terça-feira, 22 de julho de 2014

1490-Jesus com efes e erres


Erro de data e local

Escavações arqueológicas mostram que a cidade onde Jesus se estabeleceu depois de retornar de um longo sumiço de 18 anos, Cafarnaum, era o centro comercial de onde saíam azeite, figos, nozes, tâmaras, vinhos, peixes, et cetera, que partiam para o resto da Palestina, algumas partes do território do Império Romano, que ali tinha o domínio político e para outros destinos.

A pesca também era industrial. Magdala, a cidade de Maria Madalena, a 10 quilômetros de Cafarnaum, abrigava um centro de processamento de peixes, onde as tilápias do Mar da Galileia eram limpas, conservadas em sal do Mar Morto, e exportadas para outros cantos do Império Romano. O ambiente era de fartura, pelo menos para os padrões da Antiguidade. Tanto que o próprio milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não aparece na Bíblia como uma "ação de combate à fome", mas como um lanche de fim de tarde, mesmo. Segundo os evangelhos, uma multidão tinha seguido Jesus até um lugar ermo para ouvi-lo. Estava anoitecendo. Os apóstolos alertaram o mestre de que, no lugar onde estavam, o pessoal não teria onde comprar comida. Então operou-se o milagre. Sem drama. A questão do milagre propriamente dito está sendo estudada por especialistas que tenham condições de afirmar se se trata de uma lenda ou se existem forças capazes de realização uma operação assim.

Você acha forçada a informação do milagre da multiplicação dos pães e peixes?  Esqueça isso por enquanto. Nós voltaremos a estes assuntos em uma série futura.

A ideia de que Jesus pregava num deserto famélico, só entre pobres e analfabetos é só a ponta de um iceberg de mitos que povoam o senso comum quando o assunto é o Sagrado, como veremos. O que a história, a arqueologia e a própria Bíblia têm a dizer sobre tantas coisas? Têm a dizer que ele não nasceu em Belém e nem em 25 de dezembro.

O sino que bate nas canções natalinas não é o de Belém. E também não foi no dia 25 de dezembro que ele nasceu. Tudo o que sabemos sobre o nascimento de Jesus está nos evangelhos de Mateus e Lucas - e são versões bem diferentes. Em Mateus, José e Maria aparentemente viviam em Belém quando ela deu à luz. No evangelho de Lucas, eles moravam em Nazaré, e só se deslocaram até Belém porque Augusto, o imperador romano, decretou que todos os habitantes do império deveriam ir até a cidade onde nasceram seus ancestrais para participar de um censo. Como José, segundo a narrativa, era descendente do rei Davi, que nasceu em Belém, ele e a esposa foram até lá. Evangelhos à parte, hoje é consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu mesmo em Nazaré. "Tanto Mateus quanto Lucas dizem que Jesus nasceu em Belém com o objetivo de dizer metafórica e simbolicamente, que ele é o “novo rei Davi¿", diz o teólogo americano John Dominic Crossan, um dos maiores especialistas na história do cristianismo.

Crossan e outros descartam Belém por um motivo: do ponto de vista dos evangelistas, seria mais simples dizer que ele nasceu e cresceu em Belém mesmo - e então mudou para o Mar da Galileia, onde começou a pregar. Mas como os textos se dão ao trabalho de dizer que ele veio de Nazaré, uma cidade que não tinha nada de especial, o mais provável é que ele tenha nascido lá mesmo. Mais: o motivo que Lucas dá para José e Maria terem ido a Belém não existiu. O governo de Augusto é extremamente bem documentado. E não há registro de censo nenhum. Menos ainda um em que as pessoas teriam que "voltar à cidade de seus ancestrais".

Este assunto prossegue na próxima postagem.

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