quarta-feira, 17 de setembro de 2014

1547-Religiões, fanatismo e espiritualidade


E vem a busca da pátria judaica

No final do século XIX, Theodor Herzl crê ter descoberto a solução para o povo judeu relativamente à convivência com outros povos que não desejavam a sua integração. A tradicional passividade judaica é quebrada por Herzl, que se torna porta-voz do movimento sionista, defendendo um regresso incondicional à Palestina.

O Sionismo esteve sempre ligado a Jerusalém. Após a derrota da guerra de Bar Kochba, em 135 d.C., os judeus foram proibidos de entrar em Jerusalém. A partir daqui, há uma dispersão, embora uma pequena parte tenha permanecido na terra de Israel. Viviam nas montanhas de Hebron, na costa entre Gaza e Haifa (a localidade histórica dos Filisteus), na Galileia e nos montes da Colinas de Golan. Existiram sempre sinagogas nestas zonas. No entanto, a vida dos judeus não estava isenta de perigo, o que contradizia o Talmude: “Quem vive na terra de Israel, é como se tivesse um Deus, e quem vive fora de Israel, é como se não tivesse Deus nenhum”.

A saudade da Palestina esteve sempre na mente do povo judeu sendo tão antiga quanto a história da sua perseguição. Ainda hoje os judeus repetem todos os anos na celebração da Pesach a frase: "Para o ano, em Jerusalém".

Todo o pensamento messiânico é baseado na crença segundo a qual o Messias irá levar o seu povo a vencer sobre os inimigos e à vida eterna. Esta promessa do Messias é feita ao povo e à terra de Israel, que estão inteiramente ligados. Durante um século, a vinda do Messias foi aguardada com grande expectativa. David Reubeni previa a chegada do Messias para o ano de 1530. Schlomo Molcho, de Itália, previa a chegada para 1540. Jizchak Lurja, da Palestina, para 1564. O Rabi Josef Karo, para 1567. Em 1621, o Rabi Jesaja Horowitz, de Praga, viaja para a Terra Santa e exorta a população judaica a emigrar.

Shabbatai Zewi (1626-1676) torna-se no esperado Messias, pondo em alvoroço todo o povo judeu. Em toda a Europa, judeus esperavam pela chamada para a Palestina com as malas feitas.

Pensadores cristãos e judeus, como Baruch Spinoza, acreditavam num regresso à terra de origem: a Palestina, que deste 1517 pertencia ao Império Otomano. Os turcos aperceberam-se desta situação e prenderam Shabbatai Zewi, obrigando-o a converter-se ao islamismo. Foi este o último movimento messiânico.

Como movimento contrário, criou-se o Hassidismo, que defendia o regresso incondicional à Palestina.

A Ocidente houve uma tentativa de convencer a população judaica para a necessidade da existência de um território físico (e não apenas espiritual) por Moses Hess, com a publicação, em 1862, de Rom und Jerusalem.

Definido o antissemitismo como um fenômeno alemão, Hess defendia que os judeus tinham direito a uma pátria onde pudessem desenvolver a sua cultura e talentos, sem sofrer o antissemitismo, uma vez que, ainda que o tente, o judeu nunca será totalmente integrado. Amigo de Marx, Hess ficou conhecido como o "Rabi comunista", por esperar que o estado judaico se desenvolvesse sob o modelo socialista. As suas ideias não encontraram seguidores tendo Hess sido esquecido com a sua morte. Apesar disso, as colônias rurais de Israel estão estruturadas nos kibutzim, que são cooperativas integrais e, como tal, socialistas.

A Leste, os judeus aderiram mais rapidamente ao Sionismo. A Rússia possuía uma comunidade judaica mais representativa. Antes da migração para Ocidente, viviam nos estados do Leste cerca de cinco milhões e meio de judeus; destes, quase quatro milhões viviam na Rússia. Até à migração do século XIX, a Rússia tinha a maior percentagem de judeus do mundo (1897: 5,2 milhões).

A maior parte dos judeus vivia na Lituânia, Bielorrússia e Ucrânia, constituindo cerca de 11% da população. A maioria vivia nas grandes cidades. Mas, a Alemanha por sua riqueza e esplendor, exercia um grande fascínio. Mas era também onde os judeus eram mais mal recebidos e mais mal tratados.

Ao contrário do que sucedia no Ocidente, havia uma grande consciência de comunidade, existindo literatura (iídiche), arte e cultura judaicas na Alemanha. A Haskala, um movimento cultural judaico, com características semelhantes às da Aufklärung, tinha o objeto de pôr a cultura judaica em sintonia com a cultura ocidental. Renasce o uso do hebraico, que até aí apenas era utilizado nos serviços religiosos. A língua hebraica era entendida pelos judeus do Leste e surge nesta época uma série de textos e periódicos portadores da mensagem do novo movimento. Este sentimento foi engrandecido com a influência dos movimentos sionistas. Como a emancipação exterior lhes está vedada, inicia-se um processo de emancipação interior. Esta emancipação seguia direções diferentes: uma liberal, com tendências de assimilação; uma sionista (religiosa ou irreligiosa); uma ortodoxa, que recusava o Sionismo; uma socialista, que conseguiu lugar entre os judeus russos. Restavam apenas duas vias para os judeus russos: o Sionismo ou o Socialismo Revolucionário.

Estava a caminho, como utopia, o Estado Judeu de 1948, após a II Grande Guerra e após o Holocausto Judeu. Tentava amenizar o que para os próprios judeus era a sua realidade: um morto para os vivos; para os nativos - um estranho; para os nacionalistas - um vagabundo; para as classes abastadas - um pedinte; para todas as classes - um concorrente odioso. Mostra-se deste modo a impossibilidade da assimilação do povo judeu, uma vez que não há qualquer progresso em humanidade nem na cultura. O povo judeu não é reconhecido, o antissemitismo é uma doença mental dos povos, mascarada, por vezes, sob a forma de tolerância, que só terminará com a existência física de uma nação judaica.

Em agosto de 1897 realiza-se o primeiro congresso sionista em Basileia, uma vez que a comunidade judaica de Munique tinha recusado a cidade a Theodor Herzl, que nesse tempo é o novo porta-voz das comunidades judaicas no exterior. Estiveram presentes 197 delegados de diversos países, onde os judeus tinham representatividade. Nomeado presidente da organização sionista, Theodor Herzl dedica-se exclusivamente a pôr em prática as suas ideias expostas em Der Judenstaat, o manifesto que encaminha o Estado Judeu.  Mas, nada era fácil.

Busca-se espaços na Turquia, na Rússia, em Uganda e até na Argentina.

Mas, ficaria, mesmo, para depois da guerra, por decisão da ONU e com sede na Palestina, a terra efetivamente de origem do povo judeu. Mas, a Palestina estava ocupada por árabes e, como se sabe, os árabes são os primos opostos, oposicionistas, muito mais por razões religiosas do que políticas, mas que se somam.

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