segunda-feira, 10 de março de 2014

1356-As deusas e a feminilidade


Aqui, pertinho de nós

Aqui do lado de cá do mundo mais antigo, na América pré-colombiana, os astecas tinham em Tlauteutli sua deusa da criação. Para eles, o Universo fora feito de seu corpo. Os maias tinham igualmente sua deusa-mãe. Era Ix Chel. De sua união com o deus Itzamná nasceram os outros deuses e os homens.

Com o passar do tempo, deuses e homens (e mulheres) passaram a dividir com as deusas o espaço no Panteão, o lugar reservado às divindades. Não foi um fenômeno restrito apenas a um continente. Para a filósofa francesa, Elisabeth Badinter, isso aconteceu quando a noção de casal foi deitando raízes nas sociedades. Pouco a pouco, da Europa Ocidental ao Oriente e da África às Américas, "reconhece-se que é preciso ser dois para procriar e produzir", escreve ela. Mas o culto à deusa-mãe ainda não é substituído pelo do deus-pai. O casal divino passa a ser venerado em conjunto. As deusas só serão destronadas com o advento das religiões monoteístas, que admitem um só deus, e masculino. E ainda defendem uma santíssima trindade em que o filho é filho de dois pais, isto é, não tem mãe.

Com a difusão do cristianismo, as antigas deusas são banidas do imaginário popular ou algumas delas acabaram associadas à Virgem Maria, mãe do Deus dos cristãos, outras se transformaram em santas, como também aconteceu no Brasil, em que Iemanjá ganhou todas as virtudes de Maria, como Nossa Senhora dos Mares e dos Navegantes, enquanto outras, quando a conveniência favorecia, foram excluídas da história ou acusadas pelos padres de demônios e prostitutas, tendo Lillith como ancestral, mesmo sem ser mencionada. Acontece que nos currículos da escola teológica, de onde emergiram os sacerdotes, é impossível não ter sido estudada a importância dessa matrona universal (ainda que lendária).

Havia semelhanças entre o que pensou e fez nos diferentes continentes mesmo sem a menor possibilidade de contato entre eles. As deusas das culturas indo-européias, como aqui na América, tinham em comum o poder de criar, preservar e destruir — davam a vida e recebiam de volta o que se desfazia dela. Esse aspecto destrutivo das divindades femininas foi o mais atacado pelos inimigos do politeísmo. A deusa suméria Astarte, por exemplo, não escaparia à ira nem dos profetas bíblicos, nem dos primeiros cristãos: para uns e outros, ela era a encarnação do diabo. Nunca se soube da existência de uma diaba, mas ela era citada. No império babilônico, Astarte foi venerada sob o nome de Ishtar, que quer dizer Estrela.

Estrela também é o nome de uma ordem. tipo maçônica, porém de mulheres, na Inglaterra. Coincidência? Jamais. Lúcifer, no monoteísmo, foi tido como diabo, e também quer dizer Estrela, estrela matutina, luz da manhã, luz do oriente, símbolos que os maçons muito conhecem.

Nos escritos babilônicos, Ishtar é a luz do mundo, a que abre o ventre, faz justiça, dá a força e perdoa. A Bíblia, porém, a descreveria como uma acabada prostituta, mas isso, já na fase machista hebraico-romana.

Também na América pré-colombiana, sobretudo entre os astecas, o culto às deusas e deuses incluía muitas vezes sacrifícios humanos. A deusa Tlauteutli é um bom exemplo disso. Um dia, os deuses descobriram que ela ficaria estéril, a menos que fosse alimentada de corações humanos. Na verdade, os astecas tinham uma visão apocalíptica do mundo: se não alimentassem a deusa, a Terra se acabaria. Uma leitura pobre do que era o pedido da deusa: amor. Era pararia de gerar se o amor não fosse o maior objetivo das criaturas.

E, à medida que começava a crescer o culto à deusa Tonantzin, da maternidade, diminuía o interesse dos astecas pelos deuses aos quais se faziam sacrifícios sangrentos. Veja, a deusa ofendida se retira derrotada e é substituída. Foi com a ajuda da deusa Tonantzin que prosperou o império asteca com a interrupção dos sacrifícios humanos em honra dos deuses.

Queiramos ou não, o Cristo também veio enxotar aqueles que matavam, derramavam o sangue em honra do deus. Essa é a interpretação da cena conhecida por “Vendilhões do templo”. Vendiam-se criaturas indefesas para servirem de holocausto às faltas humanas perante deus (e não só), pouco importando se eram galinhas, cabras, bezerros...e até pessoas. Já havia acontecido (e ainda acontece atualmente) com pessoas. São os rituais macabros do candomblé, do vodu, de outros. Quantos sacrifícios de inocentes objetivam atender encomendas dos ofertantes para fins de vingança ou de conquista...

Mais tarde, com a chegada dos conquistadores espanhóis, Tonantzin foi identificada com a Virgem Maria. Mas, olhe bem, Maria nunca foi uma deusa e nem pode ser tomada como a mãe de Deus, como querem os católicos. Que deus é esse que por mãe uma mulher?

Também no monoteísmo tivemos sacrifícios humanos em honra ao deus masculino, Yahweh, depois sacrifícios a animais, interrompidos por Jesus , como nos referimos, na passagem dos “Vendilhões do Templo”, na verdade vendedores de galinhas, cabras, ovelhas destinados aos sacrifícios aos deuses. Jesus se escalou para essa tarefa e derramou seu próprio sangue na hipótese de que esse fosse o último sangue derramado em honra ao que os homens pensam ser o seu deus e pelo qual batalham em campo de guerra.

Pobre homem, pobre mente, pequeno esse deus.

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