segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (XI)


Tomo XI – Bem-aventurados aqueles que são misericordiosos

Nesses tempos mais recentes a misericórdia teve adulterado o seu conceito e, infelizmente, tivemos de aprender que misericordiosos são generosos, são os que têm pena, piedade, dó, comiseração e que, por isso mesmo, olham para os de baixo e se permitem estender a mão superior para socorrer a vida inferior.
Nada mais absurdo e soberbo. Misericórdia não pode ser conjugada com este absurdo desvio de propósitos.
Ao oferecer interpretação mais coerente ao conteúdo do Tomo XI, podemos chegar a uma nova visão sobre a misericórdia. Muitos dos ecossistemas agredidos têm reagido ao agressor. Algumas das suas manifestações têm causado muitos sustos. Os acontecimentos das enchentes em boa parte, em vários locais, deixam claro isso. São muito diferentes os atos (1) de preparo de uma lavoura, seu plantio, os tratos culturais, a colheita e (2) a invasão pura e simples dos espaços vedados ao homem para a construção de casas, estradas, ruas e outras coisas.
Há uma parte do todo natural que se oferece à intervenção do homem e retribui amorosamente com a oferta de colheitas fartas e há outra parte do todo natural que é indefesa e necessita da misericórdia dos homens, se é que os homens queiram estar à altura da vida. Esta concepção de misericórdia foge daquela outra, viciada, hipócrita. Esta é aquela misericórdia que olha para o frágil como irmão e não como inferior.
Agredida e incomodada com a falta de misericórdia de nossa parte, não só pela invasão dos espaços sagrados e proibidos ao homem e não só, também, agredida e incomodada pelo efeito estufa, o todo natural junta as duas pontas do processo: a encosta do morro aonde não poderia haver casas e ruas, ao ser invadida potencializa o efeito quando há excesso de chuva concentrada e o resultado é conhecido de todos: tudo vem abaixo, tudo inunda.
Agredida e incomodada com a falta de misericórdia social, da qual também fazemos parte, a natureza reage quando as pessoas sem posse vão morar sobre os mangues e ribeiras, sendo alcançadas pelas enchentes.
Ao extrairmos desses episódios uma lição duradoura, iremos anotar que a vida se faz naturalmente e sempre será misericordiosa e saudável quando não é agredida.
Bem-aventurados os que são misericordiosos porque eles próprios obterão a misericórdia (Mateus 5;7). Quem olhar para baixo e tratar bem daqueles que estão sob os seus pés, pisarão firme, se tornarão sustentáveis.
O aquecimento global, os desmoronamentos, as enchentes, as prolongadas estiagens, os desertos galopantes, a miséria que se transforma em violência social, são comprovações inequívocas de que falta misericórdia com tudo e com todos: a natureza, incluindo-se os homens, vem dando respostas às agressões contra ela perpetradas. Por conta de valores outros, o homem causa destruições muitas vezes irreversíveis não só ao meio ambiente, ele faz isso com ele próprio, com crianças indefesas de sua própria família, com pessoas idosas, com mulheres, com a população simples e ignorante. O homem faz isso contra a sua própria natureza biológica ao submetê-la aos mais absurdos processos de infecção, contaminação, estresse, super alimentação e judiaria.
No coletivo, sofremos pela ambição pelo dinheiro; na família, sofremos pela irresponsabilidade como educadores; no individual, sofremos pelo desvario em busca da posse, do prazer e das fortes emoções; no coletivo, sofremos pelo desrespeito e pela falta de ética.
Os bem-aventurados misericordiosos, chamados por Jesus, herdarão um tempo de justiça e de paz já em construção, não pela misericórdia de Deus, mas por sua própria qualidade de corações cheios de misericórdia. São misericordiosos em tudo, mas principalmente consigo mesmos, isto é, sabem viver, e conseguem pensar nas suas futuras reencarnações.

As bem-aventuranças

Há um consenso entre os exegetas, estudiosos que analisam os evangelhos. Se tudo mais da doutrina de Jesus Cristo houvesse se perdido e se apenas as Bem-Aventuranças tivessem sido preservadas, apenas isso, já representaria uma extraordinária contribuição do Messias à civilização. Outro consenso é que ao pronunciar este que também é chamado de Sermão da Montanha, Jesus fundou a Lei de Causa e Efeito. Para cada ação teremos uma reação, para cada semeadura teremos uma colheita.

domingo, 30 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (X)


Tomo X – Bem-aventurados aqueles que são brandos e pacíficos.

Durante séculos a mente do homem refletiu a seguinte sentença: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Foi com esta cultura que nós atravessamos os últimos 30 séculos, jogando fora toda a possibilidade de compreender que a vida é a arte do relacionamento, da paz e da cooperação, da inclusão.
Viemos de uma cultura invasiva, expropriadora, imperialista, na qual só eram respeitados os que tivessem chance de reagir fortemente. Os desarmados, brandos e pacíficos eram violentados e submetidos. Entraram para esta lista quem não tivesse posses econômicas ou armas de defesa: mulheres, crianças, índios, pobres e idosos. O poder e os centros de decisões desde o núcleo familiar até os gabinetes dos países foram entregues aos “senhores”, senhores feudais, senhores de engenhos, senhores de escravos, senhores de sesmarias (terras), senhores da guerra e mais tarde senhores da indústria, senhores da tecnologia e bem recentemente os senhores do conhecimento.
Ao reinterpretar o conteúdo deste tomo (X) e ao aprender que os tempos serão outros a curto prazo, podemos deduzir e chegar a uma nova visão sobre o que é ser bem-aventurado como conseqüência de ser brando e pacífico, mediante inclusiva, a promessa de Jesus, “de possuir e Terra”. Quando os estudiosos da Ecologia Profunda elaboraram seus últimos conceitos para a existência da vida humana no planeta, tudo ficou claro quanto à expansão da nossa espécie. Não teríamos chegado aonde chegamos sem a cooperação e a solidariedade. Basta olhar e ver. Não chegaríamos aos tempos e estágios atuais sem cooperação e solidariedade. Não teria como ser diferente, apesar das guerras e exclusões. A vida do homem precisa adequar-se ao comportamento adotado pelos demais reinos vitais localizados nos âmbitos mineral, vegetal e animal. Ali os ecossistemas são perfeitos: sustentam-se a si mesmos e aos outros sistemas, onde se inclui o humano. Por que o ecossistema humano teria de ser excludente, egoísta, destruidor, violento? Não se sabe por que, mas é, foi.
Conclusão: nós os humanos ainda somos os menos cooperadores e os menos solidários de todo o universo estudado; todos os demais indivíduos e sistemas dos demais sistemas cooperam e são solidários entre si e entre escalas acima e abaixo.
Ironicamente, foi assim, apesar de tudo, com esses rudimentos de cooperação e solidariedade que garantimos a nossa remota não extinção. Esses rudimentares traços de cooperação e solidariedade, lá atrás, na história da humanidade, garantiram a sobrevivência do homem nos momentos de extremo perigo para a sua coletividade. E cooperação e solidariedade se fazem em presença da paz e com brandura.
Aqui mais perto de nós, nos tempos mais recentes, podemos ir buscar os exemplos dos imigrantes que, através da cooperação e da solidariedade sobreviveram aos seus piores momentos nos sertões deste imenso Brasil para onde foram enviados sem apoio governamental.
A brandura e a paz entre nós e de nós para com todos os demais irmãozinhos dos reinos mineral, vegetal e animal é só o começo da bem-aventurança.
Com clareza, é mais um efeito de sua própria causa. E mais claro ainda, um pressuposto de posse na Terra. Do contrário a perderemos para a destruição.

sábado, 29 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (IX)


Tomo IX – Bem-aventurados aqueles que têm puro o coração.

A pureza de coração merece conotação de coração cheio de compreensão; de coração inteiro, quando se trata de relacionamento humano; de coração aberto às possibilidades, quando se trata de aprendizagem; de coração puro, quando se trata de eliminar negaças, falsidades e resistências preconceituosas; de coração forte quando se trata de autenticidade, retidão, verdade, propósitos.
As leis do espírito asseguram avanços evolucionais aos possuidores das virtudes da bondade, da caridade, da tolerância, como ensinou Jesus no Sermão da Montanha, a quem chamou, então, de bem-aventurados os de coração puro porque verão a Deus (Mateus 5; 8).
Lendo de outro ângulo: Deus estará presente na visão dos seres de coração puro. Mas, a presença de Deus, ao contrário do que poderiam pensar os mendigos de milagres, não será uma presença que ocupe um espaço diante dos olhos. Será pela via das contribuições benignas, também chamadas de bênçãos, abrindo portas, eliminando entraves, oferecendo o vento de popa...
São muitas as novas visões que se pode obter sobre este tema. Podemos aprender com a natureza, de forma semelhante a uma plantinha, que necessita de ar puro, água limpa, solo fértil e energia solar para crescer, florescer e dar frutos. Com o ser humano não haveria de ser diferente: ao vibrar sua vontade, seus pensamentos, atitudes e ações na energia do amor, da bondade, da caridade e da tolerância, permitirá que seus sistemas biológico, emocional, intelectual e psíquico sejam iluminados e abastecidos pelos fluidos divinos. Essa prerrogativa conduz à bem-aventurança.
A razão maior de nossas existências no corpo é para a busca da bem-aventurança e esta só será alcançada com pureza, abertura, inteireza e fortaleza de coração. Os homens de coração impuro traem, negaceiam, querem tirar vantagem em tudo subtraindo aos outros, subvertem a ordem, corrompem-se e praticam a corrupção, anulam dentro de si todas as chances de crescimento espiritual. A esperteza que liberta é a do caminho da pureza. A outra esperteza, deletéria, mutila o espírito, deforma o caráter e acaba em dor e sofrimento.
Uma frase emblemática aquela que diz que se o desonesto soubesse das vantagens da honestidade ele se fingiria de honesto para lucrar.
Sempre acompanhou-nos, pelos séculos a fora, a idéia de bênçãos e maldições. Aprendemos com nossos sacerdotes que podíamos encomendar bênçãos tanto quanto estávamos sujeitos a maldições. Por conta dessa interpretação acreditamos que a entrada da energia divina em nossas vidas bate de frente com a nossa indignidade: “não sou digno de que entreis em minha morada”. Porém, no mesmo átimo de tempo, nos regozijamos: “mas, dizei uma palavra e serei salvo”. Essa é uma visão deturpada do sistema. Os indignos não receberão indulgência apenas no ato humilde de pedir socorro, porque se assim fosse continuariam indignos e praticantes da burla à lei, usurpadores da senha, puladores do muro, furões. Os indignos terão de conquistar a sua dignidade, fazer por merecer.
Na passagem pelas portas dos céus não vale o jeitinho, não tem pistolão, não se compra o guarda, não vale ingresso pirata. É ser ou não ser.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (VIII)


Tomo VIII – Bem-aventurados os pobres de espírito.

Infelizmente, perante os déspotas da humanidade, este trecho da cátedra de Jesus foi elevado às raias da perversidade. Ser pobre passou a ser virtude. Enriquecer-se passou a ser pecado.
Ao reinterpretar este trecho do conteúdo do Tomo VIII, podemos deduzir e chegar a uma nova visão sobre ele. Jesus não estava a sugerir que pobreza de espírito seja algo ignorante, retrógrado, miserável. Pobres de espírito são os que se oferecem para aprender mais, são os que não se bastam e derrotam a soberba e a arrogância para se posicionarem como eternos aprendizes. O Reino de Deus será construído com a humildade daqueles que buscam melhorar-se continuamente.
Visto por um novo ângulo, tem-se que quando o Mestre Jesus aplicou a expressão “pobres de espírito”, também não estava se referindo aos conceitos posteriormente dados à pobreza como sinônimos de coisa inferior, miserável, suja, incompetente para discernir, e também não se referia à fome, preguiça ou mendicância; muito pelo contrário: se referia aos que querem conhecer mais, como já frisamos; se referia à integração à vida natural, à fraternidade universal, ao ato de apreciar o cântico dos pássaros, o soprar dos ventos, a claridade do Sol, o borbulhar das águas, a simplicidade das árvores, a candura dos peixes, os raios das estrelas; se referia ao amor mais puro, à força poderosa que se alastra no mundo inteiro e que, na seqüência da vida, se transformará no denominador comum de todos os povos. Estava Jesus a referir-se ao oposto dos ricos, que se acham fartos e satisfeitos e não têm mais tempo, espaço, interesse e capacidade para aprender.
Pobre como sinônimo de não enriquecido, não soberbo, não arrogante. Na extensão se pode aduzir: buscador de riquezas, aberto aos resultados por vir, humilde para aceitar o que enobrece sem petrificar. Pobre como sinônimo de inacabado, em construção, imperfeito em processo de desbaste. Nunca pobre como alguém que se condena às privações porque conforto é pecado. Nunca pobre como alguém que aceita baixos salários por que é pecado progredir. Nunca pobre pela simples razão de que riqueza é algo que condena as pessoas ao inferno, como se ensina a partir de púlpitos decorados com ouro e púrpura. Nunca pobre como sinal de renúncia dos bens pecaminosos que faltam aqui e se acumulam na posse dos dominadores da sociedade.
A idéia deturpada de pobreza e riqueza vem desde épocas remotas em que o governante possuía o brilho do ouro porque assim Deus queria que fosse. O catolicismo e o islamismo difundiram muito esse padrão. Não é a toa que as regiões de muito forte presença dessa cultura são as mais atrasadas e mais pobres do planeta. Mas, ali, os governantes e dirigentes espirituais sempre tiveram acesso às grandes fortunas.
Seria isso um sintoma aleatório ou um resultado calculado?

