quarta-feira, 12 de março de 2014

1358-As deusas e a feminilidade


Como ele e ela pensam e agem

A escritora e antropóloga brasileira, Lúcia Helena de Oliveira, apresenta os homens como alguém que “quase nunca se perde. Sabe para onde seguir e como conduzir seus pensamentos para chegar a um objetivo”. E diz: Senhoras, não insistam em brigar com o motorista — seja ele quem for — sobre qual o melhor caminho para se chegar a algum lugar. O cérebro do homem, de acordo com especialistas da área, é comparável a um guia de ruas. Pesquisas realizadas em diversos países demonstram que o sistema nervoso masculino é campeão na chamada percepção espacial. Diga-se a ele onde ele deve ir e ele achará o caminho, como naquela lenda “Mensagem a Garcia”.

As mulheres, nesse ponto, costumam dar vexame: levam muito mais tempo do que seus companheiros para localizar um ponto qualquer no mapa.

ELE

Além disso, hoje os médicos confirmam que os homens são extremamente lógicos. Resolvem qualquer problema com mais desenvoltura do que as mulheres — problema de matemática, fique claro. Provavelmente essa tendência à lógica, marcante nos mecanismos do cérebro deles, acaba se expressando em vários momentos do cotidiano. Agir logicamente não é um talento feminino. Esta é a opinião dos cientistas que investigam as diferenças sexuais no cérebro — uma das linhas de pesquisas mais quentes da Neurologia, empenhada em provar que homem e mulher nunca vão pensar do mesmo jeito.

ELA

Escolhe palavras o tempo inteiro e sabe falar muito bem o que lhe passa na mente. Assim funciona a cabeça das mulheres. Senhores, se precisam de um bom orador para convencer alguém a fazer algo, na verdade os senhores precisam é de uma oradora. O cérebro da mulher, mais do que o do homem, é um gigantesco arquivo de argumentos — e isso é consenso entre cientistas do mundo inteiro que pesquisam a chamada cognição, a capacidade do sistema nervoso de captar informações e ligá-las entre si.

OS DOIS

Pois, em todos os testes de comunicação verbal, o sexo feminino se sai muito melhor. As mulheres aprendem novas palavras mais depressa do que os homens e, ainda, usam todos os recursos do vocabulário com mais criatividade.

É claro, para persuadir alguém não basta escolher a palavra certa — também é preciso dizê-la no momento certo. Mas essa é outra qualidade feminina: a área do cérebro ligada à percepção visual parece ser ativada frações de segundo mais rápido que no homem, quando um objeto é mostrado ao casal. Daí porque as mulheres percebem logo quando existe um novo enfeite na sala, segundo uma experiência realizada pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Enfim, com essa característica elas captam as menores diferenças na expressão de seu interlocutor. Como pistas de que o discurso delas está dando certo ou não.

Há muito, muito tempo, as pessoas se acostumaram a rotular: os homens são assim, as mulheres são assado. Não se referem à evidente discrepância física, mas ao jeito de agir e pensar. Antropólogos, psicólogos, feministas e machistas já se debruçaram bastante sobre o tema, produzindo teorias e mais teorias.

Chegou a vez dos estudiosos do sistema nervoso. Há cerca de dez anos, caso alguém perguntasse a um deles se o cérebro masculino era diferente do feminino, a resposta seria curta e seca: o da mulher pesa em média 1,15 quilo, enquanto o do homem chega a 1,4 quilo. Tamanho não é documento de inteligência. Simplesmente os ossos do homem são maiores do que os das mulheres, inclusive os da caixa craniana. O crânio maior, então, daria espaço para um cérebro mais folgado, cuja aparência era idêntica à de seus pares do sexo oposto.

Hoje, porém, a velha pergunta provoca polêmica. Porque há diversos estudos mostrando que cérebros masculinos e femininos têm mecanismos ligeiramente diferentes. Por menores que sejam essas diferenças, elas mudam muita coisa em ciência. Pelo menos é o que acreditam pesquisadores sérios da área. “Daqui para frente, não se podem avaliar as habilidades das pessoas para certas tarefas analisando apenas a sua experiência pessoal. É preciso analisar igualmente a predisposição biológica”, afirma a professora Doreen Kimura, da Universidade do Oeste, de Ontário, no Canadá. Psicóloga, ela quer ver até que ponto o comportamento está determinado nas células cerebrais. “Em suma, hoje em dia ninguém pode dizer que uma mulher borda muito bem só porque desde menina foi treinada para trabalhos manuais”, explica. “Ora, ela borda maravilhosamente também porque tem um cérebro voltado para esse tipo de habilidade”.

Pode parecer uma provocação às feministas, mas a idéia é a seguinte: por mais que tenha sido induzido por uma mãe zelosa ou por uma sociedade que admira mocinhas prendadas, esse cérebro já tinha um talento especial para linhas e agulhas — assim como para outras tarefas que exigem a chamada coordenação motora fina, ou seja, uma precisão espetacular dos dedos. “Essa vocação é resultado da ação de certas substâncias no cérebro no início da vida”, diz Doreen. “Elas alteram a organização dos neurônios, como são chamadas as células cerebrais, bem antes de a pessoa ouvir os conselhos da mãe ou notar os olhares da aprovação dos outros”. Quer dizer, embora o meio em que se vive seja importante, essa influência é posterior.

Doreen coleciona testes que mostram as diferenças nas habilidades de homens e mulheres. Embora, neles, sempre existam exceções, como homens que dariam excelentes bordadeiros, sem que isso signifique que sejam afeminados. É bem verdade que esses exames citados pela psicóloga não provam por si a tendência biológica a desenvolver habilidades. “São apenas um indicador”, reconhece.

Segundo ela, o importante é que os voluntários tinham a mesma média de QI. “Não queremos discutir a inteligência dos dois sexos, mas a forma como homens e mulheres aproveitam a sua inteligência”, enfatiza. E eles tendem a não fazer isso da mesma maneira. Os sinais de disparidade aparecem cedo.

Um estudo feito pela equipe de Doreen no Canadá mostra que garotos de 3 anos são melhores em atirar bolas no alvo do que garotinhas da mesma idade — e, como indicam aqueles testes reunidos pela pesquisadora, acertar em alvos é um dos talentos predominantemente masculinos. É o caso de perguntar: como será que os garotos podem ser mais talentosos, se meninos e meninas possuem basicamente a mesma bagagem genética? A única exceção, de fato, é um cromossomo entre os 46 que se encontram dentro de cada uma das células do organismo. Mulheres têm um cromossomo X no lugar em que os homens têm um cromossomo Y. Este cromossomo não se manifesta até a décima semana de vida fetal.

Portanto, olha aí, nesse período das dez primeiras semanas, qualquer feto se desenvolve no sentido de formar um corpo de menina. Então, a entrada em cena do cromossomo Y induz o aparecimento dos testículos e estes, uma vez prontos, produzem o hormônio sexual masculino chamado testosterona. Esta substância é responsável pelas características típicas do homem, como a barba do adulto.

E recentemente os cientistas passaram a desconfiar de que a testosterona estimula o cérebro a ativar mais os neurônios de determinadas áreas do que de outras. O que, de seu lado, tornaria a pessoa mais apta a certas tarefas do que a outras. A desigualdade de ativação corresponderia a uma desigualdade de comportamento, entre machos e fêmeas. É uma teoria.

As fêmeas de todos os mamíferos, incluindo, claro, as humanas, também possuem hormônio sexual masculino em seu organismo, mas em doses ínfimas. Mesmo assim, em quantidades minúsculas, ele afetaria a ativação dos neurônios no cérebro feminino — só que, talvez, de uma maneira inversa à de seu sexo oposto. A questão é que os cientistas não podem realizar experiências precisas para analisar a ação da testosterona no cérebro humano. Para isso teriam de injetar a substância ou dar um jeito de privar o organismo de sua presença — e tanto uma coisa quanto a outra teriam consequências desastrosas e são proibidas por lei. Por essa razão, um grande número de estudos utiliza cobaias.

