quinta-feira, 29 de maio de 2014

1436-Cônjuges


Estágios para o amor

Existem muitos estudos sobre as formas de amor. O filósofo André Comte-Sponville arranjou uma grade que foi enriquecida por mim quase no mesmo caminho, mas rebuscando um pouco mais. Assim o amor tem na Posse o seu estágio inferior e ainda num plano inferior chega à Pornéia – estágio do prazer carnal – e avança um pouquinho mais para chegar a Eros, já como uma espécie de Paixão, por vezes exacerbada e causa até de desregramentos quando o passional se torna capaz de matar por ciúme. Veja, já estamos no terceiro estágio e ainda não encontramos o Amor-Amor. Até aqui ele coube no bolso, na genitália, no subconsciente (até doentio), mas não chegou ao coração, que é apontado como a sede do Amor.

Claro, os estágios se sucedem e é saudável que você, se não conhece a escala do Sponville, tenha o maior interesse em saber onde isso acaba. Calma, leitor. A humanidade à qual pertencemos ainda tem pruridos indeléveis do Amor-Posse; a Poneia ainda está no cinema, na televisão, na literatura barata. A Globo admite que quando suas novelas estão perdendo audiência é só arranjar umas cenas fortes de sexo que o Ibope vai lá pra cima. Escondemos o prazer do sexo por milênios, aprendemos que o prazer era pecado e parecia que não havia, mesmo, entre os casais, posto que era buscado mais pelos homens, mas também pelas mulheres, fora do casamento. Porneia se tornou uma busca, já ultrapassada por quem ama, mas o cinema, a literatura barata e a televisão não acompanharam a evolução do amor.

Nós iremos mais longe, com certeza. Mas, não dá para colocar certas coisas na frente das outras. Os casamentos por interesse começam no interesse e depois vão se ajustando, quem sabe para chegar ao Amor. Mas, em geral, nem no sexo dão certo, por sexo também é amor e não apenas prazer. Quando ele é apenas prazer se faz mercadoria. E mercadoria se compra ou se aluga.

A escalada combinada entre mim e o Sponville (claro que sem anuência do filósofo) segue em frente: o quarto estágio do amor é Philos, um amor dependente, centrado na segurança, no relacionamento certo, estável, calculista. Um amor mental, quase um negócio. Não é, de todo, mau, pois o amor no nível mental, abstrato, se mostra, por exemplo, também pela capacidade de sonhar, filosofar, admirar a arte e a poesia, ouvir música, caminhar em silêncio por lugares bonitos ou praticar meditação juntos. Ele só é inferior quando se apega ao outro de uma forma um tanto doentia.

O amor é também aquele tipo de afeto que está

além da forma externa e

torna o silêncio uma coisa gostosa.

Mas, a verdade é que o Amor-Amor, aquele que se define por si mesmo, ainda não chegou aqui na página. Vai ficar para as próximas postagens.

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