segunda-feira, 31 de março de 2014

1277-Destino e Livre Arbítrio


Plantar a dor

Toda a ação humana pressupõe a dor, não tomada a dor como reprimenda ou castigo. A dor não é nossa inimiga, ela existe para denunciar irregularidade, quebra de paradigma, crescimento, encolhimento, mudança, avanço, estagnação. A dor, não só a imediata, que nos força a optar por algo em detrimento de todo o resto que deixamos, como a dor seguinte, previsível ou não, acarretada pelas conseqüências que advém de nossas escolhas, decididamente, a dor é o fiscal que aponta as alterações.

Há a possibilidade de o destino ser aquele irmão ciumento, invejoso da capacidade humana de ser livre. E não raro, cruel, capaz de enredar em suas malhas as nossas frágeis liberdades diferenciadas, dignas de compaixão.

Os gregos, em época anterior a Homero (século 9 a.C.) já admitiam que nossa existência desde o instante do nascimento estava predestinada. Imaginavam, no Olimpo, morada dos deuses, a presença de três Moiras a decidir por nós (Parcas, entre os romanos - Termo com origem no verbo meiresthai, designando aquilo que se obtém por sorte ou partilha. Literalmente traduz-se por “pedaço, quinhão, aquilo que nos cabe por destino”).

Sem personificação no princípio, depois representadas por figuras femininas, foram batizadas de Cloto – aquela que fia; Láquesis – aquela que mede ou lança a sorte; e Átropos (a = sem; tropein = voltar) – aquela que, inflexível, corta com sua tesoura o fio de nossas vidas, sem jamais retroceder em suas decisões.

Homero também as denominava em seu dialeto árcade-cipriota de Aîsas, cujo sentido é fiar.

Segundo Hesíodo, poeta beócio do século 8 a.C., as Moiras são filhas de Nix (noite), que por sua vez é filha de Caos, o espaço aberto primordial, do qual se originou o Cosmos.

Então se ficarmos olhando lá atrás, as moiras eram, sim, comandantes do destino de cada mortal. Hoje, com base nos novos conhecimentos sobre o poder da mente, já se pode mudar esse entendimento ao afirmar que o foco mental de cada pessoa lança a sorte por cujo projeto se fia o tecido que irá servir de abrigo para a alma, até que a tesoura mortal venha romper esse tecido para libertar a prisioneira temporária, a alma.

O mais cruel de tudo, é que essas teorias gregas viajaram para dentro de outras culturas nas mochilas alexandrinas durante o regime helênico e acabaram guardadas nos arquivos de Roma, na sequência, servindo de sustentação das colunas da igreja romana.

Havia tanta coisa boa na cultura celta e de uma dezena de outros povos primitivos, não bárbaros, mas acusados de barbárie porque não eram cristãos, e foi tudo abandonado, desprezado, condenado como coisas pagãs. Pois, sim.

domingo, 30 de março de 2014

1376-Destino e Livre Arbítrio


Dimensões distintas

Parece haver duas dimensões onde encontramos a mão daquilo que para alguns se chama destino. Para isso, devemos entender por destino o lugar, a situação, o contexto para onde apontamos nossa caminhada individual, familiar, profissional, nacional: o que quero e onde quero ou queremos chegar.

Na dimensão individual, mais próxima e palpável, o destino pode ser determinado com certa precisão a partir das minhas tendências/escolhas: colherei o que planto; enfrentarei as conseqüências de cada um dos meus atos presentes; edificarei o que o planejo; entendimento que pode ser ampliado para o grupo familiar ou mesmo para a Nação.

Na dimensão remota encontramos a missão. Quase todas as religiões admitem existir uma missão dada pelo Autor da Vida, negociada com forças fora do alcance das mentes mortais ou livremente escolhida por nós antes de receber o corpo. Aqui pode ser novamente incluído o grupo familiar, a Nação. Não fora isso, qual será a razão de ser da vida?

Infelizmente, a rigor, nenhuma cultura é tão pobre quanto à vida que essa que nos formata como pessoas ocidentais. Mas, o que dizem que somos, isto é, réus pela crucificação de Jesus, ou eternamente atrelados ao ato sublime em que Jesus padeceu para livrar a nossa cara, são ensinamentos que tomaram proporções insustentáveis na cosmogonia cristã: uma parte se penitencia por haver dado causa à sua morte e a outra parte se sente perdoada e livre para fazer o que quiser.

Nesses casos, tanto é provável que escolhamos sofrer ou que estejamos determinados a sofrer, possivelmente nunca pelo mesmo motivo: crescimento, aprimoramento. Vencida a dor estaremos (?) livres dela e de tudo mais (?) que impede nossa liberdade (?) aonde se pode ir?

Iremos a qualquer lugar sempre esquecidos de que qualquer movimento para crescer ou encolher, dói. Dói não só fisicamente, como é desagradável sair da inércia.

Esse heroísmo justifica a evolução do homem. Herói é uma palavra grega que significa “pequeno deus, grande homem”, aquele que rompe a barreira limite do seu eu num esforço constante para a realização dos seus feitos e para renúncia de sua ambição, esse é o herói. É aquele que estando no lugar certo para si, faz certo aquilo que lhe cabia fazer, e na hora certa. Herói de si mesmo, apesar de, muitas vezes, haver destaque e reconhecimento da comunidade admiradora de seus atos.

Por que a criança chora ao nascer? Pela dor de haver deixado a aparente inércia do útero. Mas, também, como ainda não consegue falar, poderia estar gritando: “cheguei! Se preparem que estou aqui!”

Enquanto aguarda a próxima postagem, vá pensando na razão de ser do nosso nascimento como membros da vida, portando um corpo da dimensão humana.

sábado, 29 de março de 2014

1375-Destino e Livre Arbítrio


Pra que viemos ao mundo?

Os seres humanos são acorrentados a um destino previamente traçado, ou são efetivamente livres para fazer o que querem? Temos realmente permissão para fazer tudo aquilo que quisermos, já (ou não) resguardado o respeito pela liberdade alheia? Ou nascemos destinados a experimentar a sensação de que agimos “livremente” dentro de certas possibilidades já previstas desde o início? Tudo o que fazemos na vida nada mais é do que cumprir um risco já traçado, ou escolhemos passo a passo o caminho por onde seguir, imprimindo ao longo dele nosso rastro pessoal ao qual chamamos liberdade para culminar com a nossa obra prima?

“Estamos condenados a ser livres” (Jean-Paul Sartre - 1905-80). “Sofrer é o destino dos mortais” (Eurípedes - 485-406 a.C.). Frases assim ou assado acompanham a humanidade pelo tempo a fora, algumas sem autoria outras saídas de mentes muito brilhantes: “A minha liberdade termina onde começa a sua”. “Cada um com sua cruz”. “A liberdade não é compatível com quem não sabe usá-la”.

De fato, sempre que assumimos um comportamento ético frente à vida, obrigamos-nos a certas atitudes que bem nos revelam quão relativa é nossa liberdade diante dos conflitos que nos são impostos, dilemas aos quais chamamos de destino (sem saber exatamente do que falamos). Então, escolhemos sofrer ou a dor é atributo inerente à existência? Assim sendo, cadê e Livre Arbítrio, se num e noutro caso o sofrimento está ou pode estar presente?

O que nos trás ao mundo das formas? Para pagar contas velhas ou abrir novos débitos? Para gozar quando for possível e sofrer quando for inevitável?

