sexta-feira, 5 de setembro de 2014

1535-Conhecimento condicionado


O capitalismo filho do feudalismo e pai da universidade

O renascimento comercial, urbano e cultural ocorrido a partir do século XI, introduziu muitas novidades na organização da sociedade feudal. Surgiram diferentes grupos sociais, tais como a burguesia e os trabalhadores assalariados.

Criaram-se novas formas de enriquecimento por meio do crescimento das atividades bancárias e do comércio de mercadorias. Ganhou importância o comércio em grande escala e de média e longa distância e a produção para o mercado nascente. Era o embrião da Idade Industrial.

Essas novidades indicavam o aparecimento de um novo sistema econômico: o capitalismo. Aos poucos, o sistema capitalista acabaria por substituir inteiramente o feudalismo, mesmo sem jogar fora alguns vícios herdados, tornando-se dominante no séculos seguintes e parceiro de uma grande crise vivida pela Europa com o surgimento da máquina.

A crise do século XIV foi a dissolução do feudalismo apressada no final da Idade Média por uma sucessão de acontecimentos que geraram a chamada Crise do século XIV com desdobramentos nos séculos seguintes.

A produção de alimentos sempre fora deficiente no sistema feudal, de modo que a fome era uma ameaça constante. Entre 1315 e 1317, a situação se agravou e provocou surtos de fome em vários lugares da Europa. É fácil de entender: os feudos tinham como objetivo a agricultura de subsistência, isto é, alimentar aqueles que atuavam sobre a propriedade e o modelo vinha se transformando com o nascimento das cidades maiores, que demandavam alimentos. A agricultura foi a última das atividades a se lançar no mercado. Não havia excedentes.

A falta de estrutura das cidades para suportar o aumento populacional, associada ao problema da fome e do saneamento, acabou desencadeando uma série de epidemias. A pior de todas foi a chamada “peste negra”, que assolou a Europa entre 1348 e 1350 e matou cerca de um terço de toda a população.

Inúmeras guerras também contribuíram para aumentar a mortalidade e tornar a situação na Europa ainda mais difícil. A maior delas foi, sem dúvida, a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), travada entre as monarquias feudais da Inglaterra e da França.

Sob a ação dos três flagelos do século XIV – a fome, a peste e a guerra – a população diminuía e a mão-de-obra se tornava cada vez mais escassa. Isso levou os senhores feudais a aumentar a exploração sobre os camponeses.

Em consequência, houve inúmeras revoltas, nas quais os camponeses rebelados queimavam propriedades e assassinavam senhores feudais. Em algumas cidades, também se verificaram desordens e motins. O verdadeiro caos.

A crise apontava também para uma transformação na estrutura de poder descentralizada, que não conseguia gerar resposta para os problemas que surgiam. Os governos centralizados começaram então a ganhar força, pois conseguiam arbitrar os conflitos inevitáveis em uma sociedade que ganhava complexidade. Surgiram os reinados absolutistas, detentores de todo o poder sobre qualquer assunto, sem lei prévia e sem justiça.

Mas, foi assim, nesse contexto, que se deu o fortalecimento do poder dos reis e a consequente formação do estado moderno que o sucederia. Já vimos em série anterior que a evolução humana carece de trotes e choques, atrás do que vêm as transformações. A doença a nível de indivíduo também tem este poder transformador. Parece que o ser humano é obrigado a sentir fundo na carne para poder ceder em algumas de suas mais absurdas teimosias. A falta d’água que atinge em cheio os paulistanos, no Brasil, por exemplo, terá de levar aquela megalópolis a organizar-se de outra forma.

Desse modo, pode-se dizer que as transformações da Baixa Idade Média – desenvolvimento do comércio e das cidades, uso de moeda, as navegações, os descobrimentos, o aparecimento da burguesia, o fortalecimento do poder central nas mãos do rei – condenaram o feudalismo (que não era um bom regime econômico) à dissolução. A essas mudanças, que vieram com o nome de Renascimento ou Renascença, em boa parte da Europa, apontaram para o advento dos chamados tempos modernos. Dentro disso, surgiram o capitalismo e na sequência a Revolução Industrial. Mas não sem novas crises e mais estupidez. E também herdando muitos vícios dos tempos passados.

O capitalismo e a própria revolução industrial acabaram herdeiros do feudalismo e já nasceram com o vício da exploração da mão de obra do trabalhador pelo detentor da propriedade. Nova crise, nova onda de miséria e nova necessidade de acomodar os desvalidos. O espantoso impacto da doutrina de Marx, ainda hoje viva em alguns países, é desse tempo.

É assim que o Mundo Novo, recém descoberto, passa a receber os pobres da Europa, dando origem às colônias de imigrantes em Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Uruguai, Argentina.

A Universidade filha do capitalismo e da revolução industrial contribuiu de maneira brutal para que houvesse, como há, uma enorme distância entre poder econômico e força de trabalho. Some-se a isso a sua relutância em estudar o Sagrado a partir de perspectivas científicas, como ainda enfocaremos.

Somos, hoje, um povo castrado no conhecimento e sem perspectivas de democracia econômica. Mais ainda naqueles países, como o nosso, que ficou sob a tutela da Igreja, enquanto os protestantes, sob as luzes do que se chamou Iluminismo, partiram no rumo da criatividade e do desenvolvimento. A América Latina ainda olha para o palácio governamental (onde imagina haja um rei ungido) a espera do benefício, do favor, da libertação.   

Até quando?

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