domingo, 11 de maio de 2014

1418-O fim e o significado da História


Uma determinação da História

São três visões da História, duas igualitárias: a visão religiosa cristã e a visão laica marxista, ambas segmentárias, ambas escatológicas; implicam logicamente, uma e outra, em uma determinação da História que não é obra do homem, mas de qualquer coisa que o transcende. A terceira é a visão iluminista. Cristianismo e marxismo não se esforçam sequer em negar a “qualquer coisa que transcende”. O cristianismo atribui ao homem um livre arbítrio que lhe permite afirmar que Adão, tendo livremente escolhido pecar, é o único responsável da sua culpa, isto é, da sua imperfeição. É, na paralela, Deus, por ter feito (e, portanto, desejado) Adão imperfeito. Da sua parte os marxistas afirmam, por vezes, que é o homem a fazer a História, ou mais exatamente, os homens enquanto pertencentes a uma classe social. Sucede, todavia, que as classes sociais são determinadas e definidas pelas condições econômicas. Sucede também que é a miséria original a haver constringido os homens a entrarem no sanguinário encadeamento da luta de classes. O homem não é, pois, impelido pela sua condição econômica. É, ele, o joguete de uma situação que se origina na própria natureza enquanto jogo de forças materiais.

Disto resulta que, quando o homem joga um papel na visão igualitária da História, é um papel duma peça que não escreveu, que não poderá ter escrito, e esta peça é uma farsa trágica, vergonhosa e dolorosa. A dignidade, como a verdade autêntica do homem, situa-se fora da História, antes e depois da História. Mas, aqui entra o que se pensou e escreveu no período Iluminista: com ou sem violência, é o homem que constroi sua história e responde pelos resultados. Livre arbítrio pleno, se ele quiser e puder. Ficariam faltando, se ele quiser e puder, a igualdade e a fraternidade. Essas duas se constroi com Educação. Cristo a propôs. Roma não a implantou. Marx não propôs e o comunismo não implantou. Resta à humanidade, o caminho de Cristo desde que Roma possa ficar de fora. Entrará se souber reconhecer seus erros passados. Com o Papa Francisco talvez isso possa ser real, mas o jogo é muito alto.

Por outro lado, todas as coisas possuem em si a sua própria antítese relativa. A visão escatológica da História possui também a sua antítese relativa, igualitária também esta, que é a teoria do progresso indefinido. Nesta teoria o movimento histórico é representado como tendendo constantemente para um ponto zero que não é nunca alcançado. Este “progresso” pode caminhar no sentido de um “sempre melhor”, excluindo, todavia, a ideia de um bem perfeito e absoluto; é um pouco a visão ingênua da ideologia americana, ligada ao ‘american way of life’, e também a de um certo “marxismo desencantado”. Pode caminhar também no sentido de um “sempre pior”, sem que a medida do mal atinja alguma vez o seu culminar: é um pouco a visão pessimista de Freud, que não via como esta infelicidade, que é a civilização, poderia parar um dia de se reproduzir (de notar, por outra parte, que esta visão pessimista do freudianismo está atualmente em fase de ser recuperada, sobretudo por Marcuse e pelos freudomarxistas, na tese escatológica do marxismo, depois de ter desempenhado a função que sempre desempenha qualquer antítese após a invenção do diabo, isto é, uma função instrumental).

O marxismo ateu vê o diabo no capitalismo. O cristianismo romano vê no diabo as desculpas para os desvios de caráter humano. E assim, pode o homem nunca assumirá seu destino, de fato, para modificá-lo pela Educação.

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