terça-feira, 31 de dezembro de 2013

1287-Fanatismo e espiritualidade


Ainda as vítimas do fanatismo

Então, a esta altura, acredito que já podemos começar a abordar espiritualmente os casos que se enquadram como fanatismo. E principalmente a partir do caso semita. Mas, não só. Nesse caso envolve Deus. E há muitos outros casos em que se suprime Deus e se chega numa espécie de fanatismo ateu, materialista, desvairado. Há, sim, algo como fosse religioso, mas o deus não é o Deus de Todos.

Vimos que o termo semita tem como principal designação o conjunto linguístico e genético composto por uma família de vários povos, entre os quais se destacam os árabes e hebreus, que compartilham as mesmas origens culturais. A origem da palavra semita vem de uma expressão na Gênesis Bíblica (Gen V, 32) que se refere à linhagem de descendentes de Sem, filho de Noé e irmão de Kam e Jafet. Modernamente, as línguas semíticas estão incluídas na família camito-semítica, que inclui 240 línguas faladas por cerca de 285 milhões de pessoas. Historicamente, esses povos exerceram grande influência cultural, pois as três grandes religiões monoteístas do mundo – judaísmo, cristianismo e islamismo – possuem raízes semitas.

Quando se diz que alguém é antissemita, é porque é adversário do judaismo, do cristianismo e do islamismo, religiões que têm suas raízes em Sem. Mas, na prática, não é isso que vemos. Os judeus chamam para si com exclusividade a adversidade ao credo ou etnia descendente de Sem, até porque o cristianismo não é por eles considerado como religião descedente da fé hebraica. Mas o Antigo Testamento, que faz parte da Bíblia Cristã, é aproximadamente a Torá judaica e está dentro das Escrituras Sagradas Cristãs. Quem sabe aqui esteja um grave equívoco proporcionado pelos fundadores da Igreja Católica. Chamaram a Torá como Antigo Testamento Cristão e, num contracenso, se voltam contra os judeus pelo simples fato de que os judeus não aceitam muitas coisas cristãs.

Devido a diversas migrações, não se pode falar dos judeus como um grupo étnico homogêneo. Portanto, muitas línguas compõem o que pode ser a família semítica. Falam línguas com raízes semíticas aqueles que falam o acadiano, o ugarítico, o fenício, o hebraico, o aramaico, o árabe, o etíope, o egípcio, o copta gala, o afar-saho, o assírio e o caldeu, entre muitos outros idiomas. Não são poucos. Mas nenhum se queixa de preconceito, só os judeus que, na origem, falam o hebraico e o aramaico.  Mas, tambémm nenhum dos demais povos semíticos tem uma relação tão estreita com Jesus, um judeu, semita, que se tornou patrono do cristianismo através dos romanos.

A movimentação dos povos e a existência de colônias fez com que povos etnicamente distintos falem a mesma língua. São os casos do português, do inglês e do francês falados em países africanos. Ou da língua espanhola, que é falada por uma imensidão de gente de nações que não se designam espanholas.

Entre os antigos povos semitas estão os fenícios, os hebreus, os amoritas, os cananeus, os sírios, os arameus, os árabes, e os hicsos. Mas só os hebreus se proclamam vítimas do antissemitismo.

A análise genética sugere que os povos semíticos partilham uma significativa ancestralidade comum, apesar de diferenças importantes e de contribuições de outros grupos espalhados pelo planeta.

Mas, foram os judeus os autores de dois principais eventos geradores de desconfiança e chamaram para si o papel de vítimas do preconceito: eles se anunciaram o povo escolhido de Deus e quando (no entender de todo mundo) Deus mandou-nos um messias, eles não o aceitaram.

Seria só isso? Não, claro que não.

O mundo conhece o comportamento daqueles muçulmanos seguidores dos aiatolás, que estão para a cultura árabe como aqueles judeus do chapéu preto (ortodoxos) e das costeletas longas, cuja fé é muito arraigadamente tradicionalista (rejeita mudanças e nega concessões). No caso muçulmano, rejeita judeus e cristãos, estes últimos mais pelos apoios de governos de países cristãos a Israel e, no caso judeu, principalmente, os seguidores do islã.

Pouco antes da queda de Sadan Hussein, no Iraque, o mundo tomou conhecimento das perseguições do seu governo aos curdos – cujo clã se localiza no norte do Iraque - apenas porque eles não são persas, nem árabes, nem turcos, nem judeus e muito menos muçulmanos.

Os constantes ataques de celerados contra escolares e populares, que o noticiário registra com frequência, são também atentados terroristas com todos os temperos de fanatismo. Não é, como dissemos, um fanatismo religioso porque a figura de um deus conhecido não aparece. Mas, que há uma sombra de algum deus retirado de um desenho animado, de um vídeogame ou de uma fita de cinema, isso não tem dúvida.

Pai e mãe do mundo civilizado transferem a educação base de seus pequenos terroristas aos aparelhos eletrônicos em lares ou casas de jogos eletrônicos onde o nome do Deus Único de Todos nunca foi pronunciado e o aprendizado desses dedicados “alunos” é extraordinariamente bem feito. Nem todos saem às ruas armados de fuzis e metralhadoras para atirar contra alvos que lhes transmitem prazer, mas se não fazem contra coletivos, fazem (e bastante) contra indivíduos em qualquer rua de bairro de qualquer cidade ocidental.

As vítimas?

Ora, as vítimas. Somos todos que não queremos olhar para o tamanho do caos onde estamos inseridos. E quando o fazemos nossos pleitos são por mais policiais, mais prisões, por leis mais severas. Nunca nos perguntamos se seria possível parar a fábrica de semeadores do caos. Pensamos assim porque também em nosso coração não há lugar para o Deus Único de Todos. Somos comos os judeus: nosso deus não é o deus de todos, é só nosso.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

1286-Fanatismo e espiritualidade


As vítimas do fanatismo

Não há margem para dúvida, o fanatismo mais acentuado e mais prolongado que há entre nós passa pelo semitismo e pelo antissemitismo, também chamado de antissionismo; na verdade, aversão aos judeus e passa pela excessiva valorização judaica nesse seu papel de vítima.

Como é que se chega a uma profunda e longa causa de fanatismo como esta?

Vamos olhar primeiro os antecendentes.

Talvez possa existir outro povo com uma tão longa história de sofrimento e rejeição quanto ao povo judeu, mas não há registros disso. Os judeus, através principalmente de seus profetas, escreveram sua história e sua história é uma sucessão de diáspora, êxodo, escravidão, perseguição, dominação, discriminação, preconceito, esperança, frustração.

Quando Abraão saiu de Hur, no sul do Iraque, para a terra prometida de Canaã, lá chegou e a terra estava ocupada pelos cananeus. Claro, ninguém da família de Abraão entendeu seu gesto ao sair por aí meio sem rumo. Claro, os cananeus não gostaram nada, nada daquela presença inesperada em seus redutos: Abraão e esposa, seu sobrinho, Lot, os escravos e os familiares destes.

Seguiu-se para os descendentes de Abraão uma peregrinação. Entre momentos de fartura e miséria, dominação e liberdade, sofrimento e paz, parar e andar, lá se vão quase quatro mil anos. Apesar de criado o Estado de Israel (1948), os israelitas têm perfeita noção de que ele ainda não é um território sólido.

Quem é o povo judeu, que já se chamou hebreu e também é chamado de israelita? Os descendentes de Abraão e Sarah (descendentes de Noé através de seu filho Sem), nada mais que aqueles cuja mãe é judia e que não pratica nenhuma outra fé. Aos poucos essa definição foi ampliada para incluir o cônjuge e não se trata apenas de um clã étnico e nem tão pouco linguístico. Mas, exclusivamente religioso.

A Questão Línguística sempre determinou a origem ou nação de um povo. Perdurou por milênios. Em segundo lugar estava a genética. Mas as nações passaram a dominar nações e a impor ali a sua língua e, claro, algo tembém de genética. E não só. Um índio guarani, brasileiro, foi guarani até que a civilização chegou e registrou-o como brasileiro. Ele é guarani puro, fala a língua guarani, mas como não existe um país guarani, o índio é brasileiro, como poderia ser argentino ou paraguaio. Hoje, por exemplo, uma pessoa nascida na África do Sul, fala inglês, mas não é inglês. Um judeu pode ter nascido em qualquer parte do mundo e falar qualquer idioma; continua sendo judeu. Dá para notar as diferenças?

Não é a língua que determina sua nação ou nacionalidade; o território onde ocorreu o nascimento sempre será o referencial para fins de passaporte, a menos que haja a interveniência da embaixada, que é o recurso usado para o registro dos filhos de embaixadores e de funcionários estrangeiros em missão no exterior. Já temos alguns países europeus que reconhecem a cidadania dos descendentes de seus emigrantes radicados no exterior. Resumo: língua não é mais atributo de nacionalidade.

Mas, em nenhum outro caso conhecido a nação se mistura com religião como no caso dos judeus e dos muçulmanos. Tudo parece ancorar no Estado Religioso ou nas chamadas Religiões Nacionais. É a razão básica do fanatismo que é objeto de interpretação nesta série.

domingo, 29 de dezembro de 2013

1285-Fanatismo e espiritualidade


Os reais cultores de Satanás

A partir do líder religioso Zoroastro (Pérsia), com breves passagens desfocadas pela religião hebraica, Satanás chega às religiões derivadas do cristianismo romano muito mais como lenda do que como escritura, como já vimos. Aprendemos sobre a existência de Satã, inimigo de Deus, seu adversário, aliás, Lúcifer, um anjo de muita luz que se revoltou com a ordem instituída e perdeu a companhia dos anjos para habitar nas trevas. Nada absurdo se não tivéssemos dado a ele um extraordinário poder a ponto de ofuscar a autoridade do Ser Maior, que é Deus.

A ordem universal não pode ter dois comandos, leis contraditórias; aprendemos isso ao decidir sobre nossas vidas, ou sobre o lombo de um cavalo, ou no comando de uma carroça ou de um carro ou de um avião, de um navio, à testa de uma família, de uma empresa, de uma nação... Mas, o Universo, segundo alguns doutrinadores, tem dois comandos. Segundo a Igreja Católica tem três do bem e um do mal.

Nada é mais absurdo e ilógico. O outro comando (adversário), na verdade, é a mente humana que encarna e reproduz esse anjo caído, desobediente, abelhudo, expulso do paraíso e que, por sua soberba, arrogância, egoísmo e, por que não, POR SEU FANATISMO, mete os pés no lugar das mãos.

Na introdução desta série definimos o fanático como aquele ser que se julga inspirado ou iluminado por uma (aqui entre aspas) “divindade” e que age com extremo zelo faccioso, religioso ou ideológico, cuja maior demonstração é a exaltação, a intolerância e a ação passional e individualista não dando margem a nenhuma inclusão: exclusivista, egoísta, egocêntrico, passional, abelhudo. Olhe para esta descrição e veja se encontra nela um retrato aproximado da humanidade que somos no que tange àquela parcela dominadora da cena mundial e que exerce liderança ou impõe padrões. A outra parcela, talvez menor, talvez maior, e nem por isso menos importante, é a vítima, subalterna, refém.

Essa humanidade portadora de faculdades mentais, inteligência e livre arbítrio, por suas mais eloquentes lideranças, têm podido escolher entre o caminho da direita e o caminho da esquerda (citações de Jesus ao referir-se aos seres do bem e aos seres do mal após o julgamento das suas ações). E realmente existem muitos na pista da direita (entenda esta como a mão que leva para Deus) mas, por outro lado, existem muitos mais numerosamente na contramão. Vitória de Lúcifer? Não. Derrota do homem. Derrota parcial, pois como anjo caído ele passará por provas e mais provas, ralará, rolará, até polir-se, até deixar de ser uma pedra cheia de ganga e descobrir-se uma joia, uma obra de arte, como escreve Jung em “Os Sete Sermões aos Mortos”: trabalhar o Abraxas (monstro) que existe em cada um de nós, para que, no final, o monstro e o anjo possam fundir-se num só, sem derrota de nenhum dos dois, mas com a vitória de ambos.

É isso: pelas Leis Divinas tudo se dirige para o mesmo ponto; ninguém será excluído. Esse é o Deus do Amor que Jesus veio ensinar. Infelizmente, muitos rejeitaram a sua proposta e estão nas arenas das disputas suicidas, mais acentuadamente neste milênio, porque fazem suas últimas batalhas. Serão levados daqui para outra órbita compatível com seu estágio. Alunos que perderam o direito de frequentar a série seguinte em virtude da reprovação já em segunda época.

O fato de (no ideário humano) conviverem no mesmo espaço Deus e o diabo, não quer dizer que o poder está dividido. A concepção evolutiva do homem precisa contar com suas próprias experiências por vezes tenebrosas, por vezes grandiosas. A Lei Divina é isso. O diabo faz parte dessa jornada e será ele também recuperado quando tiver humildade para reconhecer que o que se espera dele é o bem, é o retorno ao bem, seja ele uma entidade, um ideário ou um coletivo humano-espiritual.

Prefiro acreditar que nós, diabos de nós mesmos, separados por egoísmo, divididos por arrogância, adversários por soberba, fanáticos por ideal, cheios de razão e muito infelizes, precisamos escolher o lado, conhecer os dois lados para poder optar. Precisamos aprender a cobrar daqueles que formam a opinião, ensinam métodos, distribuem conhecimentos, que nos proporcionem conhecer também a realidade espiritual, que nos leve a fugir do lugar comum, já que nos afundamos na direção de doutrinas materialistas, que virtualmente aprisionam as criaturas no mundo fenomênico da medida, do número e do peso, tornando a própria existência da alma humana objeto de dúvida e debate. Ou será que temos dúvidas que nosso Deus é um ser espiritual? Se o for, é no mundo espiritual que temos de buscá-lo. É para o mundo espiritual que temos de nos dirigir a caminho da perfeição. O que você acha, leitor?

As Universidades como centros irradiadores de conhecimento têm se negado a incluir a espiritualidade em seus conteúdos e o resultado disso é a progressiva entrega à sociedade de profissionais e cientistas ateus ou simplesmente materialistas, que não são culpados pelo que pensam e fazem, pois não tiveram a oportunidade de lidar com os temas espirituais em nenhuma das fases de sua formação e muito menos no seio da família.

As ruas e estádios estão cheios de vítimas dessa fábrica de infelizes sem Deus. A mídia tem buscado explorar o tema espiritualidade pelo ângulo do show e isso apenas arranha a realidade, e joga informações que confundem e amedrontam. As pessoas têm medo dos espíritos, sendo espíritos em trânsito pela matéria e esquecendo-se de que seus anjos de guarda são espíritos e que o seu próprio Deus é um Espírito.

Assim como estamos com quase toda a sociedade caminhando e apontando-se mutuamente o dedo acusador, dividida entre os que estão “certos” e os que estão “errados”, sob conceitos absurdamente materialistas, imediatistas, voltados para uma só existência da alma, chegamos aonde chegamos: matar por dinheiro, roubar para ter dinheiro, enriquecer-se de qualquer modo para ser feliz. Essa é a maior meta dessa massa embriagada, drogada, desvairada, fanática, refém. Seu deus é o dinheiro.

Aprendemos que o dinheiro-deus é excludente; que o dinheiro-deus tem seus eleitos, eleitos que não se misturam com o gentio. Não são só os judeus que se anunciaram eleitos do seu deus único. Os seguidores do dinheiro-deus também se anunciam ungidos do poder que o seu deus tem.

É pena que esses deusinhos criados por mentes arrogantes, soberbas, egoístas, fanáticas não possa absorver a todos aqueles que (salvo melhor juízo) são também criaturas do mesmo Deus, Aquele Deus Único de Todos. Fora desse entendimento tudo que se disser sobre este ou aquele deus, será fanatismo.

sábado, 28 de dezembro de 2013

1284-Fanatismo e espiritualidade


O indispensável papel de acusador

Pergunte à maioria das pessoas que creem nas versões que falam de Satanás e nove entre dez lhe darão uma versão diferente das histórias ou estórias envolvendo o personagem como bíblico. Puro engano. O que se passa com as versões sobre o diabo é o mesmo que se passa com as versões sobre Deus. Nos dois casos sobre as nossas relações com o poder da vida e com o poder contrário à vida.

Por que Jacó teria de lutar com Deus? Para confirmar a superioridade do homem? Penso que foi para confirmar que o adversário de Deus é o homem. E penso que a vitória de Jacó-Israel é uma tremenda besteira humana que só contribui para nossas desgraças porque não faz o menor sentido.

O nome Lúcifer é freqüentemente aplicado a Satanás, como adversário de Deus, mas não há base bíblica para esta ideia. A palavra "Lúcifer" é a tradução em algumas Bíblias (ainda que não nas versões portuguesas mais comuns) da palavra hebraica hêlîl (em Isaías 14:12). Versões bem conhecidas como a Revista e Corrigida, a Revista e Atualizada (1 e 2) e a Linguagem de Hoje traduzem esta palavra como "estrela da manhã."

Isaías cap. 14 é uma profecia sobre a queda do rei de Babilônia (veja 14:4). Este rei exaltava-se, buscando tomar a glória que pertence a Deus. Era mais um Jacó procurando tomar o lugar de Deus. A profecia de Isaías 14 mostra que ele seria derrubado de volta à terra, que Jesus utilizou novamente para referir-se: todo o que se exalta será humilhado; todo o que se humilha será exaltado.

É interessante que o Novo Testamento fale sobre a "estrela da alva" (2 Pedro 1:19) e a "estrela da manhã" (Apocalipse 2:28; 22:16). Em todas estas passagens, é claro que a estrela da manhã não é Satanás, ou qualquer outra criatura blasfema. O próprio Jesus é a brilhante estrela da manhã que abençoa seus servos fiéis.

A ideia de que Satanás é um anjo decaído a quem Deus expulsou do céu e que caiu na terra é tão espalhada que bilhões de pessoas acreditam que a Bíblia a ensina. Pode surpreendê-lo descobrir que a Bíblia não ensina tal coisa. É certo que há passagens na Bíblia que falam de seres caindo do céu, perdendo status entre os anjos, arcanjos e querubins, mas não são especificamente sobre Satanás e usam linguagens figurativas possivelmente se referindo a pessoas. Todos os autores do Velho Testamento quando se referem ao anjo caído, citam pessoas, reis, faraós.

O próprio Jesus quando faz uma alusão à queda de Satanás, num trecho em Lucas 10:17-26 em que ele recebe os alegres setenta e dois discípulos seus enviados às comunidades para pregarem e curarem e ante a frase deles: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!”, Jesus lhes diz: “Vi Satanás cair do céu como um raio. Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”. E finaliza: “Pai, Senhor dos Céus e da Terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”. Alusão clara: quem está do lado de Deus não tem espaços para ideias adversárias. Não se trata de uma entidade em si, mas de um estágio do saber.

Para não ser contraditório, Jesus deveria estar se referindo aos momentos bíblicos em que são ditas frases sobre o próprio homem, que perde seu status perante Deus, vai para a oposição e estabelece conluios tendo por meta o contraditório divino. E Lúcifer novamente citado como mais um exemplo daqueles que se excluem do caminho do bem e vão chafurdar no lodo do mal onde estão as dores, o sangue derramado, o desejo de tomar o que não nos pertence, aquela necessidade mórbida de excluir para vencer.

Somente por uma leitura descuidada destes textos pode alguém chegar à história popular relativa à origem de Satanás.

Examinei as passagens bíblicas relevantes, nesse contexto.

Quem é Satanás?

O nome "Satanás" é uma transliteração do hebraico satan, indicando um acusador no sentido legal, um queixoso que tem uma acusação a apresentar. Em Zacarias 3:1 lemos "Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do SENHOR, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor”. Numa frase, Satanás é a dúvida, o medo, que se opõe a nós, trabalha contra nós, nos persegue, na tentativa de tornar mais eloquente a caminhada espiritual e moral para que nossa evolução se dê com reais conquistas e não com mentiras, falsidades, jeitinhos, carteiraços.

Jesus, em João 8:44, irritado com os fariseus que insistiam em desvirtuar suas pregações, os acusou de filhos do demônio, ouvintes e repetidores de mentiras trazidas por quem é homicida e mentiroso. Suas palavras poderiam estar longe da ideia de qualquer entidade inimiga de Deus para referir-se à própria cultura dos fariseus.

Na falta de condições para se referir ao poderio militar capaz de destruir o planeta, em Apocalipse 12:9 João retrata-o como um grande dragão, uma representação que ressalta sua terrível natureza. Esse mesmo versículo identifica-o como a serpente (talvez uma referência a Gênesis 3) e também como o diabo, que é outro nome comum para ele.

A ênfase bíblica está no que alguém em relação a Deus é um inimigo. Algumas pessoas, contudo, pensam que certos textos bíblicos vão mais além e nos dizem como Satanás veio a se tornar assim. Examinemos estes textos cuidadosamente (na próxima postagem).

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

1283-Fanatismo e espiritualidade

 
O bem e o mal, o certo e o errado

As maiores razões para o fanatismo nasce do juízo daquilo que é bom, mau, certo, errado. E aquele que se atribui poderes de julgar os outros com base nesses pontos de vista, é um fanático pela simples razão de que se acha estar acima da capacidade humana de raciocinar.

Como julgar os membros da tribo canibal que come a carne dos rivais na expectativa de assumir os seus poderes? Ou aquele que dilacera suas próprias carnes na expectativa de agradar ao seu deus? Ou aquele que jejua durante semanas pelas mesmas razões? E aquele que se torna acético, se recolhe a um ermo e não estabelece qualquer tipo de contato com outros seres por uma vida toda? E por fim aquele que entra na fila de comungantes, ingere uma porção de trigo consagrada ao corpo de seu deus e se considera perdoado de suas antigas falta e autorizado a cometer novas?

São tantas as situações que este blog não tem possibilidade de prosseguir exemplificando o que é certo ou errado, que faz o bem ou faz o mal. A limitada e empobrecida mente humana pode ter sido condicionada a não expandir-se, satisfazer-se, enriquecer-se com o que sabe. E nisso tem origem o fanatismo.

Não sabemos quase nada. Ao mergulhar na História Sagrada com a esperança de erguer os véus que nos ofuscam a visão desde longo prazo, vemos que o lago está turvo, rubro pelo excesso de sangue humano derramado sobre ele por conta do bem e do mal, do certo e do errado.

A única história sagrada que chegou ao Ocidente nos 2.700 anos anteriores à globalização nos foi dada pelos hebreus e fala que o mundo é bom, que o homem foi criado do barro e que recebeu um sopro divino de vida; fala que o homem se destina a viver na amizade com seu Único Deus; que Deus lhe concedeu o dom da liberdade; mas fala que a harmonia primitiva foi destruída pela desobediência humana provocada por uma serpente expoente do poder da mentira que sugeriu à mulher e ao homem a esperança de tornarem-se sábios como Deus.

Tudo isso vem de uma lenda que se passa entre Eva, uma serpente e Adão, seres habitantes do Paraíso sem nenhuma citação ao que hoje é o símbolo da adversidade com Deus, o famigerado Lúcifer.

Naqueles instantes de desobediência, a serpente (que depois foi associada ao diabo) era o símbolo, de um lado, da sabedoria arrogante, espécie de soberba capaz provocar, como provocou, a exclusão humana do convívio de Deus. De outro lado, simboliza a aquisição de autonomia. Depois disso o homem e a mulher foram mandados para terra a fim de cultivá-la para dela obter sustento. E a mulher, ao se tornar mãe, teria de enfrentar as dores do parto.

Há, porém, uma discrepância. Mesmo anunciados por Deus, na concepção havida no sexto dia da criação (segundo a Gênesis), para crescer e multiplicarem-se, Adão e Eva só procriaram depois de expulsos do Paraíso.

Para o intérprete que tome Deus por um Poderoso, Oniciente e Onipresente Espírito, a estória faz o maior sentido a partir do conhecimento espiritual. Enquanto no Paraíso, os espíritos não se conheciam sexualmente e não se envergonhavam de estarem nus. Depois de comerem do fruto da “árvore da ciência do bem e do mal” (Gn II, 9), já na posse do corpo sentiram vergonha de estarem nus, cobriram-se, tiveram de providenciar seu sustento mediante o cultivo da terra e só depois disso acasalaram a começaram a formar a prole.

O fruto da ciência abriu-lhes a inteligência e assim puderam governar suas vidas dentro do critério de liberdade, livre arbítrio, de escolhas pessoais. Encarnados como espíritos não evoluídos, grotescos, ignorantes, sofreram muito para lidar com as leis naturais e perpetraram atos capazes de levar Deus ao arrependimento. Veja que a expulsão do Paraíso não foi um ato punitivo, foi parte de uma experiência evolutiva. E “eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a mão e tome também o fruto da árvore da vida e o coma, e viva eternamente” (Gn III, 22) – palavras de Deus transmitidas ao profeta que a recolheu ainda antes que houvesse escrita e repassada oralmente de geração em geração.

O homem e a mulher saíram do Paraíso, desafiados a voltar, tanto que Deus “colocou ao oriente do Jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida”, sabendo que estes seres evoluídos elevar-se-iam à posição de conhecer muito mais, muito mais. Mas “o Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra e que os pensamentos do seu coração estavam continuamente voltados para o mal” (Gn VI 5), evidentemente que como adversário da proposta de Deus, aliás, adversário de si mesmo (com ou sem a participação do diabo como figura de poder). 

Abra qualquer número de obras de referência bíblica usadas comumente e olhe para o verbete "Satanás". Na Gênese ele não está, a adversidade é citada como ideia tentadora, mas ele não está na cena. Em Isaías 14:12-14, quando novamente há referências sem que se lhe pronuncie o nome e o que parece ser é, na verdade, a narrativa da queda de Adão; novamente o profeta se refere à desobediência. Em Ezequiel 28:12-15, novamente a advertência é feita ao homem apresentado como inimigo ou adversário de Deus.

Quem é satã, se não o próprio homem, aquele que dasafia Deus, tanto quanto ocorreu com Jacó? Desafiou, venceu e teve permissão de mudar seu nome para Israel – aquele que derrotou Deus. Opa, temos aí um gancho de enormes possibilidades para a interpretação. Adiante, claro.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

1282-Fanatismo e espiritualidade


Introdução

Uma série inteira para falar principalmente de fanatismo, precisa começar pelo fanatismo religioso, apesar de também ser encontrado fanatismo ideológico e político. Fanatismo religioso é uma forma mental baseada em rejeição de qualquer outra ideia que não a da interpretação religiosa particular de quem a possui, não raro considerando quem diverge como inimigo. Não é típica de nenhuma religião em particular, distinguindo-se de outras formas de fanatismo (por exemplo, o político e o ideológico) apenas por envolver uma religião ao invés de uma ideologia ou opção política.

Aqui, ao dar a partida a uma nova série, vamos utilizar o que se destina à introdução para definir o que entendemos por religião, fanatismo e espiritualidade. Essas três palavras estarão desfilando no resgate dos mais lamentáveis e dos mais estonteantes acontecimentos de nossa civilização.

Apesar das dezenas de opiniões existentes sobre o que é religião, para mim, nenhuma delas tem mais profundidade que aquela cunhada pelo arcebispo sueco Nathan Söderblom (1866-1931), estudioso das religiões que, apesar não definir conduz à definição real de religião: “religiosa ou piedosa é a pessoa para quem algo é sagrado”. Logo, religião é ou precisa ser “instrumento destinado a aproximar a pessoa daquilo que para ela é sagrado”. Para que ocorra essa aproximação, Helmuth von Glasenapp (1891-1953), escritor alemão e estudioso das religiões, diz que é “preciso que haja insight, pensamento, sentimento, intenção e ação”.

Aproveito para emitir, de cara, um juízo: se a religião servir para outras finalidades que não a da aproximação das pessoas com aquilo que para elas é sagrado, pode ser que a questão religiosa esteja sendo lamentável e perigosamente desviada, como se verá na sequência desses escritos. No caso ocidental, em que o progressivo abandono da realidade espiritual acelerou na direção de doutrinas materialistas, que "virtualmente aprisionaram a criatura no mundo fenomênico da medida, do número e do peso, tornando a própria existência da alma humana objeto de dúvida e debate" (como reconhece espiritualmente o Papa Nicolau I, um milênio após ter passado pelo trono do Vaticano), podemos avaliar o quão distante de Deus ainda estamos.

É, pois, pelo viés dos desvios religiosos e/ou ideológicos que chegamos ao fanatismo, irmão gêmeo da soberba, da arrogância, da exclusão e do egoísmo. Como se poderia definir o fanático se não como aquele ser que se julga inspirado ou iluminado por uma divindade e que age com extremo zelo faccioso, religioso ou ideológico, cuja maior demonstração é a exaltação, a intolerância e a ação passional e individual não dando margem a nenhuma inclusão. Nas bem-aventuranças ditadas por Jesus, quando ele diz “bem-aventurados os pobres de espíritos”, certamente os ricos de espíritos são aqueles que já não admitem aprender, incluir, reconhecer.

E então já podemos definir a espiritualidade como o outro extremo do fanatismo. Sob o manto da espiritualidade cabem temas ou assuntos de caráter espiritual e também a doutrina acerca do progresso metódico na vida espiritual, onde também cabem as questões religiosas quando bem encaminhadas. A maioria das religiões aceita a existência de Um Único Deus e conceitua o ser humano como criatura deste “pai”, o que por si só torna todos os homens “irmãos entre si”. Vou mais longe: a totalidade das religiões reconhece nesse “pai” virtudes de magnanimidade, tolerância, inclusão, amor. Então, onde tem origem o mal? Esse também é um desafio para esta série. Mas, pense bem, leitor, Um Único Deus como denominador comum da espécie humana. O cosmos não pode ter duas mentes a comandá-lo do mesmo modo que o corpo humano não pode ter duas mentes a comandá-lo. Estou sendo fanático nesta assertiva?

Ao escolher religiões, fanatismo e espiritualidade para novo tema de uma série, neste espaço, sei do caráter explosivo do assunto, pois nele cabem as crenças, as cerimônias, as tradições, os ritos, os mitos e até as crendices. Mas, como diz o ditado, quem não arrisca não petisca, lá vou eu colocando riscos na trajetória de escriba da vida.

Sempre haverá quem diga que a sua religião é a única verdadeira. Já há uma forte dose de fanatismo nisso. Como também pode haver preconceito naquele que olha para a religião do outro com desprezo ou desdém.

Nem preconceito, nem fanatismo, nem birra, nem teimosia, nem desdém e certamente nenhum desprezo. É a proposta. Caminhar pelo pedregoso caminho encontrando as razões para o atraso do ser humano. O passado não pode ser mudado; o futuro não se sabe exatamente como virá; o presente é a colheita do que semeamos. Então vamos fazer um pouco de semeadura e um pouco de colheita aqui e agora.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

1281-Ecos das profecias


Jesus está de volta e eloquente

Dois milênios antes de Cristo, conforme as Escrituras Judaicas, Deus prometeu ao patriarca Abraão, fundador do povo hebreu: “Na tua descendência, serão benditas todas as nações” (Gênesis, 22). Estava predito que a bênção alcançaria todo o povo hebreu desde Abraão passando pelos principais ícones da descendência de Abraão e da doutrina judaica. Logo, Jacó, Moisés, Isaías, João Batista, Jesus. Sim Jesus, pois nasceu judeu, pelos judeus, para os judeus e para o mundo.

Havia, porém, uma divergência programática. O projeto judaico falava de salvação e o projeto crístico falava de libertação humana; o projeto judaico incluía os judeus, apenas; o projeto crístico vai além do povo judeu; mas recebe do povo judeu extraordinárias contribuições. Vimos com o passar dos séculos que as contribuições se dividem em construtivas e não construtivas.

Jesus trouxe uma transformação necessária ao tradicionalíssimo povo judeu e enfrentou uma pesada ideologia judaica na figura dos fariseus, que representavam a classe nobre judaica.

Toda a discordância fundamental era pelo não desejo de mudar. E Cristo só tinha transformações em sua doutrina.

Ao anunciar-se povo eleito de Deus, os judeus acharam-se perfeitos e isso lhes autorizava manter as tradições, nada mais. E insistiam na assertiva de que Deus estava com eles permitindo a progressão de uma cultura de castas segundo o que alguns são mais e outros são menos, o que acabou por estabelecer também a escravidão entre nós. E nisso a palavra-chave SALVAÇÃO funciona como o ato de retirar do computador as faltas cometidas. A proposta de Jesus funciona como LIBERTAÇÃO (dos males e defeitos para adquirir DIGNIDADE perante Deus).

Na verdade, por conta de sua cultura de castas, foram os judeus também levados à condição de escravos. No exato momento em que Jesus pregava a igualdade, a fraternidade e comia com os pagãos, visitando e curando necessitados pobres e desvalidos, mas também membros da aristocracia romana imperial, e visitando territórios inimigos dos judeus para dizer alto e bom som TODOS SOMOS UM, a arrogância, a soberba e o fanatismo judaicos não permitiram que isso fosse visto e assimilado como A COISA NOVA, o ideal de vida.

Quanto se pode lamentar, hoje, por esta reação dos fariseus. Jacó, filho de Abraão, no leito de morte, abençoou cada um de seus 12 filhos. Ao por as mãos sobre Judá (o futuro patriarca da tribo mais destacada), profetizou: “Não se apartará o cetro (reinado) de Judá, nem o bastão de comando, até que venha aquele (Messias) a quem devem obediência os povos”. Jesus descendia dessa tribo.

Aproximadamente, dez séculos antes de Cristo, o profeta Balaão, em êxtase, profetizou: “Vê-lo-ei, não agora, nem de perto. Uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá o cetro...” (Números, 24). O profeta Isaías, sete séculos antes, anteviu o Messias: “Do tronco de Jessé (pai do rei Davi), sairá um rebento, e das suas raízes um novo rebento” (Isaías, 11). Mais adiante: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, chamado Emmanuel (isto é, Deus no meio dos homens)”. Naquele mesmo tempo, o profeta Miquéias anunciava: "E tu, Belém de Éfrata, de ti, tão pequenina, sairá o que há de reinar, cujas origens são desde a eternidade”.

Esta profecia nos remete ao primeiro capítulo do evangelista João, uma obra-prima da literatura universal: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus,... e o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Revisitando esta doutrina: “No princípio era o Espírito e o Espírito estava junto de Deus e o Espírito se encarnou e habitou entre nós”. O Espírito Superior chamado Cristo, pertencente aos mais elevados escalões divinos desceu sobre Joshua Bar Levi, filho de Yussef Bar Levi e de Maria de Nazaré, descendentes de Jacó e Davi para trazer inicialmente aos judeus e por extensão ao mundo tudo, um novo Reino, o Reino de Deus.

Num tempo de reconciliação, aproximação e convergência de ideologias,  religiões e filosofias, certamente é chegado o tempo da Igreja de Roma rever suas posições (via Papa Francisco) quanto às coisas que trouxeram tantos sofrimentos aos povos, notadamente aos judeus, muçulmanos e cristãos (refiro-me desde as cruzadas até os nossos dias) e certamente também tempo das lideranças judaicas reverem os posicionamentos de seus líderes ancestrais. Refiro-me à hipótese de aceitar Jesus Cristo como o Messias anunciado. Dois mil anos depois nenhum outro messias judaico ocupou a cena que estava reservada a Jesus. Como teimar que Jesus não era o Messias esperado?

Só porque Jesus não se sentou ao trono de Davi para governar Israel teria sido motivo para a comunidade judaica rejeitá-lo? Esse é um posicionamento muito limitado, pois o Messias veio para governar o planeta todo.

Só porque Jesus sugeriu algumas alterações no modo de vida dos judeus teria sido motivo para tanto rebuliço por parte dos porta-vozes fariseus? Será que o povo judeu não alterou nada nesses dois mil anos?

Onde está a coerência? Seria isso uma queda de braço? Pensando bem, quem está perdendo e perdendo feio nesses dois mil anos?

Honestamente, o holocausto judaico em todo o redor do mundo poderia ou não poderia ser o efeito de tantas causas remotas?

Poderia estar ocorrendo que os judeus novamente estariam perdendo o bonde de Deus ao não se oferecerem para uma jornada de paz com seus vizinhos palestinos?

Se isto tudo for verdade porque a espiritualidade está mandando dizer isto e se tudo isso não puder ser aceito pelo povo judeu, não estaria o povo judeu novamente perdendo o Bonde de Deus?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

1280-Ecos das profecias


Repercussões com banhos de sangue

Muitos contribuíram para que a “maldição” judaica se tornasse óbvia pelo mundo a fora. Os próprios judeus ajudaram muito quando se tornaram inflexíveis em não reconhecer Jesus nem mesmo como mais um dos seus profetas. Como ele não disse o que buscavam ouvir e não fez o que esperavam acontecer, abominaram-no.

Ao longo desse tempo de vinte séculos uma série de maldades foram perpetradas contra a figura humana de Jesus, até mesmo que ele é filho de um soldado romano que, segundo ensina a Igreja, foi quem esteve com Maria no lugar do arcanjo. Claro, a Igreja contribuiu para isso também ao retirar de José a paternidade biológica do Messias. Foi maldade fazer circular esta versão. Aparição de anjos e arcanjos é coisa comum nos textos bíblicos da Torá. Por que não poderia haver um arcanjo anunciando a Maria sua gravidez?

Estes e outros fatos sempre foram interpretados no sentido de que todos os judeus, de todos os tempos, são culpáveis pela rejeição, condenação e morte de Jesus, o que também não corresponde à verdade. Boa parte dos judeus se tornou cristã. Mas, era mais fácil acusar que defender. Um dos primeiros a apontar a culpa judaica foi Orígenes (séc. III), através de escritos da Escola de Alexandria, que dizia que o sangue de Jesus “caiu sobre todas as gerações posteriores de judeus, até o final dos tempos”.

Tiveram a mesma opinião: Melito de Sardes (séc.II), Santo Agostinho (séc.IV), São Jerônimo (séc.IV), São João Crisóstomo (séc.IV), Teofilato (séc.IX), Tomás de Aquino (séc.XIII) e Calvino (séc. XVI), o teólogo francês que criou todo o arrazoado que culminou com a segunda cisão da igreja.

Por sua vez, na sequência, Martin Luther (fundador da Igreja Protestante Luterana) afirmou que a miséria na qual viviam os judeus em sua época, e sua posterior condenação eterna, devia-se a que recusaram o Filho de Deus. Certamente houve outras interpretações mais mitigadas, mas em geral foi essa a que primou e fez com que muitos cristãos desenvolvessem aversão pelo povo hebreu. Alguns estudiosos para saírem do aperto sugerem que se a lavagem de mãos não é considerada histórica, a resposta dos judeus também não deve ser considerada como tal; portanto, essas palavras carecem de importância. Mas isso não resolve o problema de fundo: por que Mateus, inspirado por Deus, conservou essa frase nos lábios dos judeus? Quis aludir a alguma espécie de castigo?
 
Para piorar as coisas, Mateus conta que, em seu último discurso em público, Jesus recordou aos judeus que eles derramaram muito sangue inocente ao longo da história, “desde o justo Abel até Zacarias” (Mt 23,33-36): “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? Vede que vos envio profetas, sábios e doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. ... Em verdade vos digo, todos esses crimes pesam sobre esta raça”.

Por que Jesus nomeia Abel e Zacarias? É que Abel era o filho de Adão e Eva, morto por seu irmão Caim. E Zacarias era um famoso sacerdote de Jerusalém, do século IX a.C., que por ter-se animado a denunciar a imoralidade na qual viviam os israelitas (algo parecido com o que fez Jesus), foi apedrejado até a morte no pátio do Templo. Zacarias morreu dizendo: “Que Javé veja isto e lhes peça contas” (2 Cro 24,20-22). Jesus os mencionou de propósito porque Abel é o primeiro inocente assassinado da Bíblia (Gn 4,8), e Zacarias, até então, o último.

O que Jesus quis dizer nessa oportunidade é que toda a história do povo judeu, desde o primeiro ao último livro da Bíblia, estava manchada de crimes e mortes inocentes. E esse sangue clamava ao céu (Gn 4,10), exigindo um justo castigo. Por isso concluiu aquele sermão com uma frase inquietante: “Asseguro-lhes que tudo isso recairá sobre esta geração” (Mt 23,36).

A morte de Jesus e a maldição dos judeus acompanha a trajetória da Igreja Cristã e o périplo judaico em busca de paz.  Toda a história do povo judeu, desde o primeiro ao último livro da Bíblia, estava manchada de crimes e mortes inocentes. E esse sangue clamava ao céu (Gn 4,10), exigindo um justo castigo.

Mas, as lideranças judaicas não têm olhos nem ouvidos para tais coisas.

Muitas religiões têm seus patriarcas. É o caso do budismo, do islamismo, do cristianismo e, claro, do judaísmo entre outras como são aquelas que seguem Confúcio, Lao Tsé, Zoroastro, etc., etc. Patriarcas lidos, admirados, por demais conhecidos. De forma extraordinária um só desses patriarcas revela a intenção de fazer uma aliança condicionada com o os descendentes de Abraão. A aliança tem como meta a obediência ao que Deus pede, mas em nenhum dos itens fala de exclusividade. Por que Deus não pode ter alianças com outros patriarcas. E certamente as teve. Mas, o povo hebreu entendeu que era exclusivo.  

Que Deus é este que num Universo povoado por bilhões de estrelas e planetas, se curva a um só clã e determina: sois os meus únicos?

Ao formular a pergunta o autor não questiona a pura verdade de que o povo judeu exerceu e exerce um papel preponderante em todo o Ocidente Planetário, como o povo que mais se dedicou a registrar suas memórias e que mais exemplos tem deixado a todas as demais nações. Mas, questiona sim, e muito, a retirada da exclusividade e a aceitação do Messias como os pontos chaves para que judeus e todos os demais povos cristãos e muçulmanos possam viver em paz como irmãos.

Ao chamar para si o direito de ser o povo eleito, chama também o dever de dar o exemplo. Quanto sangue foi derramado no planeta atrás das questões judaicas, muçulmanas e cristãs? Quase todas as guerras passaram por aí. E qual a razão de ser das guerras? O fanatismo, a birra, a teimosia, a intolerância!!!

Essas palavras não são dirigidas só aos judeus. Muçulmanos e cristãos são muito fanáticos, birrentos, teimosos, intolerantes. Mas, o proto-motivo para as posições fanáticas, birrentas, teimosas, intolerantes, passa pela Aliança Exclusiva e, principalmente, pelo não reconhecimento de Jesus como o Messias.

Houve outro Messias? As profecias que anunciaram Jesus eram mentirosas? Não se cumpriram?

Quem tem moral para sentar-se num congresso e abrir essa discussão com maturidade espiritual para encaminhar o assunto de forma madura?

Que povo em todo o planeta tem direitos a mais ou direitos a menos perante Deus?

Estou falando do Deus de Todos.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

1279-Ecos das profecias


Haveria uma maldição sobre os judeus?

Antes de deixar o cargo de Papa, Bento XVI publicou um segundo volume sobre Jesus de Nazaré no qual sustenta que é um erro culpar todo o povo judeu pela morte do Messias. E expõe as causas desse lamentável erro com base na interpretação de um versículo do texto de Mateus. Segundo o Evangelho de Mateus, durante o processo acusatório de Jesus os judeus pronunciaram uma frase que, sem querer, marcou a história e o destino do povo hebreu em suas relações com os cristãos: “Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27,25).

Este grito, conforme o Papa, foi interpretado no decorrer dos séculos como uma maldição que o povo judeu jogou sobre si mesmo, assumindo a responsabilidade pela morte de Jesus, em cuja pessoa estava o Messias anunciado pelos profetas e esperado pelos judeus.

Desde então muitos citam esse versículo como prova de que Deus rejeitou Israel; e pior ainda, serviu para justificar as atrocidades e perseguições cometidas contra esse povo, como se esses sofrimentos fossem um castigo divino.

E presta atenção, leitor, o Papa Ratzinger, é um alemão nascido em 1927, vivendo sua adolescência enquanto o panelão da guerra fervia diante dele. Certamente tomou conhecimento de que Pio XII apoiou Hitler. Como italiano de nascimento, Eugenio Pacelli se posicionou simpático à causa de Mussolini/Hitler, o que, de certa forma, avalizou a perseguição ítalo-alemã aos judeus. E como Papa, eleito 66 anos depois do início da guerra, certamente com sentimento de “mea culpa” tentou interpretar os evangelhos.

Hutton Gibson, pai do ator Mel Gibson, em seu livro “O inimigo ainda está aqui” (2003) escreveu: “Quando Pôncio Pilatos negou a aceitar a responsabilidade pela morte de Jesus, a culpa caiu nos judeus presentes; foi um crime superior ao pecado original (Eva e a serpente) e ao da torre de Babel (tentativa de invadir o espaço de Deus); por isso, o castigo caiu sobre as futuras gerações judias, que sofreram muitos desastres como o holocausto, pela maldição que eles (segundo Mateus) lançaram sobre suas próprias cabeças”.

Com razão o teólogo inglês G. C. Montefiore chegou a escrever: “Essa é uma das frases responsáveis por oceanos de sangue humano, e por incessantes rios de miséria e desolação”. Em dois mil anos de nossa história o que mais chama a atenção são as guerras religiosas, com destaque especial para as Cruzadas, onze ataques cristãos perpetrados contra Jerusalém ocupada pelos não cristãos (diga-se judeus e muçulmanos).

Mas por que ficou registrada no Evangelho a maldição contra os judeus? O episódio aparece somente em Mateus, o único dos três evangelhos que é original; Marcos e Lucas são cópias de Mateus. Segundo Montefiore, quando as autoridades judias levaram Jesus perante Pilatos para que fosse julgado, o governador romano percebeu que o entregaram por inveja, e tentou liberá-lo. Na verdade, eram os sumos sacerdotes que tramavam contra Jesus, temerosos de que o Messias viesse derrubar o seu trabalho doutrinário de longos séculos com base nas Escrituras Sagradas. E era, de fato, como se nota, uma reforma trazida por Jesus.

