sábado, 4 de outubro de 2014

1564-Allan Kardec


O paralelo de Baruch Spinoza

Dois séculos antes de Kardec, Spinoza defendeu que Deus e Natureza eram dois nomes para uma mesma realidade, a saber, a única substância de que consiste o universo e do qual todas as entidades menores se constituem em modalidades ou modificações, não podem ser separadas. Ele afirmou que Deus ou Natureza era um ser de infinitos atributos, entre os quais a extensão (sob o conceito atual de memória) e o pensamento eram apenas dois conhecidos por nós.
A sua visão da natureza da realidade, então, fez tratar os mundos físicos e mentais como dois mundos diferentes ou submundos paralelos que nem se sobrepõem nem interagem mas coexistem em uma coisa só que é a substância universal. Esta formulação é uma solução muitas vezes considerada um tipo de panteísmo e de monismo, porém não por Spinoza, que era um racionalista. Por Extensão se teria um acompanhamento intelectual do Universo, como define ele em seu conceito de "Amor Intelectual de Deus".

Spinoza também propunha uma espécie de determinismo, segundo o qual absolutamente tudo o que acontece ocorre através da operação da necessidade, e nunca da teleologia. Para ele, até mesmo o comportamento humano seria totalmente determinado, sendo então a liberdade a nossa capacidade de saber que somos determinados e compreender por que agimos como agimos. Deste modo, a liberdade para Spinoza não é a possibilidade de dizer "não" àquilo que nos acontece, mas sim a possibilidade de dizer "sim" e compreender completamente por que as coisas deverão acontecer de determinada maneira.

A filosofia de Spinoza tem muito em comum com o estoicismo (grego), mas difere muito dos estoicos num aspecto importante: ele rejeitou fortemente a afirmação de que a razão pode dominar a emoção. Pelo contrário, defendeu que uma emoção pode ser ultrapassada apenas por uma emoção maior. A distinção crucial era, para ele, entre as emoções ativas e passivas, sendo as primeiras aquelas que são compreendidas racionalmente e as outras as que não o são.

Para Spinoza, a substância não possui causa fora de si, ela é causa de si mesma, ou seja, uma causa sui (e quando ele se refere a sui está sugerindo sui-generis). Ela é singular a ponto de não pode ser concebida por outra coisa que não ela mesma. Por ser causa de si, a substância é totalmente independente, livre de qualquer outra coisa, pois sua existência basta-se em si mesma. Ou seja, a substância, para que o entendimento possa formar seu conceito, não precisa do conceito de outra coisa. A substância é absolutamente infinita, pois se não o fosse, precisaria ser limitada por outra substância da mesma natureza.

Sem ter ido além ou porque não alcançou o estágio posterior ou ainda não podia ser objeto (naquele momento) de especulação pela mente humana, Spinoza traçou os indicativos da busca espiritual ao definir Deus.

Pela proposição VI da Parte I da Ética, ele afirma: "Uma substância não pode ser produzida por outra substância", portanto, não existe nada que limite a substância, sendo ela, então, infinita. Da mesma forma, a substância é indivisível, pois, do contrário, ao ser dividida ela, ou conservaria a natureza da substância primeira, ou não. Se conservasse, então uma substância formaria outra, o que é impossível de acordo com a proposição VI; se não conservasse, então a substância primeira perderia sua natureza, logo, deixaria de existir, o que é impossível pela proposição 7, a saber: "à natureza de uma substância pertence o existir". Assim, a substância é indivisível. Falava de Deus e do Espírito.

Assim, sendo da natureza da substância absolutamente infinita existir e não podendo ser dividida, ela é única, ou seja, só há uma única substância absolutamente infinita ou Deus.

Apesar de ser denominado Deus, a substância de Spinoza é radicalmente diferente do Deus judaico-cristão, pois não tem vontade ou finalidade já que a substância não pode ser sem existir (se pudesse ser sem existir, haveria uma divisão e a substância seria limitada por outra, o que, para Spinoza, é absurdo, como foi explicado no parágrafo anterior). Consequentemente, o Deus de Spinoza não é alvo de preces e menos ainda exigiria uma nova religião. Duzentos anos mais tarde Allan Kardec viria definir o que o espiritismo entende por Deus e o que é Deus, numa proximidade incrível com as concepções de Spinoza.

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