domingo, 14 de setembro de 2014

1544-Religiões, fanatismo e espiritualidade


Ainda estamos longe de um final feliz

A história dos judeus nos tempos cristãos é constituída por uma série de migrações. Inicia-se na Palestina, ou como os judeus hoje designam de Eretz Israel (Terra Israel). Sob o domínio romano foram expulsos dali no ano de 135 d.C. e estabeleceram-se como comerciantes em países do antigo Império Romano.

Devido ao antissemitismo, fenômeno de longa data, cujas manifestações e motivos têm variado, consoante a época e o local, os judeus mantiveram-se unidos durante séculos por uma crença e uma tradição comuns.

Nos primeiros séculos depois de Cristo chegaram à Europa Central, que viria a constituir o espaço geopolítico que é a Alemanha de hoje, via Galileia. Tudo ali estava ainda sob o domínio romano. Nas margens do Reno e do Danúbio, em Mainz, Speyer, Worms, Trier, Augsburg e Regensburg existiam colônias judaicas, onde viviam comerciantes e artesãos.

Os judeus já constituíam um povo antes que os alemães tivessem começado a sê-lo. Com efeito, o espaço físico alemão era alvo de constantes invasões e perseguições. As primeiras referências que temos relativamente aos povos que habitaram o solo alemão datam de 44 a.C. e falam de um povo guerreiro a quem Júlio César e o seu historiador Tácito deram o nome de Germanos. Estes eram uma fusão de Godos, Vândalos e Bardos. O solo alemão é depois invadido pelos Romanos, Hunos, Saxões, Bávaros e Alemânicos. Só a partir do século IX é que se começa a formar o Império Alemão. Cerca do ano 900, os judeus estavam envolvidos no comércio com a Boémia. Ao contrário dos cristãos, que eram maioritariamente agricultores, os judeus viviam do comércio. Os soberanos queriam usar o comércio para engrandecer o seu poder e prometiam aos judeus proteção, em troca de altos impostos. Este "privilégio" fez dos judeus um povo dependente da vontade dos soberanos.

Na Idade Média, os judeus eram comerciantes, artesãos, médicos ou estudavam o Talmude (Bíblia). Evitavam a ordem do sistema feudal, que só admitia cristãos. Exigiam a santificação do Sabbath (sábado) e a educação dos seus filhos segundo as tradições judaicas. Os judeus eram ainda usurários (o que hoje se pode chamar de agiota). Reis e bispos protegiam a vida econômica das comunidades judaicas, pois, muitas vezes, delas dependia a sua subsistência.

A partir de final do século XI, existiam diversas judiarias na Alemanha. Situavam-se perto dos mercados ou dos burgos. Apenas no século XIV, após os terceiro e quarto concílios (1179 e 1215, respectivamente), os judeus se isolam da população. Só nesta época é que surgem as judiarias com muros e portões.

O antissemitismo chega à Alemanha, via França. No concílio de Clermont (1095) o Papa Urbano II convoca a primeira cruzada para a libertação da Terra Santa. No ano seguinte iniciam-se as cruzadas. O seu lema era "Quem matar um Judeu, obterá perdão pelos seus pecados" (Kampmann, 1979:16). Existem crônicas judaicas que relatam massacres nas zonas de Speyer, Worms, Mainz, Trier e Köln.

Por toda a Europa havia um sentimento de inveja relativamente à boa situação financeira dos Judeus. Sucedem-se os pogroms (termo russo que significa destruição) em vários países. Apenas os bispos tentam ajudar os judeus (por terem interesses econômicos na existência de comunidades judaicas, como já foi referido). Era facultado o batismo aos judeus numa tentativa de evitar o seu sacrifício em massa.

A segunda cruzada (1146) não teve consequências tão trágicas para o povo judeu, sendo este, contudo, obrigado a pagar pesadas multas.

O Nürnberger Memorbuch documenta que foram perseguidas e exterminadas cento e quarenta e seis comunidades judaicas.

Os judeus eram ainda considerados responsáveis pelas epidemias que grassavam na época. Em 1348/49, a Peste Negra chega ao Sul da Alemanha, via Suíça, proveniente do Sul de França. Os judeus foram acusados de terem envenenado um poço de onde cristãos retiravam a água que bebiam. Na verdade, por serem mais higiênicos em seus hábitos escapavam da epidemia.

A população manifesta-se fanaticamente contra os judeus, sendo muitos queimados nas suas casas. Cemitérios são profanados e os judeus não têm qualquer proteção.

No decorrer dos séculos XV e XVI, as comunidades judaicas são expulsas de todas as grandes cidades do Império Alemão. Em alguns casos era-lhes permitido permanecer na cidade pagando imposto (quando interessava ao Estado). Alguns soberanos reconheceram que a capacidade intelectual dos judeus podia ser aproveitada para melhorar a economia. Deste modo, as famílias mais abastadas foram autorizadas a ficar nas grandes cidades. A maior parte, porém, não o conseguiu.

Às portas das cidades os judeus eram contados como gado. As leis vigentes eram bastante restritivas e dificultavam o seu relacionamento com os cristãos. Os judeus tinham que se fazer reconhecer através de um sinal amarelo no casaco ("Judenfleck"), no caso dos homens; as mulheres eram obrigadas a usar um véu com riscas azuis. Os judeus aceitam estes ataques passivamente, isolando-se gradualmente.

Martinho Lutero condenou o antissemitismo numa primeira fase. Em 1523, escreve um panfleto afirmando que Jesus Cristo havia nascido judeu, censurando a Igreja pelo seu comportamento antissemita. Com esta atitude, esperava a conversão dos judeus. Como estes recusaram, Lutero ataca-os produzindo diversos escritos antissemitas, como "Wider die Sabbater" [Contra os defensores do Sabbath] (1538) e "Von den Juden und ihren Lügen" [Sobre os Judeus e as suas Mentiras] (1543), onde incitava os cristãos a queimar sinagogas e a destruir as casas pertencentes às comunidades judaicas.

No entanto, a Reforma de Martinho Lutero acaba por ter um desenvolvimento positivo para os judeus. Antes de Lutero, toda a Europa estava unida numa Igreja Cristã, constituindo os judeus o maior grupo religioso exterior à Igreja. Com a quebra da unidade cristã desenvolvem-se diversos grupos religiosos na Europa. Tal fato contribui para a existência de uma maior tolerância, uma vez que os vários grupos religiosos reconhecem a necessidade do pluralismo.

Além disso, inicia-se uma fase dominada pelo Humanismo, que defendia a igualdade de religiões. Antes de 1600, judeus portugueses abastados instalam-se em Hamburgo, fundando bancos e possuindo filiais no Ultramar. Estes Sefardim constituíram uma aristocracia fechada, relativamente aos Ashkenazi, e não foram expulsos da cidade como os últimos.

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