Percebendo isso, o governador romano recorreu a um ardil. Pensou que se Jesus enfrentasse um famoso preso chamado Barrabás, talvez o povo escolhesse aquele que deveria ficar em liberdade e, no caso, o escolhido poderia ser Jesus. Mas se equivocou. Os sumos sacerdotes e dirigentes judeus convenceram a multidão a pedir a liberdade do delinquente (Mt 27;15-23). Pilatos, vendo frustrado seu estratagema, disse aos judeus que não podia condenar Jesus à morte, porque não encontrava nele nenhum delito. Esta frase já teria que ter servido para acabar com o julgamento: o juiz já se pronunciara. Mas a nova tentativa também não funcionou porque as pessoas, instigadas pelos sumos sacerdotes, começaram a ficar alteradas e a gritar: “Crucifica-o, crucifica-o” (Mt 27,22-23). Pilatos ficou com medo da turba emocionalmente comprometida e, certo de que nada que fizesse salvaria Jesus, mas pelo contrário sua negativa a condená-lo provocaria maiores distúrbios, realizou um último gesto simbólico: diante de todos lavou as mãos dizendo: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem; este é um problema vosso” (Mt 27,24).
 
Efetivamente, o lavatório das mãos como expressão de inocência pública é um costume judeu, estabelecido por Moisés, e ordenado no Antigo Testamento. Segundo a mentalidade semita, o sangue derramado de uma pessoa inocente tinha a propriedade de manchar não só o culpado, mas todos aqueles que cruzassem com o morto, e inclusive todo o povoado onde fora cometido o crime. Por isso, Moisés ordenou que quando numa cidade descobrissem um cadáver e não fosse possível identificar o malfeitor, os dirigentes deveriam reunir-se em um rio e lavar as mãos, dizendo: “Nossas mãos não derramaram este sangue”. Depois deveriam orar a Deus: “Que este sangue inocente não caia no meio do povo de Israel”. Assim, os dirigentes e o povo ficavam livres da culpa (Dt 21,1-9).

Na Bíblia várias vezes se fala da lavagem de mãos. Lemos nos Salmos: “Lavo minhas mãos em sinal de inocência, dando voltas ao redor de seu altar” (Sal 26,6). E também: “Em vão mantive puro meu coração, lavando minhas mãos na inocência” (Sal 73,13). Que Pôncio Pilatos, sendo romano, tivesse realizado um ritual próprio da cultura hebraica resulta inverossímil. Por isso, muitos autores afirmam que a cena é uma criação do evangelista Mateus que, ao escrever aos leitores de origem judaica utiliza essa imagem para fazê-los compreender que o governador não o condenou; quem o condenou foi o povo judeu. Por outro lado, o governador pode ter assim agido segundo os costumes judaicos para marcar mais profundamente o absurdo que ali se estava cometendo.

Como resposta a sua lavagem de mãos, Mateus diz que o povo judeu gritou: “Que seu sangue (de Jesus) caia sobre nós e sobre nossos filhos!” (Mt 27,24- 25). Esta é a frase que para muitos resulta desconcertante. Na realidade é uma fórmula legal frequente no Antigo Testamento, indicando a pessoa que deveria assumir a responsabilidade por um delito, e sofrer o castigo correspondente, que era a morte. O livro do Levítico diz: “Se alguém amaldiçoar seu pai ou sua mãe certamente será morto; que seu sangue caia sobre ele” (Lv 20,9); “Quem se deitar com a mulher de seu pai morrerá; seu sangue cairá sobre ele” (Lv 20,11); “Se um homem se deitar com outro homem, os dois morrerão; seu sangue cairá sobre eles” (Lv 20,13). Quando Davi se encontrou com o soldado que matara o rei Saul, disse-lhe: “Por ter matado ao ungido de Javé, seu sangue cairá sobre sua cabeça” (1 Sm 2,16). E quando Joabe, general do exército de Davi, matou o general Abner sem consentimento do rei, Davi exclamou: “O sangue de Abner cairá sobre a cabeça de Joabe e sua família” (2 Sm 3,29).

Ora, os judeus e principalmente os tradicionalistas fariseus conheciam todos os textos sagrados da Torá e conheciam a passagem narrada por Jeremias em pleno tempo quando, em situação análoga a Jesus, estava por ser condenado à morte e declarou às autoridades de Jerusalém: “Sabei, porém, que se me condenardes à morte, será de sangue inocente que maculareis esta cidade e seus habitantes” (profecia de Jeremias em 26,15).

Mas, o sentido da frase fica mais claro no evangelho de Mateus. Significa que a multidão presente no julgamento de Jesus assumiu a responsabilidade de sua execução. Por isso, Roma se torna não autora daquele ato, como pretendem alguns autores. Beneficiada, mas não autora.

Mas a cena tem detalhes curiosos. Em primeiro lugar, o povo judeu não emprega a fórmula como corresponde. Quando alguém na Bíblia invocava o castigo de sangue, fazia-o sobre a cabeça de outro, de um terceiro, nunca sobre a própria. Em compensação, em Mateus, o povo judeu o aplica sobre si próprio, como se quisesse incriminar-se, autocastigar-se, em vez de livrar-se dos efeitos do sangue, que era o sentido da fórmula.

Em segundo lugar, resulta interessante que o grito seja lançado por “todo o povo”. Até esse momento Mateus vinha relatando que “uma multidão” presenciava o julgamento, isto é, um grupo limitado de pessoas. A “multidão” apresenta-se perante o governador (Mt 27,15), pede a libertação de Barrabás (Mt 27,20-21), exige a crucificação de Jesus (Mt 27,22), e presencia a lavagem de mãos (Mt 27,24). Mas de repente, Mateus parece esquecer-se deste grupo, e diz que é todo o povo quem agora reclama sobre si o sangue de Jesus. Trata-se de uma mudança intencionada. Em Mateus, a expressão “o povo” sempre alude a Israel como raça, etnia, nação global. Por isso, ao substituir “multidão” por “ povo” estava dizendo a seus leitores que o sangue de Jesus, invocado nesse dia, não caiu unicamente sobre os assistentes à cena do processo, senão sobre toda a nação judia e sobre as gerações futuras.

Que significado tem esta cena? Veremos na próxima postagem.

domingo, 22 de dezembro de 2013

1278-Ecos das profecias


Jesus Cristo, o rejeitado
 
A beleza das decorações e a alegria das confraternizações do Natal parecem enraizar-se no mais recôndito do coração ou da alma humana. Sabe-se que a data não é a mesma do nascimento de Jesus e que o Papai Noel e a Árvore de Natal vieram depois e só acrescentaram, apesar dos apelos consumistas. Mas, também é notório o Espírito Solidário e Fraternal, certamente dentro da egrégora presidida pelo maior líder da humanidade.

A preparação para o Natal é um caminho interior para dar sustento e consistência aos caminhos da vida e às vicissitudes que desafiam cotidianamente a existência humana. Claro está que poderíamos fazer mais. Isso tudo ainda é pouco.

Tradicionalmente a Igreja Católica na sua liturgia do Tempo do Advento, inclui na proclamação da Palavra de Deus, as profecias de Isaías (capítulos 6 a 9). Os ecos dessa sua profecia têm forças indicativas indispensáveis a quem queira compreender em profundidade a presença do Cristo encarnado. Viemos tratando disso nesta série.

As predições do profeta Isaías cultiva a inclinação para que se as lemos e ouvimos  como o ressoar de uma voz com singular plenitude. Um grande profeta a falar para um grande povo um grande anúncio.  

É ímpar a beleza com que Isaías anuncia o Messias. Um anúncio com força de interpretação do presente indicando caminhos novos e a premência de novos propósitos a serem assumidos em âmbito pessoal para configurar e sustentar um tempo novo sempre esperado por todos em cada etapa da história. A profecia tem, pois, força de interpelação. Uma interpelação necessária quando se considera o congelamento de consciências e a desnaturalidade de certas posturas advindas de arriscadas relativizações de valores e de compromissos abandonados quanto à espiritualidade.

