sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Era da Imaginação (V)


Os pecados capitais ditam a cultura

Por mais que as religiões insistam em apontar os malefícios de sete não virtudes, chamadas de pecados capitais, é exatamente sobre eles que a cultura repousa. Quem seria temerário afirmar que a riqueza ocidental não se vale da avareza, da gula, da inveja, da luxúria, do orgulho, da preguiça e da ira? Retire-se do fundo cultural qualquer uma dessas não virtudes e veremos as conseqüências: um turismo de restaurantes vazios; uma queda vertiginosa na venda de carros novos; apelos sexuais sem grande atração; redução na venda de instrumentos que substituem a ação humana; filmes sem os atrativos que incitam a ira e a violência. E muita coisa mais sofreria perdas.
Que coisa, não? Só nestas poucas dezenas de palavras está demonstrada a ameaça ao declínio de grande parte da economia do ocidente.
Como querer falar de imaginação sem o brilho das mesas fartas, dos carrões, das viagens, dos prazeres todos, da adrenalina toda, do conforto estonteante?
Apesar da velocidade com que as mudanças profissionais se impuseram ao mundo, é preciso estarmos atentos a duas importantes atitudes para poder conduzir nossas vidas dentro de um certo padrão de equilíbrio.
Uma dessas atitudes está muito bem demonstrada num trecho do livro – O Espírito do Trabalho, de Stephan Wyszynski, em que ele caracteriza nos seres humanos uma exagerada ambição, que tem muito de orgulho e inveja: somos vítimas da impaciência revolucionária que tudo deseja, e deseja imediatamente, para ontem. Assim se explicam as revoluções, que têm em mira resultados gigantescos e imediatos à custa, muitas vezes, da violação das leis naturais, onde se inclui a degradação ambiental e a erosão social. E, contudo, a História ensina-nos que não é a revolução, mas sim o trabalho humano constante e tranqüilo que nos impele no caminho do progresso. Desgraçadamente, o homem confia demasiado nas forças da revolução e destrói prematuramente as suas próprias forças, escravizando-as à febre de criar. Deseja alcançar no mais curto espaço de tempo possível tudo aquilo que só pode dar fruto completo dentro dos limites estabelecidos pelas leis naturais. Cria-se muito, mas sem valor, com a ilusão mentirosa de que a quantidade pode fazer as vezes da qualidade. A estatística mata-nos, subjuga-nos e desmoraliza-nos com a fascinação dos números. Estamos sempre a perguntar: "Quanto?" e esquecemo-nos do "Como?". Esta situação é a origem da superprodução desnecessária que não satisfaz, nem de longe, as necessidades de tantos famintos e nus, e que se constitui na exploração irracional de uns bens que deveriam ser conservados para as gerações futuras. A cura desse mal advirá justamente quando a pergunta "quanto" se veja substituída por "como" ou seja, quando nos pusermos acima do êxito momentâneo.
A outra atitude diz respeito à ética, ou seja, à atitude que deve pautar nossas vidas, nossas disputas nessa sociedade globalizada, altamente competitiva e que induz as pessoas ao individualismo exacerbado, diga-se egoísmo, esquecendo-nos da preocupação com o "Outro".
Motivados por números, vamos endurecendo a emoção, empanturrando o intelecto com 90% daquilo que é puramente lixo, vamos acelerando a vontade na direção contrária da realização plena, vamos matando o sonho de viver e vamos tornando miserável a única dimensão humana que sobreviverá a tudo: o espírito.
Escolhemos, quase só, a felicidade proporcionada pelo comer, beber, rodar num carro luxuoso, morar numa cobertura, gozar constantemente, acumular posses, derrotar os concorrentes, comprar a dinheiro a fidelidade dos outros, ainda que este outro seja o nosso cônjuge. Quando não há dinheiro para tudo, a primeira coisa a fazer é separar, divorciar, romper, continuar brigando pelo dinheiro que restou.
Os indicadores de eficiência e eficácia e até dos índices de desenvolvimento humano, não levam em conta a satisfação, a felicidade, a realização, mas sim, os números. Se os números são baixos, estamos “infelizes”; se os números são altos, estamos “felizes”, ainda que dentre esses números estejam cifras indesejáveis como os coeficientes de colesterol, diabetes, aterosclerose, senilidade precoce, cânceres múltiplos, mortes por acidentes, crimes contra a vida e a natureza, aquecimento global, corrupção e degradação.
O alegado efeito motivador, até para a luxúria, é o dinheiro.
Pela posse do dinheiro se cometem 95% dos crimes anotados pelas Polícias.
O maior objetivo dos homens é a posse do dinheiro. E atrás dele desfilam as sete não virtudes, chamadas de pecados capitais e que ditam a moda cultural de toda uma sociedade.
Cadê a evolução espiritual? Imaginação, por certo, inclui a alma.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Era da Imaginação (IV)


Muda a sociedade, mudam as profissões

Nós não aprendemos a conceituar a escola como uma grande central de idéias e contribuições para o que seja melhor para a existência e para a vida. Nós não encomendamos isso à escola. Esse papel está com as empresas e as empresas criam o que seja melhor para o seu lucro. E, de lambuja, investem dinheiro nas pesquisas, maioria delas via escolas superiores, mas com o olhar fixo nos cifrões. E a criatividade, que não tem limites e poderia exigir da escola, da sociedade, do mercado, mudanças, mudanças, transformações, metamorfoses, faz o que? Está presa apenas àquilo que dá lucros.
Diante desses quadros de constantes alterações, é óbvio que também as profissões passassem por um processo de mutação bastante espetacular. Dado o maior valor atribuído ao conhecimento, à cultura, à arte e à estética, encontramos como profissões em alta: a fotografia, o design, a moda, a culinária, a hotelaria, os conteúdos associados à literatura, a engenharia clínica, a informática médica, o direito internacional, as línguas, entre muitas outras.
No perfil do profissional do futuro, ficaram valorizadas as seguintes características: formação - global e sólida; conhecimentos extras - computação, domínio de várias línguas; polivalência - condições de atuar em várias áreas; cultura ampla - domínio de informações culturais e tecnológicas; capacidade de inovação - predisposição para mudanças; atualização - reciclagem contínua dentro da atividade; capacidade analítica - postura crítica, interpretação antecipada (proatividade) das necessidades futuras da sociedade e do mercado; interação - emoção e razão integradas facilitando o desempenho como um todo; inteligência espiritual – pela primeira vez em séculos aparece a expressão “inteligência espiritual”, abrindo a porta para os estudos daquilo que até chegou a ser negado pela Universidade, o espírito.
Assim, as carreiras que passaram a ter maior procura foram: Engenharia clínica - cada hospital passou a precisar de um profissional para cuidar da manutenção de instalações e equipamentos, garantir o uso de todo o potencial e reduzir custos: hoje, 70% da rede nacional tem necessidade de um engenheiro clínico; Direito do consumidor - a conscientização dos direitos do consumidor e a conquista da cidadania aumentam as oportunidades de atuação do profissional dessa área; Direito internacional - tendência mundial à globalização e internacionalização de recursos demanda especialistas nas relações entre os países; Informática médica (medicina não-invasiva) – a sofisticação de aparelhos e equipamentos de alta tecnologia destinados a auxiliar profissionais da saúde na área passou a exigir a presença de técnicos neste setor; Oceanografia - a necessidade da exploração de recursos naturais coloca em alta o mercado esse profissional especializado no estudo do comportamento do mar e suas particularidades capazes de ampliar em muito a oferta de matérias-primas; Engenharia Ambiental e Sanitária - no trabalho de preservação da flora e da fauna e nos órgãos de fiscalização e no desenvolvimento de técnicas industriais e na exploração da maior parte das riquezas do planeta, possivelmente ainda ligadas aos mares, às minas e aos recursos florestais; Engenharia de alimentos - a produção em grande escala de alimentos industrializados com baixo custo é uma das exigências mais importantes em todo o mundo. Preparar uma alimentação mais saudável e isenta de produtos químicos é a tarefa desse profissional; Voluntariado – as características inerentes a quem se doa em frentes de serviços voluntários ou caritativos passaram a ter destaque nos currículos dos profissionais.
Apesar de apontada como fator decisivo para a nova era, a Educação vem sofrendo rudes golpes. Acomodada na confortável posição de formar apenas, sem muito compromisso com o mercado, ela tem sido chamada a reciclar-se e avançar, avançar junto com o aluno, que também se modifica, abandonando a idéia de estar formado e só. Sua formação passou a ser contínua, como reflete Tom Peters sobre as características da nova educação e do novo educando:
1. A educação não termina com o último certificado que você consegue obter;
2. Estudar a vida toda é uma necessidade numa sociedade baseada no conhecimento;
3. A educação é o "grande jogo" que se deve jogar (e vencer) na economia global.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Era da Imaginação (III)


Um capital não financeiro, porém...

Para acompanhar este novo processo de desenvolvimento do mundo onde os serviços e a criatividade dão o tom, o capital físico perde grande parte da sua importância como variável-chave do crescimento econômico. É isso, perde lugar hoje para o chamado capital humano, representado pelo conjunto de capacitações que as pessoas adquirem através da formação, de programas de treinamento e da própria experiência para desenvolver seu trabalho com competência, bem como pelo desenvolvimento de várias competências do ponto de vista profissional.
Passamos por tantos paradigmas na área dos chamados Recursos Humanos, até chegarmos à teoria do Capital Humano, desenvolvida na década de 60 por dois economistas (Theodore Schultz e Gary Becker) que acabaram por receber o prêmio Nobel. Segundo essa teoria se pode dizer de forma resumida que o progresso de um país é impulsionado pelo investimento em pessoas, diga-se educação, treinamento, capacitação, saúde, cultura, lazer.
Essa nova sociedade que se formou, e que teve por base o capital humano ou intelectual, chamada de Sociedade do Conhecimento, seu motor são as idéias. Portanto, passam a ter grande importância os grupos ou centros de pensamento para a discussão de idéias. Esses centros têm por objetivo a construção de um mundo, de uma sociedade, mais saudável do ponto de vista econômico e social, que possa desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Ao invés de ganhar muito com remédios vendidos para uma população doente e que morre cedo, a descoberta foi vender muito outras coisas a quem fique muito tempo vivo consumindo.
No meio dessa disparada rumo ao homem do Terceiro Milênio, onde até mesmo a fé é um componente, surge a tentativa européia recente de amenizar os aspectos negativos da globalização, sobretudo do ponto de vista social. O pensar é, pois, o grande diferencial entre as pessoas e as sociedades. Por isso, o principal papel da educação nesse processo é o de fazer os alunos pensarem. Pensarem?
Sim, porque pensar é aprender a ser livre, responsável e honrado. Pensar é esforço, criatividade e também pode ser inconformismo para com o mundo e também para consigo mesmo. Pensar é duvidar e criticar, é apontar falhas e acertos, é elogiar o bom e condenar o mau, não de forma altaneira ou presunçosa, senão por desejo do bem comum. Pensar é ter o tempo de poder fazê-lo. Pensar não é repetir ou reproduzir. Pensar é ativar o que de nobre há no ser humano, porque pensar e também sentir e intuir. A frase de Descartes merece ser relembrada: "penso, logo existo". E se existo, vivo, sou. Viver é encontrar seu próprio caminho e evitar permanentemente a tentação do fácil. O fácil é não pensar. Ser é mais que existir ou viver. Ser é também pensar, mas acima tudo de contribuir para com o que seja melhor para a existência e para a vida.
Então, a escola precisa se transformar, portanto, numa grande central de idéias e contribuições para o que seja melhor para a existência e para a vida.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A Era da Imaginação (II)


