aceitar que no passado pensávamos que papai Noel era real. E ele é real. Só que não é ele que dá presentes. Viu como neste exemplo cabem o velho e o novo no mesmo espaço sem rupturas?
Uma vez se dizia que o mundo foi feito em seis dias. Hoje não precisamos jogar fora a lenda que nos vem de Moisés. Ninguém disse quando tempo compunha um dia dessa lenda. Coloca aí três milhões de anos em cada dia da lenda e este mundo, que é a Terra, passa a ser construído em 18 milhões de anos, ou menos, se você quiser, pois talvez ele ainda não esteja pronto. Talvez ele esteja dando um tempo para que nós mudemos para aceitar a modernidade do mundo planetário.
Nós não precisamos querer substituir Deus ou concorrer com Ele. Precisamos descobrir o que Ele quer de nós.
Se cada um de nós levar em conta que o conhecimento é dinâmico em todas as coisas que estivermos estudando, iremos aceitar que muitos escritos sagrados eram sagrados para sua época e hoje os tempos são outros.
Sabe onde reside o maior atraso da humanidade? Justamente na fé, nos conteúdos que nos chegam pelas religiões.
Nós não evoluímos porque escolhemos ficar presos nos escritos sagrados de muitos milênios e eles são eram válidos, como a mitologia foi válida, para contar estórias para o homem-criança. Crescemos, hoje somos adolescentes ou jovens ou adultos, sei lá. A estória do papai Noel pode ser recontada com modernidade.
Se você aceita isso, venha para a modernidade. Acompanhe nossas conversas aqui neste blog.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um homem livre não tem pátria...


...tem amigos.

O homem tem de ser livre até mesmo para escolher seus amigos.
E ao fazê-lo não pode ser obrigado a permanecer em companhia de pessoas repetitivas, amargas, volúveis, conformadas, obtusas...
Existe coisa mais chata e deprimente que passar horas a ouvir as mesmas estórias? A escutar as mesmas queixas? A suportar as abobrinhas do tal amigo? A nada querer mudar porque não adianta? A sempre estar ancorado nas mesmas teses e nas mesmas expectativas?
Muitos de nós escolhemos para amigos aquelas pessoas que têm paciência para ouvir-nos falar, falar, num monólogo imperativo. O reverso da medalha também é verdadeiro quando nos tornamos ouvintes das ladainhas de nossos amigos.
Olha aí, as frases vão sendo costuradas no gênero masculino, mas todas elas poderiam ter até maior aplicação no gênero feminino. Estamos entendidos?
Amigo não aquele que apenas fala ou escuta. Amigo é aquele que ilumina, conforta sem ser piedoso, repreende sem ser severo, elogia sem ser puxa saco, acalma sem pedir covardia ou renúncia, fala só o necessário e cala quando a ocasião recomenda.
Amigo não é aquele que passa a mão na sua cabeça impotente diante do melhor momento de ajudar. Amigo é aquele que te ergue, te sacode, te incentiva, te freia e te ajuda sempre nos momentos mais adequados.
É diferente daquele camarada que te leva para o trago, para a droga, para a contravenção, para a corrupção, para os outros vícios.
Muitas pessoas usam a palavra amigo sem cerimônia alguma. Qualquer estranho é rotulado de amigo, mas isso é um vício de linguagem que pode deslustrar as verdades que existem por trás da palavra e da relação com o AMIGO.
A amizade pode ter como origem, um instinto de sobrevivência da espécie, com a necessidade de proteger e ser protegido por outros seres. Os nossos "melhores amigos", muitas vezes, nos conhecem mais que os nossos próprios familiares e cônjuges, funcionando de forma muito profunda, confidente, companheiro, parceiro, cooperante. Para atingir esse grau de amizade muita confiança e fidelidade são depositadas entre os “melhores amigos”.
Muitas vezes os interesses dos amigos são parecidos e demonstram um senso de cooperação e complemento. Mas também há pessoas que não necessariamente se interessam pelo mesmo tema, mas gostam de partilhar momentos juntos, pela companhia e amizade do outro, mesmo que a atividade não seja a de sua preferência. Um se torna complemento do outro, uma complementariedade enriquecedora.
A amizade é uma das mais comuns relações interpessoais que a maioria dos seres humanos tem na vida.
Em caso de perda dessas amizades sinceras, as consequências são desastrosas. Quando a amizade é realmente firme, não tem outro jeito, é preciso reconciliar, perdoar, reatar. O pensador Carl Rogers afirma que a amizade "é a aceitação de cada um como realmente ele é", mas isso é parcial, pois o verfdadeiro amigo é aquele que se transforma espelhado no outro e vice versa.
Os seres humanos têm carência de amizade sincera e geralmente não guardam segredos para seus bons e melhores amigos.
O Dia do Amigo (também conhecido como "Dia da Amizade") é comemorado em 20 de julho.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Eles não eram profetas...


...no entanto, leia.


A filósofa russa Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrou numa frase, à época, uma visão de seu país e que se encaixa na atualidade de muitos outros países, como o Brasil.

“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.

A esta manifestação podemos juntar a do nosso bom e velho Rui Barbosa, mais ou menos à mesma época:

De tanto ver triunfar a maldade;
De tanto ver crescer as injustiças;
De tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos impuros;
O homem chega desanimar-se da virtude, a rir-se da honra
e a ter vergonha de ser honesto.

