sexta-feira, 3 de outubro de 2014

1563-Allan Kardec


 
O método Kardec de pesquisa

Kardec nasceu no início do século XIX, numa fase de aceleramento do processo cultural no mundo ocidental, quando tinham curso o Iluminismo, a Revolução Industrial e se acentuavam os descontentamentos com os regimes monárquicos e seus vícios.
Formado na cultura do século, sob a orientação de Pestalozzi, o mestre por excelência, Kardec especializou-se em Pedagogia, que podemos chamar de Ciência da Cultura, e até aos cinquenta anos de idade exerceu intensas atividades pedagógicas, tornando-se o sucessor de Pestalozzi na Europa. Não se fez padre nem pastor, mas cientista e filósofo, na despretensão e na humildade de quem não procurava elevadas posições, mas desejava aprimorar os seus conhecimentos. Adquiriu no estudo, nas atividades teóricas e na prática, o mais amplo conhecimento dos problemas culturais do seu tempo.

Vivendo em Paris, considerada então como o cérebro do mundo, impôs-se ao consenso geral como homem de elevada cultura, um intelectual por excelência. Colocado num momento crucial da evolução terrena, viu e viveu o drama cultural da época. E só aos 50 anos de idade, maduro e culto, deparou com o problema nodal do tempo e procurou solucioná-lo em termos culturais. Esse problema se resumia no seguinte: a cultura clássica, religiosa e filosófica, desabava ao impacto do desenvolvimento das ciências, sem a menor capacidade para enfrentar o realismo científico e salvar os seus próprios valores fundamentais. Havíamos caminhado por demais sobre dogmas insustentáveis e criáramos os opostos tendentes a renegar a autoria do Universo a uma inteligência.

Formado na tradição cultural do Século XVIII, herdeiro de Francis Bacon, René Descartes e Jean-Jacques Rousseau, compreendeu claramente que o problema do seu tempo repousava na questão do método. Os fenômenos espíritas verificavam-se, com intensidade, como uma espécie de reação natural aos excessos do empirismo, no bom sentido do termo, que era a aplicação do método experimental a todo o conhecimento de então. A tradição espiritual rejeitava esses excessos, mas não dispunha de armas para combatê-los. Kardec resolveu aplicar o método experimental ao estudo dos fenômenos espíritas, mesmo com as dificuldades que existiam para poder provar a existência material dos espíritos.

Logo aos primeiros resultados verificou que o nó do problema estava no seguinte: o método experimental se aplicava apenas à matéria, excluindo-se o espírito que era considerado como imaterial e portanto inverificável.

Mas se havia fenômenos espíritas era evidente que o espírito, manifestando-se na matéria, tornava-se acessível à pesquisa. Tudo dependia, pois, do método. Era necessário descobrir um método de investigação experimental dos fenômenos espíritas. Era claro que esse método não podia ser o mesmo aplicado à pesquisa dos fenômenos materiais, considerados como os únicos naturais. Mas por que os únicos? Porque as manifestações do espírito eram consideradas como sobrenaturais, regidas por leis divinas. O raciocínio capenga das filosofias e religiões entendia Deus como algo não natural e assim o excluía do contexto compreensível. Para a ciência, se não pode ser provado é porque não existe.

Já Descartes, no Século XVII, lutando contra o dogmatismo escolástico, mostrara a unidade de alma e corpo na manifestação do ser humano e advertira contra o perigo de confusão entre esses dois elementos constitutivos do homem. Kardec se sentia bem esteado na tradição metodológica e conseguiu provar que os fenômenos espíritas eram tão naturais como os fenômenos materiais. Ambos estavam na Natureza, espírito e matéria correspondiam a força e matéria, os dois elementos fundamentais de tudo quanto existe.

Daí sua conclusão, até hoje inabalada, e confirmada na época pelas manifestações dos próprios Espíritos que o assistiam: a Ciência do Espírito correspondia às exigências da época. Mas era necessário desenvolvê-la segundo a orientação metodológica da Ciência da Matéria, pois essa orientação provara a sua eficiência. A questão era simples: na investigação dos problemas espirituais o método dedutivo teria de ser substituído pelo método indutivo, diferentemente, pois, do que fazia a pesquisa da época. Mas essa questão se tornava complexa porque a tradição religiosa, cristalizada nos dogmas das igrejas, repelia como herética e profanadora a aplicação da pesquisa científica aos problemas espirituais. Até mesmo no seio dos espiritualistas desavisados isso era visto com reservas.


Mas, o nosso paladino foi em frente nem só por sua própria decisão, mas ancorado, também, nos seus mentores espirituais. Se você, leitor(a), tiver a paciência de examinar as intervenções sapiensais registradas, por exemplo, no Evangelho Segundo o Espiritismo, verá que foram muitos os luminares do conhecimento que ali aparecem contribuindo desde as esferas celestes.

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