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (VII)


Tomo VII – O Cristo consolador

Primeira definição: Cristo não é nome, é dignidade. Joshua, conhecido por nós como Jesus, nasceu Joshua. Ao seu nome foi acrescentado o título de nobreza espiritual “Cristo”, com o qual seria identificado o messias libertador esperado pelos anúncios de profetas dos 500 anos anteriores à sua vinda.
O contexto em que fomos encontrar a promessa de consolo se dá quando Cristo fala da leveza das almas não truculentas e do repouso que representa estar de cara limpa, de alma leve, de consciência tranqüila. A felicidade, o amor, a saúde, acompanham esses estados de alma (Mateus 11). Um pouco adiante nos textos de João 14, também, encontraremos o compromisso de Jesus com o envio do Espírito de Verdade para completar ensinamentos que o povo daquela época tinha dificuldade de assimilar. Ele deixa claro que o paráclito, advogado, mediador, consolador, estaria entre nós, no tempo ideal, para suprir esta necessidade. Nada mais coerente. O professor não pode ensinar álgebra ao aluno das primeiras séries. Há, no entanto, naquele compromisso crístico, mais coisas do que a promessa de mestres mais adequados às novas e sucessivas necessidades e/ou épocas ou eras da humanidade. Jesus sempre soube que teoria é teoria, prática é prática, e que se os mestres se limitarem à retórica, seus ensinamentos virarão conhecimento inútil, teoria que não se transforma em prática.
É preocupante a profunda diferença entre o padrão de comportamento pregado e demonstrado por Jesus e o padrão praticado pelos homens. Por que os homens teimam em desafiar as leis do bem? Seria tão mais fácil buscar o modelo deixado por Jesus... As almas estariam mais leves, a esperança deixaria de ser utopia... A felicidade sairia das prateleiras aonde tentamos comprá-la...
Ao se chegar a uma nova visão sobre este tema iremos nos convencer, como seres dotados de inteligência, que somos, de que tem de caber ao homem a aplicação de suas faculdades e assim comprovar, de plano e de fato, ser o mais dotado, o mais capaz, o mais lúcido, o melhor dentre toda a criação. Ele não demonstra isso, demonstra ser o mais ousado, o mais estúpido, o mais burro, o mais cruel...
Na sua infinita sabedoria, o criador nos dá todas as oportunidades de crescimento através das múltiplas experiências individuais e coletivas com ou sem reencarnações e, inclusive, envia-nos seus mensageiros de grande capacidade para nos educar, que são os incansáveis mestres superiores, no corpo ou fora dele, dentre os quais o próprio Jesus. Mas, e daí? Essas lições têm de ser urgentemente apreendidas, porque o modelo de sociedade que temos dá sinais de exaustão e somos nós que temos de construir os jardins aonde queremos habitar. Os espíritos de verdade, os gurus, os educadores, são apenas repassadores de conhecimento. A ação cabe a nós. Cabe a nós fazer a diferença. Ficou, para o homem, dentre todos os demais seres vivos, a capacidade de melhorar ou piorar a realidade, o meio em que vive.
O Cristo consolador veio ensinar isso e, não satisfeito, prometeu e cumpriu a promessa de enviar espíritos da verdade para completar a tarefa. Eles estão entre nós encarnados e fora do corpo. Eles estão aí numa plêiade de crianças índigo e cristal que se encontram entre nós.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (VI)


Tomo VI – Bem-aventurados os aflitos.

Ao reinterpretar o conteúdo do Tomo VI e ao observar os acontecimentos do mundo presente, podemos deduzir e chegar a uma nova visão sobre o tema: os obstáculos, as crises e os sacrifícios pelos quais somos chamados a passar, e não raro, com muita aflição, são parte do treinamento de nossos espíritos para os grandes embates evolucionistas que nos esperam. Sem isso não cresceríamos. Ninguém cresce à sombra, inerte, à espera do prêmio caído dos céus. Lá na frente chegaremos à cátedra do “batei e abrir-se-vos-á”, numa clara menção de que para ganhar a corrida temos de correr e correr muito.
É a lei de causa e efeito aqui entregue a nós pela boca de Jesus. É a lei do livre arbítrio ensinada por Ele. Logo, se não nos afligimos, é porque estamos confortados, satisfeitos, acomodados. Quem sabe tirando proveito do caos aflitivo que nos cerca. Vemos o horror e não estamos ligados ao que acontece. Entre nós, há os aflitos para que a situação melhore e há os aflitos para que a situação piore. Estes últimos são aqueles que tiram proveito das situações de angústia e dificuldade vividas pelo próximo. Você sabe que isso existe e existe bastante. São os comerciantes da dor, da tristeza, do pânico, do medo, da tragédia, da ameaça, da desesperança.
Lembram do episódio das catástrofes naturais que se abatem sobre cidades inteiras e dos momentos de consternação e aflição que levaram milhões de doadores a enviar sua ajuda àqueles povos? E lembram dos aproveitadores que se serviram dos donativos? Estariam eles, por acaso, consternados e aflitos? E em quantas outras situações parecidas iremos encontrar os aproveitadores das dores do povo?
Ao tentar elaborar uma nova visão sobre este tema talvez cheguemos a vislumbrar que todos os avanços da humanidade ocorrem em situações de crise; os sacrifícios nos fazem nascer, pensar, aprender, transformar, conquistar, repensar, vencer, andar para frente... Ou retornar de caminhos obscuros... Ou descobrir que a vida tem valores... A aflição nem sempre é o tormento ou a tortura... Ela também ocorre como inquietação, preocupação, ansiedade, desejo de trocar, vontade de melhorar aquilo que piorou. Os aflitos nunca se acomodam, mantém vigília constante. São os que param de reclamar da vida e movem-se na direção da busca das soluções.
Os aflitos são os insatisfeitos, os não acomodados, os que conspiram, protestam, modificam sua realidade através da ação ou reação. De novo, a lei de causa e efeito. Quem semear, colherá. Colherá daquilo que semeou. Quem colher sem semear, estará roubando. Quem semear sem colher, estará sendo roubado.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (V)


Tomo V – Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.

A correta interpretação que podemos fazer do conteúdo do Tomo V é a de que de outro modo não haveria justiça e sem justiça Deus não seria Deus; Deus não seria generoso e nem sábio caso premiasse a uns e castigasse a outros em uma única existência corporal, como teimam ensinar algumas correntes religiosas destituídas de argumentos.
Até o ano 553 da nossa Era Cristã toda a doutrina cristã originalmente recolhida dos ensinamentos de Jesus trabalhava a reencarnação como um dos maiores valores da Justiça Divina. Daí em diante, por vontade de um punhado de cardeais, no Concílio de Constantinopla, isso foi banido e condenado como heresia.
Além do conteúdo título, expresso em João 14, 1-3, e de outros, um dos quais durante a transfiguração havida no Monte Tabor, registrada em Mateus 17, 10-12, quando Jesus afirma textualmente que João Batista é uma reencarnação de Elias, fomos buscar Paulo que, em sua carta a Tito 3: 5 (Em grego), diz: ...Ouk ex ergôn tôn en dikaiosunê a epoiêsamen êmeis alla kata to autou eleos esôsen êmas dia loutrou PALIGGENESIAS kai anakainôseôs pneumatos agiou. Texto que traduzido exatamente como está escrito no grego, palavra por palavra, daria a seguinte tradução literal: ...”não por obras da justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da REENCARNAÇÃO, e pelo renascimento de um espírito santo”. Verificamos o aparecimento da palavra paliggenesias (destacada em maiúsculo), que em português se escreve de forma muito parecida, ou seja, Palingenesia. Para não haver dúvidas, vamos recorrer ao Dicionário Aurélio: Palingenesia: [De palin + genes (e) +ia] Filos. 1. V. eterno retorno. 2. Segundo Schopenhauer (v. schopenhaueriano), renascimento sucessivo dos mesmos indivíduos.
Eis uma nova visão sobre o tema.
Certamente, aquilo que se faz uma das principais oposições à doutrina da reencarnação é, por outro lado, o seu maior argumento de defesa: a afirmação da justiça e da sabedoria de Deus é justamente permitir que eu e você nos recuperemos dos erros sem a trágica e injusta condenação eterna. Onde estaria a justiça, a sabedoria e a generosidade desse Deus se permitisse a uma alma um único nascimento, pautado, muitas vezes, pela deficiência física, mental ou psíquica, em meio à dor, ao sofrimento e à pobreza, em contraponto com as benesses outorgadas a outras almas em beleza, perfeição, riqueza, conforto e prazeres?
Os mesmos que refutam as reencarnações são os que condenam seu Deus, desqualificam seu Deus, carimbam-No como alguém duplamente injusto como administrador de sua criação: demonstra sua parcialidade injusta quanto aos homens e premia com sua justiça, sua generosidade e benevolência toda a outra natureza (não humana). Basta não ser otário, basta abrir os olhos, basta contemplar com que magnificência a vida transborda justiça, oportunidade, perdão e regeneração em todas as suas dimensões, desde que, para a espécie humana se ofereça também a oportunidade do retorno reparador daquilo que por livre-arbítrio produzimos nas existências anteriores.
Por que a dimensão humana teria de ser diferente da dimensão animal?
Se não aceitamos refletir sobre isso por fanatismo, arrogância, soberba ou por comodidade, estamos novamente diante de uma escolha humana: ser otário ou ser sábio, permitir-se a iluminação íntima ou condenar-se à escuridão íntima.
Nascer de novo pode significar, também, matar o homem velho pouco sabido e fazer nascer o homem novo mais consciente e sábio, dentro mesmo de uma existência apenas. Quem achar que isso basta para merecer o céu, que faça essa transição imediatamente nesta existência mesmo. E quem achar que para crescer de fato e para evoluir de fato precisamos de muitos milênios de experiências, que não perca esta curta oportunidade de avançar enquanto agora, porque outras oportunidades virão, mas, de acordo com os méritos conquistados nesta existência. E elas poderão ser dolorosas ou não. Virão e terão em si os alicerces desta e terão de ser ricas ou pobres em experiências evolutivas, como esta poderá estar sendo. Isso é também nascer de novo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (IV)


Tomo IV – Há muitas moradas na casa de meu Pai.