E aí? Você vai continuar esperando o que?

domingo, 14 de agosto de 2011

A crise do pai, a crise da mãe...


...e a crise do Estado

É evidente que a crônica de hoje não poderia ser dedicada ao pai relapso, omisso, ausente, renunciante, fugitivo, mas o número desses aí é muito grande numa sociedade como a nossa, cujas estruturas são as piores em relação às crianças, em relação à escola, em relação ao saneamento, em relação à segurança, e em relação a muito mais coisas.
Quantos meninos e meninas que nesta data talvez nem saibam que a hipocrisia consumista inventou esta data para vender gravatas, carteiras, cintos, camisas, meias e outras bugigangas mais valorizadas, e essas crianças, quase certo, não abraçarão seus pais nesta data. Talvez esses pais tenham deixado o lar sabe-se lá por qual dos muitos motivos, que a realidade mostra, e que são muitos, obrigando a mamãe a sair muito cedo, todos os dias, para trabalhar, para batalhar pela precária sobrevivência de seu clã, enquanto seus meninos e meninas talvez jamais cheguem ao interior de creche e mesmo ali talvez jamais saibam o que são valores fundamentais.
Mas, o importante, é que meninos e meninas, aos milhões, crescem nas ruas, brincando de arma, batendo-se mutuamente, sujeitas aos rigores de uma sociedade sem pilares e, muito cedo expostos às sevícias, ao sexo precoce, ao estupro, à gravidez prematura e à repetição e multiplicação do primeiro drama, do milésimo drama, já relatado quando o pai deixou de estar e os dois, pai e mãe, deixaram ser família.
Não, esta crônica não é dedicada ao pai ausente, relapso, omisso, fugitivo, mas acaba sendo. E aí passamos a destacar a importância do outro pai, pai biológico, pai intelectual, pai provedor, pai educador.
Mas, não dá para festejar, genericamente, pais que apenas contribuíram com o sêmen para que uma criança tenha vindo ao mundo dos humanos, principalmente num Estado que não assume seus filhos, não tem creche, não tem escola, não tem assistência social, não tem hospital, não tem saneamento básico, e agora, quando a economia se aquece também não tem trabalhadores competentes para ocupar as vagas abertas.
Incompetentes de qualificação para ocupar as vagas abertas no mercado de trabalho, jovens órfãos de pai vivos (e, por extensão, órfãos de mães vivas) continuarão nas ruas, agora já não apenas brincando de arma, usando arma, traficando, consumindo drogas, batendo-se mutuamente, sujeitos aos rigores de uma sociedade sem pilares e, muito cedo, autores de sevícias, atores do sexo precoce, do estupro, da gravidez prematura e a mais repetições e multiplicações dos primeiros dramas, dos milésimos dramas, já relatados quando o pai, a mãe e o Estado deixaram de estar presentes e não tem uma solução para o jovem delinqüente e criminoso.
É, então, Pai (isso, com maiúscula), neste dia mercantil em sua homenagem, que nasce a idéia desta crônica para enaltecer o seu papel espiritual e biológico de educador presente, participante, ensinando muito mais por exemplos do que por palavras.
Aproveito para sugerir que você reflita um pouquinho na possibilidade de esta sociedade à qual você pertence (e espera do seu voto consciente) parar de ser hipócrita e cobrar dos legisladores, administradores e juízes uma solução de muito longo prazo para os fatos centrais de nossa crônica de hoje.
Sendo assim, feliz dia dos pais, Papai Cidadão.

sábado, 13 de agosto de 2011

Estamos a caminho...


...é o que prometem as religiões

Todas as religiões existem para proporcionar aos seus seguidores a conquista do topo. Cada uma delas tem um nome para designar o estado supremo de consciência:
• no zen-budismo, é chamado de satori ou kensho;
• no yoga, chama-se samadhi ou moksha;
• no taoísmo, chama-se “o Tão absoluto;
• no catolicismo, é chamado de “retorno ao paraíso”;
• os sufis falam de fana;
• os quacres chamam-no de “a luz interior”;
• alguns estudiosos e líderes, como São Paulo, diziam ser “a paz que está além do entendimento”;
• Bucke designou-o de “consciência cósmica”;
• Merton utilizou, para descrevê-lo, a expressão “inconsciente transcendental”;
• Maslow criou o termo “experiência máxima”;
• Guedjieff qualificou de “consciência objetiva”;
• Jung, de “individuação”;
• e Buber falava de “conexão Eu-Tu”.
Quaisquer que sejam os nomes dados a essa conquista – luz, iluminação, libertação, experiência mística –, todos eles dizem respeito a um estado de percepção radicalmente diferente da nossa compreensão comum, de nossa habitual consciência desperta, de nossa mente diária.
Parece não merecer a mínima atenção os comentários contrários ao que seja o projeto de uma alma: lapidar a pedra bruta e transformá-la em jóia brilhante.
John White, na “Introdução” do livro “O Mais Elevado Estado da Consciência”, por ele organizado com a participação de 33 experts em consciência, escreve: “além disso, todos concordam em qualificá-lo como o estado supremo da consciência: uma percepção auto-transformada de nossa total união com o infinito. Está além do tempo e do espaço. Trata-se de uma experiência da infinitude que é a eternidade, da unidade ilimitada com toda a criação. Nossa percepção sensorial do “eu”, socialmente condicionada, despedaça-se e destrói-se devido a uma definição da pessoa em si, do eu. Nesta redefinição da pessoa em si, torno-me idêntico a toda a humanidade, a toda a vida e ao universo. As habituais fronteiras do ego esboroam-se à medida que o ego ultrapassa os limites do corpo e, de súbito, torna-se um com tudo aquilo que existe. O eu torna-se integrado à Alma Superior, tal como Emerson a denominou (e talvez integrado ao que Arthur Clarke chamou de “Mente Superior”). O eu torna-se abnegado, o ego surge como uma ilusão e o jogo do ego chega ao fim. Este é o mistério supremo”.
Muito próximo de tudo o que se escreve, Jung também contribuiu bastante com o elucidar da consciência, ao propor a derrota do ego e a sua fusão com o Espírito como sendo o apronte final da Alma.
Quando nada mais restar de resquícios anuladores de virtudes terá acabada a jornada de uma alma pelas diversas vidas.
Mesmo que em nenhum momento os 33 experts em consciência tenham feito referências à reencarnação, o raciocínio que se impõe é o de quantos anos são necessários para o apronte de uma alma.
Se considerarmos que a chegada ao estado supremo de consciência é o limite do crescimento permitido à alma e que a ninguém é permitido abreviar a jornada cortando atalhos, resta-nos, sem exceção, completar a tarefa. Se não puder ganhar novas experiências em novos corpos, a tarefa ficará inacabada e nenhum ser humano chegará ao topo. Logo, reencarnar e revivenciar é algo indispensável à caminhada.
Estamos a caminho. Não podemos desistir.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Mais uma sobre drogas