Um dos pioneiros estudos foi realizado pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, há quatro anos. Os pesquisadores castraram ratos machos, instantes depois do nascimento. E, assim, notaram que o comportamento de montar na fêmea, como fazem no acasalamento, tornou-se raro. Em compensação, os ratinhos castrados apresentaram sinais de lordose, como se chama um arquear exagerado da coluna vertebral. Ora, nos ratos, esse é um problema típico das fêmeas, que arrebitam o bumbum para atrair parceiros. Conclusão: a ausência do hormônio induziu o cérebro a alterar o comportamento sexual. Com as fêmeas, não foi diferente. Ao receberem injeções do hormônio sexual masculino passaram a trepar no corpo das companheiras, como fazem os machos que buscam o acasalamento.

A área do cérebro que governa o comportamento sexual é o hipotálamo — uma estrutura escurecida e estreita, na base da massa cinzenta. Há três anos, em 1991, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram que determinada área do hipotálamo dos ratos machos é maior do que nas fêmeas. E essa diferença de tamanho, provaram os americanos, é causada pela testosterona que circula no cérebro do animal recém-nascido.

No final do ano passado, a mesma equipe divulgou que no cérebro humano existe uma diferença semelhante entre homens e mulheres — só não sabem, por enquanto, se ela também aparece nos primeiros dias após o parto, motivada pelo hormônio sexual.

“Os hormônios sexuais não influenciam só o comportamento de reprodução”, conta o neurologista Esper Cavalheiro, da Escola Paulista de Medicina. “Eles têm a ver com a maioria dos comportamentos em que homem e mulher diferem”. O curioso é que, em termos de cérebro, o hormônio sexual testosterona parece só ter efeito em um período crítico, entre a fase fetal e os primeiros dias de vida. A falta ou o excesso dessa substância, passado esse tempo, muda as características físicas, mas não altera o comportamento das cobaias. Com os seres humanos ninguém sabe até onde vai essa influência. Pelo sim, pelo não, vários pesquisadores estão medindo o nível de hormônios masculinos dos voluntários antes de submetê-los a testes psicológicos, em que devem resolver diversos tipos de problemas.

A canadense Doreen Kimura faz isso: analisa a dosagem da testosterona presente na saliva dos participantes dos testes. Não são apenas os hormônios sexuais, porém, que entram na jogada cerebral. Há indícios, por exemplo, de que os homens são de fato mais durões do que as mulheres — e a causa, no caso, não estaria na substância secretada por seus testículos, ou seja, em um hormônio sexual. Porque os cientistas descobriram que o hormônio prolactina — não-sexual — ajuda o cérebro a provocar o estado do choro. E esse hormônio, fabricado no próprio sistema nervoso, é mais presente no organismo das mulheres. Faz sentido. Ele participa diretamente da produção de leite, no período de amamentação do bebê. Daí que as mulheres teriam, biologicamente, uma propensão maior a cair no berreiro. Se depender do ânimo dos cientistas, não vão faltar diferenças — algumas que nada têm a ver com o cérebro em si — tornando os sexos cada vez mais opostos.

Uma coisa se pode afirmar com segurança: muitas diferenciações de comportamento estão marcadas de fato no sistema nervoso. Como surgiram é outra conversa, tão fascinante quanto incerta. Imagina-se que as diferenciações tenham se originado por causa de vantagens, do ponto de vista da evolução das espécies. Talvez as especializações do sistema nervoso feminino e masculino tenham surgido por causa da divisão de trabalho que existia nas sociedades primitivas. O homem, então, teria desenvolvido a capacidade de se localizar no espaço, porque uma boa noção de geografia era essencial em suas saídas para a caça. A mulher, por sua vez, teria necessidade de aprimorar a percepção visual, para notar eventuais ameaça à segurança dos filhos, enquanto o companheiro estava ausente. São divagações que os cientistas fazem, sem que no entanto possam garantir que essa ou aquela seja a origem das diferenças que constatam em seus laboratórios.

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