quarta-feira, 14 de maio de 2014

1421-O fim e o significado da História


A escolha oferecida à nossa época

Tudo isto (que viemos escrevendo) pode parecer complicado, assim como a teoria da relatividade é, ela também, complicada. Para ajudarmo-nos recorramos a algumas imagens. O passado, para Nietzsche, não corresponde, de fato, ao que foi “de uma vez para todas”, elemento congelado para sempre que o presente deixaria para trás de si. Do mesmo modo, o futuro não é já o efeito obrigatório de todas as causas que o precederam no tempo e que o determinam, como na visão linear da História. Em cada momento da História, em cada “atualidade”, passado e futuro são, por assim dizer, colocados em causa, configuram-se segundo uma nova perspectiva, moldam uma outra verdade.

O fio que faz a ponte não pode romper-se porque aí a retomada do ponto em que a humanidade havia parado seria a reconstrução contínua de tudo o que já havia ficado pronto. Por isso, os kardecistas entram com a sua tese, a do retorno “ao serviço depois das férias” representado entre uma e outra encarnação da alma, entre uma e outra vida no corpo.

Poder-se-ia dizer, para usar uma outra imagem, que o passado não é mais que o projeto ao qual o homem molda a sua ação histórica, projeto que procura realizar em função da imagem que faz de si mesmo e que se esforça por encarnar. O passado surge então como uma prefiguração do futuro. É, no sentido próprio, a imaginação do futuro: que é um dos significados veiculados pelo mitema do Eterno Retorno.

Consequentemente, é claro que, na visão que Nietzsche nos propõe, o homem assume a inteira responsabilidade do devir histórico. A História é uma obra sua. O que vale por dizer que assume também a inteira responsabilidade de si mesmo, que é verdadeira e totalmente livre; faber suae fortunae (o homem é o arquiteto de seu próprio destino). Esta liberdade é uma liberdade autêntica, não uma liberdade condicionada pela graça divina (como querem algumas igrejas) e nem pelas circunstâncias de uma sociedade dirigida por burgueses (como disse Marx) ou por constrangimentos de uma situação material econômica. É também uma liberdade real, vale por dizer, uma liberdade que consiste na possibilidade de escolher entre várias opções opostas ou similares, opções existentes em todos os momentos da História e que sempre colocam em causa a totalidade do ser e do devir do homem (se estas opções não fossem sempre realizáveis a escolha não seria senão uma falsa escolha, a liberdade uma falsa liberdade, a autonomia do homem uma aparência). E isso pode parecer ateu, mas não é. Afinal, o homem não é o autor do Universo, nem de si mesmo. Existe, pois, espaço para o Autor da Vida, mas deste Autor da Vida, enquanto o homem está aqui neste plano, é retirada a direção dos acontecimentos relativos à humanidade. Somos livres para produzir a nossa obra. Seja ela uma beleza ou uma monstruosidade. O resultado é nosso.

Ora, qual é a escolha oferecida ao homem da nossa época? Nietzsche diz-nos que esta escolha deve fazer-se entre o “último homem”, isto é, o homem do fim da História, e o impulso rumo ao superhomem, isto é, a regeneração da História. Nietzsche considera que estas duas opções são tão reais como fundamentais. Afirma que o fim da História é possível, que deve ser seriamente examinado, exatamente como é possível o seu contrário: a regeneração da História.

Em última instância o êxito dependerá dos homens, da escolha que farão entre os vários campos, o do movimento igualitário que Nietzsche chama o movimento do último homem, o outro movimento, que Nietzsche se esforçou por suscitar, que já suscitou, e que chama o “seu” movimento e um terceiro que, na verdade, é a liberdade, a igualdade e a fraternidade pregadas por Cristo e jogadas no lixo por Roma. E que os homens de todos esses séculos católicos não tiveram a hombridade de barrar propondo outro modelo de sociedade.

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