segunda-feira, 27 de outubro de 2014

1585-O Espiritismo no Brasil


Entidades, lideranças, autoridades

Na velha capital, a primeira instituição espírita a ser fundada foi a Sociedade de Estudos Espiríticos – Grupo Confúcio, em 1873. Conforme previsto em seus estatutos, devia seguir os princípios e as formalidades expostos em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. As suas atividades incluíam ainda o receituário gratuito de homeopatia e a aplicação de passes magnéticos aos necessitados. A sua maior virtude, entretanto, foi a de promover a tradução das obras básicas de Kardec para a língua portuguesa.

A reação na imprensa da época expressa-se, por exemplo, num comentário veiculado nas páginas do Jornal do Commercio, acusando o Espiritismo de fabricar "loucos" e pedindo a interferência da polícia. Concluía: "É uma epidemia mais perigosa que a febre amarela..." (Jornal do Commercio, 13 de dezembro de 1874).

Em 1875, o Grupo Confúcio lançou o segundo periódico espírita do País (primeiro do Rio de Janeiro), a “Revista Espírita”, dirigida por Antônio da Silva Neto. A este grupo estiveram ligados nomes expressivos como o de Joaquim Carlos Travassos que, ainda em 1875, apresentou a primeira tradução de "O Livro dos Espíritos" para a língua portuguesa ao médico Bezerra de Menezes.

O Grupo extinguiu-se em 1876, dando lugar à Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, sob a direção de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio. No seu programa doutrinário, em que a obra codificada por Allan Kardec era parte essencial, compreendia o estudo da obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing.

Mas, as pessoas pensam, decidem, teimam, se desentendem. Foi o que aconteceu ali. Divergências ideológicas entre os que preconizavam um espiritismo “científico” e outros que sustentavam um espiritismo "místico", conduziriam a dissidências na Sociedade de Estudos. Inicialmente, em 1877, um grupo se separou para constituir a Congregação Espírita Anjo Ismael (20 de maio)). No ano seguinte, outro grupo constituiu o Grupo Espírita Caridade (8 de junho). Ambos tiveram efêmera duração, tendo desaparecido já em 1979, como se a espiritualidade estivesse a avisar “não é por aí”. Nesse mesmo ano, a Sociedade de Estudos deu lugar à Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade (3 de outubro de 1879), atendendo à orientação do grupo "cientificista", contrário ao caráter apenas religioso da doutrina. Em consequência, um último grupo, sob a liderança do médium João Gonçalves do Nascimento, de acordo com a tradição, sob a inspiração do próprio espírito Ismael, constituiu uma nova agremiação que se denominou Grupo Espírita Fraternidade (1880). Mais tarde o grupo veio a chamar-se "Grupo Ismael", vindo a integrar-se à Federação Espírita Brasileira, que existe até aos nossos dias.

Também em 1880, Augusto Elias da Silva, futuro fundador do Reformador (jornal) e da Federação Espírita Brasileira (FEB), funda a União dos Espíritas do Brasil, que passa a presidir.

Sobre esse conturbado momento, referiu o pesquisador Pedro Richard:

"Por essa época ocorreu um fato bem significativo: os espíritas, ou por discordância de ideias, ou por criminosa pretensão, criaram considerável número de grupos, cujos membros, em sua maioria, desconheciam os preceitos mais rudimentares da doutrina. Qualquer espírita formava um grupo só para satisfazer a vaidade pessoal de dar-lhe por título um nome que ele venerava. De grupos produtivos apenas se contavam alguns, em número por demais reduzido".

No ano seguinte (1881), como um desdobramento do "Grupo Fraternidade" foi fundado o Grupo Espírita Humildade e Fraternidade, com apoio de Francisco Raimundo Ewerton Quadros, que viria a ser, anos mais tarde, um dos fundadores da FEB e seu primeiro presidente (7 de junho). O ano foi marcado, entretanto, pelo início da perseguição oficial ao Espiritismo (28 de agosto). Os periódicos cariocas O Cruzeiro e Jornal do Commercio anunciaram em suas páginas, em furo de reportagem, a ordem policial que proibiu o funcionamento da "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade" e dos centros que lhe eram filiados, tornando passíveis de sanções penais os espíritas que contrariassem as disposições policiais. Nesse mesmo dia, a Sociedade reuniu-se em sessão extraordinária a fim de tomar providências defensivas caso a referida notícia fosse confirmada. Ainda nesse mesmo dia a Diretoria da Sociedade Acadêmica compareceu perante o Ministro da Justiça, que a recebeu com muita cordialidade, declarando que deveria ter havido algum equívoco e que não consentiria na perseguição a ninguém.

Entretanto, no dia 30 de agosto, um Oficial de Justiça apresentou à Sociedade Acadêmica a contrafé do mandado de intimação do 2º Delegado de Polícia do Município da Corte, mandado que suspendia e vedava as reuniões da dita Sociedade, alegando que ela não se achava legalmente constituída. De imediato, a Diretoria da Sociedade Acadêmica expediu ofícios ao Chefe de Polícia e ao Ministro da Justiça, Conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas, demonstrando a arbitrariedade daquela medida. Uma comissão, da qual faziam parte o Dr. Antônio Pinheiro Guedes, Carlos Joaquim de Lima e Cirne e o Dr. Joaquim Carlos Travassos, entrou em contato com o Chefe de Polícia, que, apesar de tê-los recebido com amabilidade, nada resolveu, dando a entender que a ordem vinha de autoridade superior. E vinha, como veremos.

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