quarta-feira, 2 de abril de 2014

1379-Destino e Livre Arbítrio


A mentirosa liberdade

Há um texto fantástico, de Lia Luft, sobre a liberdade/livre arbítrio que, por se encaixar nesta série como uma luva, tomo a liberdade de reproduzir agradecendo a ela em nome do bloqueiro e dos leitores. Diz ela:

Comecei a escrever um livro sobre os mitos e mentiras que a nossa cultura expõe em prateleiras para que a gente enfie este material na cabeça e, pior, na alma, como se fosse algodão-doce colorido. Com ele, chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa, nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas que constituem o que chamo de síndrome do “ter de”: ter de estar naquele lugar para sair na foto da semana; ter de sentar no interior do carrão daquele ano; ter de vestir-se com a última moda; ter de fazer uma viagem lá para aqueles endereços que a galera fica gabando o tempo todo; ter de ter uma conta bancária gorda para pagar os luxos e ostentações; etc, etc.

Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão, a euforia, a solidão e o medo, tratados a remédios), cedo recorremos a expedientes químicos por nossa libido cerceada, que falha, e a alegria de tanta tensão nos escapa.

Preenche-se as fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância e nos ligamos ao espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das passarelas temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só os jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos de temos 60, e cinqüenta se temos 80 anos de idade.

A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas é de perguntar: sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?

Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: o que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Em mais um concurso? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um viagra para melhorar ainda mais? Ainda agüenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E nem tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?

Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo natural, cumprindo deveres, curtindo a vida sem se atordoar. Nada contra toda essa louca correnteza. Ter opinião própria, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda.

Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso.

É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, sem um físico modelado em academia e sem uma grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise.

Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir nossa existência, para a qual, todo esse esforço e desgaste não acabe num leito de hospital ou numa tumba obscura de algum cemitério. Não temos de correr atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para agüentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria, mesmo, de ter feito.

Um destino mais nobre, assentado na livre escolha, sem sofisticar, sem mentir para nós mesmos, parece estar mais próximo da verdade de Deus para conosco.

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