segunda-feira, 15 de setembro de 2014

1545-Religiões, fanatismo e espiritualidade


Aja espaço para tanto fanatismo e tanto preconceito

Condenados por toda uma sociedade por acreditarem serem o povo eleito de Deus e não só por isso, como veremos, num momento posterior por terem rejeitado a Jesus, os judeus foram se encolhendo nas suas relações com os demais povos. Assim nasciam os círculos fechados dentro dos quais judeu ajudava judeu.

Um detalhe muito pouco evidenciado e quase nunca discutido na trajetória do povo judeu é a sua origem: pobre, oriundo de uma nesga de terra com os mais escassos recursos naturais em contraste com sua desenvolvida inteligência. Isso, naturalmente, empurrou os emigrantes para as melhores regiões onde pudessem prosperar. A Alemanha era uma dessas regiões, como acabaram entrando neste rol os Estados Unidos, a Argentina, o Brasil. E nestes territórios adotivos, via de regra, os judeus prosperaram.

Mesmo vivendo em guetos (espécie de condomínio fechado, onde ficavam os menos favorecidos), não se conhece história de judeu miserável. O gueto de Frankfurt existiu até 1796. Em cada gueto existia um sistema de leis elaborado pelos rabis (sacerdotes). Estas leis eram baseadas nos preceitos religiosos que inclui a alteridade judaica. Sob o isolamento exterior, reforçava-se a união interior com base nas normas sociais e éticas. Uma das melhores leis sociais entre os humanos é a lei judaica que diz respeito aos judeus.

Os judeus encontravam-se regularmente na sinagoga. O estudo diário da Torah (Bíblia) era obrigatório. Todo o tempo livre dos judeus era consagrado ao estudo, tendo o rabi uma função de orientador. Entre o povo judeu houve sempre uma valorização dos estudiosos. O nível de alfabetização era bastante alto mesmo nas camadas socialmente inferiores. Este zelo a humanidade reconhece na imensidão dos prêmios Nobel ganhos por membros de sua comunidade. Apesar do seu sofrimento, os judeus mantem-se fiéis à sua fé, acreditando que as leis de Deus foram feitas para eles.

O estudo de textos hebraicos era iniciado na infância. Na sinagoga estuda-se a Lei de Deus (Torah). A sinagoga funciona ainda como ponto de encontro.

Na Europa, muitos judeus falavam iídiche [Jiddisch], uma língua baseada no alemão, no hebraico e nas línguas eslavas.

Depois de anos de isolamento, termina a Idade Média e inicia-se a "Idade Burguesa". Muitos judeus saúdam a emancipação e tentam integrar-se no seu meio. Para muitos foi a desilusão: para obter a igualdade era necessário abdicar dos seus costumes religiosos. Alguns estados recusaram-se a dar a igualdade aos judeus, embora, mais tarde, fossem obrigados a concedê-la.

O número de judeus na corte aumenta nos séculos XVII e XVIII. Cria-se uma espécie de aristocracia judaica privilegiada que influenciava com a sua riqueza. Nestas condições, a geração seguinte torna-se detentora dos grandes bancos. É paradoxal o fato de o Estado Absolutista conceder posições importantes a uma minoria de judeus, enquanto a maioria vive sob más condições. Entre 1700 e 1750 houve quatro Generalreglements (regulamento geral) para os judeus na Prússia até ao édito de emancipação, em 1812. Em 1714, um Judeu "protegido" consegue a proteção para os seus três filhos. Em 1730, o número máximo de filhos a proteger é fixado em dois. Os outros terão que migrar mal atinjam a maioridade. Os funcionários públicos não podem casar.

Estas determinações tornam-se mais restritas em 1750, com Frederico, o Grande. Nesta época, os judeus só podem proteger um filho (nas famílias abastadas, o segundo e terceiro filhos ainda podiam ser protegidos, mediante a entrega de 10 000 Taler (moeda da época). Quando, em 1763, a caixa do Estado estava esgotada, o segundo filho passa a ter um valor de 70 000 Taler. Estas leis foram bem estruturadas de modo a que o número de famílias protegidas não aumentasse.

A emancipação dos judeus inicia-se com a Revolução Francesa, sofrendo uma regressão um século e meio mais tarde, com a maior catástrofe para o povo judeu.

Na época absolutista os judeus constituíam uma minoria no Sacro Império Romano-Germânico. Estavam excluídos da produção de bens materiais, não podendo trabalhar a terra nem sendo aceitos em oficinas. No entanto, tinham algumas funções econômicas importantes no campo da agricultura e da indústria. Havia pequenos grupos de usurários, e até de penhoristas, direito que era concedido às classes mais abastadas. Com esta situação os príncipes recebiam altos impostos.

Expulsos da comunidade cristã, não só como "matadores de Cristo", mas como concorrentes à burguesia, os judeus encontravam refúgio e consolo na fé dos seus pais. A segurança da comunidade, que era obrigada a ajudar todos os seus membros a nível financeiro, e as suas tradições religiosas e culturais, constituem as causas da sua identificação como judeus. E, se os rabis eram responsáveis por criar leis da comunidade, fora do gueto eram os cristãos que ditavam os regulamentos que comandavam a vida dos judeus até à morte, estando tudo regulamentado: o número de judeus, os locais onde eram autorizados a viver, as entradas e saídas da comunidade, o número de filhos que se podiam casar, entre outros.

Em 1750, Frederico II, da Prússia, editava o "Generalreglement" para judeus, que os dividia em seis grupos e os tratava como objetos. Com efeito, apenas o primeiro grupo, composto pelos judeus mais ricos, possuía os "privilégios gerais", estando em igualdade de circunstâncias com os comerciantes cristãos. A este grupo pertencia uma minoria de judeus, estando entre eles o banqueiro Veitel Ephraim, que financiara grande parte da Guerra dos Sete Anos a Frederico II. O banqueiro teve inclusive autorização para construir um palácio em Berlim. A partir daqui, os privilégios vão diminuindo consoante as condições econômicas de cada grupo. Os "Judeus ordeiros protegidos" e os "Judeus protegidos extraordinários", que constituíam o segundo e terceiro grupos, não podiam eleger o local onde iam habitar. Este estatuto não podia ser herdado, (tal como acontecia no primeiro grupo). No caso do segundo grupo, apenas nas duas gerações seguintes poderia ser herdado, sendo que na primeira geração eram pagos 1 000 Taler e na segunda, 10 000. No terceiro grupo, este privilégio era concedido a uma única pessoa, após a sua morte. Toda a família era excluída. Pertenciam a este grupo, médicos, pintores, óticos e gravadores de cobre.

O quarto grupo compreendia os funcionários da comunidade judaica. Em Berlim eram um rabi, dois cantores, seis coveiros, três talhantes, três padeiros, um médico e dois tipógrafos. Não podiam ter qualquer tipo de comércio ou indústria, tendo este estatuto enquanto funcionários.

O grupo mais penalizado era o quinto, no qual se incluíam os filhos dos protegidos que não herdavam o estatuto dos pais. Estes não podiam ser comerciantes nem artesãos.

Finalmente, o último grupo, constituído pelo pessoal de serviço dos judeus privilegiados. Não podiam casar, e só podiam ficar na cidade enquanto os seus patrões nela permanecessem.

Trata-se, pois, de uma lei altamente discriminatória, em que apenas o grupo dos judeus com mais posses é favorecido, novamente por interesses econômicos. Não obstante, é aceito pelos judeus, passivamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário