terça-feira, 26 de agosto de 2014

1525-Conhecimento condicionado


O que era o feudo

Ao longo de todo processo de desagregação do Império Romano do Ocidente, que durou cerca de duzentos anos, as cidades se despovoaram, enquanto o comércio e a produção artesanal entraram em declínio. Sem dinheiro para manter as fronteiras, o imperador não conseguia garantir a integridade do território. Para se proteger, a população abandonava as cidades, principais alvos dos povos invasores e se refugiavam nas zonas rurais.

Ao mesmo tempo, com o fim das guerras de expansão do Império, a mão-de-obra escrava, base da economia romana, praticamente desaparecera. Com isso, as grandes propriedades rurais escravistas – os latifúndios – perderam importância.

No lugar dos latifúndios, começaram a surgir as vilas (hoje são chamadas de agrovilas, onde quase tudo se concentra em apoio aos seus moradores), grandes propriedades rurais que tinham por objetivo a auto-suficiência, tendo em vista que o fluxo comercial diminuiu com as invasões. Nas vilas, a mão-de-obra principal passou a ser dos colonos, trabalhadores que entregavam parte do que produziam ao senhor da terra, em troca da permissão para uso da terra desse senhor. Com o passar do tempo, os pequenos agricultores também entregariam suas terras aos grandes proprietários em troca de proteção.

Essas vilas e as relações nelas estabelecidas contribuíram para a formação dos feudos, unidade básica de todo o sistema feudal. Nascia assim, também, os chamados burgos, mais tarde condados.

Feudo também era em benefício, muitas vezes, de uma área territorial, que o senhor doava a um nobre. Aquele que recebia a doação era chamado de suserano ou senhor, enquanto o que doava passava a ser chamado de vassalo.

O vassalo não era proprietário do feudo - ele podia apenas usufruir desse bem. Portanto, ele estava proibido de fazer qualquer negociação que envolvesse a venda da terra. A partir do século IX, o feudo tornou-se um bem hereditário. Ao receber a doação, o vassalo tornava-se senhor das terras que recebia podendo transmiti-la ao primogênito varão. Ele então podia doar parte dessas terras a outro homem e, assim, tornar-se também um suserano ou senhor. Os demais filhos além do primogênito nenhum direito tinham sobre a terra e em geral partiam para outras profissões como a religiosa e a militar, reforçando o que viria a ser, mais tarde, a poderosa burocracia a ser susustentada pelos trabalhos de agricultores e artesãos.

A intensificação das invasões germânicas na Europa ocidental trouxe mudanças e acrescentou novos elementos à sociedade que se formava. Os povos germânicos trouxeram consigo certos costumes que se incorporaram à sociedade nascente, com um padrão de justiça baseado na tradição (consuetudinãrio), e noções de honra e lealdade, que fundamentavam as relações entre o chefe guerreiro e seus comandados.

Prática comum entre os germânicos, o ato de conceder terras como recompensa aos homens que se destacavam nos combates foi consolidada nesse período. Assim, à medida que avançavam e se instalavam no território romano, os guerreiros tornavam-se senhores de terras. A união entre eles e seus comandantes baseava-se apenas na lealdade e na palavra. Assim, os novos senhores da terra passavam a ser praticamente independentes dentro de seus domínios, que agregavam germânicos e romanos. Com o tempo, eles se transformariam em senhores feudais, e a administração fortemente centralizada trazida do Império Romano daria lugar a um poder descentralizado, tendo a Igreja de Roma como referência organizacional.

A Igreja Católica representou papel fundamental na formação e consolidação do feudalismo. Era a maior e a mais poderosa instituição do período. Sua influência alastrou-se aos poucos entre os povos romanos e germânicos, transformando-a no principal elo de toda a população e garantindo certa uniformidade cultural (tendo por base a lingua latina) na Europa ocidental.

No século IX, não existia na Europa ocidental quem não acreditasse em Deus. Controlando a fé, a Igreja normatizava os costumes, a produção cultural, o comportamento e, sobretudo, a ordem social. Aqueles que se desviavam de suas normas eram rigorosamente punidos. Sua influência também se fazia sentir na política, ao sagrar reis e legitimar o poder dos senhores feudais.

A Igreja se transformaria também na maior proprietária de terras da Europa ocidental, em um período em que a terra era a principal fonte de poder e de riqueza.

A nova organização social que despontava na Europa após a desagregação do Império Romano – o feudalismo – só assumiu sua forma mais acabada por volta dos séculos VIII e IX. Nessa época, outra onda de invasões, desta vez empreendidas pelos povos árabes, húngaros, eslavos e normandos (ou vikings), isolou a Europa ocidental do Oriente. O clima de insegurança e isolamento criado pela nova onda de invasões dificultava a circulação de pessoas, debilitando ainda mais as atividades comerciais e a força das cidades.

O poder político se transferiu para os grandes proprietários de terras, os senhores feudais, a quem a população recorria para pedir proteção.

Como vimos, a partir do século III, o Império Romano conheceu um longo processo de desestruturação e um dos principais fatores desta foi a grande extensão das suas fronteiras. Expandiu demais e não havia como controlar tudo. Deixou, no seu lugar, um poderoso sistema de proteção em troca de favorecimentos, o que hoje se conhece por clientelismo ou paternalismo.

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