sexta-feira, 23 de maio de 2014

1430-Família, alicerce da humanidade


Um retrato de muitas famílias atuais

Escrevendo a “saia justa” de muitos terapeutas de família diante de certas famílias que temos na atualidade, a terapeuta Laurice Levy, em artigo para a Internet chama a atenção para o grave momento em que vivemos. Ela diz:

Este artigo visa refletir com os colegas e principalmente alertar os novos alunos de terapia de família sobre as novas famílias que nos procuram na contemporaneidade nos deixando na maior perplexidade.

Sabemos que nas idas e vindas das teorias e terapias, o que tem de mais "in" em termos de terapia familiar é o enfoque construtivista/construcionista, do qual faço parte, indo na direção oposta da visão estratégica dos primórdios da Terapia de Família. O meu questionamento aqui seria como lidar com certas famílias onde aparentemente o nosso conhecimento e ideologia de uma co-construção se apresenta inócuo? A nossa postura atual é de uma não diretividade no setting terapêutico, da devolução da competência à própria família, da condução da terapia de família com um mínimo de influência do terapeuta (já que sabemos hoje o quanto a total neutralidade é impossível). Todavia, considerando que algumas famílias do século XXI nos confrontam com questões que ultrapassam o âmbito clínico e adentram em nossa condição de cidadãos, pergunto o que fazer nos casos que descreverei a seguir.

Todos sabem o quanto o mundo mudou. Todos sentem e vivem profundamente as transformações ocorridas em todos os contextos: social, político, financeiro cultural e evidentemente... familiar que é o que nos interessa aqui. Desde o final do século passado e inicio desse século nossos Congressos, Jornadas e Simpósios enfatizam os reflexos do momento socio-histórico atual que reverberam nas famílias que atendemos nos consultórios. Prova disso são os nomes desses eventos focando "As novas configurações familiares", "Novas formas de conjugalidade", "Novas famílias", etc., etc. entre muitos outros títulos que representam bem a preocupação com os desafios com que nos deparamos diariamente na clínica, no dia a dia.

Sem dúvida, a contemporaneidade encontra-se em um movimento acelerado, rodando a uma velocidade vertiginosa arrastando tudo e todos em seus ditames, regras e normas. Sim, porque o que quero compartilhar aqui é a minha impressão, através dos casos que têm surgido na minha clinica, que de uma forma ou de outra, estamos assistindo a novas "palavras de ordem", e porque não dizer a uma "nova normalidade". Entretanto, há muito pouco tempo atrás, afirmava-se como Lyotard, que a pós-modernidade era a era do instável, do contraditório, do paradoxal. Ele nos lembra Nietzsche que mesmo em sua época, sob a égide do pensamento racionalista, linear, reducionista, da objetividade e da neutralidade, já ia no caminho inverso do paradigma cartesiano (e apolíneo) defendendo uma vida que deveria fluir sem rotinas, enraizada no presente e aberta ao devir.

Mas por que estou falando disso? Porque acredito que enquanto terapeutas familiares sabemos o quanto essa "nova normalidade" muitas vezes se choca frontalmente com nossa visão de mundo (weltanchaaung) e, portanto nos coloca em uma posição de perplexidade. Perplexidade por perceber que Tanatos (instinto de morte) muitas vezes vence Eros (instinto de vida). O que são nossos políticos corruptos senão isso? Quando a força destrutiva é mais poderosa, constante, contínua, "normal" e comum que a energia construtiva? Daí meu questionamento: como lidar com nossa atual, embasada e democrática epistemologia construtivista frente a situações tidas como "normais" pela família, mas que apontam indubitavelmente para o caminho da destruição e da morte? Porque se nosso momento atual trouxe inúmeras satisfações e possibilidade de flexibilidade, co-construção, respeito pelas diferenças e ausência de preconceitos, ele acarreta também grandes preocupações.

Estou me referindo especificamente a algumas famílias que nos procuram hoje, e onde percebemos claramente que a falta de hierarquia, a falta de limites, a aparente "desrepressão" da sexualidade (onde tudo é permitido) apreendida e aprendida através dos órgãos de imprensa, dos filmes, das novelas e da "família", criam situações inusitadas e às vezes... de horror!

