segunda-feira, 8 de setembro de 2014

1538-Religiões, fanatismo e espiritualidade

 
Introdução
 
Aqui, ao dar a partida a uma nova série, vamos utilizar o que se destina à introdução para definir o que entendemos por religião, por fanatismo e por espiritualidade. Essas três palavras estarão desfilando no resgate dos mais lamentáveis fatos, dos mais estonteantes acontecimentos de nossa civilização mais recente e também das mais alvissareiras notícias de que temos conhecimento. Muito recente, mas animadoras.
 
Apesar das dezenas de opiniões existentes sobre o que é religião e religiosidade nenhuma delas tem mais profundidade que aquela cunhada pelo arcebispo sueco Nathan Söderblom (1866-1931), estudioso das religiões e dos fiéis às religiões, que indiretamente nos conduz à definição real de religião: “religiosa ou piedosa é a pessoa para quem algo é sagrado”, o que nos remete ao raciocínio de que religião é “instrumento destinado à aproximar a pessoa daquilo que para ela é sagrado”. Para que ocorra essa aproximação, Helmuth von Glasenapp (1891-1953), escritor alemão e também estudioso das religiões, diz que é “preciso que haja insight, pensamento, sentimento, intenção e ação”.
 
Aproveito para emitir, de cara, um juízo: se a religião servir para outras finalidades que não a da aproximação das pessoas com aquilo que para elas é sagrado, pode ser que a questão religiosa esteja sendo lamentável e perigosamente uma ameaça ao ser humano, como se verá na sequência desses escritos.
 
Já temos aí, por enquanto, uma definição para religião e religiosidade. E o fanatismo, o que será?  Algumas das definições que respeito nos dizem ser o estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema, historicamente associado a motivações de natureza religiosa ou política. É extremamente frequente em paranoides, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se do delírio.
 
Em Psicologia, os fanáticos são descritos como indivíduos dotados das seguintes características: 1. Agressividade excessiva; 2. Preconceitos váriados; 3. Estreiteza mental; 4. Extrema credulidade quanto a um determinado "sistema"; 5. Ódio; 6. Sistema subjetivo de valores; 7. Intenso individualismo; 8. Demora excessivamente prolongada em determinada situação/circunstância; 9. Crueldade em muitos casos.
 
O apego e cultivo, mesmo quando desmesurado, por determinados gostos e práticas (como costuma ocorrer com colecionadores de selos, revistas, etc) não configura, necessariamente, fanatismo. Para tanto, faz-se preciso que a conduta da pessoa seja marcada pelo radicalismo e por absoluta intolerância para com todos os que não compartilhem suas predileções.
De um modo geral, o fanático tem uma visão-de-mundo maniqueísta, cultivando a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar, levando-o a adotar condutas irracionais e agressivas que podem, inclusive, chegar a extremos perigosos, como o recurso à violência para impor seu ponto de vista.
 
No caso ocidental, em que o progressivo abandono da realidade espiritual acelerou-nos na direção de doutrinas materialistas, que "virtualmente aprisionaram a criatura no mundo fenomênico da medida, do número e do peso, tornando a própria existência da alma humana objeto de dúvida e debate" (como reconhece espiritualmente o Papa Nicolau I, um milênio após ter passado pelo trono do Vaticano), podemos avaliar o quão distante de Deus ainda estamos. Por isso, a definição para espiritualidade, prometida no primeiro parágrafo, ficará para mais adiante para que surja no momento oportuno.
 
É, pois, pelo viés dos desvios religiosos e/ou ideológicos que chegamos ao fanatismo, irmão gêmeo da soberba, da arrogância, da exclusão e do egoísmo. Como se poderia definir o fanático se não como aquele ser que se julga inspirado ou iluminado por uma divindade e que age com extremo zelo faccioso, religioso ou ideológico, cuja maior demonstração é a exaltação, a intolerância e a ação passional e individual não dando margem a nenhuma inclusão. Nas bem-aventuranças ditadas por Jesus, quando ele diz “bem-aventurados os pobres de espíritos”, certamente os ricos de espíritos são aqueles que já não admitem aprender, incluir, reconhecer.
 
Não como definição, ainda, podemos alinhar a espiritualidade como o outro extremo do fanatismo. Abrange os temas ou assuntos de caráter espiritual e também a doutrina acerca do progresso metódico na vida espiritual, onde também cabem as questões religiosas quando bem encaminhadas. A maioria das religiões aceita a existência de Um Único Deus e conceitua o ser humano como criatura deste “pai”, o que por si só torna todos os homens “irmãos entre si”. Vou mais longe: a totalidade das religiões reconhece nessa “força-mãe” virtudes de magnanimidade, tolerância, inclusão, amor. Então, onde tem origem o mal? Esse também é um desafio para esta série.
 
Ao escolher religiões, fanatismo e espiritualidade para novo tema de uma série, neste espaço, sei do caráter explosivo do assunto, pois nele cabem as crenças, as cerimônias, as tradições, os ritos, os mitos e até as crendices. Mas, como diz o ditado, quem não arrisca não petisca, lá vou eu colocando riscos na trajetória de escriba da vida.
 
Sempre haverá quem diga que a sua religião é a única verdadeira. Já há uma forte dose de fanatismo nisso. Como também pode haver preconceito naquele que olha para a religião do outro com desprezo ou desdém.
 
Nem preconceito, nem fanatismo, nem birra, nem teimosia. É a proposta. O passado não pode ser mudado; o futuro não se sabe exatamente como virá; o presente é a colheita do que já semeamos. Então vamos fazer um pouco de semeadura pensando no futuro e um pouco de colheita buscando do passado e do presente.
 
Vamos a uma nova série? Sejam bem-vindos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário