quinta-feira, 31 de julho de 2014

1499-Jesus com efes e erres


Reino ou império espiritual

Não há que interpretar de outra forma o reino dos céus ou reino de Deus, se não na Terra, se não como um reino espiritual. Parte-se do princípio que tanto Deus como os céus são expressões espirituais que se associam à proposta de Cristo registrada já no ato de seu batismo no rio Jordão, em Mateus fala da pomba, que representa o espírito (cap. 3, v. 16-17). E no versículo 11, Mateus registra que João Batista esclarece: “Eu batizo na água, mas o que me sucede (Jesus) batizará no Espírito Santo”. Batizar, segundo as tradições daquele povo significava abraçar uma causa religiosa em definitivo, uma iniciação.

É verdade também que existem na Bíblia diversas passagens em que Jesus fala sobre um pós-morte. Uma delas está em Lucas. É sobre um homem rico e um mendigo que costumava pedir-lhe esmolas. Depois de morrer, o rico vai para uma espécie de inferno, onde "se atormenta nas chamas". E o mendigo é consolado por Abraão. Cristo é mais claro ainda no evangelho de João. Diz a Pilatos que "seu reino não é deste mundo". Parece dizer, claramente, “eu nada tenho a ver com o poder dos homens na Terra, eu trato das questões espirituais”.

Só que Lucas e João são textos mais recentes que Marcos. E para boa parte dos pesquisadores, é por isso mesmo que eles dão ênfase à ideia de um Reino do Céu imperando na Terra: o império, a influência, as regras, o domínio da esfera espiritual.

"Essas referências foram sendo acrescentadas conforme o início do reino não ocorria (imediatamente)", diz o arqueólogo e especialista em cristianismo, Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Ou seja: chegou um momento em que os cristãos tiveram de lidar com o fato de que o reino de Deus talvez não estivesse tão próximo assim. A partir daí, começou um processo de reinterpretação. Cada um dava seu palpite, como hoje ainda ocorre.

A pregação de Jesus, de que os bons seriam recompensados e os maus punidos num julgamento que marcaria o fim de uma era no mundo, foi sendo alterada. E o julgamento passou a acontecer no final da vida de cada um. Faz todo o sentido: do ponto de vista argumentativo, é uma versão mais sofisticada. Só quem já morreu pode contestá-la.

Dada, porém, a forma tão materialista de como as religiões e os governos administravam os interesses dos povos, são sempre mais numerosos os estudiosos que adotam a tese do Reino Espiritual na Terra. É simples: se a vida não acaba no cemitério, há o pressuposto de que quem habita o corpo humano é o espírito eterno e seria para atender os requisitos desse habitante espiritual de passagem pela matéria que seria implantado aqui um Reino Espiritual, mais justo, mais digno do ser humano.

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