terça-feira, 16 de setembro de 2014

1546-Religiões, fanatismo e espiritualidade


Alguns raios iluministas

Até meados do século XIX o mundo ocidental viveu dias muito obscuros proporcionados por uma cultura absurda de dominação do homem pelo homem (que não se limitava à escravidão), pois as contribuições arbitrárias exigidas, por exemplo, dos judeus na Europa, nada mais eram que instrumento de escravidão.

Com o advento do Iluminismo (Aufklãrung) que teve na Revolução Francesa o seu maior evento traumático inaugural, alguns setores sob dominação começaram a criar coragem para protestar contra esta submissão legislada. Um destes protestos surge pela voz de Gothold Ephraim Lessing (em 1749 escreve a peça Die Juden [Os Judeus]). Note que este trabalho antecedeu a Queda da Bastilha francesa. Este escritor, que estabeleceu as bases do teatro alemão, era amigo pessoal de Moses Mendelssohn, que, sendo seguidor das leis religiosas, foi influenciado pela tolerância da Aufklärung. A Idealização do Homem, como ser de iguais direitos, independentemente da sua religião, é focada por Lessing, na sua peça Nathan, der Weise (1779), com a parábola dos anéis, na qual um homem ao saber que se aproxima a hora da sua morte, e tendo apenas um anel muito valioso, manda fazer duas imitações do mesmo anel. Os três filhos não conseguem descobrir o anel verdadeiro, chegando a uma conclusão: "Der echte Ring vermutlich ging verloren" [Provavelmente, perdeu-se o anel verdadeiro].  Esta afirmação vem contradizer o diálogo havido entre Nathan e Saladino (o comandante muçulmano adversário das Cruzadas): "Nathan: "Ich bin ein Jud'" [Eu sou judeu]. Saladino: "Und ich ein Muselmann. Der Christ ist zwischen uns. - Von diesen drei Religionen kann doch eine nur die wahre sein". [E eu muçulmano. Entre nós está o cristão. E, no entanto, destas três religiões, só uma pode ser verdadeira].

Não existe uma religião verdadeira. Se existiu, ficou diluída com o passar do tempo.

O próprio enredo da peça, no qual algumas figuras recebem uma educação diferente da que teriam segundo o grupo étnico a que pertencem, mostra que não existem diferenças entre o ser humano.

Neste cenário onde a tolerância tem um papel importante, Mendelssohn vê a sua hora para libertar os judeus do seu isolamento forçado e conceder-lhes os mesmos privilégios dos burgueses. Defende a causa da emancipação judaica no seu trabalho: Jerusalem, oder über religiöse Macht und Judentum [Jerusalém ou sobre o poder religioso e o Judaísmo], em 1783. Mendelssohn torna-se a figura simbólica do pensamento iluminista, combinado com a tradição judaica, chegando a ser apelidado pela comunidade judaica de "o novo Moisés".

A Academia das Ciências Prussiana sugere a aceitação de Mendelssohn como membro, pelo seu trabalho Phaedon oder die Unsterblichkeit der Seele [Fédon ou a Imortalidade da Alma] (1767). O rei Frederico II recusa. Face a esta situação, Mendelssohn comenta: "Besser als wenn der König mich gewählt, die Akademie aber mich nicht bestätigt hatte" [Antes assim, do que se o rei me tivesse escolhido e a Academia recusado] (apud Grab 14/15).

Apesar de ser uma figura notável, Moses Mendelssohn pertencia ao grupo dos "Judeus protegidos extraordinários". Após a sua morte, em 1786, a sua família só por um Gnadenerweis foi autorizada a ficar em Berlim. Desde 1870 que essa separação entre Judeus e Cristãos não existia segundo a lei, no entanto, continuava a ser posta em prática.

Esses pequenos fragmentos retirados de dentro do verdadeiro mar de informações sobre preconceito, fanatismo e intolerância, é só uma breve amostra de como viveram os judeus na Europa, notadamente no período do III Reich, de Hitler, já mostrado em parte aqui neste blog em outra série.

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