quinta-feira, 8 de maio de 2014

1415-O fim e o significado da História


Três períodos sucessivos

De todos os lados a História está, hoje, sob acusação. Trata-se, como veremos, de um fenômeno antigo. Mas hoje a acusação faz-se mais veementemente, mais explícita que nunca. É uma condenação total e sem apelo que nos pedem que pronunciemos. A História, dizem-nos, é a consequência da alienação da humanidade.

Invoca-se, propõe-se, projeta-se o fim da História. Predica-se o retorno a uma espécie de estado de natureza enriquecido, a paragem do crescimento, o fim das tensões, o retorno ao equilíbrio tranquilo e sereno, à felicidade modesta, mas assegurada, que seria aquela de todas as espécies viventes.

Vem imediatamente à memória o nome de alguns destes teóricos, e entre esses os de Herbert Marcuse e de Claude Lèvi-Strauss, cujas doutrinas são bem conhecidas.

A ideia de um fim da História pode parecer uma das mais modernas. Na realidade não o é. Basta, com efeito, examinar as coisas mais atentamente para nos darmos conta de que esta ideia não é mais que o resultado lógico de uma corrente de pensamento velha, de ao menos dois mil anos, e que, desde há dois mil anos domina e conforma aquilo que hoje chamamos “civilização ocidental”. Esta corrente de pensamento é aquela do pensamento igualitário. Exprime uma vontade igualitária, que foi instintiva e quase cega no seu início, mas que, na nossa época, se tornou perfeitamente consciente das suas aspirações e do seu objetivo final. Ora, este objetivo final do projeto igualitário é precisamente o fim da História, a saída da História.

O pensamento igualitário atravessou, no curso dos séculos, três períodos sucessivos. No primeiro, que corresponde ao nascimento e desenvolvimento do cristianismo, constituiu-se sob a forma de mito. Este termo não subentende nada de negativo. Chamamos mito a todo o discurso que, desenvolvendo-se a partir de si, cria ao mesmo tempo a sua linguagem, dando assim às palavras um sentido novo, e faz apelo, recorrendo aos símbolos, à imaginação daqueles a quem é dirigido. Os elementos estruturais de um mito chamam-se mitemas. Constituem uma unidade dos contrários, mas estes contrários, não estando ainda separados, permanecem escondidos, por assim dizer invisíveis. No processo de desenvolvimento histórico a unidade destes mitemas explode, dando então nascimento a ideologias concorrentes. Foi assim com o cristianismo, cujos mitemas acabaram por gerar as igrejas, depois as teologias e por fim as ideologias concorrentes (como aquelas da Revolução Americana e da Revolução Francesa).

O florescimento e a difusão destas ideologias correspondem ao segundo período do igualitarismo, que exerceu uma forte pressão política a partir do Iluminismo, quando “Igualidade, Liberdade e Fraternidade” traziam novamente o ideal cristão, mas tinha o ateísmo como fundo porque se opunha à Igreja Romana e sua dominância sobre muitos governos totalitários na Europa.

Não foi muito feliz a proposta iluminista de igualdade, liberdade e fraternidade, porque as estruturas da nossa sociedade (mostra a História) nos fizeram desiguais em busca dos mesmos direitos que eram negados às maiorias.

Não foi muito feliz, também, o cristianismo que, cerca de três séculos depois de seu lançamento, teve o Império Romano a roubar-lhe a cena através de uma igreja oficial que não conhece a igualdade, nem a liberade, nem a fraternidade pregadas por Cristo.

Por relação ao mito as ideologias proclamam já princípios de ação, mas não retiram ainda as consequências, o que faz com que a sua prática seja hipócrita, cética e ingenuamente otimista.

Chega-se então ao terceiro período, no qual as ideias contraditórias geradas dos mitemas originais resolvem-se numa unidade, que é aquela do conceito sintético. O pensamento igualitário, animado já por uma vontade tornada plenamente consciente, exprime-se sob uma forma que decreta “científica”.

Pretende ser uma ciência. No desenvolvimento que nos interessa este estádio corresponde ao surgimento do marxismo e dos seus derivados (quanto particularmente à doutrina dos direitos do homem).

O mito, as ideologias, a pretensa ciência igualitária, exprimem então, por assim dizer, os níveis sucessivos de consciência de uma mesma vontade; fruto de uma mesma mentalidade, apresentam sempre a mesma estrutura fundamental. O mesmo sucede, naturalmente, para as concepções da História que daí derivam, e que não diferem entre si mais que na forma e linguagem usada no discurso. Qualquer que seja a sua forma histórica, a visão igualitária da História é uma visão escatológica, que atribui à História um valor negativo e não lhe reconhece um outro sentido que o de tender, com o seu próprio movimento, à sua negação e ao seu fim.

Não foi muito feliz o marxismo transformado em regime de governo onde quer que ele ou algo parecido com ele tenha sido posto em prática: China, Coréia, Cuba, União Soviética. Aí não se conheceu a igualdade, nem a liberdade e a fraternidade.

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