sexta-feira, 25 de julho de 2014

1493-Jesus com efes e erres


Baixinho e de cabelos curtos

A Bíblia não fala sobre a aparência de Jesus. Isso deu liberdade a que artistas construíssem a imagem de Cristo de acordo com suas próprias interpretações. Os do Renascimento, por exemplo, desenhavam Jesus à imagem e semelhança dos nobres do norte da Itália. E essa foi a imagem que ficou entre nós: um ariano de olhos azuis, cabelos loiros, longos e cacheados.

Vamos à ciência: esqueletos de judeus do século I indicam que a altura média deles era de mais ou menos 1,55m. E que a maioria não pesava muito mais do que 50 quilos. Então o físico de Jesus estaria dentro dessa faixa. E mesmo se fosse bem alto para a época, com 1,65m, por exemplo, ainda seria pequeno para os padrões de hoje.

Determinar o rosto é mais difícil. Mas uma equipe de pesquisadores britânicos liderada por Richard Neave, um especialista em ciência forense, conseguiu uma aproximação boa. Usando como base três crânios do século I, eles lançaram mão de softwares de modelagem 3D para determinar qual seria o formato do nariz, dos olhos, da boca... enfim, do rosto de um adulto típico da época. O resultado foi uma face completamente diferente do que se conhece.

Quanto à cor da pele, a hipótese mais provável é que fosse morena, como era, e continua sendo, a da maior parte das pessoas no Oriente Médio. E como seria a de praticamente qualquer um que passasse a vida toda ao ar livre naquele calor de lascar. Bom, sobre o cabelo dele quem dá a maior pista é a própria Bíblia. No livro 1 Coríntios, Paulo diz que "cabelo comprido é uma desonra para o homem". O maior divulgador do cristianismo no século I provavelmente não diria isso se Jesus tivesse sido notório pela longa cabeleira.

Por outro lado, se realmente Jesus teve ascendência essênica, a possibilidade dos cabelos longos fica mais evidente, pois Sansão, o superhomem da história com Dalila, em que ao cortarem-se os seus cabelos perdera as forças, era um essênio e os essênios tinham por costume deixar os cabelos crescerem sobre os ombros.

Na verdade, as primeiras representações conhecidas de Cristo, feitas no século III, mostram um Jesus de cabelo curto. E sem barba, até. "A ideia era mostrar que se tratava de um jovem", diz Chevitarese. A inspiração desses artistas eram as esculturas de Apolo e Orfeu, deuses gregos também retratados como jovens imberbes.

Por volta do século V, essa primeira imagem de um Jesus jovial e imberbe perdeu espaço para uma outra, em que ele está de barba e cabelos longos e escuros.

Esse Jesus moreno e barbudo surgiu no Império Bizantino e é conhecido como Cristo Pantocrator ("todo poderoso" em grego). "Os bizantinos começam a atribuir à figura de Jesus um caráter de invencível. E essa representação de alguma forma coincidia com as que eles faziam dos próprios imperadores bizantinos", diz Chevitarese.

Os renascentistas (século XIV), depois, também fariam um Jesus à imagem e semelhança das pessoas que conheciam, e que achavam mais bonitas. Daí a pele clara, o cabelo dourado e os olhos azuis: um príncipe europeu. Nas últimas décadas, porém, artistas (e cineastas) têm se esforçado para não representar Jesus como um nórdico. Em “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson, o protagonista (Jim Caviezel) chegou a ter os seus olhos azuis transformados em castanhos por lentes de contato. Mas ainda falta um filme realista para valer nesse quesito.
Também a ideia de que se tratava de um jovem solteiro, parece pouco verossímil. Nos costumes judaicos da época, duas coisas são claras: se solteiro era mal falado, boiola; se mulheres solteiras estivessem em sua companhia nas peregrinações também seriam mal faladas, mulheres fáceis. E veja que três Marias fizeram parte de sua caravana: sua mãe, a este tempo viúva; Madalena, solteira(?) e Maria de Betânia, separada(?). Este assunto retornará na postagem de nº 1494.

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