Sociedades são pátrias e as duas são cultura

Não há como mudar padrões de cultura sem afetar países. Com o advento dessa nova era pós-industrial, mudaram também os países. Alguns países menos desenvolvidos não produzem produtos pós-industriais, mas produtos agrícolas e industriais. Consomem, no entanto, produtos agrícolas, industriais e pós-industriais. Consomem telenovelas, jornais, moda, cinema, serviços os mais diversos. Alguns deles já são pós-industriais também na produção. Outros, só no consumo. A cultura e os hábitos e costumes num mundo globalizado abre a vida das pessoas à cultura e a toda sua criatividade — e ao fluxo de idéias e conhecimento. A marcha galopante das coisas vai levando de roldão velhos hábitos e costumes. Com a globalização, uma nova cultura está em curso trazida pela expansão dos mercados mundiais. Os novos costumes parecem impor regras de comportamento. A diversão entra pelo fio ou pela onda e as pessoas se tornam lareiras. Não, o termo não se refere ao lugar onde fazemos fogo para aquecer o ambiente, se refere a ficar em casa. É a regra. Gandhi já profetizava algo que ele, profundo observador, captava com maestria: "Não quero que a minha casa fique cercada de muros e que as minhas janelas fiquem fechadas. Quero que as culturas de todas as terras soprem sobre a minha casa tão livremente quanto possível. Mas recuso-me a ser derrubado por qualquer uma delas". Não se pode dizer que os muçulmanos africanos estejam exigindo a queda dos ditadores com base no Alcorão. Também não porque a economia de seus países se modificou. Os ventos tecnológicos levaram até eles os sinais da Internet e o vendaval da comunicação livre derrubou os seus ditadores.
Antes, só era a economia que pesava. Hoje, o fluxo cultural é desequilibrado, pesando fortemente numa direção, a dos países ricos para os pobres. Os produtos leves — com elevado conteúdo de conhecimento mais do que os de conteúdo material — transformaram-se em principais alavancas de negócios com alto retorno. A maior indústria exportadora dos Estados Unidos da América não é a dos aviões ou dos automóveis, é a do entretenimento — os filmes de Hollywood faturam mais que as de bens de consumo. São mercadorias que não ocupam lugar nos navios, a sua entrega não é absoluta, é a cópia que é vendida. A expansão das redes globalizadas de mídia e das tecnologias de comunicação por satélite dão origem a um novo e poderoso meio de alcance mundial. Estas redes levam o autor-produtor a cidades remotas — o número de televisores por 1.000 pessoas quase triplicou entre 1980 e 2005. E a difusão das marcas mundiais estabelece novos padrões sociais de Bali a Praga, de Caracas ao Rio de Janeiro.
Aqui entra uma preocupação entre os sociólogos. Seria isso um assalto da cultura estrangeira sobre as culturas locais? Poderia isso colocar em risco a diversidade cultural e levar às pessoas o receio da perda da sua identidade cultural?
É necessário e prudente apoiar as culturas nativas e nacionais para que floresçam lado a lado com as culturas estrangeiras?
Mas, não é só. Com isso, muda, também, a Divisão Internacional do Trabalho. Estão se formando grupos de países hegemônicos (G7, G8, G12, G20, etc.). Daí ser possível dizer que o mundo é governado por uma minoria de países? Parece que sim, mas dentre eles destacam-se Japão, Alemanha e EUA.
As guerras e os ditadores desaparecerão por conta das inovações no modo de pensar e comportar-se das multidões. O mundo não será mais dividido por ideologias, mas por tecnologias.
Com o fim da Guerra Fria, desfizeram-se as antigas divisões ideológicas. Virtualmente todos os países proclamam adesão aos mercados globais. Mas se instaura uma divisão mais inabordável, desta vez de natureza tecnológica. Uma pequena parte do planeta, responsável por cerca de 15% de sua população, fornece quase todas as inovações tecnológicas presentes em todos os demais. Uma segunda parte, que engloba talvez metade da população mundial, está apta a adotar essas tecnologias nas esferas da produção e do consumo. A parcela restante, que cobre por volta de um terço da população mundial, vive tecnologicamente marginalizada — não inova no âmbito doméstico, nem adota tecnologias externas.
E a imaginação vem acelerando atrás...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Era da Imaginação (I)


Depois da Era Pós-industrial

É isso, estamos no depois do depois. Magistral talvez seja acordar depois da festa sem ressaca. Enfrentar o dia seguinte da batalha sem dores. Olhar para o horizonte e não ver nuvens negras ameaçadoras. Isso tudo se pode imaginar, desejar, projetar, buscar, conseguir, ampliar, multiplicar.
A rigor, teria que ser por aí a concepção de um novo paradigma, como tantos que já foram e agora com o nome de Era ou Idade da Imaginação, em seqüência às eras que foram: a Pastoril, a Agrícola, a Industrial e a da Informação.
A idade imaginação foi um tema introduzido pela primeira vez como uma filosofia cultural e econômica pela jornalista, escritora, artista e filósofa cultural, Rita J. King, em 2007, num ensaio para o “British Council” intitulado “O Surgimento de uma Nova Cultura Global na Idade da Imaginação”, melhorado noutro ensaio, de 2008, intitulado: "Nossa Visão Sustentável da Cultura na Era da Imaginação" em que expõe os embates futuros a serem trazidos pelo choque de culturas abrangentes frente às culturas locais. Mas, por ser especialista em economia, deu maior ênfase ao fator econômico (que também tem importância), deixando em segundo plano os fatores sociais, religiosos e políticos. Retornaremos a isso, adiante.
Com alguma precisão, pode-se dizer que a sociedade pós-industrial nasceu com a Segunda Guerra Mundial. Foi, a guerra, a grande impulsionadora da pesquisa, inclusive quanto a recuperação de soldados (a medicina atual deve muito à guerra), mas muito também com o foco na tecnologia da comunicação, da espionagem, do planejamento, da estratégia. O planejamento estratégico das empresas se inspirou nos gabinetes dos generais, almirantes e brigadeiros.
A partir do aumento da comunicação entre os povos, com a difusão de novas tecnologias e com a mudança da base econômica, foi nascendo um tipo de sociedade já não baseada na produção agrícola pesada, nem na indústria de base, mas na produção de informação, serviços, símbolos (semiótica) e estética.
Entrava em campo a mídia e com ela a manipulação da vontade via marketing e da criação de tendências via opinião, via ideologia e até a fé se beneficiou disso com a criação de poderosas redes de convencimento religioso. Os ditadores (de todos os ramos não só da política) que, antes da mídia, serviam-se da desinformação e da ignorância, agora já podem torcer os fatos, iludir a ótica crítica, perpetuar-se no poder, mesmo em regimes eleitoreiros e mais ainda em ditaduras onde o dirigente não é ungido pelo voto, mas “outorgado”. Nasciam as gangues de poder via partidos políticos ou sindicatos de dominação e via igrejas e outras organizações.
A sociedade pós-industrial provém de um conjunto de situações provocadas pelo advento da indústria, entre elas a farmacológica, tais como o aumento da vida média da população, o desenvolvimento tecnológico, a difusão da escolarização e difusão da mídia.
A sociedade pós-industrial se diferencia muito da anterior e isso se percebe claramente no setor de serviços, que absorve hoje cerca de 60% da mão-de-obra total, mais que a indústria e a agricultura juntas, pois o trabalho intelectual é muito mais freqüente que o manual e a criatividade, mais importante que a simples execução de uma tarefa ou operação de uma máquina. A indústria abandona a era a padronização das mercadorias e da especialização do trabalho, para ingressar naquilo que conta: a qualidade da vida, a intelectualização e a desestruturalização do tempo e do espaço, ou seja, fazer uma mesma coisa em tempos e lugares diferentes (simultaneidade).
Mas, como já dissemos, não se iluda, leitor: a quase totalidade das reflexões sobre a Era da Imaginação estão voltadas para a atividade fabril. A corrida tecnológica esqueceu de que imaginação é construção, concepção, idealização, invenção não só no terreno da fabricação, como se deu com a maioria das universidades, que querem ensinar para o trabalho e nem isso conseguem. Porém, deixemos os teóricos da Imaginação fazer o seu discurso fabril e depois retornemos àquilo que eles abandonaram: o espírito de representar a imagem.
A era Pós-industrial é conhecida também como a era da Informação e do Conhecimento. Coisas que são diferentes. É preciso saber distinguir informação de conhecimento.
Richard Crawford elucida bem isso através de um trecho extraído do livro Na Era do Capital Humano: “Um conjunto de coordenadas da posição de um navio ou o mapa do oceano são informações; a habilidade para utilizar essas coordenadas e o mapa na definição de uma rota para o navio, é conhecimento. As coordenadas e o mapa são as ‘matérias-primas’ para se planejar a rota do navio. Quando você diferencia informação de conhecimento é muito importante ressaltar que informação pode ser encontrada numa variedade de objetos inanimados, desde um livro até um disquete de computador, enquanto o conhecimento só é encontrado nos seres humanos. (...) Somente os seres humanos são capazes de aplicar desta forma a informação através de seu cérebro ou de suas habilidosas mãos. A informação torna-se inútil sem o conhecimento do ser humano para aplicá-la produtivamente. Um livro que não é lido não tem valor para ninguém”.
Outro grave perigo é o excesso de informação. Wilson Gazino, editor da Gazeta do Povo, de Curitiba, no artigo “O ‘Esquecedor’ e a Sociedade da Informação” tece comparativos com o que se dizia antigamente e com o que hoje é imposto à sociedade da informação. “O homem, definido pelo poeta clássico, grego, Píndaro, como "aquele que esquece", "o esquecedor", pensou que a máquina poderia ajudá-lo a lembrar. Mas a máquina multiplicou o número de informações com que o homem lida a cada dia, chegando a níveis absurdos. Hoje uma pessoa pode ter acesso num só dia a um número equivalente de informações que um sujeito teria a vida inteira na Idade Média”.
Segundo uma pesquisa recente feita pela Price Waterhouse, o volume de conhecimento necessário para se manter atualizado no mundo dos negócios dobra a cada ano. (...) Os cérebros se tornam verdadeiras esponjas, onde a informação entra num momento e, já descartável, é atirada ao lixo da memória logo a seguir. As pessoas se expõem ao estresse informativo, recebendo esse bombardeio desordenado, sem ter controle sobre isso e sem saber como se proteger, ou pelo menos, como selecionar isso de maneira correta.

domingo, 25 de setembro de 2011

Afinal, Deus existe? Visões Antagônicas (conclusão)


Recapitulação

Saímos lá no primeiro capítulo desta série, em busca de uma demonstração terminante, substancial, decisiva, da inexistência de Deus segundo tese de um ateu e de uma explicação convincente da tese contrária, segundo um gnóstico. O ateu crê ter cumprido a promessa. O gnóstico afirma ter ganho o confronto.
O ateu, porém, ainda pede para dizer mais coisas. Não percais de vista que eu não me propus dar-vos um sistema do Universo que tornasse inútil todo o recurso à hipótese de uma Força Sobrenatural, de uma Energia ou de uma Potência Extramundial, de um Princípio Superior ou Anterior do Universo. Tive a lealdade, como era o meu dever, de vos dizer com toda a franqueza: apresentado, assim, o problema não admite, dentro dos conhecimentos humanos, nenhuma solução definitiva; e que a única atitude que convém aos princípios refletidos e razoáveis é a expectativa.
O Deus que eu quis negar e do qual posso dizer que neguei sua possibilidade de existência, é o Deus das religiões, o Deus Criador, Governador e Justiceiro, o Deus infinitamente sábio, poderoso, justo e bom, que os padres e os pastores se jactam de representar na Terra e que tentam impor sua veneração aos fiéis.
Não há, não pode haver, é equívoco. A esse Deus são dirigidos meus ataques.
Toda a discussão sobre outro terreno — e previno-vos disto, porque é necessário que vos ponhais em guarda contra as insídias do adversário — será apenas uma diversão, e, ainda mais: a prova provada de que o Deus das religiões não pode ser defendido nem justificado.
Provei que Deus, o da Bíblia, como criador, é inadmissível, imperfeito, inexplicável; estabeleci que Deus, como governador, é inútil, impotente, cruel, odioso, despótico; demonstrei que Deus, como justiceiro, é um magistrado indigno, pois que viola as regras essenciais da mais elementar equidade.
O gnóstico comparece para, um tanto moderadamente, concordar em muitas coisas com o ateu e também afirmar que este Deus, o da Bíblia, é insustentável. Não passa de uma invenção humana, pobre, destituída de fundamento científico, não indo além de uma lenda, dessas que se conta às crianças. Lembremos, porém, que o Deus defendido pelo gnóstico é o Ser Planejador, Formulador, dotado de Superior Inteligência, cada dia mais referendado pelos estudos científicos. E mais: Ele não estava na inércia quando teve início o Universo que imaginamos, pois este pode ser uma de suas obras. Nada sabemos sobre esta, mas já existem indicações científicas da possibilidade de existência de universos paralelos. Se diz, mesmo, que o correto seria entender UNI e VERSO, ou a frente e o verso.

