segunda-feira, 31 de março de 2014

1277-Destino e Livre Arbítrio


Plantar a dor

Toda a ação humana pressupõe a dor, não tomada a dor como reprimenda ou castigo. A dor não é nossa inimiga, ela existe para denunciar irregularidade, quebra de paradigma, crescimento, encolhimento, mudança, avanço, estagnação. A dor, não só a imediata, que nos força a optar por algo em detrimento de todo o resto que deixamos, como a dor seguinte, previsível ou não, acarretada pelas conseqüências que advém de nossas escolhas, decididamente, a dor é o fiscal que aponta as alterações.

Há a possibilidade de o destino ser aquele irmão ciumento, invejoso da capacidade humana de ser livre. E não raro, cruel, capaz de enredar em suas malhas as nossas frágeis liberdades diferenciadas, dignas de compaixão.

Os gregos, em época anterior a Homero (século 9 a.C.) já admitiam que nossa existência desde o instante do nascimento estava predestinada. Imaginavam, no Olimpo, morada dos deuses, a presença de três Moiras a decidir por nós (Parcas, entre os romanos - Termo com origem no verbo meiresthai, designando aquilo que se obtém por sorte ou partilha. Literalmente traduz-se por “pedaço, quinhão, aquilo que nos cabe por destino”).

Sem personificação no princípio, depois representadas por figuras femininas, foram batizadas de Cloto – aquela que fia; Láquesis – aquela que mede ou lança a sorte; e Átropos (a = sem; tropein = voltar) – aquela que, inflexível, corta com sua tesoura o fio de nossas vidas, sem jamais retroceder em suas decisões.

Homero também as denominava em seu dialeto árcade-cipriota de Aîsas, cujo sentido é fiar.

Segundo Hesíodo, poeta beócio do século 8 a.C., as Moiras são filhas de Nix (noite), que por sua vez é filha de Caos, o espaço aberto primordial, do qual se originou o Cosmos.

Então se ficarmos olhando lá atrás, as moiras eram, sim, comandantes do destino de cada mortal. Hoje, com base nos novos conhecimentos sobre o poder da mente, já se pode mudar esse entendimento ao afirmar que o foco mental de cada pessoa lança a sorte por cujo projeto se fia o tecido que irá servir de abrigo para a alma, até que a tesoura mortal venha romper esse tecido para libertar a prisioneira temporária, a alma.

O mais cruel de tudo, é que essas teorias gregas viajaram para dentro de outras culturas nas mochilas alexandrinas durante o regime helênico e acabaram guardadas nos arquivos de Roma, na sequência, servindo de sustentação das colunas da igreja romana.

Havia tanta coisa boa na cultura celta e de uma dezena de outros povos primitivos, não bárbaros, mas acusados de barbárie porque não eram cristãos, e foi tudo abandonado, desprezado, condenado como coisas pagãs. Pois, sim.

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