domingo, 31 de agosto de 2014

1530-Conhecimento condicionado


O conhecimento à margem da igreja

Devido à forte presença da Igreja, os primeiros pensadores medievais, chamados doutores da Igreja, voltaram-se para questões relativas aos dogmas e preceitos da fé numa tentativa de dar forma à nova religião que ainda se organizava. Inúmeros foram aqueles que estabeleceram os fundamentos da teologia católica combinando por vezes elementos da filosofia greco-romana com ensinamentos propriamente cristãos e sempre mais distantes da proposta original.

Entre os principais estudiosos que ajudaram a transformar a religião de Cristo (mais simples e mais espiritual) em uma doutrina formal, está Santo Agostinho. Associando o cristianismo aos textos do filósofo grego Platão e de seus seguidores, Santo Agostinho construiu argumentações capazes de sustentar e explicar o que foi levado ao grande público como verdades religiosas.

Algum tempo depois, São Tomás de Aquino, professor da Universidade de Paris, e um dos mais importantes doutores da história da Igreja, reuniu o saber medieval na obra Suma Teológica.

O caminho aberto por ele, a Esolástica - movimento que reunia as ideias de Tomás de Aquino - representou uma tentativa de conciliar fé e razão com base no pensamento de Aristóteles, fundindo assim elementos da filosofia pagã com a doutrina católica. Um esforço para convencer a humanidade de que Deus existe e sua escola evolutiva se assenta numa só e única igreja.

No final da Idade Média, houve algumas tentativas de mudar as orientações teóricas. Na obra de Roger Bacon, por exemplo, estão fortemente presentes preocupações científicas. Monge franciscano inglês do século XIII, Bacon recomendava observações e experimentação como meios indispensáveis para chegar ao conhecimento. Isso lhe custou a condenação pela Igreja ao cumprimento de uma pena de catorze anos de prisão.

Bacon, que é dado como uma reencarnação de São José, pai biológico de Jesus, tentou mostrar que Deus não necessita de mistérios para ser interpretado, pois todo o Universo pode ser explicado dentro da lógica científica e que nenhum dos eventos que tenham relação com a fé carecem de ser apresentados como milagres se os intérpretes usarem de honestidade na sua apresentação. Bacon acabou cognominado Pai da Ciência Moderna que viria a seguir e a igreja continuou mergulhada nas suas revelações de mistérios.

Com a arte não foi diferente. A arte medieval era também dominada pelos preceitos da religião. Na pintura e na escultura, os temas representados eram: Deus, os anjos, os santos e, de modo geral, as cenas que instruíssem os fiéis a respeito dos conhecimentos morais e espirituais da doutrina cristã.

Na arquitetura imperava a mesma concepção. As maiores construções medievais foram as igrejas, sempre imensas, sempre suntuosas. Nos primeiros tempos, imitavam-se os modelos romanos. A partir do século XI, desenvolveu-se um estilo arquitetônico propriamente medieval, chamado românico. Os edifícios eram relativamente simples, embora de grandes proporções. Sua aparência sólida, com paredes grossas e poucas janelas, assemelhava-se à das fortalezas. Seus elementos característicos eram a coluna e o arco romano.

A partir do século XII, começou a afirmar-se no norte da França um novo estilo, batizado posteriormente com o nome de gótico, referindo-se aos povos godos germânicos, muito fortemente religiosos. Introduzindo uma nova técnica de construção – o arco ogival -, o estilo gótico disseminou-se com a edificação de enormes catedrais, que passaram a simbolizar a riqueza das novas cidades, da qual Notre Dame, em Paris, é um belo exemplo.

Caracterizadas pelas torres altas e pontiagudas, pelas colunas graciosas e, claro, pelos arcos ogivais, as catedrais são construções elegantes, ornamentadas com muitas estátuas e com belos vitrais coloridos, representando cenas da vida de Cristo, da Virgem Maria e dos santos.

Contudo, viria a transformação. A sociedade feudal conheceu, entre os séculos XI e XIII, um período de grandes mudanças, assinalado pelo advento da arte gótica, da Escolástica e das universidades, notadamente nos países protestantes.

Durante esse período, que compreende os primeiros séculos da Baixa Idade Média, houve um aumento populacional proporcionado pela diminuição das invasões e das epidemias que assolaram a Europa durante os primeiros séculos do feudalismo. Esses acontecimentos, associados às características do próprio sistema feudal, como descentralização do poder e isolamento dos feudos, minaram algumas estruturas peculiares a esse sistema.

Para a composição do novo quadro, foram decisivas as Cruzadas, que apesar da mortandade e do sacrifício imposto, foram expedições de caráter religioso e militar surgidas no final do século XI, com posteriores desdobramentos. Elas contribuíram para acentuar as mudanças na estrutura do feudalismo na Baixa Idade Média.

Em decorrência das Cruzadas algumas cidades começaram a surgir, outras renasceram e os vínculos de servos e senhores feudais sofreram drásticas alterações. As profundas transformações que se verificaram tiveram como consequência a modificação das organizações internas dos feudos, bem como das relações entre eles e os reis.

O crescimento populacional foi decisivo, inclusive, para o povoamento das Américas recém descobertas.

A população européia era de aproximadamente 18 milhões de pessoas no ano 800 d.C. Em trezentos anos, até o ano 1100, esse número aumentou em cerca de 8 milhões de habitantes, saltando para quase 26 milhões. Em 1200, foi atingida a marca de 34 milhões de habitantes. Isso quer dizer que em apenas quatrocentos anos a população da Europa praticamente dobrou. Durante o século XIX a população eurpeia saltou de 200 para 400 milhões de habitantes, faltou emprego, comida e não havia pestes nem guerras para reduzir o crescimento.

Já vinha de longa data. A diminuição das invasões a partir do século X gerou um clima de estabilidade social sem precedentes no mundo feudal. O isolamento entre os feudos permitiu que o número de mortes por epidemia diminuísse consideravelmente. Sem disputas contra invasores e momentaneamente livres das epidemias, o número de nascimentos começou a superar o de mortes, ocasionando o aumento populacional.

sábado, 30 de agosto de 2014

1529-Conhecimento condicionado


As heresias, a punição e a educação

Aqueles que questionavam os dogmas (verdades reveladas) instituídos pela Igreja eram vistos como inimigos, adversários. Em outras palavras, os que interpretavam os ensinamentos cristãos de maneira diferente daquela que a Igreja pregava eram chamados de hereges (por professarem uma fé diferente da católica). Herege passou a ser palavrão, pior que ateu.

Com o intuito de manter a coesão da Igreja e da cristandade, reagindo aos levantes de seitas e grupos dissidentes, a Igreja voltou-se contra os hereges. Como forma de reprimi-los, criou-se o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Tribunal da Inquisição. O primeiro veto era o ato pelo qual o indovíduo era impedido de receber os benefícios da salvação, concedidos por intermédio da igreja (os sacramentos). Oficializada pelo Papa em 1231, a Inquisição julgava os hereges e dissidentes. Aos que se recusavam a se retratar, punia de maneira implacável, condenando-os a penas variadas, por vezes a pena capital. É interessante notar que os tribunais eclesiásticos eram os mais justos dentre aqueles encontrados na Idade Média, trazendo consigo uma série de inovações que futuramente viriam a implementar os tribunais laicos que hoje conhecemos.

Desde o final da Antiguidade, a hierarquia do clero era constituída pelo Papa e pelos cardeais, arcebispos, bispos e padres. Eles formavam o clero superior (do latim saeculum, mundo), expressão que designava os sacerdotes que desenvolviam atividades voltadas para o público.

Paralelamente, desenvolveu-se o clero regular, formado pelos religosos que viviam em mosteiros (monges e abades), em regime de reclusão ou semi-reclusão.

O hábito de viver em mosteiros – chamado monasticismo - foi introduzido no Ocidente no século VI, quando São Bento fundou o mosteiro do Monte Cassino, na Península Itálica, dando origem à Ordem (ou irmandade) dos beneditinos. A regra criada por São Bento para disciplinar a vida de seus monges, aprovada pelo Papa, serviu de modelo para outras ordens surgidas posteriormente, como a dos franciscanos, a dos dominicanos, etc. O modelo dos mosteiros masculinos, dirigidos por um abade, foi logo instituído para as mulheres.

Os mosteiros ou monastérios desempenharam um importante papel na Europa medieval, cristianizando povos, cultivando terras, organizando e mantendo escolas e bibliotecas.

Durante a Idade Média, as pessoas que sabiam ler e escrever, em geral, pertenciam ao clero. Os poucos livros que sobreviveram ao período das invasões germânicas eram conservados nas escassas bibliotecas pertencentes à Igreja. Nelas, os monges copistas encarregavam-se de traduzir e reproduzir os livros à mão. Dessa forma, os integrantes da Igreja eram os únicos capazes de lidar com o saber escrito e, portanto, com o ensino formal.

Todo o ensino estava sob o controle da Igreja e era voltado para o ingresso na vida religiosa. A língua utilizada para transmitir os ensinamentos era o latim, falado pelos integrantes do clero e pelas pessoas cultas. Por força dessa influência, os currículos escolares do século XX, no Brasil, ainda incluíam o ensino do latim.

Nas escolas mantidas pela Igreja, os primeiros estudos eram feitos naqueles estabelecimentos que funcionavam nos conventos e nas igrejas das vilas, onde se aprendia a ler e escrever, noções de cálculo e canto religioso. A continuação dos estudos (curso superior), orientada sempre por padres ou monges em escolas mantidas nas catedrais, e dividida em dois ciclos: o trivium (gramática, retórica, lógica) e o quadrivium (música, aritmética, geometria e astronomia).

A principal inovação medieval realizada pelos europeus no campo do ensino e do conhecimento foi a criação das universidades. Com muito atraso, porém, pois em vários outros pontos do planeta a universidade já estava a pleno.

No final do século XI, a primeira instituição de ensino superior a aparecer foi a Escola de Direito de Bolonha, no norte da atual Itália. Outras instituições surgiram quase simultaneamente na penísula Itálica, na França e na Inglaterra. Até o final do século XIV, já havia mais de quarenta delas espalhadas por diversas regiões da Europa. Nas áreas sob a influência da Igreja as universidades estavam voltadas para apoio à religião e à burocracia, retardando sobremaneira a entrada no mercado de trabalho dos profissionais das áreas exatas e técnicas. Só isso jogou lentidão para que o Iluminismo produzisse efeitos nos países subsidiários do catolicismo.
A disseminação desses estabelecimentos de ensino teve relação com o ressurgimento urbano e comercial que ocorreu na época, chamada de Renascimento e depois Iluminismo. Com esse surgimento tornou-se necessário um número de letrados para gerir os negócios, tanto públicos como privados.

Inicialmente regulamentadas pela Igreja, as universidades restringiam-se ao ensino de disciplinas do trivium e do quadrivium. No século XIV, ganharam independência e passaram a assumir um caráter mais voltado para a vida secular, ministrando também cursos de artes, de medicina, além de direito e de teologia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

1528-Conhecimento condicionado


A repartição e a fé nos feudos

Na Alta Idade Média (476-1453) ocorreu uma acentuada retração das atividades comerciais e artesanais. Em razão disso, houve um processo de ruralização da sociedade da Europa ocidental, com o predomínio da agricultura de subsistência.

Dentro dos feudos, a agricultura era praticada por meio de técnicas simples. Os principais instrumentos eram feitos de madeira, pois o ferro era de difícil aquisição. O arado, puxado por boi, era o equipamento principal. Para não esgotar o solo, usava-se um sistema de rotação trienal: a terra de cultivo era dividida em três partes e o plantio era feito de tal modo que sempre uma dessas partes permanecia em descanso, enquanto nas outras duas havia rotação de culturas.

Cada família de servos tinha a posse de um lote (ou tenência) em cada um desses campos, para que sempre houvesse terra disponível para o cultivo.

Em quase toda a Europa Ocidental, durante a Idade Média, o cristianismo romano era a crença religiosa predominante e que exercia seu poder máximo. A grande exceção constituía a parte da península Ibérica ocupada pelos árabes, naquilo que conhecemos por Invasão Moura, que durou de 711 a 1492 d.C., de confissão muçulmana. Aí, a religião dominante era o islamismo. Outro caso particular dizia respeito às comunidades de judeus disseminadas pela Europa, praticantes do judaísmo. Na maior parte do continente, porém, a vida das pessoas era determinada pelos ensinamentos e pela ação da Igreja Católica Apostólica Romana.

Herdeira e transmissora dos valores greco-romanos, essa poderosa instituição marcou de maneira profunda a cultura medieval, tanto do ponto de vista material quanto espiritual. A própria presença muçulmana numa parte da Europa apenas fez acentuar o rigor cristão, posto que era confrontado com o modelo islamita.

A Igreja era a mais importante instituição do mundo feudal. Os membros mais elevados de sua hierarquia, bispos e abades, eram recrutados entre os nobres. Naquela época, tinha-se o costume de fazer com que o segundo filho de uma família nobre seguisse a carreira eclesiástica - o primeiro filho (homem) herdava o feudo, segundo o direito de primogenitura. E as filhas mulheres eram educadas para casar. Caso contrário iam para os coventos como freiras.

Até mesmo o tempo era regulado pela religião cristã - as pessoas marcavam o ritmo de suas vidas pelo toque do sino das igrejas. Completamente voltadas para as práticas religiosas, acreditavam que a vida na Terra era apenas um momento antes da eternidade, que seria vivida ao lado de Deus.

Na Idade Média, a Igreja Católica dominava o cenário religioso. Detentora do poder espiritual, a Igreja influenciava o modo de pensar, a psicologia e as formas de comportamento na Idade Média e até mesmo a geração de filhos pelos casais. A igreja também tinha grande poder econômico, pois possuía terras em grande quantidade e até mesmo servos trabalhando. Os monges viviam em mosteiros e eram responsáveis pela proteção espiritual da sociedade. Passavam grande parte do tempo rezando e copiando livros sagrados e educacionais.

Colocando-se como a única intermediária entre a humanidade e Deus, a Igreja passou a deter o monopólio da salvação. Sua organização hierárquica, no topo da qual estava o Papa, era extremamente centralizada e rígida. A serviço de Deus, os membros do clero cumpriam um rigoroso regime de obediência e disciplina.

Seu raio de ação, entretanto, não se limitava à vida espiritual. Na verdade, ao longo dos séculos, a Igreja tornou-se proprietária de grande patrimônio – possuía terras, vassalos e servos – acumulados graças às doações feitas por aqueles que queriam, por seu intermédio, ser libertados da condenação divina.

Em meio a uma sociedade constituída de pessoas iletradas, mantinha o controle absoluto do saber erudito. Detendo informações e conhecimento importantes, garantia que seu domínio se estendesse ao longo de séculos de maneira quase inabalável e inquestionável. Isso só mudou quando Martin Luther, um padre alemão questionou o método católico e liderou uma cisão conhecida por Protestantismo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

1527-Conhecimento condicionado


A estrutura feudal

Os feudos eram os núcleos com base nos quais a sociedade feudal se organizou e ser viu de modelo às sociedades do futuro. Por volta do ano 1000, a maioria das pessoas na Europa ocidental vivia em feudos. Nesse período, a terra converteu-se no bem mais importante, por ser a principal fonte de sobrevivência e de poder. Aqui temos nós, brasileiros, uma forte âncora cultural, presente em nossos dias. Passamos a ver a terra como a maior conquista do homem simples e pobre, mas este, por seu encolhimento mental jamais chegará a produzir excedentes. Ele mourejará sobre a terra como um pária. A Reforma Agrária buscada pelo MST, no Brasil, padece dessa mentaldiade. Para produzir excedentes e gerar riqueza, o homem deve ser educado, profissionalizado.

As terras do feudo distribuíam-se da seguinte forma:

Manso senhorial – representava cerca de um terço da área total e nela os servos e vilões trabalhavam alguns dias por semana. Toda produção obtida nessa parte da propriedade pertencia ao senhor feudal.

Manso servil – área destinada ao usufruto dos servos. Parte do que era produzido ali era entregue como pagamento ao senhor feudal.

Terras comunais – era a parte do feudo usada em comum pelos servos e pelos senhores. Destinava-se à pastagem do gado, à extração de madeira e à caça, direito exclusivo dos senhores.

Os feudos não eram apenas agrícolas. Ali havia outras atividades artesanais.

Os servos, principal mão-de-obra dos feudos, deviam varias obrigações ao senhor feudal, destacando-se:

A corvéia – prestação de trabalho gratuito durante vários dias da semana no manso senhorial;

A talha – entrega ao senhor de parte da produção obtida no manso servil;

A banalidade – pagamento de taxa pelo uso do forno, do lagar (onde se fazia o vinho) e do moinho, dentre outros equipamentos do feudo;

O censo – pagamento efetuado com parte da produção em dinheiro, ao qual estavam obrigados somente os vilões ou homens livres;

A capitação – imposto per capita (por cabeça), pago apenas pelos servos;

A mão-morta – taxa paga pelos familiares do servo para continuar explorando a terra após sua morte.
 
Essas e outras formas de pagamento eram compulsórias. Por meio delas, transferia-se para o senhor feudal a maior parte da produção.

Os camponeses tinham de viver com o pouco que sobrava. Moravam em casa de madeira, sem divisões internas, com telhado de palha e chão batido. Assim como os senhores, em sua maioria não sabiam ler nem escrever. Vestiam-se com roupas de lã, linho ou couro. Seu divertimento, geralmente, estava relacionado à fé cristã e aos festejos comemorativos por ocasião do plantio, da colheita e dos santos padroeiros.

A Europa foi ocupada por vários reinos, cuja principal característica era a descentralização do poder, dividido entre o rei e os senhores do feudo. O rei cumpria, sobretudo, funções simbólicas. Era considerado o principal suserano. Também subordinado às obrigações do sistema de suserania e vassalagem, dependia do exército (milícia) formado por seu vassalos e dos tributos recolhidos em seus próprios domínios feudais.

Ao ser reconhecido e legitimado pela Igreja, o poder do rei revestia-se de um caráter: ele era “rei pela graça de Deus”. Apesar disso, não tinha poderes para interferir nas terras de seus vassalos. Nelas, o senhor feudal era soberano, comandando o seu funcionamento e fazendo justiça segundo as tradições e o direito consuetudinário, isto é, o direito consagrado pelos costumes.

Quando, hoje, o político galga o poder, no Brasil, de certa forma, os vassalos eleitores o veem como alguém que pela graça de Deus ali foi colocado. Não sabe o eleitor das maracutaias que ocorrem no interior dos partidos políticos para que isso aconteça. Mas, foi pior.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

1526-Conhecimento condicionado


A sociedade feudal e sua herdeira

A sociedade feudal é dividida em três grandes ordens. A primeira compreendia os integrantes do Clero, que cuidavam da fé cristã com mão de ferro: nada coexistia se não professasse e obedecesse a fé com sede em Roma. A segunda reunia a Nobreza como um todo, parasita, responsável pela moeda, pela língua, pela conquista (guerra) e pela segurança (interna). Já a última ordem era aquela constituída pelos Servos, que trabalhavam para sustentar tudo mais, como ainda hoje ocorre, pois os donos do capital nada mais são do que exploradores de dividendos obtidos pela geração de riqueza pelas mãos e pelas máquinas de quem labora.

A possibilidade de ascensão social praticamente inexistia. Rígidas tradições e vínculos jurídicos determinavam a posição social de cada indivíduo desde o nascimento. Na sociedade feudal, a honra e a palavra tinham importância fundamental. Desse modo, os senhores feudais ligavam-se entre si por meio de um complexo sistema de obrigações e tradições, do mesmo modo que exerciam esse padrão sobre os seus vassalos. O compadrio que ainda existe entre trabalhadores e proprietários rurais no Brasil, é uma extensão desse padrão herdado dos feudos.

A fim de obter proteção, os senhores feudais geralmente procuravam por outro senhor mais poderoso, jurando-lhe fidelidade e obediência. Chamava-se vassalo, o senhor feudal que pedia proteção a outro. Essa aliança deveria ser consolidada pelo senhor mais poderoso, o suserano, por meio da concessão de um feudo, que podia ser constituído de terras ou de bens ou de ambos. Herdamos daqui, também, a figura dos coronéis rurais que, por exemplo, no Nordeste Brasileiro, ainda estão ativos.

Nesse sistema, o vassalo devia várias obrigações ao seu suserano, como o serviço militar, por exemplo. Nascia assim as milícias que, mais tarde viriam servir aos interesses dos coronéis do campo no Brasil. Por essa razão, quanto maior o número de vassalos, maior o prestígio e o poder de um suserano. (As oligarquias políticas de que vários estados brasileiros tiveram e têm de enfrentar, é herança daí) O compromisso estabelecido nesse sistema tinha caráter sagrado e constituía falta grave sua violação. Esse modelo, com algumas variantes, viemos encontrar também no Brasil do século XVIII, XIX e XX quando o Império começou por instituir os coronéis rurais, responsáveis pela segurança nacional através de milícia armada e depois evoluiu para os chefes políticos (como ocorreu no Brasil): Flores da Cunha, Borges de Medeiros, Felipe Schmidt, Vidal Ramos, Irineu Bornhausen, Aderbal Ramos, José Sarney, Tenório Cavalcanti e uma centena mais de outros chefões políticos.

A terceira (última) ordem da sociedade do século V era formada pelos servos. A relação que se deu inicialmente entre os colonos e os proprietários das vilas romanas pode explicar a origem de servidão no feudalismo posterior e a sua extensão nas fazendas de café, cacau, cana-de-açúcar, gado, e nas explorações das minas e engenhos. Diferentemente dos escravos, os servos estavam presos à terra e dali não podiam sair. Mesmo que um feudo mudasse de senhor, não poderiam ser expulsos dele, passando a prestar obrigações ao novo senhor.

Além dos servos, havia os vilões, pequenos proprietários que, por algum motivo, tinham entregado suas terras a um senhor. Embora livres, deviam várias obrigações ao dono do feudo.

Na Europa, os escravos, em número reduzido e mantidos apenas em algumas regiões próximas ao Mediterrâneo, trabalhavam em atividades domésticas. Também no Brasil houve isso.

Havia diferenças, de fato, entre o servo e o escravo. O servo tinha o direito à sua vida, garantia que o escravo não conhecia, pois podia até ser morto pelo amo. Além disso, ainda que entregasse grande parte da colheita ao senhor, o servo produzia sua própria economia. Entretanto, a condição de exploração de ambos era semelhante. Os servos ficavam à mercê de circunstâncias quase tão cruéis quanto as enfrentadas pelos escravos. Numa sociedade marcadamente lusitana, como Florianópolis e Porto Alegre, ali pelo século XIX, os proprietários mesmo urbanos não trabalhavam, tudo era feito pelos servos, pelas amas.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

1525-Conhecimento condicionado


O que era o feudo

Ao longo de todo processo de desagregação do Império Romano do Ocidente, que durou cerca de duzentos anos, as cidades se despovoaram, enquanto o comércio e a produção artesanal entraram em declínio. Sem dinheiro para manter as fronteiras, o imperador não conseguia garantir a integridade do território. Para se proteger, a população abandonava as cidades, principais alvos dos povos invasores e se refugiavam nas zonas rurais.

Ao mesmo tempo, com o fim das guerras de expansão do Império, a mão-de-obra escrava, base da economia romana, praticamente desaparecera. Com isso, as grandes propriedades rurais escravistas – os latifúndios – perderam importância.

No lugar dos latifúndios, começaram a surgir as vilas (hoje são chamadas de agrovilas, onde quase tudo se concentra em apoio aos seus moradores), grandes propriedades rurais que tinham por objetivo a auto-suficiência, tendo em vista que o fluxo comercial diminuiu com as invasões. Nas vilas, a mão-de-obra principal passou a ser dos colonos, trabalhadores que entregavam parte do que produziam ao senhor da terra, em troca da permissão para uso da terra desse senhor. Com o passar do tempo, os pequenos agricultores também entregariam suas terras aos grandes proprietários em troca de proteção.

Essas vilas e as relações nelas estabelecidas contribuíram para a formação dos feudos, unidade básica de todo o sistema feudal. Nascia assim, também, os chamados burgos, mais tarde condados.

Feudo também era em benefício, muitas vezes, de uma área territorial, que o senhor doava a um nobre. Aquele que recebia a doação era chamado de suserano ou senhor, enquanto o que doava passava a ser chamado de vassalo.

O vassalo não era proprietário do feudo - ele podia apenas usufruir desse bem. Portanto, ele estava proibido de fazer qualquer negociação que envolvesse a venda da terra. A partir do século IX, o feudo tornou-se um bem hereditário. Ao receber a doação, o vassalo tornava-se senhor das terras que recebia podendo transmiti-la ao primogênito varão. Ele então podia doar parte dessas terras a outro homem e, assim, tornar-se também um suserano ou senhor. Os demais filhos além do primogênito nenhum direito tinham sobre a terra e em geral partiam para outras profissões como a religiosa e a militar, reforçando o que viria a ser, mais tarde, a poderosa burocracia a ser susustentada pelos trabalhos de agricultores e artesãos.

A intensificação das invasões germânicas na Europa ocidental trouxe mudanças e acrescentou novos elementos à sociedade que se formava. Os povos germânicos trouxeram consigo certos costumes que se incorporaram à sociedade nascente, com um padrão de justiça baseado na tradição (consuetudinãrio), e noções de honra e lealdade, que fundamentavam as relações entre o chefe guerreiro e seus comandados.

Prática comum entre os germânicos, o ato de conceder terras como recompensa aos homens que se destacavam nos combates foi consolidada nesse período. Assim, à medida que avançavam e se instalavam no território romano, os guerreiros tornavam-se senhores de terras. A união entre eles e seus comandantes baseava-se apenas na lealdade e na palavra. Assim, os novos senhores da terra passavam a ser praticamente independentes dentro de seus domínios, que agregavam germânicos e romanos. Com o tempo, eles se transformariam em senhores feudais, e a administração fortemente centralizada trazida do Império Romano daria lugar a um poder descentralizado, tendo a Igreja de Roma como referência organizacional.

A Igreja Católica representou papel fundamental na formação e consolidação do feudalismo. Era a maior e a mais poderosa instituição do período. Sua influência alastrou-se aos poucos entre os povos romanos e germânicos, transformando-a no principal elo de toda a população e garantindo certa uniformidade cultural (tendo por base a lingua latina) na Europa ocidental.

No século IX, não existia na Europa ocidental quem não acreditasse em Deus. Controlando a fé, a Igreja normatizava os costumes, a produção cultural, o comportamento e, sobretudo, a ordem social. Aqueles que se desviavam de suas normas eram rigorosamente punidos. Sua influência também se fazia sentir na política, ao sagrar reis e legitimar o poder dos senhores feudais.

A Igreja se transformaria também na maior proprietária de terras da Europa ocidental, em um período em que a terra era a principal fonte de poder e de riqueza.

A nova organização social que despontava na Europa após a desagregação do Império Romano – o feudalismo – só assumiu sua forma mais acabada por volta dos séculos VIII e IX. Nessa época, outra onda de invasões, desta vez empreendidas pelos povos árabes, húngaros, eslavos e normandos (ou vikings), isolou a Europa ocidental do Oriente. O clima de insegurança e isolamento criado pela nova onda de invasões dificultava a circulação de pessoas, debilitando ainda mais as atividades comerciais e a força das cidades.

O poder político se transferiu para os grandes proprietários de terras, os senhores feudais, a quem a população recorria para pedir proteção.

Como vimos, a partir do século III, o Império Romano conheceu um longo processo de desestruturação e um dos principais fatores desta foi a grande extensão das suas fronteiras. Expandiu demais e não havia como controlar tudo. Deixou, no seu lugar, um poderoso sistema de proteção em troca de favorecimentos, o que hoje se conhece por clientelismo ou paternalismo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

1524-Conhecimento condicionado


O início do feudo

O Feudalismo na Europa compreende o período da Idade Média a partir da descentralização do Império Romano tendo surgido entre os séculos IX e X na Europa Ocidental. Instituições feudais perduraram na Europa até o fim do Antigo Regime quebrado pelas revoluções (de que falarei adiante). Na França, o feudalismo foi uma expressão criada no século XVII e usada depois pelos advogados franceses e ingleses e popularizada pelo filosofo Charles-Louis de Secondat, Barão de Montesquieu como um modelo acabado de relações entre proprietários e serviçais, antecedendo o capitalismo.

O sistema de coronelato rural implantando no Brasil pelo regime de Pedro II em torno de 1850, era a mais perfeita evolução do feudalismo. Em troca da defesa do território, da harmonia e da manutenção de um parlamento simpático ao rei, os coronéis ganhavam terras e outros favores e podiam organizar e dirigir milícias rurais.

De onde vem isso? Com uma multiplicidade de problemas a afetá-lo, Teodósio (Rei de Roma) viu-se na necessidade de dividir o Império Romano em duas partes distintas. Uma sediada no Ocidente (Roma) e outra com sede em Bizâncio, depois Constantinopla, atual Istambul.

Sortes distintas tiveram estes territórios. O do ocidente acossado pelas contradições internas, mas também assolado por várias vagas de invasores, sucumbiu, não conseguindo mais manter o poderio que lhe deu fama e riqueza. Abriu a porta a uma nova realidade, a fragmentação do poder em vários senhores responsáveis pela ordem, em suma o Feudalismo. O senhor da terra cedia o espaço para o cultivador mediante cobrança de um percentual dos resultados. Terceirizava-se o papel do Estado. Hoje quando universidades e escolas particulares, hospitais particulares, serviços privados de segurança, saúde, educação, estradas, comunicações, substituem o papel do Estado, é o feudalismo evoluído vivo.

A formação do feudalismo se deu como se vê (essa era a desculpa) para proteger a área contra invasores. Mas, na verdade, era um capitalismo selvagem, escravagista, em que a única virtude era permitir ao vassalo a tomada de decisões sobre a propiedade a cultivar, coisa que, após isso, o capitalismo retirou por completo. O trabalhador perdeu a autoria, a iniciativa.

Os romanos, a exemplo dos gregos, chamavam de "bárbaros" a todos aqueles que não tinham seus costumes e que não falavam sua língua. Entre esses povos, estavam os germanos, cujas invasões provocariam a desestruturação do Império Romano do Ocidente.

A partir do fim do século III, com o enfraquecimento do poderio de Roma, alguns povos que habitavam nas proximidades das fronteiras do Império Romano começaram a se instalar pacificamente em seu território, como aliados, isto é, como colonos e, sobretudo, como soldados. No final do século IV, os hunos, povo guerreiro de origem asiática, chegaram à Europa oriental e mudaram esse quadro, acelerando o processo de desintegração do Império Romano. Praticamente empurrados pelas invasões dos hunos, os povos germânicos levariam de roldão as fragilizadas defesas das fronteiras romanas. Assim, francos, burgúndios, alamanos, ostrogodos, visigodos, anglo-saxões invadiam e pilhavam o território do decadente Império Romano. De certa forma, vemos isso acontecendo novamente nos países desenvolvidos com a hordas de imigrantes que os invadem a procura de emprego, alimento, proteção e saúde.