Sempre que a oportunidade se oferece tenho reafirmado: se há destino fechado, o que passa pela mente de Deus quando manda pra vida alguém que nasce com síndrome de Down, autismo, cegueira, surdez ou deficiência motora? Qual teria o plano de Deus para Hitler? E para o Fernandinho Beira Mar?

Começo por admitir que uma existência é pouco para lapidar um anjo (e se a vida não é uma escola para a angelitude, me nego viver) e nisso surge o vislumbre: nascemos toscos e brutos e vamos ao embate de melhoramento disso. Ou nascemos angelicais e a sociedade nos impõe as suas condições, que podem descambar para dimensões irreconhecíveis de maldade. Nos dois casos, a sociedade tem a ganhar ou perder com aquilo que nos ensina.

Você deve ter a sua opinião ou convicção; nós a nossa. Mas, quem somos nós para ficar aqui dando palpite em coisas de tamanha profundidade?

Vamos adiante com esse caleidoscópio?

sexta-feira, 28 de março de 2014

1374-Destino e Livre Arbítrio


 
Introdução

Há quem acredite que todos os acontecimentos de nossas vidas é obra de um plano inexorável do destino. E entre esses, uma parte procura adivinhar o que lhes está reservado lendo horóscopos e procurando cartomantes e videntes; a outra parte apenas espera o que Deus queira mandar.

E há, também, quem acredite que não há destino, que o destino somos nós que fazemos e se atiram na vida como se estivessem vivendo os últimos instantes de sua existência.

Claro, você, como alguém inteligente já sacou que a verdade pode não estar com nenhum dos três, ao menos não desse jeito. Quem sabe uma missão ou meta e a liberdade para transformar isso numa bela obra enriquecedora da alma e da mente pode ser uma construção um tanto menos radical, não deixando tudo nem só para Deus e nem só para o homem.

Não é muito fácil esta abordagem, pois, no fundo, sabemos quase nada de nós, do mundo, de Deus, ainda que se tenha tentado fazer esse reconhecimento. O obstáculo, não me canso de repetir, está em que a brutal cultura materialista que nos abraça ensina procurar espiritualidade nos diagnósticos emanados de máquinas e, sabemos, as máquinas não foram feitas para isso. O blog se pauta na tese de que ao nos conhecermos, intimamente, saberemos muito mais do Universo e de Deus. Mas, está demorando o cientificismo convencer-se de que a dimensão inteligente humana não é o cérebro, é a alma. Aí, caímos de volta no vazio. O que pode fotografar a inteligência, a alma, a dor, a felicidade? As máquinas mostram regiões do cérebro mais vibrantes ou menos vibrantes em decorrência de estados emocionais ou estímulos sentimentais. Mas, isso não quer dizer outra coisa que as conseqüências de algo que sentimos e elaboramos, a causa continua obscura.

É para viajar sobre um fragmento desses conceitos, teses, hipóteses e outras descobertas, que estamos começando esta série e apenas com a proposta de tentar vislumbrar se a nossa vida é uma partitura já escrita ou se nós podemos participar com nossa maestria para melhorá-la e também, claro, para piorá-la.

Você vem conosco?

quinta-feira, 27 de março de 2014

1373-A Kabbalah


O misticismo diversificado

Segundo se estuda, cada corrente de fé tem um nível primário de doutrina destinado aos não iniciados (diga-se o povão) e níveis (não um só, mas vários) destinados aos iniciados e comprometidos com os segredos da aprendizagem. A Maçonaria nada mais seria que um perfeito exemplo desses estágios, que chega ao grau 33. Mas, apenas um exemplo e não com fins religiosos, pois aquela ordem se conceitua como não religiosa.

Cada misticismo tem seu próprio método para chegar até a Verdade. Mas a essência (em cada um deles) é a mesma. Veja a seguir as semelhanças e diferenças entre seis correntes místicas:

CABALA

O que é - O misticismo judaico é baseado na crença de que todos os segredos do Universo foram revelados por Deus, de forma codificada, na Torá. Os cabalistas procuram desvendar esses segredos.

Principal texto - Distribuído no século 13 pelo rabino Moisés de León, o Zohar ajuda a explicar os ensinamentos ocultos na Torá.

Principal patriarca - Abraão, embora não haja consenso se o primeiro conhecedor da Cabala teria vindo antes (Adão ou Noé) ou depois (Moisés).

Entidade máxima - Ein Sof, o Deus-Infinito -, que criou o Universo usando as 22 letras do alfabeto hebraico e as 10 emanações chamadas de sefirot.


GNOSTICISMO

O que é - Gnose é um tipo especial de conhecimento, uma espécie de saber profundo. Ligado à história do cristianismo, o gnosticismo possui elementos pagãos e outros sincretismos.

Principal texto - Escrito por volta do séc. 2, o Pistis Sophia relata os ensinamentos de um Jesus ressuscitado aos apóstolos.

Principal patriarca - Para os gnósticos, Jesus Cristo é o maior mestre de todos os tempos, mas não é considerado o próprio Deus.

Entidade máxima - O Absoluto. Num conceito próximo ao do Ein Sof, Ele também tem emanações, conhecidas como "Æons".

SUFISMO

O que é - A palavra remete à ideia de pureza. Enquanto o islã crê no encontro com Deus após a morte, o sufismo defende essa possibilidade ainda em vida, por meio de uma experiência mística, chamada irfan.

Principal texto - Escrito no século 11 pelo sábio persa Hujwiri, o Kashf al Mahjub ("Revelando o Velado") discute os principais conceitos sufistas.

Principal patriarca - O profeta Maomé teria transmitido os ensinamentos sufistas àqueles que poderiam experimentar um encontro com Alá.

Entidade máxima - Seguindo a tradição islâmica, Alá é o único Deus, embora tenha uma coleção de nomes, assim como acontece na Cabala.

RAJA IOGA

O que é - Originado no hinduísmo, o raja ioga ("ligação", em sânscrito) também está presente no budismo e consiste em disciplinas mentais muito além das práticas mais conhecidas no Ocidente.

Principal texto - Os textos hindus conhecidos como Ioga Sutra explicam os meios de atingir o Samadhi, que seria a união completa com Deus.

Principal patriarca - Não tem. Entretanto, uma figura histórica importante é Patañjali, autor dos Yoga Sutra e de outros textos filosóficos.

Entidade máxima - Brahman é para o Ioga a Realidade Eterna, Infinita, Imutável, Origem e Identidade de tudo o que há no Universo.


ZOROASTRISMO

O que é - Misticismo surgido na antiga Pérsia, baseado nos ensinamentos de Zaratustra. Dizem que os iniciados detinham o conhecimento místico necessário para dominar as forças da natureza.

Principal texto - Chamado Gathas, traz versos que exploram a essência divina da Verdade, da Mente Sadia e do Espírito de Justiça.

Principal patriarca - O profeta Zaratustra (ou Zoroastro) viveu em algum momento entre os séculos 16 e 10 a.C. e teria sido o autor do Gathas.

Entidade máxima - Chamado por Zaratustra de "o Deus não criado", por ser a origem de tudo, Ahura Mazda é onisciente, mas não onipotente.

TAO

O que é - Profundamente dualista, o tao prega o caminho do equilíbrio entre os eternos opostos. Viver em harmonia, agindo com sutileza por meio do "não agir" (wu-wei), seria a chave para atingir o Tao.

Principal texto - O Tao Te Ching ("Livro do Caminho e da Virtude") serviu de inspiração não só para o taoismo, mas também para o zen-budismo.

