quarta-feira, 31 de julho de 2013

1143-Bem-vindo, Jesuíta Francisco


Os primeiros religiosos em terras incaicas

Os primeiros grupos de conquistadores que chegaram aos Andes traziam religiosos, os quais mal se diferenciavam dos civis presentes em tais expedições, pois o motivo que os trazia a essas terras era semelhante. Tanto civis, quanto religiosos, ambicionavam enriquecer, sendo este o primeiro motivo do fracasso da evangelização. Lockhart menciona que estes estavam interessados em obter ganhos econômicos e, para tanto, participavam em combates, preferindo guerrear a propagar a fé. Os sacerdotes seculares tinham menos regalias que os regulares, ganhavam pouco e, por vezes, transformavam-se em sacerdotes-empresários, ávidos por riquezas e que logo retornavam à Espanha. Os frades pertencentes a Ordens religiosas chegavam em condições distintas, visto que estavam respaldados por suas Congregações, cuja matriz ficava na Espanha. Vinham com tarefas estabelecidas e locais pré-determinados para se fixarem e desenvolver as suas missões. Os que estiveram presentes no momento da conquista, como os mercedários e os dominicanos, receberam encomiendas independentemente de sua origem social. Algumas congregações eram subsidiadas pelo Estado, mas nem todas contaram com esse apoio. Os dominicanos, os franciscanos e os agostinianos eram os responsáveis pela evangelização e recebiam essa ajuda estatal, ao contrário dos mercedários, que apenas ganharam encomiendas por haverem participado das expedições iniciais de conquista. Esses ditos religiosos “soldados”, continuaram participando em combates, como as Guerras Civis ocorridas entre almagristas e pizarristas. Muitos foram aqueles que serviram de espiões e correio em tais conflitos e acabaram tendo um fim trágico, sendo condenados e enforcados. Outros desempenharam importantes papéis de mediadores nessas lutas e também na conquista a nível militar e político, pois, enquanto a alta hierarquia tratava de organizar as batalhas, os menores lutavam no campo. Esse espírito de conquistadores, resultou em pouca ou nenhuma atividade de cristianização nos momentos seguintes à conquista espanhola.

No século XVI, Hernando de Santillan reitera essa ideia, quando comunica preocupado que os índios em tempos incaicos eram bons trabalhadores e não se excediam em nada, pois seus vícios eram castigados. Porém, depois que tiveram contato com os sacerdotes, nem prosseguiram com sua lei, nem aprenderam a dos espanhóis, visto que viram os maus exemplos daqueles que lhes predicavam o Evangelho, afastando-se da possibilidade de terem em seu coração a doutrina e os ensinamentos da santa fé. Contudo, a conversão dos índios não era uma tarefa fácil, pois a dificuldade da comunicação também acarretava sérios problemas na propagação das mensagens dos sacerdotes, visto serem estas radicalmente estranhas às tradições religiosas indígenas. A utilização que esses espanhóis fizeram do trabalho indígena fez com que estes se convertessem em inimigos da predicação, pois associavam a imagem de trabalho com a da fé. As fortes obsessões econômicas desses sacerdotes instalados desde o princípio na América, representou um sério inconveniente à evangelização. Nos momentos posteriores a essa crise, houve a necessidade de impor a cultura europeia, começando a destruição de ídolos e o combate aos rituais indígenas. Tudo aquilo que os doutrinadores não compreenderam ou não quiseram compreender interpretaram como sendo feitiços ou arte mágica e decidiram queimar e destruir tudo. Isso ocorreu devido à pouca preparação desses religiosos e à sua formação inicial. A Igreja na América teve a seu serviço homens, que foram criados por suas famílias numa cultura guerreira, visto serem provenientes de um lugar onde ocorreram as lutas pela Reconquista contra os mouros.  A perseguição a “hereges” no período inicial da cristianização andina, tinha por objetivo combater aqueles que se opusessem ao desígnio “divino”, do rei de Espanha, sobre os territórios encontrados. Dessa forma, estavam travando uma “guerra santa”, como a das Cruzadas, em que defendiam uma causa civil cuja meta final seria religiosa. A má formação dos primeiros clérigos, que não conseguiram distinguir deuses importantes dos de caráter puramente idolátrico e que colocaram interesses pessoais acima dos da Igreja, prejudicaram o processo inicial de evangelização nos Andes.