Existe tráfico aí no seu bairro?

Olha, parece incrível. Quando a gente começa a conversar sobre tráfico, viciados e traficantes, é muito grande o número de pessoas que sabem tudo. Sabem quem se droga, sabem quem lhe fornece a droga, sabem qual é o endereço da “boca”...
Viu como nós estávamos imaginando que o problema é da polícia, apenas?
E agora você já aceita colocar na sociedade o chapéu da culpa?
“Eles são brancos que se entendam, eu não quero me envolver com isso”. Era bem assim a mente dos escravos, durante muitos séculos, até que os primeiros começaram a reagir e, mesmo sem uma solução ideal, a escravidão foi abolida.
Qual é a diferença entre a escravidão que prendia os negros ao seu dono e a escravidão que prende-nos todos às leis do tráfico?
A rigor não existem grandes diferenças. Os escravos permitiam que o dono de suas vidas fizesse o que fazia. Escravizados pela ditadura do consumo e do comércio de drogas, estamos permitindo que tais coisas aconteçam bem aí debaixo de nossos narizes por pura omissão ou se você quiser um termo mais elegante: tolerância.
Vamos a algumas feridas sociais. Se você topar com um drogado ali na esquina, completamente tomado pelo efeito do crack, você virará a costas e ir-se-á pensando no quê? Não fará absolutamente nada. O bom samaritano, como relata o Evangelho, morreu dentro de nós. Sabe como a maioria pensa? “Isso vai me trazer problemas!”
Já nos trouxe problemas e vai trazer mais ainda. É como dívida não paga. Ficará sempre maior e de mais difícil solução.
Aquela “boca” de drogas sabida por muita gente e por gente não denunciada, infelizmente lá esta porque “Eu não quero me envolver com isso”, no dizer de muita gente. E também no pensar de muita gente e só raramente dito a não denúncia é porque tem gente da polícia metida com as drogas. “E aí, como é que fica?. Eu denuncio e saio perdendo, porque a polícia sabe quem dedurou e o bandido vem contra minha família”.
Caro leitor. Pelo sistema de disc-denúncia da Polícia, jamais os policiais chegarão à identidade do denunciante e quanto a isso o denunciante pode ficar tranqüilo. Sobre a possibilidade de haver policiais envolvidos com as drogas, raramente acontece, porém sempre é descoberto e o policial que se preza, preza sua família e sua carreira, não é bobo fazer jogo duplo. Mas, aqueles que fazem, são pegos e punidos.
Nós não podemos deixar de fazer a nossa parte alegando esse tipo de desculpa. Erga o fone e disque 181 e diga, no anonimato, o que você sabe sobre drogas na sua rua.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Contestado...


...a centenária revolta do sertão

Nem 1% da população brasileira, paranaense e catarinense conhece este pedaço vergonhoso da História de nosso País. Um trecho de terras com 36 mil quilômetros quadrados no Oeste de Santa Catarina e Paraná, a partir de 1850 foi pretendido pela Argentina, com a sistemática contestação por parte do Brasil, originando-se aí o nome “Contestado”.
Em 1859, o Império brasileiro criou colônias militares ao longo da fronteira, objetivando proteger a área de uma possível invasão argentina. Só as instalou em 1882 em virtude da criação, no ano anterior, pela República Argentina, do Território Federal de Missiones, tendo dois dos seus seis municípios em área brasileira: Monteagudo na parte catarinense e Iguaçu, na parte paranaense.
A questão evoluiu para um arbitramento internacional. Como árbitro, o presidente (Cleveland) dos Estados Unidos, a 5 de fevereiro de 1895, sentenciou: a área é brasileira.
Em virtude de outras áreas em conflito, o tratado definitivo de limites só viria a ser assinado em 4 de outubro de 1910.
Nesse ínterim, uma nova disputa acende um perigoso estopim: o território incorporado ao Brasil passa a ser reivindicado (ao mesmo tempo) por dois estados: Paraná e Santa Catarina, já com a presença, na região, da empresa norte-americana Brazil Raillway, envolvida na construção da estrada-de-ferro São Paulo-Rio Grande, recebendo do governo brasileiro em paga, 15km de terras em cada margem da ferrovia.

