quarta-feira, 2 de julho de 2014

1470-Sobre o Espírito


Pontos de vista

Para os indivíduos preparados para algumas coisas para as quais já somos capazes, a experiência aparece como uma certeza vívida e esmagadora de que o universo, naquele momento preciso, como um todo e em cada uma de suas partes, está tão clamorosamente certo que não precisa de nenhuma explicação ou justificativa, além do que ele simplesmente é.

A “visão” (é assim que “vemos” o que não pode ser por nós percebido de outra forma comunicativa) sugere que tudo está correto, não necessita de definição e não pode ser descrito por falta de referência. Assim, se o universo está clamorosamente certo, o Espírito humano também está e não precisa de nenhuma explicação ou justificativa e sim de transcendência.

Mas, é pouco.

A curiosidade inconformada do homem quererá mais. E ao ter mais, quererá ainda mais e mais.

Quem já experimentou visitar a zona de absoluto silêncio, morada do Espírito, de lá retorna relatando que nesses momentos vê em vez de pensar e só mais tarde começa a procurar, de modo desajeitado, as palavras através das quais tenta expressar o que lhe foi revelado ou desvelado.

E de novo esbarramos nos pontos de vista. Uma pessoa dirá (1): “encontrei a resposta para todo o mistério da vida, mas não tenho palavras para descrevê-lo”. Outra sustentará impávida: (2) “não houve nenhum mistério e, portanto, não há nenhuma necessidade de resposta, dado que a experiência deixou clara a irrelevância e o artificialismo de todas as questões que nos atormentavam”. Uma terceira pessoa declarar-se-á (3) “absolutamente convencida de que a morte não existe e de que o seu eu verdadeiro é eterno como o universo”. Haverá ainda aquela que proclamará (5) “que a morte simplesmente deixou de constituir motivo de preocupação, pois o momento presente é tão completo que não exige um futuro”. E, assim, mais outra sentir-se-á (6) “possuída e ligada a uma vida infinitamente diferente da sua própria”.

Mas, assim como as batidas do coração podem ser “vistas” como algo que acontece conosco, ou como alguma coisa que nós fazemos, dependendo dos pontos de vista, um indivíduo sentirá que experimentou não a transcendência de um Deus, mas a sua própria natureza mais íntima. Um sentirá como se o seu ego ou o seu eu se expandisse a ponto de conter em si todo o universo, enquanto outro sentirá que se perdeu a si mesmo, inteiro, e que o que considerava seu ego nunca passara de uma abstração. Outro contará entusiasmado de que forma enriqueceu, infinitamente, enquanto outro se lamentará de ter sido reduzido a tão extrema miséria, que não possui nem mesmo a sua mente e o seu corpo, e não tem mais ninguém no mundo que se preocupe com sua desgraça, sem que em nenhum dos casos esteja se referindo a coisas materiais.

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