quinta-feira, 24 de julho de 2014

1492-Jesus com efes e erres


Reis que não eram reis

Está no evangelho de Mateus (e só nele): "magos do oriente" ficam sabendo do nascimento de Jesus e seguem uma estrela que os leva até Jerusalém. Uma estrela que acabou por dar origem (muito mais tarde) a uma especulação de que se tratava de um disco voador trazendo o menino nascido em outra galáxia. Esta especulação pode ter origem noutra, de autoria da Bíblia com apoio da Igreja, que afirma que Jesus subiu aos céus no uso do próprio corpo, o que como se sabe, é alguma coisa que necessita de um veículo para acontecer. E aí o disco voador ganha espaço.

Para o leitor não acostumado com essa leitura, há que informar que discos voadores são tema dos nossos últimos 40 anos e só se vinculam à história sagrada porque a Bíblia também fala de Elias subindo aos céus num carro de fogo. Por conta desses episódios narrados como verdades sagradas, os ufólogos se acham no direito de especular que Elias e Jesus foram usuários de discos voadores.

Mas, voltemos ao nascimento de Jesus. Em Jerusalém (diz a Bíblia/Mateus) os reis magos vão até o palácio real e perguntam a Herodes onde é que vai nascer o "rei dos judeus". O soberano consulta estudiosos das Escrituras Sagradas, e informa aos magos que o nascimento deve acontecer na cidade de Belém. Então pede que eles voltem para confirmar o paradeiro do recém-nascido. Os homens mais uma vez seguem a estrela, agora até Belém (a 10 quilômetros dali). Então oferecem ouro, incenso e mirra ao menino Jesus. Depois, são alertados em um sonho que não devem contar a Herodes onde Jesus está, e voltam para casa por um caminho alternativo.

Herodes, que era, ele mesmo, o "rei dos judeus", não queria ser destronado, então mandou seus soldados matarem todos os meninos com menos de dois anos em toda a região. Esta possibilidade também não se confirma. É mais uma história típica da mitologia em torno de Jesus: nenhum historiador busca evidências de magos e estrelas-guias, claro e também não do infanticídio. Acreditar que sim ou não é questão de fé. Mesmo assim, alguns elementos dessa fé distanciaram-se do que está na Bíblia. Por exemplo: não há menção a "reis". "A tradição popular é que definiu isso, porque trouxeram presentes caros", diz Irineu Rabuke, detalhe que nem fazia parte das tradições quanto aos recém nascidos em famílias não nobres. Como queriam que Jesus fosse herdeiro do trono do Rei Davi, colaram nele mais esta lenda.

O evangelho, aliás, nem diz que eles eram três: só se sabe que eram mais de um, já que são mencionados no plural. Os nomes deles também não aparecem. As alcunhas "Gaspar", "Melquior" e "Baltazar" são de textos do século 5.

O mais provável, enfim, é que esses personagens de Mateus sejam inspirados em sacerdotes do zoroastrismo, uma religião persa ligada à astrologia - daí a "estrela de Belém" e a expressão "vindos do oriente", onde ficava a Pérsia (hoje o Irã).
Se eles foram imaginados como persas, mesmo, essa história tem algo de inusitado do ponto de vista geopolítico, como lembra o americano Crossan: "Acho irônico que, no meu país, nós tenhamos três iranianos (hoje muçulmanos) nos nossos presépios cristãos".

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