Sem-Terra e Sem-Teto

Em 1911, a Brazil Raillway e sua subsidiária Lumber Colonization, haviam distribuído morte e miséria por todo o sertão desde União da Vitória até a margem do Rio Uruguai, desalojando posseiros, trazendo migrantes e oferecendo tiros em troca de qualquer reação.
Com a madeira de lei e araucária retirada das terras ocupadas pelos caboclos posseiros desde 100 anos, a Lumber se tornou famosa no mundo, não só por ser a maior serraria da América Latina, mas também por ser a maior exportadora de madeira do planeta.
Em paralelo, a partir de 1910 também as exportações de erva-mate para a Argentina viriam a sofrer uma queda desempregando operários.
Em todo e episódio no qual pessoas humildes e pouco letradas são vítimas, existe um guru, um profeta, um monge, um apóstolo. Ali não seria diferente.
A maioria dos despojados e desempregados corria para os Quadros Santos organizados pelo monge José Maria, em Campos Novos e mais tarde em Curitibanos.
Este já era o terceiro monge a peregrinar pelos sertões. Militar desertor, paranaense, Miguel Lucena de Boaventura, conhecido por José Maria.
Com o fim das obras da ferrovia em 1911, a Brazil Raillway despede 8.000 operários num só dia, negando-lhes a passagem (via trem) para a volta às suas regiões de origem: Sudeste e Nordeste.
Muitos desses Sem-Emprego, Sem-Teto, vão buscar abrigo junto aos Sem-Terra organizados pelo monge.
A presença dos caboclos reunidos no Quadro Santo incomoda os proprietários de terras, obrigados a ceder-lhes víveres, por donativo e até mesmo na marra. A Polícia, em seus nomes, foi acionada.
Em 15 combates ao longo de três anos, militares da Polícia e do Exército não alcançaram o objetivo, derrotados pelos caboclos ou pelo meio ambiente.
No Quadro Santo ou por trás dele, a partir de 1911, estavam pessoas com os mais diferentes interesses:
• saudosistas do Império, que acreditavam ser a República a culpada de sua desgraça;
• crentes nos milagres do (primeiro) monge João Maria (ressuscitado);
• inimigos dos truculentos coronéis fazendeiros;
• adversários da estrada-de-ferro e atingidos por ela;
• adversários da Lumber e da derrubada das árvores;
• partidários inimigos do Paraná pelo não cumprimento das sentenças do STF que davam o território a SC;
• seguidores dos espíritos sagrados presentes nos terreiros de Umbanda instalados no Quadro Santo;
• sem-teto, sem-emprego e sem-terra;
• também desempregados dos ervais em virtude da crise de exportação da erva-mate.
No reduto de Caraguatá (um dos 15 que haviam), em fevereiro de 1914, eram necessários 3 bois diários para alimentar os caboclos organizados. Um surto de tifo os obriga a espalhar sua gente por redutos menores, dificultando ainda mais a ação repressora.
Abandonando a região em março/1915, o Exército deixou, sem atingir e sem molestar, dois terços da população fanatizada. O enfrentamento ficou por conta novamente da Polícia Militar de SC e dos jagunços pagos pelos “coronéis” fazendeiros, cuja tática foi de guerrilha também, como faziam os caboclos do Contestado. Não se usava arma de fogo. Penetrava-se nos redutos inimigos na calada da noite degolando as pessoas. Morreram mais de 15.000 pessoas (no total) nesses conflitos, ainda que as estatísticas apresentem um número menor. Os governos não possuíam informações sobre a região.
A verdadeira história desse conflito ainda não foi contada. E talvez nunca venha a ser.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Preciso ser feliz...


...isso é um sonho?!