Principal patriarca - Autor do Tao Te Ching, o reverenciado Lao Tsé (o nome significa Velho Mestre) é envolto em mistérios.

Entidade máxima - Verdadeira natureza do Universo, o Tao o precede e o abarca completamente. Não personificado, confunde-se com o próprio Caminho.
 
Aqui termina esta série.

quarta-feira, 26 de março de 2014

1372-A Kabbalah


Planos superiores para a alma

É curioso observar que, na Cabala luriânica (com adaptações), desenvolvida no século 16 pelo rabino Isaac Luria (de onde vem o sistema luriânico, citado na postagem anterior), há um conceito que lembra a Teoria do Big Bang. Segundo essa linha cabalística, a primeira ação de Ein Sof para criar o Universo teria sido uma contração sobre si mesmo, que teria provocado uma catástrofe inicial chamada tohu, gerando um vácuo. Em seguida, esse vácuo teria sido preenchido com as emanações divinas (de uma maneira explosiva, tendo em vista a grande velocidade dos acontecimentos narrados) e, a seguir, "retificado" nos mundos que você conheceu na postagem anterior.

Enquanto estiver no Mundo da Ação, o homem está sujeito a dirigir o corpo físico que lhe foi concedido, mas seu objetivo deve ser sempre o mesmo: aprender e evoluir para ascender aos planos superiores. "O judaísmo acredita que a alma é eterna e subdividida", diz Alanati. "A vida continua em outras realidades além da nossa, aguardando a ressurreição. A cabala é a única corrente dentro do judaísmo que defende o conceito de reencarnação: algumas almas retornam a este mundo em outro corpo, até acabar de cumprir a sua missão. Ou então elas voltam para nos trazer bênçãos e luz através de seu ser altamente desenvolvido". Segundo ele, seria possível uma alma atingir o estágio de evolução necessário em uma única vida, mas é comum receber mais algumas chances, num processo de reencarnação que também faz parte dos aprendizados evolutivos.

Segundo a Cabala, a alma humana é dividida em 3 partes básicas. A mais "baixa", chamada nefesh, é a parte animal, responsável pelos instintos e reflexos corporais; acima dessa estaria ruach, o espírito ou alma, média, que contém as virtudes morais e a habilidade de distinguir o que é bom e o que é ruim; a alma alta, neshamah, seria a terceira parte, que representa o intelecto e distingue o homem das outras formas de vida, por permitir a vida após a morte. É a neshamah que permite a percepção da existência de Deus.

Outras duas partes da alma humana são discutidas no Zohar: chayyah, que permite a consciência da força divina, e yehidah, a parte da alma que é alta o suficiente para atingir o maior nível possível de união com o Criador. "A meta é alcançar o propósito para o qual fomos criados: a equivalência de forma com a Força Superior. Todo o trabalho na Cabala tem esse objetivo", resume Marcelo Pinto (já citado). Na hipótese remota de a humanidade finalmente se unir ao Criador, em uma fusão completa e perfeita, o que aconteceria? O fim do mundo? O começo de uma nova e gloriosa Criação? Bom, isso nem mesmo os mestres cabalistas sabem responder...

O que parece não ter volta neste começo de milênio e entrada na Era de Aquário, é a busca por Deus fora dos templos. Ali não nos souberam conduzir. As notícias ao redor do mundo indicam principalmente os jovens fazendo importantes esforços como o do grupo de israelenses que se reúne em uma caverna perto da vila de Beit Meir, em Jerusalém, para estudar a Cabala. Uma vez por semana, cerca de 12 judeus ortodoxos se encontram nesta caverna perto da cidade sagrada para repetir um ritual antigo: analisar e discutir, por horas a fio, os textos de livros como o Zohar.
Noutra experiência, mais de 2 mil estudantes da Cabala se reuniram na Times Square, em Nova York, para celebrar a chegada do Ano-Novo Judeu, Rosh Hashana, em setembro de 2001. O canto, a dança e as vestes brancas são típicos de uma nova geração de cabalistas, que considera a festa, a celebração e a alegria tão importantes quanto a meditação e as longas sessões de estudo dos textos antigos.

Por outro lado, judeus ortodoxos e soldados israelenses rezam juntos na tumba do rabino Isaac Luria, em Safed, Israel. Luria, um dos mais importantes cabalistas de todos os tempos, foi o responsável pela renovação do misticismo no século 16 com a criação da Cabala Luriânica e a divulgação de seus ensinamentos para além dos círculos judaicos.

Rituais de certa forma esquecidos, estão de volta. O banho nas águas geladas da Mikve Há Ari, localizada em Safed, Israel, por exemplo, não pelo simples fato de se banhar na água fria. São cabalistas que repetem há anos o ritual, prestando homenagem ao rabino Isaac Luria, que teria utilizado as mesmas águas no século 16. Alguns se banham todos os dias, mas o mais comum é realizar o ritual na véspera do Shabat.

Existe também a preocupação com a pureza do culto e do rito. O cabalista Yitzhak Kadouri, um dos maiores estudiosos contemporâneos da Cabala, ganhou notoriedade por sua influência política e por suas declarações polêmicas quando, em 2004, durante visita de Madonna a Israel, ele se recusou a falar com a cantora, dizendo que "o estudo de Cabala é proibido para as mulheres, e também para os que não são judeus".


A Cabala como caminho – são muitos os caminhos – é mais uma proposta antiga que volta e pode se tornar uma alavanca mística neste mundo materialista.

terça-feira, 25 de março de 2014

1371-A Kabbalah


Deus-infinito

Assim como a religião judaica, a Cabala afirma que tudo o que existe vem de Deus. Entretanto, o Deus Único não é compreendido exatamente da mesma maneira. Se, para a religião tradicional, Deus é o todo-poderoso Criador de todas as coisas, para a Cabala, Ele não é somente o Criador, mas é também a Criação. Ou seja, a Criação não é dissociada do Criador, mas parte d’Ele.


A existência de Deus não seria, portanto, distinta do espaço e do tempo; o espaço e o tempo estariam contidos no próprio Deus-Infinito. Mas não vá pensando que já entendeu, porque isso não é assim tão simples. E nem imagine que essas racionalizações vão proporcionar a você um entendimento profundo de Deus. Por um simples fato: segundo a Cabala, ou mesmo a religião judaica, o Deus-Infinito não pode ser compreendido pela nossa mente física limitada. A mente menor (tomando a informática como exemplo), não tem como avaliar a mente maior.  

Claro que, apesar disso, os cabalistas não deixam de estudar esses ensinamentos, porque os consideram fundamentais para prosseguir no caminho da evolução espiritual. Um dos estudos mais importantes é justamente o que diz respeito à natureza da divindade. Para começar, os cabalistas preferem o termo Deus-Infinito - uma tradução para Ein Sof ou aquele que veio antes de tudo, que precede a Criação. Veja o que diz o Zohar sobre o Ein Sof: "Antes de dar qualquer formato ao mundo, antes de produzir qualquer forma, Ele estava só, sem forma e sem semelhança com qualquer outra coisa. Quem então pode compreender como Ele era antes da Criação? Por isso é proibido emprestar-Lhe qualquer forma ou similitude, ou mesmo chamá-Lo pelo Seu nome sagrado, ou indicá-Lo por uma simples letra ou um único ponto... Mas, depois que Ele criou a forma do Homem Celestial, Ele a usou como um veículo por onde descer, e Ele deseja ser chamado por Sua forma, que é o nome sagrado ‘YHWH’".

Pode parecer estranho não poder-se dar um nome a Deus, tornando-o de certa maneira inacessível para os homens. Afinal, se é assim, como pode existir uma experiência mística que permite esse acesso? Bem, a Cabala explica que o contato com Deus é realizado indiretamente, por meio de um de seus desdobramentos. "Para tornar-se ativo e criativo, Deus criou as 10 sefirot ou emanações. As sefirot formam a Árvore da Vida, que representa os aspectos de Deus existentes dentro de nós", explica o rabino Alanati. Ou seja, uma maneira de ter o contato místico com Deus é através de uma das 10 sefirot, as mesmas representadas no famoso diagrama da Cabala. Alanati explica que as 7 esferas mais baixas estão diretamente relacionadas com os 7 dias da Criação descritos no livro do Gênese.

A Gênese, pois, é um excerto da Cabala destinado aos não estudiosos dos ensinamentos sagrados.

Mas, como teria se dado exatamente a Criação? A Cabala tem um livro dedicado a esse tema: o já citado Sefer Yitizirah. O texto ensina que a primeira emanação do Ein Sof foi ruach (espírito/ar), que em seguida gerou fogo, responsável por formar água. A existência real dessas substâncias potenciais foi comandada por Deus, que as utilizou como matérias-primas de toda a Criação. Por exemplo, a água deu origem à terra, o fogo originou o céu e o ar ocupou o espaço entre eles para formar nosso planeta. Ainda segundo o Sefer, o Cosmos é dividido em 3 partes (cada uma delas contendo uma combinação dos 3 elementos primordiais): o mundo (ou, com alguma abstração, o espaço), o ano (tempo) e o homem.

A Cabala divide hierarquicamente o Universo em 4 planos de existência a partir da emanação do Ein Sof até nós. Nessa ordem, teríamos então: o Atziluth (Mundo da Emanação ou das Causas), que recebe a luz diretamente do Ein Sof; o Beri’ah (Mundo da Criação), onde não há matéria e onde moram os anjos de mais alta hierarquia; o Yitizirah (Mundo da Formação), onde a Criação assume forma material; e o Assiah (Mundo da Ação), onde se completa a Criação e se localiza todo o Universo físico e suas criaturas. No sistema luriânico, do qual falaremos adiante, um quinto mundo é mencionado, acima do primeiro, e que serviria de mediação entre o Ein Sof e o Mundo da Emanação.

 
Esse assunto prossegue.

segunda-feira, 24 de março de 2014

1370-A Kabbalah


A Kabbalah Hermética

O que é comum se fala, o que depende de iniciação é hermético, termo relacionado a Hermes Trismegistus, considerado o maior de todos os sábios do conhecimento sagrado. Hermético é aquilo que é fechado. Aquilo que ficou restrito a alguns grupos.

O conhecimento místico oculto é a Cabala Hermética. É aquilo que traz segredos dos símbolos de magia, das religiões, e que tem um propósito.
“Cabala “Hermética”, como é muitas vezes denominada, provavelmente alcançou seu apogeu na “Ordem Hermética do Alvorecer Dourado” (Hermetic Order of the Golden Dawn), uma organização que foi sem sombra de dúvida o ápice da Magia Cerimonial (ou dependendo do referencial, o declínio à decadência). Na “Alvorecer Dourado”, princípios cabalísticos como as dez emanações (Sephirah), foram fundidas com deidades gregas e egípcias, o sistema enochiano (de Enoch) da magia angelical de John Dee, e certos conceitos (particularmente hinduístas e budistas) da estrutura organizacional estilo esotérico - (Maçonaria ou Rosacruz).

A Cabala Hermética foge de um conhecimento ortodoxo, único, abrange muitos símbolos e significados, dança em muitas culturas, forma rituais e conceitos. Existe ali um forte sincretismo.


Normalmente falamos que o conhecimento cabalístico é : “A Kabbalah não distancia ninguém de seu dia-dia, do mundo físico, das suas leis, histórias e justiças, mas ela nos leva para os processos transmutativos. É pura alquimia!” A ideia da Cabala ser utilizada para nos transformar é algo mais novo. Na antiguidade ela era um meio para entender a criação, Deus, e para chegar mais próximo de Deus. Com isto, através dela, foram descobertas as fórmulas de como tudo acontece, a transformação era externa e não interna, dando origem à magia. Hoje a transformação é íntima.


Com toda certeza necessitamos de transformação e a Cabala é perfeita para isto. Acredita-se que ela foi dada ao homem para isto mesmo.
Mesmo assim, guarda, ainda, muitos mistérios. O conhecimento que nos chega diariamente ainda é um conhecimento pequeno e muito mais direcionado para autoconhecimento e até auto ajuda (mas, é uma pena vê-la ligada a esta palavra).


A ideia de trabalhar com um conhecimento ainda não revelado é fascinante. Uma boa parte do conhecimento não chega através das prateleiras das livrarias ou da internet. Então é necessário buscar mais além, é necessário oferecer-se a uma iniciação.


A Cabala Hermética inclui Alquimia e Magia. Reúne: os 4 elementos e seus simbolismos cabalísticos; o poder do feminino; as chaves para abrir sete portais; a essência da arvore da vida; Yoshua (Jesus Simbólico), o Messias; o poder da magia das letras hebraicas; o fluido vital; as leis herméticas.

domingo, 23 de março de 2014

1369-A Kabbalah


Parcerias poderosas

Durante o Renascimento (século XIV), a Cabala despertou interesse de grupos místicos cristãos, intrigados com a compatibilidade entre as duas tradições. O resultado foi a criação da Cabala cristã (ou católica), que levou novos níveis de interpretação aos textos sagrados cristãos. "Considero Jesus um mestre de Cabala", diz Ian Mecler (já citado em nossos escritos anteriores). Mas, não ficou só nisso, houve mais gente reunindo conhecimentos sagrados de outras fontes também. Um sincretismo mais profundo resultou no surgimento da chamada Cabala Hermética, que reúne ensinamentos de gnosticismo, alquimia, astrologia, religiões egípcia, greco-romana e pagãs, tarô, tantra, maçonaria, hermetismo, neoplatonismo, hinduísmo e budismo, em uma espécie de síntese de todas as tradições místicas ditas autênticas.

 
Outra variante é a Cabala prática, que trabalha com o uso da magia, incluindo a criação de amuletos e encantamentos, e teve seu apogeu na Idade Média. Mas, ainda tem resquícios por aí.

Além dessas tradições cabalísticas distintas, a própria Cabala judaica tem diferentes correntes. Uma delas é a já citada Cabala pop. Outra variante tem como expoente o Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute, fundado em 1991. Autodenominado o maior grupo de cabalistas em Israel, o Bnei Baruch não considera a Cabala um misticismo, mas "uma ferramenta científica para o estudo do mundo espiritual". A proposta deles para compreender o Universo é aliar os estudos científicos da física, da química e da biologia às ferramentas cabalísticas. Seu fundador e atual diretor, o filósofo Michael Laitman, é Ph.D. em Cabala pela Academia Russa de Ciências e mestre em biocibernética médica.

