sexta-feira, 9 de maio de 2014

1416-O fim e o significado da História


O retorno num dado momento

Se se examina a antiguidade pagã, nota-se como essa havia oscilado entre duas visões da História, de que uma não era mais que a antítese relativa à outra: ambas concebiam o devir histórico como uma sucessão de instantes na qual cada instante presente delimita sempre, de um lado o passado, do outro o futuro. A primeira destas versões propõe uma imagem cíclica do devir histórico. Implica a repetição eterna de instantes, de fatos ou de períodos dados. É isso que exprime a fórmula nihil sub sole novi (não há nada de novo). A segunda, que acabará, de resto, por redundar na primeira, propõe a imagem de uma linha reta que tem um início, mas não um fim, pelo menos não um fim imaginável e previsível.

O cristianismo realizou, de certa forma, uma síntese destas duas divisões antigas da História, substituindo-as por uma concepção que foi definida como linear, e que é, na realidade, segmentária. Nesta visão a História tem início, mas deve ter também um fim. Não é mais que um episódio, um acidente na existência da humanidade. A verdadeira existência do homem é exterior à História. E considera-se que o fim da História restitui, sublimando-o, aquilo que existia ao início. Como na visão cíclica há, então, na visão fragmentária uma conclusão pela restituição de um dado momento, mas, contrariamente ao que acontece no ciclo, este momento está agora situado fora da História, fora do devir histórico; assim que for restituído ficará congelado numa imutável eternidade; o momento histórico, sendo alcançado, já não se repetirá mais. Assim, na visão segmentária há um início da História, mas a esse início junta-se um fim, de modo que a verdadeira eternidade humana não é aquela do “devir”, mas a do “ser”.

Este episódio que é a História é percebido, na perspectiva cristã, como uma verdadeira maldição. A História deriva de uma condenação do homem por parte de Deus: segundo uns, condenação à infelicidade, ao trabalho, ao suor e ao sangue, que sanciona uma culpa cometida pelo homem; segundo outros, uma luta pela reaquisição da dignidade perdida pela desobediência das leis divinas.

A humanidade, que vivia na feliz inocência do jardim do Paraíso, foi condenada à História porque Adão (símbolo de uma raça), nosso antepassado, transgrediu o mandamento divino, provou o fruto da Árvore da Ciência e quis tornar-se similar a Deus. Esta culpa adâmica, enquanto pecado original, pesa sobre todo o indivíduo que vem ao mundo. É inexplicável por definição (como explica a igreja cristã), porque o ofendido é Deus mesmo. Mas (aí vem o consolo) Deus, na sua infinita bondade, aceita encarregar-se ele próprio da sua expiação: faz-se homem encarnando na pessoa de Jesus. O sacrifício do filho de Deus introduz no devir histórico o evento essencial da Redenção. Noutra interpretação, Jesus foi mais um entre tantos outros, como Pitágoras, Buda, Maomé, Zoroastro, Lao Tsé, Confúcio e até mesmo alguns bem posteriores, escalados para dizer-nos: a redenção não virá pelo indulto, virá pela reaquisição da condição de aliados de Deus e não de concorrentes seus.

Segundo a Igreja Oficial, o indulto concerne aos únicos indivíduos tocados pela Graça. Segundo a linha oposta, a reaquisição da dignidade virá pelo melhoramento dos homens, condição que pode advir independente de templos e sacerdotes.

Assim torna lento caminho rumo ao fim da História, para o qual a “comunidade dos santos” deverá preparar a humanidade para ser indultada, predicando favores e bênção ou, do outro modo, crescendo em dignidade por esforço próprio.

No fim (segundo o Apocalipse) virá um dia em que as forças do Bem e do Mal se defrontarão numa última batalha, que resultará num Juízo Final e, então, na instauração de um Reino dos Céus, que tem o seu contraponto dialéctico no Abismo do Inferno. O primeiro reino é espiritual. O abismo adversário desse reino é a negação da existência do Autor da Vida e de suas leis.

A História pode ser contada de diferentes modos, mas os fatos parecem coincidir. No Paraíso, antes do início da História (podemos tomar este período como o da vida tribal, em que igualdade, liberdade e fraternidade existiam precocemente, ingenuamente); o pecado original pode decorrer da divisão havida entre nobres e plebeus; a expulsão do Jardim do Éden se configura nas disputas, na dominação, na exploração do homem pelo homem; a travessia do vale de lágrimas (que é o mundo) se configura no sofrimento que se tornou viver entre os homens; o lugar do devir histórico, a Redenção, a comunidade dos santos, a batalha apocalíptica e o Juízo Final, são aguardados por nós tanto pela dignificação quanto pelo indulto; o fim da História e instauração de um Reino dos Céus é o como se tornará o mundo dos homens quando igualdade, liberdade e fraternidade forem, de fato, coisas reais; tais são os mitemas que estruturam a visão mítica da História proposta pelo cristianismo, visão na qual o devir histórico do homem tem um valor puramente negativo e o sentido de uma expiação; tais são os preceitos filosóficos à margem da Igreja Oficial dados como um destino para a vida: aprimorar-se a ponto de anular as contradições.

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