terça-feira, 13 de maio de 2014

1420-O fim e o signficado da História


 
O Eterno Retorno

Então, na sequência da postagem anterior, aos olhos de Nietzsche, o último homem representa o maior perigo para a humanidade. Este último homem pertence à inextinguível raça dos piolhos. Aspira a uma pequena felicidade que seria igual para todos. Quer o fim da História porque a História é geradora de acontecimentos, isto é, de conflitos e de tensões que ameaçam esta “pequena felicidade”. Zomba de Zaratustra que predica o advento do superhomem.

Para Nietzsche, de fato, o homem não é senão uma ponte entre o símio e o superhomem, o que significa que o homem e a História não têm sentido senão na medida em que tendam a uma superação, e para fazer isto não hesitam em aceitar o seu desaparecimento. O superhomem corresponde a um fim, um fim dado a cada momento e que é, quiçá, impossível de alcançar; melhor, um fim que, no mesmo instante em que é alcançado, propõe um novo horizonte. Numa tal perspectiva a História apresenta-se, então, como uma perpétua superação humana. Coincide com a visão iluminista da evolução não só biológica, também intelectual e espiritual. Esta visão também se aproxima do Espiritismo, de Kardec.

Todavia, na visão de Nietzsche há um último elemento que parece, à primeira vista, contraditório em relação ao mitema do superhomem, o do Eterno Retorno. Nietzsche afirma, com efeito, que o Eterno Retorno do Idêntico comanda, também ele, o devir histórico, o que à primeira vista parece indicar que nada de novo pode produzir-se, e que qualquer superação está excluída. Seria isso a reencarnação? Não é dito por Niettzsche, mas como processar o eterno se não através da volta das almas a um novo momento da História?

O fato é que, de resto, este tema do Eterno Retorno foi frequentemente interpretado no sentido de uma concepção cíclica da História, concepção que recorda fortemente aquela da antiguidade pagã. Trata-se, a nosso ver, de um sério erro, contra o qual o próprio Nietzsche nos havia precavido. Quando, sob o pórtico que tem o nome de Instante, Zaratustra interroga o Espírito de tudo o que é Pesado sobre o significado de dois caminhos eternos que, vindo de direções opostas, se reúnem naquele ponto preciso, o Espírito de tudo o que é Pesado responde: “Tudo o que é direito mente, toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo”. Então Zaratustra replica com violência: “Espírito de tudo o que é Pesado, não simplifiques demasiado as coisas!” Mas, as coisas são demasiadamente simples à compreensão humana. A compreensão humana é que se torna complexa por falta de humildade para reconhecer que a História seria perenptoriamente interrompida e reiniciada não sesabe de que ponto exato sempre que os humanos sucumbam definitivamente à sepultura do corpo e à aposentadoria da alma (como arquivo das experiências acumuladas).

Na visão nietzschiana da História, contrariamente ao caso da antiguidade pagã, os instantes são, portanto, vistos como pontos que se sucedem sobre uma linha, seja esta reta ou circular. Para compreender sobre o que assenta a concepção nietzschiana do tempo histórico, é preciso, antes, colocá-la em paralelo com a concepção relativista do universo físico quadrimensional (hoje conhecido). Como se sabe o universo einsteiniano não pode ser representado de forma “sensível, porque a nossa sensibilidade, sendo de ordem biológica, não pode compreender mais que representações tridimensionais”.

Ao mesmo tempo, no universo histórico nietzschiano o devir do homem é concebido como um conjunto de momentos, dos quais cada um forma uma esfera no interior de uma “superesfera” quadrimensional, e na qual cada momento pode, em consequência, ocupar o centro em relação aos outros.

Nesta perspectiva, a atualidade de cada momento já não se chama “presente”. Pelo contrário, presente, passado e futuro coexistem em cada momento: são as três dimensões de todo o momento histórico.

Os animais de Zaratustra não cantam, por acaso, ao seu mestre: “O ser começa em cada instante: em redor de cada ‘aqui’ gravita a esfera ‘além’. O centro está em todo o lado. Curvo é o caminho da eternidade”?

Nenhum comentário:

Postar um comentário