Além dessas e, claro, do judaísmo hassídico, existem outras correntes mais conservadoras, mais literais, mais flexíveis... "Cada escola se liga mais em um ou outro mestre", esclarece Mecler. As diferenças são na ênfase em cada aspecto da sabedoria, mas todas seguem a base comum dos textos sagrados e da tradição oral. "Existem muitos mestres, e cada um pode escolher aquele texto com o qual se identifica, mas não há diferença na base do ensinamento", diz Lemle. Afinal, como costumam dizer, "a Verdade é uma só". Que tal conhecer um pouco dela? Começaremos a abrir este assunto na próxima postagem.


sábado, 22 de março de 2014

1368-A Kabbalah


Mestres e discípulos

Durante séculos, especialmente após a destruição do segundo Templo em Jerusalém, pelos romanos, no ano 70, a sabedoria da Cabala foi cuidadosamente transmitida "por mestres iluminados somente a pequenos grupos de seus discípulos mais brilhantes e inspirados", conta Alanati. Os discípulos ideais eram homens maduros (de mais de 40 anos), pais de família, de comportamento exemplar e ávidos por descobrir os segredos do Universo. Não eram muitos, portanto, aqueles que se tornavam mestres e davam continuidade à transmissão do conhecimento oral.

Para boa parte dos cabalistas, as restrições tinham uma razão clara: o público não estava preparado para receber esses ensinamentos. "Esse é o principal motivo para a transmissão restrita", opina Mecler (já citado em postagem anterior). "Hoje, a evolução da ciência ajuda a compreender muitos dos ensinamentos antigos", diz ele. Mas o motivo de tanto segredo não era somente a escassez de discípulos ideais. Em diversas épocas, por razões diferentes, os judeus foram proibidos de professar publicamente sua fé - a perseguição aos cabalistas atingiu o clímax no século 16, durante a Inquisição. Além disso, "a cabala contém uma reinterpretação revolucionária do texto bíblico, que usa uma simbologia complexa e uma linguagem ambígua", diz Alanati. Por causa disso, em muitas ocasiões os cabalistas foram considerados hereges. Até hoje, o estudo da cabala é condenado por várias vertentes do judaísmo.

Entre o período final da Idade Média e o início da Idade Moderna, houve um ressurgimento da cabala. No século 13, o Zohar foi distribuído pelo escritor espanhol Moisés de León; no século 16, os conhecimentos foram sistematizados pelo místico Moisés Cordovero, um dos sábios a se refugiar na cidade israelense de Safed; em seguida, Isaac Luria divulgou novas interpretações dos ensinamentos, que foram espalhados por vários mestres pela Europa, fazendo da cabala a teologia dominante em círculos escolásticos e no imaginário popular judaico; e, no século 18, o rabino Baal Shem Tov fundou o hassidismo, variante ortodoxa do judaísmo que ensinava uma versão mais "fácil" da Cabala. De todo modo, "a essência é a mesma há 4 mil anos", diz Mecler. "O conhecimento não muda, assim como as leis da física não mudam. Muda só a forma de transmitir", diz Lemle.

Hoje, com o advento da internet, o conhecimento da cabala é acessível a qualquer interessado, ainda que de forma simplificada. "Estamos prontos, então a hora chegou", conclama Lemle. No século 20 foram feitas diversas traduções do Zohar para o hebraico moderno (o idioma original é o aramaico) e para o inglês (não existe uma versão completa em português). Mas o fator que mais contribuiu para a popularização da mística judaica foi a recente adesão (desde a década de 1990) de celebridades como Madonna, Mick Jagger, David Bechkam, Britney Spears e outras personalidades ao judaísmo cabalístico.

A organização responsável pelo surgimento da Cabala pop é o Kabbalah Centre, uma escola de Cabala fundada em 1984 na cidade de Los Angeles. Lá, como você pôde perceber ao ler o nome dos famosos, o acesso aos ensinamentos não é restrito a judeus. "Temos alunos de várias religiões", diz Yehuda Berg, um dos coordenadores do centro americano. "Não vejo problema nisso".

Nem todos estudiosos aceitam a ideia de que a cabala deva ser acessível a todos. A atitude do Kabbalah Centre provocou reações indignadas de cabalistas mais tradicionais, como o iraquiano Yitzhak Kadouri, um dos mais importantes estudiosos da Cabala no último século. "A cabala não é moda", disse em 2004, comentando a adesão de Madonna ao misticismo. "Ela deve ser estudada somente por judeus".

Controvérsias à parte, a verdade é que a Cabala ganhou milhares de aspirantes de diversas religiões nos últimos anos. Mas essa não é a primeira vez que acontece esse tipo de "sincretismo". Veja a seguir como diversas crenças e religiões encontraram na Cabala uma parceira de peso.


sexta-feira, 21 de março de 2014

1367-A Kabbalah


Uma tradição oral de muitos séculos

Para entender melhor de onde vem a Cabala vamos dar uma espiada no passado.

Seja qual for o primeiro e privilegiado homem a ter recebido o conhecimento esotérico da Cabala, o que ninguém discute é que ou se os ensinamentos foram transmitidos oralmente ao longo de muitas gerações, até que alguém resolvesse eternizá-los na escrita ou se eles vieram pouco a pouco até se integrarem num todo.

Os primeiros escritos conhecidos com referências a esses ensinamentos datam do século I. São livretos reunidos numa coleção chamada Heichalot ("Os Palácios"), espécie de portais, que versam sobre os passos necessários para ascender evolutivamente através de 7 palácios celestiais, com ajuda de espíritos angelicais. Mas os livros mais importantes da Cabala são o Sefer Yitizirah (Livro da Criação) e o Zohar (Livro do Esplendor), ambos de origem incerta. O primeiro teria sido escrito no século II e o seu autor é desconhecido. No caso do Zohar, a situação é ainda mais complexa. Para alguns cabalistas, ele foi escrito pelo rabino Shimon bar Yochai, também no século II. A maioria dos estudiosos, porém, acredita que o Livro do Esplendor seja de autoria do escritor judeu-espanhol Moisés de León, que divulgou os manuscritos no século XIII.

Embora o Sefer Yitizirah e o Zohar concentrem em suas páginas os principais ensinamentos da Cabala, é importante lembrar que a Torá é tão importante quanto eles. Isso porque, segundo a Cabala, a Torá contém ensinamentos preciosos codificados dentro do texto sagrado - decifrar esses ensinamentos ocultos é, por sinal, um dos principais propósitos do misticismo judaico.

Uma das maneiras de interpretar a Bíblia hebraica é recorrer a códigos e números: a guematria, face matemática da Cabala, atribui valores numéricos a cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico. A ordenação dessas letras no texto bíblico seria uma das maneiras que Deus teria encontrado para revelar ao homem os segredos do Universo.

As interpretações da Torá são tão importantes que foram divididas em 4 níveis de profundidade:

O 1º nível, Peshat, é aquele com que todos leitores estão acostumados, mais simples, que compreende o sentido literal do texto;

O 2º, Remez, já considera os significados alegóricos da linguagem (alusões);

No 3º nível, Derash, entram comparações entre trechos similares e metáforas.

O 4º e último nível seria aquele que compreende o sentido secreto e misterioso da mensagem divina: Sod.

Juntos, os nomes das interpretações já possuem um significado próprio. Combinando-se as primeiras letras de cada um, obtém-se a palavra PaRDeS, que significa “paraíso” e remete à finalidade última do esforço de interpretação. Isto é, ao finalmente compreender a mensagem que Deus colocou nos textos sagrados, o cabalista receberia de volta o conhecimento do paraíso, como se lhe fosse devolvida a chave para retornar ao Éden, do qual Adão foi expulso por desobediência.
 
"É como uma gota retornando ao oceano, de volta à realidade divina. Não é um processo fácil", diz o rabino Leonardo Alanati, da Congregação Israelita Mineira.

quinta-feira, 20 de março de 2014

1366-Kabbalah


União com o criador

Ao redor do mundo se pode constatar que ao lado de um conhecimento religioso popular sempre há um ensinamento velado que, para obtê-lo, o candidato precisa ser iniciado. Grosso modo, a Cabala está para o judaísmo assim como o gnosticismo está para o cristianismo, o sufismo está para o islã e a Pistis Sophia está para a Filosofia.


Gnosticismo e sufismo são as correntes místicas ligadas respectivamente às tradições cristã e muçulmana. E a Cabala completa o quadro enfeixando o conhecimento místico judaico. Como misticismos, essas três correntes têm muito em comum (como se poderá ver). A maior parte das diferenças está no modo de transmissão do conhecimento, adaptado à tradição em que aquele tipo de misticismo se desenvolveu. Este raciocínio não vale apenas para as três religiões derivadas de Abraão (patriarca hebreu e das religiões judaica, islâmica e cristã), mas também para as místicas orientais, como hinduísmo, tao e budismo, além do zoroastrismo na Pérsia, só para citar as mais conhecidas.

Se a Cabala é um tipo de misticismo, talvez seja o caso de explicar: o que é misticismo? Em poucas palavras, é a crença na possibilidade de percepção, identidade, comunhão ou união com uma realidade superior, representada como divindade(s), verdade espiritual ou o próprio Deus Único, por meio de forte intuição ou de experiência direta em vida. Na intenção de atingir esse tipo de experiência, as tradições místicas fornecem ensinamentos e práticas específicos, como meditação e aperfeiçoamento pessoal consciente.

Nosso foco nesta série, porém, é a Cabala, sem deixar de contextualizar no que for coerente as similitudes com outras ciências religiosas.

Já que abrimos um parêntese para falar do misticismo, aqui abrimos outro para falar da iniciação. Você, leitor, por certo conhece a razão de ser dos conselhos profissionais como OAB, CREA, CRM, CRA, pois não? Quem pode registrar-se lá? A resposta certa é: aqueles que receberam e comprovam os conhecimentos que os credencia a serem reconhecidos como tal. A isso se chama INICIAÇÃO.

Imagine que pudessem surgir cursos de direito, engenharia, medicina, administração não legalizados e que os conteúdos de seus ensinamentos pudessem ser entregues ao mercado onde advogados, engenheiros, médicos e administradores com aptidão inferior ao nível exigido e em que tudo isso passasse a ser rotina na sociedade. Ao longo de uma década as ciências dessas quatro áreas tomadas como exemplo já estariam deturpadas e com um pouco mais de tempo também os profissionais teriam perdido a credibilidade. O charlatanismo estaria institucionalizado em substituição à responsabilidade profissional. Acabar-se-iam as ARTs – Anotações de Responsabilidade Técnica.

Mais fácil ainda é a perversão de um conhecimento místico para o qual não se exige um curso superior nem o registro em um conselho ou ordem profissional. Em alguns anos aqueles, digamos, segredos zelosamente guardados pelos mestres da área teriam virado fofoca de esquina.

As responsabilidades com a aplicação do direito, com as construções, com a saúde e com a gestão de negócios exigem que seus manipuladores tenham competência e respondam civil e criminalmente por aquilo que recomendam e fazem. Nada diferente quando se lida com a alma humana. Seu enorme valor não pode ser deformado por curiosos que se atiram no métier sem conhecê-lo.

Você gostaria de ser enganado, ludibriado, vítima de engodo em se tratando de lidar com as coisas da alma?

quarta-feira, 19 de março de 2014

1365-A Kabbalah


O misticismo judaico revelado

Qual a origem do Universo? Por que estamos aqui? De onde vem a vida? O que acontece depois da morte? Imagine se você pudesse fazer todas essas perguntas diretamente para a autoridade máxima no assunto. Isso mesmo: que tal ter uma conversa com Deus e ouvir dele todas as respostas?

Agora imagine que as respostas já existem, e foram passadas de geração a geração por um grupo de sábios estudiosos, do início dos tempos até os dias de hoje.

Pois essa é a definição da Kabbalah que na língua portuguesa se escreve Cabala. E que por uma questão de linguagem iremos aportuguesar a escrita.

O que é a Cabala? Uma revelação feita por Deus para os homens, capaz de esclarecer todos os mistérios que rondam a humanidade.

Conheça aqui a história do misticismo judaico e saiba como a Cabala está conquistando o planeta.

(Este texto tem a participação de escritos de autoria de Daniel Schneider)

No princípio, Deus criou os céus e a Terra. "Faça-se a luz", e a luz foi feita. Depois, Deus criou o homem e o chamou Adão. Findos os 7 dias da Criação, o Senhor viu que tinha feito algo bom. O homem habitava o Paraíso e tinha contato direto e constante com Ele. E daí Deus resolveu passar ao homem toda a sabedoria da Cabala. "Adão conhecia a Cabala", dizem alguns praticantes.

O assunto, porém, é controverso entre os próprios cabalistas. Teria o conhecimento da Cabala sido passado de Adão a seus descendentes até Noé, depois até Abraão, Moisés e em seguida aos grandes mestres históricos, que selecionavam rigorosamente aqueles que estariam aptos a serem seus discípulos?

Não há consenso sobre o momento em que a Cabala foi revelada ao homem, mas todos os cabalistas concordam que o ensinamento sagrado veio diretamente do Criador, assim como os 613 mandamentos judaicos contidos na Torá, a bíblia judaica, que os cristãos chamam de Pentateuco. "A Cabala é além do tempo, ela não tem nem começo nem fim", diz o rabino israelense Joseph Saltoun, ex-professor do Centro de Estudos da Cabala, em São Paulo, e que hoje leciona em Vancouver, no Canadá.

Mas, o que contém a Cabala?

Bem, para tornar mais simples a tarefa de explicar, vamos começar dizendo o que ela não é. Ok? Cabala NÃO É religião, auto-ajuda, superstição, magia, bruxaria, sociedade secreta, meditação, adivinhação, interpretação de sonhos, ioga, hipnose ou espiritismo, embora possa estar relacionada a todas essas coisas.

Agora fica mais simples entender o que a Cabala É: um conjunto de ensinamentos sobre Deus, o homem, o Universo, a Criação, o Caminho, a Verdade e coisas afins; uma revelação de Deus para o homem. "Ela nos diz por que o homem existe, por que nasce, por que vive, qual é o objetivo de sua vida, de onde vem e para onde vai quando completa sua vida neste mundo", diz Marcelo Pinto, representante do Centro de Cabala, Bnei Baruch, no Brasil.

"O ser humano tem muitas questões, e a Cabala é um caminho espiritual que permite trazer de volta o elo com a verdadeira origem de tudo", explica Ian Mecler, professor de Cabala no Rio de Janeiro e escritor do livro “O Poder de Realização da Cabala” (Editora Mauad). Para Shmuel Lemle, professor da Casa da Cabala, também no Rio, "nada acontece por acaso. Existem leis de causa e efeito. Assim como existem leis físicas como a lei da gravidade, existem leis espirituais".