Conclusão

A primeira lição que nos é passada, é que enquanto os cientistas vão avançando, queiram eles ou não, mediante a aceitação ou não da hipótese da existência de um Deus (que não conhecemos ainda), repito, à medida que o conhecimento avança, as escrituras sagradas vão se tornando conhecimento ultrapassado. Uma premissa que não pode ser abandonada é a de que as chamadas escrituras sagradas são obras dos homens. Inspirados pela divindade, mas com o concurso da mente humana. Quanta coisa a divindade deve ter tentado informar e quanta coisa a limitada mente humana não teve capacidade de captar?
O Deus que, desde tempos imemoriais, nos têm ensinado e que ainda hoje se ensina às crianças, tanto nas escolas como nos lares e nos templos, é causa de profundos desajustes no imaginário dos seres humanos. E os crimes que se tem cometido em nome dele?! Quanto ódio, guerras e iniqüidades têm sido furiosamente desencadeados pelos seus representantes ou por governantes que se intitulam agir em Seu nome?! Esses efeitos não podem ter tido causa em Deus. Não temos, não podemos ter um Deus de tantos sofrimentos! A causa, a autoria de tantas tragédias é o homens e não é a proposta desse Deus de Amor e Paz que se mostra pra nós através de toda a outra natureza, inclusive humana, mas especialmente esta, a humana, cheia de coisas para aprender.
Há quantos séculos as religiões trazem a humanidade curvada sob a crença, espojada na superstição, prostrada resignadamente na crença de que a mão de Deus dirige os homens?
Não chegará jamais o dia em que, deixando de crer na justiça eterna, nas suas sentenças imaginárias, nas suas recompensas problemáticas, os seres humanos começarão a trabalhar com um ardor infatigável pelo advento de uma justiça imediata, positiva e fraternal sobre a Terra. Desse jeito, não! Com estas mensagens, não!
Não soará jamais a hora em que, desiludidos das consolações e das esperanças falazes que lhes sugere a crença de um paraíso compensador, os seres humanos comecem a fazer do nosso planeta o Éden de abundância, de paz e de liberdade, cujas portas estejam fraternalmente abertas para todos. Esta mensagem é pobre e destituída de fundamento.
Não haverá jamais um inferno em chamas a espera dos maus comportados onde arderão por toda a eternidade. Esta mensagem é burra.
Viajamos por conta dessa pobreza e dessa burrice, destituída de um mínimo de sabedoria e responsabilidade, sobre um contrato social inspirado num Deus sem justiça, e numa justiça sem Deus. Há muito tempo que as relações entre os países e os indivíduos se assentam num Deus sem filosofia, como há muito tempo que elas se assentam numa filosofia sem Deus. Há muitos séculos que monarcas, governos, castas, padres, condutores do povo e diretores de consciências, tratam a humanidade como um vil rebanho de cordeiros, para, em último lugar, serem esfolados, devorados, atirados ao matadouro sem nenhuma contribuição à evolução dessas almas.
Há séculos que os deserdados suportam passivamente a miséria e a servidão, graças ao milagre procedente do Céu e à visão horrorosa do inferno. É preciso acabar com este odioso sortilégio, com esta burla abominável.
Tu, leitor, que me lês, abre os olhos, examina, observa, compreende. O Céu de que te falam sem cessar; o Céu com a ajuda do qual procuram insensibilizar a tua miséria, anestesiar os teus sofrimentos e afogar os gemidos que, apesar de tudo, saem do teu peito, é um Céu irracional, um Céu deserto. Só o seu inferno é que é povoado, esse, sim, é positivo. Mas, entenda: este inferno está aqui, anterior à morte do corpo.
Vamos parar de nos lamentar. Os lamentos são vãos! Basta de postergações: as postergações são intermináveis! Basta de preces: as preces são impotentes!
Levanta-te, homem! Levanta-te, mulher! É um direito seu, é uma altivez sua, declarar guerra implacável a este “deus” fajuto que há tanto tempo impõe a você e a todos os demais que nele crêem uma veneração embrutecedora!
Desembaraça-te deste tirano imaginário e sacode o jugo, livra-te disso e daqueles que pretendem ser os representantes dele na Terra!
Mas, lembra-te bem, que, com este gesto de libertação, não terás cumprido senão uma das tarefas de que te incumbes.
Não te esqueças de que de nada servirá quebrar as cadeias que os “deuses” imaginários, “celestes” e “eternos”, têm forjado contra ti, se não quebrares igualmente as cadeias que, contra ti, têm forjado os “deuses” passageiros da Terra.
Estes deuses giram em torno de ti, procurando envilecer-te e degradar-te. Estes deuses são homens como tu.
Ricos e governantes, estes deuses da Terra tem-na povoado de inúmeras vítimas, de tormentos inexplicáveis.
Possamos, enfim, um dia, adquirir consciência do quanto fomos ingênuos, crianças tolas, acreditar em coisas que viriam de fora para acorrentar a nossa vontade, enquanto nossas almas gritavam por socorro. Tenhamos a capacidade de nos insurgirmos contra esses verdugos e partirmos para a fundação de uma sociedade/humanidade livre desses monstros vampiros de almas.
Quando te tiveres emancipado dos deuses do “céu” e da “terra”, quando te tiveres desembaraçado dos chefes de cima e dos chefes debaixo, quando tiveres levado à prática este duplo gesto de libertação, então, mas então somente, ó meu irmão, sairás do inferno em que te encontras para entrar no Céu que tu realizarás! Deixarás as trevas da tua ignorância, para abraçar as puras claridades da tua inteligência, despertada, já, das influências letárgicas das religiões!
O teu verdadeiro Deus espera por ti no topo da montanha da dignidade aonde chegarás depois de te despojares das tuas impurezas.
Quando conseguires andar pela vida em beleza, sem temer pela presença do fiscal, do guarda ou da câmera, erguerás o teu rosto diante do Deus Verdadeiro e dirás: entendi a Sua mensagem, combati o bom combate, não excluí, agreguei, derrotei o meu ego.
Se, para isso, precisares de mentor, treinador, motivador, animador, cuida para que ele não se aposse de tua alma, nem de teus bens. Cuida para que ele não te escravize pela mente.
Ao concluir esta série, que espero ter trazido luzes sobre os argumentos polêmicos diante das visões que fazemos de Deus, cabe um crédito maior aos argumentos ateus, que tiveram por escudo os escritos de Sebastien Faure, francês nascido em 1858 e falecido em 1942. Filho de uma família burguesa e muito conservadora, recebeu ensino em um estabelecimento religioso. Os dirigentes do colégio, padres jesuítas, detectaram nele inteligência e vocação para seguir o “caminho de Deus”, e, aos dezessete anos entrou para o noviciado. Foi um noviço exemplar. Por dezessete meses se aprofundou numa fé rigorosa e cega. Até que num dia recebeu um telegrama dizendo que seu pai estava gravemente doente. Visitou o seu pai, que disse-lhe que devia deixar a sua vida religiosa para sustentar a família. Voltou à sua vida normal e, com o tempo, foi vendo a farsa em que ele estava acreditando. Tornou-se ateu e anarquista, pelo qual lutou por quase toda a sua vida.
Os argumentos gnósticos tiveram o escudo de uma dezena de obras que tratam da Gnose.
O leitor, porém, deve ter percebido que, entre o conhecimento gnóstico, que tem respaldo científico, e as ponderações meramente científicas do ateu, não há um abismo intransponível. A crise se instala quando os religiosos querem impor à ciência os dogmas retirados das escrituras ou decretos emitidos pelas congregações religiosas.

sábado, 24 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (X)


Deus escapa-nos!

Dizem-me os deístas (ao ateu):
“O senhor não tem o direito de falar de Deus conforme o faz. O senhor não nos apresenta senão um Deus caricaturado, sistematicamente reduzido a proporções que seu cérebro abarca. Esse Deus não é nosso Deus. O nosso Deus não o pode o senhor concebê-lo, visto que lhe é superior, escapando por isso à suas faculdades intelectuais. Fique sabendo que o que é fabuloso, gigantesco para o homem mais forte e mais inteligente, é para Deus um simples jogo de crianças. Não se esqueça que a Humanidade não pode mover-se no mesmo plano que a Divindade. Não perca de vista que é tão impossível ao homem compreender a maneira como Deus procede, como os minerais imaginar como vivem os vegetais, como os vegetais conceber o desenvolvimento dos animais, e como os animais saber como vivem e operam os homens.
Deus paira a umas alturas que o senhor é incapaz de atingir ocupa montanhas inacessíveis ao senhor. Qualquer que seja o grau de desenvolvimento de uma inteligência humana; por muito importante que seja o esforço realizado por essa inteligência; seja qual for a persistência deste esforço, jamais poderá elevar-se até Deus. Lembre-se, enfim, que, por muito vasto que seja o cérebro do homem, ele é finito, não podendo, por conseqüência, conceber Deus, que é infinito.
Tenha, pois, a lealdade e a modéstia de confessar que não lhe é possível compreender nem explicar Deus. Logo, não lhe cabe, também, o direito de negá-lo”.
Eu, ateu, respondo aos deístas:
Aconselhai-me a humildade, que estou disposto a aceitar. Fazei-me lembrar que sou um simples mortal, o que legitimamente reconheço e não procuro olvidar-me.
Dizei-me que Deus me ultrapassa e que o desconheço. Seja. Consinto em reconhecê-lo; afirmo mesmo que o finito não pode compreender o infinito, porque é uma verdade tão certa e tão evidente, que não está em meu ânimo fazer-lhe qualquer oposição. Vede, pois, até aqui estamos de acordo, com o que espero, ficareis muito contentes.
Somente, senhores deístas, permiti que, por meu turno, eu vos dê os mesmos conselhos de humildade, para terdes a franqueza de me responder estas perguntas: Vós não sois homens como eu? A vós, Deus não se depara como para a mim? Esse Deus não vos escapa como a mim? Tereis vós a pretensão de moverdes no mesmo plano da divindade? Tereis igualmente a mania de pensar e a loucura de crer que, de um vôo, podereis chegar às alturas que Deus ocupa? Sereis presunçosos ao extremo de afirmar que o vosso cérebro, o vosso pensamento que é finito, possa compreender o infinito?
Não vos faço a injúria, senhores deístas, de acreditar que sustentais uma extravagância venal. Assim, pois, tende a modéstia e a lealdade de confessar que, se me é impossível compreender e explicar Deus, vós tropeçais no mesmo obstáculo. Tende, enfim, a probidade de reconhecer que, se eu não posso conceber nem explicar Deus, não o posso, portanto, negá-lo. Isso vale para ambos os lados. A vós também não é permitido concebê-lo e não tendes, por conseqüência, o direito de afirmá-lo.
Não julgueis, no entanto, que, por causa disto, ficamos na mesma situação que antes. Fostes vós que, primeiramente, afirmastes a existência de Deus; deveis, pois, ser os primeiros a corrigir as suas afirmações. Sonharia eu, alguma vez, com negar a existência de Deus, se vós não tivésseis começado a afirmá-la? Se vós não tivésseis inventado um Deus de tão pequena envergadura, teria eu a desnecessidade de contestá-lo.
E se, quando eu era criança, não me tivessem imposto a necessidade de acreditar nele, como teria sido ótimo para mim. E se, quando adulto, não tivesse ouvido afirmações nesse sentido, como isso me ajudaria do ponto de vista filosófico. E se, quando homem, os meus olhos não tivessem constantemente contemplado os templos elevados a esse Deus, quanta economia, quanto tempo ganho. Foram as vossas afirmações que provocaram as minhas negações.
Cessai de afirmá-lo deste modo que eu cessarei de negá-lo.
A posição do gnóstico quanto às diferenças entre Deus e os homens, não merece reparo. Mas merece reparo e estranheza a lúcida descrição dessa diferença partindo da mente de um deísta. Afinal, quem ensinou que Deus mora no céu, tem barba, é severo, fiscaliza, sofre arrependimentos e se acomete de ira, foram os deístas. Que bom que estão mudando o discurso.

