quinta-feira, 31 de julho de 2014

1499-Jesus com efes e erres


Reino ou império espiritual

Não há que interpretar de outra forma o reino dos céus ou reino de Deus, se não na Terra, se não como um reino espiritual. Parte-se do princípio que tanto Deus como os céus são expressões espirituais que se associam à proposta de Cristo registrada já no ato de seu batismo no rio Jordão, em Mateus fala da pomba, que representa o espírito (cap. 3, v. 16-17). E no versículo 11, Mateus registra que João Batista esclarece: “Eu batizo na água, mas o que me sucede (Jesus) batizará no Espírito Santo”. Batizar, segundo as tradições daquele povo significava abraçar uma causa religiosa em definitivo, uma iniciação.

É verdade também que existem na Bíblia diversas passagens em que Jesus fala sobre um pós-morte. Uma delas está em Lucas. É sobre um homem rico e um mendigo que costumava pedir-lhe esmolas. Depois de morrer, o rico vai para uma espécie de inferno, onde "se atormenta nas chamas". E o mendigo é consolado por Abraão. Cristo é mais claro ainda no evangelho de João. Diz a Pilatos que "seu reino não é deste mundo". Parece dizer, claramente, “eu nada tenho a ver com o poder dos homens na Terra, eu trato das questões espirituais”.

Só que Lucas e João são textos mais recentes que Marcos. E para boa parte dos pesquisadores, é por isso mesmo que eles dão ênfase à ideia de um Reino do Céu imperando na Terra: o império, a influência, as regras, o domínio da esfera espiritual.

"Essas referências foram sendo acrescentadas conforme o início do reino não ocorria (imediatamente)", diz o arqueólogo e especialista em cristianismo, Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Ou seja: chegou um momento em que os cristãos tiveram de lidar com o fato de que o reino de Deus talvez não estivesse tão próximo assim. A partir daí, começou um processo de reinterpretação. Cada um dava seu palpite, como hoje ainda ocorre.

A pregação de Jesus, de que os bons seriam recompensados e os maus punidos num julgamento que marcaria o fim de uma era no mundo, foi sendo alterada. E o julgamento passou a acontecer no final da vida de cada um. Faz todo o sentido: do ponto de vista argumentativo, é uma versão mais sofisticada. Só quem já morreu pode contestá-la.

Dada, porém, a forma tão materialista de como as religiões e os governos administravam os interesses dos povos, são sempre mais numerosos os estudiosos que adotam a tese do Reino Espiritual na Terra. É simples: se a vida não acaba no cemitério, há o pressuposto de que quem habita o corpo humano é o espírito eterno e seria para atender os requisitos desse habitante espiritual de passagem pela matéria que seria implantado aqui um Reino Espiritual, mais justo, mais digno do ser humano.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

1498-Jesus com efes e erres


 
Um reino de Deus na Terra

Todo ano, antes de avisar a Jesus Cristo que ele está aqui, Roberto Carlos olha para o céu e vê uma nuvem branca que vai passando. O céu virou sinônimo de paraíso e é de lá que Deus observa os nossos movimentos. É pra lá que vai quem já morreu.

Mas o jovem Jesus, quando tentava convencer seus ouvintes a se comportarem de maneira justa, não dizia exatamente isso. O Reino de Deus (ou Reino dos Céus) que Jesus pregava iria acontecer aqui na Terra mesmo.

Os estudiosos dos conteúdos da pregação de Jesus asseveram que sua proposta era espiritual, explicitada já no seu batismo quando se disse que ele não batizaria mais na água e sim no espírito. E que o reino dos céus, morada dos espíritos, nada mais era que a aplicação entre os homens das leis espirituais.

Os próprios evangelhos deixam claras muitas coisas. Em uma conversa com os discípulos pouco antes de ser executado, Jesus diz que alguns deles estarão vivos para ver o reino de Deus chegar: "Dos que aqui estão, alguns há que de modo nenhum provarão a morte até que vejam o Reino de Deus já chegando com poder" (Marcos, 9:1). Em outro momento, Jesus chega a afirmar que o Reino de Deus já chegou: "Ora, depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galileia pregando o evangelho de Deus; e dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho" (Marcos, 1:15). Se o reino de Deus está chegando na Terra, é na Terra, mesmo, que ele teria de implantar-se.

Os discípulos, portanto, acreditavam que o Reino de Deus seria instaurado imediatamente. "No tempo de Jesus, era muito forte a esperança de que se fosse fazer um reino nos moldes do Rei Davi, do Rei Salomão. Quando Jesus falava em `reino’, as pessoas achavam que só podia ser um reino desse tipo", diz Irineu Rabuske. Mas, Jesus era um profeta apocalíptico, e o que ele defendia é que Deus faria uma intervenção em breve e daria início a um reino de paz e justiça.

terça-feira, 29 de julho de 2014

1497-Jesus com efes e erres


De que ele morreu?

Fica muito difícil explicar a ressurreição de outra forma que não a verdadeira, possível, sem contestações. E mais difícil ainda explicar que Jesus subiu aos céus em carne e osso.

Jesus morreu fisicamente, clinicamente? Quem pode assegurar? O médico que o tivesse examinado, teria atestado sua morte por “hemorragia externa, causada por ferimentos nas mãos, pés e tórax, seguida de insuficiência respiratória”. Com os crucificados ocorre que o corpo, suspenso na posição em que fica, faz pressão sobre os pulmões e estes perdem lentamente a capacidade de funcionar, asfixiando a vítima nesse processo. Para facilitar o seu retorno à vida no mesmo corpo, o centurião romano (Longhinus) teve à intuição de ferir-lhe com a lança, expelindo todo o líquido que se acumulara sobre a extremidade inferior do pulmão, que inviabilizava sua respiração.

O Messias morreu antes que os seus dois companheiros de infortúnio que, como sabe, foram crucificados junto com ele. Os espíritos evoluídos livram-se mais rapidamente da matéria, como sabemos.

Tanto foi assim que ao saber do rápido passamento de Jesus, Pilatos mostrou-se surpreso e manifestou isso a José de Arimatéia, tio e amigo do morto, autorizando-o a retirar o corpo (Marcos 15, 43-45) da cruz. Por este motivo, não lhe foram quebradas as pernas, como aconteceu aos dois outros condenados e a todos os demais crucificados, como era norma. No momento em que se quebraram as pernas dos dois outros condenados, Jesus já havia sido retirado da cruz e já estava sepultado.

Também não ganhavam sepultura os condenados à cruz. Eram deixados ao relento para que os cães e os abutres se servissem de suas carnes. Gólgota, nome dado ao local das execuções se deve às caveiras ali abandonadas, principalmente crâneos.

Sepultado, Jesus teve a assistência do médico Nicodemos, especialista em ferimentos, como consta de Lucas 23; 56 e de João 19; 39. Nesta mesma noite recobrou os sentidos e ergueu-se da sepultura para assombro de todos quantos tomaram conhecimento desse fato.

Voltou ao convívio dos seus diretos auxiliares e precisou sumir da região para não ser executado novamente a sangue frio. Esta é a história que se conta do surgimento de um messias em Kashimira, na Índia, onde viveu até os 40 anos de idade, falecendo de morte natural, recebendo ali sepultura que, por sinal, é muito frequentada como depósito do corpo de um importante profeta. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

1496-Jesus com efes e erres


Judas não traiu, obedeceu

Judas, um dia, foi nome próprio. Mais tarde, virou adjetivo, sinônimo de ausência de caráter, traidor. Mas Judas Iscariotes, que teria entregue Jesus aos romanos em troca de 30 moedas de prata, pode ser um grande injustiçado nesses registros históricos. Essa história aparece nos quatro evangelhos - com uma ou outra variação, mas sempre indicando o mau ato daquele apóstolo.

Para alguns estudiosos, porém, a história da traição é uma farsa, montada pelos romanos para dificultar as relações cristãs como os judeus. Teria sido um judeu o traidor. A maior evidência estaria nos textos de Paulo, os mais antigos entre os do Novo Testamento, escritos por volta do ano 50 d.C. Numa passagem na Primeira Epístola aos Coríntios Paulo diz que, depois de ressuscitar, Jesus apareceu para os 12 apóstolos, e não para 11 como consta: "Ele foi sepultado e, no terceiro dia, foi ressuscitado, como está escrito nas Escrituras; e apareceu a Pedro e depois aos 12 apóstolos" (Coríntios, 15:5). Ou seja, Judas estaria lá. Não teria se matado após a famosa traição, como dizem os evangelhos. Essa epístola foi escrita pelo menos dez anos antes de Marcos, o primeiro dos quatro, que fala de traição.

Em defesa de Iscariotes, lá está escrito em Mateus 26; 2 “O Filho do Homem será traído para ser crucificado”. E em Marcos 14; 18 reza: “Um de vós irá me entregar”. Interpreta-se que se não fosse entregue ele não seria localizado para ser preso, e quem faria essa denúncia, evidentemente, teria de ser um deles. E o escolhido foi Iscariotes, o de maior confiança, pois a ele estava entregue a tesouraria da comitiva de Jesus. A fala de Jesus não teria sido uma denúncia e sim uma ordem.

Outro documento que defende o suposto traidor é o Evangelho apócrifo, que ficou conhecido como "Evangelho de Judas". Uma cópia desse manuscrito foi revelada em 2006. Pesquisadores acreditam que o texto foi escrito originalmente por volta do século II, já que ele foi mencionado em uma carta escrita pelo bispo Irineu, de Lyon, em 178 d.C. Segundo o texto, Judas teria apenas acatado um pedido de Jesus ao entregá-lo para as autoridades romanas. Nessa versão, Iscariotes era o apóstolo mais próximo do mestre - daí o pedido ter sido feito a ele.

Mesmo se levarmos em conta só os evangelhos canônicos, alguns pesquisadores acham pouco verossímeis as passagens que incriminam Judas. É o caso de John Dominic Crossan: "Para ser sincero, eu vou e volto com essa questão. Mesmo quando respondo afirmativamente [que Judas de fato traiu Jesus], penso nisso como remotamente possível", diz ele.

Durante a sua última semana de vida, Jesus era protegido pela presença da multidão durante o dia ("Procuravam então prendê-lo, mas temeram a multidão", Marcos, 28:12), e se protegia ao sair de Jerusalém e ir para Betânia, onde estava hospedado, durante a noite. Na opinião de Crossan, as autoridades romanas não precisariam da ajuda de Judas para encontrar Jesus: "Certamente as autoridades teriam descoberto por si próprias o lugar exato para interceptar Jesus. Então, Judas era mesmo necessário? Essa é minha maior objeção para com a figura histórica de Judas dado como traidor".

Por esse ponto de vista, o episódio da traição de Judas teria sido criado para facilitar a conversão dos romanos ao cristianismo. Na época, parte da população do império já começava a se converter, e não ficaria bem se a maior parte da responsabilidade pela morte de Jesus recaísse justamente sobre um romano, Pôncio Pilatos.

É o que Chevitarese defende: "Pessoas vindas do ambiente politeísta, principalmente das elites romanas, já estavam se convertendo ao cristianismo por volta de 70 d.C. Por isso, os evangelhos fazem Pilatos lavar as mãos".

A condenação de Jesus se deu por crime político-religioso. Crime político contra o regime romano, acusado de pretender ser o rei dos judeus. Crime religioso contra as tradições judaicas por pretender revogar leis centenárias e ocupar o lugar de Davi. O seu discurso incluía nesse reino todos os homens do universo, o que também não era aceito pelo povo escolhido.

Num documento que pertence aos arquivos do Império Romano a execução de Jesus se deveu por subversão por ele promovida ao intitular-se rei. Quanto à participação do Sinédrio, que era o Conselho da Igreja Judaica, a acusação é quanto ao fato de Jesus declarar-se Filho de Deus.

domingo, 27 de julho de 2014

1495-Jesus com efes e erres


Quem são os autores dos evangelhos
Mateus e João eram apóstolos de Jesus. Marcos foi um discípulo de outro apóstolo (Pedro). E Lucas era médico de Paulo. Pela tradição cristã, eles são os autores dos quatro evangelhos do Novo Testamento. Mas isso também é um mito. Ninguém sabe quem escreveu os livros. A "autoria" de cada um foi atribuída aleatoriamente pela Igreja bem depois de os textos terem ido para o papiro.

O evangelho de Mateus, por exemplo, foi atribuído a Mateus porque ele dá ênfase ao aspecto econômico - e Mateus era o apóstolo que tinha sido coletor de impostos. Já o texto creditado a João é o único dos evangelhos a relatar o episódio em que Jesus, pouco antes de morrer, pede ao apóstolo João que cuide de Maria, sua mãe. Aí os créditos ficaram com João.

O que se sabe mesmo sobre os autores é que não eram "autores" no sentido moderno que se dá a palavra. Hoje, qualquer um pode ser autor, porque todo mundo sabe ler e escrever e conta com os meios de difusão. Há 2 mil anos não era assim. Saber escrever era o equivalente a hoje saber engenharia da computação. E escrever não significava divulgar. Muitos textos eram escritos e guardados. Com o tempo se tornaram descobertos, mas em geral, num estado de decomposição e nem sempre com o nome dos autores, o que dificulta a geração de autenticidade.

Do mesmo jeito que as empresas contratam engenheiros para cuidar de seus mainframes, os antigos contratavam escribas (aqueles que sabiam escrever) quando precisavam deixar algo por escrito. Com os evangelhos não foi diferente. O mais provável é que comunidades cristãs tenham encomendado esses trabalhos e ditado aos escribas as histórias que conheciam e conhecemos hoje. Ditado e entregado outros textos também, para que eles usassem como fonte. E mesmo assim, conforme a própria Igreja admite, alguns textos foram adaptados, outros ampliados, outros desprezados, segundo o interesse dos dignitários de quem encomendava o texto, não raro, autoridades imperiais com interesse político.

