terça-feira, 2 de setembro de 2014

1532-Conhecimento condicionado


Uma estupidez de fé chamada Cruzadas

Nós já abordamos o tema Cruzadas aqui neste blog, mas ele retorna como parte de um contexto maior nesta série que aborda a contaminação do conhecimento humano.

No século XI, grande parte dos domínios árabes, incluindo a Terra Santa – como Jerusalém ficou conhecida, incluindo outros lugares por onde Jesus passara, vivera e pregara sua doutrina -, caiu em poder dos turcos seljúcidas, um povo vindo do Oriente, que se convertera ao Islã e estava criando dificuldades para que os cristãos tivessem acesso a estes lugares, mais ainda porque o milênio estava se fechando e havia a promessa da Igreja europeia da volta do messias.

Vamos ao raciocínio racional para entender onde entra o fanatismo e a estupidez: a própria Igreja divulgara que Jesus subira aos céus na posse do próprio corpo; portanto, o Santo Sepulcro – maior alvo das peregrinações cristãs – nada mais poderia ser que um túmulo vazio. De duas, uma: ou ele não subira aos céus em carne e osso ou seu corpo não poderia ali estar sepultado. O que valeu? A guerra pela posse daquele espaço geográfico com uma dose de ódio e intolerância que faz sombra para os fatos de 2014 no norte do Iraque, onde xiitas executam sem piedade os curdos que não professam a religião muçulmana e dão causa possível a mais uma guerra que tem tudo para chamar-se (novamente) santa.

Diferentemente dos árabes, que nunca haviam se oposto às peregrinações dos cristãos à Terra Santa, os turcos seljúcidas as proibiram.

Diante disso, o papa Urbano II, falando aos nobres reunidos em Clermont-Ferrand, na França, em 1095, fez-lhes um apelo pela libertação da Terra Santa. Por trás da exortação estava o interesse da Igreja em aumentar seu prestígio e expandir seu domínio sobre os territórios controlados por muçulmanos.

A adesão dos nobres ao apelo do papa foi quase imediata. Para eles, as expedições à Terra Santa foram vistas como uma forma de conquistar terras, prestígio e riquezas no Oriente. Afinal, muitos estavam empobrecidos por causa do direito de primogenitura, como já abordamos em postagens anteriores. Busch (EUA) fizera o mesmo contra o Iraque por conta do interesse petrolífero.

Assim, no ano seguinte, tiveram início as Cruzadas. Costurando cruzes em tecido vermelho sobre suas roupas (daí o nome), nobres, camponeses, pobres, mendigos e até mesmo crianças partiram da Europa em grandes expedições militares com objetivo de conquistar a Terra Santa, tomando-a dos muçulmanos.

A primeira Cruzada conseguiu conquistar Jerusalém após três anos de lutas. A vitória permitiu a criação de alguns Estados cristãos na Palestina, nos quais as terras foram distribuídas nos mesmos modelos da Europa feudal. Pouco tempo depois, entretanto a Terra Santa foi novamente tomada pelos muçulmanos. E a resposta foi outra expedição cruzada.

Fizeram-se outras sete Cruzadas, a última das quais já em 1270. Veja que essa estupidez vigorou por 175 anos e custou tantas vidas que nem mesmo a Igreja tem coragem de falar dos seus números. Mas, a besteira servia a alguns interesses: expandia territórios, trazia a fortuna das conquistas e eliminava pessoas descartáveis para a economia da Europa. Tudo em nome da fé, segundo anunciado, com as “bênçãos” de Jesus.

Todas as Cruzadas fracassaram, mesmo aquela que de inicio vitoriou-se. Apesar disso, como consequência delas, o Mediterrâneo foi reaberto à navegação europeia e os contatos culturais e comerciais entre o Ocidente e o Oriente foram restabelecidos.

Hoje, a História justifica aquele absurdo como contribuição para aumentar a circulação de pessoas e de riquezas na Europa. Se diz que por meio das Cruzadas o comércio se fortaleceu e acabou estimulando o povoamento das cidades.

Aliás, a atual pobreza e atraso da África também se explica na mesma cartilha: a Europa exauriu o povo e as riquezas da região sem assumir os destinos daquele povo. A Amazônia também está nessa rota pelos mesmos motivos. Mata a vaca de tanto que é exigido dela. Ou então derruba-se a árvore para colher os seus frutos.

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