Não há efeito sem causa

A segunda objeção, de parte do ateu e na visão gnóstica, parece-nos mais invulnerável. Muitos indivíduos consideram-na ainda sem réplica. Esta objeção provém dos filósofos espiritualistas: não há efeito sem causa. Ora, o Universo é um efeito; e, como não há efeito sem causa, esta causa é Deus.
O argumento é bem apresentado; parece, mesmo, bem construído e bem arquitetado. O que resta saber é se tudo quanto ele encerra é verdadeiro.
Em boa lógica, este raciocínio chama-se silogismo. Um silogismo é um argumento composto por três proposições: a maior, a menor e a conseqüência, e compreende duas partes: as premissas, constituídas pelas duas primeiras proposições e a conclusão, representada pela terceira. Para que um silogismo seja inatacável, é preciso:
1º que a maior e a menor sejam exatas;
2º que a terceira proposição dimane logicamente as duas primeiras.
Se o silogismo dos filósofos espiritualistas reúne estas duas condições, é irrefutável e nada mais me resta senão aceitá-lo; mas, se lhe falta uma só dessas condições, então o silogismo é nulo, sem valor, e o argumento destrói-se por si mesmo.
A fim de conhecer o seu valor, examinemos as três proposições que o compõe.
1ª proposição (maior): “Não há efeito sem causa”.
Filósofos, tendes razão. Não há efeito sem causa: nada mais exato. Não há, não pode haver, efeito sem causa. O efeito não é mais do que a continuação, o prolongamento, o limite da causa. Quem diz efeito diz causa. A idéia de efeito provoca, necessária e imediatamente, a idéia de causa. Se, ao contrário, se concebe um efeito sem causa, isto seria o efeito do nada, o que equivaleria a crer no absurdo.
Sobre esta primeira proposição, estamos, pois, de acordo.

“Ora, o Universo é um efeito”

Antes de continuar, peço explicações:
Sobre o que se apóia esta afirmação tão franca e tão categórica? Qual o fenômeno, ou conjunto de fenômenos, na qual a verificação, ou conjunto de verificações, que permitem uma afirmação tão rotunda?
Em primeiro lugar, conhecemos suficientemente o Universo? Têmo-lo estudado profundamente, temo-lo examinado, investigado, compreendido, para que nos seja permitido fazer afirmações desta natureza? Temos penetrado nas suas entranhas e explorado os seus espaços incomensuráveis? Já descemos a profundeza do oceano? Conhecemos todos os domínios do Universo? O Universo já nos declarou todos os seus segredos? Já lhe arrancamos todos os véus, penetramos todos os seus mistérios, descobrimos todos os seus enigmas? Já vimos tudo, apalpamos tudo, sentimos tudo, entendemos tudo, observamos tudo, afrontamos tudo? Não temos nada mais que aprender? Não nos resta nada mais que descobrir? Em resumo, estamos em condições de fazer uma apreciação formal do Universo?
Supomos que ninguém ousará responder afirmativamente a todas estas questões; e seria digno de lástima todo aquele que tivesse a temeridade e a insensatez de afirmar que conhece o Universo.
O Universo! — quer dizer não somente este ínfimo planeta que habitamos e sobre o qual se arrastam as nossas carcaças; não somente os milhões de astros que conhecemos e que fazem parte do nosso sistema solar, ou que descobrimos com o decorrer dos tempos, mas ainda, esses mundos, aos quais, com conjectura, conhecemos a existência, mas cuja distancia e o número restam incalculáveis!
Se eu dissesse “o universo é uma causa”, tenho a certeza que desencadeariam imediatamente contra mim as vaias e os protestos de todos os religiosos; e, todavia, a minha afirmação não era mais descabelada que a deles. Eis tudo.
Se me inclino sobre o Universo, se o observo quanto me permitir o homem contemporâneo, os conhecimentos adquiridos, verificarei que é um conjunto inacreditavelmente complexo e denso, uma confusão impenetrável e colossal de causas e de efeitos que se determinam, se encadeiam, se sucedem, se repetem e se interpenetram. Observarei que o todo leva uma cadeia sem fim, cujos elos estão indissoluvelmente ligados.
Certificar-me-ei de que cada um destes elos é, por sua vez, causa e efeito: efeito da causa que o determinou, causa do efeito que se lhe segue.
Quem poderá dizer: “Eis aqui o primeiro elo — o elo causa”? Quem poderá afirmar: “Eis o último elo — elo efeito”? E quem poderá ainda dizer: “Há necessariamente uma causa número um e um efeito número… último”?
À segunda proposição, “ora, o Universo é um efeito”, falta-lhe uma condição indispensável: a exatidão. Por conseqüência, o famoso silogismo não vale nada.
Acrescento mesmo que, no caso em que esta segunda proposição fosse exata, faltaria estabelecer, para que a conclusão fosse aceitável, se o Universo é o próprio efeito de uma Causa única, de uma Causa primeira, da Causa das Causas, de uma Causa sem Causa, da Causa eterna.
Espero, sem me inquietar, esta demonstração, porque é uma demonstração que se tem desejado muitas vezes, sem que ninguém no-la desse; é também uma demonstração, da qual se pode afirmar, sem receio de desmentido, que jamais poderá se estabelecer de uma forma séria, positiva e científica.
Por último: admitindo que o silogismo fosse irrepreensível, ele poderia voltar-se facilmente contra a tese do Deus-Criador, colocando-se a favor da minha demonstração.
Expliquemos: “não há efeito sem causa!” — Seja! — “o Universo é um efeito!” — De acordo! — “Logo este efeito tem uma causa e é esta causa que chamamos Deus! — Pois seja!
Mas não vos entusiasmeis, deístas; escutai-me, porque ainda não triunfastes.
Se é evidente que não há efeito sem causa, é também rigorosamente exato que não há causa sem efeito. Não há, não pode haver, causa sem efeito. Quem diz causa, diz efeito. A idéia de causa implica necessariamente e chama a idéia de efeito. Porque uma causa sem efeito seria uma causa do nada, o que seria tão absurdo quanto o efeito do nada. Que fique, pois, bem entendido: não há causa sem efeito.
Vós, deístas, afirmais, enfim, que o Deus-Causa é eterno. Desta afirmação concluo que o Universo-Efeito é igualmente eterno, visto que a uma causa eterna, corresponde, indubitavelmente, a um efeito eterno. Se pudesse ser de outro modo, quer dizer, se o Universo tivesse começado, durante os milhares e milhares de séculos que, talvez, precederam a criação do Universo, Deus teria sido uma causa sem efeito, o que é impossível; uma causa de nada, o que seria absurdo.
Em conclusão: se Deus é eterno, o Universo também o é: e, se o Universo também é eterno, é porque ele nunca principiou, é que jamais foi criado.
É clara a demonstração?
Não!!! Não, senhor ateu. O senhor está redondamente equivocado. Seus argumentos se foram para o ralo, afirma o gnóstico.
O Universo é, sim, nosso conhecido a partir das primeiras viagens espaciais e graças ao trabalho das sondas que atravessam o espaço em busca de estrelas e planetas bem para mais além da Terra. A matéria do Universo é a mesma. Nada muda de planeta para planeta de estrela para estrela.
O que temos à nossa volta? Analisando bem, vamos perceber que temos uma infinidade de objetos, objetos estes que são formados basicamente por átomos. Aprimorando nosso pensamento, perceberemos que estamos imersos também em uma infinidade de ondas eletromagnéticas. À radiação, está associado o fóton. E, por fim, existem certas reações nucleares que ocorrem em estrelas que têm como subproduto os neutrinos, ou seja, partículas com massa muito pequena e que interagem muito fracamente com a matéria. Os neutrinos produzidos em diversas regiões do espaço estão transitando por todo ele a todo instante. Neste exato momento, milhões de neutrinos atravessam nossos corpos sem que percebamos... E, atenção, numa velocidade muito maior que a da luz. A teoria Einstein está sendo reformulada, graça à inteligência humana, que evolui.
A princípio poderíamos supor que o Universo também é constituído basicamente destes três elementos: átomos, fótons e neutrinos. Mas ao estudar-se o comportamento dinâmico de galáxias e a influência da massa delas para o efeito de lentes gravitacionais, concluiu-se que a massa de uma galáxia é cerca de 100 vezes maior que a soma das massas dos seus componentes. Esta matéria excedente, por sua vez, estende-se à dimensões muito maiores que a da galáxia em si e não interage com a radiação luminosa, ou seja, não nos é visível. Por isso, recebeu o nome de Matéria Escura. Suspeita-se que este novo tipo de matéria seja constituída por uma nova partícula elementar, mas esta ainda não foi detectada. Espera-se que com novos avanços em aceleradores de partículas possa ser possível descobrir o constituinte fundamental da matéria escura.
Mas, a natureza ainda está se mostrando... Em 1998 uma grande descoberta teve lugar na área da cosmologia e astronomia: o universo está em expansão, mas a expansão é acelerada! Então foi de extrema necessidade admitir que existe um meio muito tênue que permeia todo o espaço... Este meio tem propriedades exóticas, como por exemplo, uma grande pressão negativa, que causa o efeito de antigravidade e acelera expansivamente as estruturas do universo. A este meio chamou-se Energia Escura.
Outro fato bastante curioso é que, através de cálculos envolvendo principalmente a dinâmica das galáxias, pode-se estimar a divisão da matéria do universo e fica claro que somente 4% da matéria dele são responsabilidade dos átomos! Menos de 1% são dos neutrinos e fótons, 22% de matéria escura e 74% de energia escura.
Tudo isso, senhor ateu, são causas, efeitos e conseqüências de um Plano muito bem bolado por um planejador tão sutil que as células de seu corpo foram parar cada uma delas no seu lugar planejado: a da unha foi para a unha, a do olho foi para o olho, a do cabelo para o cabelo. Acaso? E a sua imaginação vem de onde? Ela é causa ou efeito?
A concepção de quem planejou isso é coisa humana. O nome que se dá a ele é de autoria também humana. No universo mental humano, tudo ainda é precário. Estamos a caminho. Se estamos lidando com um só Universo ou se existem universos paralelos (aliás, já em estudos), isso tudo está na esfera humana e o homem é uma célula do todo. Duvidar que isso não esteja dentro de um plano, é de uma tremenda arrogância, passível de se duvidar, mesmo, que um simples espermatozóide possa ser o autor de toda as conseqüências de seu encontro com o óvulo e dos resultados que esse encontro propicia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (IX)


Como podeis ser tão simplórios?

É extremamente difícil debater quando os níveis ou se tornam baixos demais ou altos demais. Querer interrogar a Deus para saber tudo quanto o ateu desejou saber ao alinhar uma dezena de perguntas, é um exagero verborrágico. Nem sabemos o que Deus quer de nós e já estamos questionando-o para que diga os motivos pelos quais fez o que fez ao criar o Universo.
A Filosofia existe para buscar respostas ao homem que pensa. Como não temos a mais vaga notícia de quem é Deus e o que Ele quis obter quando fez o que fez, temos de ser humildes e raciocinar com aquilo que é possível ao nosso estágio de consciência.
Comecemos por buscar argumentos para responder o que deseja saber uma criança nascida para uma só existência e nascida aleijada. Quem nada puder dizer, está fora do debate: os católicos e seus descendentes. O ateu também não responderia porque para um ateu a criança nasceu por acaso e por acaso aleijada, a vida é assim mesmo, o que se pode fazer? Fim. Que diferença há entre a resposta do padre e a resposta do ateu? Nenhuma.
Os gnósticos entendem que o corpo astral, energético, é o modelo do corpo biológico, ao menos quanto à sua funcionalidade, enquanto a genética dá-lhe as formas, cor, altura, etc. Evoluindo para o que pensam e ensinam os espíritas, o espírito dessa criança não é novo, não está vivendo sua primeira encarnação e pode estar trazendo marcas indeléveis de imperfeições adquiridas em vidas passadas. Assim se explica, ao menos em boa parte os “não acasos” e também as “não injustiças” de Deus. Pode-se dizer mais: ela nascerá novamente e poderá ser perfeita, porque a proposta do Deus planejador é a perfeição.
Pode existir prova maior de resignação durante toda uma existência a um cego, a um coxo, a um surdo mudo, a um aleijado, do que confrontar-se com sua deficiência e, normalmente, superar-se pelo uso de outros recursos?, como ocorre com milhares de deficientes, pessoas dóceis, que se resgatam todos os dias, que resgatam sua dignidade perante a vida por anos e anos, sendo admiráveis e admiradas? Pode haver explicação para os seus casos? Pode um Deus de Bondade e Justiça produzir uma obra assim, sem nenhuma explicação, por puro acaso?
É nessa direção, para tentar dizer dos motivos da vida, que os gnósticos e espíritas se unem em argumentos coincidentes. O plano é evolucionista, do pior para o melhor, do tosco para o refinado, sempre a caminho da perfeição. A perfeição é a meta. Que perfeição? Não há um porto de chegada. Quando se bate à porta da perfeição imaginada, abrir-se-á outra porta ainda mais bela e perfeita como desafio. Esse é um outro Deus.
Pensem nisso, enquanto aguardam a próxima crônica.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (VIII)


O ser imutável não criou

Se Deus existe e é imutável, não se desfigura e nem se pode desfigurar. Enquanto que, na natureza, tudo se modifica, se metamorfoseia, se transforma; enquanto que nada é definitivo, mas que chega a sê-lo, Deus, ponto fixo, imóvel no tempo e no espaço, não está sujeito a nenhuma modificação, não se transforma, nem pode transformar-se. É hoje o que era ontem, será amanhã o que é hoje. E tanto faz procurá-lo nos séculos passados, como nos séculos futuros: ele é, e será constantemente idêntico em si. Deus é imutável.
O gnóstico pede licença para acrescentar que essa conceituação de que Deus não se modifica, é uma invenção dos ateus. Nada existe que diga ou sugira que Deus não se modifique. Eterno é uma coisa, definitivo é outra coisa. O ser eterno não tem necessidade de ser definitivo. Isso não autoriza assegurar que estabilidade signifique imutabilidade. Se toda a obra que lhe é atribuída sofre adaptações, modernizações, evolução, por que também o seu autor não poderia evoluir, tornar-se ainda melhor?
No entanto, diz o ateu, eu sustento que, se ele criou, não é imutável, porque, neste caso, transmutou-se duas vezes, antes de haver criado e depois de haver criado.
Determinar-se a querer é mudar de posição. Ora, é evidente que há mudança entre o ser que quer uma coisa e o que, querendo-a, a põe em execução.
Se eu desejo e quero o que eu não desejava e nem queria a quarenta e oito horas, é porque se produziu em mim, ou a minha volta, uma ou várias circunstâncias que me levaram a querê-lo. Este novo desejo ou querer constitui uma modificação que não se pode por em dúvida, que é indiscutível.
Paralelamente: agir, ou determinar-se a agir, é modificar-se.
Esta dupla modificação — querer e agir — é tanto mais considerável e saliente quando é certo que se trata de uma resolução grave, de uma ação importante.
Deus criou, dizeis vós, crentes. Então modificou-se duas vezes: a primeiro, quando se determinou a criar; a segunda, quando resolveu pôr em prática sua determinação, completando o gesto criador.
Se ele se modificou duas vezes, não é imutável. E, se não é imutável, não é Deus — não existe.
O ser imutável não criou.

Deus não criou sem motivo

De qualquer forma que se pretenda examiná-la, a criação é inexplicável, enigmática, falha de sentido.
Há uma coisa que salta à vista de todos: se Deus criou, como vós dizeis, não pôde ter realizado este ato grandioso — cujas conseqüências deviam ser, fatalmente, proporcionais ao próprio ato e, por conseguinte, incalculáveis — sem que fosse determinado por uma razão de primeira ordem.
Pois muito bem. Qual foi esta razão? Porque motivo tomou Deus a resolução de criar? Que móbil o impulsionaria a isto? Que desejo germinaria em seu cérebro? Qual seria o seu intuito? Que idéia o perseguiria? Que fim perseguiria ele?
Multiplicais, nesta ordem de idéias as perguntas; gravito, conforme quiserdes, em torno deste problema; examinai-o em todos os seus aspectos e em todos os sentidos, e eu desafio seja quem for a que o resolve em outro sentido que não seja o das incoerências.
Por exemplo: Eis uma criança educada na religião cristã. O seu catecismo afirmou-lhe, e os seus mestres confirmaram, que foi Deus que a criou e a colocou no mundo. Suponhamos que a criança faz a si própria a pergunta: porque é que Deus me criou e me lançou no mundo?, se se quer obter uma resposta judiciosa, racional. Nunca a obterá. Pior ainda se, do ponto de vista católico, esta criança nascer aleijada. Espírito recém criado, com uma única vida pela frente, vem ao mundo aleijada e se não for fiel aos ditames da religião ainda corre o risco de ser mandada eternamente para o inferno.
São esses os motivos da criação? Suponhamos ainda que a criança, confiando na experiência e no saber de seus educadores, persuadida do caráter sagrado de que eles — padres ou pastores — estão revestidos, possuindo luzes especiais e graças particulares; convencida de que, pela sua santidade, estão mais próximos de Deus e, portanto, melhor iniciados nas verdades reveladas, a probrezinha vier a acreditar; suponhamos que esta criança tem a curiosidade de perguntar aos seus mestres por que e para que Deus a criou e a pôs no mundo. Eu afirmo que os mestres são incapazes de contestar a essa simples interrogação com uma resposta plausível, sensata. Não lhe poderão dar, porque, em verdade, ela não existe.
Eia! Filósofos profundos, pensadores sutis, teólogos prestigiosos, respondei a esta criança que vos interroga e dizei-lhe por que é que Deus a criou e lançou no mundo!
Eu estou tranqüilo. Vós não lhe podeis responder, a não ser que lhe digais: “Os mistérios de Deus são impenetráveis”! Por quanto tempo aceitais esta resposta como suficiente? E fareis bem, abstendo-vos de lhes dar outra resposta, porque esta outra resposta — previno-vos caritativamente — cava a ruína de vosso sistema e o derribamento de vosso Deus. A conclusão impõe-se, lógica, impiedosa: Deus, se criou, criou sem motivos, sem saber por que, sem ideal.
Sabeis onde nos conduzem as conseqüências de tal conclusão? Vamos vê-las.
O que diferencia os atos de um homem dotado de razão dos atos de um louco, o que determina que um seja responsável e o outro irresponsável, é que um homem dotado de razão sabe sempre — ou pode chegar o sabê-lo — quando procede, quais são os móbiles que o impulsionam, quais são os motivos que o levam a praticar aquilo que pensava. Quando se trata de uma ação importante, cujas conseqüências podem hipotecar gravemente as suas responsabilidades, é preciso que o homem entre na posse de sua razão, se concentre, se entregue a um sério exame de consciência, persistente e imparcial exame que, pelas suas recordações, reconstitua o quadro dos acontecimentos de que ele foi agente. Em resumo, é preciso que ele procure reviver as horas passadas para que possa discernir quais foram as causas e o mecanismo dos movimentos que o determinaram a obrar. Frequentemente, não pode vangloriar-se das causas que o impulsionaram, e que, amiúde, o levam a corar de vergonha. Mas, quaisquer que sejam os motivos, nobres ou vis, generosos ou grosseiros, ele chega sempre o descobri-los.
Um louco, pelo contrário, procede sem saber o que e por que; e, uma vez realizado o ato, por grandes que sejam as responsabilidades que dele possam derivar, interrogai-o, encerrai-o, se quiserdes, numa prisão, e apertai-o com perguntas: o pobre demente não vos balbuciará senão coisas vagas, verdadeiras incoerências, pois ele não saberá dizer porque fez o que fez.
Portanto, o que diferencia os atos de um homem sensato de um homem insensato, é que os atos do primeiro podem explicar-se, tem uma razão de ser, distinguem-se neles a causa e o efeito, a origem e o fim, enquanto que os atos do segundo não se podem explicar porque um louco é incapaz de discernir a causa e o que o levam a realizá-los.
Pois bem! Se Deus criou sem motivo, sem fim, procedeu como um louco. E, neste caso, a criação aparece-nos como um ato de demência.
Volta o gnóstico para colocar sua visão. Mas, reserva-se o direito de o fazê-lo apenas na próxima crônica.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (VII)


O ser eterno, ativo, necessário

Se Deus existe, é eterno, ativo e necessário? Pergunta o ateu.
Eterno? — É-o por definição. É a sua razão de ser. Não se pode conceber que ele esteja enclausurado nos limites do tempo. Não se pode imaginar como tendo tido começo e venha a ter fim. Não pode haver aparição e desaparição. É de sempre.
Ativo? — É, e não pode deixar de ser. Segundo os religiosos, foi sua atividade que engendrou tudo quanto existe, como foi a sua atividade que se afirmou pelo gesto mais colossal e majestoso que se pode imaginar: a criação dos mundos.
Necessário? — É-o e não pode deixar de ser, visto que sem a sua vontade nada existiria: ele é o autor de todas as coisas, o ponto inicial de onde tudo saiu, a fonte única e primeira de onde tudo emanou. Bastando-se a si próprio, dependeu de sua vontade que tudo fosse tudo ou que nada fosse nada.
Ele é, portanto: eterno, ativo e necessário.
Mas eu pretendo e vou demonstrar que se Deus é eterno, ativo e necessário, também deve ser eternamente ativo, e eternamente necessário. E que, por conseqüência, ele não pôde, em nenhum momento, ter sido inativo ou inútil, e que enfim, repito, ele jamais criou.
Negar que Deus seja eternamente ativo equivale dizer que nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou a ser ativo, que antes de o ser não o era. Dizer que foi pela criação que ele manifestou a sua atividade é admitir, ao mesmo tempo, que por milhares e milhares de séculos que antecederam a ação criadora, Deus esteve inativo.
Onde estava Ele antes da criação e o que fazia Ele?
Negar que Deus seja eternamente necessário equivale a admitir que Ele nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou o ser necessário e que antes de o ser não o era. Dizer que a criação proclama e testemunha a necessidade de Deus equivale a admitir, ao mesmo tempo, que durante milhares e milhares de séculos, que seguramente precederam a ação criadora, Deus era inútil.
Deus ocioso e preguiçoso! Deus inútil e supérfluo! Que triste postura para um ser essencialmente necessário.
É preciso, pois, confessar que Deus é de todo o tempo ativo e de todo o tempo necessário, o que as religiões não explicam.
Mas então Deus não pôde criar, porque a idéia de criação implica, de maneira absoluta, a idéia de começo, de origem. Uma coisa que começou é porque nem sempre existiu. Existiu necessariamente num tempo em que, antes de o ser, não o era. E, curto ou longo, este tempo foi que precedeu a coisa criada; é impossível suprimi-lo, visto que, de todos os modos, ele existe.
Assim, temos de concluir:
a) Ou Deus foi eternamente ativo e eternamente necessário, e só chegou a sê-lo por causa da criação (e, se é assim, antes da criação faltavam a este Deus dois atributos: a atividade e a necessidade; este Deus era um Deus incompleto; era só um pedaço de Deus e mais nada, que teve necessidade de criar para chegar a ser ativo e necessário, e completar-se).
b) Ou Deus é eternamente ativo e eternamente necessário, e neste caso tem criado eternamente. A criação é eterna, e o Universo jamais começou — existiu em todos os tempos, é eterno como Deus, é o próprio Deus, com o qual se confunde. E, sendo assim, o Universo não teve princípio — não foi criado.
Em conclusão: No primeiro caso, Deus antes da criação não era ativo nem era necessário: era um Deus incompleto, quer dizer, imperfeito, e, portanto, não existia. No segundo caso, sendo Deus eternamente ativo e eternamente necessário, não pôde chegar a sê-lo, como não pôde criar.
É impossível sair desse impasse.
Contudo, o gnóstico entra em ação para completar, principalmente, o argumento B, que coincide com o pensamento gnóstico. Este cosmos apontado pela ciência como produto de um Big Bang pode ser parte de uma obra maior, tanto que, pela própria ciência não deixa de ser cogitada a possibilidade de a expansão alcançar seu ponto culminante e a implosão poder começar. O que expandiu, será contraído. Quantas estrelas entram em autofagia e criam buracos negros no espaço? Por que um sistema planetário dentro de um sistema maior ou cosmológico não pode também implodir?
Novamente é uma necessidade afirmar que muitas das idéias do ateu são raciocínios que se encaixam nos paradigmas científicos e podem ser considerados ainda que com a ressalva: os paradigmas alteram-se, modificam-se e a ciência precisa admitir que o que ela hoje ratifica como axioma científico, amanhã poderá ser derrubado, modificado. Os gnósticos nunca disseram que só o planeta Terra é habitado e nem que o Universo por nós imaginado seja o único mundo planejado por Deus. Portanto, nada de se simplificar que Deus estava inerte antes do início desta manifestação de sua inteligência. Este sistema pode não ser o único, não sabemos, tanto quanto é temeroso afirmar que ele é o único. Todo aquele que afirmar conclusivamente “É ISTO!” tem chances de acertar e errar. Somos crianças sonhando em pilotar um jato? Precisamos crescer para ambicionar tanto.
E àqueles que possam estar temerosos pela remota implosão de nosso sistema universal, preocupados com o destino dos bilhões de seres humanos que ocupam este planeta, aí vai uma luz: os espíritas ensinam que há outros mundos habitados e que se faltar esta casa, haverá outra “casa do Pai” à espera de nossas futuras reencarnações (João 14; 1 e 2: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, credes também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar”).

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (VI)


O perfeito não pode produzir o imperfeito

Continua o ateu: Estou plenamente convencido de que se eu fizer a um religioso a pergunta: “Pode o imperfeito produzir o perfeito?”, ele responderia sem vacilar: — Não, o imperfeito não pode produzir o perfeito!
Pelas mesmas razões, e com a mesma força de exatidão, eu posso afirmar — O perfeito não pode produzir o imperfeito!
Mais: entre o perfeito e o imperfeito não há somente uma diferença de grau, de quantidade, mas uma diferença de qualidade, de natureza, uma oposição essencial, fundamental, irredutível, absoluta.
E mais ainda: entre o perfeito e o imperfeito não há somente um fosso, mais ou menos largo e profundo, mas um abismo tão vasto e tão estonteante, que ninguém o pode acessar ou entulhar. O perfeito é o absoluto, o imperfeito o relativo. Em presença do perfeito que é tudo, o relativo, o contingente, não é nada; em presença do perfeito, o relativo não tem valor, não existe. E nem o talento de um matemático e nem o gênio de um filósofo serão capazes de estabelecer uma relação entre o relativo e o absoluto: a priori sustentamos a impossibilidade de evidenciar, neste caso, a rigorosa concomitância que deve necessariamente unir a Causa ao Efeito.
É, portanto, impossível que o perfeito haja determinando o imperfeito. Neste caso, o perfeito é o Deus do deístas e o imperfeito é a matéria, o mundo.
Além disso, há uma relação direta, fatal e até matemática entre uma obra e seu autor: tanto vale a obra quanto vale o autor, tanto vale o autor quanto vale a obra. E pela obra que se conhece o autor, como é pelo fruto que se conhece a árvore.
Se eu examino um texto mal redigido, em que se abundam os erros de ortografa e as frases são mal construídas, o estilo é pobre e frouxo, as idéias raras e banais, e os conhecimentos inexatos, eu sou incapaz de atribuir este péssimo escrito a um artífice de frases, a um dos mestres da literatura.
Se observo um desenho malfeito, em que as linhas estão mal traçadas, violadas as regras de perspectiva e de proporção, jamais me acudirá o pensamento de atribuir este esboço rudimentar a um professor, a um grande mestre, a um grande artista. À menor hesitação direi: isto é obra de um aprendiz, de uma criança, certo de que pela obra se conhece o artista.
Ora, a natureza é bela, o Universo é grandioso. E eu admiro apaixonadamente — tanto o que mais admiro — os esplendores e as magnificências que nos oferecem estes espetáculos incessantes. Mas, por muito entusiasmado que eu seja das belezas naturais, e por grande que seja a homenagem que eu lhes tribute, não me atrevo o afirmar que o Universo é uma obra sem defeitos, irrepreensível, perfeita. Mais ainda se me referir aos homens. Não acredito que haja alguém que me desminta.
Sim, o Universo é uma obra imperfeita.
Consequentemente, digo: há sempre, entre uma obra e seu autor, uma relação rigorosa, íntima, matemática. Ora, se o Universo é uma obra imperfeita, o autor desta obra não pode ser senão imperfeito.
Esse silogismo leva-me a admitir a imperfeição de Deus, e por conseqüência a negá-lo.
Mas eu posso ainda raciocinar assim: ou não é Deus o autor do Universo (exprimo desta forma a minha convicção), ou o é, na suposição dos religiosos, um deus imperfeito. Neste caso, sendo o Universo uma obra imperfeita, vosso Deus, ó crente, é também imperfeito.
Silogismo ou dilema, a conclusão do raciocínio é esta: o perfeito não pode determinar o imperfeito.
Mais uma vez o gnóstico intervém para colocar seu ponto de vista. Deduz-se pela argumentação do ateu que ele, mais uma vez, simplifica as coisas naquilo que se torne conveniente para seu pensar simplório. Outra vez ele vai lá na Gênese Bíblica, toma aquelas frases atribuídas a Moisés, falando do Universo pronto e acabado (perfeito em algum sentido, imperfeito em outros) e detona seus canhões achando que vai convencer-nos. Não vai. Não é por aí.
Retornando à tese de que há um PLANEJADOR e que a obra está a caminho, vencendo suas etapas, tudo muda. Está claro que não há o imperfeito, há o inacabado. Não se pode dizer que o violino é imperfeito apenas porque o violinista não o domina completamente e ainda não retira dele os sons harmônicos. Não se pode dizer que o homem é um ser imperfeito apenas porque ele faz coisas erradas. De que ângulo de perfeição nós estamos falando?
O burilador do cristal (que se tornará diamante) faz um imenso esforço para ir desbastando as impurezas, imperfeições, ângulos, entrâncias e reentrâncias para, enfim, exibir sua obra. Onde se poderá afirmar que o cristal é imperfeito se ele conseguiu transmutar e chegar ao diamante? A palavra correta não é imperfeito, é inacabado, como já foi frisado. O violino será tocado magistralmente pelo violinista quando ele estiver apto a tal. O diamante brilhará apenas nas mãos do exímio burilador. Se os ateus puderem raciocinar que a perfeição possa estar no final da obra, ou mesmo, que esta obra é uma constante eterna e que a perfeição seja utopia renovada, sempre mais à frente, o que há de errado nisso?
Errado é pensar que a criação tenha se dado numa semana e tudo haja ficado pronto. A Bíblia mostra que logo após a criação, Deus arrependeu-se de haver criado os homens. Teria sido fácil jogá-lo fora, como coisa descartável, afinal, o cristal pode ser descartado, o móvel pode ser abandonado em virtude de erro na sua execução. Mas, esse não era o propósito do PLANEJADOR. O propósito era trazer para o campo de lutas o Abraxas, aquele que levará milênios, milhões ou bilhões de anos tentando vencer a si mesmo para tornar-se o diamante. A BUSCA CONSTANTE DO PERFEITO, MAIS PERFEITO, EXCEPCIONALMENTE PERFEITO...
Simplista é pensar que a obra siga num crescendo de qualidade e beleza, apenas pelas mãos do governador do cosmos, retirando de contesto a crescente capacidade daqueles que fazem as correlações neste planeta e noutros, se houver. Há uma perfeição detectável em quase tudo. O ser humano desmente essa máxima. É nele, com ele, para ele, dele que se espera a evolução mais contundente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Deus existe? Visões antagônicas (V)


O “puro espírito” não poderia determinar o Universo

Aos crentes que, a despeito de todo o raciocínio lógico, se obstinam em admitir a possibilidade da criação como narra a Bíblia, direi que, em todo o caso, é impossível atribuir esta criação ao seu Deus. O Deus deles é puro espírito. Portanto, é inteiramente impossível sustentar-se que o puro espírito, o imaterial, tenha podido determinar o Universo, o Material, continua a argumentar o ateu.
Eis o porquê:
O puro espírito não está separado do universo por uma diferença de grau, de quantidade, mas sim por uma diferença de natureza, de qualidade. De maneira que o puro espírito não é, nem pode ser, uma ampliação do Universo, assim como o Universo não é, nem pode ser, uma redução do puro espírito. Aqui a diferença não é somente uma distinção; é uma oposição: oposição de natureza — essencial, fundamental, irredutível, absoluta.
Entre o puro espírito e o Universo não há somente um fosso mais ou menos largo e profundo, fosso que possa, a rigor, encher-se ou franquear-se. Não. Entre o puro espírito e o Universo há um verdadeiro abismo, de uma profundidade e de uma extensão tão imensas, que por colossais que sejam os esforços que se empreguem, não há nada nem ninguém que consiga enchê-lo ou acessá-lo.
Reportando-me ao meu raciocínio, desafio o filósofo mais sutil, bem como o matemático mais consumado, o cientista mais lúcido, a estabelecer uma relação, qualquer que seja ela (e, com a mais forte razão, uma relação tão direta quanto estreita, como a que liga a causa ao efeito) entre o puro espírito e o universo.
O puro espírito não suporta nenhuma aliança material. O puro espírito não tem forma nem corpo, nem linha, nem matéria, nem proporções, nem extensão, nem dureza, nem profundidade, nem superfície, nem volume, nem cor, nem som, nem densidade. Ora, no Universo, tudo é forma, corpo, linha, matéria, proporção, extensão, dureza, profundidade, superfície, volume, cor, som, densidade.
Como admitir que isto tenha sido determinado por aquilo? Impossível.
O gnóstico comparece para expor sua tese e sua tese é flexível porque a gnose nunca chega a porto algum com a arrogância de haver encontrado o porto verdadeiro: os materialistas são ateus ou os ateus são materialistas. O que vem antes? Jamais poderia passar pela cabeça de um materialista que tudo o que existe, existe, antes no plano energético como matriz do que haverá no plano biológico. Tome-se como exemplo o Código DNA. Sem ele a organização do corpo poderia existir? Os átomos diferenciados que atuam no olho, na língua, no coração, nas unhas, teriam ido se alojar ali? Quem disse que isso é um gigantesco, um magistral acaso?
Aqui acabam-se os argumentos materialistas ou ateístas para explicar a vida. Se não bastasse essa reflexão, aqui vai uma pergunta para ateu responder: os ateus já tiveram a humildade para pensar que os cosmos possa ser o corpo de Deus e que nós possamos ser as suas células?
Mas, não termina aqui o argumento do gnóstico. Quando se diz que materialistas pensam de forma materialista, não é brincadeira, não. O pensamento materialista só tem curso, só se consolida se o resultado do pensar seja matéria. Então é preciso convidar o materialista a provar que pensamento também é matéria, ao menos na concepção que o materialista dá à matéria.
Muito bem, se pensamento, imaginação, vontade não podem sair na foto, não podem ser captados pelas lentes dos microscópios, nem pelas telas das tomografias, temos de admitir que o mundo criativo, onde tudo é concebido, é um mundo surreal, fora dos padrões materiais conhecidos, sem deixar de ser matéria. Explica-se: energia é átomo, átomo é matéria (antes de coagular).
Veja-se: onde está o abismo argumentado pelo ateu? Ele, simplesmente, não existe. Só existe na mente materialista do ateu do mesmo modo que os dogmas, mitos, superstições só podem prosperar na mente simplista dos crédulos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Afinal, Deus existe? Visões antagônicas (IV)


Criou ou não criou?