Dos evangelhos, o primeiro a ser escrito foi aquele que hoje é atribuído a Marcos, quase 40 anos após a morte de Jesus. O de Marcos, enfim, saiu por volta do ano 70. Mateus e Lucas vieram um pouco depois, entre 75 e 80, até, por isso, ambos trazem alguns trechos idênticos aos do manuscrito atribuído a Marcos.

Também há muita coisa igual em Mateus e em Lucas, e que não aparece em Marcos. Como? A tese é simples: os dois autores teriam usado uma fonte em comum, que acabou perdida. Os especialistas chamam essa fonte de "Q" ("Q" de quell, que é "fonte em alemão). Sempre que Mateus e Lucas concordam em alguma história que não está em Marcos, então, ela é creditada ao suposto livro "Q".

Por causa desse entrelaçamento todo, costumam chamar esses três evangelhos de "sinópticos". Ou seja: os três têm a "mesma ótica". Contam basicamente a mesma história, cada um com algum adendo aqui e alguma omissão ali.

Já João, o quarto evangelho, escrito por volta do ano 100, traz uma história diferente. Ali Jesus é mais do que o "filho de Deus": é o próprio Deus encarnado. E a narrativa também muda. Em João ele destrói as barracas dos cambistas e vendedores do Templo de Jerusalém logo no começo da saga, por exemplo. Nos outros, esse ato está bem no final.

Depois foram surgindo mais e mais "biografias" de Jesus.

Para diminuir a bagunça, logo depois que o imperador Constantino legalizou o cristianismo, no século IV, a Igreja se organizou para definir quais seriam os livros que fariam parte da Bíblia Católica, nem mais cristã, pois a igreja não se intitulou cristã no seu nome. E bateu o martelo para a formação atual do Novo Testamento. O critério da Igreja foi usar os textos mais antigos - os mais confiáveis. Os quatro evangelhos, inclusive, faziam parte da primeira lista de livros sagrados do cristianismo de que se tem notícia, o Cânon de Muratori, compilado em 170 d.C. "A Igreja no século IV apenas reconheceu o que já eram as suas escrituras por séculos", diz o teólogo Ben Witherington, da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Os textos sobre Jesus que não entraram para a Bíblia acabaram conhecidos como evangelhos "apócrifos" ("ocultos", em grego). Existem dezenas. Um deles, aliás, é aquele descoberto recentemente e que ficou famoso por dizer que Jesus era casado. Não é bem um "evangelho", mas um fragmento de papiro do tamanho de um cartão, em que aparece escrito em egípcio: "Jesus disse a eles: ´Minha esposa (...)`" - o resto está cortado. O manuscrito é dos anos 300 d.C. Bem mais recente que os evangelhos do Novo Testamento. O que ele significa? Que alguma comunidade cristã daquela época acreditava que Jesus era casado. Era, pois, na condição de esposa que Madalena acompanhava a comitiva. Era, pois na condição de mãe do messias que Maria de Nazaré acompanhava a comitiva. Não se tem informações sobre em que condição Maria de Betânia estava no grupo, pois dela se diz que abandonou o esposo para seguir a Jesus. Era na casa dessa Maria que Jesus se recolhia quando não estava em peregrinação. Essa Maria é, também, a irmã de Lázaro, aquele a quem Jesus fez ressuscitar.  

Para a maior parte dos pesquisadores, isso não basta para mudar a "biografia oficial" de Cristo, como diz André Chevitarese: "João Batista era celibatário. Paulo era celibatário. Jesus pode ser um desses casos".

sábado, 26 de julho de 2014

1494-Jesus com efes e erres


Um profeta entre muitos

Cristo viveu em um período favorável ao surgimento de profetas. Só no livro Guerra dos Judeus (do historiador Flávio Josefo, que viveu no século I) dá para identificar pelo menos 15 figuras semelhantes a Jesus, que viveram mais ou menos na mesma época dele.

A Bíblia cita outros quatro. Um é João Batista, que anunciava o fim do mundo aos seus seguidores, e de quem os cristãos herdaram o ritual do batismo.

"Cerca de cem anos depois da morte de João Batista, seus discípulos ainda diziam que ele era maior que Jesus", segundo o autor Chevitarese, que consultamos.

Para esse historiador, João Batista era um concorrente de Cristo. Os dois eram profetas apocalípticos (já que pregavam o fim dos tempos) e viviam na mesma região. A diferença é que João chegou primeiro. "Ele não se ajoelharia na frente de Jesus e dizia não ser digno de amarrar a sua sandália, como está nos evangelhos. Como se sabe, um discípulo nada acha de indigno amarrar as tiras da sandália do mestre”.

Segundo Chevitarese, foi a redação da Bíblia, evidentemente favorável a Jesus, que transformou Batista num coadjuvante: "Os textos pró-Jesus é que vão amarrar o Batista à tradição de Jesus. João Batista é um dos melhores exemplos que nós temos de um candidato messiânico marcadamente popular". Apesar de tudo, Batista é dado como primo de Jesus. Mas, como as divisões entre judeus não é novidade desde tempos muitos anteriores, mais essa divisão não seria novidade.

O segundo desses profetas contemporâneos é Simão, o Feiticeiro. Conforme o livro Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, Simão é conhecido por "praticar mágica", e quando ouve os apóstolos falarem sobre Jesus, oferece dinheiro a eles para tentar comprar o dom de Deus (de fazer curas milagrosas). Os apóstolos recusam a oferta, claro.

O terceiro desses é Bar-Jesus, que os apóstolos encontram quando chegam à Grécia e a quem nomeiam como "falso profeta".

E o último é o "egípcio", com quem Paulo é confundido no templo de Jerusalém. O egípcio era um candidato a Messias que viveu por volta do ano 40, e prometeu levar os seus seguidores para atravessar o leito do Rio Jordão, que, ele dizia, se abriria quando eles passassem. Chevitarese conta que eles sequer tiveram tempo de chegar às margens do rio: "Os romanos, quando ficaram sabendo disso, mandaram a tropa aniquilar todo mundo. Vai que o rio abre mesmo?".

E assim, nós que acompanhamos essas histórias dois mil anos depois dos fatos vamos tomando conhecimento de que os governos eram perversos e mortíferos. Não se furtavam fazer massacres em nome da preservação do poder.

Quanto aos “profetas” muitos, circulando pelas aldeias naquele período judaico (do ano judaico de 5800) em que a escrita era limitada aos papiros, que hoje se pode comparar com um preparado tipo papelão obtido a partir das fibras de um capim ou (também havia) sobre o couro curtido de carneiros e ovelhas, repito, sua existência jamais chegou claramente aos séculos posteriores dada a degradação dos registros históricos. O próprio Cristo teria passado anônimo para nós não fosse a conversão de Paulo ao cristianismo primitivo, sua divulgação do cristianismo primitivo entre outros povos a ponto de alcançar Roma e daí para frente com a adoção do cristianismo por Roma como religião oficial do Império Romano.