terça-feira, 30 de julho de 2013

1142-Bem-vindo, Jesuíta Francisco


Espanhóis na terra dos Filhos do Sol
 

Quando Francisco Pizarro chegou a Tumbez, em 1532, o Tahuantinsuyu estava dividido pela disputa dos dois irmãos, Huascar e Atahualpa, pela mascapaicha, herança do poder. O Inca Huayna Capac havia ido guerrear no norte do território incaico e aí morreu vítima de uma epidemia de varíola e sarampo. Huascar era considerado o melhor candidato a substituir seu pai, visto que ele era filho do Inca com a coya, esposa principal. A gravidade dessa situação estava ligada aos princípios básicos de organização social do povo inca, que se estruturava em torno do ayllu, como vimos. Ao contrário do que ocorria nos ayllus comuns, em que o sistema era patrilinear é exogâmico, entre as panacas ou ayllus reais, a linha de descendência era matrilinear e endogâmica. Porém, apesar da aparente desvantagem de Atahualpa, ele tinha direito a disputar o poder, pois também era filho do Inca. Depois de alguns confrontos com seu irmão, Atahualpa terminou por vencê-lo e encontrava-se em Cajamarca quando Pizarro chegou e o aprisionou.

A conquista do povo inca se deu de modo aparentemente fácil, pois estes não ofereceram resistência, já que não foram atacados. A falta de coesão diante do perigo, a insatisfação de alguns chefes étnicos em relação ao Estado, como vimos, e a debilidade diante do armamento espanhol, foram alguns dos fatores que propiciaram a sua derrota.

Depois da conquista inicial, começam a aparecer os primeiros documentos que descrevem não só os feitos dos espanhóis, mas também as organizações das etnias encontradas no que hoje conhecemos por Peru.

O século XVI é extremamente complexo de ser analisado, pois como afirma Luis Millones, esse período é o mais importante da história americana24, por terem acontecido grandes mudanças. Atualmente, podemos contar com grande quantidade de documentos publicados, como crônicas, visitas, litígios, que em sua maioria são parte de artigos ou teses de etno-historiadores. Esses documentos são uma fonte valiosa de informação, tanto etnográfica como histórica sobre os povos andinos dos períodos pré- hispânico e colonial. É necessário, no entanto, realizar-se uma interpretação crítica dos mesmos, visto que representam a percepção tida por espanhóis a respeito do mundo andino. Comparando-os com escritos indígenas, poderemos perceber que existem diversas contradições por parte de tais autores. Os espanhóis, por exemplo, transformaram o sistema político numa monarquia (só mais tarde república) e sabemos que no mundo incaico o governo era dual, existindo dois Incas e dois curacas. A sucessão incaica, ao contrário do que escreveram tais cronistas, não era via filho legítimo e primogênito como na Europa do século XVI, e sim, pelo ‘mais hábil’. Outro exemplo da dificuldade em se analisar esses documentos está no conceito de ‘pobreza’. Para os espanhóis, ‘pobre’ eram os velhos e aleijados que não tiveram acesso a bens, enquanto que, no mundo andino, ‘pobres’ eram os incapacitados de trabalhar temporariamente ou indefinidamente. Os documentos escritos por indígenas, em sua maioria do século XVII, continham descrições de seu mundo baseados em critérios europeus, visto que passaram por um processo de ‘aculturação’. Nathan Wachtel, que analisou profundamente esse tema, explica que a ‘aculturação’ designa todos os fenômenos de ação recíproca que resultam do contato entre duas culturas de força desigual, uma dominante e outra dominada. No caso andino, não houve a passagem da cultura indígena à cultura ocidental, e sim, o processo inverso, em que a cultura indígena integra os elementos europeus. Como os incas estavam acostumados a produzir excedente econômico e a pagar tributo, os espanhóis aproveitaram o sistema preexistente para controlar a mão-de-obra. Para isso, contavam com a ajuda de chefes locais, que mantinham como antes, a ligação entre senhores e súditos. Foi essa administração indireta que favoreceu a manutenção das tradições indígenas, apesar da ação espanhola em sentido contrário através da evangelização e das reduções, que, em verdade, desde o momento inicial da conquista, eram um instrumento para justificar suas pretensões políticas.

Os documentos indígenas são resultantes dessa mescla, em que por um lado é visível a influência dessa ‘aculturação’, pois os cronistas retratam sua realidade com visão ocidentalizada, mas, por outro, fazem uma apologia ao mundo andino. No que concerne à religião, os documentos que nos chegam são também uma reprodução de lógicas mentais da velha Europa no Novo Mundo, por isso, foram transportados para os Andes o diabo e a sua aliada, a bruxa. O mundo andino não conhecia a noção do mal encarnado em uma figura satânica, e sim, uma visão dialética em que o bem e o mal são complementares. Percebe-se que houve uma aculturação desses conceitos, quando por exemplo, os hapiñunos, que seriam fantasmas ou duendes, são posteriormente representados como forças diabólicas derrotadas por Santo Tomás, conforme os relatos de Pachacuti Yamqui, um indígena aculturado.