A mensagem de Jesus vai mais além do que avisar que o Universo pode ter muitas moradas: planetas habitados ou dimensões para espíritos e pessoas; pode testificar que não encarnamos apenas para quitar os nossos débitos passados; Ele deixou claro que o Pai perdoa àqueles que desejam melhorar; podemos investir na transformação de nosso futuro e podemos mudar o objetivo das nossas próximas encarnações.
Ao reinterpretar o conteúdo do Tomo IV podemos deduzir e chegar a uma nova visão sobre o tema: a presença do homem sobre a face do planeta veio marcada pelos dois extremos: o da crueldade e o do amor. Podemos fazer incursões antropológicas e iremos encontrar o homem primitivo muito mais pobre de inteligência e muito mais rico em amor. Notaremos que os avanços tecnológicos trouxeram consigo um ser inteligente, hábil, porém truculento. Perdemos o sentimento tribal em que todos se relacionavam como irmãos e em que os mais velhos eram pais e mães dos mais novos.
É pena que na maior parte das vezes nesses novos tempos em que o homem expulsou Deus da Natureza (inclusive da sua própria), nos tornamos cruéis com a Natureza incluindo-se nós próprios. O nome de Deus não é usado para ensinar o amor, é usado para amedrontar, invadir, expropriar, ferir, matar.
Você pode olhar para a história da humanidade e sempre encontrará um rei, um faraó, um sultão, um presidente, um ditador, um general, um papa, dizendo-se ungido por Deus para agir, expropriar e matar. Assim, é através de múltiplas e tumultuadas reencarnações que aqueles espíritos cruéis e seus obedientes discípulos vão produzindo escândalos e abalos na experiência de se recompor, porém experimentando a dor, o vexame, quando tudo poderia ser no experimento do amor.
As moradas na casa do pai são compartimentos reservados aos compatíveis. São freqüências vibratórias disponíveis para todas as preferências, desde os ingênuos até os especialistas no engodo, desde os doadores até os sugadores, desde os responsáveis até os traidores. E a cada passo dado por cada um de nós na direção de nossas preferências, maior é a conquista daquilo que buscamos no rumo do pior e no rumo do melhor. A engenharia de Deus reserva-nos uma morada correspondente aos nossos méritos. Logo, viver plenamente ou precariamente não é um ato exclusivo do planeta Terra. E no corpo ou na dimensão espiritual somos chamados a provar nossos aprendizados, a comprovar nossa capacidade e a demonstrar nossa evolução e, claro, receber por prêmio aquilo que escolhemos como objetivo.
Em meio ao próprio caos, a humanidade parece demonstrar seus avanços enquanto este planeta vai perdendo a sua função probatória e expiatória para ganhar uma nova função de laboratório de transformações.
Isso, forçosamente, nos remete ao raciocínio de que os truculentos, pela ausência do desejo de se transformarem serão mandados para uma dimensão compatível aonde possam aprender de outra forma. Se tomarmos a vida como um processo de aprendizagem em que cada um é mandado para onde necessita ir, (creche, escola, oficina, atelier, hospital, arena ou penitenciária), podemos deduzir para onde serão mandados uns e outros quando passarem por esta atual experiência. Aí estão perfeitamente caracterizadas, também, as muitas moradas na casa do Pai. Sem excluir a tese de outros planetas habitados.

domingo, 23 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (III)


Tomo III – Meu reino não é deste mundo (também deste mundo).

Jesus foi confundido e acabou reduzido a um simples candidato ao reino de Israel, quando, na realidade, sua magna missão foi preparar o planeta para um novo tempo no qual o homem não precisasse envergonhar-se diante de Deus.
Diante das provocações dos seus adversários (coisa que muito agradava o representante do Império Romano, que estava de olho no rebelde profeta), e diante de acusações infundadas, Jesus anunciou: “meu reino não é deste mundo”. É também deste mundo, só que em outro conceito de reinado e em outro conceito de mundo.
Ao reinterpretar o trecho selecionado neste Tomo III e diante dos novos conhecimentos do tempo presente, há duas variantes de saber: todo o planejamento estrutural da vida material universal se dá no plano espiritual e se faz plasmado no plano biológico. Ao anunciar que seu reino não é deste mundo, Jesus poderia estar sugerindo que o comando deste mundo está, efetivamente, no outro mundo, no mundo espiritual, divino, de onde partem as leis universais concebidas, organizadas, idealizadas por um planejador portador de um conhecimento e de uma inteligência que escapam, ao menos por enquanto, da nossa percepção efetiva. Assim, podemos apenas idealizar esse Deus, ter vagas noções de sua existência e daí deduzir também que a passagem do elevado espírito de Jesus por aquela experiência num corpo humano exigiu um planejamento tal que a espiritualidade maior teve de buscar dentre os povos da Terra o povo judeu, um povo que pudesse suportar o impacto da nova mensagem. Um povo submetido à mais longa experiência com as vozes dos grandes espíritos benfeitores da humanidade, como provam os registros bíblicos do Antigo Testamento, onde as mensagens são quase todas mediúnicas e também um povo portador de uma experiência de sofrimentos, desterros, escravidão, espoliação...
Pois, naquele momento havia a questão romana sobre Israel, e Jesus foi confundido com um pretendente ao trono de Davi. O povo judeu buscava a restauração do reino de Davi pelo muito que havia representado. Havia dois grupos judeus com interesses opostos: os judeus oprimidos, ansiosos, que não queriam pensar a longo prazo e se agitavam a procura de um líder que os libertasse do jugo romano urgentemente; e os judeus ocupantes de cargos dignitários na estrutura do poder dominante, que vendiam sua fidelidade e serviam a Roma confortavelmente. Que pena! Todos eles perderam o bonde da história e ainda aguardam o seu Libertador na plataforma da estação, não sem batalhas, não sem desamor, não sem radicalismos extremos.
A missão de Jesus comprovou-se universal e sua mensagem chegou a todos os cantos do planeta. Ela não era endereçada apenas aos judeus. Ironicamente ali em torno de Jerusalém é onde menos impacto tem tido a sua doutrina. Os homens do mundo todo conheceram, conhecem e conhecerão as palavras libertadoras de Jesus. Serão excluídos dessa “boa nova” aqueles que preferem buscar coisas de mais curto prazo e, portanto, efêmeras, como fazem, por exemplo, judeus e palestinos, que se matam por um pedaço de terra desértica, que discutem conceitos de quem é mais autorizado descendente de Abraão. A eternidade continuará a aguardá-los, mas é possível que, se demorarem muito para descobrir o verdadeiro Reino comandado por Jesus, fiquem de fora da lista, como estão ficando outros apressados e desvirtuados homens de muitas nacionalidades, focados no absurdo, construtores do absurdo, atraentes das mais torpes vibrações para suas companhias.

sábado, 22 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (II)


Tomo II – Eu não vim destruir a Lei e os Mandamentos

Jesus avisou e o povo sabia por Moisés que havia leis e mandamentos, mas que Ele, Jesus, não havia vindo para revogá-los e sim para reafirmá-los com outra visão. E deu-nos a Sua visão para, ao menos, o que seria a Lei Maior da Vida: “Ama a Deus com toda a força de tua alma”, o que vale dizer há um comandante do processo, Ele te ama e, para ser feliz, tens de amá-lo e respeitá-lo, o que também vale dizer, amar e respeitar a tua própria natureza, o teu corpo, as tuas emoções, a tua alma. “E ama ao teu próximo como a ti mesmo”, o que vale dizer, do jeito que tratas o teu próximo, dás a entender como tratas de ti mesmo. Se não o amas, é porque não conheces o amor e nem mesmo sabes amar a ti mesmo.
Ao reinterpretar o conteúdo do Tomo II e ao observar os acontecimentos do mundo presente, podemos deduzir que há uma crise de valores, houve o enterro da ética, as pessoas primam pela desobediência a começar por seus hábitos diários, alimentação, sono, exercícios, sexo. Temos a rebelião do homem a desafiar as leis dos homens e as Leis de Deus. Nada mais é ordenado, justo, harmônico, alegre. A maioria dos humanos está doente. Dá só uma olhada para as filas, seja de pessoas ou de carros. Quantos que, ansiosos, mal-educados, furam-nas e tiram proveito da situação com a maior cara de pau? E isso que estamos observando apenas uma fila. E com as coisas mais importantes, como será?
Uma Nova Visão sobre o tema sugere respeito às leis humanas e divinas. O estado do bem, da disciplina, da hierarquia, da responsabilidade, da harmonia, do respeito, da naturalidade, da saúde, da verdade, da justiça, do amor, precisa ser buscado. Ao rebelar-se contra as leis divinas, que são as mesmas leis naturais, o homem se faz ANJO CAÍDO e em muitas oportunidades demonstra querer substituir ou competir com Deus. Os efeitos desse comportamento são sentidos no meio-ambiente, nas aberrações tecnológicas, na sociedade, nas dores da carne.
O verdadeiro ser ético é aquele que dispensa o radar no trânsito ou a câmera no corredor da vida. A diferença está em que uns só respeitam quando estão sendo filmados (por medo de serem pegos e penalizados) e outros respeitam sempre as regras, independentemente do olho que os esteja observando.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Reinterpretando o Evangelho (I)


Introdução

Este blog está propondo uma inovação neste final de ano, tempo em que as pessoas se preparam para um balanço de suas vidas, recomeço de atividades, novos propósitos, fraternidade em alta, celebrações a mil por hora. O faremos com a pretensão de prestar mais um serviço à comunidade leitora.
Sem querer substituir o maravilhoso trabalho de evangelização tocado por tantos pregadores neste País e Além, teremos cerca de trinta situações evangelizadoras trazendo a palavra sempre viva de Jesus, expressa nos trechos dos Evangelhos aqui selecionados e com uma visão, se possível, atual, hodierna.
Muitos evangelizadores em muitos templos pelo mundo a fora têm buscado ler aquelas mensagens com o foco “naquele tempo”, como de fato estavam ambientadas e temporizadas, afinal ali estava iniciando a Era Cristã. E o fazem como se estivessem contando uma história dada e passada no século I. E como fazem dá a impressão de que aquela sabedoria serviu apenas para aquele povo naquele tempo.
No entanto, o tempo correu, a humanidade evoluiu e a sempre viva palavra de Jesus, hoje, tem outros impactos entre os homens. É o que ousaremos fazer, mesmo correndo o risco de errar o alvo. Queremos crer que o Jesus do Terceiro Milênio será um pregador atualizado, adaptando suas parábolas aos tempos atuais.
Você, leitor, será o nosso fiscal e nosso alvo.
Nas páginas seguintes, nos dias seguintes, você será chamado a ler e a refletir sobre uma tentativa de reinterpretar o Evangelho de Jesus, em cerca de trinta tomos, de forma a que a cada novo tomo haja um intervalo de 24 horas para sopesar e identificar os seus recados adaptados para a nossa atualidade com vistas a inserir novamente as mensagens de Jesus em nosso dia-a-dia do século XXI.
Você vem com a gente?
Se é que, de fato, vem, e se é que queira salvar estes arquivos em sua máquina, você irá colocando-os em seqüência e depois de finalizada a série terá um texto só, salvo, contendo as principais oratórias do Cristo, segundo os Evangelhos de Jesus.
Obrigado. Boa leitura.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XVII - conclusão)


Foco nos elos perdidos

Sinceramente, leitor, 17 pequenos tomos é muito pouco para abordar um tema com tamanha grandeza. Um livro com suas 400 páginas talvez pudesse conter tanta coisa. Cabe, para finalizar, resgatar ensinamentos gnósticos sobre Cristo, sobre o Espírito Santo pregado por Ele, sobre as línguas de fogo de Pentecostes sobre as cabeças dos presentes, narradas em Atos dos Apóstolos, e sobre o modelo de ação aplicado pelos cristãos primitivos. Não mais que isso, pois, reside na doutrina dos crísticos, últimos conteúdos que nos alcançam e tentam explicar a razão pela qual o planeta tanto esperou pela chegada do Cristo. E Ele veio humilde, ao que se narra, nascido num estábulo, filho de um carpinteiro viúvo em processo de novas núpcias com uma vestal essênia. E mais, com tudo a lamentar pela mutilada geral que aplicaram na doutrina do aguardado messias.
A maior parte dos conteúdos sagrados naqueles tempos anteriores à chegada d’Ele, girava sob os preceitos de alguns códigos secretos, só acessíveis a quem fosse iniciado. “O Fogo penetra em tudo o que é, foi e será. É preciso que penetre em nós para que nos transforme radicalmente. Somente através do Fogo conseguiremos aniquilar o Ego. Quem pretender aniquilar o Ego unicamente com o intelecto seguirá pelo caminho do erro. Suplique ao Cristo para que se utilize do Fogo para que Ele Renove Incessantemente sua Natureza Interna. Suplique ao Cristo Íntimo: Cura, Força, Iluminação e o Despertar da Consciência Divina em sua Alma”, são escritos daqueles tempos que não foram parar nos evangelhos justamente porque os evangelhos (que conhecemos) eram dirigidos ao povão. E esta linguagem era uma linguagem de iniciados.
Os apóstolos cristãos primitivos caminhavam pelas estradas e faziam reuniões com o povo, nas casas dos interessados em crescer, onde pregavam, ensinavam e aplicavam terapias, faziam práticas de transformação e cura. Eram chamadas de Casas do Caminho. E o rito era de cunho espiritual. O principal foco era a mudança de comportamento, a partir da transformação íntima, a partir da escolha por ser do bem nuns tempos difíceis em que a vingança era permitida por 70 x 7 vezes e num tempo em que ainda se aplicava a Lei Talião: “olho por olho, dente por dente”, isto é, para cada olho, para cada dente perdido por causa do agressor, mediante tortura e agressão será buscado resgatar junto ao agressor. A luta de judeus e palestinos, hoje, ainda está presa a estas máximas. O perdão, ali, jamais será uma prática alcançável. A palavra jamais está condicionada ao fato de que nenhum dos dois lados nada cede.
A mensagem crística tinha tudo de espiritual: o batismo no Jordão, a ida ao deserto, a transfiguração no Monte Tabor, o aparecimento espiritual após a crucificação, a reunião dos onze para a escolha do substituto de Iscariotes, a forma de trabalho afastando obsessões, a promessa da volta de um paracleto, ajudador, consolador, advogado, intercessor, mediador, tudo remete às práticas que eram comuns aos profetas do Velho Testamento. Estes eram médiuns que escreviam o que ouviam, segundo diziam, de Deus. Também esses eram iniciados, homens santos, escolhidos para intérpretes do Sagrado. Isso foi silenciado a partir da posse de Roma sobre a doutrina de Cristo. Mas, voltou, está voltando.
As palavras YOD, NUN, RESH, YOD, separadas por vírgulas, como são apresentadas em algumas doutrinas antigas, contêm um código só conhecido pelos iniciados da Kabalah. De nada vale traduzir o primeiro YOD por “mão, continuidade, poder, causa”; de nada vale traduzir NUN por “peixe, existência, expansão, aumento”; de nada vale traduzir RESH por “cabeça, receptáculo universal”; de nada vale traduzir o segundo YOD por “inteligência, avanço”. Estas palavras aramaicas sempre deixarão de conter o que, no seu simbolismo secreto, realmente contêm. Muitos dos elos buscados estão escondidos dentro de palavras sagradas, palavras de passe, senhas, códigos, perdidos por nós, escondidos de nós, mas, quem sabe, a um passo de serem reveladas. Reveladas não como quem compra um código de barras para atravessar um portal ou acessar um espaço vedado. Não será assim. O paracleto, ajudador, consolador, advogado, intercessor, mediador, não soprará no ouvido esquerdo a metade da charada e no ouvido direito a outra metade da charada. Ele não virá, já veio, falou e disse. Mas, alguém preferiu torcer o ponteiro, quebrar a bússola, mexer na configuração do GPS.
Ele veio para dizer: você é capaz de erguer o véu, você tem condições de remover a barreira, use a cabeça, descubra você mesmo, dispense o guia, não terceirize seu crescimento espiritual, você não é mais uma criança necessitada de atravessar a rua seguro pela mão de alguém.
O elo perdido é a perda da dignidade, isso que ainda faz multidões inteiras pronunciarem a frase: “eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. Não haverá palavra alguma que zere a quilometragem equivocada. Os indignos terão de tornar-se dignos por conta própria, por si mesmos. A palavra mágica foi perdida, melhor dizendo, foi jogada fora. Uma bênção não vem por acaso, não será atraída por oferenda, troca, esmola, benevolência ou concessão. As bênçãos se dão por mérito, precisam ser conquistadas como o atleta que se esgota para chegar, como o aluno que se dedica para diplomar-se.
Talvez assim as palavras YOD, NUN, RESH, YOD, revelem uma parte do código que talvez assinale: “a continuidade, o poder, a causa está na expansão, no aumento da consciência, como receptáculo das leis universais, que se obtém com o uso inteligência”.
Talvez contenha uma chave perdida, um Elo Perdido.
Importa, meu respeitável leitor, que nunca percamos de vista que terceirizar o avanço espiritual, entregá-lo a alguém que faça a travessia (dos cegos, que somos nós) por nós, enquanto nós, ignorantes nos deixarmos levar, sempre será uma operação extremamente perigosa. Aquele que não sabe para onde quer ir, aceita ser levado para qualquer lugar. E este lugar poderá ser o pior. Ninguém poderá dizer que atravessou se fizer a travessia no colo do condutor. Ninguém avançará para um lugar melhor que este, onde estamos, se não se perguntar: “o que eu quero ser quando reencarnar novamente”. E pior ainda, se não produzir as causas que resultarão nos efeitos desejados. Não haverá milagres. Tudo terá de ser acontecer segundo os méritos. Isso vem sendo cochichado aos nossos ouvidos há 25 séculos. Perdemos a voz dos cochichos e os substituímos pelo ruído das ruas, pelos brados dos estádios, pelo lero-lero dos templos, pelo disse-medisse da mídia, pelo lamento das ladainhas, pelo ranger de dentes das filas dos hospitais, pelo grito dos desesperados, pelos decibéis dos megashows, pelos estampidos dos projéteis. Caímos em maldição. Erramos a estrada. Esquecemos o mapa. Perdemos a bússola. O GPS enlouqueceu. Ensurdecemos. Ficamos vesgos. Perdemos o senso.
Mas, ainda dá. Nem tudo está perdido. O ser humano tem consciência de sua missão aqui, mas vem trocando verdade por herdade, missão por menção, amor por rumor, respeito por despeito, qualidade por banalidade, aprender por prender, ser por ter, etc. etc. etc.
Vamos fazer as coisas certas? Se não podemos fazer um novo começo, certamente podemos começar a fazer um novo fim.
Continuamos esperados a Oriente do Jardim do Éden”, onde “querubins armados de espadas flamejantes guardam o Caminho da Árvore da Vida”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XVI)


INRI como rótulo de um agitador

Fiquei devendo uma dissertação sobre I.N.R.I. Foi isso que Pilatos pretendeu: rotular Jesus como o Rei dos Judeus ao fixar na cruz onde Ele padecia a inscrição I.N.R.I., traduzida entre nós como Jesus Nazareno Rei dos Judeus. Foi-nos ensinado isso para assim justificar a ira dos judeus contra um impostor e autorizar a reação romana contra um inimigo de Roma. Mas, os tempos hoje são outros e já se pode buscar outras fontes e hipóteses de que isso tenha sido uma mentira, mais uma mentira, entre tantas. Vemos o uso do mantra Inri, secretamente, entre os egípcios, os pársis (adoradores do Fogo, no Irã), e mesmo entre os maias, astecas e incas (o deus Sol, entre eles, era chamado de INTI, uma variação de Inri). E entre os judeus de um tempo anterior a Jesus, o Inri era entoado secretamente durante certos rituais entre Essênios e entre os Ebionitas.
Alguns autores dão suas explicações particulares. Eliphas Levi afirma que este mantra sagrado significa Isis Naturae Regina Ineffabilis. Os primitivos Magi (os Iniciados persas) formavam com estas quatro letras três aforismos distintos: Ignem Natura Regenerando Integrat; Igne natura Renovatur Integrat; e Igne Nitrum Roris Invenitur.
Os significados para o Inri não param aí: outros devem ter e outros poderão advir, pois é sabido que a mística e a imaginação do homem não têm limites. E quando algo dessa natureza está envolto também em mistérios, mais surpresas nos reservam. Daqui a algum tempo, possivelmente, documentos guardados por sociedades iniciáticas darão outras interpretações para o tetragrama Inri.
Uma coisa tem de ser guardada como indício: tudo parece girar em torno do Sol. A Igreja Romana trouxe o dia santo da semana para Domingo (Sun, em inglês) dia consagrado ao Sol, assim como a Segunda-feira é dedicada à Lua, a Terça-feira à Marte e assim por diante...

Saul e os Ebionitas

Quem eram os Ebionitas? O desenvolvimento desta seita vem desde a época do profeta Samuel, século IX a. C. até o século II d.C. Samuel, que a pedido do povo instituiu a monarquia e proclamou Saul o primeiro rei de Israel, foi o fundador da seita cujo nome significa “Humildes”. Era formada principalmente por jovens intelectuais e visava ensinar por meio de práticas místicas e por exemplos. Grandes profetas aí se formaram destacando-se Isaías, Oséias, Miquéias, Habacuc e Amós, entre outros.
Os iniciados que atingiam o último grau, ficavam encarregados de propagar a seita através de ensinamentos, instruindo e moralizando o povo. Reuniam-se em lugares altos, executavam cantos e danças sagradas ao som de harpas, flautas e violinos. O povo vinha em grande número ouvir as músicas, geralmente seguidas de emocionadas prédicas contra os vícios, a favor das virtudes, pela justiça e pela verdade.
Com a morte de Samuel, a ordem passa a ser chefiada por Nathan e Elias. Com a morte de Elias, vem a chefia recair em Oséias, escolhido entre Isaías, Miquéias e Amós.
Sob a direção de Oséias, a Ordem deu ênfase a práticas de caridade, exercício de justiça, piedade aos desgraçados, defesa da viúva, proteção ao órfão, amor ao estrangeiro, atos que, diziam, agradavam a Deus mais que qualquer culto.
Declaravam que o homem foi dotado de pensamento e conhecimento para executar tarefas e proclamavam ainda que a vida do homem é uma larga agonia e que somente as dificuldades ficam e transformam, enquanto os prazeres são efêmeros. A vida não é mais do que um sofrimento eterno do nascer ao morrer e seu único lenitivo era a prática da virtude, consciência limpa e coração puro como premissas de purificação e evolução.
Os ebionitas também tinham sinais de reconhecimento. As reuniões e trabalhos começavam, como acontece em determinadas sociedades secretas, com senhas e códigos. Quando perguntados, “sois ebionita?”, a resposta era “Três me iniciaram, cinco me completaram e sete me fizeram perfeito”. O chefe, mestre, ensinava que esses números eram sagrados desde a antiguidade e que Moisés os usava de forma misteriosa ao abençoar o povo através dos sacerdotes, o que seja, uma bênção que continha três palavras, uma segunda bênção que continha cinco, e uma terceira bênção, que continha sete palavras.
Na entrada das reuniões, cada ebionita repetia os números 3, 5 e 7, aos quais o mestre respondia: “Filho bendito do nome sagrado, o sublime número 9 simboliza, na verdade, o último ideal do esforço humano, símbolo da verdade divina: podes entrar e iluminar-te com as luzes celestes que aclaram esta assembléia de sábios”.
Ao terminar a reunião, o mestre dizia: “Lembremo-nos que somos ebionitas, os mais humildes e modestos servidores de Deus, da verdade e da justiça”. Tinham seus signos e senhas e ainda usavam sobre a cabeça, quando reunidos, uma peça de pano bordado com um quadrado entrelaçado com um triângulo em cujo centro estavam as letras YOD, NUM, RESCH, YOD, que, pelo alfabeto latino se traduz por INRI, dando a entender que eles eram adeptos da Alquimia Crística, da manipulação do Fogo de Pentecostes, do Fogo sagrado que a tudo regenera, especialmente os elementos naturais: Ar, Fogo, Água e Terra. Mas, YOD, NUN, RESH, YOD, assim separado por vírgulas tem outro significado do qual falemos nas conclusões.
Assim, logo após a fixação das iniciais INRI sobre a cruz de Cristo, tudo passa a ser diferente naquele cenário de há 2.000 anos. Tem-se como provável um código. Pilatos parecia desconhecer a sigla e seu significado “Ignis Natura Renovatur Integram” que, numa das interpretações, equivalem a “O fogo renova incessantemente a natureza”, e terá aceito a sugestão partida de alguém, porém com o objetivo de tripudiar o condenado: Iesus Nazareno Rei dos Iudeus”.
Eram três os condenados, mas um deles é retirado da cruz antes que suas pernas fossem quebradas, como era costume, e ganha sepultura nobre, quando o costume era deixar os corpos inertes ao relento para deleite dos abutres e dos cães famintos. Na madrugada de domingo (dia do Sol) é anunciada a ressurreição do morto e sua vitória sobre a morte.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XV)