Hoje os marginais são os heróis dos jovens e adolescentes. O incesto, a drogadição, o sadismo e as perversões são banalizados e até mesmo estimulados através de anúncios em revistas e jornais. A frustração além de ser, como sempre soubemos, geradora de agressividade é usada como defesa inevitável. A síndrome de pânico é amplamente justificada. Jovens de menos de 15 anos usam camisetas com os dizeres "Vocês podem cuidar dos meus amigos, dos meus inimigos cuido eu" e divulgam um site chamado de "fúriajovem.com".

Dito isso, gostaria de indagar como tratar o mal de nosso tempo onde o caldo de cultura que nos cerca incita e convida aos crimes, à corrupção, à mentira como moeda corrente e banal que só não a usam os trouxas? Quando os valores estão completamente invertidos? Como tratar de filhos que dizem no consultório que vão matar seus pais (com a maior naturalidade) porque os maltratam muito? Quando o adolescente afirma que é muito melhor ser bandido que polícia? Quando afirmam que mesmo matando sabem que existe a impunidade e que, se por acaso forem presos, um ano depois estarão em liberdade (como de fato aconteceu no caso sobejamente divulgado pela imprensa da adolescente Suzane Ritchofen).

Como tratar um planeta cuja segunda maior fonte de riqueza é com as drogas, sabendo que os fortes e poderosos se beneficiam desses ganhos cientes de onde vem o dinheiro? Poderia parecer uma luta inglória tratar alguém que vive em uma família desestruturada, num país desestruturado, em um mundo à beira da falência ética, moral, social e econômica.

Acredito, simplificando aqui e agora, que talvez seja delimitando nosso campo de atuação e aceitando o fato de que a terapia de família não é panaceia para todos os males (como nenhuma abordagem terapêutica é) que poderemos ser eficazes e produtivos. Sistemicamente sabemos que a família deve ter seus próprios recursos internos para poder se beneficiar daquilo que temos para oferecer. Se oferecermos um alimento que não é desejado, que não pode ser engolido, digerido, nem tampouco metabolizado ele não poderá se tornar fonte de energia e saúde.

Assim, lembrando de Hanna Arendt que falava da "banalização do mal", acredito que mesmo sendo construtivistas e respeitosos em relação ao modo de ser de qualquer família fica muito difícil achar natural tudo que ouvimos. Afirmações, como os adolescentes, de 12, 13, 14 ou 15 anos, e/ou suas famílias que "é natural" beber para relaxar, fumar, cheirar, se drogar para se divertir "pois todos fazem isso" e é, portanto "normal" podem nos levar a refletir e nos espantar frente a essa concepção de mundo.

Na minha opinião, infelizmente, para algumas famílias e seus filhos adolescentes essa é a nova regra e a nova ordem, camuflada por trás de uma enganosa liberação que pode levar a família a sua total desarticulação.

Por isso, para terminar só posso dizer que é preciso ter humildade e aceitar nossos próprios limites e impossibilidade de abarcar tudo que existe na contemporaneidade. Penso estar em boa companhia já que mesmo Freud nas "Novas Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise" (1913) pediu para não transformarem a psicanálise em panaceia. Diz que não se deve aceitar todos os pacientes. Assim, se o grande ganho da pós-modernidade é a possibilidade de trabalhar em rede com equipes multidisciplinares que auxiliam nos casos mais graves, com aquelas famílias onde tudo "parece normal", penso que teríamos o direito de não tentar compreender tudo. Certa vez um jornalista perguntou a Freud como ele via o nazismo já que o mestre compreendia tudo.
Freud respondeu: "Tout comprendre ce n´est pas tout pardonner". Ou seja: não se pode compreender tudo e muito menos perdoar tudo por mais construtivistas ou construcionistas que sejamos, frente a atitudes que, claramente, vão contra a vida: a própria e a dos outros.
 
Fim desta série.

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