Os cronistas espanhóis, ao associarem a religião indígena a cultos demoníacos, fizeram com que, quando da instalação da extirpação de idolatrias, as mulheres fossem particularmente perseguidas e acusadas de praticarem feitiçaria, como haviam sido pela Inquisição europeia. Os ditos feiticeiros, homens ou mulheres, eram vistos pelos espanhóis como perniciosos à colonização, pois ao revitalizarem antigas crenças, incitavam a resistência ao sistema colonial.

Tais relatos originam-se da confluência de discursos representativos de culturas distintas. A utensilagem mental do espanhol só lhe permitia reproduzir aquilo que via de acordo com seus próprios traços culturais. O indígena, que passou por um processo de aculturação, não apagou de sua memória a própria cultura, apenas passou a filtrá-la de acordo com os modelos europeus. Ao analisarmos documentos do século XVI e XVII, que tratam a história andina desde o período da conquista até à época das campanhas de extirpações de idolatrias, estamos lidando com um conjunto de informações que são a representação desse mundo indígena, aos olhos de europeus, mestiços e autóctones impregnados de traços culturais espanhóis. Podemos considerar que os textos resultantes dessa confluência cultural representam uma nova realidade, que acabará por ser assimilada e sociabilizada.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

1141-Bem-vindo, Jesuíta Francisco


Tahuantinsuyu - o Império dos Incas

Por parte da Igreja Jesuíta atuante nos primeiros séculos da recém descoberta América houve estratégia de fino requinte. Um deles já foi narrado nas águas do Rio Paraguai, com o padre, a flauta e a fala guarani. Nos Andes, não foi diferente. O sistema de governo Inca tentou ser preservado e até copiado para as províncias dali e do Paraguai, mas não funcionou. O que deu certo, mesmo, até que a incompetência ibérica viesse marchar sobre a obra guarani-jesuíta, foi o “império guarani” ou “república guarani” em que um sistema socialista dava resultado. Voltaremos a isso mais adiante.

Na documentação do século XVI, lê-se que o Tahuantinsuyu, nos Andes, nasceu da anexação de diversas etnias, sob o controle político-religioso do chefe Inca, pois este era o filho do deus Sol (Note o leitor que o deus Sol era também a fé romana 1.500 anos antes desse tempo e que é praticamente impossível que tenha havido contato entre as culturas romana e incaica).

No caso Inca, a reciprocidade foi fundamental para a expansão do território, tanto que os povos que desconheciam esse sistema não aceitaram a dominação incaica. O Inca estabelecia ligações com os chefes de ayllus, espécie de distritos administrativos, oferecendo presentes em troca de trabalho ou, como nos mostra John Murra, estabelecendo laços de parentesco, contraindo em casamento filhas desses curacas (os seus administradores). O curaca era o responsável pela divisão da terra a ser cultivada e pelo armazenamento da produção. Suas terras e o produto nelas obtido se destinavam à manutenção das huacas (centros cerimoniais) e o restante dos produtos era redistribuído entre o grupo. Conforme María Rostworowski Canseco, baseando-se nesse tipo de reciprocidade, os incas formaram o seu império, o Tahuantinsuyu, pois, à medida que ampliavam suas conquistas, o número de curacas unidos ao Inca por reciprocidade e por laços de parentesco foi aumentando, o que resultou num crescimento da força de trabalho disponível, aumentando a produção e gerando o excedente necessário à manutenção das ligações recíprocas com os ayllus.

Esse sistema, porém, tornou-se quase impraticável devido às grandes dimensões do império. Desse modo, quando um grupo não aceitava o domínio através da reciprocidade, o Inca colocava um funcionário de sua confiança no lugar do curaca local, estabelecendo, assim, suas regras organizativas. O aumento do território e da população ocasionou a necessidade de maior produção para ser redistribuída e atender ao sistema de reciprocidade.

