domingo, 8 de junho de 2014

1446-Saber transumano


Transumanidade

Em cada ser humano encontramos a nostalgia e a utopia de uma felicidade completa, permanente, absoluta. Quando não é nostálgica, ligada ao tempo já vivido, a felicidade é utópica, colocada lá na frente, para daqui a algum tempo, não se sabe quando e em alguns casos, como nas religiões, o tempo aguardado é o fim dos tempos que geralmente se associa à morte e após ela.

Pensa-se e importa saber que sabemos que ela está em algum lugar, que não se sabe onde, e que ela existe em algum tempo, não se sabe quando.

Invariavelmente (é a norma – e daí à normose), a procuramos fora de nós mesmos e distante do hoje, do agora. Em geral buscamo-la em algo ou alguém: filho, amigo, cônjuge, animal de estimação; numa entidade: igreja, grupo, deus; ou em coisas: casa, carro, emprego, profissão, viagem. E quando não a encontramos em nada disso nos tornamos mais infelizes ainda. Alguns se deprimem. Outros fogem (da realidade) através dos meios anestesiantes da realidade. E assim chegamos às pessoas conformadas, infelizes, dependentes, candidatas à esquizofrenia, à loucura ou ao suicídio.

Pessoas de qualquer idade costumam exclamar: “no meu tempo sim, era melhor!” Ou “quando eu tiver minha casa, então serei feliz!” Essa infelicidade aumenta ainda mais pela influência de uma série de fatores, chamados de "neurose do paraíso perdido", NPP. É muito comum encontrar NPP entre os ocidentais por influência cultural e religiosa. O mito do paraíso nos é tirado no Gênesis Bíblico, quando Adão avança a linha vermelha e se choca com a árvore da vida ou do conhecimento. No Yoga hindu e budista também há descrições detalhadas sobre isso.

O que houve? O mundo modernizou-se e piorou? Quando melhorará?

Trata-se de um círculo vicioso, uma compulsão repetitiva, uma sucessão de causas e efeitos que se retroalimentam. É extremamente difícil sair desse círculo sem uma tomada de consciência do processo, que começa pela informação geral sobre o seu funcionamento. Esta informação por si mesma já tem um efeito terapêutico.

Há uma visão de que nos separamos da vida e rachamos, no todo, em pedaços, ficamos fragmentados, feitos vasos rachados dentro dos quais nada se guarda. A Bíblia diz que somos mais elevados que a terra, dominamos sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre os animais que se arrastam sobre a terra e diz que Deus está no céu. Então nem pertencemos à natureza e nem somos divinos. Estamos dependurados entre o céu e a terra. Eis aí todo o absurdo da visão das religiões derivadas de Moisés.

Quais são as fases sucessivas do desenvolvimento dos fatores que levam à neurose do paraíso perdido? Ela se forma a partir de uma fantasia: a da separatividade. Essa miragem ou ilusão fundamental de que somos seres separados do resto do mundo, foi criada pelo paradigma científico-cultural herdado da Bíblia mosaica. Sempre que se solicite a uma pessoa "mostre-me a natureza!", a reação imediata é apontar para fora da janela, para longe, onde haja um rio, uma floresta, uma praia, uma montanha. Por que não pode apontar para si mesma?

Esse gesto representa o começo de todo o sofrimento, até mesmo do suicídio da humanidade. Exprime uma ilusão de percepção que, em filosofia, se chama dualidade. A dualidade divide o real em sujeito e objeto. Há o "eu" e há o "mundo", há o "universo" e os seres humanos. Há o "observador" e o "objeto observado", o "conhecedor" e o "conhecimento".

Até bem pouco tempo a ciência adotava a separatividade como um dos principais fundamentos da metodologia experimental, tecnológica ou teórica. A "objetividade" era condição essencial do método científico. Chegou mesmo a resultar numa espécie de eliminação do sujeito, como observa Edgar Morin.

A mecânica quântica revela que essa eliminação é um equívoco e reafirma que é impossível separar o sujeito do objeto em observação. Mais do que isso, a física quântica também tende a mostrar-nos que tudo no universo é formado de energia, que todos os sistemas são constituídos pela mesma energia. Resulta, assim, que a separação entre homem e universo é artificial.

Um novo ramo da psicologia, a psicologia transpessoal (logo, logo, também a transumana), mostra-nos a existência de um estado de consciência em que desaparece a dualidade. A experiência e o estado transumano podem ser encontrados em todas as culturas, civilizações e épocas da história, sob diferentes denominações. Segundo o que se reaprende, o nosso estado de consciência em vigília não é totalmente desperto e nisso está a origem da fantasia da separatividade. O estado de vigília compreende as cinco sensações (tato, gosto, olfato, visão, audição) e o raciocínio lógico formal. Steiner trabalha doze sentidos e a compreensão já se torna muito outra. A ciência atual é o resultado de um conhecimento fundamentado exclusivamente nesse estado de consciência.

Podemos alterar isso? Tem de ser possível.

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