É muito difícil, para não dizer impossível existir alguém que não queira ser feliz. Esta constatação nos leva a outra: a de que o projeto humano não é o desamor, a violência, o ódio, a doença, a dor, o sofrimento, a guerra. A menos que para uns isso os faça felizes.
De qualquer modo, muita gente vê a felicidade por outros ângulos, ainda que equivocados, mas nem sempre a associa ao que não seja alegria, prazer, conforto, saúde, amor, paz.
Bem, então cabe conferir como cada um sonha a felicidade. Uma grande parte da humanidade coloca-a adiante: amanhã, no próximo fim de semana, no mês que vem, no ano que vem... Uma outra grande parte coloca-a depois de crescer, formar-se, passar no concurso, casar-se, ter filhos, aposentar-se... Outra boa parte coloca-a para quando acertar na loteria, comprar uma casa, um carro, encontrar uma mina de ouro...
Ainda há os que perderam a saúde e colocam a felicidade na sua reconquista.
Sim, para a quase totalidade humana a felicidade está adiante e está fora. São pessoas que partem com pressa, olhando para a frente e para cima, tropeçando, esbarrando, tropeçando, lastimando-se, morrendo e matando em busca do “lugar ao sol”, que é a felicidade.
Que pena! A felicidade não é uma posse e não é um destino. É um sentir presente. Mas, não cai do céu, não está fora e não pode depender de nada e de ninguém. Tem de estar dentro de cada um. E para estar dentro, precisa ser cultivada com muito carinho, preservada e realimentada como se fosse uma árvore frutífera. Por vezes, ela floresce. Por vezes, ela frutifica. Por vezes, ela oferece sombra e abrigo. Por vezes ela perde a folhagem para fortalecer-se e rebrotar. Noutras vezes, ela apenas cresce para poder melhor oferecer suas dádivas.
É muito difícil, para não dizer impossível alguém muito feliz o tempo todo. O dia só se torna iluminado e radiante porque sucede a uma noite escura. Assim é a felicidade, dividida em estágios de maior ou menor intensidade. Só assim as pessoas terão capacidade de percebê-la, valorizá-la e usufrui-la, tanto quanto a fome valoriza uma comida.
Por isso, as pessoas que realmente desejam a felicidade, não correm atrás dela, têm-na no íntimo; não saem em busca dela, cultivam-na; não a esperam no futuro, vivem-na agora; não a associam com bens e pessoas, usufruem-na entre os bens e dividem-na com as pessoas.
A felicidade é uma viagem, não um destino.
São muito felizes aqueles que trabalham como se não precisassem de dinheiro; amam como se nunca tivessem se machucado com o amor; dançam como se ninguém estivesse olhando; caminham prestando atenção nas margens do caminho; cuidam da vida como se estivessem vivendo o derradeiro dia.

Problemas, problemas...

...problemas com hardware tiram do blog as postagens diárias.
Espero a compreensão dos leitores. Voltaremos breve.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ainda as drogas...


...Muitos não sabem o que fazer

É isso mesmo. Pessoas escrevem querendo ajudar, sem saber o que fazer. Infelizmente, nós demoramos tanto a admitir que o problema das drogas tem tudo a ver com nosso dia-dia, que esquecemos de raciocinar, perdemos a motivação para buscar saídas. Atirados nas cordas, no equívoco de que o problema é da polícia, perdemos a oportunidade de conversar sobre o assunto com nossos amigos, familiares, vizinhos, professores de nossos filhos, pessoas influentes de nossas relações.
Assim, não dá outra coisa: o que fazer? É comum ouvir-se a frase: o que fazer?
A primeira resposta seria: parar de fazer o que estamos fazendo. Isto é, nada.
A partir do momento em que você tocar neste assunto e encontrar pessoas dispostas a conversar sobre ele, você descobrirá que são numerosas as famílias que têm entre seus membros pessoas viciadas. São criaturas que não conseguem passar muitas horas sem o efeito da droga. É muito pior que o vício do cigarro e do álcool.
A falta do “produto” leva a criatura a um estado tremendamente agitado e descamba para a violência. Se não tiver dinheiro para adquirir a droga, ele roubará, agredirá, matará para obter grana e trocar por droga.
Essas pessoas precisam de ajuda. Se você puder ajudar, ajude. Que tipo de ajuda? Esclarecimento e tratamento. Terá de ser internado em clínicas especializadas.
Sai caro? Sai muito caro. Mas, sempre será mais barato que continuar pagando pelas drogas e morrendo pouco a pouco.
Se você tiver amigos influentes na política, faça algo para que o Estado decida oferecer tratamento a drogados nas clínicas públicas.
Para cada drogado suprimido do consumo, um cliente a menos para os traficantes.
Você acha que é só isso que podemos fazer? Não é, não.
Esta conversa continua na próxima crônica, mas não fique só na leitura, por favor. Saia da sombra. Faça algo, agora.
Entre coisas que você pode fazer, pegue os conteúdos da crônica anterior e desta e envie para seus contatos de e-mail. Não precisa citar a fonte.
Obrigado. Assim seremos muitos a agitar esse tema.

domingo, 7 de agosto de 2011

Cadê aquele garotão especialíssimo?


Morreu? Como morreu?

Aliás, foi assassinado. Levou sete tiros e foi encontrado à beira de um caminho já em decomposição. Sem documentos, foi levado para o Instituto de Perícias para aguardar que algum familiar viesse fazer a identificação.
Filho único de mãe separada, não vivia com nenhum dos pais, tinha vida própria e às vezes ficava alguns dias sem dar notícias.
Mas, o coração da mãe estava aflito. Alguma coisa parecia avisar.
Coisa muito triste, muito deprimente, muito revoltante, em todos os sentidos.
Não foi apenas a sua família que acaba de ser atingida por uma tragédia desse porte.
O garotão (23 anos) foi induzido a experimentar a droga, repetiu, repetiu mais uma vez, começou a sentir falta dela e daí em diante passou a consumi-la diariamente, mas não tinha recursos financeiros para bancar o vício. Como era um bom menino, não queria roubar para arranjar dinheiro. Isso mesmo, era um cara legal, de bom caráter.
Tem mais. Era muito querido e admirado. Mas, caiu. Não pediu socorro.
Bem, a gente sabe que o socorro para esse caso é um grande apoio familiar e uma clínica para se tratar, mas as tais clínicas cobram muito caro. Então, sem pedir apoio e sem se tratar, restou ao garotão negociar um fiado junto do fornecedor, mas não pôde honrar o prazo para o pagamento.
Aí começa o segundo drama, o drama de outro cara, muito mais vítima que réu: o cara que faz o tráfico entre o fornecedor e o consumidor. Qual é o drama? O dono da droga mandou avisar: ou vem o dinheiro daquele bestinha ou você, que vendeu fiado, será castigado. Qual é castigo? Bem, aí a gente precisa descer ao submundo da droga e esse “buraco” é muito fundo e sai “muito caro” chegar lá.
E tem mais, o dono da droga avisa: nada de trazer aparelhos de som, celulares ou jóias para amenizar a dívida, tem de ser dinheiro vivo, nem cheque é aceito.
Só limpa a tua barra se receber ou se apagar o cara. Quer um conselho? Apaga ele pra exemplo de todos os demais.
Então o também bestinha (mais vítima que réu e geralmente com menos de 18 anos) aquele que faz o tráfico entre o fornecedor e o consumidor, torna-se, pela primeira, mas não pela última vez, assassino.
Assassino que não será julgado e nem preso pelo que fez.
Se ele ainda tinha a chance de abandonar o “serviço”, quem sabe como motoboy, cobrador de ônibus ou coisa assim, agora não dá mais, ele tem um crime na consciência e não titubeará em partir para outro, outros, outros mais.
Não foram as duas famílias atingidas, não foram apenas duas vidas destroçadas, dois jovens expulsos da vida, duas famílias enlutadas, desgraçadas, impactadas pela tragédia.
A sociedade como um todo, perdeu, perdeu muito. A primeira vítima foi para o cemitério. A segunda está a caminho. Não sem antes matar mais alguém.
Do outro lado desse submundo está o consumidor, o viciado, vítima e réu, futuro defunto. É vítima quando é induzido a provar a droga. É réu quando não pede socorro.
Do lado de cá estamos todos nós que achamos que nada temos a ver com isso.
Bem, até ontem a quase totalidade dos brasileiros, inclusive o governo, isto é, do legislativo, do executivo e do judiciário, estavam imaginando que esse é um problema da polícia. Se é da polícia, o problema não é meu, o filho drogado não é meu, o traficante eu não conheço.
Engano bestial.
É assim que o Rio de Janeiro chegou aonde chegou. No início era só o jogo do bicho, depois vieram as drogas, vieram os bingos, e tudo isso na clandestinidade. O país institucionalizou a clandestinidade, algumas disfarçadas de camelódromo, outras toleradas nas esquinas com a venda de mercadorias pirata, outras nas disfarçadas casas de jogo ou de prostituição. O que dizer das fronteiras, portas de entrada de armas e drogas? Nós não sabemos da metade dos casos de clandestinidade. Lá nos gabinetes das estatais e empreiteiras, o que acontece quando se negocia com o dinheiro público? E assim, etc. etc.
O engano bestial tem início quando o quase motoboy ou quase cobrador de ônibus pondera entre a oportunidade de ganhar 1.000,00 por mês numa atividade lícita ou ganhar isso por semana numa atividade clandestina.
Bem, já que, no geral, o processo cultural ensina que cada um vale pela grana que tem, a opção daquele jovem se dá pela atividade ilícita. E não tem volta. Se ele é experto, depois de muitos crimes, chegará a chefe de uma pequena gang. Se ele é bobinho, acabará com a boca cheia de formigas.
Enquanto isso, eu e você vamos fechando-nos em casa, erguendo muros, instalando câmeras, pondo cachorro bravo, com medo de sair à rua. Instalamos vidros fumê no carro e ficamos até meio igual ao marginal que não quer ser reconhecido quando transita. Isso mesmo, reféns por opção.
O que mais?
Aonde isso vai parar?
Mais cadeia, mais policiais, mais traficantes, mais drogados correndo atrás da droga, mais o quê? Mais tudo!
E você vai ficar aí de braços cruzados esperando que a tragédia chegue à sua porta? Será que já não chegou?
Você precisa ficar experto. Precisa escolher os jardins que quer habitar.

sábado, 6 de agosto de 2011

O por que das drogas...


...ninguém discute

Duas situações da maior relevância no contexto das drogas eu não vejo discutidas e esmiuçadas neste País maravilhoso que me serve de Pátria. Aliás, nas demais pátrias do planeta, também assoladas pelo mesmo caos, o assunto também não é abordado: por que os viciados se drogam? E cadê as clínicas oficiais destinadas a reverter a dependência?
Talvez sejamos, mesmo, incompetentes para mexer no assunto do “por quê das drogas”, da mesma forma como somos incompetentes para lidar com os conteúdos psíquicos e espirituais.
Como tudo que envolve a dimensão espiritual é de difícil comprovação, qualquer dia alguém vai pedir provas científicas daquilo que os xamãs já sabiam e já disseram há 10 mil anos passados, e que algumas fontes espirituais, ainda que timidamente, afirmam concordar.
No começo foi com o tabaco. Os xamãs o usavam em pajelanças e cerimônias sagradas, apenas. O homem branco viu, experimentou, não se sabe se gostou, mas hoje mais de 40% da humanidade acendem cigarros atrás de cigarros sem a menor cerimônia sagrada. Esse número já foi maior e diminuiu graças às campanhas governamentais de proibição, taxação e desestímulo ao vício. É, mesmo, para morrer tragando aquela fumaça, que nem mais original é, pois está infestada de componentes químicos e cancerígenos.
Em seguida foi com o álcool. Os xamãs bebiam alguma coisa fermentada durante suas invocações em lida com os espíritos ancestrais. O homem branco aprendeu a fermentar e a destilar suas bebidas e passou a consumi-las diariamente, não para celebrar as coisas sagradas, para embriagar-se mesmo, gozar a vida, perturbar-se, provocar brigas, morrer, matar.
Depois, foram as ervas alucinógenas. Os xamãs mascavam, queimavam, cheiravam, ingeriam alguma substância com poderes de provocar a alteração de consciência, dentre elas a conhecida ayahuasca e a coca. O homem branco, mesmo sem saber lidar com aquilo, passou a usá-las para viajar pelo astral e, sob o efeito delas chegar aonde chegou.
Veja bem, leitor, todos os três componentes da celebração ao Sagrado e para a aceleração da consciência, hoje, vícios da nossa sociedade, são pegos sem nenhuma cerimônia, roubados dos rituais sagrados dirigidos por experientes lidadores com o mundo espiritual, trazidos para profanação.
Todos sabemos por relatos dos viciados, que as drogas remetem para o mundo das sombras, situação em que o viciado passa a ver fantasmas, a conversar com eles, a receber deles o que se poderia chamar literalmente de obsessão.
Fazer do que estava reservado às relações sagradas uma prática em busca do prazer corporal, aleatório, sem perícia alguma, sem nenhum respeito à dimensão espiritual humana é, no mínimo, um vilipêndio.
E o pior, os viciados são tratados em 99% dos casos, apenas na dimensão corporal, cerebral, física. Somos, novamente, incompetentes para lidar o assunto.
Sabemos todos que o ser humano é um ser espiritual, que se completa na matéria. O abandono dos relacionamentos espirituais provocado pela severa perseguição imposta pela inquisição durante 700 anos, levou o homem ocidental à atrofia completa das suas janelas para o mundo espiritual. E a droga, o álcool e o tabaco, que têm uma função motora para acelerar o processo da expansão da consciência, têm conduzido os inexperientes aprendizes de viagens astrais para o lado pior dos relacionamentos espirituais. Batendo de frente com os vampiros do mundo espiritual, acabam vítimas de poderosas obsessões, das quais voltarão um dia, porém pagando uma pesada conta. E a maioria dos psiquiatras não sabe trabalhar com isso. Logo, a cura é muito mais lenta e difícil, quando não impossível.
Estas discussões a nossa sociedade e os nossos governos não estão sabendo fazer. Pois, deveriam fazer. Sem ela, o trabalho de combate às drogas será sempre capenga, incompleto.
Como também é incompleto o trabalho de prevenção à violência.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Olhar para as mulheres...


...e tentar entendê-las

O perfil de nossa sociedade realmente está mudado, mutante ou, quem sabe tudo esteja voltando a estágios pelos quais já passamos e queremos voltar. Os padrões de uma época já se foram todos para o beleléu e as maiores contribuições foram e estão sendo dadas pelas mulheres. Não bastasse a sua independência, proclamada ao sabor da pílula anticoncepcional e com a invenção da creche, o que mudou? Hoje ela ganha bem, mora bem, estuda, viaja, escolhe com quem se relaciona mas, sobretudo, já opta por viver só. Isto é, sem um homem dentro de casa ou ao seu lado, na cama. Hoje, é visto, ela prefere o silêncio e a meditação ao burburinho dos homens. Assombrosamente, para os homens, a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre, é a mulher que oferece uma extraordinária contribuição à sabedoria, à riqueza e à beleza do mundo.
Dê-se uma olhadinha para dentro das instituições de caridade e veremos que 80% dos voluntários são mulheres, mulheres que arranjam tempo, sensibilidade, humildade, coragem e fé para meter a mão na massa, cuidar de inválidos, lidar com doentes, consolar aflitos, ficar frente a frente com a morte, sem arrepiar os cabelos e sem ter pesadelos, incluindo-se aí os cargos de chefia e de síndico de seus condomínios .

Passada a jornada voluntária, empresarial ou comunitária, lá estão elas, de preferência, só consigo mesmas ou com seus bichinhos ou filhinhos, onde até entra o namorado, marido ou namorido, “pero nó mucho”, como diriam os hispânicos. Elas conseguem, não se sabe como, distrair-se consigo mesmas ou com muita pouca coisa, sem os ruídos que são especialidade dos homens. Revelam densidade interior, mostram que mais que os homens, cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem ou não têm interesse por conta do processo cultural equivocado.

A sensibilidade feminina só depõe contra elas quando as emoções mal resolvidas resolvem criar chagas em seus corpos. Pacientes das doenças emocionais são, infelizmente, maioria mulheres. Voltadas para dentro, lhes dói dentro, enquanto a maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. O homem parece despejar seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta, transformando o que pode transformar para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói, mas talvez ele não saiba disso, ainda.