Karl Polanyi aplica os conceitos de reciprocidade e redistribuição ao estudo de populações africanas e John Murra os reutiliza, caracterizando o Tahuantinsuyu como sendo um Estado redistributivo, não porque fosse um Estado com fins humanitários, mas porque isso era essencial para manter a coesão do Império. Isso ocasionou mudanças na organização produtiva dos ayllus, pois se antes a reciprocidade e a redistribuição se davam em função das relações de parentesco entre o chefe do ayllu e seus membros, agora passam a ocorrer em função da relação político-religiosa estabelecida entre esses grupos e o Estado Inca.

Durante o domínio inca, os ayllus permaneceram como grupos ligados por laços de parentesco e aqueles que tinham a posse da terra, perderam-na, passando esta ao controle do Estado que, por sua vez, a dividiu em três porções: (i) a terra do Sol; (ii) a terra do Estado; (iii) e a terra do povo. A cada ano era feita a redistribuição de tupus, lotes de terra, suficientes para o sustento de cada família. Também eram distribuídas as tarefas de produção estatal da terra, pois esse tipo de trabalho, ou mita, era o tributo que o Estado exigia à população em troca de benefícios coletivos ou individuais. Desse modo, o sistema comunitário de produção baseado em laços de parentesco do ayllu é reutilizado no Tahuantinsuyu com fins expansionistas.

Muitos grupos étnicos permaneceram insatisfeitos sob o domínio inca, pois também foi utilizada a coerção. Por outro lado, o crescimento em demasia do território dominado originou uma maior demanda de produtos para serem redistribuídos e nem sempre o Inca conseguiu satisfazer os curacas, que esperavam dele presentes e regalias. Esse descontentamento vai se refletir mais tarde, quando chegam os espanhóis, pois muitos desses curacas aliam-se ao inimigo com o objetivo de libertarem-se do jugo incaico e de estabelecerem novas relações de reciprocidade.

domingo, 28 de julho de 2013

1140-Bem-vindo, Jesuíta Francisco


Os demônios estavam na Europa

No contexto americano da atuação da Igreja de Santo Inácio, a utilização da demonologia tinha por principal objetivo acabar com a “igreja” pagã (rival) - nos dizeres dos missionários - e é exatamente o que também diz a crônica dos escritores da época: que os sacerdotes desses povos são transformados em bruxos e feiticeiros, terminologia que permanece até os dias atuais. Por essa razão e mesmo com os mais expressivos resultados, as terapias de fundo xamânico são tidas pelas igrejas cristãs como coisas do diabo.

As campanhas de extirpação de “idolatrias”, levadas a cabo desde a segunda metade do século XVI nas regiões andina e platina, tinham por objetivo terminar com todos os ídolos e rituais indígenas, visto que estes contradiziam o cristianismo ao adorarem outros seres sagrados no lugar do Deus cristão.

O maior objetivo jesuíta na América era cristianizar o imaginário indígena, em que seus deuses teriam de ser transformados em demônios para dar lugar ao deus europeu plantado no imaginário do povo conquistado como a única verdade sagrada.

Seguindo o que se sabe da Inquisição europeia, deviam ser perseguidos não só os adoradores de outros deuses, mas também aqueles que praticavam malefícios através da bruxaria. Na Península Ibérica, devido à excessiva preocupação em rastrear e punir delitos dos judaizantes, houve menor repressão à bruxaria. Pressupomos que este seja um dos motivos pelos quais a bruxaria tenha adquirido grande atenção em terras andinas e platinas por parte do corpo eclesiástico, pois na ausência de judeus conversos, restava-lhes perseguir índios idólatras, que facilmente poderiam ser acusados de praticar a feitiçaria. Não abordaremos essa questão, visto ser necessário um maior aprofundamento a respeito da Inquisição na Península Ibérica, o que não é o objetivo desta série. Contudo, se o leitor quiser aprofundar, estamos relacionando a seguir uma bibliografia sobre o assunto.

“Tratado Democrates Alter de Juan Ginés de Sepúlveda - 1547” In SUESS, Paulg.).

“A conquista espiritual da América espanhola”, 200 documentos - Século XVI. Petrópolis, Vozes, 1992.

“A conquista da América”. TODOROV, Tzvetan. São Paulo, Martins Fontes, 1988.

"O conjunto: a América diabólica” SOUZA, Laura de Mello e. In “Inferno Atlântico: demonologia e colonização”. Séculos XVI-XVIII. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

“Cultura andina y represion; procesos y hechícerias”. Cajatambo, siglo XVII. Cusco, Centro de Estúdios Rurales Andinos “Bartolomé de las Casas”, 1986.

“La colonización de lo imaginario. sociedades indígenas y occidentalización en el México español”. Siglos XVI-XVIII. México, Fondo de Cultura Económica, 1991.

“Inquisição, magia e sociedade: Belém do Pará”, 1763-1769. Dissertação de Mestrado em História, UFF/RJ, 1995.

“Estructura comunitaria y reciprocidad; del quid-pro-quo historico al ecomicidio”. La Paz, Hisbol- Chitakolla, 1989.

sábado, 27 de julho de 2013

1139-Bem-vindo, Jesuita Francisco


O diabo veio pra América

Sempre que uma história se torna desairosa, nosso comportamento por conta da cultura de que somos oriundos, nos impele para jogá-la para baixo do tapete. Nessa classe estão a Guerra do Paraguai (como é chamada), a Guerra do Contestado, a Questão das Missões e muitas outras coisas. Nesse ultimo caso, o dominador foi além do justificável, fez a besteira e depois mandou os fatos para o olvido a fim de que a consciência parasse de doer. Parou? Não parou. A descaracterização cultural do povo guarani continua pedindo reparação não só na Questão das Missões, a Guerra do Paraguai também ganhou foros de genocídio. 

Os conquistadores da América não quiseram considerar a cultura, a religião, a sabedoria e a integridade humana dos nativos. Impuseram aqui na América o modelo europeu, a língua, a religião, muito mais com interesse econômico do que por qualquer outro.

Em alguns casos, como o Inca, em que haviam templos religiosos estabelecidos, os espanhóis destruíram tudo e sobre aquelas ruínas ergueram igrejas católicas. Sem falar no desprezo aplicado sobre os sítios sagrados da civilização incaica.

E o pior: nos porões dos barcos espanhóis que singraram as águas do Atlântico estavam o demônio, as bruxas e os medos peculiares aos homens do medievo europeu, coisas que os nativos daqui não conheciam. Anote aí no seu caderno, leitor, que a vinda dos europeus ao Paraguai, Bolívia e Peru se dava sem singrar as águas do Pacífico: ou entrava pela Bacia do Prata e subia o rio Paraguai ou entrava pelo Caribe, na Venezuela, e vinha através das cordilheiras.

Se não bastasse o medo do desconhecido, do mar, dos monstros marinhos e todo um arsenal mítico apavorante, os marinheiros que se aventuraram a cruzar o oceano e os rios em meio às selvas, também carregaram em si, a obrigação de propagar a fé católica e em consequência, a repressão que grassava na Europa contra aqueles que conspirassem contra a cristandade.

Não podemos esquecer que a Inquisição já fazia suas vítimas por conta do que se propagava ser bruxaria. E os nativos, através de seus xamãs ou sacerdotes lidavam com cerimônias espirituais, que os padres católicos, apressadamente, carimbavam como magia negra, coisas do demônio.

Ao aportarem em terras americanas, os conquistadores europeus começaram a praticar o esbulho material e espiritual dos povos que aqui encontraram. Saquearam, mataram e submeteram-nos, visto que, conforme Juan de Sepúlveda, era o “mais conveniente que poderia acontecer a esses bárbaros, que de homens ímpios e servos do demônio, passariam a ser civilizados, cristãos, e cultores da única e verdadeira fé que existe”.

Para os sacerdotes espanhóis, “...é inútil argumentar que todo o efeito das bruxarias é fantástico ou irreal, pois não poderia ser realizado sem que se recorresse aos poderes do diabo; é necessário, para tal, que se faça um pacto com ele, pelo qual a bruxa de fato e verdadeiramente se torna sua serva e a ele se devota - o que não é feito em estado onírico ou ilusório, mas sim concretamente: a bruxa passa a cooperar com o diabo e a ele se une”, conforme pesquisas de Kramer e Sprenger.

Muito distante daquele século XVII e tão velho quanto essa absurda forma de ler as manifestações espirituais, as igrejas neopentecostais dos nossos dias trabalham o afastamento de espíritos diabólicos (e o fazem diante das câmeras de tevê) e negam aos espíritos divinos a mesma possibilidade de atuarem em favor de seus fiéis.

Para que o domínio espanhol fosse estabelecido com sucesso aqui na hoje América de língua espanhola, padres, empresários, governantes e militares realizaram um pré-julgamento de valor prévio e procuraram por alto conhecer os costumes e a língua dos povos nativos, visto que a comunicação estava ligada ao poder e a compreensão dos signos do “outro”. Se pudesse transferir a crença, o domínio seria completo. Assim o diabo veio morar na América, onde era um ilustre desconhecido dos nativos em sua profunda fé.