Que se entende por criar?
É tomar materiais diferentes, separados, mas que existem, e, valendo-se de princípios experimentados e aplicando-lhes certas regras conhecidas, aproximá-los, agrupá-los, associá-los, ajustá-los, para fazer qualquer coisa deles?
Não! Isso não é criar. Exemplos: podemos dizer que uma casa foi criada? Não. Foi construída. Podemos dizer que um móvel foi criado? Não. Foi fabricado. Podemos dizer que um livro foi criado? Não. Foi composto e depois impresso.
Assim, pegar materiais que já existem e fazer qualquer coisa com eles não é criar.
Que é, pois, criar?
Criar… com franqueza, encontro-me indeciso para poder explicar o inexplicável, definir o indefinível. Procurei, contudo, fazer-me compreender.
Criar é tirar qualquer coisa do nada; é, com nada, fazer qualquer coisa do todo; é formar o existente do não-existente.
Ora, eu imagino que é impossível encontrar-se uma única pessoa dotada de razão que conceba e admita que do nada se possa tirar e fazer qualquer coisa. Suponhamos um matemático. Procurai o calculador mais autorizado; colocai-o diante de uma lousa e pedi-lhe que escreva zero sobre zeros. Terminada a operação, solicitai-lhe que os multiplique da forma que entender, que os divida até se cansar, que faça enfim toda a sorte de operações matemáticas, e haveis de ver como ele não extrairá, desta acumulação de zeros, uma única unidade.
Com nada, nada se pode fazer; de nada, nada se obtém. É por isso que o famoso aforismo de Lucrécio ex nihilo nihil é de uma certeza e de uma evidência manifesta. O gesto criador é um gesto impossível de admitir, é um absurdo.
Criar é, pois, uma expressão místico-religiosa, que pode ter algum valor aos olhos das pessoas a quem agrada crer naquilo que não compreendem e a quem a fé que se impõe tanto mais quanto menos o percebem. Mas, devemos convir que a palavra criar é uma expressão vazia de sentido para todos os homens cultos e sensatos, para quem uma palavra só tem valor quando representa uma realidade ou uma possibilidade.
Consequentemente, a hipótese de um ser verdadeiramente criador é uma hipótese que a razão repudia.
O ser criador não existe, não pode existir. Afirmações do ateu.
O gnóstico intervém para argumentar: novamente o ateu enraíza a partida de seu ponto de vista na Bíblia. A Bíblia é um repositório de lendas, bem ao estilo de quem conta estórias, explicando por metáforas ou parábolas aquilo que, aos olhos, ouvidos e mentes dos que ignoram (que tomam conhecimento dessa estória pela primeira vez), é de difícil compreensão. Como você contaria a uma criança de 5 ou 7 anos a história do surgimento do mundo? Os homens daquela época eram crianças do ponto de vista intelectual. Aquele Deus e aquelas estórias são mitológicos e em quase tudo semelhante aos deuses que povoaram o panteão grego, diferindo apenas na quantidade de deuses. Isso não é filosófico e então pensemos que o que se chama de CRIADOR, seja, também, metáfora. As mentes racionais devem ter a capacidade de discernir que esse “criador” não estava como um cozinheiro a juntar componentes dentro de um panelão para fazer uma comida. Apaguem-se os argumentos ateístas enraizados nas lendas e em oposição a elas, porque a discussão tem de se dar noutro nível. O “criador” agora tem de ser encarado, antes de tudo, como um PLANEJADOR.
O ateu foi simplista para não dizer simplório, quando disse que uma casa, um móvel, um livro, não são criados, são fabricados. Ora, senhor ateu, que pobreza intelectual! Vamos erguer o nível desse debate, por favor. É pobre pensar assim. E o desenhista que concebeu a casa, o móvel, não conta? O escritor que foi buscar inspiração para transformar em textos, não conta? A Torre Eifel, por acaso, não nasceu antes na cabeça do seu planejador?
O Ser Maior de que estamos tratando aqui, pensou, concebeu, desenhou. Ainda não sabemos se ele inventou a anti-matéria, deve tê-lo, pois a anti-matéria não existe por acaso. E tomou a anti-matéria, que todos sabemos que existe em abundância no cosmos e ordenou: FAÇA-SE A LUZ. Quem disse que do nada tudo saiu, foi, novamente, a Bíblia. A ciência recomenda que se pense na anti-matéria escura que inunda o cosmos e aí se passe a imaginar em que universo o projeto teve início (ou não?) no Big Bang.
Fica para uma discussão mais refinada, futura, quando os cientistas puderem contribuir, a origem da anti-matéria. Também sabemos que luz é movimento. E o movimento se fez. Vejamos que por este ponto de vista o raciocínio desvia-se dos dogmas e se torna lógico. E assim os ateus poderão relaxar e parar de apontar os seus canhões para a Bíblia. Não é para lá que devemos nos dirigir. Sejamos mais abrangentes, por favor.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Afinal, Deus existe? Visões antagônicas (III)


Quem é Deus?

Aí vem os argumentos do ateu e outra vez muito apegado ao que ensinam e fazem as religiões institucionais. Visto que os encarregados de seus negócios no planeta tiveram a amabilidade de no-lo descrever com toda a pompa e luzimento, aproveitemos a fineza e examinemo-lo de perto, detidamente: para discutir uma coisa, é preciso, igualmente, conhecê-la bem, não é verdade?.
Com um gesto potente e fecundo, este deus fez todas as coisas do nada: o ser do não-ser. E, por sua própria vontade, substituiu o movimento pela inércia, a vida universal pela morte universal. É um deus Criador!
Este deus é o deus que, terminada a obra da criação, em vez de volver à inatividade secular, ficando indiferente à coisa criada, ocupa-se de sua obra, interessando-se por ela, intervém nela quando o julga necessário, rege-a, administra-a, governa-a: é um Deus governador ou provedor, bem ao padrão de pai, como também é chamado.
Este deus é o deus arvorado também em juiz do Tribunal Supremo. Obriga, depois da morte, a comparecer à sua presença todos os indivíduos. Uma vez aí, julga-os segundo os atos de suas vidas; pesa, na balança, as suas boas e más ações e pronuncia, em último extremo — sem apelo nem agravo — a sentença que fará do réu, pelos séculos dos séculos, o mais feliz ou o mais desgraçado dos seres: É um deus justiceiro ou magistrado impiedoso.
Logo, este deus possui todos os atributos; e não é somente bom: é a Bondade Infinita; não é somente misericordioso: é a Misericórdia Infinita; não é somente poderoso: é o Poder Infinito; não é somente sábio: é a Sabedoria Infinita.
Em conclusão: tal é o deus que eu nego e que por várias provas diferentes (a rigor só bastaria uma), vou demonstrar a sua inexistência, a sua impossibilidade.
A esta altura o gnóstico pede licença para pronunciar-se argumentando que alguns desses conceitos podem ser atribuídos a Deus, mas a visão de onde partem as críticas é uma visão bíblica, de catecismo e, portanto, não filosófica. Por isso, não pode ser considerada para a seriedade com que se quer debater.
O leitor, que empresta gentilmente sua atenção para estes escritos já deve ter notado que o ranço dos ateus se volta com insistência para as igrejas, permitindo-nos um raciocínio imediato e temerário: e se não existissem as religiões tais como as conhecemos? O mundo seria melhor?
Para os gnósticos mais autênticos, da Antiguidade alexandrina, tudo o que se disse de Deus com ranço católico, protestante, evangélico, por aí a fora, é a visão inventada pelos sacerdotes e pastores com o objetivo exclusivo de controlar as pessoas e mantê-las sob esse controle enquanto puderem. A figura trazida, entre outros estudiosos, por Jung, na verdade, por Basilides, que viveu antes do advento de Jesus, repito, a figura trazida por Jung/Basilides, da existência de um Abraxas, que vai sendo lapidado em seu íntimo, em busca do homem ideal, parece ser a mais brilhante definição para o destino dos homens sem comprometer o deus de nenhuma concepção. O Abraxas andará numa direção que sua consciência permitir e se tornará o melhor ou o pior dos homens por sua escolha, guardadas as contribuições que receber do meio, diga-se sociedade/cultura, diga-se, escola, igreja, família, governo.
Quando Abraxas vencer todas as imperfeições de sua índole, apresentar-se-á perante o tribunal, que é a sua própria consciência e dirá para si mesmo: venci-me.
Esta parece ser a expectativa do Deus planejador que parece estar à espera de que o seu projeto seja bem elaborado e traga o resultado esperado. O outro ser que vier a resultar desse policialesco controle que as religiões institucionais implantaram, não crescerá, ficará olhando para o guarda e se perguntando: o agradarei ou o enfurecerei? Esse pobre coitado nunca saberá o que é realmente assumir seus atos. Sucumbirá como uma criança esquizofrênica. A sociedade absurda, hipócrita, negligente, trapaceira e infeliz, onde nos inserimos, é a sociedade que despista o guarda e se vangloria quando se dá bem.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Afinal, Deus existe? Visões antagônicas (II)


Convergência compreensível

É muito cômodo aos ateus dizerem que as teses gnósticas não se sustentam em bases científicas para explicar o surgimento do Cosmos. Mas, eles não têm outra teoria capaz de contraditar e oferecer maior convencimento. Ao observar-se o cosmos, já está comprovado que as galáxias estão se afastando umas das outras, numa demonstração evidente de que tudo teve início num ponto de partida de forma centrífuga, isto é, do meio para as extremidades, o que vale deduzir: uma grande explosão, hoje chamada Big Bang, mas que amanhã poderá receber outro nome. Logo, alguém puxou o pino. E se puxou, sabia o que estava fazendo, tinha um plano e o plano é a mais espetacular engenharia que se conhece. Uma pequena mostra disso é o DNA biológico de tudo que vive. Acasos como estes não existem e mais ainda como nestes acasos em que existe vida inteligente.
Os ateus são eloqüentes quando se contrapõem aos deístas aglutinados nas fileiras das corporações religiosas e enchem o peito para tripudiar seus argumentos. Os gnósticos não querem entrar nesta polêmica porque também discordam dos dogmas. Dogma é a censura à verdade, o anteparo à pesquisa. Quando não pode falar sério, inventa-se um dogma e manda-se calar a boca alegando coisa sagrada. Sagrado é algo muito maior.
Não é muito fácil manter uma linha de raciocínio lógico quando, por muitos séculos, milênios, estudamos Deus desta forma e desta maneira de estudar e de tentar a resolução da inexistência de Deus como as religiões O apresentam: à adoração dos crentes. Esse Deus das religiões recompensará tais e tais ações e punirá outras tantas. Ele fez isto e quer aquilo, porque é infinitamente sábio, infinitamente justo, infinitamente poderoso, infinitamente bom!
Ah! Que felicidade! Ora aqui está um Deus que se faz conhecer. Abandona o império do inacessível, dissipa as nuvens que o rodeiam, desce das alturas, conversa com os mortais, expõe-lhes o seu pensamento, revela-lhes a sua vontade e confia a alguns privilegiados a missão de espalharem a sua Doutrina, de propagarem a sua Lei, de a representarem enfim, cá em baixo, com plenos poderes para mandarem no Céu e na Terra.
Este Deus não é, com certeza, o Deus Força, Inteligência, Vontade, Energia, que, como tudo o que é Energia, Vontade, Inteligência, Força, pode ser alternadamente, segundo as circunstancias e, por conseqüência, indiferentemente bom ou mau, útil ou inútil, justo ou iníquo, misericordioso ou cruel. Este Deus é o Deus em que tudo é perfeição e cuja existência não é nem pode ser compatível — visto que ele é perfeitamente sábio, justo, bom, misericordioso — senão com um estado de coisas criado por ele e no qual se afirmariam a sua infinita justiça, a sua infinita sabedoria, o seu infinito poder, a sua infinita bondade e a sua infinita misericórdia.
Este Deus é o Deus que, por meio de catecismo, nos insuflam no cérebro quando somos crianças; é o Deus vivo e pessoal, em honra do qual se erguem templos, a quem se rezam orações em borda, por quem se fazem sacrifícios estéreis e a quem pretendem representar, na Terra, todos os clérigos, todas as castas sacerdotais.
Este Deus não é o “desconhecido”, essa força enigmática, essa potência impenetrável, essa inteligência incompreensível, essa energia incognoscível, esse princípio misterioso: hipótese, enfim, que no meio da impotência para explicar o “como” e o “porquê” das coisas, o espírito do homem aceita complacente. Este Deus também não é o Deus especulativo dos metafísicos: é o Deus que os seus representantes nos tem descrito abundantemente e luminosamente detalhado. É o Deus das religiões, e como estamos na Terra, é o Deus dessa religião que há dezoito séculos domina o nossa história: as religiões ditas cristãs e mais tarde as ditas evangélicas.
Só aqui nesta próxima frase, que pertence ao ateu, é que se pode identificar divergência entre o pensamento de um e de outro. Este é o Deus que nego e que vou discutir. Ao que o gnóstico contesta: este é o Deus que estudaremos, se quisermos obter, desta exposição filosófica, algum proveito e algum resultado prático.
Nestes aspectos não há divergência entre os oponentes até porque esta visão pobre desse deus xerife ou corrupto, que compra a obediência pagando com mimos ou pune a desobediência com castigos, esse não é o Deus da educação, da evolução, aquele que, se assim for, deve permitir aos seus educandos o desenvolvimento de suas aptidões e talentos sempre com maior dignidade perante os elevados propósitos que a vida deve conter. Então viremos a página e aguardaremos os novos argumentos

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Afunal, Deus existe? Visões antagônicas (I)