Independentemente de quando a Cabala tenha surgido, o modo como a conhecemos hoje é o resultado da transmissão desses ensinamentos por meio da tradição judaica. A palavra Cabala
(em hebraico: קַבָּלָה,), cuja pronúncia mais próxima do original é "cabalá") significa receber/ recebimento/ tradição. A Cabala é uma forma de misticismo, pois ensina que é possível ao homem ter contato direto com esferas superiores da realidade, ou mesmo com manifestações do próprio Criador. Portanto, de um modo simplificado, a Cabala é o misticismo judaico, ou a corrente mística ligada à tradição do judaísmo, para ser mais exato.

Este é o tema desta série.

terça-feira, 18 de março de 2014

1364-As deusas e a feminilidade


Nem só homem, nem só mulher, os dois

Seres esféricos, fortes, vigorosos, tentam galgar o Olimpo, a montanha sagrada onde moram os deuses gregos. Querem o poder. Possuem os dois sexos ao mesmo tempo, quatro mãos, quatro pernas e duas faces idênticas, opostas. Diante do perigo, o chefe de todos os deuses, Zeus, decide cortar ao meio os andróginos (do grego andrós, aquele que fecunda, o macho, o homem viril; e guynaikós, a geratriz, mulher, fêmea).

“Sede humildes”, podemos supor que trovejou o grande Zeus, arremetendo os raios que apavoraram os tempos anteriores à descoberta do fogo. Ao enfraquecer o homem e a mulher, assim criados, Zeus condenou cada metade a buscar a outra, o desejo extremo de reunir-se e curar a angustiada e ferida NATU-REZA humana.

Este, resumidamente, é o mito do amor tal como o filósofo grego Platão (428-348 a.C.) o descreveu nos diálogos de “O banquete”, reproduzindo o relato feito por Aristófanes, o mais famoso comediógrafo grego (450-388 a.C.), durante um jantar e simpósio (encontro) onde se tomava vinho e se trocavam ideias.

Estava presente, entre muitos outros convidados ilustres, o filósofo Sócrates (470-399 a.C.). Deve ter sido uma noitada daquelas, mas não se pode dizer que começou ali a preocupação da humanidade com a androginia. Numerosas cosmogonias, anteriores à civilização grega, explicaram o mundo a partir de um ovo primordial, o símbolo da fertilidade.

Para a Biologia, andrógino é o ser que possui os dois sexos ao mesmo tempo e é capaz de reproduzir-se sozinho (não no caso dos humanos). O mesmo que hermafrodita. Mas, para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é, sobretudo, um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo. “O que está em jogo é o papel social desempenhado pelo indivíduo. A pessoa andrógina não precisa ter, necessariamente, comportamento sexual ambíguo”, explica o sexólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade. Ele dá exemplos de incorporação de papéis sociais do sexo oposto: o homem que não tem vergonha de chorar e expor sentimentos, cuida dos filhos, participa das tarefas domésticas, ou a mulher que impõe opiniões, assume o sustento da casa, exerce profissões consideradas “masculinas”.

O psicanalista Renato Mezan, da Pontifícia Universidade de São Paulo, expõe com clareza: “São fatores sociais que aos poucos esfumaçam as diferenças entre os gêneros e embaralham a consciência que homens e mulheres tinham de sua identidade e função social. Por isso é impossível explicar a androginia apenas em termos psicológicos. Ela não é uma opção sexual e está no plano do consciente”. Entre as vanguardas culturais, é verdade, sempre existiram andróginos — artistas, burgueses contestatórios, suf-fragettes (militantes femininas que exigiam o direito de votar). Mas com certeza nunca a confusão foi tão grande como agora.

“A diferença entre os gêneros diminuiu com a entrada da mulher de classe média no mercado de trabalho, principalmente em posições executivas, o que fica mais evidente nos Estados Unidos”, observa a antropóloga Bela Feldman-Bianco, da Universidade de Campinas, São Paulo. “O fenômeno nada tem a ver com a Biologia. Um número crescente de mulheres reage contra a estereotipia dos papéis sexuais. Não querem mais saber se ‘isso é coisa de homem ou de mulher”. Ela acredita que muito da androginia moderna veio do movimento feminista americano, que identificava o feminino como conservador. E do gosto gay na moda, na beleza, na decoração. Renato Mezan reconhece com clareza: falta ao homem tranqüilidade para executar atributos do outro sexo sem sentir-se diminuído. “Assumir os dois lados da sexualidade e da sensualidade ainda é uma questão de caso a caso. De outro lado, negar as diferenças pode gerar um híbrido, nem isso nem aquilo. Aí, há privação das qualidades de ambos”, expõe.

O dilema provoca ásperas discussões. Radical, Camille Paglia, professora de Literatura da Universidade de Arte da Filadélfia, nos Estados Unidos, sustenta no livro “Personas sexuais” que a androginia não passa de arma das feministas contra o princípio masculino: “Serve para anular os homens, significa que eles devem ser como as mulheres, e as mulheres podem ser como quiserem”. Ela acredita, em todo caso, que o culto do masculino será preservado graças aos gays — o que não deixa de ser, também, uma inversão. Menos contundente, o estilista e cabeleireiro Diaullas de Ná, de São Paulo, oferece sua opinião: “A androginia é um jogo lúdico, em que o homem projeta seu lado masculino na mulher, e a mulher projeta seu lado feminino no homem. Um jogo que globaliza, traça um círculo de 360 graus em torno do outro, totalmente diverso do homossexual, autocentrado, ou do bissexual que separa com rigidez o masculino do feminino”.

Empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato, há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não pára de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas ideias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambigüidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”.

O problema está no risco de perder-se a nitidez dos gêneros, pois, como analisa Renato Mezan, as pessoas nesse caso aderem a modas em busca de orientação: “Em geral, as tendências são mais rigorosas do que as anteriores, gerando um espírito de gangue”. É o temor da antropóloga Cynthia Sarti, da Universidade de São Paulo: “Acho que existe alguma coisa perversa na androginia, pois faz supor algo que não é: impõe uma imagem sem sugerir nenhum novo masculino ou feminino. Nega as diferenças. Sinto a idéia como totalitária e nada mais nocivo à humanidade do que posturas antidemocráticas”.

Pode ser, mas convém lembrar que a intenção, por trás dos modismos em geral, e da androginia em particular, agora, depende sempre do contexto social. Por exemplo, na Alemanha pré-nazista dos anos 20, os cabelos curtos usados pelas mulheres eram uma contestação ao ideal feminino pregado pelos nazistas, que pensavam nas mulheres como robustas valquírias de longos cabelos loiros, engomadas nas suas roupagens regionais, vivendo em regime de dedicação exclusiva aos três “K”: Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja). Vestir-se como homem, pensar e agir como um marxista era ser mesmo muito do contra.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.“O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro “Dimensões simbólicas da personalidade”.

A psicóloga Leniza Castello Branco, de São Paulo, completa e clarifica o raciocínio: “A mulher recupera seu lado masculino sem tornar-se lésbica, e o homem seu lado feminino sem tornar-se gay”. Para essa psicoterapeuta, a androginia traria um retorno do reprimido: o corpo, o sexo, a magia, o feminino. “Por causa do reprimido existe carnaval em todas as culturas”, explica. “Permite-se a vivência do contrário, a inversão. O pobre se veste de rico, o homem se veste de mulher, alguns se fantasiam de animais. O carnaval é a festa de Dionísio, o deus pagão que representava o campo, a fertilidade, o vinho. Ele nasceu da coxa de Zeus (homem), um andrógino, pois gestou um filho”. E assim o carnaval é a liberdade que a cultura católica sequestrou.