Em 410 d.C., os visigodos ocuparam a península itálica, tomando e saqueando Roma. Os vândalos, por sua vez, avançaram pela peníncula ibérica, atravessaram o estreito de Gibraltar e estabeleceram-se no norte da África. São, hoje, a cultura terrorista que se destaca nos noticiários.

O golpe definitivo ocorreu em 476 d.C., quando Odoarco, chefe dos hérulos, destronou o Imperador de Roma, pondo fim ao Império Romano do Ocidente. Esse acontecimento assinala a passagem entre a Antiguidade e a Idade Média na Europa, mas também, segundo alguns historiadores, em outras formas de passagem entre as mesmas, por exemplo: divisão do império em oriente e ocidente, deposição do ultimo imperador no ocidente ou a liberdade de culto para os cristãos e, mais tarde, pelo agravamento do controle episcopal, a cisão do cristianismo.

Assim, ao término do século V, toda a porção ocidental do Império Romano, agora sob o domínio dos germanos, começava a assumir uma configuração inteiramente diversa do ponto de vista de sua organização social, política e econômica. Era o mundo feudal que começava a se formar.

Mas, seriam necessários mais de três séculos para que as estruturas da nova sociedade estivessem plenamente consolidadas (século VIII). Nesse período, definitivamente, a administração centralizada do Império Romano daria lugar a diversos reinos, como o dos ostrogodos, o dos francos e outros nos quais vigoravam formas descentralizadas de poder.

De todos os reinos feudais, o mais duradouro foi o dos francos. Por volta do século IX seu poder era tão grande que alguns acreditavam na possibilidade de o Império Romano do Ocidente voltar a surgir através do que hoje é a França. Porém muito aliada à Igreja. Isso nos levaria às Cruzadas, raiz de um ódio confessional que instalou entre cristão-judeus e muçulmanos.

A base social dos reinos feudais se constituia a partir do encontro e da combinação de tradições, costumes, crenças e estruturas sociais herdadas dos romanos e dos povos germânicos.

domingo, 24 de agosto de 2014

1523-Conhecimento condicionado


Introdução

Quando o apressado intérprete da realidade nacional brasileira olha para o regime de propriedade da terra secularmente mantido no modelo latifundiário, em geral improdutivo e, em geral, com exploração desumana da mão de obra, é possível que sinta vontade de xingar os governos e os propritários por sua insensibilidade e desumanidade. E o que é pior: o modelo latifundiarista inspirou o modelo industrial. E este inspirou o modelo bancário. E a Universidade não se fez de rogada: formou imensas levas de profissionais com a cabeça centrada no emprego. Entre as raras exceções que escapam do modelo empreguista são a Medicina e a Odontologia. Mais que insensíveis e desumanos, governos e proprietários e capitalistas respondem por um grande atraso na economia primária, secundária e financeira do país. Existe, no mínimo, meio Brasil territorial por ser explorado técnicamente. E outra de Brasil a espera da eficiência da indústria. E os juros cobrados pelo sistema financeiro respondem pelo restante da estagnação em termos de investimentos. É mais atraente viver de juros do que gerar riqueza. A exceção no campo são as cooperativas que conseguem distribuir entre os seus associados os excedentes da comercialização e industrialização dos produtos primários. A exceção mais rara nas fábricas são os empregados participando dos resultados da indústria. Mas, é muito pouco em vista da imensidão a conquistar.

Onde está o nó? Na cultura, na consciência. E a saída deve vir de onde? Da Escola Superior, principalmente.

Quem diria que um dia a poderosa universidade pudesse ser contestada em sua sobriedade, austeridade e arrogância?

Temos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de área territorial. Vamos retirar disso 50% para deixar com as montanhas, rios e alagados e áreas urbanas. Ficaremos com mais de 4 milhões de km², o que equivale dizer 400 milhões de hectares cultiváveis. Usamos, disso tudo, 68 milhões. Temos 250 milhões de hectares em latifúndios improdutivos e semi-produtivos. Quatro vezes mais do que hoje está cultivado e produzindo.

Já temos assistido as falas das autoridades e economistas que a agropecuária tirou o Brasil da falência já por varios anos seguidos. E não tem nenhum absurdo nisso. Absurdo seria o Chile ou o Japão viverem da agropecuária sem ter área para tanto. O Brasil tem área agricultável como nenhum outro país do planeta. Vai fazer o que com seus 8,5 milhões de km² se não produzir grãos, frutas, madeira, hortaliças, proteína animal e seus derivados?

Toda a riqueza de matéria-prima deixa de ser explorada aqui para ser exportada, beneficiada lá fora, de onde retorna tristemente como fuga de divisas na primeira e na segunda operação.

Acontece que somos frutos de um Conhecimento condicionado. Pensamos como feudatários ou como vassalos. Reside justamente nessa mentalidade retrógrada da Universidade, da Igreja, da Política, da Economia, os principais e graves problemas do riquíssimo e paupérrimo país que mora no nosso coração.

Esta série tem a pretensão de levantar as raízes culturais dos Brasis rural e industrial (e não só do Brasil, como também de várias outras culturas próximas da nossa, como da Argentina e Uruguai, onde imperou a influência europeia e cristã) para identificar porque toleramos, aceitamos, reproduzimos a mentalidade feudal. Por que (3 séculos depois) ainda não adentramos no Iluminismo?

Opa! Mas a proposta deste blog é maioridade espiritual e de repente passa a tratar de agricultura, feudo, indústria, modelo econômico, cultura, etc. Sim, leitor, o atraso espiritual que nos coloca como índios na jornada do espírito tem uma âncora chamada economia feudal, pensamento feudal, afazeres medievais. Âncora fundeada, impedindo nosso navegar, pés de chumbo impedindo nosso voo, especialmente porque fomos colonizados por portugueses e espanhóis. Você verá adiante, como chegamos nisso.

Você nos acompanha? Então, vem...

sábado, 23 de agosto de 2014

1522-História da humanidade


Império e Igreja romanos e modelo atual

O modelo de vida greco-romano, a cultura herdada dos tempos narrados até agora avançou para dentro da Era Cristã europeia.