Confrontos entre um ateu e um gnóstico

Entra hoje neste blog uma série um tanto longa e profunda, mas muito interessante, que é o confronto filosófico entre a visão de um ateu, aquele ser para quem Deus é uma quimera inventada pelos homens e a visão daquele que aqui é apresentado como gnóstico. Tomamos o cuidado de afastar o crente. Com a participação do crente todo o debate perderia a graça, pois a Filosofia seria afastada, a busca da verdade ficaria obstruída e a aprendizagem prejudicada. Acompanhe as posições de um e de outro.
Antes, uma conceituação. Derivado do grego (Gnosis), o termo gnóstico se conota com conhecimento e designa um tipo de filosofia religiosa presente nos sábios egípcios, que alcançou o segundo século da era cristã. No Novo Testamento já há sinais de certos desvios doutrinários dos gnósticos. O gnosticismo era uma mistura de elementos judaicos, cristãos e pagãos com vistas responder a duas perguntas: (1) Como reconciliar a presença do mal num mundo criado por um Deus perfeito e bom? (2) Como se prendeu o Espírito à matéria, que é má (segundo as religiões), e como libertá-lo?
Ainda cabe dizer que o gnóstico é também aquele que se propõe a aceitar o cristianismo primitivo como uma proposta lúcida para a evolução espiritual da humanidade.
As respostas não serão dadas agora, evidentemente, pois os oponentes irão discutir suas teses e aí as suas colocações terão que elucidar e convencer-nos.
Também não vem para cá a figura do agnóstico, o outro lado do gnóstico, porque, efetivamente, não é oponente. Agnóstisco é a pessoa que não acredita nem desacredita em um ser superior, divino. É também chamado de ateísmo fraco, em contraponto ao ateísmo forte, que é a negação de qualquer Deus.
Ateu é o ser que duvida da existência de Deus. Aparecerão, inevitavelmente, as expressões deísta e deísmo, que devemos tomar pela designação daqueles que acreditam na existência de um Deus Criador e do conjunto daqueles que assim acreditam.
Na verdade, se o leitor puder discernir, o confronto não ocorre entre ateu e gnóstico. Numa boa parte eles até se entendem. O confronto se dá entre os deístas – crentes que a criação pertenceu a Deus numa semana e que tudo foi criado como está hoje, e que Deus é o governador de todos os atos que praticamos.
De onde vêm as questões e argumentos que se integrarão aos textos da série? Vêm de uma intensa pesquisa, muitas anotações e um cuidado extremo ao costurá-las para que não se tornem monótonas ou antagônicas dentro de uma mesma sustentação. Fácil? Não. Muito difícil. Antecipadamente peço desculpas pela ousadia. Oxalá o objetivo possa ser atingido. Qual é ele? Arrancar discernimentos de entre acusação e defesa de Deus.
Começo por alinhar uma frase de Mikhail Bakunin, pensador, teórico, anarquista, russo: “A existência em Deus implica necessariamente a escravidão de tudo abaixo dele. Assim se Deus existisse, só haveria um meio de servir a liberdade humana: seria o ato de ele deixar de existir.”
Então que venham as primeiras acusações à existência de Deus. Há duas maneiras de estudar e procurar resolver o problema da existência de Deus. A primeira consiste em eliminar a hipótese Deus do campo das conjecturas plausíveis ou necessárias, por meio de uma explicação clara e precisa, isto é, por meio de uma exposição de um sistema positivo do Universo, das suas origens, do seu desenvolvimento sucessivo, dos seus fins. Esta exposição inutilizaria a idéia de Deus e destruiria antecipadamente a base metafísica em que se apóiam os teólogos e os filósofos espiritualistas. Somos forçados a concluir que nos falta esta exposição e que não existe um sistema positivo do Cosmos. Existem, é certo, várias hipóteses engenhosas que não se chocam com o razão; mas sempre se apóiam numa série de investigações, que se baseiam na multiplicidade de observações contínuas e que dão um caráter de probabilidade impressionante. Esses sistemas, essas hipóteses, suportam vantajosamente as asserções deístas. Logo, parciais. São teses que não possuem ainda o valor da exatidão cientifica; — cada um, no fim das contas, tem a liberdade de preferir tal ou qual sistema a um outro que lhes é oposto; e a solução do problema assim apresentado afigura-nos, pelo menos na atualidade, cheio de reservas. Os adeptos de todas as religiões aproveitam assim as vantagens que lhes oferece o estudo deste problema, bem árduo e bem complexo, não para resolvê-lo por meio de afirmações concretas ou de raciocínios admissíveis, mas tão-somente para perpetuar a dúvida no espírito de seus correligionários, que é, para eles, o ponto de capital importância. Quando não se sabe, afirma-se perguntando.
E nesta luta titânica entre o materialismo e o deísmo, luta em que as duas teses opostas se empenham e se reforçam para conseguir o triunfo, os deístas recebem rudes golpes; e, conquanto se encontrem numa postura de vencidos, ainda tem a petulância de se apresentar à multidão ignara como dignos cantores da vitória! Uma prova concludente do seu procedimento baixíssimo encontramo-la na maneira como se exprimem nos jornais da sua devoção; e é com essa comédia que procuram manter, com cajado de pastor, a imensa maioria do rebanho. No fundo, é só isso que desejam ardentemente esses maus pastores.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Progressão espiritual... (conclusão)


...e o conjunto de conquistas ou bênçãos

Fizemos um passeio por várias situações em que somos candidatos à perda ou à vitória. Andamos muito desde que a sociedade humana começou a ter consciência de si mesma, mas estamos muito longe de equiparar nossas conquistas morais com os avanços que nos proporcionamos, por exemplo, em termos tecnológicos.
Somos exímios inventores de coisas que têm o dinheiro como resultado. Inventamos coisas e coisas, inventamos até aquilo que por dinheiro nos destruirá literalmente e também do ponto de vista moral.
Não seríamos, por suposto, também, exímios inventores de coisas que nos tragam felicidade, realização, plenitude? O que você acha, leitor?
Nossa mídia está cheia de reclames tentadores que nos prometem mundos e fundos em troca de dinheiro. Nenhum anúncio para oferecer-nos felicidade. Todos sabemos que felicidade não se vende, não se dá, não se compra, talvez se troque, mas é só o que falta à nossa mídia: oferecer felicidade numa linda embalagem cor de rosa ao preço de xis por pacotinho, enviado via sedex, com frete a pagar.
Salvação eterna já tem gente vendendo. “O dinheiro que você enviar para mim, você estará entregando a Deus em seu próprio favor e em favor de muita gente. Então mande-me os 10% de tudo o que você ganha. E não tente enganar a Deus. Isso não funciona e será prejudicial a você”. Isso é dito de cara limpa, sem ficar ruborizada nos principais horários destinados aos corretores de Deus, na tevê.
Viu como estão as coisas? Viu como a progressão espiritual está emperrada?
O homem e a mulher que se deixa escravizar pelo braço é chamado(a) de escravo(a), pois, pois!!! Andaram a dizer por aí, que isso, no Brasil, acabou em 13 de maio de 1888. Será?
E o homem e a mulher que se deixa escravizar pela mente, é o que?
A progressão espiritual de que nos dedicamos a comentar precisa passar pela vitória contra o fumo, o álcool, os muito doces, os muito gordurosos, os muito salgados; precisa passar pelo equilíbrio emocional, pelos sentimentos equilibrados, pelo afastamento do medo, do remorso, da culpa, da ansiedade, da inferioridade; precisa libertar as pessoas dos maus canais de mídia, verdadeiros focos de condicionamento e escravidão mental; precisa passar pela libertação do homem e da mulher em relação à sua vontade de ser o que realmente somos para poder experimentar a vida batendo de frente em nós; precisa passar por um Deus libertador que nos entregue ao livre-arbítrio e nos faça assumir um por um todos os nossos atos, sem vergonha de ser feliz.
Uma vida aprisionada aos dogmas, policiada por agentes externos, condicionada por maus gurus, viciada em hábitos que só reduzem nossa capacidade de alongar a vida, de torná-la abeçoada com melhores resultados, nunca será uma vida progressiva.
Quantas vezes mais teremos de repetir a lição até aprendê-la?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Progressão espiritual... (IV)


...existe para nos tornar merecedores das bênçãos dos céus

Para clarear desde agora, leitor, por favor, não me tome por um simplório, um ingênuo ou um crente, naquilo que simplismo, ingenuidade e crendice têm de imaturidade e irracionalidade. A expressão “bênçãos caídas dos céus” precisa ser decodificada para que o leitor não fique a imaginar que a solução dos nossos problemas pode vir por milagre.
Os santuários do mundo todo estão cheios de objetos, dinheiro, símbolos, fetiches depositados por pessoas desorientadas, que buscam de uma entidade divina aquilo que renunciam procurar em si mesmas. É um tanto complexo entender, mas temos de entender se não não há progressão.
Os céus não outorgam poder a nenhum governante, como já ocorreu em muitas nações e finalmente, em algumas delas, isso começa a ser revisto, inclusive, nos países de fé islâmica, onde isso ainda é muito forte. Nós não podemos continuar acreditando que, por simples milagre, diferenciado, exclusivo, benevolente, mãos invisíveis desçam dos céus para operar milagres em nossas vidas. Não é bem assim, ao menos não com essa equivocada compreensão.
As bênçãos existem, mas precisam ser conquistadas. Como as maldições existem e são atraídas. Como conquistá-las e como atraí-las?
Grosso modo, as bênçãos e as maldições são conquistadas mediante a atração de campos vibratórios favoráveis àquilo que buscamos tornar real e sempre sob o critério da justiça e do merecimento a favor da vida e contra a vida. Desta forma é preciso desmistificar, acabar com a ilusão ingênua de que sempre haverá um santo, um anjo ou um guia de plantão à disposição de todos nós para salvar-nos em nossas enrascadas. Mais ainda se somos recorrentes na produção de asneiras.
A ajuda não chega quando nós não abrimos as portas para ela. E abrir a porta não é somente pedir.
No Evangelho, em Lucas 11; 9, se lê “E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”. Há que pedir, buscar, bater. Sem merecimento, o ato em referência ficará apenas no ato de pedir. Buscar significa sair do lugar, lutar, oferecer-se. Bater significa malhar, ralar, desbastar-se.
Se a espiritualidade agisse de outra forma estaria a mostrar desequilíbrio e a operar sob parcialidade privilegiando uns em prejuízo de outros. Isso só existe na cabeça deturpada de alguns homens e muito, muito, mesmo, na cabeça dos nossos governantes e de seus protegidos, de onde herdamos a cultura do jeitinho, da propina, da corrupção, da retirada da multa sem precisar pagá-la.
Quando um ditador, seja ele islâmico, católico, árabe ou americano, chama para si a outorga de Alá, Javé ou de Deus para fazer as barbaridades que conhecemos, você, leitor, há de refletir, o deus dele não está sendo justo com o povo. E por que o Deus de todos distribuiria benesses ou castigos apenas a uma parcela de seus seguidores? Parcialidade? Injustiça?
Nada disso. O ditador ficará lá até que o povo progrida e tire-o de lá, como já vem acontecendo em muitos países onde os governantes gostam de permanecer no posto.
O merecimento terá de ser conseqüência de nosso comportamento que, por sua vez, será conseqüência de nossa vontade, de nossa índole, disposta a captar sempre, progressivamente, as melhores energias para nossa companhia.
Vibrando dentro de bolsões (egrégoras) favoráveis à vida, essa circunstância funciona como se fosse o vento na popa, a corrente favorável ao navegador.
Por conseqüência, a pessoa ungida por estas vibrações atraídas por ela, passa a ser protegida de dardos de má energia que sempre circulam em nosso meio.
Quando um pai-de-santo promete a seu “fío” “corpo fechado” e o filho acredita que isso realmente aconteceu, dá-se o efeito placebo de que nos referimos no começo desta série. As vibrações do portador do “corpo fechado” serão ativadas para fechar as fronteiras contra as invasões indesejadas. Cria-se o campo morfogenético propício a que isso ocorra: mérito a favor daquela vida.
No outro extremo, quando alguém encontra um despacho na encruzilhada e acredita ter sido ali colocado para afetá-lo, haja capacidade do terapeuta para retirar de seu sistema mental a idéia de que houve maldição: mérito ao contrário daquela vida.
Isso aqui não é uma sustentação a favor ou contra qualquer prática que leve à auto-sugestão e não depõe contra quem quer que seja que acredite nos poderes dos pais-de-santo. Isso aqui é um exemplo, colocado firmemente sobre uma figura muito popular e muito conhecida nos meios religiosos. Nada mais.
Logo, se você pensa que está derrotado, o está. Se você pensa que pode vencer, a vitória estará mais próxima.
Diga-me no que você pensa e eu lhe direi como será a sua vida. Em tudo as energias buscarão seus campos compatíveis. A ajuda compatível favorável (bênção) será atraída quando o pensar estiver alinhado à proposta evolutiva da vida. A ajuda compatível favorável (maldição) será atraída quando o pensar estiver alinhado contrariamente à proposta evolutiva da vida. Nessas frases encerra-se muito do que ainda teremos de aprender. Ao aprender e ao desenvolver uma cultura nesse sentido, estaremos promovendo a nossa progressão espiritual. Sem desenvolver isso, estaremos estagnados, definhando, perdendo vitalidade, entravando a evolução, acreditando em milagres que não acontecem e acreditando em salvadores que não salvam.