Só mais tarde cronistas espanhóis detiveram-se no estudo e descrição dos povos conquistados, seus costumes, sociedade e religião, que é onde encontramos uma visão cosmológica bem melhor que os modelos demonológicos propagados na Europa. Os nativos daqui não conheciam o diabo como manifestação do mal, eles entendiam o mal não como uma orquestração de um “deus do mal”. Para os nativos existia o sagrado ou forças do bem para serem respeitados e o desrespeito ao sagrado era o mal. Neste entendimento, os espanhóis se tornavam do mal ao pisar sobre as coisas sagradas dos povos nativos. Mas, sob a pressão do poder das armas, botavam todos sob o quadrado da lei maior.

Só assim se pode entender que os jesuítas tenham conseguido implantar dezenas de núcleos chamados de missões com a participação de milhares de índios. Mas, no caso guarani, há, sim, uma explicação plausível: ardilosamente, através da música, que era a sensibilidade mais aguçada dos guaranis (eles cantavam em suas celebrações), os padres foram conquistando a alma guarani.

Um sacerdote em pé sobre uma canoa, vestido de linho branco, cor que resplandecia à luz do sol parecendo arder como chamas de fogo. Uma flauta a tocar enquanto o “artista sagrado” ia descendo lentamente levado pela correnteza. Essa cena chamava para a ribeira centenas de assustados e maravilhados índios. Num repente, este ser “sagrado” começava a falar a língua dos índios e a dizer que o verdadeiro deus Tenondeguá o havia enviado para completar o trabalho contra a dor, o inimigo, a fome e a guerra.

Isto explica por que foram os guaranis os únicos a aceitarem as missões. Elas não funcionaram no Peru, na Bolívia, no Uruguai, onde não havia guaranis.

Conquistada a alma guarani, logo os padres passaram a transformar os curadores indígenas em bruxos e feiticeiros, unidos ao diabo para nunca mais serem recuperados, pois a teologia europeia foi a fundo e substituiu no que pôde as crenças dos nativos alcançados pelas reduções católicas. Diga-se: o campo territorial propício à messe jesuíta estava no Paraguai, na Argentina e no Brasil meridional, entre guaranis. Onde charruas, mapuches, quéchuas e kaigangues eram donos do território, a conquista jesuíta não funcionou. Mas, nem por isso os nativos conseguiram ficar livres da derrocada imposta pela civilização europeia, como já deu para perceber e merecerá novas abordagens.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

1138-Bem vindo, Jesuíta Francisco


 
Introdução
 

O Papa Francisco, nascido na Argentina e em visita ao Brasil, pertence à Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, no final do século XVI para repor honra e doutrina a uma Igreja esfacelada pela divisão que acabava de acontecer com o rompimento proposto por Calvino e pela rebelião levada a efeito por Lutero.
 

Uma das maiores atividades entregues pelo antecessor de Francisco à nova Ordem Religiosa, foi a catequização dos índios da recém descoberta América espanhola, dando às Missões que funcionaram no Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, parte do Brasil e também foi causa de uma mortandade de guaranis na, hoje, região missioneira do Rio Grande do Sul, quando da entrega do território que estava sob a bandeira de Espanha e precisava, por tratado assinado entre aqueles países, passar à bandeira portuguesa. Nunca se matou tanto índio por metro quadrado e por minuto quanto naquela Guerra Guaranítica, em 1756.
 

Papa Francisco pertence, como disse, àquela Ordem Religiosa que apresentou outro deus aos guaranis, que os queria cidadãos europeizados, fora das selvas e rios, plantando milho, erva-mate, feijão, criando gado e exportando os excedentes para a Europa.


Os jesuítas, como são chamados os membros da Ordem (Companhia de Jesus), chegaram a ser expulsos da América sob o entendimento de que tenham participado da reação indígena pela não entrega do território e motivo da guerra que forçou-os a entregá-la.

Há umas histórias e estórias muito interessantes em torno daquele período e que com a presença do argentino pontífice, jesuíta, aqui na região próxima dos dolorosos acontecimentos, vale a pena recordar, refletir, repensar, consertar, se possível. Houve, inclusive, um filme, A Missão, ganhador da Palma de Ouro, em Cannes, com Roberto De Niro, rodado aproximadamente dentro desse drama, que acabo de rever. Mas, não consegue mostrar o que realmente aconteceu. E, no geral, os americanos não sabem quase nada daquilo. E é o que esta série tentará narrar e explicar. Você vem comigo?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

1137-Por um mundo melhor


Cooperação e solidariedade: um horizonte para a sociedade pós-moderna

Nunca se falou tanto em construirmos um mundo melhor.

