domingo, 27 de julho de 2014

1495-Jesus com efes e erres


Quem são os autores dos evangelhos
Mateus e João eram apóstolos de Jesus. Marcos foi um discípulo de outro apóstolo (Pedro). E Lucas era médico de Paulo. Pela tradição cristã, eles são os autores dos quatro evangelhos do Novo Testamento. Mas isso também é um mito. Ninguém sabe quem escreveu os livros. A "autoria" de cada um foi atribuída aleatoriamente pela Igreja bem depois de os textos terem ido para o papiro.

O evangelho de Mateus, por exemplo, foi atribuído a Mateus porque ele dá ênfase ao aspecto econômico - e Mateus era o apóstolo que tinha sido coletor de impostos. Já o texto creditado a João é o único dos evangelhos a relatar o episódio em que Jesus, pouco antes de morrer, pede ao apóstolo João que cuide de Maria, sua mãe. Aí os créditos ficaram com João.

O que se sabe mesmo sobre os autores é que não eram "autores" no sentido moderno que se dá a palavra. Hoje, qualquer um pode ser autor, porque todo mundo sabe ler e escrever e conta com os meios de difusão. Há 2 mil anos não era assim. Saber escrever era o equivalente a hoje saber engenharia da computação. E escrever não significava divulgar. Muitos textos eram escritos e guardados. Com o tempo se tornaram descobertos, mas em geral, num estado de decomposição e nem sempre com o nome dos autores, o que dificulta a geração de autenticidade.

Do mesmo jeito que as empresas contratam engenheiros para cuidar de seus mainframes, os antigos contratavam escribas (aqueles que sabiam escrever) quando precisavam deixar algo por escrito. Com os evangelhos não foi diferente. O mais provável é que comunidades cristãs tenham encomendado esses trabalhos e ditado aos escribas as histórias que conheciam e conhecemos hoje. Ditado e entregado outros textos também, para que eles usassem como fonte. E mesmo assim, conforme a própria Igreja admite, alguns textos foram adaptados, outros ampliados, outros desprezados, segundo o interesse dos dignitários de quem encomendava o texto, não raro, autoridades imperiais com interesse político.

Dos evangelhos, o primeiro a ser escrito foi aquele que hoje é atribuído a Marcos, quase 40 anos após a morte de Jesus. O de Marcos, enfim, saiu por volta do ano 70. Mateus e Lucas vieram um pouco depois, entre 75 e 80, até, por isso, ambos trazem alguns trechos idênticos aos do manuscrito atribuído a Marcos.

Também há muita coisa igual em Mateus e em Lucas, e que não aparece em Marcos. Como? A tese é simples: os dois autores teriam usado uma fonte em comum, que acabou perdida. Os especialistas chamam essa fonte de "Q" ("Q" de quell, que é "fonte em alemão). Sempre que Mateus e Lucas concordam em alguma história que não está em Marcos, então, ela é creditada ao suposto livro "Q".

Por causa desse entrelaçamento todo, costumam chamar esses três evangelhos de "sinópticos". Ou seja: os três têm a "mesma ótica". Contam basicamente a mesma história, cada um com algum adendo aqui e alguma omissão ali.

Já João, o quarto evangelho, escrito por volta do ano 100, traz uma história diferente. Ali Jesus é mais do que o "filho de Deus": é o próprio Deus encarnado. E a narrativa também muda. Em João ele destrói as barracas dos cambistas e vendedores do Templo de Jerusalém logo no começo da saga, por exemplo. Nos outros, esse ato está bem no final.

Depois foram surgindo mais e mais "biografias" de Jesus.

Para diminuir a bagunça, logo depois que o imperador Constantino legalizou o cristianismo, no século IV, a Igreja se organizou para definir quais seriam os livros que fariam parte da Bíblia Católica, nem mais cristã, pois a igreja não se intitulou cristã no seu nome. E bateu o martelo para a formação atual do Novo Testamento. O critério da Igreja foi usar os textos mais antigos - os mais confiáveis. Os quatro evangelhos, inclusive, faziam parte da primeira lista de livros sagrados do cristianismo de que se tem notícia, o Cânon de Muratori, compilado em 170 d.C. "A Igreja no século IV apenas reconheceu o que já eram as suas escrituras por séculos", diz o teólogo Ben Witherington, da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

Os textos sobre Jesus que não entraram para a Bíblia acabaram conhecidos como evangelhos "apócrifos" ("ocultos", em grego). Existem dezenas. Um deles, aliás, é aquele descoberto recentemente e que ficou famoso por dizer que Jesus era casado. Não é bem um "evangelho", mas um fragmento de papiro do tamanho de um cartão, em que aparece escrito em egípcio: "Jesus disse a eles: ´Minha esposa (...)`" - o resto está cortado. O manuscrito é dos anos 300 d.C. Bem mais recente que os evangelhos do Novo Testamento. O que ele significa? Que alguma comunidade cristã daquela época acreditava que Jesus era casado. Era, pois, na condição de esposa que Madalena acompanhava a comitiva. Era, pois na condição de mãe do messias que Maria de Nazaré acompanhava a comitiva. Não se tem informações sobre em que condição Maria de Betânia estava no grupo, pois dela se diz que abandonou o esposo para seguir a Jesus. Era na casa dessa Maria que Jesus se recolhia quando não estava em peregrinação. Essa Maria é, também, a irmã de Lázaro, aquele a quem Jesus fez ressuscitar.  

Para a maior parte dos pesquisadores, isso não basta para mudar a "biografia oficial" de Cristo, como diz André Chevitarese: "João Batista era celibatário. Paulo era celibatário. Jesus pode ser um desses casos".

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