sábado, 30 de novembro de 2013

1256-Religiões e Organizações de Mistérios


Enfim, a gnose moderna

Esta última postagem desta série começa por um resgate: na Idade Média, no Ocidente, havia um silêncio artificial sobre a interpretação da vida. O crescente poder do papado propiciado por uma burguesia rica e confortada com o modelo político, propiciado muito mais pelo dinheiro do que pela felicidade e menos ainda pela paz de espírito, era algo muito parecido com o mundo pós-moderno de 2008 em que a bolha estourou e a “felicidade” proporcionada pelo “deus dinheiro” ainda está ameaçada.

Não se possuía e nem se questionava a visão de mundo e do ser. Em paralelo com as peripécias morais da classe que dava sustentação ao modelo de poder e também gozando do poder econômico, porém com muito maior alcance intelectual e certamente espiritual, iremos encontrar os Templários – uma Ordem de Cavaleiros dedicados ao serviço da Igreja, cuja história é muito incomum: iniciam como guardas protetores de peregrinos europeus a caminho de Jerusalém, evoluem para guardadores de fortunas, passam a construtores de palácios e templos e se afirmam como a maior potência financeira organizada europeia.

Em seu seio podiam estar mais vivos do que nunca ilustres personagens gnósticos – como também havia, fora daí, tantos outros no seio da sociedade. Eram diferentes formas de gnosticismo. Mas, o silêncio artificial sobre a interpretação da vida trazia em sua origem a não preocupação com a espiritualidade, mascarada pelos prazeres dados por esta mesma vida – melhor dizendo, pelo “deus dinheiro”.

O hermetismo, de certa forma, aceito pela Igreja, tanto que os primeiros padres como Tertuliano, Lutâncio e o próprio Santo Agostinho, deram sanção à inspiração manifestada por Hermes, não era um “partido” de oposição ao Papa. Assim, na grande crise ideológica seguinte, ocorrida quando o tecido da sociedade medieval foi destruído pelo Renascimento e pela Reforma, a Hermética ocupou uma posição privilegiada. Fora da Igreja. Não dentro dela, que agora era ré num processo cosmogônico por crime de omissão confessa.

Tratava-se de um desvio de conduta, pois a Teologia Patrística (trabalhada pelos grandes padres mentores dos conceitos da fé católica) e tida como os Pilares da Igreja – século II a VII – aprovara os textos herméticos.

Nesse novo momento da Sociedade Européia – muito semelhante à Nova Era inaugurada pelo Terceiro Milênio Cristão atual - o entusiasmo pelos (para ela, sociedade) novos conhecimentos e pela redescoberta da antiguidade gnóstica, davam o tom do levante renascentista – por isso renascente – trazendo à cena a figura de Hermes Mercurius Trismegistus, tido como uma pessoa real e como tal um filósofo-mago do Renascimento. A ansiosa parcela intelectual desejosa por aproveitar o volume de tesouros intelectuais revelados nessa ebulição trazida pelos agentes renascentistas batia de frente com o comodismo intelectual apascentado pela Igreja.

Não havia, porém, intenção de romper o quadro mundial. Hermes, Moisés e Zoroastro eram colocados lado a lado na configuração dos textos do Novo Testamento de onde nascera a Igreja dita Cristã. Tudo caminhava sem ruptura. Para se ter uma idéia, em 1488, o pavimento da catedral de Siena fora decorado com a figura de Hermes tendo um texto às mãos, nada menos que o Asclepius – aquele que trata da cura (veja, estamos falando de uma cura que mistura benzimentos, plantas energéticas e canalizações espirituais).

Resumindo: o gnosticismo reingressou na Europa e agora não pelo desejo dos místicos, magos e alquimistas, mas também com o carimbo da poderosa Igreja de Roma.

Onde se deu a quebradeira que viria dar origem ao gnosticismo moderno?    

Já vimos que a quebradeira se deu quando a autoridade da Igreja foi ferida. Não era propriamente uma questão filosófica, mas de poder.

A não obediência dos cátaros em meio à crise financeira da Igreja e do reino francês, trouxe à baila o desejo de refazer o poder – precisava de argumentos – e se possível refazer o caixa. Os Templários foram chamados a entregar sua fortuna para refrescar o calor da insolvência da coroa francesa, em linha direta com o Vaticano. Não concordaram. Este foi o segundo ato mais brutal que se perpetrou naquele período. O primeiro tinha sido contra os cátaros ou albigenses.

Alguns dos principais dirigentes da Ordem do Templo foram presos, julgados e condenados, mas nem toda a fortuna templária caiu nas mãos de Felipe, o Belo, como também queria Roma.

Estavam por sair da sombra os líderes da Reforma.

Na seqüência, os rebeldes se retiram do ambiente dominado pela “ditadura” eclesiástica romana e vão fundar outras corporações orientadoras da questão religiosa sem os vícios que eles condenavam na organização matriz. Dentre as linhas centrais da doutrina estava preparar homens justos para Deus e não ficar à espera da misericórdia de Deus para com os pecadores, como ensinava Roma.

O barbarismo da Inquisição viria dar força a ala dos contrários. E jamais conseguiu eliminar da trajetória os católicos alinhados com o misticismo, a magia e a alquimia, agora já não mais com essas denominações, mas consolidados em ordens algumas secretas, outras não, como a Rosacruz, a Maçonaria, a Sociedade Teosófica, o Espiritismo, e em outras organizações menos conhecidas.

Fora dessas organizações permaneceram muitos gnósticos. Jung, já vimos, foi um deles. Na esteira dessa plêiade de livres pensadores iria nascer o que mais tarde se conheceu como New Age, uma poderosa confederação de filósofos, cientistas, religiosos, xamãs, pesquisadora e escritores com sede num país onde as liberdades estavam melhor arraigadas, os Estados Unidos.

E no Brasil, com todo o sincretismo que permeia as correntes de fé, iremos encontrar um catolicismo de libertação, cujo maior expoente é Leonardo Boff; iremos encontrar um espiritismo católico, graças a Chico Xavier; iremos encontrar uma Umbanda católica, onde Nossa Senhora é chamada de Iemanjá, e Nosso Senhor de Oxalá; e iremos encontrar igrejas neo-pentecostais que trabalham o exorcismo abertamente diante das câmeras de tevê.

Mas, nunca o gnosticismo esteve tão vivo quando se busca conhecer os trabalhos xamânicos que se multiplicam por todos os cantos do planeta.

Não faltava muito para a união dos conhecimentos herméticos com os de Cristo, visivelmente convergentes no Evangelho de Madalena, chamado Pistis Sophia e destes para com o que nos entregaram Madame Helena Petrovna Blavatsky e Allan Kardec: a paternidade de Deus; a irmandade entre os homens; a comunhão entre os mundos orgânico e espiritual; a contínua existência da alma humana; a responsabilidade pessoal por pensamentos, atos e palavras; a lei de causa e efeito, recompensa e castigo por todas as ações boas e más praticada pelos seres inteligentes; progresso eterno aberto a toda alma humana mediante reencarnações.   

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

1255-Religiões e Organizações de Mistérios


Na fogueira por muito pouco

Dentre as execuções perpetradas pela “Santa” Inquisição, duas se tornaram famosas, mas uma não aconteceu. O padre Giordano Bruno e o inventor Galileu Galilei estiveram como acusados. Galileu foi aconselhado pelo Papa (seu amigo) a negar suas descobertas e foi poupado. Bruno, não.
 
Giordano Bruno defendia a infinitude do universo, como um conjunto dinâmico que se transforma continuamente, do inferior ao superior, e vice-versa, num movimento constante, por ser tudo uma só e mesma coisa, como manifestação da vida infinita e inesgotável. Como o universo, também Deus é infinito, sendo-lhe imanente e transcendente ao mesmo tempo, sem nenhuma contradição, pois os opostos acabam por coincidir no infinito.

Segundo Bruno, o universo é uma coisa viva, todo ele regido por uma mesma lei, sendo Deus a mônada das mônadas (espécies de átomos orgânicos e viventes), que compõem o organismo do mundo (de onde se originou o Espírito, na doutrina de Kardec). Deus está presente por toda parte, como poder infinito, sabedoria e amor, cabendo aos homens adorar toda essa infinitude com entusiasmo, numa unidade das crenças religiosas, além de qualquer dogma positivo.

A metafísica de Bruno pode ser denominada de monista, pampsiquista e para-materialista, sendo que ele concebe Deus como alma e princípio ativo do mundo - e a matéria como princípio passivo. Deus e matéria nada mais são, portanto, do que dois aspectos da mesma substância, como ficou elucidado mais tarde.

Queimado em praça pública como exemplo do que um padre não podia fazer, Giordano foi sendo esquecido e só nos fins do século XVIII e começo do XIX, através do pensamento dos românticos alemães, voltou a ser lembrado e teve suas defesas presentes em grande dose nas ideias de Goethe. Outros nomes importantes contribuíram para a gnose que tentou ser sufocada nas fogueiras inquisitórias foram Hegel, Kant, Locke, Jung.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

1254-Religiões e Organizações de Mistérios


As origens do Santo Ofício

No início do século XIII, o Papa Inocêncio III lamentava a situação do seu pontificado: as igrejas estavam desertas, a crise de vocações reduzia o número de sacerdotes, os fiéis mostravam desconfiança e pouco interesse pelas sagradas escrituras e pelas questões da Santa Madre Igreja. O clero estava entregue ao luxo, à corrupção política, ao tráfico de influências e, em muitos casos, à luxúria e à devassidão.

A coisa vinha de longe, desde quando, havia 3 ou 4 séculos, no seio da Igreja, o poder espiritual começou a se confundir com o temporal e muitos papas e altos prelados passaram a ser escolhidos não mais por sua vocação e virtudes, e sim por pertencerem a famílias da nobreza detentora do poder.

Poucas décadas antes, o papa Bento IX (1032-1048) herdara o título por ser sobrinho do papa João XIX. Acusado de estupros e assassinatos, ele foi descrito por São Pedro Damião como "um banquete de imoralidade, um demônio do inferno sob o disfarce de um padre" que organizava orgias patrocinadas pela igreja. Em seu último ato de corrupção como papa, Bento IX decidiu que queria se casar e vendeu seu título para seu padrinho por 680 quilos de ouro.

Inocêncio III, por seu lado, tentou moralizar a Igreja. Em 30 de maio de 1203, ele escreveu ao escandaloso arcebispo de Narbonne, no sul da França, uma carta contundente na qual afirmava sem meias palavras que o seu estilo de vida o tornava maldito aos olhos de Deus. O alto prelado, titular de uma das arquidioceses mais ricas e vastas da França, tinha abandonado quase completamente o ofício de padre para viver na esplêndida abadia de Montearagón, onde habitava com a viúva de seu irmão, com quem tinha tido dois filhos. Tudo isso de forma escancarada, diante de todos, sem se preocupar com o escândalo. Embora, naqueles tempos, os critérios que definiam um escândalo eclesiástico fossem bem outros.

De fato, boa parte do alto clero na época vivia assim, à exceção de uns poucos bispos e abades que, obstinadamente, mantinham a fé nos votos proferidos.

As notícias sobre os desmandos da Igreja corriam por toda parte, enquanto, ao mesmo tempo, em vários lugares da Europa, pipocavam movimentos heréticos. Eram quase sempre caracterizados por interpretações esdrúxulas e divergentes dos evangelhos e capitaneados por líderes carismáticos e milagreiros, que se mostravam abertamente contrários à autoridade papal.

O catarismo - uma das mais importantes heresias que sacudiram o mundo cristão na Idade Média - encontrou na decadência institucional da Igreja Católica terreno fértil para germinar e crescer. Foi nesse clima de fragilidade da antes poderosa Igreja Romana que, no sul da França, na região do Languedoc-Roussillon, então conhecida como Occitânia, se difundiu uma verdadeira Igreja autônoma, organizada em dioceses, que se inspirava nos credos de uma antiga seita cristã do século II, o gnosticismo. 

Essa versão alternativa do cristianismo, diversa daquela de Roma tinha sobrevivido no Oriente e, ao redor do século X, se difundira também na Europa.

Esses heréticos se chamavam "cátaros", do grego katharòs, "puros".

Os cátaros e também identificados como albigenses, tal como os antigos gnósticos, acreditavam que Jesus nunca fora um verdadeiro homem de carne e sangue, mas sim um anjo, uma criatura espiritual vinda à Terra para ensinar aos homens o caminho da salvação. O mundo e a carne dos homens, para eles, seriam a criação de um anjo malvado que quis aprisionar as almas dentro de um pesado fardo material, cheio de vícios e pecados: o corpo.

Cristo, mensageiro de Deus, não podia ter um corpo real porque era privado de pecado. Portanto, segundo os cátaros, nunca sofrera a Paixão nem morrera.

Os cátaros se reuniam ao redor de grupos de ascetas (chamados "perfeitos") que, realmente, procuravam viver segundo os ideais da pobreza evangélica, praticando a castidade absoluta e longos jejuns para mortificar a carne. Eles se dedicavam inteiramente às prédicas, aos ensinamentos e ao aconselhamento espiritual dos fiéis. Quando um cátaro desejava se consagrar ao serviço de Deus, fazia votos muito rígidos que se sintetizavam no consolamentum, o único sacramento reconhecido por eles.

Os cátaros, com efeito, não praticavam o batismo, a comunhão nem os demais sacramentos, inclusive o matrimônio.

Outro grande problema que o catarismo criava socialmente era a proibição absoluta de proferir juramentos: na sociedade dos séculos XII e XIII o sistema de poder era baseado no juramento de fidelidade (do bispo ao papa, do nobre ao soberano, do camponês ao barão de terras). O juramento empenhava a honra pessoal e constituía um vínculo absoluto.

Recusar-se a jurar significava ser rebelde (herege). E, realmente, o credo dos cátaros foi muito instrumentalizado por ambições de autonomia política.

Muitos grandes senhores feudais do sul da França se aproveitaram do catarismo para se liberar da obediência ao rei Felipe II Augusto; os bispos, para se liberar da autoridade do papa e se tornar autônomos; e o baixo clero, seguindo o exemplo dos bispos e dos líderes cátaros, para predicar abertamente nas igrejas católicas, desde que pagassem regiamente o pároco...

A liberação dos vínculos feudais foi também muito útil para o apoderamento de testamentos e dos bens do espólio usando a desculpa do catarismo.

Por meio dessa inversão dos valores tradicionais que regiam o equilíbrio da sociedade, um clima de anarquia foi se instalando cada vez mais, e a Igreja oficial decidiu intervir antes que a situação fugisse totalmente do controle - o que praticamente já acontecera em vários locais.

Tornou-se cada vez mais difícil para a Igreja Católica tolerar a existência dos cátaros. A taça finalmente transbordou em 1209, quando um enviado do papa foi assassinado. "Vamos exterminar esses súcubos de Satanás", exclamou, furioso, Inocêncio III. Organizou uma verdadeira cruzada - a primeira a atuar em território europeu - e desencadeou uma vasta operação militar, que adquiriu importante dimensão política. A título de recompensa, os cavaleiros cruzados podiam se apoderar das terras e dos bens dos adeptos do catarismo. Foi dessa forma, graças aos sucessivos massacres das comunidades cátaras, que o reino da França anexou a grande região da Occitânia, até então independente. Foram 10 mil homens e mulheres nos ataques e os mortos mais de 25 mil.

Foram necessários vinte anos de cruzadas assassinas para “limpar” do território católico europeu as marcas dos hereges. Os que sobraram por terem se refugiados foram levados à fogueira da Inquisição mais tarde.

Mas, esta intolerância e truculência do Papa com a conivência do rei de França custaram muitos protestos, que também eram sufocados com acusações de heresia e levadas ao tribunal. E a moda pegou. Deu certo nos primeiros lances, muitos outros lances foram perpetrados. Algumas das execuções tinham por objetivo a posse dos bens do executado.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

1253-Religiões e Organizações de Mistérios


O Hermetismo na Europa e suas colônias

Vimos na postagem anterior que os textos do início da Era Cristã eram muito semelhantes aos equivalentes ao do “velho” Hermes (ou Toth). Mas, para a história do ocultismo europeu, a Hermética se afirmou como conhecimento de extraordinária importância devido à posição a ela conferida na Renascença das Artes Mágicas e da Filosofia Gnóstica em oposição aos absurdos dogmáticos da igreja dominante.

Desde aquele tempo Hermes Trismegistus tem sido um símbolo da tradição ocultista no Ocidente – o maior deles – apesar da destruição das doces ilusões sobre o grande profeta já no século XVII, com a Inquisição. A verdade é que os textos herméticos fornecem uma bela visão geral da posição filosófica que está na raiz de todos os sistemas ocultistas.

Também no hermetismo se pode notar esoterismo e exoterismo, infelizmente. O conhecimento popular nos chega pela via da Astrologia e são do século III antes de Cristo, através dos horóscopos, dos mapas astrais e da medicina astrológica e das simpatias, comum em livros e veículos de imprensa.

A segunda categoria, é do Hermetismo erudito e data dos séculos II e III da Era Cristã. Consiste num corpo de Filosofia religiosa que faz algumas ligações com os textos mais populares sobre magia e alquimia. Os principais são chamados de Corpus Hermeticum e Asclepius, o primeiro sobre magia e o segundo sobre medicina e cura.

Então, à revelia do que queria a Igreja ao estabelecer sacerdotes, bispos e cardeais para intermediar as ligações dos fiéis com Deus, as chamadas Religiões de Mistérios – verdadeiros e não falsos mistérios – objetivavam induzir seus iniciados ao êxtase. Assim, as idéias mágicas ou astrológicas (porque continham adivinhações) pareciam dar aos homens e às mulheres (na Igreja Católica não havia espaços para a mulher), um certo grau de controle sobre um ambiente instável, caótico e duvidoso, que é a Vida. Quem possuísse tais conhecimentos tornava-se popular e concorria com os objetivos da Igreja. Nisso reside a principal razão de serem acusados de bruxaria e levados ao Tribunal de Inquisição para serem executados.

Veja, estamos na Renascença e entenda que o racionalismo ganhava espaço também em oposição à Igreja, o que custou aos racionalistas uma declaração pública como ateus. Não o eram, mas foi preciso assumirem esta posição para escaparem das investigações do clero. Jesus foi junto para a oposição à Igreja, pois as suas idéias autonomistas manifestadas já no Pai Nosso (ligação direta ao Pai), eram idéias gnósticas perfeitamente coerentes com os pensamentos herméticos.

Não se pode omitir que distante das crenças num salvador que voltaria a redimir a todos diante dos pecados humanos, o discurso racionalista, onde se incluem os dos protestantes – ligados às igrejas da Reforma de Calvino e Lutero – era um discurso realista, sem paternalismo, quem faz assume o que faz: ninguém descerá dos céus para, por milagre ou outro mistério, zerar as faltas cometidas por pessoas que não têm caráter, nem moral, mas que pagam oblações ao bispo e obtém a indulgência salvadora produzida por esse “salvador” prometido.

Grande parte dos comportamentos deletérios produzidos por uma casta superior dominante dentro dessa cultura absurda que se formou, tem origem nessa “impunidade” obtida pela via das “propinas” pagas pelos pecadores aos “agentes” ou “fiscais” de Deus dentro da estrutura ditatorial proposta por uma Igreja injusta. Nasce a corrupção por obra dos corruptores que “agem” em nome de Deus.

Por conta dessa dominância sobre as classes populares, nem mesmo a obra dos filósofos gregos conseguiu ganhar espaço. Muito menos a dos gnósticos. A elite cultural não se fez católica, se fez protestante e deu origem ao desenvolvimento experimentado por países como a Alemanha, Grã Bretanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, etc. e num nível intermediário a França, em contraste com os católicos Portugal, Espanha, Grécia e suas colônias.

Gnósticos, neoplatônicos e hermetistas podiam sentar-se à mesma mesa. As discordâncias eram apenas em pontos específicos. Tinham, no entanto, um principal ponto comum: o que se podia entender da doutrina de Hermes não fora contestado por Jesus, que até no Pai Nosso sugeria haver uma Vontade do Autor da Vida “assim na terra como nos céus”, mas essa não era a postura da Igreja de Roma.

Estava criada a separação através de um abismo conceitual.   

terça-feira, 26 de novembro de 2013

1252-Religiões e Organizações de Mistérios


As Sínteses Herméticas

A palavra “hermético” ou “hermética”, soa segredo e magia,
conhecimento oculto do Universo, que tantos ocultistas tentam obter.

A clássica figura de Hermes ou Mercúrio, o mensageiro dos deuses com seu bastão de serpentes entrelaçadas simbolizando sabedoria, deu origem aos brasões de muitas profissões como a da medicina e outras. Na verdade, simbolizam a ciência.

No século II (veja que isso se passa após a estada do Cristo entre nós), surge a figura majestosa de Hermes Mercurius Trismegistus, o Três Vezes Grande, um profeta da salvação dos males do mundo material, na Grécia, coincidindo com o aparecimento de textos e mais textos sob o nome de Hermes Trismegistus ou de seu equivalente egípcio Toth (que também se escreve como Tot, Tote, Thoth ou Tôt), na verdade, um deus egípcio associado à escrita e à sabedoria de, pelo menos, vinte séculos antes de Cristo.

Então, note o leitor, não podia tratar-se do mesmo Hermes egípcio ou, então, nada mais era que a reedição do conhecimento do antigo Hermes ou Toth.

O que eram esses conhecimentos?

São sete principais princípios herméticos conhecidos, sendo dois os mais badalados:

O princípio de correspondência ("O que está embaixo é como o que está no alto; o que está no alto é como o que está embaixo, no milagre de uma só coisa") e o princípio de polaridade ("Tudo tem dois polos, opostos e iguais na analogia dos contrários"). O princípio de correspondência demonstra a interdependência energética do Universo interdimensional. Macrocosmos e microcosmos integrados (daí o simbolismo da estrela de seis pontas). "O TODO está em Tudo!"

O princípio de polaridade nos remete ao conceito taoísta do Yin e Yang em constante interação. Ou seja, são aspectos diferentes da mesma causa onipresente (para os hermetistas, o TODO; para os taoístas, o TAO). A correspondência demonstra que não há separação, pois o TODO está em tudo. O que acontece no Universo afeta a todos interdimensionalmente.
Também é verdade que se o TODO está em tudo, tudo está no TODO.

A polaridade demonstra aspectos aparentemente diferentes, contudo, atraem-se mutuamente. Por exemplo: homem e mulher (humanos), sol e lua (astros), quente e frio (temperatura), alto e baixo (altura), corpo espiritual e corpo físico (formas energéticas, veículos de manifestação).

É uma prática corrompida o estudo em separado desses dois princípios herméticos, pois há uma interação entre os sete princípios, como se pode discernir ao examiná-los:

1. Princípio de Mentalismo (O TODO é mente).

2. Princípio de Correspondência (O Todo está em Tudo).

3. Princípio de Vibração (Nada está parado; tudo se move; tudo vibra).

4. Princípio de Polaridade (Tudo é negativo e positivo).

5. Princípio de Ritmo (Tudo tem fluxo e refluxo).

6. Princípio de Causa e Efeito (Toda causa tem seu efeito, todo efeito tem sua causa; esse é o princípio do Karma).

7. Princípio de Gênero (Tudo tem o seu princípio masculino e feminino).

Grande parte das práticas herméticas está descrita nos livros de astrologia, alquimia e magia. Ali estão descrições das simpatias que unem um determinado astro ou signo do zodíaco a uma parte do corpo humano ou ligam a parte do corpo a uma determinada pedra preciosa, podem ser encontrados em livros e mais livros de hermetismo. Os chakras ainda não entravam porque o hinduísmo veio depois. Os rituais para invocar espíritos estão igualmente por toda parte.

Além dos hermetismos popular e erudito, que estamos descrevendo em outra postagem, criou-se o hermetismo especulativo através da alquimia especulativa: vale descrever um filósofo tomando uma ilustração alegórica do processo de refinamento espiritual – pelo qual a alma tem de passar para se tornar digna diante do Autor da Vida em sua ascensão – e imaginando o exemplo prático de como o ourives egípcio refinava, refinava, moldava, moldava, polia, polia seu ouro para dele obter a qualidade mais alta requerida.

A maior prática mágica hermética consistia no aperfeiçoamento humano: tornar o homem igual a Deus pela transmutação, num exemplo direto do que ocorre com a parreira, a uva, a sua maceração, a sua depuração, a sua filtragem, a sua cura pelo envelhecimento para tornar-se o apreciado vinho, com o qual se brinda a todos os espíritos elevados, e a Deus.

O mais célebre de todos os tratados herméticos, o Poimandres, descreve a experiência visionária – ver com os olhos da alma. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

1251-Religiões e Organizações de Mistérios


Mistérios, falsos mistérios e gnose

O que é se pode classificar como mistério? Tudo aquilo que a inteligência e a compreensão humana não é capaz de explicar ou definir, um enigma, algo obscuro ou desconcertante, segredo, imponderável. Logo, para penetrar no âmago de um mistério, o ser humano precisa buscar recursos sobre humanos ou sobrenaturais. Aqui entram os magos, médiuns, xamãs, pessoas que são dotadas de recursos que vão além da mente humana.

Os primeiros a compreender que não tinham capacidade para sondar o imponderável e por este motivo colocaram tais temas como sagrados – que vale dizer algo que não deve ou não pode ser tocado ou infringido, por ser inviolável, e que deve ser respeitado, venerado e cumprido, foram os xamãs.

Temos aí não apenas uma definição para mistério como também um modo de lidar com o que de forma misteriosa se coloca diante de nossas vidas.

Quando, porém, o mistério nos é apresentado não porque se enquadre nos conceitos emitidos, mas porque uma instituição religiosa ou iniciática pede que se desconheça algo misterioso apenas porque entre os próprios homens não pode ser revelado, o que é? A resposta parece ser tácita: trata-se de um falso mistério ou de algo inventado, escondido e dado como misterioso, não porque a mente humana não tenha alcance, mas porque alguém se apropriou daquilo e o colocou sob segredo. Segredo, apenas. Sagrado, nunca. Entendeu, leitor?

Os gnósticos da Antiguidade confrontavam os dogmas da mitologia de todas as culturas, formavam entre si uma espécie de rede de apoio cognitivo, que mais tarde, nos tempos de Sócrates, ficou conhecido por Academia. E tinham as simpatias dos alquimistas e tinham, entre eles, também os magos e os que, depois de Kardec, passaram a ser chamados de médiuns – pessoas que captam mensagens de inteligências externas. Só para ilustrar e não perder a oportunidade de dar mais uma informação: os xamãs, que foram com certeza os descobridores do maior número de remédios vegetais em nossa natureza, tinham e têm a capacidade de interagir mentalmente com a essência íntima de uma planta e recolher dela através de um dom aferente energético e químico o seu princípio ativo e sua aplicação. Isso é mais que a mediunidade que conhecemos.

Mas, o tempo passou, o Império Romano fez de tudo para ofuscar a ação dos gnósticos, inclusive queimando (deliberadamente ou não) a Biblioteca de Alexandria e recolhendo (deliberadamente) para os arquivos secretos da Igreja Católica, no Vaticano, tudo quanto havia para ser preservado, porém escondido. E o gnosticismo foi minguando, os alquimistas foram levados ao Tribunal de Inquisição e muito poucos deles restaram dissimulados, já sem aquele trabalho de rede de apoio cognitivo. Quebrou-se o sistema, a corrente.

Deixa estar que no Renascimento seguido do Iluminismo, algumas mentes privilegiadas começavam a cavar nas catacumbas e puderam fazer a associação do que sabiam os gnósticos com o que ensinava Hermes Mercurius Trismegistus – que possivelmente não foi uma pessoa, mas uma imensa tribo de amantes do saber sagrado -, e os assuntos antes velados e só transmitidos através de iniciações, começaram a sair a lume através de Giordano Bruno, Pico della Mirandola, John Dee, perfeitamente rotulados como filósofos gnósticos dos novos tempos. A primeira a sofrer os efeitos dessa nova gnose foi a Igreja Católica, atingida nos seus dogmas insustentáveis. Imediatamente ela lançou tentáculos e deteve Giordano, por ser padre, e o condenou à morte. Mas, sobraram outros que não se confessavam católicos e que escaparam. Um deles, com uma proposta reformadora da fé, foi João Calvino, muito próximo do que propunham os gnósticos. Deu origem às religiões cristãs que romperam com Roma e abriram caminho ao espantoso desenvolvimento científico, filosófico e tecnológico alcançado por muitos países europeus, exceto Portugal, Espanha e Grécia, dominados pelo pensamento retrógrado imposto pelo Vaticano.

É, sobretudo, na negação da casta sacerdotal e na afirmação de que todo homem tem um relacionamento com o Autor da Vida que a Reforma de Calvino se aproxima do gnosticismo. Não apenas os hermetistas podiam ser encarados como hereges, mas também como propagadores de uma mensagem – do ponto de vista católico - desagradavelmente semelhante à dos Reformadores.

Atrás de Calvino viria Martin Luther e todas as corporações religiosas que se anunciam cristãs, mas não prestam obediência a nenhum dos Papas das duas igrejas cristãs, a do Ocidente com sede em Roma, outra do Oriente, com sede em Constantinopla.

domingo, 24 de novembro de 2013

1250-Religiões e Organizações de Mistérios


Os mistérios da Igreja Católica

Talvez nenhuma outra instituição ligada à fé tenha mais mistérios insolúveis que a Igreja Católica. Sua abrangência universal, de onde lhe vem o nome “católica”, exigiu-lhe duas grandes providências: uma olhando para trás, tradição, história, registros, como aconteceu, trazendo o Antigo Testamento para dentro do cristianismo e apenas nisso, já, “inventando” mistérios, pois foram reiteradas as vezes em que o próprio Cristo se mostrou renovador perante as tradições judaicas; a outra olhando para o futuro, ao acenar com um caminho de salvação para muitos povos, mas cometendo equívocos ao conservar alguns dogmas de difícil sustentação. Apegadas às tradições – herdadas dos judeus -, não teve como revolucionar o campo religioso que, aliás, foi a proposta de Jesus. Começou mal, na prática, e deixou margens às críticas e dissidências. Anote aí, leitor, as dissidências não ocorrem quanto ao que parece ser unânime: a doutrina do Cristo. As dissidências ocorrem nas questões herdadas de outras culturas e nas práticas da Igreja. Seriam fáceis de superar não fossem as birras.

Fica, assim, em aberto, uma seqüência de mistérios: o santo gral, que não se sabe o que é. Nem onde foi parar, pois a Igreja diz tratar-se de um cálice onde foi depositado o sangue de Jesus – que associado à questão do “apóstolo que Ele mais amava” (não esclarecido), deu margem ao aludido matrimônio com Madalena e à gravidez (cálice) que carregou o sangue do Mestre.

Veja, aí já temos três mistérios.

E o Santo Sudário, guardado por tantos séculos como sendo a toalha que cobriu o corpo suado e ensangüentado do Mestre retirado da cruz, acabou por revelar-se mentiroso e lá se foi o mico do quarto mistério sem pagar a conta.

Os evangelhos, ao que tudo indica, reescritos e adaptados por uma equipe de 70 bispos, ali pelo século III, começam a ser questionados, inclusive, sob a sombra de outro documento descoberto recentemente, os Manuscritos de Nag Hamadi, encontrados bastante conservados numa gruta das rochas do Mar Morto.

Sua ousadia em trazer para dentro da Bíblia Cristã os tradicionais escritos judaicos, cheios de lendas e poesia, tem lhe custado caro sustentar o que ali consta: a criação do mundo tal como está há mais ou menos 7 mil anos; a Terra colocada no centro do Universo; o surgimento da mulher a partir de um osso da costela de Adão; um dilúvio que cobriu todo o planeta; a família de Adão e Eva como únicos seres de Deus, desmentido ali mesmo na Gênese, quando Caim e Abel se desentendem por que havia uma mulher no meio de sua relação e esta não era irmã deles; Deus teria concedido a Abraão as terras de Canaã, mas o favorecido chegou lá havia um próspero povo a habitar aquelas terras – o que protela indefinidamente a outorga e deixa a entender que ela ainda não se consolidou, pois Israel ainda briga com a Palestina por causa de espaços territoriais.

Também acaba por se tornar mistério de difícil manutenção o retorno de Jesus ao mesmo corpo e sua ascensão aos céus na posse desse corpo.

Sem contar os mistérios que a Igreja deve ter recolhido durante a argüição de centenas de suspeitos durante a Inquisição, quando ela executou todos quantos foram condenados por heresia – uma palavra que quer dizer “não alinhado”. A Igreja teria executado seus adversários políticos, bem ao estilo das piores ditaduras sanguinárias que conhecemos. E ficava com os bens do executado a título de “ressarcimento”.

O povo liberto das algemas dogmáticas do Vaticano continuará esperando pelas revelações dos mistérios que cercam a segunda maior corporação de fé do planeta.

sábado, 23 de novembro de 2013

1249-Religiões e Organizações de Mistérios


Alexandria e os gnósticos de Jung

Ainda que as heranças de Alexandre, o Grande, possam ser lamentadas sob alguns pontos de vista, o século III, antes de Cristo e os três posteriores a Cristo, foram tempos de muita ebulição filosófica e religiosa. Existe uma linha de pesquisa que relaciona os essênios, moradores das cercanias do Mar Morto com a família genética de Jesus. E destes com os magos e filósofos gnósticos de Alexandria, então a capital mundial do conhecimento.Tinha sede ali a maior biblioteca da época.

Acredita-se que a biblioteca foi fundada no início do século III a.C., concebida e aberta durante o reinado do faraó Ptolomeu I Sóter ou durante o reinado de seu filho Ptolomeu II. Plutarco escreveu que, durante sua visita a Alexandria em 48 a.C., Júlio César queimou acidentalmente a biblioteca quando ele incendiou seus próprios navios para frustrar a tentativa de Achillas de limitar a sua capacidade de comunicação por via marítima. De acordo com Plutarco, o incêndio se espalhou para as docas e daí à biblioteca.

Não havia só livros em Alexandria. Os principais sábios do planeta estavam lá. Os mais notáveis eram os gnósticos, andando em paralelo à religião fundada por Ptolomeu I, uma religião de mistério própria. Na verdade, ele queria unir gregos e egípcios sob sua regência e desenterrou alguns mistérios de Elêusis para fundar o Culto a Serápis, o único deus criado oficialmente por decreto. Contou com a ajuda de magos e hierofantes, leitores de segredos. A religião caminhou durante 600 anos e só veio a ser desmantelada, inclusive com a destruição do templo, em Alexandria, no ano 385 de nossa era, no governo do Imperador Theodósio.

Os gnósticos eram uma espécie de lamas que associavam pesquisas bibliográficas com meditação e revelação. Os escritos do Mar Morto, descobertos recentemente podem conter ensinamentos gnósticos.

Carl Gustav Jung, cuja obra psicanalítica superou a de seu mestre Freud, perambulou pelos meandros da sabedoria gnóstica e espiritual e acabou por escrever um livro chamado “Os Sete Sermões aos Mortos”, ditado por um gnóstico sábio do século II, chamado Basilides. Conta Jung que o fez para atender aos espíritos que batiam à sua porta e reclamavam: “estivemos em Jerusalém e a verdade não está lá”.

Jung avança pelos mistérios da alma e apresenta-nos Abraxas, um personagem que nasce conosco e tende a aperfeiçoar-se no Bem ou no Mal, dependendo daquilo que nós servirmos a ele como alimento da consciência. Jung concluiu que a derradeira solução não está em derrotar uma das tendências de Abraxas para que a outra triunfe, mas em fundir as duas numa só. Residiria nisso toda a caminhada da alma em direção ao seu destino sublime. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

1248-Religiões e Organizações de Mistérios


Mistérios também femininos

Temos caminhado pelas veredas proporcionadas por estes escritos e basicamente podemos ver que havia a predominância masculina na lida com os mistérios de fundo religioso. Não só as religiões buscaram esconder coisas que o povão não deveria saber. Eram muitas as ordens secretas, como a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz, a Ordem da Aurora Dourada, a Ordem da Estrela de Prata, a Ordem da Estrela do Oriente, a Ordem da Estrela Matutina, a Ordem da Pedra Cúbica, a Ordem da Rosa de Rubi e da Cruz de Ouro, a Ordem do Templo (ou Templários) do Oriente, a Ordem dos Bardos, Graduados e Druidas, a Ordem dos Cohen Escolhidos, a Ordem dos Novos Templários, a Ordem Sagrada dos Tântricos e dezenas de outras que podem, como estas, ser encontradas na Internet com sites à disposição dos curiosos, porém, cobrando caro o ingresso iniciático.

Dentre os cultos a Dionísio, que se incluíam entre os mais bárbaros do mundo grego por suas orgias e bebedeiras, iremos encontrar um que lidava com vasos, isto mesmo, um culto feminino, cujas partícipes eram conhecidas por vários nomes: mênades, desvairadas, bassaridas, raposas fêmeas, potniades, inebriadas, excitadas e bacantes (servas de Baco – o deus do vinho), uma versão pândega e embriagada de Dionísio, popularizada em Roma. Havia homens dentro dos bacanais; eram os silenis ou sátiros, personificação da luxúria masculina, sempre com falos eretos, munidos de açoites com os quais flagelavam as nádegas nuas das frenéticas mênades em fuga, que alcançavam e arrebatavam. Os festejos incluíam folias orgiásticas, acompanhadas por desenfreada música frigia, durante os quais uma cabra ou ovelha viva era dilacerada com as mãos, mordida pelas participantes e a carne crua devorada.

A “farra do boi” que veio da Europa para a América com os emigrantes, principalmente das Ilhas de Açores e Madeira, é um cópia desbotada daquelas farras em homenagem a Dionísio, tanto quanto estas últimas, que incluem comer a carne do bicho perseguido e prostrado.

No Oriente eram comuns as cerimônias sagradas femininas, tendo a ver com o equilíbrio entre Yin e Yang, como se conhece no I Ching.

Ao redor do planeta existem notícias de cultos femininos com as mais diversas finalidades. Uma deusa mãe, por vezes associada à Mãe Terra; é representada como uma deusa geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade e da cultura; geralmente sendo a generosa personificação da Terra. Conhecidas como gadesh (sagrada) na maioria das civilizações pagãs as deusas são criadoras do Universo, geradoras da vida, da cultura, da agricultura, da linguagem e da escrita, resultando numa complexa estrutura teológica.

Podemos encontrá-las como: a Deusa Sarasvati, honrada como inventora do alfabeto original; a Deusa celta da Irlanda, Brigit, honrada como deusa da linguagem; a Deusa Nidaba, da Suméria (civilização tradicionalmente definida como berço da cultura da escrita), como aquela que inicialmente inventou a escrita cuneiforme e a arte da escrita (a escriba oficial da Suméria) também era uma mulher: Enheduana.

Deusas sumérias, mesopotâmicas e gregas: Tiamat na mitologia suméria; Ishtar (Inanna) e Ninsuna, na caldéia; Asherah, em Canaã; Astarté, na Síria e  Afrofite na Grécia, podem servir de introdução nesta lista. Mas na Irlanda era cultuada Anann ou Dana. Entre os povos germânicos provavelmente foi adorada uma deusa na religião da Idade de Bronze, Nórdica, chamada por Jörô, que mais tarde foi conhecida como Nerthus, na mitologia germânica, e que possivelmente seu culto persistiu em Freya, outra deusa. Sua equivalente na Escadinávia era a deusa aclamada por “natureza” Jörô e o deus dos mares e da fertilidade Njörôr.Nas culturas do Egeu, Anatólia e Antrigo Oriente Próximo, uma deusa mãe foi venerada com as formas de Cibeles (adorada em Roma como Magna Mater, a ‘Grande Mãe’).

As deusas olímpicas da Grecia clássica tinham muitos personagens com atributos de deusa mãe, incluindo Hera e Deméter.

Iemanjá, Oxum e Iansã e outras Deusas Mães compõem o panteão de Orixás das religiões Afro-brasileiras, e cada uma delas responde por um aspecto da natureza, da vida das pessoas, etc. Existem muitas particularidades em cada uma delas, mas algumas em especial podem manipular o tempo, o espaço, os elementos etc.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

1247-Religiões e Organizações de Mistérios


A essência dos mistérios

Podemos dizer, embora ainda não existisse o termo, que o conhecimento religioso era uma religião? Talvez não porque neste rol somos obrigados a incluir o que faziam os xamãs, que queiramos ou não, assistiram a todos os povos da Terra antes do que chamamos de civilização. Não há como negar que as civilizações tiveram início nas tabas com os seres primitivos, muito mais atrasados que os indígenas que hoje conhecemos sem contato com os centros urbanos. Aquilo que acontecia em termos religiosos, entre eles, não era propriamente uma religião, mas foi a matriz de todas as religiões que vieram depois. Tratava-se de misticismo? Sim. O que caracteriza o misticismo como o pai das religiões.

Talvez, lá atrás, não acreditassem na existência da alma e na vida além da morte, mas ali em torno de 10 mil anos atrás já aparecem registros orais de os xamãs se referirem à perda da alma para o caso do sintoma da (hoje) dissociação psíquica de seus pacientes. É desta época algo muito semelhante aos conceitos platônicos: a alma é preexistente ao corpo e não acaba com a morte do corpo, tanto que os indígenas sempre celebraram suas cerimônias de comunhão com os espíritos de seus mortos. E também havia uma crença de que aos justos haveria recompensa justa e aos injustos a pena do desprezo, do abandono (por parte do clã) e da vergonha.

Aqui, então, tenuemente, surge a idealização de um deus superior, autor da chuva, do sol, da natureza, doador de vida. Mas isso não estava claro quanto a ser uma entidade única. Era uma espécie de panteísmo, em que as coisas sagradas podiam estar em mais de um lugar e nisso o ser humano podia estar incluído. Zoroastro trabalhou a ideação de um Deus Uno do bem e por tabela criou o seu oponente, do mal. Esses conceitos foram parar no seio da comunidade hebraica, recolhidos durante o cativeiro da Babilônia e, por este caminho, chegou ao cristianismo e a toda a Europa e, por extensão, à América e a outros territórios conquistados pelas nações colonizadoras.

O destino da alma, individual, era voltar para Deus, liberta do corpo e submetida a um julgamento e se fosse merecedora ficava no que se pode entender por paraíso; caso contrário, voltava a reencarnar. A doutrina de Zoroastro tinha semelhanças com o Budismo oriental,contemporâneas que eram, com a diferença de que, no primeiro, a alma era um ser individual e não uma parte da alma cósmica, como é no segundo.

Vir ao corpo para habitá-lo podia ser um prêmio ou um castigo. Mas havia o livre arbítrio de cada ser humano com poder de modificar o resultado de sua imersão na carne, norteando sua trajetória no caminho do bem, do belo e do sublime.

Esse conceito de alma imortal não existia nos mitos egípcios e gregos iniciais, pois a alma podia ser destruída, despedaçada, da mesma forma que o corpo. Mais tarde, através da metempsicose ou transmigração das almas, o conceito grego se modificou e incluiu o prêmio paradisíaco às almas merecedoras.

Aí estava o homem, espírito e matéria, fruto dos deuses, mas independente destes, que tinham seu próprio mundo superior em que se acreditava pela crença, sem o respaldo do fundamento racional.  A filosofia tentará uma abordagem explicativa racional, procurará, mesmo, encontrar o fundamento da essência divina, mas estava presa a este dualismo difícil de ultrapassar, já que não dava um passo à frente para entender que tudo deriva de uma mesma entidade.

Foi o que fez a partir da concepção de que na origem de tudo estava o Uno, de que todo o resto seriam emanações. Esse Uno seria, no início, o Bem, o Belo e o Sublime. Pois no panteísmo era difícil conceber um deus único.

Andando um pouco mais apareceram os oficiais dos cultos, cerimônias e oferendas, do mesmo modo que os ritos, já também, como cópias do que havia no Egito Antigo, em que os faraós eram outorgados pelos deuses seus representantes na Terra. Para auxiliá-los, surgiram os adivinhos e magos, cópias dos feiticeiros indígenas. Os Impérios Helênico (durante o qual se impunha o Orfismo) e Romano (durante o qual se trocou o Mitraísmo pelo Cristianismo) tiveram capital importância na formação daquilo que as escolas e as religiões hoje ensinam como Teologia e Cosmogonia.

Não dá para encerrar este capítulo sem registrar que a religião era uma prática própria de homens cultos e ricos. Não cabia às mulheres e aos pobres e escravos. Por conta disso irão nascer nas castas inferiores os cultos e seitas de forte apelo espiritual, como o Vodu, o Candomblé, a Umbanda, a Magia Negra, as bruxas.