Iniciamos o século XXI sob o impacto de um tempo em que coincidiram milênio, século e nova era não apenas nos calendários, mas nas perspectivas da humanidade.

Entendemos que o único caminho para uma sociedade mais justa e fraterna é diminuirmos o egoísmo que tantos males já causou e que tanto nos preocupa dadas as brutais diferenças já estabelecidas em nosso meio.

Em geral, esquecemos que a sociedade é o próprio meio-ambiente do qual tanto falamos, pouco cuidamos, e que necessitamos urgentemente preservar. Para isto, antes de tudo, precisamos desenvolver a cooperação e a solidariedade em todos os sentidos e situações da vida, senão cada vez mais tornaremos impossível a nossa convivência e sem dúvida acabaremos com o “nosso” planeta ou ele, antes, acabará com todos nós.

Cooperação

Os insetos e os animais nos ensinam que cooperando somos mais fortes. Atuando juntamente com outros alcançamos objetivos que, em geral, são comuns, porém buscados individualmente e muito, muito demoradamente e com maiores dificuldades. O século XXI acabará marcado pela cooperação entre pessoas, empresas e países, no sentido da complementariedade e do fortalecimento e impacto das ações em todos os sentidos. Os movimentos populares em todo o planeta só têm a importância que demonstram ter graças à cooperação entre grupos de relacionamento.

Solidariedade

Viver e deixar viver, incluir e dar suporte à vida com a visão de que a vida que está no outro é a mesma vida que está em mim. Ao faltar vida ao outro preciso perceber que a ameaça já se consolida na minha direção. Solidariedade nos planos mais amplos que a da responsabilidade social, alimentos, teto, educação, saúde: assistência moral, prática da justiça, espiritualidade.

Conclusão

Como podemos perceber pelas descrições, as palavras cooperação e solidariedade se misturam em muitos dos seus sentidos, são muito parecidas justamente porque uma coopera e é solidária com a outra e vice-versa.

A reflexão que os líderes desde novo século devem fazer é no sentido de que tanto a cooperação quanto a solidariedade não são teoria, apenas existem se houver a ação. Logo, se não houver o exercício prático e o estímulo para cooperar e ser solidário, deixaremos passar o grande momento desta nova era. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

1136-Leis Espirituais



Sete Leis Espirituais da Conexão Cósmica

As leis espirituais que Conexão Cómica, ou seja, ligar-se ao Universo e participar do grande concerto que aí se realiza a milhões de anos, são 16. Exige-se muito dos candidatos e podem os candidatos esperar por muito. São leis transparentes válidas para todos os seres inteligentes. Na verdade, elas se acham impressas em nossa consciência, mas nós não as acessamos por falta de estímulos externos.
 

  1. Lei da Fé – ausência completa do medo e convicção real da confiança na vida.


  1. Lei do não julgamento – julgamento é uma invenção humana que precisa ser desmantelada.
  

  1. Lei da Oração e Meditação – praticadas não como pedidos e sim como intenção, propósito, oferta.


  1. Lei do Perdão – como aquisição de poder para tornar inexistente qualquer razão que tenha provocado motivo para mágoa, ressentimento ou culpa.


  1. Lei da Gratidão – agradecer permanentemente a doação da vida e as experiências que ela nos proporciona para crescermos.
 

  1. Lei da Unidade – reconhecer que nunca nos separamos, apenas entramos em zonas de sombras, de onde é preciso sair para sintonizar a estação-mãe universal.
 

  1. Lei da Intenção e da Manifestação – utilizar o poder da mente para alinhar-se com a Fonte Universal e obter manifestação provinda da riqueza divina.
 

  1. Lei da Vibração e da Ressonância – promover as condições mentais para receber e emitir vibrações provindas dos campos imantados onde tudo se reverbera no perdão, na bondade, na paz, na prosperidade, na saúde, no amor.
 

  1. Lei da Atração – colocar o foco naquilo que se deseja.



  1. Lei do Mínimo Esforço – ao aceitar coisas e pessoas, fatos e ideias, exercemos o menor esforço em relação ao que está ao nosso redor e assim permanecemos abertos aos resultados.

 

  1.  Lei dos Ciclos – entender que há um tempo para expandir e um tempo para contrair e nunca colocar-se na contramão do processo.
 

  1.  Lei do Agora – desprender-se do passado e do futuro e viver apenas o agora em nossas construções mentais.



  1. Lei da Flexibilidade – fluir a vida ao produzir uma transformação interior que deixe averta a porta da abundância, da prosperidade e da felicidade.