A cultura masculina por necessidade de guerra se fez gregária, mundana, ruidosa, realizadora, também, claro. É mais fácil unir homens em torno de uma luta comum.
Por não ter com quem dividir seus afazeres, desde a noite dos tempos, a mulher atrita mais fácil no trabalho, a começar pela doméstica que fique sob suas ordens. Mas, se tiver algo para ser feito, bem feito, com detalhes, com carinho, com enfeite, com beleza, com sutileza, entreguemos a elas. Elas se preenchem servindo. E nós, homens, com raras exceções, freqüentando clubes, catedrais, congressos, estádios...
Só há um reparo: o mundo está se tornando masculinizado e uma parte das mulheres está embarcando nesse trem e fazendo barulho também. Aquela parte das mulheres não optante por servir, juntamente com a homarada, está sublimando as dores íntimas em fanfarras externas. É um número considerável de mulheres seguindo os caminhos dos homens e voltado para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade, da mídia e de todos que faturam alto com o breque da evolução.
A sociedade de consumo só se sustentará se as maiorias circulem e adquiram as tentações expostas. Logo, se aumentar o número dos que ficam em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana?
O apelo é para que sejamos, todos, superficiais, e nos contentamos com isso, felizes por gastar, por dever, por fazer barulho, por entorpecer-se a toa.
Parece que a opção de muitas mulheres entre as outras masculizadas, e com isso não estou afirmando que elas não frequentem shoppings e tenham parado de consumir, ainda que sejam uma minoria (?), a opção, disse eu, vem ao encontro de colocar um pouco de harmonia nessa bagunça que toma conta da nossa sociedade.
Gostaria de poder afirmar, como tenho meditado, que se a humanidade teve início (simbólico) no ventre da primeira mulher, ela é a Deusa. E talvez caiba a ela dar um jeito na bagunça que a filharada criou. Bem-vindas as deusas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Saúde, Sabedoria e Riqueza...


...com certeza um sonho de vida

Quem teria coragem de excluir de seu sonho de vida a Saúde, a Sabedoria e a Riqueza?
Esclareço, desde logo, que os valores referidos estão grafados com letras maiúsculas não sem propósito. Ao destacá-los em letras maiúsculas, quero significá-los além do comum. Não estou me referindo apenas àquelas situações de altos e baixos em longevidade, nem de algum título de formação universitária e muito menos de algumas posses financeiras que nos abandonam num incêndio, numa tempestade, num terremoto, pelo calote ou coisas assim. Trata-se de muito mais.
É evidente que as grandes massas integrantes da civilização que construímos, ou que construíram para nós, enquanto nós escolhemos ser o “camarão que a onde leva”, e nos transformamos em seres aculturados e condicionados a nivelar por baixo, a exigir pouco, a dar pouco de si, a contentar-se com o medíocre, a votar no mais simpático, a aceitar a mediocridade dos serviços públicos e até mesmo dos serviços privados.
Saúde, por muitos séculos, era viver 50 ou 60 anos. As pessoas com mais de 50 anos eram velhas, portavam-se como velhas, morriam cedo. Quantos e quantos de nós não conhecemos nossos avós? Eles faleciam antes que os netos chegassem...
Ainda hoje, para muitíssimos de nós, saúde é ter um bom plano de saúde e visitar muitos consultórios, ambulatórios e hospitais por ano.
Na verdade, a cura física, emocional, intelectual e psíquica passou a fazer parte do conceito de saúde universal, através da Organização Mundial de Saúde, há menos de 30 anos.
Uma pessoa portadora de doença congênita ou adquirida, triste, desinformada e estressada ou deprimida, por mais assistência que receba, por mais que viva 80 anos, não pode ser considerada saudável.
O mesmo se pode falar dos títulos acadêmicos, das pós-graduações, do acúmulo de conhecimentos e teorias. Isso jamais pode ser entendido como sabedoria se, apenas, estão ali armazenados e em nada contribuem para a vida do portador e da sociedade onde o portador se insere.
Mais ainda se pode argumentar quanto à riqueza expressa por números de propriedades ou contas bancárias, coisas que, em geral, só servirão para brigas e desavenças de herdeiros a partir do óbito do titular, mesmo que ele tenha feito muito bom proveito em conforto, viagens e luxo.
Em algumas culturas espiritualistas se fala que a vida se mede por três critérios: o critério de comprimento, que é a longevidade; o critério da largura, que é a felicidade; e o critério da altura, que são os ganhos espirituais, o capital não financeiro, aquele capital que vai com a alma para o plano maior.
É óbvio que viver segundo estes critérios implica em Saúde, Sabedoria e Riqueza, todos com inicial maiúscula. Compreendeu, leitor?
E dá para complementar com alguma certeza que a Saúde (plena) depende de nossa vontade e de nossa fé. A Sabedoria (útil) depende da informação e da experiência. A Riqueza (perene) depende do trabalho e da inteligência. Mas, não só: todas as três dependem do foco que queiramos dar aos nossos objetivos. O criminoso, por exemplo, pode pautar sua vida por ter saúde, sabedoria e riqueza e, no entanto, será um fora da lei com sérios problemas a resolver com a justiça dos homens e de Deus.
O ser que investe para ter Saúde, Sabedoria e Riqueza para todo o sempre, ad eternum, certamente, tem focos muitos seguros e muito nobres.
Este ser não necessita de respeitar as leis apenas quando está sendo filmado ou quando presume que está sendo fiscalizado.
Então, se posso propor um brinde entre nós e se você entender que somos digno disso, celebremos a nossa Saúde, nossa Sabedoria e nossa Riqueza!! Tim, tim!!