Os primeiros andróginos explícitos da atual voga no Brasil começaram a aparecer na década de 70, inspirados em cantores pop americanos e, logo em seguida, brasileiros. Naquela época não se viam, como hoje, homens e mulheres anônimos vestidos e penteados com tal ambigüidade — terninhos, tênis, mocassinos, cabelos quase recos —, capazes de provocar tanta confusão que fica impossível distinguir uns das outras. “Em caso de dúvida é mulher”, ensinam os moradores de San Francisco, talvez os americanos mais acostumados a conviver com a androginia em voga em todo o mundo.

Aliás, é da psicoterapeuta americana June Singer, autora do livro “Androginia — rumo a uma nova teoria da sexualidade”, a comparação do andrógino com o ovo fecundado. Ela considera que, por reunir características psicológicas abrangentes, a androginia é a chave do futuro. Talvez seja um exagero, mas, para que dela fique alguma marca indelével na história humana, será preciso que assuma resolutamente o que é específico de cada gênero. Sem prejuízo da divisão de responsabilidades sociais e sem a soberba dos seres esféricos que pretenderam invadir o Olimpo. Haverá mais chances de sucesso na vida afetiva e profissional e nenhuma necessidade de invejar os deuses.

Tenho dito.

segunda-feira, 17 de março de 2014

1363-As deusas e a feminilidade


Que batalha, hein, meninas?

Novos tempos, novos e importantes acontecimentos. A revolução Francesa e a Revolução Industrial, por exemplo, frutos do chamado Iluminismo, foram episódios históricos decisivos. Estes fenômenos promovem grandes mudanças na organização familiar, política, jurídica, cultural, religiosa. O trabalho é transladado para o mundo público, mas as tarefas domésticas ficam no mundo privado, ao encargo das mulheres.

Contudo, a nova organização mantém a mesma hierarquia familiar anterior, já que é o homem que sai da casa para trabalhar e é o único responsável pelo sustento da família, até então.

Com o surgimento do capitalismo, tem valor o trabalho que é remunerado. O trabalho doméstico é soldado (pago com soldo e não com salário) e, portanto, “não tem valor” (ideia que se mantém até hoje!). Isto se configura como o prolongamento da ideologia da inferioridade da mulher. Alguns personagens, que possuíam voz naquele período, fizeram algumas afirmações:

* Jean-Jacques Rousseau (filósofo): “A função da mulher é a de mãe, esposa, cuidar da casa e educação dos filhos”.

* Charles de Montesquieu (político e filósofo): ”A desigualdade entre o homem e a mulher é uma injustiça, já que a ideia de inferioridade não reside na natureza e sim na falta de educação e pouca cultura”.

* François Marie Arouet (mais conhecido como Voltaire - filósofo iluminista): “A educação sólida levaria as mulheres a serem boas mães e esposa, pois o matrimônio se realiza por amor e inteligência. O homem encontra na mulher um complemento de sua imagem”.

Podemos deduzir, sem muito esforço, que o discurso mudou, mas a hierarquia familiar e o papel da mulher continuaram os mesmos. Voltando a Engels: “A emancipação da mulher só se tornará possível quando ela puder participar, em grande escala social, da produção, e o trabalho doméstico lhe tomar um tempo insignificante”.

Ledo engano!!! Nem o filósofo do comunismo estava tão certo.

Hoje a mulher não rica participa da produção e é também responsável por todo trabalho doméstico, arcando assim com duas (e até três) jornadas diárias de trabalho.

A época atual, embora mudada, teve início com o amadurecimento das ideias iluministas disseminadas pela Revolução Francesa, que contribuíram com o progresso científico na busca de novos conhecimentos para entender a sociedade e o homem (notem que os diversos estudos sobre a humanidade se referem ao ser humano como o homem... Onde foram parar as mulheres?!) 

Este período é marcado por acontecimentos que foram responsáveis pelas maiores catástrofes já registradas na História, como a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a criação da bomba atômica, a Guerra Fria, as guerras de Independência de várias nações, etc. Também foi o período em que foram buscadas novas alternativas para a convivência social, como o sistema comunista teorizado pelo pai do socialismo, Karl Marx. Sistema este que, diferentemente do capitalismo, coloca como valor maior o ser humano e não o capital. Com o uso intensivo de homens nas guerras, a mulher começa despontar como força de trabalho dentro e fora do lar.

Por volta dos anos 1930, a sociedade conservadora primava pelos chamados “bons costumes”. As mulheres eram as principais vítimas, pois estavam presas, através das restritas possibilidades de trabalho externo à sua família, “acorrentadas” econômica e sexualmente, sem escolhas democráticas para casarem-se, divorciarem-se ou ficarem solteiras e com liberdade sexual.

Nessa época começou a ter importância estudos que girassem em torno das origens e causas da posição subordinada das mulheres e o porquê dessa situação perpetuar-se ao longo da história. Caracterizava-se como um movimento social, filosófico e político tendo como meta direitos iguais e uma vivência humana liberta de padrões opressores baseados em normas de gênero. A maior parte dos movimentos e teorias feministas tiveram como líderes principalmente mulheres brancas de classe média, da Europa Ocidental e da América do Norte. O feminismo acaba sendo mais voltado para as mulheres brancas de classe média-alta.

Nos segmentos mais oprimidos de desigualdades econômicas, étnicas e sexuais, em qualquer parte do mundo, cresce número de mulheres que, mesmo assumindo o papel de chefes-de-família, não tem o mesmo valor de quando o homem ainda faz parte do grupo.

Mas vamos mencionar algumas estatísticas que abordam a realidade da mulher no mundo atual:

* Quando se considera a criação dos filhos e o trabalho doméstico, as mulheres trabalham mais do que os homens, quer no mundo industrializado, quer no mundo subdesenvolvido (20% a mais no mundo industrializado, 30% no resto do mundo).

* As mulheres detêm apenas 1% da riqueza mundial, e ganham 10% das receitas mundiais, apesar de constituírem mais da metade da população.

* As mulheres estão sub-representadas em todos os corpos legislativos mundiais.

* Em média, mundialmente, as mulheres ganham 30% menos do que os homens, mesmo quando têm o mesmo emprego.

Conclusão

O conhecido psiquiatra Sigmund Freud afirmava: “Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?” Meu caro professor, a resposta é simples, consiste em respeitá-la nos relacionamentos familiares, afetivos e profissionais como consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Os direito humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de etnia, sexo, nacionalidade, idioma, religião ou qualquer outra condição. Os direitos humanos incluem o direto à vida e a liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direto ao trabalho e à educação. Todos merecem estes diretos sem discriminação”.

Aí está o quebra-cabeça, cujas peças são a história das mulheres durante o caminhar da humanidade. Acredito que os componentes da “cola” que liga estes quadros tem muito a ver com a força da propriedade dos bens e da maioria das ideologias religiosas que, indo ao encontro dos interesses dos poderosos, tem conseguido manter essa injustiça na mente de homens e, infelizmente, também das mulheres. “O sucesso dessas ideologias consiste em manter escondidas as causas dos fenômenos sociais, ou seja formam parte do inconsciente ideológico. A sociedade, ao invés de corrigir as distorções da realidade, através da educação social saudável, buscando que todo ser humano possa ter direitos e oportunidades iguais faz justamente o trabalho de manutenção perversa de atitudes que só depõem contra a humanidade, pois são embasadas em interpretações que iniciam e se fixam – por conveniências de alguns – nas aparências”, afirma Dermeval Corrêa de Andrade.
 
Na próxima e última postagem da série talvez possamos buscar algum equilíbrio.