Toda a vida europeia desde os pontos de vistas social, econômico, político, jurídico, religioso e artístico sofreu a influência do Império Romano. Quando, em 476 d.C., o Império Romano faliu, a Igreja de Roma assumiu este papel que, simbolicamente, só foi interrompido com a Revolução Francesa.

É preciso resgatar aquela onda de mudanças, de renascimento, de renascença ou renascentismo, isso mesmo, com esses nomes, usados para identificar o período da História da Europa (com reflexo nas Américas) aproximadamente entre fins do século XIV e inicio do século XVII proporcioando uma virada intelectual e religiosa, política e econômica, artística e filosófica.

Este período foi marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e boa parte da Idade Moderna. Apesar destas transformações serem bem evidentes na cultura, na sociedade, na economia, na política e na religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências. Isto porque o capitalismo se caracteriza por duas grandes variantes em nada modernizador daquilo que havia no feudalismo: o proprietário (do bem físico ou do bem monetário) explorando o trabalho de quem produz e transforma.

Aquele momento lá atrás chamou-se "Renascimento" em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da antiguidade clássica, que nortearam as mudanças deste período em direção a um ideal humanista e naturalista, no que a sociedade não se equiparou em se tratando de política e economia.

O Renascimento cultural manifestou-se primeiro na região italiana da Toscana, tendo como principais centros as cidades de Florença e Siena, de onde se difundiu para o resto da península itálica e depois para praticamente todos os países da Europa Ocidental (mais uma vez Roma gerando influência), impulsionada pelo desenvolvimento da imprensa com a invenção da gráfica por Gutenberg.

A Itália permaneceu sempre como o local onde o movimento apresentou maior expressão, porém manifestações renascentistas de grande importância também ocorreram na Inglaterra, Alemanha, Países Baixos e muito pouco em Portugal e Espanha, que foram mais influentes em relação à América do Sul e Central.

Alguns críticos, porém, consideram, por várias razões, que o termo "Renascimento" deve ficar circunscrito à cultura italiana desse período, e que a difusão europeia dos ideais clássicos italianos pertence com mais propriedade à esfera das artes e da religião, pois desde então os artistas abandonaram a arte sacra e a religião enfrentou a reforma protestante.

Em paralelo, o Iluminismo Filosófico se encarregaria de mexer no modo de pensar dos intelectuais com reflexos no povo europeu e americano (de alguns países).

Tudo isso exerceu enorme influência sobre a população europeia que, como se sabe, colonizou as três Américas. Nós os americanos somos criaturas moldadas pelas influencias que recebemos de nossos patriarcas culturais. Esse período vem desde o século IV a.C. até a Revolução Francesa, em 1789. Mas, a Revolução Francesa teve enorme dificuldade de influenciar a América Ibérica por conta do domínio da religião católica.

Se você voltar os olhos para muito do que foi escrito nestes doze capítulos perceberá que o Império Romano e a Igreja de Roma adotaram muita coisa dos estilos dos regimes muito antigos que governaram bons pedaços do planeta.

A única cultura que não influenciou a América foi a oriental até cerca de 1970 d.C., quando houve uma invasão do budismo notadamente nos Estados Unidos.

 Hoje o mundo se moderniza em quase tudo e, na América Ibérica, muito pouco em se tratando de pensamento religioso. Atrelados a uma cultura religiosa retrógrada também o sistema político se arrasta. Nem mais ideologia existe e sim o fisiologismo, parecido com a salvação oferecida pela igreja: eu me salvo e ponto final. Nisso fica para trás o coletivismo, a ecologia e aumenta o fosso entre os que tudo tem (minoria) e os que nada tem (maioria), gerando, por exemplo, o caos social e a violência, do mesmo modo que abre espaço para os partidos populistas que distribuem benefícios em troca de voto.

Quanto tempo vai demorar isso para que Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Uruguai, Paraguai e outros saiam do atoleiro cultural, não se sabe.
 
Fim desta série. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

1521-História da humanidade


Antigo Egito

O Antigo Egito foi uma civilização da Antiguidade Oriental do Norte da África, concentrada ao longo ao curso inferior do Rio Nilo, no que é hoje o país moderno do Egito. Era parte de um complexo de civilizações, as "Civilizações do Vale do Nilo", do qual também faziam parte as regiões ao sul do Egito, atualmente com os nomes de Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália. Tinha como fronteiras o Mar Mediterrâneo a norte, o Deserto da Líbia a oeste, o Deserto Oriental Africano a leste, e a primeira catarata do Nilo a sul.

O Antigo Egito foi umas das primeiras grandes civilizações da Antiguidade entre 3100 a.C. e 2300 a.C. Manteve durante a sua existência uma continuidade nas suas formas políticas, artísticas, literárias e religiosas, explicável em parte devido aos condicionalismos geográficos e as influências culturais e contatos com o estrangeiro, notadamente com a cultura oriental.

A estrutura social tinha no faraó a mais alta autoridade, abaixo do qual encontrava-se a nobreza composta pela família real, pelos altos funcionários, e pela casta dos sacerdotes, que detinham muito poder e tinha influência com o faraó. Os sacerdotes administravam todos os bens que os fiéis e o próprio Estado ofereciam aos deuses. As funções da nobreza eram hereditárias, ou seja, passavam de pai para filho. Abaixo da nobreza, estavam os numerosos escribas, funcionários modestos, inúmeros sacerdotes de pequenos templos, oficiais militares, artistas e artesãos especializados a serviço do faraó e da corte. E, finalmente, sustentando as outras camadas, na base da pirâmide social, estavam os trabalhadores, que prestavam serviços sobretudo nas pedreiras, minas, pirâmides, oficinas artesanais, agricultura e outras construções.

Do ponto de vista religioso, os antigos egípcios eram politeístas, e o desejo de agradar aos deuses influenciava muito a sua vida. Acreditavam que o deus Osíris julgava a vida depois da morte e fazia a passar junto aos deuses àqueles que tinham levado uma "boa vida". O culto de Osíris desenvolveu-se no império antigo. Após o colapso do império antigo o culto de Osíris continuou. Antes dele Ra era o deus principal.