Um exemplo disso são os nomes de Confúcio, Lao Tsé, Osho, Krishna e tantos outros líderes religiosos do Oriente que se tornaram universais depois que a imprensa foi inventada e mais ainda com a recente globalização.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

1493-Jesus com efes e erres


Baixinho e de cabelos curtos

A Bíblia não fala sobre a aparência de Jesus. Isso deu liberdade a que artistas construíssem a imagem de Cristo de acordo com suas próprias interpretações. Os do Renascimento, por exemplo, desenhavam Jesus à imagem e semelhança dos nobres do norte da Itália. E essa foi a imagem que ficou entre nós: um ariano de olhos azuis, cabelos loiros, longos e cacheados.

Vamos à ciência: esqueletos de judeus do século I indicam que a altura média deles era de mais ou menos 1,55m. E que a maioria não pesava muito mais do que 50 quilos. Então o físico de Jesus estaria dentro dessa faixa. E mesmo se fosse bem alto para a época, com 1,65m, por exemplo, ainda seria pequeno para os padrões de hoje.

Determinar o rosto é mais difícil. Mas uma equipe de pesquisadores britânicos liderada por Richard Neave, um especialista em ciência forense, conseguiu uma aproximação boa. Usando como base três crânios do século I, eles lançaram mão de softwares de modelagem 3D para determinar qual seria o formato do nariz, dos olhos, da boca... enfim, do rosto de um adulto típico da época. O resultado foi uma face completamente diferente do que se conhece.

Quanto à cor da pele, a hipótese mais provável é que fosse morena, como era, e continua sendo, a da maior parte das pessoas no Oriente Médio. E como seria a de praticamente qualquer um que passasse a vida toda ao ar livre naquele calor de lascar. Bom, sobre o cabelo dele quem dá a maior pista é a própria Bíblia. No livro 1 Coríntios, Paulo diz que "cabelo comprido é uma desonra para o homem". O maior divulgador do cristianismo no século I provavelmente não diria isso se Jesus tivesse sido notório pela longa cabeleira.

Por outro lado, se realmente Jesus teve ascendência essênica, a possibilidade dos cabelos longos fica mais evidente, pois Sansão, o superhomem da história com Dalila, em que ao cortarem-se os seus cabelos perdera as forças, era um essênio e os essênios tinham por costume deixar os cabelos crescerem sobre os ombros.

Na verdade, as primeiras representações conhecidas de Cristo, feitas no século III, mostram um Jesus de cabelo curto. E sem barba, até. "A ideia era mostrar que se tratava de um jovem", diz Chevitarese. A inspiração desses artistas eram as esculturas de Apolo e Orfeu, deuses gregos também retratados como jovens imberbes.

Por volta do século V, essa primeira imagem de um Jesus jovial e imberbe perdeu espaço para uma outra, em que ele está de barba e cabelos longos e escuros.

Esse Jesus moreno e barbudo surgiu no Império Bizantino e é conhecido como Cristo Pantocrator ("todo poderoso" em grego). "Os bizantinos começam a atribuir à figura de Jesus um caráter de invencível. E essa representação de alguma forma coincidia com as que eles faziam dos próprios imperadores bizantinos", diz Chevitarese.

Os renascentistas (século XIV), depois, também fariam um Jesus à imagem e semelhança das pessoas que conheciam, e que achavam mais bonitas. Daí a pele clara, o cabelo dourado e os olhos azuis: um príncipe europeu. Nas últimas décadas, porém, artistas (e cineastas) têm se esforçado para não representar Jesus como um nórdico. Em “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson, o protagonista (Jim Caviezel) chegou a ter os seus olhos azuis transformados em castanhos por lentes de contato. Mas ainda falta um filme realista para valer nesse quesito.
Também a ideia de que se tratava de um jovem solteiro, parece pouco verossímil. Nos costumes judaicos da época, duas coisas são claras: se solteiro era mal falado, boiola; se mulheres solteiras estivessem em sua companhia nas peregrinações também seriam mal faladas, mulheres fáceis. E veja que três Marias fizeram parte de sua caravana: sua mãe, a este tempo viúva; Madalena, solteira(?) e Maria de Betânia, separada(?). Este assunto retornará na postagem de nº 1494.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

1492-Jesus com efes e erres


Reis que não eram reis

Está no evangelho de Mateus (e só nele): "magos do oriente" ficam sabendo do nascimento de Jesus e seguem uma estrela que os leva até Jerusalém. Uma estrela que acabou por dar origem (muito mais tarde) a uma especulação de que se tratava de um disco voador trazendo o menino nascido em outra galáxia. Esta especulação pode ter origem noutra, de autoria da Bíblia com apoio da Igreja, que afirma que Jesus subiu aos céus no uso do próprio corpo, o que como se sabe, é alguma coisa que necessita de um veículo para acontecer. E aí o disco voador ganha espaço.

Para o leitor não acostumado com essa leitura, há que informar que discos voadores são tema dos nossos últimos 40 anos e só se vinculam à história sagrada porque a Bíblia também fala de Elias subindo aos céus num carro de fogo. Por conta desses episódios narrados como verdades sagradas, os ufólogos se acham no direito de especular que Elias e Jesus foram usuários de discos voadores.

Mas, voltemos ao nascimento de Jesus. Em Jerusalém (diz a Bíblia/Mateus) os reis magos vão até o palácio real e perguntam a Herodes onde é que vai nascer o "rei dos judeus". O soberano consulta estudiosos das Escrituras Sagradas, e informa aos magos que o nascimento deve acontecer na cidade de Belém. Então pede que eles voltem para confirmar o paradeiro do recém-nascido. Os homens mais uma vez seguem a estrela, agora até Belém (a 10 quilômetros dali). Então oferecem ouro, incenso e mirra ao menino Jesus. Depois, são alertados em um sonho que não devem contar a Herodes onde Jesus está, e voltam para casa por um caminho alternativo.

Herodes, que era, ele mesmo, o "rei dos judeus", não queria ser destronado, então mandou seus soldados matarem todos os meninos com menos de dois anos em toda a região. Esta possibilidade também não se confirma. É mais uma história típica da mitologia em torno de Jesus: nenhum historiador busca evidências de magos e estrelas-guias, claro e também não do infanticídio. Acreditar que sim ou não é questão de fé. Mesmo assim, alguns elementos dessa fé distanciaram-se do que está na Bíblia. Por exemplo: não há menção a "reis". "A tradição popular é que definiu isso, porque trouxeram presentes caros", diz Irineu Rabuke, detalhe que nem fazia parte das tradições quanto aos recém nascidos em famílias não nobres. Como queriam que Jesus fosse herdeiro do trono do Rei Davi, colaram nele mais esta lenda.

O evangelho, aliás, nem diz que eles eram três: só se sabe que eram mais de um, já que são mencionados no plural. Os nomes deles também não aparecem. As alcunhas "Gaspar", "Melquior" e "Baltazar" são de textos do século 5.

O mais provável, enfim, é que esses personagens de Mateus sejam inspirados em sacerdotes do zoroastrismo, uma religião persa ligada à astrologia - daí a "estrela de Belém" e a expressão "vindos do oriente", onde ficava a Pérsia (hoje o Irã).
Se eles foram imaginados como persas, mesmo, essa história tem algo de inusitado do ponto de vista geopolítico, como lembra o americano Crossan: "Acho irônico que, no meu país, nós tenhamos três iranianos (hoje muçulmanos) nos nossos presépios cristãos".

quarta-feira, 23 de julho de 2014

1491-Jesus com efes e erres


 
Confusão entre messias, rei e até de data

As profecias dos quatro séculos anteriores ao nascimento de Joshua Bar Levi o davam como o messias esperado para fazer uma virada nos costumes do povo escolhido por Deus para servir de exemplo para toda a humanidade. Não fosse assim, o Espírito de Cristo poderia ter encarnado  na China, na Índia, no Irã, onde quer que fosse. O povo judeu foi escolhido por sua tradição na lida com as coisas espirituais.

A vinculação do nascimento do messias à cidade de Belém só piorou as coisas para Jesus, pois reduziu sua importância como messias e ampliou sua predestinação como rei judaico, fazendo crescer a reação das autoridades ameaçadas, enquanto o planeta e os próprios judeus foram perdendo a confiança no acontecimento messiânico.

Para sua libertação definitiva os judeus não precisavam de um tutor, um guia terreno e protetor como foram Salomão e Davi. Tutores existem para encaminhar os incapazes. Os Judeus estavam recebendo na carne de um judeu o Espírito mais qualificado para a missão messiânica, indicado para fazer uma revolução com repercussões no mundo todo, como de fato ocorreu, inclusive com a alteração do calendário humano, hoje adotado e conhecido em todo o planeta.

É estranho, mas essa vinculação com Belém e com a dinastia de Davi parece ser uma manobra processual romana para livrar a cara dos romanos na sua execução.

Por que Jesus não poderia ser o messias esperado tendo nascido em Cafarnaum? Como já dissemos, Jesus poderia ter nascido em qualquer território do planeta. Se nasceu na Palestina, certamente foi para valer-se, repito, da importância da história religiosa judaica perante os povos da maior parte do planeta.

Outro consenso é o de que Jesus nasceu "antes do Cristo apregoado". A fonte aí é a própria Bíblia. Mateus e Lucas dizem que ele veio ao mundo durante o reinado de Herodes, o Grande (não confunda com Herodes Antipas, seu filho, o soberano da Galileia durante a fase adulta de Jesus). Bom, como esse reinado terminou em 4 a.C., ele não pode ter nascido depois disso, o que faz com o calendário gregoriano traga consigo um erro matricial de, no mínimo, quatro anos. Há quem afirme serem 6 anos.

E sobre o dia do nascimento a Bíblia é clara: não diz nada.

"No início do cristianismo não se tinha uma data exata para o nascimento de Jesus. Então, lugares diferentes celebravam em datas diferentes", diz o teólogo Irineu Rabuke, da PUC/RS. O dia 25 de dezembro acabou adotado, no século 4, porque nessa data os romanos já comemoravam uma festa importante, a Natalis Solis Invicti, ou "Nascimento do Sol Invencível". Era uma comemoração pelo solstício de inverno (hemisfério norte), o dia mais curto do ano. É que, depois do solstício, os dias vão ficando cada vez mais longos. A festa, então, é pela vida, que a partir daí volta a florescer. E é também uma manobra romana para colar a data cristã na data profana, do mesmo modo que colou o dia de finados na data do “halloween”.

Por isso mesmo, os solstícios de inverno (dezembro no norte e junho no sul) foi e é celebrado com festa em boa parte das culturas humanas, desde sempre. Um exemplo: o círculo de pedras de Stonehenge já era palco de festas assim 3 mil anos antes de Jesus nascer. Por esse ponto de vista, dá para dizer que o monumento pré-histórico inglês é, no fundo, uma enorme árvore de natal.

Continuamos abrindo as caixas pretas.

terça-feira, 22 de julho de 2014

1490-Jesus com efes e erres


Erro de data e local

Escavações arqueológicas mostram que a cidade onde Jesus se estabeleceu depois de retornar de um longo sumiço de 18 anos, Cafarnaum, era o centro comercial de onde saíam azeite, figos, nozes, tâmaras, vinhos, peixes, et cetera, que partiam para o resto da Palestina, algumas partes do território do Império Romano, que ali tinha o domínio político e para outros destinos.

A pesca também era industrial. Magdala, a cidade de Maria Madalena, a 10 quilômetros de Cafarnaum, abrigava um centro de processamento de peixes, onde as tilápias do Mar da Galileia eram limpas, conservadas em sal do Mar Morto, e exportadas para outros cantos do Império Romano. O ambiente era de fartura, pelo menos para os padrões da Antiguidade. Tanto que o próprio milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não aparece na Bíblia como uma "ação de combate à fome", mas como um lanche de fim de tarde, mesmo. Segundo os evangelhos, uma multidão tinha seguido Jesus até um lugar ermo para ouvi-lo. Estava anoitecendo. Os apóstolos alertaram o mestre de que, no lugar onde estavam, o pessoal não teria onde comprar comida. Então operou-se o milagre. Sem drama. A questão do milagre propriamente dito está sendo estudada por especialistas que tenham condições de afirmar se se trata de uma lenda ou se existem forças capazes de realização uma operação assim.

Você acha forçada a informação do milagre da multiplicação dos pães e peixes?  Esqueça isso por enquanto. Nós voltaremos a estes assuntos em uma série futura.

A ideia de que Jesus pregava num deserto famélico, só entre pobres e analfabetos é só a ponta de um iceberg de mitos que povoam o senso comum quando o assunto é o Sagrado, como veremos. O que a história, a arqueologia e a própria Bíblia têm a dizer sobre tantas coisas? Têm a dizer que ele não nasceu em Belém e nem em 25 de dezembro.

O sino que bate nas canções natalinas não é o de Belém. E também não foi no dia 25 de dezembro que ele nasceu. Tudo o que sabemos sobre o nascimento de Jesus está nos evangelhos de Mateus e Lucas - e são versões bem diferentes. Em Mateus, José e Maria aparentemente viviam em Belém quando ela deu à luz. No evangelho de Lucas, eles moravam em Nazaré, e só se deslocaram até Belém porque Augusto, o imperador romano, decretou que todos os habitantes do império deveriam ir até a cidade onde nasceram seus ancestrais para participar de um censo. Como José, segundo a narrativa, era descendente do rei Davi, que nasceu em Belém, ele e a esposa foram até lá. Evangelhos à parte, hoje é consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu mesmo em Nazaré. "Tanto Mateus quanto Lucas dizem que Jesus nasceu em Belém com o objetivo de dizer metafórica e simbolicamente, que ele é o “novo rei Davi¿", diz o teólogo americano John Dominic Crossan, um dos maiores especialistas na história do cristianismo.