Isaías era um ser internacionalista. Sua leitura ia além das fronteiras judaicas. Atuou na história de Israel na segunda metade do século VIII antes de Cristo. Historicamente profetizou quando a poderosa Assur (Assíria) se preparava para conquistar a Síria e a Palestina, tendo previsto a queda do Reino de Israel e de Samaria, vendo com os próprios olhos a extrema desolação de Jerusalém.

Portanto, um tempo de derrocadas e desolações morais. Na infraestrutura dessas sociedades, sua palavra tornou-se um forte sinal de esperança. Seus discursos ganharam uma admirável contundência na ordem interna da sociedade, situando bem o contexto político mais global e incidindo sobre a conduta moral de cada cidadão mostrando com argumentos incontestáveis o quanto este valor ou a falta dele tem força definidora nos rumos da sociedade, levando-a a conquistas ou a derrocadas.

É sempre assim com os seres humanos. Os ouvidos não ouvem, a mente não aprende, o corpo paga. Os judeus precisaram perder grande parte de suas conquistas daquilo que era confortável, precisaram sentir na carne a dor da perda para entenderem o que os seus profetas vinham prevenindo. Mas, por certo, a mágoa de Isaías foi verificar que seu chamamento foi desprezado.

É difícil compreender por que durante milênios os hebreus vieram ouvindo as vozes de seu Deus através dos profetas e, justamente, no caso de Jesus, nada feito, a voz dos profetas já não valia mais.

O discurso de Isaías atingia assim uma amplitude jamais vista. Essa amplitude é força educativa indispensável para que uma sociedade supere seus descompassos e consiga fixar seu horizonte emoldurado por razões que não incluam a mesquinhez, a desonestidade, a ganância, a mentira, a soberba, a luxúria, a birra, o fanatismo.

O enfrentamento deste embate não pode prescindir das referências morais com suas raízes em tradições e fontes sapienciais. Embora mantidos muitos desses valores, faltou aos judeus, à época, a compreensão que alcançou o pequeno grupo de também judeus que seguiram Jesus. Que estranho quadro: os mais pobres, mais sofridos, mais sábios, mais mansos (incluindo-se algumas lideranças, como José de Arimateia), entenderam o chamado. Os mais instruídos, com maiores posses e com mais alcances sociais, o negaram.

Na tradição judaica o profeta ajuda uma sociedade perdida a assumir a convicção de que seus desastres advêm da imoralidade, da teimosia, da birra, da intolerância, da exclusão, da soberba. E a restauração de sua força, no outro extremo, brotará sempre da busca de uma conduta ilibada centrada no respeito à vida, na verdade, na justiça, na solidariedade humana, no amor.

O profeta, pois, educa a consciência moral do povo e mostra-lhe que ela é o sustentáculo de suas próprias conquistas, de sua própria recomposição e a dinâmica de superação de suas incontáveis fragilidades que pesam sobre os próprios ombros. Falar em salvação quando não se tem méritos para obtê-la é, no mínimo, fraude. A derrocada moral dos chefes, a regra de um jogo em que vale tudo e qualquer coisa, contribuiu e contribui para situar o povo judeu num exílio constante que traz amarguras, numa insegurança que destrói a esperança de seus filhos. Estamos falando do mais brutal exílio em relação à Casa de Deus. O povo escolhido não foi escolhido para guerrear, negar, teimar, passar por séculos de provações. Alguma coisa saiu errado na raiz dessa nação de tantos líderes, de tanta sabedoria e de tanta desgraça.

Tudo isso também faz perder a independência porque torna as pessoas reféns de políticos, traficantes, sistemas aprisionadores da dignidade humana, alimenta as ilusões dos números e das posses onde a dignidade parece depender da ostentação, seja no vestir, no morar ou no andar pelas ruas sobre rodas, tendo como resultado a projeção das ruínas dos verdadeiros valores, das instituições ruídas e extremamente enfraquecidas no seu poder, aquelas mesmas que um dia pareceram inabaláveis e inexpugnáveis, a começar pelas Igrejas, pelos templos, pelas sinagogas, pelas mesquitas.

A profecia tem, então, como meta, a correção desta obstinação que cega impedindo de fixar o olhar noutro alguém. Seu anúncio messiânico convida a encontrar a realidade nova que está visível no coração desse tempo indicando que o novo não virá do simples poder e das posses, mas da simplicidade amorosa da manifestação de Deus.

Anuncia assim que ‘um broto vai surgir do tronco seco... das velhas raízes um ramo brotará’. O sinal será dado pelo próprio Deus, pois ‘eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho e lhe porá o nome de Emmanuel’.

Isaías, entendido de política internacional, e à luz dela, interpreta com autoridade os acontecimentos, trás ao povo o único caminho possível no encontro com o Messias, na força de sua presença, para a superação de tudo o que desfigura uma sociedade que foi poderosa. Um povo que foi forte, de reis imbatíveis, pobre povo agora exilado, cassado, discriminado, enxotado.

Os líderes judeus da época de Jesus, confortados em posições de destaque no regime romano, preferiram trair o seu destino e o destino de seu povo. 

Essa presença do Messias, Cristo Jesus, o Menino Deus do Natal, é a única fonte com força para incidir na conduta de cada um fazendo com que todos sejam capazes de readquirir sua própria dignidade.

Tem de ser entendido: Jesus não veio salvar, veio ensinar a senha para abrir as portas das prisões. Os judeus queriam um governante salvador. Tinham um Messias libertador. Preferiram ser salvos ao invés de libertos. Deu no que deu.

Qual é a diferença entre ser salvo e ser liberto? Salvo é aquele que é retirado de uma situação de risco; liberto é aquele que se torna livre daquilo que o aprisiona.

A liberdade não virá com uma sociedade diferente da lógica de Deus; não será perene se vier com as mãos sujas de sangue; e nem, no dizer do profeta Isaías, com homens e mulheres que, gananciosamente, ajuntam casas a casas, emendam terreno com terreno até não sobrar espaço para mais ninguém, tornando-se donos de tudo. Essa sociedade maior, a nossa, muito, muito, cópia do que Israel modelou para grande parte da humanidade, se faz dona do planeta, conspurca a Terra com sua ambição de ter mais e agora vê, assustada, a elevação da temperatura, o degelo das calotas, as aberrações climáticas e geológicas, a miséria de 1/3 da humanidade, as sucessivas crises econômicas globais, o colapso à vista. Não é outra coisa que o desamor, a contramão dos ensinamentos do rejeitado Jesus.

Na verdade, o profeta Isaias revela onde estão as raízes dos males que afligem o povo. Comprova que o povo anda para trás porque abandonou o seu Senhor, na pretensão de ser dono de algo pequeno. A vinda do Messias, o Cristo Libertador, num tempo de uma Nova Aliança, traz os ecos da profecia como mandamento: "Lavai-vos, limpai-vos, tirai das minhas vistas as injustiças. Parai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem. Buscai o que é correto, defendei o direito, fazei justiça". Natal é a busca do novo tempo pela força dos ecos das profecias.

Afinal, viemos ou não viemos movidos a profecias nestes últimos 5 mil anos?

Quando convém, valem as profecias. Quando não convém, elas deixam de valer? Por que? Somos víboras à espreita do ataque? Traímos ao invés de atrair.

O inicio da Era de Aquário reforça o que Isaias anunciou. Os tempos são outros para judeus, muçulmanos, católicos, budistas, evangélicos, ateus, todos nós.

Vamos parar de desejar “Feliz Natal” de forma hipócrita, convencional, frívola. Ou nem isso ao não aceitar o Messias e sua mensagem. A humanidade não precisa de um Natal Feliz, precisa de Felicidade em Todos os Dias.  E a felicidade universal passa pela pacificação daqueles que brigam por razões de fé.

Fomos condicionados a ser fraternos na semana do Natal. Pensamos que o Natal é a razão de ser de todo o ano de labutas e lamúrias. Isso pode ser mudado. Tem de ser mudado. Precisamos arranjar um Natal para judeus e muçulmanos. Está sendo proposto novamente. Novamente queremos perder o bonde de Deus?