segunda-feira, 12 de maio de 2014

1419-O fim e o significado da História


Animar uma outra vontade

Como todos sabem é a Friedrich Nietzsche que remonta a redução do cristianismo, da ideologia democrática e do consumismo ao denominador comum do igualitarismo. Mas é também a Nietzsche que remonta o segundo modelo de visão da História que, na época atual, se opõe (subterraneamente, por vezes, mas com mais tenacidade) à visão escatológica e segmentária do igualitarismo. Nietzsche, com efeito, não quis apenas analisar, mas também combater o igualitarismo. Quis inspirar, suscitar um projeto oposto ao projeto igualitário, animar uma outra vontade, alentar um juízo de valores diametralmente diverso, como veremos.

Por este motivo, a sua obra apresenta dois aspectos complementares entre si. O primeiro aspecto é propriamente crítico, poder-se-ia, inclusive, dizer científico. O seu objetivo é realçar a relatividade de todo o juízo de valor, de toda a moral e também de toda a verdade pretensamente absoluta. De tal maneira evidencia a relatividade dos princípios absolutos proclamados pelo igualitarismo.

Mas, paralelamente a este aspecto crítico, existe um outro, que podemos definir poético, porque esta palavra deriva do grego poiein, que significa “fazer, criar”. Com este trabalho poético Nietzsche esforça-se por dar vida a um novo tipo de homem, ligado a novos valores e que extrai os seus princípios de ação de uma ética que não é aquela do Bem e do Mal, mas uma ética que é legitimo definir como suprahumanista. Para dar uma imagem do que poderia ser uma sociedade humana fundada sobre os valores que propõe Nietzsche, devemos recorrer quase sempre ao exemplo da sociedade grega arcaica, à mais antiga sociedade romana e até às sociedades ancestrais da antiguidade indo-europeia, aristocrática e conquistadora. Isto, quase todos o sabem, pelo contrário, não se presta suficiente atenção ao fato de que Nietzsche, ao mesmo tempo, adverte contra a ilusão que consiste em crer que seria possível “fazer regressar os gregos”, isto é, ressuscitar o mundo antigo pré-cristão. Ora, este detalhe é de uma importância extrema, porque nos oferece uma chave necessária para melhor compreender a visão nietzschiana da História. Nietzsche ocultou voluntariamente, codificou, poder-se-ia dizer, o sistema organizador do seu pensamento. Fê-lo, como se pode dizer, expressamente, com um certo sentimento aristocrático: pretende vetar aos importunos o acesso à sua casa. É a razão pela qual se contenta em entregar-nos todos os elementos da sua concepção da História, sem nunca revelar como se deve combiná-los. Marx também o fez, sem dizer como seria a organização final da sociedade comunal. Os russos fizeram de seu modo, Cuba do seu. Só a China é original porque aquele povo aguenta seu regime. Até quando?

Ademais, a linguagem adotada por Friedrich Nietzsche é a linguagem do mito, o que não faz mais que acrescentar dificuldades de interpretação. A tese aqui exposta não é, pois, nada mais que uma possível interpretação do mito nietzschiano da História, mas trata-se de uma interpretação que tem o seu peso histórico, porque inspirou todo um movimento metapolítico, de fortes prolongamentos, por vezes definido como Revolução Conservadora, e que é também a interpretação daqueles que, reconhecendo-se em Nietzsche, aderem mais intimamente às suas declaradas intenções anti-igualitárias.

Os elementos, os mitemas que se vinculam à visão nietzschiana da História são, sobretudo, três: o mitema do último homem, o do advento do superhomem e, por fim, o do Eterno Retorno do Idêntico, como veremos na próxima postagem.

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