domingo, 9 de março de 2014

1355-As deusas e a feminilidade


Ísis e tantas outras

Cultuada no Egito e no mundo greco-romano (anterior ao helenismo/ cristianismo), a deusa Ísis representava a energia transformadora. Casada com o deus Osíris, morto pelo próprio irmão, Ísis não sossegou enquanto não lhe restituiu a vida. A lenda conta que as enchentes do Nilo eram causadas pelas lágrimas da deusa que pranteava a morte do amado. Por isso, as festas em sua homenagem coincidiam sempre com a época das cheias. É evidente que, ao festejá-la, os egípcios comemoravam por tabela a generosa fertilidade trazida pelo rio Nilo, porém sob a influência da deusa. É diferente das sucessivas pragas mandadas, depois, então, pelo deus macho. Nos primeiros séculos cristãos, Ísis passou a ser identificada com Maria. Nada a ver, mas os sacerdotes romanos quiseram assim.

Já a deusa Brighid, cultuada pelos celtas, ancestrais dos irlandeses, foi transformada pelo cristianismo em Santa Brígida. Aqui também algo forçado demais. A veneração daquele povo por Brighid era tanta que ela era chamada simplesmente "a deusa". Dona das palavras e da poesia, era também a padroeira da cura, do artesanato e do conhecimento. As festas em sua homenagem se davam no dia 1º de fevereiro, antecipando a chegada da primavera.

Na história cristã, Santa Brígida nasceu no pôr-do-sol, nem dentro nem fora de uma casa, e foi alimentada por uma vaca branca com manchas vermelhas. Na tradição irlandesa, celta, antiga, a vaca era considerada sobrenatural, porém não sagrada como na Índia.

Por influência outras na pátria em que a escravidão era admitida pelo deus católico, a data de Iemanjá (um orixá da Umbanda) – porém como Nossa Senhora dos Navegantes – foi parar em 2 de fevereiro. Outra adaptação: enquanto os celtas celebravam o Halloween – depois colado indevidamente ao dia das bruxas – para permitir conversações das pessoas com seus ancestrais mortos, a Igreja Romana instituiu para dois dias mais tarde o dia de finados, um rito que leva aos cemitérios uma multidão para enfeitar túmulos como se a vida dos falecidos ali estivesse.

Iemanjá ganhou o status de mãe de filhos e filhas serenos, maternais, sinceros, que ajudam a todos sem exceção. Gostam muito de ordem, hierarquia e disciplina. São ingênuos e calmos até demais, mas, quando se enfurecem, são como as ondas do mar, que batem sem saber onde vão parar. São vaidosos mais com os cabelos. Suas filhas sabem seduzir e encantar com a beleza e mistérios de uma sereia. Geralmente, as filhas de Iemanjá têm dificuldade em ter filhos, pois já são mães de coração de todos.

Antes mesmo da chegada das religiões monoteístas, os mitos dizem que o convívio entre deuses e deusas começou a se tornar difícil e a igualdade dos poderes divinos começava a ficar abalada.

Assim, por exemplo, Amaterazu, a deusa japonesa do Sol, de quem descendiam os imperadores (no país que tem o Sol por símbolo), não se dava muito bem com o deus da tempestade. Conta a lenda que certo dia ele foi visitar os domínios da deusa e acabou por destruir seus campos de arroz. Furiosa, Amaterazu resolveu vingar-se trancando-se numa caverna — o que deixou o mundo às escuras. Depois de um tempo, como ela não saísse da caverna, uma multidão de deusas e deuses menores decidiu armar uma estratégia para convencê-la a mudar de idéia. Assim, colocaram diante da caverna um espelho que refletia a imagem do deus da tempestade, como se ele estivesse enforcado numa árvore, e começaram a dançar. Atraída pela música, a deusa decidiu sair para ver o que acontecia. Ao deparar com a imagem no espelho ficou feliz e voltou ao mundo. Com isso, tudo se normalizou e os dias continuaram a suceder às noites. A lenda japonesa pode estar associada à Era Glacial.

Outro exemplo dos conflitos entre as divindades é o caso da deusa grega Deméter e seu marido Hades, o deus do mundo dos mortos. Eles começaram a brigar pela guarda da filha Perséfone e a questão só foi resolvida com a mediação de Zeus, o deus supremo do Olimpo. Salomonicamente, ele determinou que a menina ficasse com cada um seis meses por ano. Algo a ver com o inverno e o verão.  

Das deusas veneradas no mundo antigo não houve tantas nem tão famosas (ao menos nos escritos) como as da mitologia greco-romana. Afrodite (Vênus, em Roma) talvez fosse a mais popular de todas, por encarnar o amor e as formas belas da natureza. Mas, a esta altura dá para compreender que a fama da venusiana patronesse dos afrodisíacos tenha ganhado amplitude com a macharia.

Já Ártemis (Diana) era a caçadora solitária, senhora dos bosques e dos animais. Seus lugares preferidos eram sempre aqueles onde o homem ainda não tinha chegado. Atena (Minerva) protegia a cidade, as casas e as famílias.

Nesses tempos recentes em que se dá tanta importância ao lado violento humano, destrutivo, talvez se explique por que a deusa hindu Kali Ma apareça com sucesso no filme de Steven Spielberg, “O templo da perdição”, como a encarnação da violência. Ela é a sanguinária figura em nome da qual se matam e se torturam adultos e se escravizam crianças.

No entanto, para os hindus, mais especialmente para os tantras — adeptos de uma derivação do hinduísmo —, Kali é a deusa da transformação e nesse sentido, mais filosófico, é que ela é destruidora, da mesma forma como a passagem do tempo destrói o velho para que o novo possa nascer. Assim é a lei na floresta, nas águas, no reino dos ventos e do fogo. Representada como uma mulher negra com quatro braços e uma serpente na cintura, Kali pode aparecer também com um colar de crânios no colo e uma cabeça em cada mão. Em seus templos, espalhados por toda a Índia, realizavam-se sacrifícios de búfalos e cabras. "Para os orientais, Kali é a desintegração contida na vida, visão essa que nós, ocidentais, não temos", interpreta a antropóloga e estudiosa de humanidades, a brasileira Norma Telles. Se Kali foi vista como deusa sanguinária, outras divindades compensavam tanta violência.

Sarasvati, a deusa dos rios, era para os hindus a inventora de todas as artes da civilização, como o calendário, a Matemática, o alfabeto original e até os Vedas, o texto sagrado do hinduísmo.

O predomínio que as divindades femininas exerceram ao longo do tempo levou alguns pesquisadores do século XIX a supor que na pré-história as mulheres detiveram alguma forma de autoridade política. Não há registros arqueológicos que confirmem isso — e hoje os especialistas não admitem que tenha existido alguma sociedade cujo controle estivesse com as mulheres. Mas também é certo que nos tempos pré-históricos, quando era outra a divisão social do trabalho, as mulheres tinham um papel preponderante na luta pela sobrevivência do grupo. É um pouco difícil, mas não impossível, saber com exatidão quando e por que deixou de ser assim. Existem pesquisas que esta série já sinalizou e abordará adiante. De uma coisa, porém, não se tem duvida: foram os homens quem primeiro traçaram a mitologia das deusas.

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