O período do Antigo Egito foi, como já citamos de 3200 a 2300 a.C. e foi sucedido pelo Médio Império. Quando no final do Império Antigo, o poder centralizado começou a enfraquecer, o país ficou dividido em nomos que guerreavam entre si ocasionalmente. O Egito reunificou-se no início do século XX a.C, com o Império Médio, que durou de 2040 a 1730 a.C. Foi quando os governantes de Tebas afirmaram seu poder e fundaram a XI dinastia, dos Mentuhoep, dando início ao Médio Império, com capital em Tebas. Os canais de irrigação e contenção foram ampliados e as áreas de agricultura cresceram. O comércio também se desenvolveu, com vários tipos de artesanato.

No Império Médio, várias comunas de camponeses empobreceram e arruinaram-se. Em meados do século XVIII a.C. aconteceu uma revolta generalizada de escravos, artesãos e camponeses, que afetou todo o país. Os grandes proprietários foram expulsos dos seus palácios o faraó abdicou. Houve saques aos túmulos e às pirâmides; templos e celeiros conquistados e as riquezas do rei divididas pelo povo. Estas cenas foram mostradas pelo filme “Os Dez Mandamentos”, de Cecil B. DeMille, mostrando Moisés entre os líderes desta revolta que incluía os escravos judeus no Egito. Todos os documentos acerca de impostos foram destruídos. Depois houve uma invasão de Hicsos, que controlaram o Egito durante um século e meio. O Império Novo começou quando um movimento armado libertou o Egito.

O Novo Império durou de 1580 a 525 a.C., cuja data, como o leitor pode ver, coincide com a posse do Regime Persa que foi, posteriormente, conquistado pelo Regime Helênico e em seguida pelos romanos em 30 a.C.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

1520-História da humanidade


Sumérios pioneiros

O primeiro povo a criar uma vida urbanizada na Mesopotâmia foram os sumérios. Eles colonizaram os pantanais do Baixo Eufrates que, somando-se ao Tigre, desagua no Golfo Pérsico. A origem desse povo é praticamente desconhecida, bem como sua língua que em nada se assemelha a qualquer outra já conhecida. Um pouco antes do IV milênio a.C., os sumérios chegaram à Mesopotâmia, e, nos mil anos seguintes fundaram cidades e desenvolveram sua escrita cuneiforme, gravada em tabuletas de barro. Eles desapareceram há 4 mil anos.

Ao norte da Suméria havia uma cidade semita chamada Acádia. Por volta de 2400 a.C., os acádios conquistaram as cidades sumérias. Os reis acadianos foram os primeiros a manifestar a ambição de governar o que consideravam ser a terra inteira. Sargão, o seu monarca, ficou conhecido como o "soberano dos quatro cantos do mundo". Os acadianos construíram um império que se estendia do Golfo Pérsico ao Mar Mediterrâneo. Por volta de 2100 a.C. o Império Acádio desmoronou. Invasões conjugadas a disputas internas provocaram sua queda. Após um período de prolongados conflitos, por volta do século XVIII a.C. Hamurabi, um iluminado rei da Babilônia realizou uma série de conquistas criando, na região, o Primeiro Império Babilônico. Coube a Hamurabi criar os primeiros códigos escritos de leis de que se tem notícia com cujos recursos conseguiu governar povos tão diferentes como os sumérios, acádios, assírios e mesmo os hebreus que se tornaram escravos na Babilônia.

O Código defendia basicamente a vida e o direito de propriedade; mas também contemplava a honra, a dignidade e a família.

A prosperidade econômica gerada pelas conquistas ajudou a transformar a cidade da Babilônia num dos grandes centros da Antiguidade. Apesar da riqueza e do luxo desse período, ondas invasoras de hititas e cassitas, povos não tão desenvolvidos mas muito agressivos, se aproveitaram de revoltas internas e da morte de Hamurabi e conquistaram a federação de cidades conhecida como Babilônia.

Os cassitas mantiveram a cultura e as tradições babilônicas, mas transformaram o reino com uma ampla reestruturação administrativa. A dinastia cassita governou até cerca de 1430 a.C. e seu domínio foi marcado por uma significativa produção de textos. Após o período da dinastia cassita, a Babilônia perdeu sua influência política, ao mesmo tempo que o poderio dos assírios crescia consideravelmente.

Os assírios eram um povo semita que existia no norte da Mesopotâmia. O seu império alcançou o auge nos anos 800 a.C. e 700 a.C., esta foi a era neo-assíria, construída sobre as bases do Império Médio Assírio (1350-1000 a.C.) com muitos recursos e grande riqueza. Eram famosos como guerreiros ferozes, capazes de inovadoras proezas militares. Graças a isso conseguiram expandir o seu território. Possuíam um exército que era a mistura de carros, cavalaria e infantaria e usavam já armas de ferro. O seu exército incluía soldados profissionais, incluindo mercenários estrangeiros mandados pelo rei, e eram pagos com as receitas dos impostos locais.

Os assírios usavam horríveis métodos, como a execução em massa, empalação, etc, contra os que se lhes opunham. Patrocinaram também grandes migrações em massa oferecendo terras e assistência. Assim o centro do império tornou-se muito multicultural.

Eles eram uma monarquia, e estavam divididos em províncias governadas por gente nomeada pelo rei. A maioria da população oferecia ao senhor local serviços e bens em troca de proteção. Havia também um bom sistema de vias de comunicação, que incluíam um sistema de estradas que o futuro império persa também teria.

O seu império incluía o sudeste da Anatólia, a Fenícia, Israel, Babilónia, e obviamente a Assíria e algumas partes do Irã. O império, após divisões internas, foi derrotado pelos babilônicos e medos (caldeus), que conquistaram a cidade de Assur, sua capital em 614 a.C.

Os caldeus também são chamados de: "o segundo Império Babilônio". Após a derrota assíria, a Babilônia voltou a ser a cidade mais importante da Mesopotâmia, tendo Nabucodonosor como imperador. Durante seu reinado de 604 a 562 a.C. muitos monumentos conhecidos na posteridade, como os Jardins Suspensos e a Torre de Babel, foram erguidos nesta época.

No entanto, uma revolta no Reino de Judá, acabou pelo ataque a Jerusalém, pela destruição do templo judeu e pelo cativeiro dos judeus, como mencionado no Antigo Testamento.

Com a morte do imperador e as lutas internas pelo poder enfraqueceram Babilônia e a mesma acabou ocupada pelos persas em 539 a.C., o mesmo regime que nos deu Cleópatra e que foi conquistado pelos romanos.