sábado, 14 de junho de 2014

1452-Saber transumano


A dor e a verdade

Onde está a verdade?

Muito já se escreveu sobre isso. Muito ainda se escreverá. O importante hoje é resgatar o propósito da vida. Para que fomos mandados a ocupar estes corpos por 70, 80, 90 ou mais anos sobre a face do planeta Terra?

O que se diz sobre a dor? Trata-se de um sofrimento físico proveniente de lesão, contusão ou estado anômalo do organismo ou de parte dele por causa natural ou provocada.

O que se diz do sofrimento? Sofrimento físico é a dor. Sofrimento moral é: (a) a contrariedade em relação ao desejo, a vontade ou o interesse; (b) é ser afligido por ameaça, medo, culpa; (c) é padecer por coisa desagradável, danosa, repugnante, humilhante, desqualificante; (d) é ser vítima de infortúnio, desastre, agressão, violação, vilipêndio, desonra; (e) é ser rejeitado; (f) é sentir angústia, aflição, amargura; (g) é escolher tarefa ou situação que leve ao sofrimento em nome de uma causa; (h) é ser privado da liberdade.

Gibran Khalil Gibran é um dos destacados sábios de nossa história. Transita mais facilmente entre os vários clubes da fé por não ter, em seu nome, fundado uma igreja. Logo, não pensou no dinheiro que, em geral, a maioria dos templos arrecadam. Sobre a dor ele diz: "é o rompimento do invólucro que encerra nossa compreensão". Para ele, “do mesmo modo que a semente da fruta deve quebrar-se para que seu coração apareça diante do sol", nós também devemos conhecer a dor para aprender com ela a substituir o que passou e morreu pelo que ainda não nasceu por falta de espaço”. O ato de sofrer física ou moralmente, assim, pode ser uma experiência iniciática que amplia nossa visão da vida e nos empurra para a transcendência, fazendo-nos alcançar um novo nível de consciência e de conhecimento para que recuperemos a nova paz e o novo equilíbrio sobre bases sólidas. Procure entender, caro leitor, que estamos enfocando o sofrimento sob nova ótica longe do conceito abordado na postagem anterior.

Também diz Gibran: "se o seu coração pudesse viver sempre no deslumbramento do milagre cotidiano, sua dor não lhe pareceria menos maravilhosa que sua alegria, e você aceitaria as estações do seu coração como sempre aceitou as estações que passam sobre os campos. E você contemplaria serenamente os invernos da sua aflição. Grande parte do seu sofrimento é escolhido por você mesmo: é a poção amarga com a qual o médico que está em você cura o seu eu-doente. Confie, portanto, no médico, e beba seu remédio em silêncio e com tranquilidade, pois sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível, e a taça que ela lhe oferece, embora queime seus lábios, foi confeccionada com lágrimas sagradas". Entenda-se, agora, o sofrimento como alavanca de avanço, do mesmo modo que o universitário batalha para chegar à formatura.

O lado escuro de nossas vidas sempre existirá para que nós tenhamos a capacidade de entender a importância da luz. Atravessar essas sombras é buscar a luz; a dor existe como travessia para o prazer. Ninguém alcança bem-aventurança sem encarar a dor e o sacrifício. Entendido “sacrifício” como “sacro ofício”, ofício sagrador.

O que precisa mudar no paradigma atual é que a dor não é permanente. Nem o gozo. O ser humano precisa lidar diuturnamente com eles.

Falando do prazer, Epicuro, pensador grego que viveu entre 341 e 270 anos antes de Cristo, diz que "o prazer não tem nada a ver com a preguiça e os outros vícios". Para ele, é entre a dor e o vício que se abre o caminho sólido da sabedoria e do bom senso, que leva ao verdadeiro prazer e à felicidade interior.

Escrevendo para um amigo, Epicuro disse: "quando digo que o prazer é a meta, não me refiro aos prazeres dos depravados e dos bêbados, como imaginam aqueles que desconhecem nosso pensamento, e sim à ausência de dor na alma. Não são as bebedeiras e as festas ininterruptas que constituem a fonte de uma vida feliz, mas aquela sóbria reflexão que examina a fundo as causas de toda escolha e rejeita as falsas opiniões, responsáveis pelas perturbações que se apoderam da alma. A prudência é o princípio de tudo isso e o bem supremo".

Assim como a felicidade que queremos não pode depender do controle e nem da existência de estranhos, o prazer que devemos buscar não pode ser introduzido em nosso corpo através de agentes externos. Saber encontrar o prazer apenas naquilo que nos foi dado pelas vias naturais da vida, parece resumir e definir uma fonte inesgotável dele.

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