As formação de castas, hoje classes, não chegou aos nossos dias apenas pela via Judaica, Romana ou Católica ou Protestante: ela tem raízes anteriores na cultura hindo-ariana, que contribuiu para a construção étnica da Europa e muito visível na Índia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

1246-Religiões e Organizações de Mistérios


As primeiras religiões

Vamos nomear como religiões de mistérios o que talvez fosse mais correto dizer partidos, facções, seitas ou correntes de crenças. Em geral, elas foram inventadas por reis ou líderes carismáticos e formataram um padrão de ritos e obediências com a clareza de quem pretende organizar o povo para servir-se dele com algum propósito. Por conta disso a criação da lenda, a inventiva do mito e a indução ao respeito por alguma divindade.

O Sol ocupou o papel de deus por tudo quanto se dependia (e depende) dele para a vida natural. E então, abaixo do Sol ou de outros planetas, como sendo a sede do poder sagrado, foram sendo impostos ao povo deuses, semi-deuses, procuradores, advogados, intérpretes, com os nomes  sacerdote, mago, presbítero, papa, xamã – de ambos os sexos.

Os registros mais antigos parecem levar para os Mistérios de Elêusis, com os personagens Osires e Ísis, em torno dos quais foram pródigas as lendas e mistérios. Em torno de cada novo deus, nasciam as lendas e os mistérios, nem sendo novos, muitas vezes repaginados. Sempre se soube que dentro dos círculos fechados do poder, o conhecimento esotérico era partilhado. E o que chegava para o povo (exotérico) era o que convinha ao dono do poder. Os antigos gregos descreviam o conhecer em três níveis: mathesis, ou conhecimento adquirível, ensinado livremente; gnosis, percepção meditativa ou intuitiva, de cunho pessoal; e pathesis conhecimento provindo do sofrer ou do sentir, conforme será descrito. Cabem, neste último caso, as penitências, os jejuns, as peregrinações e os flagelos. Por esta classificação, o povão tinha acesso à primeira, através dos seus preceptores, geralmente assalariados do rei. A segunda era reservada aos doutos, mestres e magos. E a terceira era recebida através de iniciações. Aqui entram as ordens secretas e as escolas iniciáticas, onde também se incluem os colégios e faculdades formadores de padres e freiras, pastores e diáconos. Mas, não é diferente, se quisermos extrapolar, o que acontece com os Conselhos Regionais das Profissões atuais, em que a “ciência” está “reservada” e, quando aplicada, “há a cobrança de direitos autorais”.

Nesses ambientes restritos do saber, nada pode ser revelado “aos de fora”, sob pena de severas punições, como aconteceu com Alcebíades (415 a.C) em que, embriagado, revelou segredos de sua condição de herói e ídolo grego. Perdeu todas as honras que detinha e foi punido.

Dentre as primeiras religiões de mistérios também cabe a Mitologia que permeou as principais estruturas de poder no Império fundado por Alexandre o Grande e posteriormente no Antigo Império Romano.

Mas, não se pode omitir a organização dos pedreiros profissionais – espécie de cooperativa ou sindicato – de muito antigamente, que exigia dos seus membros juramento de silêncio sem o que não era revelado aos novatos os segredos do ofício, que eram guardados pelos mestres. Aí tem origem o que hoje se conhece por Maçonaria. Quem usava o maço para quebrar a pedra, era o maçom. E hoje a Maçonaria não mais operativa nos serviços com pedras, mas simbólica, se utiliza de muita coisa praticada pelos organizados profissionais autores das suntuosas construções do passado, distantes do cimento e do ferro, que hoje facilitam a vida dos construtores.

E os pedreiros desse nosso passado não tinham apenas segredos profissionais, eles também lidavam com o sagrado e exigiam de seus aprendizes respeito, disciplina e ordem para com os assuntos sagrados também, dentro de rígidos princípios de fé. Não só construíam templos para as outras corporações de fé, também se reuniam em locais especiais que hoje podem ser identificados como templos.

Como primeiras religiões de mistérios, concluindo o pensamento deste capítulo, entenda-se o que rei ou faraó impunha como conhecimento sagrado aos seus súditos e reservava algo para ser restrito aos seus mais diretos auxiliares. Não foi diferente quando o Império Romano foi buscar a herança doutrinária daquele que executara em Jerusalém. Muito diferente da proposta original, o cristianismo virou religião do Estado e novamente aplicou a práxis: parte do que Cristo ensinou alcança o povão; parte será retida no interior dos mosteiros.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

1245-Religiões e Organizações de Mistérios


Pouco se cria, muito se copia

As religiões primitivas tinham seus mistérios, suas tradições e ritos. As religiões que vieram depois, buscaram incorporar mistérios, tradições e ritos da antiguidade.

Vamos a algumas das cópias mais vivas do que nunca nos tempos atuais.

As novenas, um pouco menos presentes nas práticas religiosas cristãs atuais, constituídas de celebrações, rezas, procissões, promessas e sacrifícios durante nove dias, têm origem nas Festas Eleusinas, verdadeiras cruzadas de fé promovidas pelos hierofantes – sacerdotes egípcios (depois gregos) que interpretavam mistérios, constituídas de nove dias seguidos de mobilização dos participantes (fiéis), incluindo a procissão noturna com archotes, saindo de um local e deslocando-se a outro, com o povo cantando e marchando enquanto conduziam imagens e símbolos de seus deuses.

A iniciação dos candidatos em entrar para as comunidades secretas, ato que muito se assemelha aos trotes que os veteranos aplicam aos calouros dos vestibulares, eram provas constituídas de esforço, susto, provas de coragem, barulhos assustadores, destinados a impressionar e testar o caráter do candidato, que a eles se submetia de olhos vendados (e muitas vezes de mãos amarradas às costas), incluindo-se a prova de beber infusões doces que se tornavam amargas de forma inusitada, como que para fazer crescer os mistérios a que os profanos tinham de se submeter antes de entrar para o círculo sagrado.

Também havia, nas celebrações órficas (em honra a Orfeu – de onde nos vem a expressão “nos braços de Orfeu” para indicar o sono e os sonhos), a descida e o regresso ao mundo dos mortos, o Hades (um lugar escuro e ameaçador assemelhado a uma sepultura), numa clara referência de morte ao homem velho e nascimento do homem novo, uma prática muito viva em iniciações das posteriores ordens secretas.

Também integravam as iniciações antigas (e atuais) um juramento de silêncio em alguns casos, de compromisso em outros, que muito se aproximam, por exemplo, daquilo que o Exército Brasileiro (e outras corporações militares) exigem de seus soldados quando os declara formados para o serviço militar: diga-se, quando os dá por iniciados. Os iniciados fazem um juramento de morte caso suas promessas sejam quebradas. As iniciações dos soldados romanos e, mais tarde, dos Cavaleiros da Ordem do Templo, continham compromissos com a honra, a valentia, a coragem, a fidelidade e o companheirismo, ingredientes que se misturam na formatura de soldados, sacerdotes, escoteiros, maçons e rosacruzes da atualidade.

Da doutrina de Zoroastro (ou Zaratustra) ganhamos uma série de procedimentos que chegam aos dias atuais através de outras religiões. Por exemplo, a figura de Satã, um espírito do mal que se rebela e passa a tentar as pessoas pouco precavidas, bem como a crença da vida após a morte, desconhecida das religiões ocidentais de então.

Do mitraísmo vem a tradição de que o nascimento de Deus se dá no dia 25 de dezembro, data em que se entendia ocorrer a entrada do Sol no hemisfério norte (solstício de inverno para aquela metade do planeta), data que a Igreja de Roma foi buscar para oferecer uma dia natalício a Jesus.

Nos ambientes destinados às iniciações dedicadas a Mitras – Sol Invictus (nome de Deus), construídos em cavernas dentro do solo, o teto recebia pinturas imitando a abóbada celeste, como se vê nos templos maçônicos da atualidade.

Ainda vem do mitraísmo a prática de dedicar o domingo ao senhor dos céus, que se constituiu também como o dia da semana dedicada ao Sol, numa clara referência ao deus Sol dos romanos, estendida ao cristianismo. As celebrações em honra a Mitras perduraram até o reinado de Juliano (sucessor de Constantino) no Império Romano já depois da adoção do cristianismo como religião oficial, isto no século IV de nossa Era.

A cruz com tinta de cinza aplicada na testa dos fiéis da Igreja Católica nas celebrações de Quarta-Feira de Cinzas, tem origem nas iniciações em honra a Mitras, pelo menos 500 anos antes de Cristo. É também lá nos idos muito antigos que a Igreja foi buscar o Dia de Finados, inspirado no Halloween dos Celtas, europeus (data oferecida às bruxas e aos espíritos, com dois dias de diferença). E o Carnaval e a Quaresma, que tiveram origem na Saturnália, uma festa pagã romana, vieram integrar o rígido calendário da Igreja, em que a ordem estabelecida pode ser, como era, e é, completamente subvertida.

O Deus Mitra era solteiro, sem esposa. Os adeptos rezavam a ele ajoelhados. Esperavam um Juízo Final em que todos os adeptos compareceriam diante do julgador. Mitras nascera de uma Virgem, eleita Rainha dos Céus, sem participação do macho. O sacerdote mitraico era chamado de Padre – Pai na língua romana. Entre os mitraicos era comum o tratamento como irmãos. O bastão, as vestes vermelhas e o solidéu, usados por cardeais e pelo Papa, eram também usados pelos dignitários e oficiais da religião de Mitras. Os templos suntuosos, o incenso, as velas, a água benta, as vestes luxuosas dos oficiantes das cerimônias, nada disso teve origem com Jesus Cristo e sim com a religião anterior, dos romanos, chamada de mitraísmo, Mitras ou Sol Invictus.

Dos muitos ritos introduzidos no catolicismo o único que pode ser atribuído a Jesus foi a comunhão com a partilha do pão e o brinde com o vinho. Mas, a Igreja de Roma foi além e insiste em afirmar que ali estão o corpo e o sangue de Jesus, o que novamente se faz controvérsia com o segmento científico.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

1244-Religiões e Organizações de Mistérios


Incluídos e excluídos

Dia vai dia vem e os mais ingênuos (desde que se ofereçam para avançar) vão se tornando aptos a questionar. Melhor dizendo, vão se tornando capazes de não aceitar as coisas como foram e são ensinadas. E não se contentam quando as respostas são dadas esfarrapadamente: “isso é um mistério”.

Respostas-mistério são dadas àqueles que não podem saber a verdade porque no interior de ordens, religiões, mosteiros e comunidades fechadas, perguntas-mistério têm respostas porque o assunto é esmiuçado, escarafunchado, desvelado, conhecido e compartilhado entre “os de dentro”, e nunca com “os de fora”.

O que há para lamentar, se é que caibam lamentações, é que as culturas dominantes neste Ocidente cristão – donde se incluem as nações colonizadoras por excelência como Itália, Inglaterra, França, Portugal e Espanha – o povo colonizado foi mantido dentro de um círculo concêntrico de “mentiras sagradas”, enquanto seus mentores apenas olhavam para os seus próprios umbigos. Fizeram muito pior com as populações indígenas. A soberba e a arrogância não os deixaram recolher maravilhosas lições de conhecimento sagrado.

Com uma pálida exceção (e põe palidez nisso – como veremos adiante) em favor da França, que andou experimentando a república e uma antiga tênue democracia, os monarcas dessas citadas nações, de mãos dadas com a burguesia e com a Igreja levaram seus interesses aos limites da crueldade em termos bélicos, econômicos, políticos, religiosos e culturais. A exclusão não foi só quanto ao conhecimento sagrado, foi devastadora do mesmo modo no campo das oportunidades econômicas e políticas. Aos amigos do rei os favores da lei. Aos inimigos do rei os rigores da lei. Aos serviçais dos amigos do rei nem os favores nem os rigores: a escravidão.

Não nos surpreende, nessas nações, que as suas riquezas, frutos de usurpações, espoliações, apropriações, confiscos e trabalho escravo, estejam minguando severamente nos tempos atuais: não há mais as galinhas de ovos de ouro sediadas nas suas colônias.

Do ponto de vista cultural e religioso, quando o círculo concêntrico não mais se sustentou foi inevitável a abertura dos mistérios absurdos impostos ao povo e ficou evidente a expectativa da chegada de notícias outras, inclusive do Oriente, onde religiões muito antigas animam uma doutrina que, se não completamente racional, ao menos não é mentirosa.

Afastada a balela da criação do mundo e do homem há 7 mil anos, os inventores desta estória tiveram de aceitar que a Terra não é o centro do cosmos, que ela tem mais de 4 milhões de anos e que o homem está sobre a face deste planeta há 200 mil anos. Isso foi só para começar uma virada que já ganha de goleada. Mas, o jogo ainda não terminou. Apenas começou.

Apesar de tudo, somos muito jovens. Deixamos para trás aquela criança que precisava de colo e mamadeira e fomos curtir a adolescência com luta, batendo de frente com os contadores de estórias da carochinha. Conta outra estória, esta não serve, foi a reação, é a reação.

Queremos saber como surgiu tudo isso tão maravilhoso que nos encanta; queremos conhecer a origem do cosmos, das coisas, do homem, dos deuses; eles são uma invenção do homem ou o homem é uma invenção de Deus; temos uma mórbida inclinação para o sagrado por necessidade ou simples curiosidade. Nossa consciência clama por expandir-se para além das páginas amareladas da velha história contada e recontada como “verdadeira”.

Hoje, as informações voam na velocidade da luz e se sabe que em todos os cantos da Terra o homem sempre ensaiou perguntas e ansiou por respostas sobre o sagrado, melhor dizendo, para aquilo que lhe parecia misterioso. Hoje já se raciocina quanto ao Big Bang em contraponto com uma eternidade do universo nem tão eterna assim: se ele teve um começo, terá fim. Se sempre existiu, como ensina o Budismo, talvez possa ser eterno. Sem dúvida, foram os homens que inventaram os deuses (por necessidade de estabelecer um ideal utópico). Se foi uma atitude racional ou se foi induzido pelas forças ocultas que sustentam a vida, é o que falta confirmar.

No gesto das sementes que fazem nascerem árvores ou pessoas e animais, o homem compreendeu que isso escapava de seu controle. Ele podia inventar a flecha e com ela abater um pássaro, mas não podia devolver-lhe a vida. Podia fabricar uma canoa e atravessar um rio, mas não podia fazer parar as águas. Podia cortar fora a mão de um desafeto, mas não podia fazer nascer outra mão naquele braço. O ser maior podia fazer rebrotar a árvore decepada, podia fazer chover, mandava poderosas faíscas de fogo através dos raios. Aí teve origem a ideia de Deus.

Mas, não foi com essa simplicidade xamânica que as religiões explicaram a existência de Deus. E foram as mentiras contadas sobre Deus que deu origem a tantos conhecimentos até paralelos, porém, tidos como propriedade intelectual, com registro de autoria e cobrança de direitos autorais.

O Deus buscado pelo homem atual não é o mesmo que anima quase todas as religiões do planeta. A democracia chegou ao interior dos templos. Seria a vingança de Deus?

Vamos tratar de muitas coisas por aí na sequência.