sexta-feira, 11 de abril de 2014

1388-Fantasmas e Assombrações

 
O medo como recurso pedagógico

Uma criança ou um jovem com menos de 40 anos talvez não saberá do que iremos falar. Nos lares e nas escolas batia-se nas crianças com razoável violência. Apanhava-se na bunda com chinelo, cinta, vara verde e palmadas. Na escola, existia a palmatória, um cacetete de madeira plana, com futros na extremidade mais larga, com o qual os professores aplicavam castigos na palma da mão dos alunos rebeldes. Também os punham de joelho sobre grãos de milho, virados com a cara contra a parede, geralmente no canto da sala.

Esse era o modelo para conter a desobediência, muito semelhante ao pelourinho onde os escravos eram chibatados como castigos por qualquer rebeldia.

Mas, havia também, o modelo psicológico para fazer as crianças obedecerem e sujeitarem-se às ordens dos pais e irmãos mais velhos. Era o que ficamos conhecendo por “Bicho Papão”, “Bruxa”, “Lobo Mau” e tantos outros personagens assombrosos. Ah você não quer dormir, então eu vou chamar o “...” (aí entra qualquer nome).

Na casa em que eu cresci, menino, a 200 metros, havia eu engenho de moagem de cana para fabricar cachaça, melado e mascavo. À noite, a água era liberada de girar a roda gigante e produzia um barulho completamente diferente de quando estava impulsando polias e correias. A barulho parecia repetir uma palavra surda constantemente, como se estivesse a dizer “tiupe-tiupe/tiupe-tiupe”. Pois esse era o nome do bicho que seria chamado caso as crianças da casa não adormecessem na hora desejada.

Ingênuos, inocentes, ignorantes, assustados, quantos milhars de crianças adormeceram coagidos pela ameaça de um bicho papão? Em nosso passado, em que não havia energia elétrica e tantos postes para iluminar as vias públicas como hoje, o escuro era o ambiente ideal para a assombração provocada pelos raios da lua, pelo soprar do vento, pelo barulho de um pássaro nortuno ou um coachar de batráquio ou mesmo o tropel de um animal de pequeno porte.

Crescíamos sob a ameaça de algo, não raro do diabo ou mesmo de Deus. Aprendemos a ter medo das almas. E a adorar cadáveres. Os cemitérios pareciam receber mais sagração que os templos. Viviam enfeitados de flores e velas em honra e saudade aos corpos ali enterrados. Mas, se a alma do defunto fosse invocada, o sentimento de veneração oferecido ao cadáver se transformava em pânico.

Essas sensações vieram sendo transmitidas de geração em geração, claro, recebendo a competição da tevê e do cinema, mas chegam aos nossos dias.

Quem me acomapnha aí para uma visita à meia noite ao cemitêrio? Escolhemos uma noite de lua nova, bem escura, sem lanterna. Quem vaí?

Este convite já foi feito em sala de aula e a resposta negativa foi unânime. Claro, é uma besteira ir a um cemitêrio alta noite. Mas, o motivo da negativa não é pela besteira, é pelo medo dos fantasmas (almas) e suas assombrações. A morte nos inebria e amedronta. Os mortos também.

Ainda falaremos sobre isso aqui neste espaço.

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