Mais uma religião

Não foram só os judeus, islamitas e romanos que fundaram religiões, Auguste Comte - por meio da obra Sistema de Política Positiva (1851-54) - instituiu a Religião da Humanidade. Após a elaboração de sua filosofia, como sintetizamos no tomo anterior, Comte concluiu que deveria criar uma nova religião: afinal, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeira religião: a religião positiva. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural, pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento de uma nova Religião que apresenta um novo conceito do Ser Supremo, a Religião da Humanidade ou se quisermos entender melhor, a religião da condição humana do homem. Comte foi inspirado para essa criação pela devoção à sua amada Clotilde de Vaux. Observe a data e veja que também esta manifestação se dá após o afastamento das ameaças inquisitórias.
Segundo os positivistas, a Teologia e a Metafísica nunca inspiraram uma religião verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo. Estabelecendo a unidade espiritual por meio da ciência, a Religião da Humanidade possui como principal objetivo a Regeneração Social e Moral do homem.
A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade. Ela representa o conjunto de seres convergentes de todas as gerações, passadas, futuras e presentes convergentes, isto é, que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.
A ciência em seus principais resultados constitui-se no dogma da Religião da Humanidade. Também existem templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade (chamada Grão Ser pelos positivistas). A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes litúrgicas, dias de santos (grandes tipos humanos), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso de um calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário solar composto por 13 meses de 28 dias).
O lema da religião positivista é: "O Amor por princípio; a Ordem por base; o Progresso por fim". Seu regime é: "Viver às Claras" e "Viver para Outrem".
Augusto Comte foi o criador da palavra “altruísmo”, que segundo o fundador, resume o ideal de sua nova religião.
A idéia de uma unidade humana (moral, intelectual e prática) considera que o ser humano só poderá ser harmônico, coerente e, portanto, feliz, se puder manter uma unidade mental individual e, ao mesmo tempo, puder relacionar-se bem com seu meio. Para isso, precisa cultivar o altruísmo e manter idéias sintéticas; com isso, terá sentimentos e noções gerais que permitirão uma conduta generosa e esclarecida em suas atividades cotidianas, que tendem a ser egoístas e dispersivas.
Não há como negar os resgates que Comte acabou por fazer de conhecimentos religiosos associados a Jesus, ao gnosticismo e ao nascente Espiritismo de Kardec no que respeita as relações entre os seres humansos, mais precisasmente a caridade.
Para que não pairem dúvidas, o materialismo presente nas concepções desses muito novos filósofos e pensadores, nada tem de contrário à existência de Deus, pois o cientista que tem a capaciade de fazer o que Deus demonstra ter feito, é um exímio lidador com seus materiais, um exímio manipulador de elétrons, prótons, neutrons...
Afinal, são as estrelas super novas a fonte de geração dos 118 elementos químicos presentes na Tabela Periódica elaborada pelos cientistas. Alguém deve ter apertado pela primeira vez o botão que deu início à produção. O que diverge em Comte é a sua visão reduzida sobre o autor da "mão que apertou o botão pela primeira vez".

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XIV)


Positivismo se mostrou positivo

Por sua enorme influência sobre nossas vidas desde há duzentos anos, não poderíamos progredir nesta abordagem sem dedicar um capítulo a ele, o Positivismo. Positivismo é um conceito que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras posteriores. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) – mais um nome semente de humanidade – na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si, sem deixarem de interferir na cultura dominante. Nesse sentido, há correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a obra de Comte, mas influem. Exemplos paradigmáticos disso são o Positivismo Jurídico e o Positivismo Lógico. Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Por isso adentrou os sistemas que fundaram a sociedade atual. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia histórica). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.
O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). Em sua obra “Apelo aos Observadores” (1855), Comte definiu a palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.
A ideia-chave do Positivismo Comteano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o homem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suas ideias e a realidade:
1. Teológico: o ser humano explica a realidade por meio de entidades supranaturais (os "deuses"), buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?"; além disso, busca-se o absoluto;
2. Metafísico: é uma espécie de meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas, é o meio termo entre teológico e metafisico.
3. Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como", por meio da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo observável e concreto.
Mesmo acusado de acelerador do processo materialista, Comte contribuiu para que a ciência cada vez mais se dedicasse ao minúsculo, à particula, e assim chegamos à Quântica. Qual foi a surpresa do cientista? Ao tentar provar a inexistência de um Deus Autor da Obra Universal, deu de cara com Ele.

domingo, 16 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XIII)


Descartes, Newton & Cia.

A filosofia renascentista foi marcada por lutas acirradas entre modos de pensar contraditórios. Alguns filósofos consideravam a existência de algo de natureza fundamentalmente anímica ou espiritual, ponto de vista que ficou conhecido como idealismo. O ponto de vista oposto ficou conhecido como materialismo e designa uma filosofia que explica todos os fenômenos da existência a partir de grandezas concretas, materiais. No século XVII, o materialismo teve muitos defensores. O de maior influência talvez tenha sido o filósofo inglês Thomaz Hobbes (1588-1679) com sua moral utilitária, que deu alicerces ao positivismo do francês Auguste Comte, ainda presente em nossa cultura. Hobbes dizia que todos os fenômenos, incluindo homens e animais, se compunham exclusivamente de partículas materiais, até mesmo a consciência. A alma humana teria sua origem no movimento de minúsculas partículas cerebrais. A filosofia positiva de Comte nega que a explicação dos fenômenos naturais, assim como sociais, provenha de um só princípio. A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos, seja Deus ou a natureza e pesquisa suas leis, vistas como relações abstratas e constantes entre fenômenos observáveis.
Antes de Hobbes e Comte, já circulavam as idéias de René Descartes (1596-1650). Desde jovem manifestou o desejo de conhecer a natureza do homem e do universo. Confessou mais tarde, depois de estudar filosofia, estar consciente de sua ignorância. Todos os pesquisadores anteriores e posteriores tiveram seu momento ignorante, o que aparentemente revela humildade. Na realidade, foram pesquisadores que chegaram à fronteira da razão (de seu tempo) sem desvendar a verdade que, para outros, da forma subjetiva, não admitida pela ciência, está além da razão humana.
Houve momentos em que Descartes esteve a procura do conhecimento dentro mesmo de seu íntimo, que chamou de "grande livro do mundo".
Viveu pouco, 54 anos, mas é tido como fundador da filosofia dos novos tempos, tendo como seguidores Spinoza, Leibniz, Locke, Berkeley, Hume e Kant.
Importa muito ter clareza de que enquanto os homens chamados de sementes de humanidade vinham compondo os tecidos de nossa cultura pelo lado intelectual, ganhava força a cadeia aprisionadora do braço (e por extensão da mente das massas populares), o materialismo produtivo com a nascente Era Industrial.
O regime feudal produziu seus estragos, mas teve um ponto alto. Onde houvesse produção havia uma comunidade e esta distribuía as tarefas e conferia autoria ao indivíduo. O homem exercitava a autoria.
Como agricultor ou artesão, por mais de 4 mil anos conhecemos um tipo específico de indivíduo ou grupo com participação no planejamento, autoria na ação, avaliação, apropriação dos resultados e interesse pela sobrevivência sua e do grupo.
A indústria enterrou isso e trouxe a crise depressiva ao homem, com conseqüências funestas e aprofundadas à medida que as igrejas e a escola acentuaram a sua falência como agências de libertação do homem.
As sociedades anteriores e posteriores praticantes do feudalismo praticaram também a escravidão e foram as que mais invadiram, mais se aproveitaram da mais valia, mais demonstraram desprezo pela espécie humana, mais fizeram guerras e revoluções e mais profundamente estão mergulhadas no processo de erosão social, degeneração do homem e do meio ambiente, distanciamento da proposta da vida e agora também dentro de uma monumental crise econômica (diga-se falência do mercado de capitais).
Dá para descrever assim os pequenos avanços: a escravidão como a fase pré-animal do homem (valia menos que o animal); a empresa primitiva (mesmo dentro do regime feudal), como uma espécie de colônia penal, a fase animal, o homem animal domesticado para serviços forçados; a empresa capitalista como do homem programado, autômato, do trabalho em série, da repetição, da monotonia; seguiu-se uma fase da descoberta do próximo, a conquista de aliados para o trabalho conjunto, a cooperativa, a fase social; veio uma próxima fase a do uso do conhecimento para a produção como uma fase intelectual; na seqüência, a apreensão da energia humana, como a fase psíquica, o trabalhador buscando seu valor e a intensificação dos sindicatos; já estamos na fase da descoberta do ser, como a fase emocional e com um pé na fase que seguirá.
Durante este tempo em que há a destruição do homem e do meio, estamos na fase ecológica ou ambiental. Parece que brevemente estaremos entrando na fase da imaginação.
Este modelo de lidar com o braço, a emoção, a mente humana e muito pouco com o espírito, nos deu como resultados: alcoolismo; drogas; culto ao corpo e ao sexo; homossexualismo; suicídio; fanatismo; tara; violência; enormes perdas ambientais; perda da qualidade da vida com o pandemônio da vida urbana.
Estamos à espera da reconstrução do homem e do meio, que será a fase espiritual, quando então o homem será encarado por sua cultura como alguém integral.
Como serão essas novas relações no trabalho? O trabalhador não será mais apenas um trabalhador. Também não será um sujeito, apenas. Ele se integrará no processo como ator, autor. Ele conhecerá e pensará a empresa. Ele amará a empresa. E trabalhará intuindo o espírito da empresa.
Para atender a nova demanda, tivemos a Gestalt, os Pilares da Educação para o III Milênio, a Maestria Pessoal, os Modelos Mentais, a Visão Compartilhada, a Aprendizagem em Equipe, o Pensamento Sistêmico; e outros modelos que nos encaminham para que a evolução não se torne burra, como já foi.
Como disse Amartya Sen: Não pensem em continuar tratando o Capital Humano com a mesma frieza com que trataram e tratam do dinheiro e dos pacotes tecnológicos. E também não da forma irresponsável e predatória de como trataram até hoje do meio ambiente e dos trabalhadores. O maior sucesso e o maior fracasso de uma empresa está dentro dela mesma: é o seu Capital Humano, constituído não só pelas pessoas, mas como elas se relacionam, se gostam, confiam umas nas outras, comprometem-se com o trabalho e de como o fazem, com ou sem prazer, com ou sem significado, com ou sem co-autoria.
Se olharmos um pouco mais para trás, veremos que é inegável os avanços. E que tudo teve origem num momento e num local bem definidos: o Egito.
Desde o Egito as religiões passam a ser influenciadas na Mesopotâmia e Índia, passa pelas inovações dos profetas e sábios iranianos e judeus e chega até as visões do paraíso, de Jesus, e dos primeiros cristãos.
Até cerca de 1500 a.C., povos como os egípcios, sumérios, babilônios, indo-iranianos e seus descendentes hindus, iranianos, cananeus e israelitas do período anterior ao exílio, todos concordavam que, no início, o mundo era em essência imutável, uma vez que fora ordenado por um ou por vários deuses. Para cada um desses povos, a segurança - isto é, a fertilidade da terra, a vitória na guerra, a estabilidade das relações sociais sancionadas pelos costumes e pela lei - isto é, cultura - era o signo exterior e visível de que havia de fato uma ordem estabelecida nos céus.
No entanto, essa ordem nunca foi tranqüila, estava sempre ameaçada por forças malignas e destrutivas, por vezes identificadas por enchente e seca, fome e praga, inércia ou a própria morte, derrotas na guerra contra povos hostis ou contra conquistadores tirânicos, lembrando a todos a presença de forças demoníacas.
Entre 1500 e 1200 a.C., o profeta iraniano Zoroastro rompeu com essa visão de mundo estática, aflitiva e repleta de angústia. E o fez reinterpretando de maneira radical a versão iraniana do mito do combate. Na concepção de Zoroastro, o mundo não era estático, nem seria sempre turbulento. Agora mesmo, o mundo estava se aproximando, por meio de incessantes conflitos, de um estado sem nenhum conflito. Chegaria o momento em que, em uma prodigiosa batalha final, o deus supremo e seus aliados sobrenaturais derrotariam as forças do caos e seus aliados humanos, aniquilando-os de uma vez por todas. Depois disso, o mundo caminharia rumo a um estado de perfeição, que se instalaria após a batalha final, vencida pelo deus supremo.
Passível de ser reformulada, a doutrina zoroastrina evidencia o Abraxas gnóstico, lembre-se?, aquele que se tornará vitorioso quando derrotar a si mesmo?
Agora também algumas contribuições à cultura dos homens a partir de conjunturas astrológicas:
Era de Peixes (indo para o final):
Tempo de misticismo, transcendentalismo, magia. Emocional, amoroso, intuitivo e um pouco inseguro. Demonstração de compaixão e sabedoria. Incentivo às Artes, às Terapias, às Lideranças Religiosas, aos Curadores e aos Defensores dos necessitados.
Era de Aquário (prestes a começar):
Desafio ao Senso Comum promovendo choques às convenções. Liberdade às conspirações silenciosas. Senso de Justiça, Igualdade e Fraternidade. Incentivo ao que é memorável, à cura do corpo, à Sociologia, às ciências renovadoras e aos estudos dos céus.

sábado, 15 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XII)


Evolução e Humanismo

A filosofia da natureza nascida com Demócrito significou uma verdadeira ruptura com a visão mitológica do mundo. Os principais filósofos pré-socráticos (e suas escolas) foram: da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anazimenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heraclito de Éfeso; da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Arquitas de Tarento; da Escola Eleata: Xenófanes, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia e Melisso de Samos; da Escola da Pluralidade: Empedócles de Agrigente, Anaxáforas de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.
Na seqüência, Sócrates, Platão e Aristóteles (por volta de 450 a.C.), cada uma ao seu modo, marcaram profundamente a civilização européia. Os filósofos da natureza são freqüentemente chamados de pré-socráticos. É assim porque Sócrates representa um divisor de águas não apenas do ponto de vista temporal. Nosso ponto de referência geográfico também se altera agora. É que Sócrates foi o primeiro filósofo nascido em Atenas e tanto ele quanto seus dois sucessores viveram e atuaram em Atenas, cidade mais importante do mundo naquele momento. Lembremo-nos de que Anaxágoras também viveu em Atenas, mas foi banido dali. Sócrates também não viria ter um destino muito feliz.
Para entender melhor a ruptura entre o pensamento dos chamados filósofos da natureza e o pensamento de Sócrates, é necessário entender uma mudança essencial em todo o projeto filosófico. O centro do pensamento deslocou-se da pesquisa com os elementos naturais para o homem e para sua posição na sociedade. Em Atenas desenvolvia-se pouco a pouco uma democracia com assembléias populares e tribunais. Um pressuposto para a democracia era o fato de que as pessoas recebiam educação suficiente para poder participar dos processos democráticos. Em nossos dias podemos ver o quanto uma jovem democracia precisa de um povo esclarecido. Entre os atenienses era particularmente importante dominar a arte de bem falar, a retórica.
Aristóteles (384-322 a. C.) foi aluno da Academia de Platão em situação muito especial: era filho de um médico de renome, um cientista da natureza e portanto seu interesse estava justamente na natureza da vida. Foi o último grande filósofo grego e também o primeiro grande biólogo da Europa.
Os epicureus ou "filósofos de jardim" (por se reunirem nos jardins), eram assim batizados por seguirem a liderança de Epicuro (341-270 a.C.). Pregavam a ética do prazer combinada com a teoria do átomo. Epicuro fazia questão de enfatizar que "prazer" não significa necessariamente satisfação dos sentidos.
Note o leitor que são citados inúmeros pensadores de uma época nascente da Filosofia. Eram tempos agitados antecedendo os tempos de Jesus. Sabiam muito aqueles homens naquele tempo. Após eles e o vendaval religioso liderado por Cristo, mergulhamos em um milênio de trevas. E quando chegou aquilo que foi chamado de Renascimento e logo a seguir Iluminismo, nós já estávamos sob a pressão das religiões castradoras. Só após a Inquisição, em torno em 1840, é que as mentes iluminadoras ganharam coragem para se manifestar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Elos Perdidos (XI)


Evolução via Alexandria e Athenas

Alexandria, pode-se dizer, foi a capital do mundo por alguns séculos. Não, talvez, por seu poder bélico, se comparado a Roma, mas por sua sabedoria. A Escola de Alexandria durou vários séculos, do final do século IV a.C. até o século VII d.C. Durante esse período teve alguns momentos de glória ao comandar o pensamento mais lúcido que os homens podiam ter sobre a vida, sobre o homem e sobre Deus. A Escola deve muito a Ptolomeu e durante aqueles tempos se destacaram Orígenes, Plotino, Filon, Jâmblico, Porfírio, Clemente. Ptolomeu é tido como o protetor das letras e um administrador eficiente (a ele se atribui a construção do farol – tido como uma das maravilhas do mundo antigo). A aura brilhante de uma cidade importante chamou a atenção dos conquistadores e num exemplo bem típico de outro fenômeno acontecido aqui na América do Sul, Alexandria também foi invadida, saqueada, reduzida a ruínas. O nosso exemplo Sul-americano é Macchu Picchu. Aqui a fama de uma montanha de prata e de armazéns lotados com pepitas de ouro estimulou o interesse material de Espanha e o conquistador veio destruir os donos dessa riqueza para se apossar dela. Na verdade, não havia prata, nem ouro, e sim milho armazenado. A Europa não conhecia o milho que, era amarelo, mas não era ouro e tinha valor apenas como alimento. Mas, os seres humanos foram trucidados, expulsos, assassinados e com eles se perdeu a sabedoria Inca. Lá em Alexandria foi interrompida a marcha dos sábios de Deus, a marcha dos gnósticos.
Hoje, a Escola de Alexandria, do ponto de vista arquitetônico, está sendo reconstruída sob o patrocínio da Unesco, mas a perda dos elos do saber talvez seja para sempre.
Em Athenas, prosperava outra escola filosófica e histórica.
Os historiadores gregos mais famosos foram Heródoto (484-424 a.C.) e Tucídides (460-400 a.C.). Os gregos dos primeiros tempos também responsabilizavam os deuses pelas doenças. Eram castigos. Vem desta época o nascimento da ciência médica grega, cujo objetivo era buscar explicações naturais para a saúde e a doença. Supõe-se que essa ciência médica foi fundada por Hipócrates, nascido por volta de 460 a.C. De acordo com a tradição médica de Hipócrates, os meios mais eficazes para prevenir as doenças eram a moderação e um modo de vida saudável. Por conseguinte, a saúde seria o estado natural do homem. Quando a doença aparece, isto significa que a natureza "saiu dos trilhos" devido a desequilíbrio corporal ou anímico. Saúde é sinônimo de moderação e harmonia, isto é, "mente sã em corpo são".

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Elos Perdidos (X)


Evolução em tempos mais recentes

Depois de Jesus, as contribuições evolutivas ao pensamento filosófico, científico e religioso ocidental foram dadas por filósofos e pesquisadores nem todos religiosos, alguns ateus e principalmente adversários do poder da Igreja Romana.
Pode-se relacioná-los:
Thales, possivelmente o primeiro filósofo. Foi o iniciador de Pitágoras, que é o segundo e já mereceu citação. Considerava a água a origem de tudo.
Anaximandro, também de Mileto, foi o terceiro. Achava que o nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de alguma coisa e se dissolvem nesta alguma coisa que ele chamava de infinito.
O quarto foi Anaxímenes, para quem o ar era a substância básica de todas as coisas.
Em torno de 500 a.C. viveram na colônia grega Eléia, no Sul da Itália, alguns filósofos, sendo Parmênides o mais conhecido deles. Acreditava que tudo o que existe sempre existiu: nada pode surgir do nada e nada do que existe pode se transformar em nada.
Na mesma época viveu Heráclito, em Éfeso, na Ásia Menor, para quem as constantes transformações eram justamente características mais fundamentais da natureza. Tudo flui, dizia ele. Também chamou a atenção para o fato de o mundo estar impregnado por constantes opostos. E já se referia a um elemento divino que abrange o mundo inteiro e se manifesta na natureza em constante transformação. Heráclito dizia que tudo se transforma, flui, e que as impressões dos sentidos são confiáveis.
Empédocles (494-434 a.C.) aponta o caminho para tirar a filosofia do impasse. Diz que os antecessores têm razão numa de suas afirmações, mas que estão enganados quanto à outra. A questão era o elemento primordial. Nem água, nem ar e sim a água, o ar, a terra e o fogo, fazendo combinações entre si para depois novamente se separarem. Ele dizia que na natureza atuavam duas forças, por ele chamadas de amor e disputa. O que une as coisas é o amor; o que as separa é a disputa, diferenciando, assim, elementos e força. Empédocles esteve muito próximo do atual paradigma científico pelo qual o elemento básico e forças naturais são coisas distintas que interagem.
Anaxágoras (500-428 a.C.) também aceitava a idéia de que terra, água, ar, fogo e pudessem se transformar em ossos, pele, cabelos e que a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu. Para ele, tudo pode ser dividido em partes menores, mas mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo. Esta sua visão de 2.500 anos passados foi confirmada recentemente pela Física Quântica no processo holográfico explicado através dos fractais. Anaxágoras chamava estas partes minúsculas, que traziam em si um pouco de tudo, de "sementes" ou "germens". Lembremo-nos de que Empédocles achava que o amor unia as partes para formar o todo. Também imaginou um tipo de força que seria responsável, por assim dizer, pela ordem e pela criação de homens, animais, flores e árvores. A esta força ele deu o nome de inteligência. Dentre outras coisas, ele disse que o Sol não era um deus – como já se pensava em Roma -, mas uma massa incandescente, maior do que a península de Peloponeso. Interessado também por astronomia, acreditava que todos os corpos celestes eram feitos da mesma matéria que compunha a Terra e que por isso era previsível haver vida também em outros planetas.
Demócrito (460-370 a.C.), o último grande filósofo da natureza, concordava com seus antecessores num ponto: as transformações que se podiam observar na natureza não significavam que algo realmente se "transformava". Ele presumiu, então, que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade de pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eternas e imutáveis, às quais deu o nome de átomo. Para ele, átomos eram unidades sólidas e firmes, só não podiam ser iguais, pois se todos os átomos fossem iguais não haveria explicação para o fato de eles se combinarem para formar desde papoulas a oliveiras, desde pêlos de um bode a cabelos humanos. Ela acreditava existirem átomos arredondados e lisos, outros irregulares e retorcidos e que exatamente por serem irregulares podiam combinar-se para dar origem a corpos os mais diversos. Independentemente, porém, do número de átomos e de sua diversidade, todos eles seriam eternos, imutáveis e indivisíveis. Se um corpo, por exemplo, de uma árvore ou de um animal morre e se decompõe, seus átomos se espalham e podem ser reaproveitados para dar origem a outros corpos. Se é verdade que os átomos se movimentam no espaço, também é verdade que eles possuem diferentes "ganchos" e "engates" e podem ser novamente reaproveitados na composição de outras coisas que vemos em nosso redor. Hoje em dia podemos dizer que a teoria atômica de Demócrito estava quase perfeita, obtida apenas através da razão, pois não teve acesso aos aparelhos de precisão eletrônica que mais tarde auxiliaram os cientistas. Não acreditava, porém numa "força" ou numa "inteligência" que pudessem intervir nos processos naturais, sendo, por isso, considerado um materialista. Também não acreditava como a maioria de seus patriotas, na inexorabilidade do destino. Em sua tese cabia também a consciência humana. Ele acreditava que a alma humana era composta de átomos particularmente arredondados e lisos que, ao morrermos se espalham para todas as direções e podem se agregar a outra alma no momento mesmo em que esta é formada. Fica assim negada a imortalidade da alma e interrompida pelo menos temporariamente a era da filosofia natural grega.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Elos Perdidos (IX)


Como evoluir?

Colhendo. Seria a resposta para a pergunta-título. Colere é uma palavra raiz semântica da palavra cultura. A sociedade da qual fazemos parte eu e você, alicerça-se numa colheita, isto é, numa cultura, construída no dia-dia, tijolinho sobre tijolinho a partir daquilo que pensa, experimenta, vivencia, testemunha, se torna autora. Nesse contexto aparecem nomes e doutrinas muito bem postas oferecendo contribuição para melhor e para pior. Fiquemos com as contribuições que melhoraram. Vamos tentar fazer uma cronologia e uma identificação dando a elas a conotação de sementes do conhecimento religioso e, por extensão, de ciência, como motores de transformações da cultura universal. Eles fecundaram o futuro da humanidade:
Hermes Trismegistus:
O primeiro a pregar que o universo é uno: o que está em cima é igual ao que está em baixo, de onde despontou a crença de que somos a semelhança de Deus.
Zoroastro:
Autor da doutrina monoteísta, trazendo a idéia do bem e do mal, de Deus e de um adversário, o diabo.
Abraão:
A outra versão da redescoberta do Deus único, com nome de Yahwé; junto à idéia de Zoroastro fundou a cultura religiosa ocidental, tanto quanto Confúcio fundou a cultura religiosa oriental.
Confúcio:
Na verdade, o criador do Tao, equilíbrio e harmonia através da equiparação das forças negativa e positiva, semelhante à vitória de Abraxas, já mencionada como idéia gnóstica.
Moisés:
Na continuidade da fusão das doutrinas de Zoroastro e Abraão trouxe a descoberta da morte para os não obedientes às regras da Tábua da Lei.
Buda:
Foi além, anunciou que o homem é espiritual, centelha que veio de Deus e que voltará para Ele, reencarnando quantas vezes forem necessárias até purificar-se. Refundou a cultura oriental sem desmerecer Confúcio.
Pitágoras:
Cunhou os termos microcosmos e macrocosmos ao afirmar que o homem (micro) é idêntico ao cosmos (macro).
Jesus:
Uma nova ordem, uma nova interpretação sem destruir os conhecimentos e sim para aprimorá-los: a descoberta da salvação-libertação; para os judaico-cristãos a vitória sobre a morte. Jesus ensinou que é possível libertarmo-nos da tirania, de qualquer tirania, mesmo a da lei religiosa.
Instituiu a Era do Amor. Prometeu um Paráclito, um advogado, um mensageiro que viria oferecer novas interpretações à medida que a consciência humana pudesse suportar. Tem-se como Paráclito as doutrinas de Helena Blavatsky e Allan Kardec, mas existem choques de ventos mobilizadores de consciências também nos trabalhos de Charles Darwin, Mary Baker Eddy, Martin Luther, Marx, Einstein, Dalai Lama, João Paulo II, Fritjof Kapra (este ao fazer uma ponte oriente-ocidente), etc.
Maomé:
O mensageiro final dos ensinamentos de Deus, oferecendo aos muçulmanos um código mais comportamental que filosófico, mais ritualístico que doutrinário.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Elos Perdidos (VIII)


O que seriam os elos perdidos

No simples fato de traçar-se uma linha de coerência entre os ensinamentos de Hermes, Zoroastro, Confúcio, Pitágoras, Buda, Sócrates, Jesus, Dalai Lama, outros, muitos outros, são muitos pensadores classificados como filósofos iluminadores ou sementes de humanidade ou promotores de choques mobilizadores da evolução humana, percebe-se uma linha mestra que permeia suas doutrinas sem grandes curvas diferenciais. São conteúdos que fertilizam, fazem crescer, multiplicam, fazem multiplicar e influem no crescimento evolutivo do ser humano no rumo de sua própria essência como ser divino. Isso tem nome: sabedoria. Riqueza espiritual poderia ser outro nome. Libertação também serve. Se quisermos escrever de modo diferente, isso é o conhecimento inspirado nas coisas divinas e humanas e derivado também da apreensão de um conjunto de conteúdos baseados na ciência, na filosofia, na arte e nas tradições. É o oposto do conhecimento imediato de algo simples. É o exercício da compreensão, do julgamento, do raciocínio.
Os luminares da humanidade são aqueles seres portadores de idéias ou obras representativas de um novo tempo, que fizeram e fazem pensar, refletir, descobrir. São sementes culturais, intelectuais, espirituais, ou portadoras de valores profundos para a sua época e para depois. São sementes de vida ou métodos de cultivo da vida.
Repito: valores profundos para a sua época e para depois, com uma premissa básica, evolutiva, não estacionária, reformável, adaptável à medida que a consciência se expanda, que a ciência descubra e atualize. Consciência é uma palavra provinda do termo “con-scire” (conhecer juntos) que só pode ser aplicada se o conhecer que ela encerra esteja alinhado com a ciência de Deus, isto é, com a descoberta, pelo homem, de qual é a Lei Divina para a vida.
Repare nesta pequena lista de um enorme elenco de pessoas importantes para a humanidade. Qualquer um pode pesquisar as suas obras e influência que suas obras tiveram sobre a humanidade: Goethe, Beethoven e Wagner (~1850): sementes de cultura ancestral alemã fecundadas para sempre na alma de seu povo; Saint-Simon, Victor Hugo e Balzac (~1840): sementes da cultura ancestral francesa fecundadas para sempre na alma de seu povo; Jackson, Lincoln, Walt Witman, Emerson (~1850): sementes do Velho Continente fecundadas na organização do Novo Mundo, a América, e estrutura de uma nova sociedade que emerge; Helena Blavatsky e Allan Kardec (~1850): a antiga doutrina hermética reformulada para uso atual e futuro; Robert Owen (~1850): a descoberta da sociedade cooperativa não excludente - o coletivismo, a participação, a partilha dos bens produzidos.
Veja, leitor, com espantosa surpresa, que esses luminares e suas obras têm emergência após o fim da Inquisição.
Mas, mesmo assim, a humanidade ainda se debate aprisionada a um modo de reproduzir cultura que parece algemado, escravo de alguma coisa oculta que a atrai e impede que haja libertação. Fazer Ciência, fazer Arte, fazer Filosofia e fazer Religião, é algo com reserva de mercado, um privilégio outorgado por algum “rei”. Como são poucos os reis institucionalizados, esse “rei” parece escondido a governar por trás dos bastidores. E está conseguindo o que quer. Esses exemplos nos vêm daqueles pobres países entregues a ditadores sanguinários como foram ou são os casos de Haiti, Cuba, Paraguai, Líbia, Egito, Irã, Iraque, quase que a África inteira e muitos outros.
A nota promissora nos vem daquelas sociedades que através da Internet estão conseguindo mobilizar-se para libertar-se, a ferro e fogo, dos seus algozes. Mas, a sua libertação não pode ser apenas relacionada aos déspotas governantes, tem de ser uma conquista também espiritual, ampla. Mas, não será fácil.
Aprisionar a mente, subtrair informações, iludir a fé, mentir sobre a realidade espiritual, todos sabemos que é ditadura. Perdem-se elos de evolução, rompem-se os segmentos, quebram-se as cadeias do saber sempre que uma liderança não comprometida com a libertação se apodera do comando e obstrui a evolução. Consciências travadas, povo refém, governo despótico, atraso evolutivo, pobreza, ignorância, fábrica de idiotas.
Alguns pensadores chegam a sugerir compreender que é, mesmo, difícil crescer e romper com as amarras. Se este é o preço, a humanidade o está pagando e pagando muito caro.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Elos Perdidos (VII)


A proposta é derrotar a si mesmo

São muitos os escritos sobre Fundamentos da Gnose. “A Gnosis é o conhecimento de tudo que diz respeito ao Sagrado, não importando o que você entenda por Deus e como você fará seu retorno à vida divina de onde saímos, como centelhas divinas que somos. É a síntese cristã de todas as filosofias de libertação espalhadas pelo mundo antes e depois da vinda de Jesus Cristo. Como todas as tradições espirituais, a Gnosis considera o mundo como uma ilusão, uma cópia mal feita, instável ou imperfeita da realidade que pertence a Deus”.
Então podemos interpretar, via Gnosis, que sem o conhecimento de Deus, os homens sempre serão ignorantes que se agrilhoam na irrealidade de um mundo material, imperfeito, egoístico, brutal, perverso. Ultrapassar o estágio material para se aproximar de Deus, considerar os sofrimentos como uma base de purificação, seguir sem esmorecer o caminho da perfeição, é, em resumo, tentar se reaproximar o mais possível da pureza divulgada por Jesus Cristo, o divino Mestre desta religação.
Os cátaros, já referidos como vítimas de um genocídio patrocinado pela Igreja de Roma, praticavam a “endura”, que significa livrar-se da ilusão.
Desiludir-se, abandonar o caminho do engano, do engodo, da frustração, representado pela escravidão material, é como romper os laços que nos prendem ao mundo dos sentidos. Livrar-se do cativeiro da matéria é vencer a influência que ela exerce sobre nossos sentidos, sobre as ilusões individuais e coletivas, que ela produz, é renunciar ao eu, é derrotar o ego.
Para os gnósticos/crísticos não existe céu, inferno e purgatório como levianamente ensinam algumas religiões. Há uma meta a ser atingida e o livre arbítrio pelo qual escolhemos atingi-la. Podemos escolher acelerar, ir devagar, parar, ir pela sombra, ir pelo deserto, a pé, a cavalo, de avião. Cada um, segundo seu discernimento, programa os resultados a obter usando de todos os recursos, maravilhosos recursos postos à nossa disposição pela Providência Divina. Fazer bom uso ou mau uso desses recursos é uma escolha individual e muitas vezes coletiva. Mas, é, também, uma escolha com resultados, obviamente de nossa responsabilidade, a serem assumidos por nós.
Os mais antigos gnósticos/crísticos centrados nos conhecimentos egípcios de um tempo imemorial, idealizaram a figura de Abraxas como o melhor exemplo do homem que vai administrar a si próprio. Abraxas é um ser muito feio, desajeitado, imperfeito, porém dotado de uma grande inteligência. Usando da inteligência para o bem, ele adquire poderes que o livram das imperfeições. Usando da inteligência para o mal, ele adquire poderes que o tornam ainda mais feio, desajeitado e imperfeito. Leva muito tempo para que Abraxas venha a compreender o que de melhor pode ele fazer em benefício próprio. Beneficiado por suas boas ações, eliminadas continuamente as suas impurezas, polida a brutalidade de suas formas, sentirá ele brilharem em si virtudes que sua anterior visão enevoada não permitia conhecer.
Só quando, muito tempo depois, Abraxas compreender que sua fealdade, desajeito e imperfeição, na verdade, não são defeitos, nem vícios, mas matéria-prima da beleza, da justeza e da perfeição, descobrirá ele, enfim, que se tornará vitorioso sobre si mesmo. Terá derrotado seu ego. Seu cristal bruto terá se transformado em diamante. Melhor dizendo, terá fundido seu ego com sua essência e que ego e essência terão deixado de ser adversários para serem aliados.
É com esta dignidade que o homem deve atingir a meta final. Talvez nem haja uma meta final. Talvez ao atingir a provável “meta final” abra-se diante de si outro desafio, outro estágio ainda mais qualificado e motivador a impulsioná-lo para outras buscas.
Voltando aos cátaros ou como pensavam os cátaros: somente então poderemos espiritualmente voltar ao mundo e trabalhar por sua redenção, pois então a matéria não terá nenhuma influência sobre nós. Eis aí o trabalho de iniciação dos perfeitos, puros ou “bonshommes”, sacerdotes cátaros, como eram chamados.
Desligamento, renúncia a toda forma de instinto e paixão, negação do eu (pobreza de espírito). A “endura” dos cátaros era uma meta para o crescimento humano, para a maioridade espiritual, para o enriquecimento espiritual.
Ao contrário do que deveriam estimular, a maioria das religiões ocidentais prega necessariamente a morte, elas negam a vida, uma vez que durante a vida nada se faz com pleno sentido. Quem estudar com profundidade o conteúdo das suas doutrinas concluirá que ensinam que Deus programou tudo, que Ele sabe de tudo, que Ele tem o domínio de tudo, apesar do livre arbítrio. Quem tenha lido o livro chamado “Assim falou Zarathustra”, terá começado por mudar a forma de pensar e ver a vida diferentemente do que ensinam as nossas religiões ocidentais. O impacto é muito grande, faz refletir sobre coisas que antes não se fazia idéia. Uma delas é a senda assassina das religiões, nunca assumida e nunca esclarecida. Muita gente acredita que sem as religiões os seres humanos evoluiriam de forma mais rápida em vários aspectos da medicina, por exemplo, e da ciência em geral.

domingo, 9 de outubro de 2011

Elos Perdidos (VI)


Quem eram, verdadeiramente, os hereges?

Retomando o tema do porquê os gnósticos/crísticos eram e são temidos e da barbárie que se perpetrou contra eles, é preciso relembrar que certamente não era apenas pela sua desconsideração pela lei moral que imperava entre judeus e romanos daquela época. Para os gnósticos/crísticos a pregação dos mandamentos e a invenção de um inferno e de um satanás, era coisa fora de contexto. Como cristãos conscientes, eles entendiam que não precisava de mandamentos para comportar-se eticamente. Do mesmo modo, um cristão consciente não precisava (não precisa) ser ameaçado para comportar-se como gente de bem. Oferecer como destino final ao homem a fogueira infernal, é condenar Deus como o pior dos governantes.
A perseguição também não era por suas dúvidas relativas à encarnação física de Jesus e por sua reinterpretação da ressurreição. Para os cristãos/gnósticos, Jesus foi gerado por seu pai e por sua mãe de forma biológica, como nascem todas as crianças. José e Maria seriam, efetivamente, os seus genitores. A sua aparição a algumas pessoas próximas, após a morte do corpo, foi um fenômeno espiritual. Querer que ele tivesse ressuscitado e/ou subido aos céus no pleno uso de seu corpo biológico, é menosprezar a inteligência das pessoas. Essas posições francas e diretas, destituídas de mistérios e dogmas enfureciam os representantes oficiais da nova Igreja. A nova Igreja não estava centrada numa espiritualidade; queria lidar apenas com o corpo físico, com a produção, com o dinheiro, com o poder em meio à escravidão de países, comunidades, pessoas. Muitas outras inconformidades existiram (existem) entre os lados opostos que são a nova Igreja dita cristã e os crísticos primaciais.
A verdade é que gnósticos/crísticos realmente possuíam um conhecimento que se tornava uma ameaça a todos aqueles que buscavam perpetuar uma instituição com vistas a usufruir vantagens e poderes pessoais e políticos.
Entre a proposta gnóstica/crística e uma doutrina que não incentiva as transformações do homem porque a salvação virá pela eterna esperança de um messias salvador, piedoso, generoso, camarada, que virá apagar os pecados e melhorar a sorte da humanidade, havia, realmente, um abismo enorme.
De um lado, uma organização e suas perigosas ligações com o dinheiro, o poder, o governo, a cobrança de dízimos e outras obrigações no cotidiano de seus fiéis, fazendo da religião uma cópia muito próxima do governo imperial romano, condenado por Jesus e, de outro lado uma proposta de conhecimento libertador, que dispensa intermediários, são verdadeiramente duas escolas, duas coisas distintas, duas dimensões opostas. Quando Jesus proclamou “dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus”, estava se referindo e condenando, exatamente, a impostos/dízimos, à promiscuidade com o poder e à exploração através do trabalho e do dinheiro, e que, no caso, se referia como agiam (agem) as religiões formais derivadas do arcabouço judaico-católico.
Os gnósticos/crísticos sempre souberam que nenhuma revolução política ou econômica poderia ou deveria eliminar todos os elementos iníquos do sistema em que a alma humana se encontra aprisionada. Portanto, sua rejeição não se referia a um governo, a um sistema religioso ou político. Dizia respeito à total e predominante sistematização da responsabilidade pessoal para com o todo. Logo, os gnósticos/crísticos eram detentores de um segredo tão fatal e terrível que os governantes deste mundo (os poderes secular e religioso, que sempre lucraram com os sistemas estabelecidos da sociedade) não podiam permitir-se ver esse segredo conhecido e, muito menos publicado e proclamado em seus domínios.
Ontem, como hoje, os gnósticos/crísticos sabem que não é possível atingir a auto-realização íntima ou a completa auto-realização de seu próprio Ser enquanto viverem atrelados cegamente às estruturas e instituições sociais, porque estas representam, na melhor das hipóteses, apenas obscuras projeções de outra realidade. Não é possível vivenciar as realidades íntimas do Ser enquanto formos o que esta sociedade espera que sejamos, nem fazendo o que ela diz para fazermos. Ao contrário, esses ditames constituem, com maior freqüência, as próprias algemas que nos alienam de nosso real destino espiritual.
Foi essa visão de mundo que levou aqueles grupos gnósticos/crísticos a serem perseguidos, caluniados e qualificados de hereges. Por heresia devemos entender apenas o não alinhamento às regras estabelecidas.

sábado, 8 de outubro de 2011

Elos Perdidos (V)


Jesus não foi um fato isolado

Dentre os elos perdidos e em parte achados, estão os textos de Qumran, que são parte do legado gnóstico/crístico aos nossos tempos. Ali vamos encontrar a informação que existiu um grande personagem, antes de Jesus, conhecido como o Mestre da Justiça, ou Mestre da Retidão, que foi um grande divulgador da doutrina crística, diga-se gnóstica, nos arredores da Terra Santa. Ao aceitar como procedente o registro, começamos por aceitar que João Batista e Jesus não estavam sozinhos. Havia um extraordinário esforço libertador. Conhecimento e liberdade como princípios da mesma conquista e como paradigma de uma época. De uma época começada com Sócrates, Buda, Zoroastro, Confúcio, 600 anos antes.
É preciso, no entanto, resgatar esses dois importantes momentos históricos associados a Jesus. Um deles é a preparação de cerca de seiscentos anos antecedendo sua encarnação entre nós. Vários personagens e centenas de escritos introduziram a idéia libertadora pela via conhecimento e, evidentemente, não pelas armas. Consolidar-se-ia como Gnose: o conhecimento que se revelava libertador. Nesse sentido, dentro mesmo da Bíblia judaico-cristã – que acabou por ser incorporada à Igreja Católica - podem ser arrolados os livros Eclesiastes, do século III a.C., o livro Eclesiástico, de 200 anos antes de Jesus e o livro da Sabedoria, de 100 anos antes de Jesus, como grandes testemunhos desse tempo de introdução ao Conhecimento Libertador, que, com Isaías, recebem a interface da esperança na Libertação, cujos escritos são proféticos, anunciando a próxima vinda do Messias Libertador, inclusive, usando um capítulo inteiro exclusivamente à Libertação (cap. 40) e outro exclusivamente para anunciar os maus tratos que o Libertador receberia dos adversários da Libertação (cap. 53).
O outro momento histórico da época de Jesus é a reação dos detentores do poder, à época: o Império Romano. Na condição de conquistador daquele importante território, que lhe rendia obediência e tributos, tudo quanto representasse libertação, com sinônimo de quebra de renda e poder, tinha de ser combatido.
Mas, aos romanos, Jesus nada significava. Os romanos não se interessavam por este tipo de filosofia, não tiveram acesso a ela e o adversário não estava armado. Por isso, os romanos não tinham a menor noção do que significava Jesus, a não ser tratar-se de mais um rebelde, como Barrabás e outros, que o poder romano combatia pela espada, trancafiava e silenciava. Só os gnósticos ou crísticos possuíam o verdadeiro significado. Se aos romanos fosse dada a oportunidade de avaliar o que significava uma libertação pelo conhecimento, pela consciência, eles teriam dado mais interesse desde cedo e teriam desejado buscar aliados entre os adeptos da Doutrina Crística, como haviam feito em outros territórios. Agiu assim, porém, 300 anos mais tarde. E torceu tudo.
No tempo de Jesus entre nós, como em outros e ainda atualmente, as estruturas de poder político, religioso e militar invadiam, invadem, a Arte, a Política, a Economia e a Religião, quando não vão ao nível íntimo das famílias. Para que a estrutura trouxesse os resultados desejados, Roma punha em ação o quinto elemento, a Guerra.
Ao usar seus poderes, os dominadores mancharam de sangue a face do planeta durante muitos milênios e mais ainda nestes últimos 20 séculos.
E por falta de Gnose, isto é, de conhecimento, isto é, de libertação, os conflitos ainda perdurarão por mais um século.
Os gnósticos ou crísticos fizeram a história do pensamento livre, mas nesses 25 últimos séculos padeceram a inquisição antes da Inquisição Oficial. Ofereceram mártires à humanidade e, à guisa de seu extermínio e esquecimento, foram perseguidos, caluniados e mortos. Examinando-se atentamente a história vemos que até genocídio houve contra os seguidores do cristianismo original ou gnosticismo. No século XIII foi dizimada uma comunidade de gnósticos no Sul da França, numa das mais implacáveis perseguições religiosas de que se tem notícia: contra os albingenses ou cátaros.
Obras teológicas antigas, só hoje acessíveis, comentam que "os gnósticos (e quando se referem a gnósticos estão se referindo exatamente ao que nós estamos querendo mostrar) foram perniciosos hereges pertencentes ao cristianismo primitivo".
É inegável o fato de que judeus, católicos, protestantes e ortodoxos orientais (e, no caso da Gnose Maniqueísta, até os zoroastristas, muçulmanos e outros) odiaram e perseguiram os gnósticos com persistente determinação.
A maioria das religiões se tornou uma agência de negócios. Cobram por seus serviços, lidam com grandes fortunas, investem em marketing, anseiam por fidelização, jogam conforme o interesse e a necessidade das massas que desejam cativar e, no fundo, a libertação/salvação saiu de pauta, trocou de extremo, se tornou cativeiro.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Elos Perdidos (IV)


Alguém mexeu na bússola

É interessante refletir como jogamos fora elos e mais elos que poderiam contribuir para com os avanços de consciência da humanidade, notadamente da humanidade do mundo ocidental. Como se deturpou tanta coisa? Com que objetivos? Muitas religiões institucionalizadas no nosso planeta não disputam a primazia de Deus, disputam a primazia dos homens. Explicando melhor, as religiões não se preocuparam em aproximar-se da verdade eterna, mas em ganhar adeptos e poder, dinheiro e prestígio. Já se disse que elas não se propuseram preparar o homem para Deus, mas em preparar Deus para os homens. E acabaram por inventar uma caricatura de Deus.
No tomo anterior uma informação passou meio disfarçada, mas é chegada a hora de trazê-la à tona para que nada passe ao largo. Lá foi afirmado que muito antes da encarnação biológica do messias, Jesus, a doutrina crística era disseminada entre muita gente na Palestina. O leitor precisa notar que Cristo não era nome próprio e sim dignidade, algo assim como messias ou profeta. E aquilo que Jesus retomou como pregação entre os palestinos, já era enfocado por outros pregadores. Especificamente João Batista, seu primo, tinha um discurso próximo. A mensagem original crística estava entre os povos que recebiam influência gnóstica através dos sábios de Alexandria. A mensagem crística foi praticamente abandonada no século IV em meio a uma guerra intelectual envolvendo interesses fundados em uma nova ordem de poder, que deveria dar sustentação ao Império Romano, ameaçado em sua expansão. Como, de fato, o império ruiu, foi a própria Igreja Romana que chamou para si a hegemonia daquele poder e da pregação que seus concílios decidiram abraçar. E, aliada aos reis que lhe prestavam obediência, a Igreja garantiu-lhes o poder pela via do domínio econômico, político, militar...
Se a igreja original tinha algo da proposta de Jesus, a substituta não tinha mais nada. Fez coisas que Jesus condenou. E realmente nem mesmo incluiu a palavra “cristã” na sua denominação. Preferiu ser “católica”, isto é universal, como quisera ser o império falido.
Cabe, novamente aqui, um hiato esclarecedor. A Doutrina Crística com raízes na Gnose, é libertadora. E liberdade não era de interesse da nova igreja. Para afirmar-se como instrumento de poder ela precisou adestrar os seus fiéis para coesão em torno do papa, dos cardeais, dos bispos e dos sacerdotes, segundo a própria hierarquia do poder humano e, por tabela, garantir a estabilidade dos reis e imperadores simpáticos a ela. Os reis obedeciam ao papa. Os homens comuns obedeciam ao padre, que não se chamava padre por nenhuma outra razão do que encarnar o papel de “pai dos fiéis”, tanto que o Pai Nosso, oração muito conhecida, até 1970, era rezado “Padre Nosso que estais no céu...”
Não foi por nenhum outro motivo, nem dogmático, nem doutrinário, e muito menos de compromisso com a verdade imanente de Deus, que os gnósticos e organizações centradas na mesma proposta foram caçados, perseguidos, castigados, executados ao longo de séculos. Mas, veja o leitor, quando falamos de gnósticos – adeptos da gnose, palavra que quer dizer conhecimento (conhecimento que liberta) – estamos falando exatamente da missão de Jesus entre os homens. Por isso, para tornar muito atual as referências ao gnosticismo, este blog a partir deste ponto os denominará os gnósticos também de crísticos, num clara referência conceitual de os estar associando à mensagem crística, que estava presente na região da Palestina dois séculos antes de Jesus e que permaneceu depois d’Ele por mais três séculos.
Na atualidade ainda iremos encontrar correntes gnósticas, uma das quais a que tem Samael Aun Weor como mentor. Apesar de reconhecer a extraordinária contribuição de Weor ao pensamento gnóstico recente, esta não é a fonte do gnosticismo seguido por este blog neste trabalho.
Seguimos um gnosticismo de raiz, antigo, a partir do qual a humanidade buscadora de saber libertador tem feito contínuas evoluções. Seguimos um gnosticismo bem próximo da mensagem de Jesus, antes da adaptação proposta por Roma. Uma mensagem libertadora.
O leitor sabe quantas vezes os evangelhos registram a palavra “salvação” como sinônimo de “libertação”?, porque nas suas traduções do hebraico e do aramaico para o grego e para o latim fizeram-se adaptações. Nas línguas originais em que foi escrito o Evangelho primacial, a palavra salvar tem a mesma significação de libertar. Resposta pendente: os evangelhos registram 102 vezes a palavra salvação.
Jesus era o supra-sumo da pregação gnóstica ou crística. Quiseram pôr na sua cabeça a coroa de Israel (que depois ficou conhecida como INRI – falaremos sobre isso também) e quiseram fazer dele o salvador (zerador) dos pecados do mundo. Ele nunca aceitou nenhuma das duas tarefas. Sua crucificação teve por objetivo simbolizar a sobrevivência da alma. E a salvação/libertação por Ele pregada sempre esteve associada à transformação das pessoas, o não pecar mais e a sua desvinculação dos cativeiros armados pelos dominadores pelo poder.