sexta-feira, 6 de junho de 2014

1444-Saber transumano


Instinto emotivo ou sabedoria?

Tanto nos irracionais quanto nos racionais, os aspectos afetivo, cognitivo, volitivo e de consciência, convivem muito próximos um do outro. Aos humanos, aparentemente, mais que aos animais, é dado o poder de experimentar e observar enquanto se relacionam com o meio, obtendo como resultado os registros que acabam integrando o acervo científico e tecnológico da humanidade, fruto da inteligência e da reserva de conhecimento levada aos bancos e bibliotecas.

Mas, o que dizer de determinadas situações em que os animais se mostram superiores ao homem? Pássaros que migram de uma para outra região do planeta alguns dias de antes da chegada da inclemência climática? Aves que constroem suas moradias em quadrantes orientados para receber o sol e evitar os ventos e as chuvas dominantes? O que dizer do filhote de tartaruga que largado em qualquer local do planeta inicia sua caminhada sempre em direção do mar? O que dizer dos animais que abandonam antes do homem as zonas de futuros terremotos, tornados, vulcões, tsunamis? E de algumas espécies que constroem exatamente iguais os seus ninhos em diferentes continentes do planeta? Isso é instinto, cognição, observação? Ou é outra coisa?
   
A ensinada qualidade superior atribuída ao homem não se ensina só pela evidência apenas do exercício do raciocínio, da fala e da criatividade... Mas existe uma grande possibilidade de que os animais também raciocinem e, é certo, exteriorizam algum tipo de comunicação, e criam, e constroem... Não dá para dizer que sejam exclusivamente irracionais.

Os diques construídos pelos castores, as casas construídas pelos joões-de-barro e o extraordinário trabalho das formigas e das abelhas, dão conta de parte da dimensão do criar e do construir animal, do fazer metodológico e da adaptação ao meio com extraordinário zelo e saber.

As qualidades “superiores” do homem, costuma-se dizer e pensar, se fazem sentir quando ele desenvolve aptidões outras, incomparáveis com as dos animais como a de domesticar uma grande quantidade deles. Estes, de forma dócil, dedicam-se aos seus domesticadores, em geral com uma espantosa fidelidade. Mérito só humano? E o que dizer quando o homem se deixa domesticar? O que dizer dos escravos, às centenas, aprisionados a uma senzala com apenas dois ou três capitães-do-mato a vigiá-los e nem assim se rebelavam levando tudo por diante?

A muitos brasileiros tem sido feita a pergunta: você embarcaria no projeto de uma das personalidades que ocupam hoje as vitrines da fama (novela, noticiário, cinema, política, economia, esporte, religião)?

As respostas assustam. Mais da metade responde que embarcaria neste ou naquele projeto, indo desde Ronaldo Fenômeno, a Lula, a Tiririca. Não importa dizer qual ou quais os projetos escolhidos. Importa perceber a facilidade com que uma “maioria” embarca em qualquer projeto. E importa perceber a discutível possibilidade de os projetos escolhidos servirem para qualquer coisa como domesticar pessoas. Quantos ícones religiosos, atualmente, pedem e recebem dinheiro apostando exclusivamente no seu carisma? Importa conhecer o mais grave: após oferecerem respostas embarcando neste ou naquele projeto, e de serem cobradas a respeito de possuírem ou não o seu projeto pessoal, responderem: "nunca havíamos pensado num projeto pessoal".

É a conclusão a que se chega quando se observa o espantoso crescimento das religiões ditas pentecostais ou neopentecostais, em que a conversa dos pregadores faz limitar os projetos pessoais e coletivos ao que está escrito nos livros transformados em sagrados (mas escritos pelos homens de outras épocas) em que o destino humano fica literalmente a disposição de Deus. Prometem o homem e a mulher de volta ao Paraíso. De outra forma um tanto semelhante atuam os partidos políticos com o mesmo resultado: a felicidade está lá adiante se você vier conosco. E quem se farta com isso são os que contam o dinheiro obtido com essas práticas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário