segunda-feira, 28 de julho de 2014

1496-Jesus com efes e erres


Judas não traiu, obedeceu

Judas, um dia, foi nome próprio. Mais tarde, virou adjetivo, sinônimo de ausência de caráter, traidor. Mas Judas Iscariotes, que teria entregue Jesus aos romanos em troca de 30 moedas de prata, pode ser um grande injustiçado nesses registros históricos. Essa história aparece nos quatro evangelhos - com uma ou outra variação, mas sempre indicando o mau ato daquele apóstolo.

Para alguns estudiosos, porém, a história da traição é uma farsa, montada pelos romanos para dificultar as relações cristãs como os judeus. Teria sido um judeu o traidor. A maior evidência estaria nos textos de Paulo, os mais antigos entre os do Novo Testamento, escritos por volta do ano 50 d.C. Numa passagem na Primeira Epístola aos Coríntios Paulo diz que, depois de ressuscitar, Jesus apareceu para os 12 apóstolos, e não para 11 como consta: "Ele foi sepultado e, no terceiro dia, foi ressuscitado, como está escrito nas Escrituras; e apareceu a Pedro e depois aos 12 apóstolos" (Coríntios, 15:5). Ou seja, Judas estaria lá. Não teria se matado após a famosa traição, como dizem os evangelhos. Essa epístola foi escrita pelo menos dez anos antes de Marcos, o primeiro dos quatro, que fala de traição.

Em defesa de Iscariotes, lá está escrito em Mateus 26; 2 “O Filho do Homem será traído para ser crucificado”. E em Marcos 14; 18 reza: “Um de vós irá me entregar”. Interpreta-se que se não fosse entregue ele não seria localizado para ser preso, e quem faria essa denúncia, evidentemente, teria de ser um deles. E o escolhido foi Iscariotes, o de maior confiança, pois a ele estava entregue a tesouraria da comitiva de Jesus. A fala de Jesus não teria sido uma denúncia e sim uma ordem.

Outro documento que defende o suposto traidor é o Evangelho apócrifo, que ficou conhecido como "Evangelho de Judas". Uma cópia desse manuscrito foi revelada em 2006. Pesquisadores acreditam que o texto foi escrito originalmente por volta do século II, já que ele foi mencionado em uma carta escrita pelo bispo Irineu, de Lyon, em 178 d.C. Segundo o texto, Judas teria apenas acatado um pedido de Jesus ao entregá-lo para as autoridades romanas. Nessa versão, Iscariotes era o apóstolo mais próximo do mestre - daí o pedido ter sido feito a ele.

Mesmo se levarmos em conta só os evangelhos canônicos, alguns pesquisadores acham pouco verossímeis as passagens que incriminam Judas. É o caso de John Dominic Crossan: "Para ser sincero, eu vou e volto com essa questão. Mesmo quando respondo afirmativamente [que Judas de fato traiu Jesus], penso nisso como remotamente possível", diz ele.

Durante a sua última semana de vida, Jesus era protegido pela presença da multidão durante o dia ("Procuravam então prendê-lo, mas temeram a multidão", Marcos, 28:12), e se protegia ao sair de Jerusalém e ir para Betânia, onde estava hospedado, durante a noite. Na opinião de Crossan, as autoridades romanas não precisariam da ajuda de Judas para encontrar Jesus: "Certamente as autoridades teriam descoberto por si próprias o lugar exato para interceptar Jesus. Então, Judas era mesmo necessário? Essa é minha maior objeção para com a figura histórica de Judas dado como traidor".

Por esse ponto de vista, o episódio da traição de Judas teria sido criado para facilitar a conversão dos romanos ao cristianismo. Na época, parte da população do império já começava a se converter, e não ficaria bem se a maior parte da responsabilidade pela morte de Jesus recaísse justamente sobre um romano, Pôncio Pilatos.

É o que Chevitarese defende: "Pessoas vindas do ambiente politeísta, principalmente das elites romanas, já estavam se convertendo ao cristianismo por volta de 70 d.C. Por isso, os evangelhos fazem Pilatos lavar as mãos".

A condenação de Jesus se deu por crime político-religioso. Crime político contra o regime romano, acusado de pretender ser o rei dos judeus. Crime religioso contra as tradições judaicas por pretender revogar leis centenárias e ocupar o lugar de Davi. O seu discurso incluía nesse reino todos os homens do universo, o que também não era aceito pelo povo escolhido.

Num documento que pertence aos arquivos do Império Romano a execução de Jesus se deveu por subversão por ele promovida ao intitular-se rei. Quanto à participação do Sinédrio, que era o Conselho da Igreja Judaica, a acusação é quanto ao fato de Jesus declarar-se Filho de Deus.

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