Crossan e outros descartam Belém por um motivo: do ponto de vista dos evangelistas, seria mais simples dizer que ele nasceu e cresceu em Belém mesmo - e então mudou para o Mar da Galileia, onde começou a pregar. Mas como os textos se dão ao trabalho de dizer que ele veio de Nazaré, uma cidade que não tinha nada de especial, o mais provável é que ele tenha nascido lá mesmo. Mais: o motivo que Lucas dá para José e Maria terem ido a Belém não existiu. O governo de Augusto é extremamente bem documentado. E não há registro de censo nenhum. Menos ainda um em que as pessoas teriam que "voltar à cidade de seus ancestrais".

Este assunto prossegue na próxima postagem.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

1489-Jesus com efes e erres


Introdução

Quantas coisas já se disse sobre Jesus, até mesmo que ele tenha nascido como resultado de uma escapada de Maria, sua mãe, com um guarda romano, o que teria causado um rebu nas relações do viúvo José, dado como seu pai e a família da noiva, inclusive com ameaça de rompimento do contrato de casamento que estava firmado quando a moça apareceu grávida. Depois, a Igreja inventou aquela história do arcanjo e a gravidez por “inseminação” em que ele “foi dado como Filho de Deus”.
Mas, esta série deixará de lado estas questões cruciais, fundamentalistas, para explorar um pouco mais os mitos que se criaram em torno da figura do judeu Joshua Bar Levi, que teria sido seu nome verdadeiro se houvesse um cartório de registro civil, como hoje tem.
Historiadores, cientistas e teólogos têm procurado desmentir mitos criados em torno de Cristo, como foi o caso do Santo Sudário, um tecido que tem menos de 500 anos e é dado como aquele que enxugou o suor e o sangue do messias crucificado.
Estamos no terceiro milênio cristão e as portas se abrem para a verdade também porque é Era de Aquário, tempo em as portas secretas vão se abrindo de par em par. Uma nova biografia do fundador da segunda maior religião da Terra vem sendo escrita aqui e acolá. Não tem sido fácil pois as fontes são escassas e pouco confiáveis, neste caso porque a Igreja de Roma tomou posse de muitos documentos e escondeu-os, apresentando em seu lugar as versões que interessavam aos fundadores de uma espécie de partido teológico para sustentação do Império.
Um dos trabalhos muito sério pertence à jovem jornalista gaúcha Cristine Kist, publicado na revista Superinteressante, que se torna a base dos raciocínios que vamos desenvolver nesta série “Jesus com efes e erres”.
Então nos permitam, antes, explicar o porquê do título. A expressão “erres e efes” ou “efes e erres” foi trazida para a linguagem oficial por conta das traduções feitas ao pé da letra, isto é, com fidelité e realité, do francês: fidelidade e realidade. A abreviatura caiu como caiu outra, a etc quando se quer escrever et cétera: e os restantes, traduzido do latim.

Então quando Jesus é trazido para as páginas com todos os erres e efes, quer dizer que não se omitirá nada do que se conhece.

E vamos dar de cara com o que mostraram os filmes rodados sobre ele. Tudo se passa no deserto, com muitas pedras, poucas árvores, estradas poeirentas, povo magro, sofrido, pobre. Isso nos faz pensar um Jesus na terra do nada. Só que não é assim. A região em volta do Mar da Galileia, onde Jesus passou, segundo a Bíblia, os seus primeiros doze e os últimos três anos de sua vida, não tem nada de deserto. Está mais para uma daquelas paisagens suíças de propaganda de chocolate: um lago de água doce, com uma vegetação colorida em volta. Tudo emoldurado por montanhas. Verdadeiro cartão postal. Não é à toa que a região é disputada por Israel e Palestina, fruto de uma pendenga com mais de 3 mil anos para botar a limpo.

O lugar é bonito, de terra fértil. Há dois mil anos, as vilas que pontuavam os 64 quilômetros de circunferência do lago produziam toneladas de azeite, figos, nozes, tâmaras, peixes - itens valiosos num tempo sem os avanços tecnológicos que hoje conhecemos. José, seu pai, era um carpinteiro construtor, situado entre os cidadãos de maior poder aquisitivo da época.

Então, assim, já se vão desmitificando algumas invenções que se fez sobre ele. Vamos aos fatos? Sejam benvindos os leitores, principalmente aqueles que não queiram teimar, nem embirrar por conta de fatos trazidos ao conhecimento humano nas asas das religiões por suas conveniências.

domingo, 20 de julho de 2014

1488-Templários: uma história cristã


O horror e o retorno templário

A ressaca pela perda da Terra Santa, porém, não foi o fundo do poço para os Templários. A aliança com o papa, que se mostrava tão útil desde o século 12, revelou-se uma faca de dois gumes. Em 1305, o novo sumo pontífice, Clemente V, se tornou aliado do rei da França, Filipe, o Belo. E os dois conspiraram para a destruição da Ordem do Templo. “O rei precisava de dinheiro para financiar seu aparato bélico”, diz Edward Burman. Em 1306, Filipe desvalorizou a moeda francesa. Os parisienses ficaram furiosos e saquearam a cidade. A coisa foi tão feia que Filipe, ironicamente, teve de se ocultar numa fortaleza dos Templários nos arredores de Paris. Lá, bem sob seus olhos, jazia a resposta para as suas orações: sacos e sacos de moedas de ouro.

No dia 13 de outubro de 1307, como já vimos, uma operação sigilosa da guarda de Filipe deteve e encarcerou boa parte dos Templários da França. As acusações eram pesadas e seguiam os moldes dos processos inquisitoriais daquela época: rejeição da cruz e de Jesus Cristo, beijos obscenos, sodomia e idolatria do Diabo. A tortura foi legitimada pelo rei. Os interrogatórios eram brutais: o cavaleiro Bernardo Vado, por exemplo, teve os pés tão queimados que seus ossos acabaram expostos.

Em março de 1312, no Concílio de Vienne, o Papa extinguiu a Ordem. A pá de cal foi a execução de Jacques De Molay, o último grão-mestre dos Templários daquela fase. Os monges-guerreiros que sobreviveram se mantiveram fiéis à Igreja, vivendo no anonimato. Um detalhe curioso e mórbido: a praga rogada por Jacques pegou. Clemente V morreu 42 dias depois de De Molay, e Filipe bateu as botas em 29 de novembro daquele mesmo ano.

Terminava assim a história dos cavaleiros de Cristo. Terminava? Bem... ainda não terminava.

Depois da blitz aos templários engendrada por Filipe, o Belo, alguns frades teriam reconstruído secretamente a Ordem. E dezenas de sociedades secretas posteriores seriam filhotes do movimento. Será que isso é verdade? Quando fizeram essa pergunta ao historiador Malcolm Barber, ele apenas sorriu e respondeu com ironia: “Como escreveu Umberto Eco em “O Pêndulo de Foucault”, ‘os templários sempre estão por trás de tudo’”.

Quando a frota de Cabral singrava pelas águas do Atlântico a caminho da Bahia – um Porto Seguro já mapeado pela espionagem templária e depois que a economia templária havia financiado Colombo em sua ida às Índias Ocidentales – como foi chamada a América, nada mais pesava sobre a ficha dos Templários. Seu nome estava limpo, sua economia preservada, sua Ordem não era uma, eram muitas, espalhadas pelo território europeu.