  1. Lei da Polaridade – a vida é dual, positivo-negativo, feminino-masculino e nos obriga a viver o equilíbrio entre os polos.


  1. Lei de Causa e Efeito – também chamada de Lei do Carma, que faz com que todo o efeito tenha uma causa, toda causa tem um efeito equivalente.
 

  1. Lei do Dharma - ou Prêmio, ou seja, estarmos alinhados para receber o que a vida pode nos dar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

1135-Leis Espirituais


Sete Leis Espirituais da Criatividade
 

Criatividade ou inventividade são talentos que podem ser desenvolvidos na pessoa. Veja os requisitos.
 

1.  Tirar do nada

Tudo o que contribui para a grandeza do mundo provém do nada, onde tem origem. Uma mente criativa não copia, dá origem.
 

2.  Inventar

Todo o invento é a forma do pensamento que lhe deu origem. Uma forma vitoriosa é personagem da mente que a inventou.
 

3.  Criar

Uma criação ganha vida a partir de seu corpo e imagem, de seu signo e significado.
 

4.  Gerar

Uma geração nasce, emerge e se expande, segundo a energia e sopro a ela entregue por seu criador.
 

5.  Alimentar

A vida de uma criação depende do alimento concreto ou abstrato que a nutrir e vivificar.
 

6.  Formar

A obra, fruto da criação da inteligência, ganha formas e contornos e se torna útil ou não em decorrência direta de sua aplicabilidade.
 

7.  Educar

A palavra educare provém de “tirar do escuro”, isto é, dar luzes, iluminar.

 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

1134-Leis Espirituais


Sete Leis Espirituais da Natureza, Saúde e Perfeição
 

A impressão que se tem é que tudo quanto estivermos buscando, outro tanto de contrapartida é-nos exigido. Tem alguma coisa mais desejada que saúde e perfeição? Para chegar lá, veja o que é preciso.
 

1.    Otimismo

Mantenho o pensamento aberto, positivo, otimista, não deixando espaço a ideias que não tenham este propósito.
 

2.    Vigilância

Presto muita atenção aos sinais ou sintomas que possam surgir em meu corpo e no meio ambiente, que denunciem ameaça, doença, deterioração, dor, mau cheiro, gosto diferente, febre, tontura, arrepio, manchas, irritação, mudança de cor.
 

3.    Movimento

Pratico movimentos físicos adequados à minha realidade.
 

4.    Potencialização

Ofereço o metabolismo do meu corpo para a potencialização dos agentes da vida que em mim interagem. Quero nutrir-me sem envenenar-me, absorvendo a essência dos líquidos, sólidos e gasosos em ambiente de paz.
 

5.    Sexo

Tenho ou terei um(a) parceiro(a) de sexo capaz de dividir comigo a qualidade da entrega frequencial em busca do maior prazer, associando contato físico e comunhão mental/espiritual.
 

6.    Visualização

Exercito com frequência a visualização, visitando mentalmente todos os órgãos de meu corpo, oferecendo-lhes energia em forma das cores do arco-íris.
 

7.    Fraternidade

São meus irmãos todos os componentes da natureza cósmica e atômica, dentre eles os humanos.

domingo, 21 de julho de 2013

1133-Leis Espirituais


Sete Leis Espirituais da Felicidade
 

O que é ser feliz? Parece simples depois de conhecer as leis da felicidade.
 

1.    Recomeço

Todos os dias renasço como uma criança, sem pecado, sem ódio e cheio de esperança.
 

2.    Equilíbrio

Equilibro obrigações e prazeres, trabalho e lazer, dosando o ato de criar e brincar.
 

3.    Fortaleza

Meus valores, minhas atitudes, minhas crenças e meus princípios são minha bússola e me conduzem para onde eu acredito poder chegar; faço tudo para transformar o negativo que possa existir no meu dia a dia.
 

4.    Congruência

Meu sonho, meu projeto e minha realidade, caminham de braços dados; o pensamento, o desejo, a expressão e a ação estão sintonizados um no outro, congruentemente; eu não posso ser menor do que o meu sonho.
 

5.    Atenção

Escuto o meu interior, falo menos e escuto mais, e medito; presto atenção nos sinais; eles existem como avisos.
 

6.    Inteligência

Coloco inteligência em minhas emoções e a emoção na criação.
 

7.    Amor

Amo-me, amo o próximo e amo o mundo, o cosmos. Bendigo e agradeço a oportunidade de estar nesta vida, deste jeito e com este propósito.