terça-feira, 11 de março de 2014

1357-As deusas e a feminilidade


Também entre os guarani

Antes das influências cristãs sobre o povo guarani (da Sul América) – exercidas pelos padres jesuítas através das Missões, principalmente –, a visão divina guarani era puramente aborígene e incluía também as deusas. Depois, por influência dos religiosos cristãos, foi adaptada para figura de Tupã apenas. Tupã que, não era, propriamente, um deus, mas a sua manifestação através do trovão.

Há um dito popular que quando os jesuítas perguntaram aos guarani o nome de seu deus veio aquele nome longo e difícil de pronunciar: Ñamandu Ru Ete Tenondeguá, para eles o Deus Primeiro e Verdadeiro. Nem era só a pronúncia que desapontava os religiosos de batinas pretas, mas também a tarefa de trocar isso por crenças romanizadas. Conta-se que nesse imediato instante um forte trovão se abateu sobre o local e o pajé então se referiu: “tupã, é dele, tupã!” O padre convenceu o pajé a usar apenas Tupã (Quatro letras – como Deus, como Javé) e imediatamente criou-se a simbiose com o Deus cristão, onde o lado feminino desaparece.  

A figura primária na maioria das lendas guarani da criação é o Deus Ñamandu ou Iamandu (ou Nhanderu). A figura de Tupã surge já com o componente cristão introduzido.

Com a ajuda da deusa Jaci (ou Araci), venerada através da Lua, Ñamandu Ru Etê Tenondeguá, o Grande Deus Primeiro e Verdadeiro, desceu à Terra num lugar descrito como um monte na região do Areguá, no Paraguai, e deste local criou tudo que há sobre a face da Terra, incluindo o oceano, os rios, florestas, animais e pessoas. Pode haver semelhanças com a visão sagrada judaica (do Sião) e grega (do Olimpo), mas também os guarani viam seus Deus associado a uma montanha. Coincidência? O que você acha?

Também as estrelas foram colocadas no céu nesse mesmo momento em que o Deus guarani colocou a vida sobre a Terra. Criou então a humanidade (de acordo com a maioria dos mitos guarani, eles foram, naturalmente, a primeira raça criada, com todas as outras civilizações nascidas a partir deles) em uma cerimônia elaborada, formando estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, Deus deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu. Essa cosmogonia subsiste desde dois mil anos ou mais e não teve a contaminação alienígena. É semelhante ao que os hebreus nos ensinam? Quem ensinou aos guarani? Os seus contatos com o ser asiático ou europeu aconteceu de 1492 em diante.

Os humanos originais criados por Ñamandu eram Rupave e Sypave (que teriam os mesmos papéis de Adão e Eva), nomes que significam "Pai dos povos" e "Mãe dos povos", respectivamente. Toda palavra guarani iniciada ou terminada com ava/ave ou aba/abe, refere-se a povo. Por isso, uma gama de frutas nativas da América tem esses prefixos ou sufixos. Ex: abacaxi, goiaba, abacate, jabuticaba, etc., nomes referidos como alimento de povo/gente.

Voltando ao casal Rupave e Sypave: o par teve três filhos homens e um grande número de filhas mulheres. O primeiro dos filhos foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta do povo guarani. O segundo filho foi Marangatu, um líder generoso e benevolente, pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito guarani (como veremos). Seu terceiro filho foi Japeusá, que foi, desde o nascimento, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro, sempre fazendo tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagem em tudo. Ele teria se afogado nas águas do Grande Rio, mas foi ressuscitado como um caranguejo, e desde então todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar na direção contrária, como Japeusá. Na mitologia cabocla brasileira, Caapora ou Kaipora, uma entidade masculina do mal, também anda com os pés virados pra trás e os seus rastros confundem aqueles que querem seguir seus passos.

Entre as filhas de Rupave e Sypave, estava Porâsý, notável por sacrificar sua própria vida para livrar o mundo de um dos sete monstros lendários, seus sobrinhos, diminuindo seu poder (e, portanto, o poder do mal como um todo). Crê-se que vários dos primeiros humanos ascenderam ao morrerem e se tornaram entidades menores do panteão divino, o que hoje chamamos de arcanjos ou guias. Ainda hoje o principal culto dos guarani é em honra aos seus ancestrais mortos. Numa das mais belas canções composta pelo mestiço índio Athaualpha Yapanki (argentino), (conhecida como Los Hermanos), está a frase “guien nosostros nuestros muertos pa que nadie quede atrás”. Ou seja, o que está à frente são os nossos mortos que podem ensinar.

Ainda na escola dos mitos guarani: Kerana, a bela filha de Marangatu, foi capturada por um espírito do mal, chamado Tau, que se aproveitou dela como refém para obter de seu ventre sete filhos, que foram amaldiçoados pela grande deusa Arasy, e todos, exceto um, nasceram como monstros horríveis. Os sete são considerados figuras primárias na mitologia guarani, e enquanto vários dos deuses menores ou até os humanos originais são esquecidos na tradição verbal de algumas áreas, estes sete são geralmente mantidos nas suas lendas. Alguns são considerados reais até mesmo em tempos modernos, em áreas rurais ou regiões indígenas. Os sete filhos de Tau e Kerana são, em ordem de seu nascimento: Teju Jaguá, espírito das cavernas e frutas; Mboi Tu’i, espírito dos cursos de água e criaturas aquáticas; Mañai, espírito dos campos abertos - derrotado pelo sacrifício de Porâsý; Jaci Jaterê, espírito da sesta (repouso após almoço), único dos sete que escapou de ser monstro; Kurupi, espírito da sexualidade e fertilidade; Ao Ao, espírito dos montes e montanhas; Luison, espírito da morte e de tudo relacionado a ela.

Os guarani também tinham espíritos opostos entre si (mal e bem), a saber: Angatupri, personificação do bem, oposto a Tau; Pytajovái, espécie de deus da guerra; Pombero, um espírito popular da travessura e da negaça; Abaangui, creditado como o criador da Lua; Jurupari, um ajudante para as dificuldades. Curioso é que no litoral de Santa Catarina o atravessador comprador dos peixes obtidos pelos pescadores (e geralmente explorador e safado, era chamado de pombeiro).

Há, ainda, uma série de lendas guarani geralmente associadas a um espírito (ou deus), como é o caso do Boitatá, da Mãe d’Água, da Mãe de Ouro, da Salamandra e mesmo de Tupã, que foi colocado na figura do deus do trovão – que não era um deus e sim uma manifestação do Grande Deus – e que modernamente substituiu Ñamandu.

Importa conhecer que a influência da Igreja Jesuíta na América do Sul sepultou todos (ou quase) os valores da rica tradição guarani. Sobra aos estudiosos o que ainda existe das culturas inca e charrua, justamente porque nesses dois redutos os religiosos europeus não conseguiram penetrar.

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