A potência dos mares era Portugal. E a potência marítima de Portugal estava com os Templários. A potência bancária da Europa estava na Suíça. E o dinheiro suíço era controlado pelos Templários. A Grã Bretanha sucede Portugal nas iniciativas marinhas e sucede a Suíça nas iniciativas bancárias. Sai da Grã Bretanha o grupo que funda os Estados Unidos da América. Seus principais líderes tinham cultura templária.

E hoje? Bem para falar dos templários hoje eu preciso de uns seis meses de estágio numa de suas escolas secretas. Está disposto(a) a esperar até que eu volte?

Se a resposta for “sim”, espere-me. Enquanto isso, uma nova série irá para a página.

sábado, 19 de julho de 2014

1487-Templários: uma história cristã


Uma tropa de elite

Os apreciadores de filmes de ação sabem da existência da SWAT - Special Weapons And Tactics (Armas e Táticas Especiais), uma corporação de elite da polícia dos Estados Unidos. Também no Brasil se fala de Tropa de Elite, ou Atirador de Elite para referir-se a pessoal tático de alto nível nas operações de segurança. Os Templários também eram uma tropa de elite.

A ordem foi fundada em Jerusalém, no ano de 1119. Seu propósito era – como já enfocamos brevemente - dar proteção aos peregrinos cristãos na Terra Santa. A cidade tinha sido conquistada pelos cruzados em 1099, mas chegar até lá continuava sendo muito difícil. Ela era praticamente uma ilha, cercada de muçulmanos por todos os lados. A solução, proposta pelo cavaleiro francês Hugo de Payns, agradou ao rei (cristão) de Jerusalém, Balduino II: criar uma força militar subordinada à Igreja. A ideia era inédita. Até então, existiam monges de um lado e cavaleiros de outro.

“Payns inventou uma nova figura, a do monge-cavaleiro”, diz Marion Melville, autora de “La Vida Secreta de los Templários” (sem tradução para português).

O exército seria formado por frades bons de espada, que fariam, além dos votos de pobreza, castidade e obediência, um quarto juramento: o de defender os lugares sagrados da cristandade e, se necessário, liquidar os infiéis. Balduino alojou-os no local onde outrora fora construído o mítico Templo de Salomão. Daí o nome do grupo: templários.

Em 1129, a ordem recebeu aprovação do papa no Concílio de Troyes. Em 1139, veio a consagração definitiva: uma nova bula papal isentava os templários da obediência às leis locais. Eles ficariam submetidos, dali em diante, somente ao sumo pontífice. Os Cavaleiros do Templo admitiam excomungados em suas igrejas (o que era uma senhora blasfêmia para a mentalidade religiosa da época – mas o sentido de justiça os faziam piedosos).

Certa vez, um grupo de templários interrompeu, entre risos e com uma revoada de flechas, uma missa na Basílica de Jerusalém. O padre era de outra ordem, a dos Hospitalários, e entre as duas havia uma rixa histórica.

“Apesar da bravura reconhecida, os templários muitas vezes foram censurados por seu orgulho e arrogância”, afirma o historiador francês Alain Demurger no livro “Os Templários: Uma Cavalaria Cristã na Idade Média”.

No elenco de privilégios da Ordem os Cavaleiros do Templo, também, eram proibidos de se confessar a outros que não fossem os capelães templários. Desta forma, ficava assegurado dentro do grupo os segredos dos membros da corporação. Igualmente, o “Livro da Regra” – que tinha sido escrito por ninguém menos que são Bernardo de Claraval – era restrito ao alto escalão da ordem e ali estavam os marcos templários de ação e solução. Os membros tinham de sabê-lo de cor. Era uma forma de preservá-lo, caso caísse em mãos erradas. Porém, entre cochichos, se especulava que a Regra continha artigos secretos cifrados, cuja interpretação dava posse de conhecimentos esotéricos, como a fonte da juventude ou a transmutação de metais.

O teólogo inglês João de Salisbury, em 1179, se perguntava se os cavaleiros não tinham cedido às ambições terrenas. Essa suspeita se tornou certeza em diversos casos.

Havia muita inveja frente aos privilégios oferecidos à Ordem enquanto os Templários seguraram as pontas na Palestina. Quando o jogo na Terra Santa virou, e os muçulmanos gradualmente reconquistaram a região – processo que culminou com a expulsão dos cristãos do solo sagrado em 1303 –, a animosidade contra a Ordem explodiu. “A expulsão foi particularmente séria para os Templários, cujo prestígio e função se identificavam com a defesa dos lugares da vida, morte e ressurreição de Cristo”, diz Malcolm Barber.

Especialmente depois da campanha de difamação movida pelo rei francês, o nome e a história templária viraram chacota. Na Alemanha, “beber como um Templário” virou sinônimo de bebedeiras, e “Tempelhaus” (a Casa do Templo), era lugar de farra e até prostituição. O que antes era motivo de honra, transformou-se em piada. E tem mais, na sequência.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

1486-Templários: uma história cristã


 
Os destinos templários

Historiadores acreditam na separação dos Templários quando a perseguição na França foi declarada. Um dos lugares prováveis para refúgio teria sido a Escócia, onde apenas dois Templários haviam sido presos e ambos eram ingleses. Embora os cavaleiros estivessem em território seguro, sempre havia o medo de serem descobertos e considerados novamente como traidores. Por isso teriam se valido de seus conhecimentos da arquitetura sagrada e assumiram um novo disfarce para fazerem parte da maçonaria (texto do livro Sociedades Secretas - Templários, editora Universo dos Livros).

O tema das relíquias também surgiu durante a Inquisição dos Templários, pois documentos diversos do julgamento referem-se à adoração de um ídolo de algum tipo, referido em alguns casos, um gato, uma cabeça barbada, ou, em alguns casos, a Baphomet. Essa acusação de idolatria contra os templários também levou à crença moderna por alguns de que os templários praticavam bruxaria e alquimia.

Além de possuir riquezas (ainda hoje procuradas) e uma enorme quantidade de terras na Europa, a Ordem dos Templários possuía uma grande esquadra. Os cavaleiros, além de temidos guerreiros em terra, eram também exímios navegadores e utilizavam sua frota para deslocamentos e negócios com várias nações.

Devido ao grande número de membros da Ordem, apenas uma parte dos cavaleiros foram aprisionados (a maioria franceses). Os cavaleiros de outras nacionalidades não foram aprisionados e isso possibilitou-lhes refugiarem-se em outros países. Segundo alguns historiadores, alguns cavaleiros foram para Escócia, Suíça, Portugal e até mais distante, usando seus navios. Muitos deles mudaram seus nomes e se instalaram em países diferentes para evitar uma perseguição do rei e da Igreja.

O desaparecimento da esquadra é outro grande mistério. Na mesma noite do aprisionamento dos cavaleiros franceses, toda a esquadra zarpou desaparecendo sem deixar registros. Por essa mesma data, o Rei Português D. Dinis nomeava o primeiro almirante português de que há memória, apesar de Portugal não ter armada: o genovês Manuel Pessanha, por sinal um templário. Por outro lado, D. Dinis evitou entregar os bens dos Templários à Igreja e conseguiu criar uma nova ordem, a Ordem de Cristo, com base na Ordem Templária, adotando para símbolo uma adaptação da cruz orbicular Templária (conhecida como Cruz de Malta), levantando a dúvida de que planeava apoderar-se da armada Templária para si. Mas, nada disso ocorria. Era a revivescência da Ordem com uma sede em Portugal.
 
Um dado interessante relativo aos cavaleiros que teriam se dirigido para a Suiça, é que antes desta época não há registros de existência do famoso sistema bancário daquele país, até hoje utilizado e também discutido. Como é sabido, no auge de sua formação, os cavaleiros da Ordem desenvolveram um sistema de empréstimos, linhas de crédito, depósitos de riquezas que na sua época já se assemelhava bastante aos bancos de hoje. Os cavaleiros que se refugiaram na Suíça implantaram o sistema bancário no lugar e que até hoje é a principal atividade do país.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

1485-Templários: uma história cristã


 
Um pouco da obra templária

O fato de nunca ter havido uma oportunidade de acesso aos documentos originais dos julgamentos contra os templários motivou o surgimento de muitos livros e filmes com grande repercussão pública, porém, sem nenhum fundamento histórico. Por este mesmo motivo, muitas sociedades secretas, como setores da Maçonaria, se proclamam "herdeiras" dos Templários.

A obra "Processos contra templários", publicada pela Biblioteca Vaticana, restaura a verdade histórica sobre Os Cavaleiros da Ordem do Templo, como também eram conhecidos os Templários, cuja existência e posterior desaparecimento foram motivo de numerosas especulações e lendas.

O Pergaminho de Chinon é um documento relativo ao processo contra os Templários, realizado sob o pontificado do Papa Clemente V, cujos originais são conservados no Arquivo Secreto do Vaticano. O principal valor da publicação reside na perfeita reprodução dos documentos originais do citado processo e nos textos críticos que acompanham o volume; explicam como e por que o pontífice absolveu os Templários da acusação de heresia e suspendeu a Ordem sem dissolvê-la, reintegrando os altos dignitários Templários e a própria Ordem na comunhão da Igreja naqueles países para onde haviam fugido os Templários.

A destruição do arquivo central dos Templários (que estava na Ilha de Chipre) em 1571, pelos otomanos, (outro crime oficial) tornou-se o principal motivo da pequena quantidade de informações disponíveis e da quantidade enorme de lendas e versões sobre sua história.

Os Templários tornaram-se, assim, associados a lendas sobre segredos e mistérios, e mais rumores foram adicionados nos romances de ficção populares, como Ivanhoé, O Pêndulo de Foucault, O Código Da Vinci e outros, além de filmes modernos, tais como "A Lenda do Tesouro Perdido" e "Indiana Jones e a Última Cruzada", bem como jogos de vídeo, como Broken Sword e Assassin’s Creed.

Muitas das lendas sobre os Templários estão relacionadas com a ocupação precoce pela Ordem do Monte do Templo em Jerusalém e da especulação sobre as relíquias que os Templários podem ter encontrado lá, como o Santo Graal ou a Arca da Aliança. No entanto, nos extensos documentos da inquisição dos Templários nunca houve uma única menção de qualquer coisa como uma relíquia do Graal, e muito menos a sua posse, por parte dos Templários. Na realidade, a maioria dos estudiosos concorda que a história do Graal era apenas isso, uma ficção, que começou a circular na época medieval.

Mas as explorações sobre o Santo Graal vão além: que teriam eles desvendado o segredo no interior do templo. Tratava-se não do cálice onde Arimatéia recolhera o sangue derramado por Jesus, mas a continuidade do sangue real de Jesus, no ventre de Maria Madalena, grávida, esta sim, confiada aos cuidados de Arimatéia, que era irmão de Maria de Nazaré.

Uma das versões faz ligação entre os Templários e uma das mais influentes e famosas sociedades secretas, já referida, a Maçonaria.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

1484-Templários: uma história cristã


A cobiça do rei francês

Nesse tempo, a França, onde estava a sede dos Templários, era governada pelo nada ético Felipe, o Belo. Falido o seu reino, olhava ele para a fortuna dos Templários e arquitetava um modo de confiscar tudo.

Primeiro, através de uma onda de intrigas, difamações e falsidades e depois mediante um plano que tomou de assalto, no meio da noite, a sede templária, fazendo prisioneiros alguns dirigentes da Ordem e decretado o confisco dos bens da Ordem.

Até mesmo o Papa foi traído por Felipe. E nisso concordara de cancelar o alvará da Ordem, que depois foi restabelecido, porém camufladamente com sedes provinciais em vários países, como veremos.

No dia 18 de março de 1314, Paris amanheceu nervosa. Jacques De Molay, grão-mestre da Ordem dos Templários, iria para a fogueira. O condenado à morte pediu duas coisas: que atassem suas mãos juntas ao peito, em posição de oração, e que estivesse voltado para a Catedral de Notre Dame. No caminho, parou e fitou os dois homens que o haviam condenado: o rei Filipe, o Belo, e o papa Clemente V. Rogou-lhes uma praga: “Antes que decorra um ano, eu os convoco a comparecer perante o tribunal de Deus. Malditos!” Depois disso, calou-se e foi queimado vivo. Filipe o Belo e o Papa Clemente V realmente morreram ainda no ano de 1314.

As chamas que consumiram De Molay também terminaram com uma época, da qual o grão-mestre foi o derradeiro símbolo: a das grandes sociedades secretas da Idade Média. Nenhuma foi tão poderosa quanto a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão – nome completo dos templários. “Enquanto o clero e a nobreza se engalfinhavam na luta pelo poder, os templários, sem dever obediência senão ao papa, desfrutavam de uma independência sem par”, diz o historiador britânico Malcolm Barber, autor de “Uma História da Ordem do Templo”, inédito no Brasil.

Mas, as informações privilegiadas mais uma vez ajudaram os Templários. No dia do ataque do rei francês, o principal de sua fortuna e a frota naval já não mais estavam em território francês.

A destruição da Ordem do Templo propiciou ao rei francês não apenas uma parte dos tesouros imensos da Ordem, mas também a eliminação do exército da Igreja, o que tornava Felipe rei absoluto na França.

Nos demais países alguma riqueza da Ordem ficou com a Igreja Católica.

Esta série de eventos formam a base de "Les Rois Maudits" ("Os Reis Malditos"), uma série de livros históricos de Maurice Druon. Ironicamente, Luís XVI de França (executado em 1793 – Revolução Francesa) era um descendente de Felipe o Belo e de sua neta, Joana II de Navarra.

A fortuna templária passível de ser transportada foi parar na Escócia, em Portugal, na Espanha, na Suiça e em outros países, como comentaremos adiante.

Ainda tem preciosidades nesta história.