quinta-feira, 15 de maio de 2014

1422-O fim e o significado da História


Múltiplas sensibilidades

Visão linear, visão esférica da História, visão cósmica do homem: encontramo-nos aqui confrontados com sensibilidades diferentes que não pararam de se opor, que se opõem e que continuarão a opor-se. Estas sensibilidades coexistem na época atual, uma ou outra mais atual.

Mas, há que reconhecer que a evolução humana não ocorre apenas em tese, ela carece de ação. E a ação demora muito a acontecer porque antes de evoluir os homens pensam em enriquecer-se materialmente. A globalização foi buscar primeiro os mercados. Parece que chamará, antes, algumas guerras por conta da posse de alguns “bens”. Seu passo seguinte será sair da trincheira para encontrar o “inimigo” e descobrir que ele nada mais é que outro humano tão humano quanto a gente, tão carente quanto a gente e que brigar, matar, odiar, apropriar-se do que é do outro, nunca foram sinais de evolução. A evolução está no amor. Igualdade no amar. Nos demais campos da vida cada um tem uma preferência, um gosto, uma necessidade, um prazer, um desejo...

Num espectáculo como aquele das pirâmides, por exemplo, a sensibilidade igualitária verá, do ponto de vista moral, um símbolo execrável, já que somente a escravidão, a exploração do homem pelo homem, permitiram conceber e realizar estes monumentos.

A outra sensibilidade, pelo contrário, será, antes de tudo, tocada pela unicidade desta expressão artística e arquitetónica, por tudo aquilo que pressupõe de grande e de espantoso no homem que ousa fazer a História e deseja construir o seu destino…

A última, aqui nesta ordem, justamente porque é a menos considerada, ausente das discussões há dezoito séculos, é a de Cristo. Sua doutrina foi abandonada ainda antes de Roma açambarcar o cristianismo. Seus apóstolos e discípulos centram-se na sua figura e não na sua doutrina. Resultado: de pregador pedagogo ele virou deus salvador. E o que ele disse foi parar nos arquivos e muita coisa já se perdeu por inteiro.

Tomemos um outro exemplo. Oswald Spengler, num texto famoso, recordou aquela sentinela romana que, em Pompeia, se deixou engolir pela lava porque nenhum superior o havia dispensado do dever. Para uma sensibilidade igualitária, ligada a uma visão segmentária da História, um tal gesto é totalmente desprovido de sentido. Em última análise não pode senão condená-lo, ao mesmo tempo em que condena a História, porque aos seus olhos este soldado foi vítima de uma ilusão ou de um erro “inútil”.

Pelo contrário, o mesmo gesto tornar-se-á imediatamente exemplar do ponto de vista da sensibilidade trágica e suprahumanista, que compreende, intuitivamente poder-se-á dizer que este soldado romano não se tornou verdadeiramente um homem senão comportando-se de acordo com a imagem que fazia de si, vale por dizer, a imagem de uma sentinela da cidade imperial.

Citmos Spengler, a propósito. Isto leva-nos a colocar, depois dele, o problema do destino do Ocidente. Spengler, como se sabe, era pessimista. Segundo ele o fim do Ocidente está próximo e o homem europeu não pode fazer mais, como o soldado de Pompeia, que cumprir o seu papel até ao fim, antes de morrer como um herói trágico no abraço do seu mundo e da sua civilização.

Mas desde 1980 (época da primeira publicação do citado artigo, de Spengler) é assinalado por uns o fim de toda a História do Ocidente. Suas crises recentes e o modo como reagem seus habitantes podem estar a desmentir essa hipótese. É ao retorno à “felicidade imóvel da espécie” que apelam os seus desejos, sem ver nada de trágico nesta perspectiva, pelo contrário. O Ocidente igualitário e universalista tem vergonha do seu passado. Tem horror desta especificidade que fez a sua superioridade durante séculos, enquanto no seu subconsciente percorria caminho no rumo da moral que se consagrou. Porque este Ocidente bimilenário é também um Ocidente judaico-cristão quase islâmico, que acabou por se descobrir enquanto tal e que hoje sofre as consequências disso. Certamente, este Ocidente também veiculou durante longo tempo uma herança grega, céltica, germânica, romana, e aí encontrou a sua força.

Mas as massas ocidentais, privadas de verdadeiros mestres, renegam esta herança indo-europeia. Só pequenas minorias, dispersas aqui e ali, olham com nostalgia as realizações dos seus mais longínquos antepassados, se inspiram em valores que foram os seus e sonham em ressuscitá-los. Tais minorias podem parecer risíveis e talvez o sejam efetivamente. E, todavia, uma minoria, talvez mesmo ínfima, pode sempre chegar a guiar uma massa. Já houve isso. De certa forma sempre foi assim. É assim, hoje. Só que os guias deste tempo não são fraternos, não desejam a igualdade e trabalham na contramão da liberdade.

Esta é a razão pela qual o Ocidente moderno, este Ocidente nascido do compromisso constantiniano e do ‘in hoc signo vinces’ (neste sinal vencerás), se tornou esquizofrênico. Na sua imensa maioria quer o fim da História e aspira à felicidade na regressão. Numa regressão para depois da última e única morte. Esquecem-se que o retorno pode dar-se aqui mesmo, em breves décadas, e assim, não só esquizofrenicamente, mas irresponsavelmente, destroem o planeta que herdarão quando voltarem. E, ao mesmo tempo, as pequenas minorias (referidas) procuram fundar uma nova aristocracia e esperam um Retorno que, enquanto tal, não poderá jamais produzir-se (não um regresso “grego”), mas que pode transformar-se em regeneração da História.

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